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terça-feira, 31 de março de 2026

ABAIXO O GOLPISMO HOJE E SEMPRE * Frente Revolucionária dos Trabalhadores / FRT

ABAIXO O GOLPISMO HOJE E SEMPRE
"COMEÇA O GOLPE MILITAR
(Ernesto Germano Parés)
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No início da década de 1950, a UDN, coligação de extrema direita e envolvida com grandes empresários nacionais e internacionais, temia a vitória de Getúlio em sua volta ao governo. Na época vivíamos a disputa entre dois projetos: um desenvolvimento nacionalista, com fortalecimento da economia interna e do poder de compra dos trabalhadores, ou uma economia voltada para a associação com os grandes capitais internacionais.
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Carlos Lacerda, dono do jornal Tribuna da Imprensa (uma espécie de Globo da época) era o grande representante dessa direita e, em seu jornal, ele conclamou os militares a não permitirem que Getúlio Vargas concorresse ou tomasse posse: “O Sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.
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Mas Vargas foi eleito e tomou posse. No dia 24 de agosto de 1954, sabendo da sanha dos golpistas, Getúlio Vargas comete o suicídio. A reação popular foi imediata. No dia seguinte, 25 de agosto, o povo incendiou a gráfica de O Globo e invadiu a Folha de São Paulo. Caminhões que sairiam para distribuir os jornais foram virados e incendiados. Carlos Lacerda, o covarde de sempre, fugiu do país com medo de ser pego pelos trabalhadores. O “golpe” foi adiado para nova data.
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Depois de uma conturbada fase, o Brasil volta à normalidade e Juscelino Kubitschek é eleito, tomando posse em janeiro de 1956. Menos de dois meses depois da sua chegada à presidência, na noite de 10 de fevereiro de 1956, oficiais da Aeronáutica (sempre um foco da ultradireita no país), liderados pelo major Haroldo Veloso e pelo capitão José Chaves Lameirão, partiram do Campo dos Afonsos (RJ) para instalar um golpe contra o governo na base aérea de Jacareacanga, no sul do Pará. A “rebelião” foi sufocada 19 dias depois e todos os “revoltosos” receberam “anistia ampla e irrestrita do governo”.
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No dia 2 de dezembro de 1959 vamos viver a nova tentativa de golpe dessa mesma direita. A Revolta de Aragarças teve início no dia 2 de dezembro de 1959, mas já vinha sendo articulada desde 1957. Curiosamente, teve a participação do líder da revolta de Jacareacanga, Haroldo Veloso, e contou com a participação de muitos outros militares, entre eles o tenente-coronel João Paulo Moreira Burnier, que foi o seu principal líder e depois foi figura de destaque no golpe de 1964.
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Ainda para conversar sobre a “preparação” do golpe, vamos lembrar outro fato, esse ocorrido em fevereiro de 1954, quando oficiais das Forças Armadas divulgam um documento que ficou conhecido como o “Manifesto dos Coronéis” e se colocavam contrários ao aumento de 100% no salário mínimo que foi proposto por João Goulart (na época ministro do Trabalho). Acreditem ou não, o tal documento estava assinado por muitos dos que, 10 anos mais tarde, foram os protagonistas do golpe: Siseno Sarmento, Jurandir Bizarria Mamede, Antonio Carlos Murici, Amaury Kruel, Sylvio Coelho Frota, Ednardo Dávila Melo e Golbery do Couto e Silva.
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Para o movimento dos trabalhadores, um marco foi o Congresso Sindical ocorrido em dezembro de 1961 quando os sindicalistas mais afinados com a esquerda, muitos membros do PCB, e com as propostas nacionalistas conseguem desbancar a velha direção da CNTI (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria). Na época, a CNTI controlava nada menos do que 4 milhões de trabalhadores!
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No dia 07 de outubro de 1963, os trabalhadores da USIMINAS (que ainda era uma empresa multinacional) param reivindicando aumento salarial, melhores condições de alojamentos e mudanças no quadro de vigilância interna da empresa. Dos 30.000 trabalhadores ligados às atividades da siderúrgica apenas 6.000 eram registrados, os demais eram vinculados a empreiteiras (falaremos mais sobre isso na data – “O massacre de Ipatinga”).
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No dia 13 de março de 1964 João Goulart convoca o Comício da Central do Brasil. No palanque, diante de milhares de trabalhadores e populares, estavam Miguel Arraes, Leonel Brizola e muitos líderes da CGT. Naquele dia ele anunciou a nacionalização das refinarias privadas de petróleo e a desapropriação de uma faixa de terra de 10 quilômetros à beira das estradas de ferro ou de rodagem (também dos açudes) para a Reforma Agrária. Já falamos sobre um dos reflexos desse discurso quando tratamos da “Marcha da Família”!
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Dias depois do discurso na Central acontece o que pode ter sido “a gota d’água” para os militares que ainda se mantinham legalistas. No Rio de Janeiro, dia 25 de março, cerca de 2 mil marinheiros se reúnem na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro para comemorar o segundo aniversário da fundação da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil. O ato contou com a presença de sindicalistas, líderes estudantis, de Leonel Brizola e do marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata de 1910. Só para registrar, a Marinha considerava a entidade ilegal.
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O ministro Silvio Mota enviou um contingente de fuzileiros navais do Batalhão da Ilha das Cobras para “acabar com a indisciplina e prender a marujada”. Mas teve uma grande surpresa: os fuzileiros arriaram os seus fuzis e se aliaram aos marinheiros no interior do prédio. Contei essa história recentemente (27/03). O movimento só foi vencido quando o Exército cercou o prédio com tanques de guerra e tropas do Batalhão de Guardas.
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O governo do EUA havia inaugurado, com a eleição de John F. Kennedy (1961), uma nova estratégia de combate ao socialismo. Novas verbas governamentais são liberadas para renovação do arsenal nuclear e a política internacional é de conceder maior participação aos países aliados nas decisões estadunidenses. Por outro lado, autoriza uma intervenção direta contra o recém-criado governo socialista de Cuba ao sustentar uma tentativa de invasão na Baía dos Porcos por alguns exilados cubanos apoiados por soldados mercenários contratados pela CIA, em abril de 1961. Depois de derrotado, quando milícias populares cubanas “botaram para correr” os bem treinados marines, Kennedy declara o embargo comercial à Cuba com um bloqueio naval. Em janeiro de 1962, convence a Assembleia da OEA a expulsar Cuba de seu quadro.
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Entre os políticos brasileiros esta proposta tinha como defensores o prof. Eugênio Gudin, o economista Roberto Campos, o jornalista Júlio de Mesquita e muitos políticos abrigados na UDN. Entre os militares, uma jovem oficialidade criada no período posterior a II Guerra e que se formara dentro de uma nova mentalidade nas Forças Armadas.
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Já em 1963, as atitudes do Governo dos EUA haviam mudado. Nenhum novo acordo econômico era assinado com o governo Goulart, enquanto vários negócios e empréstimos eram realizados diretamente com governadores estaduais que atendessem aos projetos de Aliança Para o Progresso. Estados como a Guanabara e o Rio Grande do Norte, governados pela UDN, recebiam amplo apoio financeiro para realização de programas de desenvolvimento.
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Por alguns documentos e depoimentos posteriores vamos entender que os “golpistas” esperavam que João Goulart fosse deposto pelos militares no dia 1º de maio, mas algo não saiu de acordo com os planos e, na noite do dia 30 de março, madrugada do dia 31, o general Olympio Mourão Filho colocou em movimento soldados da IV Região Militar, com sede em Juiz de Fora.
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Mourão Filho, que havia sido importante personagem no movimento integralista (fascista) da década de 1930 e um dos organizadores do famoso Plano Cohen (já falamos sobre isso) resolve antecipar o movimento.
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O fato é que no dia 1º de abril de 1964 o Rio de Janeiro, centro das atenções políticas, amanhece com o centro da cidade tomado por tropas. Tanques de guerra cercavam o prédio do antigo Ministério da Guerra e soldados fechavam todas as vias públicas para que não ocorressem protestos. A sede a União Nacional dos Estudantes, na Praia de Botafogo, foi incendiada na madrugada por grupos de direita.
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Nelson Werneck Sodré, historiador e ex-militar, escreve: “... ao contrário do que, honesta e sinceramente, acreditaram muitos do que dele participaram, ativa ou passivamente, correspondeu para as Forças Armadas não ao restabelecimento da disciplina e da hierarquia, mas, ao contrário, ao agravamento de sua subversão”. (Em História Militar do Brasil – Editora Expressão Popular, 1965)
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Como dissemos, Olympio Mourão Filho tinha sido integralista. Em sua biografia vamos ver que, muito menos motivado pela doutrina fascista e mais pelo sentimento contra o comunismo que nutria. Ele via o “comunismo” em toda parte, inclusive “infiltrado no Exército”.
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Um mês depois do golpe de 1964, entrevistado por um jornal, Mourão Filho sai com uma frase que o marca até hoje: “Em matéria de política, não entendo nada. Sou uma vaca fardada”.
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Nota: tenho um longo texto sobre o golpe militar de 1964, mas estou revisando porque, desde a década de 1990, quando o escrevi, tive novas e importantes informações.
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GOLPE MILITAR NUNCA MAIS!
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DITADURA NUNCA MAIS!
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CHEGA DE VACAS FARDADAS!
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VIVA A DEMOCRACIA!
O GOLPE MILITAR DE ABRIL

