terça-feira, 14 de abril de 2026

RETOMAR O 1º DE MAIO DE LUTA SOCIALISTA E ANTIIMPERIALISTA! * FRENTE REVOLUCIONÁRIA DOS TRABALHADORES/FRT*PARTIDO COMUNISTA DOS TRABALHADORES BRASILEIROS/PCTB

 RETOMAR O 1º DE MAIO DE LUTA SOCIALISTA E ANTIIMPERIALISTA!

Há quase 140 anos do histórico levante proletário em Chicago em 1886, quando os trabalhadores, organizados e municiados por uma profunda consciência de classe e dos seus interesses para si, em brava e heróica batalha contra as forças do capital, tiveram seus históricos mártires assassinados covardemente pelas forças de repressão da burguesia. Da qual daí em diante foi instituído pela Segunda Internacional, o Primeiro de Maio como data mundial do proletariado.


Após quase 140 anos desse combate histórico de nossa classe, nos encontramos num período cuja principal característica seja o avanço da contra-revolução burguesa em praticamente todos os países. Particularmente desde o fim da União Soviética e a queda do Muro de Berlim no crepúsculo do século passado, o capital não sessou uma vasta ofensiva econômica, política e ideológica contra o proletariado e seu programa científico de emancipação histórica: o marxismo.


As ideologias vulgares que pregavam o "fim da história"; o "empreendedorismo"; o identitarismo anti-classista; o politicismo e conciliação com o inimigo de classe; o conformismo e resignação com o presente, marcado pelo "congelamento" histórico, etc., não passam de artimanhas estratégicas e táticas da burguesia mundial e seus meios de propagação de mentiras e irracionalismo, visando arrefecer a fé dos trabalhadores no socialismo e na sua própria emancipação dos grilhões da sociedade de classes.

 

Em compasso com os ataques econômicos e sociais contra as conquistas históricas que o proletariado arrancou da burguesia no último século de duras batalhas, vemos uma verdadeira ofensiva ideológica e cultural por parte do imperialismo, visando um vasto entorpecimento de seu antagonista histórico para assim, quebrar suas perspectivas revolucionárias como forma de garantir a perenidade e sobrevida do regime capitalista em sua fase senil, marcada por crises cada vez mais recorrentes e de grande duração, ameaçando mesmo a própria humanidade.

 

Em todo o mundo governado pelo modo de produção capitalista, temos visto o desmonte dos mecanismos de proteção dos trabalhadores. Os direitos trabalhistas e o chamado "Estado de bem estar social" (onde existiu) tem sido radicalmente suprimidos; o nível econômico e social das classes trabalhadoras em todo o mundo não param de cair.

 

Na verdade entramos na era da superexploração do trabalho como um fenômeno mundial. As seguidas revoluções tecnológicas e informacional criou uma massa crônica de desempregados e seres humanos "supérfluos" pela ótica do capital e que não podem mais serem inseridos produtivamente no mundo das mercadorias cada vez mais mercantilizado e fetichizado. Para essa massa humana "sobrante"--um verdadeiro exército de reserva utilizado para aviltar os salários e condições de trabalho dos que ainda labutam--a "saída" burguesa é cada vez mais a repressão e extermínio malthuziano.

 

Nessa esteira, a chamada "composição orgânica do capital" como bem o conceituou Karl Marx, atua como um verdadeiro pêndulo contra a taxa de lucros do capital, obrigando seus servidores (a burguesia e seus agentes, sim, servidores de sua criatura) a recorrerem a um padrão de reprodução do capitalismo mundial francamente destrutivo, selvagem e incontrolável, que põe mesmo como horizonte a destruição da civilização como a conhecemos.

 

As guerras e o capital: uma relação de mão dupla

 

Com o alastrar da decadência capitalista, o recrudescimento das guerras de baixa e alta intensidade, tornaram-se algo corriqueiro, mesmo banal.