O golpe militar de 1964 leva a marca do primeiro de abril.

Foi nesta data, primeiro de abril de 1964, que os generais e coronéis deram uma punhalada pelas costas no Presidente João Goulart.
Os golpistas mudaram a data para 31 de março, pois o primeiro de abril é o dia da mentira, na tradição popular.
Os golpistas só se envergonhavam da data!
E apelidaram o golpe de revolução de 31 de março, a redentora, uma patacoada!
O comandante-em-chefe do golpe foi o embaixador dos EUA, Lincoln Gordon.
Esse embaixador Lincoln Gordon vivia dando entrevistas acusando o Presidente
João Goulart de estar levando o Brasil para o comunismo.
Uma gravíssima acusação à época, pois estávamos em plena Guerra Fria!
Gordon dividiu a conspiração em duas frentes.
A frente interna dirigida, pelo general Golbery do Couto e Silva e a externa, comandada pelo adido militar da embaixada ianque, coronel Vernon Walters.
O coronel Walters dominava o português sem qualquer sotaque.
E era amigo e companheiro de conspiração de diversos generais brasileiros. Entre eles Castelo Branco, com quem traçou a arquitetura do golpe no Brasil, a quatro mãos.
No fim da tarde de primeiro de abril, com o golpe consumado, os golpistas gritaram vitória!
Uma vitória, sem derramamento de sangue, fora conseguida, propalavam.
E até parecia.
Uma parte da esquerda pretendia conciliar e conviver pacificamente com o governo golpista.
Mas, por outro lado, havia muita indignação e o propósito de resistir ao regime militar!
A resistência começou com atos de protestos pacíficos, músicas de protesto e atos públicos com grande participação popular.
O protesto pelo assassinato do Estudante Edson Luiz e a marcha dos 100 mil foram grandes movimentos de massa contra o regime!
Na tentativa de reprimir os protestos, o governo golpista apelou para a legislação de exceção, com o Ato Institucional.
Este ato foi o primeiro e não levou número. Não existe o Ato Institucional de número 1.
Por força do Ato Institucional, dezenas de milhares de brasileiros perderam os seus empregos e cargos, e a instabilidade se fez presente. Uma tragédia!
Os intelectuais eram o alvo predileto!
Livro é coisa de comunista! Berrou a ditadura.
Editoras, livraria, e escritores passara a ser vigiados.
Professores, e estudantes, eram enquadrados em crime político!
Quem não fosse a favor da ditadura militar, era considerado inimigo, até prova em contrário.
Expulsos dos seus empregos e perseguidos pela repressão política, muitas famílias ficaram à beira do desespero!
Castelo Branco foi posto na presidência da república, por obra do embaixador Lincoln Gordon e do adido militar da embaixada coronel Vernon Walters.
E o Brasil passou ser, de fato, colônia Brazil com “Z” sem necessidade de um pacto colonial, que existira durante o mandato colonial português.
A chamada grande imprensa, todos os jornalões e redes de TVs, sem exceção, apoiaram o golpe e a ditadura militar.
E a revolta contra o regime militar não se fez esperar!
No dia 9 de maio, após uma intensa perseguição, o ex-deputado Carlos Marighella foi localizado no Cine Eski na Tijuca.
As luzes do cinema acenderam-se, e um tira do DOPS, apontando uma arma para Marighella, deu voz de prisão!
Em troca tomou um chute no revólver e a arma disparou, ferindo Marighella no peito!
Coberto de sangue Marighella enfrentou os policias na porrada!
Ali começou, de fato, a resistência à ditadura militar.
No vai e vem da ditadura, brigalhada e roubalheira, entre os que se julgavam mais revolucionários do que outros.
Resolveram trocar de ditadores: Costa e Silva substituiu Castelo Branco.
Sentindo que, com as medidas repressivas tomadas até então, não conseguiam domar a população, em 13 de dezembro de 1968 a ditadura editou o AI-5, Ato Institucional número cinco.
E a sociedade brasileira se transformou num inferno, nos porões escuros e profundos das câmaras de torturas, dos DOI-CODISs e Casas da morte!
Desta última instituição infernal, veio a público a casa da morte de Petrópolis, que não foi a única!
Conta-se cerca de meia dúzia!
O golpe sem sangue veio a se transformar na mais terrível das ditaduras que já conhecemos!
Esta é uma tentativa de se fazer um retrato sem retoque do golpe militar de 1964.

E P Calcante
Capitão de mar e guerra ref. do Corpo de Fuzileiros Navais.
Pesquisador da história militar.
Companheiras e companheiros se acharem este texto importante repassem a todos os seus contatos.
Rio de Janeiro,1de abril (primeiro de abril) de 2026
A LUTA CONTINUA, POIS É A NOSSA ÚNICA
RAZÃO DE VIVER!
GLÓRIA ETERNA A TODAS AS COMPANHEIRAS E
COMPANHEIROS QUE “CAIRAM” NA LUTA CONTRA
A DITADURA MILITAR!!"
COMO FOI O GOLPE DE 1964

sábado, 30 de julho de 2022

GREVE GERAL ENFRENTA A DITADURA! * Ernesto Germano Parés / RJ

 GREVE GERAL ENFRENTA A DITADURA!