 

Neste século atual por exemplo, tivemos as guerras de tipo neocolonial por parte do imperialismo contra o Afeganistão, Iraque, Haiti, Líbia, Síria, Ucrânia (guerra por procuração do imperialismo ianque contra a Rússia), Iêmen, Palestina, etc. Também os golpes de Estado de novo tipo pela vida das revoluções coloridas e guerras híbridas, tem se tornado constantes e diversos países já foram ou estão sendo vítimas dessa forma de ataque encoberto, por parte das forças imperialistas e seus fantoches.

 

A instabilidade política promovida pela CIA contra governos populares e/ou nacionalistas também é algo que avança nessa época marcada pela crise geral do capitalismo, que exige de forma imperiosa ao grande capital, colonizar e impor sua agenda destrutiva em todo o mundo: diante de sua fase senil, o Globo terrestre já se tornou demasiado pequeno para o capital e seu caráter ontológico expansionista.

 

Daí a necessidade cada vez mais premente por parte do grande capital em controlar com mãos de ferro as fontes energéticas, de matéria prima, os mercados e o assalto aos Estados nacionais. Uma nova redivisão do mundo e da divisão mundial do trabalho, está em andamento; em tal movimento tectonico, o que o grande capital imperialista impõe aos povos da periferia capitalista é uma ainda maior subalternidade, agravando sua crônica relação de dependência e subdesenvolvimento.

 

Em suma, o preço pago pela humanidade com a perenidade até o presente do modo de produção capitalista tem sido alto demais. O próprio desenvolvimento histórico e das forças produtivas internacionalmente já estabeleceram as condições objetivas necessárias para a superação do regime burguês e para a construção do socialismo.

 

Os trabalhadores e os povos oprimidos resistem

 

O proletariado mundial embora ainda confuso, disperso e cambaleante diante da atual correlação desfavorável, resiste como pode. Vimos desde a última década importantes movimentos de luta dos trabalhadores em diversos países, sobretudo em nossa América latina. Os trabalhadores venezuelanos, bolivianos, equatorianos, chilenos, peruanos, haitianos e colombianos por exemplo, tem protagonizado ou protagonizaram nos últimos anos, importantes e heróicas lutas contra as forças da extrema direita, das tentativas golpistas e do imperialismo em seus países.

 

O povo palestino tem dado lições históricas a seus irmãos trabalhadores do mundo, através de sua gigantesca resistência armada contra os genocidas sionistas que comandam o facínora Estado de Israel e seus patrões imperialistas da Casa Branca. Embora o gigantesco tributo pago com o sangue sagrado de seus mártires, a resistência militar palestina impõe duríssimo revés ao sionismo, causando mesmo a desmoralização histórica mundial do Estado sionista e uma crise existencial de Israel.

 

Na África negra, seu valente povo derrotou o colonialismo francês, causando uma séria desmoralização e crise política profunda no interior dessa pátria imperialista decadente.

 

Os exemplos de brava resistência dos povos trabalhadores iemanita e haitiano, que nas mais desfavoráveis condições resistem e lutam bravamente contra seus exploradores e opressores internos e o imperialismo, deixa valiosa lição para o proletariado mundial.

 

Fortalecer um pólo revolucionario e antiimperialista internacional

 

A condição mais essencial do momento, é estabelecer uma frente internacional de lutas dos trabalhadores contra as forças do imperialismo. O atual período histórico se caracteriza pela ofensiva da burguesia e pela contra-revolução no mundo.

 

É imprescindível para as organizações de vanguarda dos explorados ter bem claro as forças que se batem, a correlação entre as classes antagônicas, para daí tirar as conclusões estratégicas e táticas do atual período. Uma das principais constatações a se considerar no momento é o fato de que as forças revolucionárias e de vanguarda da classe se encontrarem numa grave situação de fragmentação, divisão e sem protagonismo no interior das massas. E isso em todo o mundo.

Fortalecer as organizações dirigentes no interior de cada país é passo essencial para a retomada de uma agenda revolucionária e socialista que volte a hegemonizar as parcelas mais esclarecidas dos trabalhadores. Por outro lado, fortalecer um bloco revolucionário e antiimperialista internacional é sem dúvida uma das tarefas mais importantes do momento.