Ernesto Germano Parés


37 anos o Brasil vivia um importante momento histórico. Em plena ditadura militar, três milhões de trabalhadores foram às ruas! A greve teve a adesão de 35 entidades sindicais e de associações de funcionários públicos. O destaque da época é que entidades da sociedade civil que hoje estão caladas diante do fascismo imposto participaram e deram apoio ao movimento: Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e outras se solidarizaram com os trabalhadores e divulgaram notas e apoio público às manifestações.
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O país tinha o general João Batista de Figueiredo como presidente e o chamado “milagre econômico” dos militares já tinha naufragado. A economia arrasada, inflação descontrolada (chegando a 100% ao ano), a crise da dívida externa e o desemprego em massa.
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Em 1981, como já relatamos e ilustramos em um texto anterior, havia sido criada a “Comissão Nacional Pró-CUT”, durante o encontro que foi conhecido como Conclat. E foi a “Comissão Pró-CUT” que conclamou os trabalhadores para a 1ª greve geral no país depois do golpe militar de 1964.
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“Foi a primeira grande luta nacional que unificou os trabalhadores, após as greves de 1978, 1979, e obteve muita repercussão, contribuindo para termos um forte movimento pelas Diretas Já, alguns meses depois. Sem dúvida, foi um marco fundamental da resistência à ditadura, que já se encontrava em forte declínio, tanto que conseguimos derrotar um dos seus decretos na votação da Câmara”, lembrou em um depoimento o ex-deputado federal José Genoíno (PT-SP).
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Atendendo às determinações do FMI, o governo aumentava os juros para conter a inflação e cortava despesas, chegando ao ponto de baixar em maio o Decreto-Lei 2.025, que extinguia todos os benefícios dos empregados das empresas estatais. A reação dos trabalhadores foi imediata. No dia 16 de junho, 35 entidades sindicais e associações de funcionários públicos aprovam o estado de greve, em protesto contra o decreto.
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Metalúrgicos, petroleiros, bancários, professores e outras categorias assumiram aquela bandeira e mostraram que os trabalhadores já não suportavam o arrocho e a violência.
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O governo recuou, mas no dia 29 de junho Figueiredo assinou um novo decreto, o 2.036, atacando diretamente os direitos dos funcionários das estatais acabou com o abono de férias, as promoções, os auxílios alimentação e transporte, o salário adicional anual e a participação nos lucros, só para citar alguns. Em todo o país o exército entra em prontidão!
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“Fora Daqui o FMI” foi o grito que explodiu com toda a força por tanto tempo represada. E a Greve Geral de 24 horas em todo o país se tornou uma realidade. Setores reformistas da esquerda não acreditavam na greve, não aconselhavam a greve, não desejavam a greve, mas tiveram que engolir também os trabalhadores nas ruas gritando que não suportavam mais.
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Importante destacar que aquela greve impactou profundamente mais 40 milhões de pessoas e foi o caminho encontrado pelo conjunto de mais de cem entidades sindicais para a luta em defesa dos direitos dos trabalhadores.
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Pouco mais de um mês depois, no dia 28 de agosto de 1983, em um Congresso de Trabalhadores era fundada a Central Única dos Trabalhadores!
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VIVA A GREVE GERAL DE 1983!
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VIVA A LUTA DA CLASSE TRABALHADORA!
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A GREVE É UM DIREITO LEGÍTIMO DOS TRABALHADORES.
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quinta-feira, 5 de maio de 2022

PRIMAVERA SINDICAL NOS EUA * Ernesto Germano Parés / RJ

PRIMAVERA SINDICAL NOS EUA
ERNESTO GERMANO PARÉS / RJ

“PRIMAVERA” SINDICAL NOS EUA? (1)
(Ernesto Germano Parés – 09 de fevereiro de 2022)

Os propagandistas da Casa Branca gostam de usar o termo “primavera” quando se trata de golpes e manifestações armadas em países que não são aliados estadunidenses. Já vimos isso muitas vezes.
Estou usando o mesmo termo para responder a uma questão levantada por uma companheira que leu o texto sobre a “Nova Rota da Seda”, na parte em que registro as dificuldades dos trabalhadores estadunidenses para alcançarem uma correção no salário mínimo local, e encaminhou uma pergunta sobre como esses trabalhadores poderiam reagir. O Congresso aprova um orçamento bilionário para a guerra, mas alega não ter verba para aumentar os salários?
Para iniciar uma resposta, devo dizer que tudo o que se refere ao movimento sindical nos EUA é muito confuso e as informações, não raramente, são contraditórias. Outra questão que dificulta o entendimento é a estrutura sindical de lá, muito diferente da brasileira.
Mas um fato para analisarmos é que, sim, nos últimos dois anos temos visto um renascimento do movimento sindical estadunidense, em particular entre os mais jovens e em categorias pouco citadas ou lembradas quando falamos de sindicalismo. O que temos registrado, em noticiários de sites internacionais, é uma movimentação importante entre trabalhadores de áreas muito diversas: saúde, cinema, hotelaria ou fabricação de tratores. Em geral, com algumas greves logo abafadas pela imprensa local e exigindo melhores condições de trabalho.
Alguns analistas locais dizem que esse despertar para reivindicações trabalhistas surge a partir do momento em que se constata uma grande falta de mão de obra local. Sabemos que se trata de um país com baixíssimo índice de natalidade.
Algumas notícias de jornais locais deixam transparecer que as empresas estão preocupadas com essa situação. Um exemplo claro do que falamos é que a poderosa Deere & Co, maior fabricante de máquinas agrícolas dos EUA, vê crescer o movimento reivindicatório entre seus trabalhadores. Cerca de 10 mil empregados, em vários setores da empresa, rejeitaram a tentativa de acordo com oferecida e entraram em greve no dia 14 de outubro de 2021! Foi um movimento que surpreendeu a mídia local e terminou com vitória dos trabalhadores. Movimentação semelhante ocorreu com cerca de 14.000 funcionários da Kellogg's, fabricante de cereais, que, na mesma época, simplesmente abandonaram seus postos de trabalho e fizeram piquetes nas portas das fábricas em diversos estados: Nebraska, Michigan, Pensilvânia e Tennessee. Protestavam não só pelo baixo salário, mas também porque a empresa estava transferindo serviços para o México, onde os salários são muito menores.
Ainda em 2021 temos outros movimentos grevistas que não foram noticiados por aqui. E um que é muito significativo aconteceu em um dos principais veículos de propaganda estadunidense: a indústria cinematográfica. Maquiadores de Hollywood, designers de iluminação, engenheiros de som e operadores de câmera também fizeram movimentos reivindicatórios e realizaram greves curtas, levando os patrões a cederem e assumirem um acordo para melhorias nas condições de trabalho.
Só para citar, também registramos movimentos reivindicatórios e até grevistas em várias outras empresas: a) Nabisco, fabricante de biscoitos; b) consórcio de saúde Kaiser Permanente, para o qual foram mobilizados 24.000 funcionários na Califórnia e no Oregon; c) New York Taxi Drivers Guild, que em 15 de outubro passado bloqueou a ponte do Brooklyn.
Todos são exemplos claros de que há um ressurgimento do movimento sindical estadunidense, mesmo que limitado a uma legislação esdrúxula e prejudicial aos trabalhadores. Só para se ter uma ideia, até 2021 a legislação trabalhista dos EUA permitia que uma empresa contratasse trabalhadores “avulsos” em casos de greves. Uma reforma nesse sentido está sendo votada no Congresso e já foi aprovada entre os deputados (onde o Partido Democrata tem maioria). Agora vai ser votada no Senado e espera-se mais dificuldades porque o Partido Republicano tem a maior bancada.
Um bom sinal nisso tudo é que o número de trabalhadores sindicalizados, que há décadas não ultrapassa os 11% do total de trabalhadores, vem crescendo e já alcança mais de 15%, segundo dados da maior central sindical estadunidense, a AFL-CIO. Mas este é o tema do próximo artigo.
Mas a pergunta que devemos nos fazer é... esse ressurgimento vai se limitar às reivindicações imediatas dos trabalhadores diante da crise econômica que já se instalou ou pode superar os limites do sistema e questionar o domínio do capital.
Nota: agradeço à amiga e companheira Luzia Mercedes Gomes, provocadora deste debate.

“PRIMAVERA” SINDICAL NOS EUA? (2)
(Ernesto Germano Parés – 10 de fevereiro de 2022)
Respondendo a uma questão levantada pelo companheiro Carlos Romero, o número de trabalhadores sindicalizados no Brasil vem caindo, como demonstraremos na última parte deste nosso artigo.
Em direção contrária, nos dois últimos anos os sindicatos filiados à poderosa “American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations” (AFL-CIO), a maior central sindical estadunidense, conseguiram atrair cerca de meio milhão de novos filiados. E há uma informação muito importante nas pesquisas locais: cerca de 48% dos trabalhadores estadunidenses estão inclinados a procurar a filiação a algum sindicato. Essa taxa é muito superior aos 33% de trabalhadores que pensavam em se filiar nos idos de 1977.
Vale lembrar que, em 1977, os EUA viviam sob o governo de Ronald Reagan, um dos “pilares” da implantação do neoliberalismo no planeta e que tinha como “guru” o economista Friedrich Von Hayek, que escreveu em seu livro que os sindicatos prejudicavam a acumulação do capital ao reivindicarem aumentos salariais e conquistas sociais. Na mesma época, Milton Friedman, outro “genitor” do neoliberalismo, escrevia que “tudo o que precisamos é de uma boa lei para acabar com os sindicatos”.
Onde encontrar uma explicação para esse movimento novo nos EUA? Acreditamos que dois são os motivos dessa “onda” de sindicalização: a crise atingiu em cheio os trabalhadores estadunidenses e o arrocho salarial está aumentando a cada ano; por outro lado, os sindicatos de lá estão fazendo algo de incomum e muito apropriado ao se dirigirem individualmente a cada um dos trabalhadores das suas base. Seja por meios das redes sociais ou por ligações telefônicas diretas, os sindicatos estão conversando com os trabalhadores de suas bases.
É certo que a perda do poder aquisitivo dos trabalhadores estadunidenses, que durante décadas se acostumaram com o “American way of live”, conta muito nesse movimento que estamos verificando através da imprensa local.
Ainda assim, é preciso que fique registrado em nossos artigos que aquele país tem uma das mais baixas taxas de sindicalização do planeta: menos de 11% dos trabalhadores são sindicalizados e a maior parte desses é de funcionários públicos.
Mas as vantagens imediatas falam mais alto. Em um artigo que encontramos na Internet ficamos sabendo que os trabalhadores sindicalizados ganham 25,6% a mais que outros trabalhadores não sindicalizados, graças às negociações coletivas. Têm também cinco vezes mais chances de se aposentar. Mulheres negras sindicalizadas têm salários 25% maiores que as não-sindicalizadas. As diferenças salariais entre gênero e raça são menores em empresas onde há atuação sindical. Isso porque, onde os sindicatos podem pressionar os empregadores e negociar, há contratos coletivos e condições mais favoráveis aos trabalhadores.
Aliás, esse é um aspecto muito importante do sindicalismo estadunidense que, ao que já conhecemos de outras nações (Holanda, Finlândia, Suécia, etc.) apenas os trabalhadores sindicalizados são abrangidos pelos acordos assinados entre os sindicatos e as empresas.
Acreditamos que esse modelo é muito válido para o nosso caso, no Brasil. Durante mais de 40 anos trabalhei em sindicatos ou vinculado a sindicatos. Cansei de ouvir um argumento dos trabalhadores que não desejavam a sindicalização. Eles me diziam: “por que vou ser sindicalizado se ganho o mesmo que os que são e tenho as mesmas vantagens?”
Por outro lado, há uma prática comum nos EUA que aqui poderíamos classificar, de acordo com a Constituição Federal de 1988, como “prática antissindical”.
Entendemos como “práticas antissindicais” aquelas que, direta ou indiretamente, cerceiam, desvirtuam ou impedem a legítima ação sindical em defesa e promoção dos interesses dos trabalhadores. O comportamento é vedado pela Convenção nº 98 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e artigo 8° da Constituição da República Federativa do Brasil.
Consideramos também como prática antissindical a perseguição ou pressão das chefias contra oss trabalhadores que demonstram desejo de se aproximarem de seus sindicatos.
E nesse ponto vamos lembrar que, em 1986, surgiu no Brasil um livro que foi muito vendido, o “Manual da Guerrilha Trabalhista”, de um chileno chamado Júlio Lobos. Ele ficou rico fazendo palestras e cursos entre gerentes e corpo dirigente das empresas para ensinar como identificar e neutralizar os trabalhadores que defendiam os sindicatos e faziam propaganda de sindicalização.
Falo disso “de cadeira”, porque consegui fazer um desses cursos, quando morava em Volta Redonda, para saber o que esse crápula pensava. Foram 15 dias ouvindo esse canalha falar!
O subtítulo do seu livro dizia que era dedicado a “gerentes e supervisores”.
Ao contrário do que ele desejava, vimos um movimento de alto índice de sindicalizações no Brasil a partir de 1988. Vimos também que os sindicatos que despontavam eram os de setores médios dos trabalhadores (funcionários públicos, professores, bancários, etc.). Mas os que “puxavam” a resistência ao grande capital ainda eram os sindicatos operários, como os metalúrgicos do ABC.