 

Em sua fase de deslocamento permante pelo mundo, o capital cada vez mais internacionalizado põem na defensiva qualquer estratégia ou tática puramente nacional dos trabalhadores. Daí ser imprescindível mais do nunca, organizar o combate internacional sistemático contra a burguesia, que tem no imperialismo seu chefe de fila no mundo.

 

Portanto, fortalecer uma frente internacional antiimperialista deve ser no momento uma das questões táticas centrais do proletariado mundial e seus aliados.

 

O grave impasse em que vive a humanidade, deixa bem claro que o capitalismo entrou em uma fase de potêncial destrutivo sem precedentes. As saídas reformistas que buscam reformar ou mesmo humanizar o regime do capital, estão barradas. A contra-revolução neoliberal, a atual escalada de guerras e golpes de Estado em todo o mundo, são as provas dessa verdade histórica. A revolução socialista é neste caso não só de uma atualidade indiscutível, como também, e mais importante, a garantia de sobrevivência da própria humanidade.

 

 "PRIMEIRO DE MAIO NÃO É PARA FESTEJO!

Grupos da alta cúpula:
De grupos empresarial;
Conhecendo a luta;
Da classe operária;

E o parque; do dia do trabalhador:
Primeiro de maio;
Não e dia de festejo;
É data, para protestar!

Lembrando a, barbara chacina;
Praticada em Chicago;
Nos Estados Unidos;
Pelos empresários;

Que capturando, mataram:
Esquartejando os corpos,
Dos líderes operarios;
Deixando os corpos em pedaços;

Pendurados em postes:
Para servir de exemplo;
Aos que apostem;
Duvidando da violência;

Dos empresários, em grupos:
Na usura; do que são capazes;
Em seus absurdos;
Negando reajuste salarial;

São capazes de repetir:
As chacinas igual fizeram;
Nos Estados Unidos;
Para intimidar os explorados.

Por esse motivo:
Tentam desvirtuar;
Os trabalhadores no Brasil 
No primeiro de maio;

Tentando transformar:
O histórico dia de luta;
Data para os trabalhadores resistir;
Induzem os trabalhadores;

Nesse data festejar:
Com toda disfarçadez;
E, na; esperteza imoral;
Procuram esconder;

Tentam banir da memória:
Das classes trabalhadora;
Os horrores cometidos;
No capitalismo selvagem.

Como lembrete: 
Aos dominantes no Brasil.
O povo no mês de maio;
Têm que parar; é o mês inteiro.

Todos; saindo para protestar:
Em protesto resistindo;
Contra as chacinas cometidas;
Por grupos empresarial;

Mantendo o protesto:
Não só, no primeiro de maio;
Mas; por todos os dias,
Da primeira; semana, de maio;

Com os trabalhadores:
Unidos no planeta;
Em combate aos horrores;
Do selvagem imperialismo

J. Ernesto Dias

São Luís, MA - 14 de abril de 2026"


FRENTE REVOLUCIONÁRIA DOS TRABALHADORES/FRT

PARTIDO COMUNISTA DOS TRABALHADORES BRASILEIROS/PCTB

segunda-feira, 13 de abril de 2026

GOLPISMO: O projeto oculto das elites brasileiras * David Deccache/Outras Palavras

GOLPISMO: O projeto oculto das elites brasileiras
/OutrasPalavras

País segue sem perspectiva de futuro. Mas é enganoso culpar cultura do curto prazo. Há séculos, um setor sabe manter-se à tona e enriquecer, enquanto a maioria estagna. A partir de 2008, este ardil tomou a forma de um programa regressivo claro.

Tornou-se lugar comum afirmar que o Brasil sofre de curto-prazismo. A ideia aparece em análises econômicas, debates políticos e editoriais, geralmente associada à incapacidade do país de formular projetos estruturais de longo prazo.

Esse diagnóstico não é destituído de fundamento. Ele capta um traço visível da experiência política brasileira: a fragmentação das políticas públicas, a instabilidade institucional e a dificuldade de sustentar agendas estruturais voltadas à maioria da população e superação da posição periférica do Brasil na divisão internacional do trabalho. Seu limite está em permanecer no plano da manifestação.