“PRIMAVERA” SINDICAL NOS EUA? (3)
(Ernesto Germano Parés – 11 de fevereiro de 2022)
Vamos iniciar esta parte do artigo com uma “pincelada” interessante de história. Em pesquisas que fiz há bastante tempo encontrei que a primeira greve conhecida e realizada por trabalhadores nos EUA data de 1619! E aconteceu em Jamestown tendo sido realizada por artesãos poloneses. E a razão do movimento grevista foi política e não econômica.
Vamos lembrar que os EUA eram ainda uma colônia inglesa. Quando ocorreram as primeiras eleições por lá esses artesãos poloneses reivindicaram o direito de votar, negado pela Grã-Bretanha que só permitiu o voto para cidadãos ingleses. A resposta deles foi que não trabalhariam até terem o direito de voto e foram vencedores, conquistando esse direito! Interessante, não é?
Voltando ao nosso tema central, como dissemos na primeira parte do artigo, é muito difícil fazer uma comparação entre o movimento sindical estadunidense e o brasileiro, porque as legislações são bastante diferentes. E, para início de conversa, é preciso saber que os grandes sindicatos dos EUA contratam e treinam lobistas que atuam em Washington pressionando deputados e senadores a votarem questões importantes para seus sindicatos. Acabam fazendo um trabalho tão forte que, em época eleitoral, escolhem aqueles candidatos que vão indicar para suas bases votarem.
Outra grande diferença com o sindicalismo brasileiro é que há uma maior concentração de sindicatos. Por exemplo, os trabalhadores estadunidenses estão organizados em, apenas, quatro tipos de sindicatos: trabalhadores do comércio, trabalhadores da indústria, trabalhadores do setor público e profissionais liberais. Não existem, como aqui, vários sindicatos para trabalhadores da indústria, por exemplo.
Mais recentemente, ainda citando jornais estadunidenses, vimos que a maior parte dos sindicatos verdadeiramente atuantes estão no setor público (funcionários federais, estaduais e municipais, bombeiros, policiais, etc.).
Outra questão interessante de levantar aqui é que, muitas vezes, os interesses dos sindicatos de trabalhadores se confundem com os interesses dos empregadores e realizam campanhas comuns para pressionar o governo.
Como também já citamos, há pesquisas que demonstram que o trabalhador sindicalizado nos EUA tem um salário superior ao não sindicalizado. Ou seja, o sindicato só faz acordo para os sindicalizados! Mas, como é a sindicalização por lá?
É aí que “a porca torce o rabo”! Há uma grande diferença entre os sindicatos. Em muitos deles os trabalhadores são considerados sindicalizados quando pagam uma mensalidade à entidade. Há também sindicatos que consideram associados os que participam dos fundos de pensão que são controlados por eles (falaremos disso em outro artigo). E há, mesmo, sindicato que considera associado o trabalhador que, durante o ano, tenha feito algum tipo de contribuição (por exemplo, comprou um adesivo do sindicato para colocar no carro)!
Por tudo isso, é muito difícil fazer uma comparação de números de trabalhadores sindicalizados aqui e lá.
Outra grande diferença é que lá, praticamente, existe apenas uma grande organização sindical que se aproxima das nossas centrais. Estamos falando da AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho e Congresso das Organizações Industriais), que foi fundada em 5 de dezembro de 1955 e representa quase 13 milhões de trabalhadores ativos e aposentados nos Estados Unidos e Canadá.
Mas a história (outra vez a história) nos mostra que a AFL-CIO nasceu da fusão da Federação Americana do Trabalho, criada em 1886 (mesmo ano da grande greve que condenou os mártires de Chicago e que se tornou o marco das comemorações do 1º de maio), e do Congresso de Organizações Industriais, criado em 1935.
Mais recentemente a AFL-CIO passou por um “racha” quando uma parte dos sindicatos se separou e criou um grupo próprio e hoje conhecido como Change to Win Organizing Center (CtW) , que reúne cerca de 3,5 milhões de trabalhadores.
Para exemplificar o que vem se passando no mundo do trabalho estadunidense vamos lembrar que a empresa Amazon, uma gigante com tentáculos em quase todo o planeta, tem mais de 500 mil funcionários e uma parte deles. O problema é que, recentemente, começaram a se organizar e exigir direitos semelhantes aos demais trabalhadores estadunidenses. E centram as suas ações contra Jeff Bezos, fundador da empresa e dono de uma fortuna estimada em quase US$ 193 bilhões.
No final do ano passado vimos notícias dando conta que os trabalhadores de um dos galpões da Amazon, na cidade de Bessemer, no Alabama, estavam se preparando para realizar uma assembleia onde aprovariam a decisão de sindicalização do setor. A reação da Amazon foi imediata e, seguindo a cartilha dos patrões, começou uma gigantesca campanha de terrorismo dentro e fora da empresa, para sufocar a iniciativa.
O jornal The Washington Post noticiou que a empresa colou cartazes nos banheiros com mensagens como “para onde vão as suas taxas?”. Questionavam o destino de parte dos salários no caso de sindicalização em massa. E os funcionários se sentem vigiados e ameaçados quando tentam realizar alguma reunião ou assembleia!

PRIMAVERA” SINDICAL NOS EUA? (4)
(Ernesto Germano Parés – 14 de fevereiro de 2022)
No artigo anterior lembramos que a primeira greve registrada nos EUA aconteceu em 1619. Mas há uma longa lista de movimentos de trabalhadores depois daquela data. Um movimento que merece o nosso registro aconteceu em 1791 quando os carpinteiros da Filadélfia resolveram entrar em greve por melhores condições de trabalho. O resultado foi, em 1792, a criação do primeiro sindicato de trabalhadores naquele país e, principalmente, o início das primeiras negociações coletivas com os patrões para corrigir salários.
É claro que os patrões iriam reagir. Em 1806, depois de um movimento grevista vitorioso, a “justiça” estadunidense considerou os grevistas “irresponsáveis e perigosos”. O resultado é que os sindicatos se tornaram ilegais naquele país.
Apenas vinte anos depois, em 1827, surge o Sindicato das Associações de Mecânica da Filadélfia. E apenas em 1852 vai surgir, no Cincinnati, a União Tipográfica Internacional (UIT), que usava a palavra “internacional” porque reunia tipógrafos dos Estados Unidos e do Canadá e era um dos primeiros a admitir mulheres como membros.
A partir de então temos uma longa série de perseguições e julgamentos contra sindicatos e seus líderes. Exemplo mais claro dessas perseguições foi o processo contra os oito líderes sindicais em Chicago, quando, em 1° de maio de 1886 teve início a Greve Geral que contou com a adesão de mais de um milhão de trabalhadores em todo o território americano. Os líderes foram condenados à forca e essa é a origem das comemorações da data: “dia de luta e de luto dos trabalhadores”.
A Federação Americana do Trabalho (AFL) surgiu em 1886, depois dos acontecimentos de Chicago, a partir de demandas por um “salário digno” padrão que permitiria a seus membros, bem como trabalhadores não sindicalizados, sustentar uma família e levar um padrão de vida “americano”, acima do que os trabalhadores europeus tinham então.
Ao longo do século XIX, a atividade sindical era quase exclusivamente uma prática de trabalhadores qualificados, não de diaristas ou empregados não qualificados.
A perseguição às organizações de trabalhadores continuou e, em 1959, em meio a escândalos de corrupção em sindicatos de caminhoneiros, mineiros, estivadores, entre outros, uma nova lei estabeleceu controles mais rigorosos sobre as relações entre sindicatos e empregadores sob a presidência de Dwight D. Eisenhower. Curiosamente, a nova lei dizia que os sindicatos deveriam realizar eleições secretas supervisionadas pelo Ministério do Trabalho. E a medida final: membros do Partido Comunista então existente naquele país eram proibidos de concorrer a cargos de liderança sindical (o capítulo do Partido Comunista foi declarado inconstitucional em 1965), e os sindicatos foram obrigados a apresentar relatórios financeiros anuais ao Departamento do Trabalho.
Mas o fato que nos chama a atenção para essa série de artigos é que, desde o século XIX, os sindicatos estadunidenses são também os administradores dos Fundos de Pensão dos trabalhadores. Isso significa uma verdadeira fortuna nas mãos dessas diretorias que investiam o dinheiro onde acreditavam dar mais lucro.
Sim, em uma primeira visão pensamos que os trabalhadores ganhariam com isso. Os Fundos investiam em ações lucrativas e todos os trabalhadores passavam a ganhar e ver suas aposentadorias “engordando”. Mas, como se trata do país que liderou o avanço do capitalismo mais ganancioso do planeta, esses Fundos de Pensão também se tornaram “armas”.
Há um filme muito interessante sobre a entrada da máfia nos sindicatos estadunidenses. Intitulado de “O Irlandês”, o filme de Martin Scorsese traz grandes atores da época e mostra o envolvimento dos grandes sindicatos de lá com a Máfia ítalo-estadunidense.
Personagem central do filme, Jimmy Hoffa era o presidente do poderoso Sindicato Internacional dos Caminhoneiros (IBT -International Brotherhood of Teamsters), que se tornou o maior dos EUA em número de filiados, alcançando cerca de 2,3 milhões de membros.
De acordo com a lei dos EUA, os sindicatos podiam administrar os ricos fundos de pensão de seus afiliados e essa era a grande fonte de poder e corrupção. Evidentemente, a Máfia ficou interessada nesses recursos e os seus gangsters começaram a participar da vida dos sindicatos, “ajudando” os chefões a se perpetuarem no poder, inclusive com a eliminação física de adversários internos.
Apenas para se fazer uma ideia do que significa isso, vamos lembrar o caso da Enron, uma das maiores empresas de energia dos EUA (explorava o gás natural) fundada em 1985! Mas, por problemas administrativos ou por roubo, mesmo, a empresa faliu em dezembro de 2001.
Por que estamos lembrando desse caso? Porque, na época, eu escrevi alguns artigos mostrando o golpe. A direção da empresa, vendo que estava em dificuldades financeiras, “convenceu” os dirigentes do Fundo de Pensões dos funcionários a investir em ações da própria empresa. Resultado: a empresa faliu, deixou uma dívida de 67 bilhões de dólares, milhares de trabalhadores sem empregos e... sem o Fundo de Pensão que foi todo investido na própria empresa!


“PRIMAVERA” SINDICAL NOS EUA? (FINAL)

(Ernesto Germano Parés – 15 de fevereiro de 2022)
No primeiro texto desta série de artigos dissemos que, aparentemente, há um crescimento no número de sindicalizações de trabalhadores nos EUA, em particular entre as camadas mais jovens.
Essa informação provocou algumas surpresas e recebemos sugestões de fazer uma comparação entre o número de sindicalizados nos EUA e no Brasil. Mas, como dissemos ao longo da série, essa é uma tarefa complicada pois as legislações são muito diferentes. Mas, reafirmamos que é um fato que o índice de sindicalização entre os trabalhadores estadunidenses já alcançou 11% e tem uma tendência de crescimento.
Outro fator que dificulta a comparação e que deve causar algum espanto entre os companheiros que estão lendo o artigo é o número de sindicatos existentes nos dois países. Como dissemos antes, lá existe um sindicato para os trabalhadores da indústria em geral. Mas, vamos aos números que causam um impacto: pela pesquisa que fizemos, atualmente, os EUA possuem cerca de 130 sindicatos! Sim, 130 sindicatos. No Brasil temos, aproximadamente, 16.300 sindicatos registrados e reconhecidos pelo Ministério do Trabalho!
Junto com a Argentina, o Brasil já chegou a ter um dos maiores índices de sindicalização, beirando os 27% de trabalhadores ativos. Em 1990, época de grande crescimento na atividade sindical brasileira, enquanto beirávamos os 30% de sindicalizados a França, por exemplo, tinha apenas 9,8%; a Espanha tinha 11%.
Uma comparação bastante curiosa é analisarmos por setores de produção. Em 2019, por exemplo, na atividade da Agricultura (compreendendo pecuária, produção florestal, pesca...) o saldo é muito bom. Empregando cerca de 9,1% da população ocupada brasileira, alcançou índices de 19,4% de trabalhadores sindicalizados!
Para fazer uma comparação, o setor de comércio (incluindo reparação de veículos automotores e motocicletas) que empregava 18,9% da população ocupada apresentava um índice de apenas 7,4% de sindicalização!
Os números do IBGE mostram também que os empregados com carteira assinada no setor privado e os empregados no setor público (inclusive servidor estatutário e militar) registraram as taxas de sindicalização mais elevadas, respectivamente, 14% e 22,5%.
E, neste ponto, devemos chamar a atenção para o que aconteceu na década de 1980 quando surgiram e cresceram enormemente os sindicatos ditos “de classe média”. Funcionários públicos que antes não tinham esse direito, bancários, professores, etc. Esses sindicatos apresentaram crescimento impressionante nos anos 80!
Continuando nossa análise, reparamos que entre 2018 e 2019, as quedas mais acentuadas da taxa de sindicalização ocorreram entre os empregados no setor privado sem carteira de trabalho assinada, de 16% para 14%; os empregados no setor público (inclusive servidor estatutário e militar), de 25,7% para 22,5% e os empregadores, de 12,3% para 10,3%.
A Indústria Geral passou de 15,2% para 13,5%, o equivalente 150 mil sindicalizados a menos, mesmo com a população ocupada tendo crescido em 380 mil pessoas. A queda foi ainda mais forte em relação a 2012, quando 21,1% dos trabalhadores da indústria eram sindicalizados.
Simplificando para demonstrar os efeitos do desemprego e das novas formas de exploração (precarização do trabalho, trabalho intermitente, informalidade, etc.) entre 2012 para 2019, os sindicatos perderam 3,8 milhões de filiados no Brasil, segundo dados da Pnad Contínua, divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2019, das 94,6 milhões de pessoas ocupadas no país, 11,2% ou 10,6 milhões de profissionais eram associados a sindicatos. É a menor taxa de sindicalização desde o início da série histórica, em 2012. Naquele ano, 16,1% da população ocupada era sindicalizada ou 14,4 milhões de profissionais.
Em 2020 escrevi uma série de artigos a que dei o nome de “Sindicalismo na Encruzilhada”. Naquela série procurei mostrar todos os efeitos dessas novas formas de exploração que deixam uma parte grande de trabalhadores sem condições de sindicalização.
Basta dar um exemplo, para mostrar isso. Nas últimas décadas passou a ser muito comum as grandes empresas, inclusive estatais, utilizarem trabalhadores de empresas chamadas “terceiras”. Foi a terceirização em massa e que levou a um fenômeno pouco analisado: a quarteirização! Isso mesmo, algumas empresas tinham contratos com tantas “terceiras” que era preciso contratar uma “quarta”, ou seja, uma empresa especializada em administrar as “terceiras”. Parece conversa de maluco, mas acontece muito. E esses trabalhadores? Vão poder se sindicalizar? A resposta é não! Nossa legislação ainda patina no reconhecimento de sindicatos de trabalhadores em empresas terceirizadas!
Espero ter contribuído para o debate a partir do que acontece nos EUA.

FONTE
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sexta-feira, 29 de abril de 2022

MERCENÁRIOS – GUERRA PRIVATIZADA * Ernesto Germano Parés / RJ

MERCENÁRIOS – GUERRA PRIVATIZADA
(1)
(Ernesto Germano Parés – 14/03/22)
O termo “mercenário” vem do latim onde “merce” significa comércio. Mercenário é, então, o nome dado a todo aquele que trabalha a soldo, mais especificamente, os soldados que lutam em guerras com o único objetivo de receber um pagamento ou, como na antiguidade, participar da divisão dos despojos dos vencidos. Não lutam por qualquer tipo de ideologia.
Sabemos que não é um fenômeno moderno. Já na antiguidade soldados eram contratados para lutar na defesa de interesses políticos ou econômicos. Há registro de que a China, durante os séculos IV e III a.C. já teria usado tropas mercenárias. Também no antigo Egito e na Grécia havia exércitos de mercenários contratados em outras regiões.
Mas tropas mercenárias vão ganhar grande vulto já na chamada Alta Idade Média com soldados que eram contratados pelos príncipes. E as depredações e os saques eram comuns e se tornaram uma praga em várias regiões da Europa.
Para quem não sabe, o Brasil também já usou tropas de mercenários. D. Pedro I criou um Corpo de Soldados Estrangeiros (todos mercenários) para lutar na Guerra Cisplatina. D. Pedro II também contratou mercenários, os “Brummer”, germânicos, para lutarem na Guerra contra Oribe e Rosas.
Mas o fato que precisamos salientar é que, durante todo esse tempo, era uma relação quase pessoal entre governantes e homens que se prestavam a guerrear, lutar, depredar e saquear.
Apenas em 1990 vamos tomar conhecimento do que pode ser chamado de “privatização da guerra” quando surgem empresas especializadas em contratar esses mercenários, treiná-los, armá-los e colocá-los a serviço de governos. Podemos, comparando com o que acontece nas empresas, dizer que isso significa a “terceirização” da guerra.
Para “aliviar” um pouco o choque que causaria nas populações, os governos e a mídia amestrada passaram a dar um nome diferente para essas empresas que agora eram chamadas de “sociedades militares privadas”! E essas “sociedades”, em apenas uma década, tiveram um desenvolvimento “explosivo” (com trocadilhos). Pelas informações que obtivemos, o desempenho mundial nesse setor gira em torno dos 70 bilhões de euros anuais
Aqui queremos realçar um fato que nos fez usar a comparação com as terceirizações que acontecem nas empresas de hoje. Estamos dizendo que o fato de existirem e serem toleradas essas “sociedades militares privadas” comprova que, em sua essência, a guerra atende a interesses econômicos privados, seja de que tipo for.
Como acontece em qualquer outra atividade econômica que conhecemos, as empresas de mercenários também vão ganhando dimensões. Na medida que o imperialismo vai tendo mais fome de lucro, essas empresas vão servindo aos propósitos de alguns espertos e rendendo também muito dinheiro. Por exemplo, há uma “sociedade militar” inglesa, a G4S, que tem mercenários atuando em nada menos do que 125 países (são 193 em todo o planeta). Essa sociedade emprega em torno de 570 mil pessoas.
Para não alongar demasiadamente este primeiro artigo da série, vamos encerrar lembrando que existe uma Convenção das Nações Unidas, em vigor desde 2001, proibindo o recrutamento, treino, uso e financiamento de mercenários. EUA, Reino Unido, França e Japão assinaram o documento!

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MERCENÁRIOS – GUERRA PRIVATIZADA! (2)
(Ernesto Germano Parés – 15/03/22)
Conversando com algumas pessoas sobre o surgimento desses soldados “mercenários” recordei um fato que creio ter sido determinante para o crescimento dessas “sociedades militares”. Lembrei da guerra do Vietnam e da comoção nacional nos EUA quando as famílias viam seus filhos voltarem para casa em sacos plásticos! Já no final da guerra um filme apontou toda a decepção e a comoção do povo estadunidense. Estou falando de “Corações e Mentes”, de Peter Davis.
Bem, as autoridades de Washington devem ter pensado que continuar mandando os filhos das famílias tradicionais para morrerem em uma guerra distante de casa não daria muitos votos. Mas, ao mesmo tempo, o complexo industrial militar não pode sobreviver sem uma guerra em algum lugar do planeta.
Surge então o espaço tão desejado por essas “sociedades”. Afinal de contas, os mercenários que aceitam matar ou morrer pelos EUA, muitas vezes, não têm nenhuma ligação com o país. Em uma avaliação do Pentágono, manter soldados estadunidenses nas frentes de guerra é muito caro para o país, então, essas “sociedades” vão recrutar em países pobres, como Uganda, El Salvador, Nepal e Filipinas e muitos outros. Um levantamento feito por um jornal estadunidense mostrou que um cidadão dos EUA, para entrar em uma guerra assim, pode ganhar até US$ 1,5 mil por dia. Mas um combatente de país pobre recebe US$ 500 pelo mesmo serviço.
E vamos encontrar nessas empresas muitos paramilitares colombianos, alguns chilenos remanescentes do governo Pinochet e até brasileiros apaixonados pela conversa da direita.
A mais conhecida, mais famosa e mais denunciada dessas “sociedades” é a Blackwater, dos EUA. Poucos conhecem ou levam em consideração, mas o nome Blackwater significa “água negra”, uma referência aos pântanos onde são feitos os primeiros treinamentos dos mercenários. Pântano! Sim, uma excelente definição para o serviço prestado por essas respeitáveis empresas.
No dia 19 de agosto de 2009, fazendo o povo estadunidense se impressionar, o jornal The New York Times revelou que a CIA havia utilizado, em 2004, funcionários da Blackwater como parte de um programa secreto, com o objetivo de descobrir pistas e assassinar dirigentes da Al-Qaeda. A tal empresa contribuiu para as missões da organização estadunidense de treinamento e espionagem, cobrando milhões de dólares pelo serviço, sem nem ao menos ter capturado ou assassinado um único ativista.
Ainda em 2004, na cidade de Fallujah, Iraque, quatro contratados da Blackwater foram emboscados, mortos, queimados e desmembrados. A imagem de seus corpos pendurados em uma ponte se tornou o símbolo da fase mais sangrenta daquele conflito. Mais tarde, em 2007, funcionários da empresa perderam controle de um comboio e mataram 17 civis em Bagdá. Soterrada pela publicidade negativa, a Blackwater mudou de nome: hoje ela se chama Xe.

MERCENÁRIOS – GUERRA PRIVATIZADA! (Final)

(Ernesto Germano Parés – 15/03/22)
Para encerrar o artigo vamos esclarecer que essas empresas oferecem quase todos os tipos de serviços para aplicação militar. Trabalham desde a reparação de veículos e preparação de alimentos nas bases militares até segurança particular e mesmo assassinatos.
Um caso que ganhou espaço na imprensa internacional, há alguns anos, foi o fato dos Emiratos Árabes Unidos (EAU) terem contratado a Spear Operations Group – fundada por Abraham Golan, um israelense residente nos EUA – para executar um programa de assassinatos no Iémen. Um dos alvos dos mercenários estadunidenses foi um líder da al-Islah, organização que os EAU classificam de terrorista, mas que é reconhecido como um partido político legítimo, que se opõe à intervenção estrangeira no Iémen e conta entre os seus membros Tawakkul Karman, vencedora do Prémio Nobel da Paz em 2011.
É fato que os governos gastam muitos milhares de milhões de dólares em armamentos e em seus exércitos, mas é também fato que a chamada “segurança privada” ou “sociedades militares privadas” estão crescendo exponencialmente nas últimas décadas.
Um fato de se estranhar é que, não estando protegidos pelas Convenções de Genebra sobre as guerras e nem contando com apoios nacionais, esses mercenários carecem totalmente de garantias e apoios em caso de serem feridos em combate.
E cabe registrar que, da mesma forma, essas “sociedades” funcionam à margem dos códigos internacionais e não estão sujeitas a qualquer limites, agindo longe de qualquer controle.
Vamos encerrar colocando mais um importante dado na equação. Há um grande interesse por parte dos militares estadunidenses (também ingleses ou franceses) na manutenção dessas “sociedades”. Quase todo o pessoal de comando dessas SMP é ex-oficiais das forças armadas desses países. E sabemos que essa proximidade, essa familiaridade entre uns e outros permite com bastante facilidade um acesso em matéria de informações confidenciais e até uma certa impunidade.
E tudo leva a uma situação pouco conhecida do grande público: essas “sociedades militares privadas”, por seus vínculos com exércitos e até com governos, estão em posição privilegiada também para influenciar nas decisões militares ligadas às operações.
Como dissemos no título original, é a Guerra Privatizada em toda a sua extensão!

quinta-feira, 28 de abril de 2022

A CONJURAÇÃO DO RIO DE JANEIRO * Ernesto Germano Parés / RJ

A CONJURAÇÃO DO RIO DE JANEIRO

(PARA NÃO ESQUECER – 1786 (sem data)

Manuel Inacio da Silva Alvarenga
Interior de uma "boteca"
Aqueduto do Rio de Janeiro
Porto do Rio de Janeiro
Lutas separatistas no Brasil
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Ernesto Germano Parés / RJ

Sei que pouquíssimos ouviram falar e eu conhecia superficialmente. Sempre ouvimos histórias sobre a Conjuração Mineira, mas não sabíamos de outra que também teve importância e significado.
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Em 1786 foi criada a Sociedade Literária do Rio de Janeiro. Originalmente composta por um grupo de intelectuais (poetas, escritores e médicos – basicamente) que debatiam textos e ideias que chegavam da Europa. Discutiam a Revolução Francesa, a criação dos EUA, livros dos pensadores iluministas e temas como eclipse lunar, alcoolismo e muitos outros.
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Depois de poucos anos o grupo foi crescendo e admitiu a entrada de professores, médicos, padres, advogados, marceneiros, sapateiros e ourives que discutiam ideias filosóficas e políticas de Rousseau e Voltaire. E, é claro, isso começou a preocupar os poderes da Metrópole portuguesa.
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Em 1789 a Conjuração Mineira chega ao seu auge e sabemos toda a repressão havida. Temendo o mesmo caminho, em 1794 o vice-rei português, Conde de Resende, manda fechar e prender todos os integrantes da Sociedade Literária sob acusação de subversão. Foram presos os principais líderes da Sociedade: Ildefonso Costa Abreu (professor de grego), Silva Alvarenga, Mariano José Pereira da Fonseca, Vicente Gomes, João Manso Pereira e João Marques Pinto. Todos acusados de conspiração contra a Coroa Portuguesa.
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Mariano José Pereira da Fonseca, foi acusado de ter uma obra de Jean Jacques Rousseau depois, Mariano defendeu a independência e tornou-se marquês de Maricá.
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Dez integrantes da Sociedade Literária permaneceram presos por três anos e em 1799 foram enforcados, esquartejados. Os soldados Luis Gonzaga e Lucas Dantas, e os alfaiates João de Deus e Manuel Faustino tiveram partes e de seus corpos expostos. A maior parte dos prisioneiros eram escravos, soldados e artesãos. Dos membros mais ilustres apenas quatro foram presos, sendo estes integrantes da Maçonaria.
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Com princípios muito parecidos com a Inconfidência Mineira, a Conjuração Fluminense (ou conjuração carioca ou conjuração do Rio de Janeiro) criticava a monarquia, a dependência do Brasil frente a Portugal e defendia a sua emancipação. Tinha clara afinidade com os ideais iluministas, sendo inclusive acusados de defenderem um Brasil dependente não de Portugal, mas sim da França napoleônica.
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Poucos sabem, principalmente os mais novos, mas, na época, não existiam farmácias e grandes laboratórios farmacêuticos dominando o mercado, como hoje. Quando o médico prescrevia um medicamento era preciso procurar uma “botica”: estabelecimento onde se preparam e/ou se vendem medicamentos. Levava-se a receita e, muitas vezes, era preciso ficar esperando o remédio ser preparado.
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A maior parte dos membros que criaram a Sociedade Literária era formada de médicos e boticários (os que faziam os remédios). Na rua do Cano (hoje Sete de Setembro) funcionavam as principais boticas da cidade. Ali a população do Rio de Janeiro podia encomendar medicamentos, unguentos e outros tratamentos.
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Mas, uma curiosidade: ao chegar na “botica”, como dissemos acima, o cidadão precisava ficar esperando o preparo do seu remédio. Isso fez com que fossem criados no espaço da loja, locais onde as pessoas ficavam lendo, conversando, ouvindo novas ideias, etc. Dos balcões das boticas para espaços públicos como o Chafariz do Mestre Valentim, na atual praça Quinze de Novembro e outro local de encontros do Rio antigo, as ideias se espalhavam pelo ar na velocidade do som.
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Vale lembrar que, ao contrário do que muitos pensam, Tiradentes não foi enforcado em Minas Gerais. Foi preso no Rio de Janeiro e enforcado no Campo de São Domingo, hoje Praça Tiradentes (1792).
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A prisão dos participantes da Sociedade Literária tem muito com esse episódio. Não havia qualquer prova ou acusação de que pretendiam lutar pela separação do Brasil de Portugal ou algo parecido. Era um grupo intelectual movido pelas ideias iluministas. Mas a Coroa Portuguesa via “fantasmas” em todo canto.
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A chamada Conjuração do Rio de Janeiro não chegou a constituir um plano para derrubar o poder colonial. Mas o vice-rei do Brasil, temendo o mal maior, manteve os letrados suspeitos trancafiados por dois anos, sem acusação formal.
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CONTRA TODO TIPO DE DOMÍNIO IMPERIAL!
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VIVA A CONJURAÇÃO DO RIO DE JANEIRO!
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Nas imagens: 01) o Aqueduto da Carioca; 02) Manuel Inácio da Silva Alvarenga; 03) o interior de uma “boteca”
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