Quando observamos a formação econômica e social brasileira sob a lente do conflito entre classes na especificidade de um país periférico, percebe-se que o que aparece como curto-prazismo para a maioria é, na realidade, a forma pela qual o projeto de longo prazo das classes dominantes se impõe.

No cotidiano da maioria dos brasileiros, o Estado aparece como gestor da urgência. A política social assume a forma de programas focalizados, transitórios e permanentemente condicionados à conjuntura fiscal e eleitoral. Direitos são implementados de maneira parcial, sujeitos a contingenciamentos e revisões constantes. Essa dinâmica produz a sensação de improviso permanente e alimenta a percepção de que o país é incapaz de planejar o futuro.

Se o improviso é visível para todos, o que ninguém pode ver, porque simplesmente não existe, é sequer um esboço de projeto consistente de transformação estrutural. Não há qualquer horizonte de mudança na distribuição de renda, na universalização de direitos e serviços públicos ou no reposicionamento do Brasil na divisão internacional do trabalho. Permanece intocado o padrão centro-periferia que organiza a economia nacional, sustentado por frações dominantes vinculadas ao complexo primário-exportador e ao capital rentista.

Ao mesmo tempo, quando se observa a trajetória das (contra)reformas institucionais e econômicas brasileiras, emerge um quadro bastante distinto. O país possui uma longa tradição de planejamento estrutural quando se trata de organizar e reorganizar as condições de acumulação para atender aos interesses das classes dominantes em cada quadra histórica. Para não ir muito longe, o que foi o amplo conjunto de contrarreformas liberais que, de forma articulada e coordenada, conjugou medidas fiscais, trabalhistas, previdenciárias, monetárias e regulatórias, formuladas e implementadas com notável continuidade estratégica nos últimos anos, senão a consecução bem-sucedida de um projeto de país?

Essa dinâmica possui raízes profundas na própria formação econômica do país. O Brasil não foi estruturado como um espaço vazio à espera de um projeto nacional, como supõem os mais otimistas que ainda aguardam a emergência de uma burguesia nacional redentora. Foi organizado desde a origem para cumprir funções específicas na expansão do capitalismo mundial. Sua inserção como economia primário-exportadora, dependente de tecnologia, crédito e mercados externos, longe de resultar de improviso histórico, expressa uma forma particular de planejamento subordinado, internalizado e continuamente reproduzido por suas classes dominantes.

Mesmo quando o país avançou em um projeto mais estrutural de industrialização, esse processo foi rapidamente incorporado a um padrão de modernização conservadora, consolidado após o golpe de 1964 e a instauração da Ditadura Civil-Militar, que reorganizou o Estado como instrumento de repressão à classe trabalhadora. Se, de um lado, havia um projeto coordenado de industrialização, de outro persistiam o arrocho salarial, a precariedade dos serviços públicos, a manutenção das desigualdades sociais e regionais e o poder das velhas oligarquias associadas ao imperialismo.

Nesse percurso, após muitos anos de luta da classe trabalhadora, a Constituição de 1988 representou uma inflexão importante ao projetar um amplo sistema de direitos sociais e estabelecer o princípio da universalização das políticas públicas. A criação do Sistema Único de Saúde, a reorganização da seguridade social, a institucionalização de políticas públicas universais nas áreas de assistência, educação e proteção ao trabalho, a vinculação constitucional de recursos para políticas sociais, a ampliação dos mecanismos de participação social e a consagração de princípios de desenvolvimento nacional e de função social da propriedade expressaram a tentativa de aproximar o país de uma forma periférica e tardia de welfare state.

Ao mesmo tempo, porém, esse horizonte passou rapidamente a ser enquadrado por severas restrições macroeconômicas. No final dos anos 1980 e ao longo da década de 1990 consolidou-se um regime marcado pela liberalização financeira e comercial, pela austeridade fiscal e monetária e pela retração do papel produtivo do Estado, reconfigurado como organizador de amplos processos de privatização, em meio a uma crescente especialização primário-exportadora da economia. Tratava-se, em última instância, da afirmação de um projeto das classes dominantes articulado à reorganização neoliberal do capitalismo e subordinado às hierarquias da economia mundial, no qual a austeridade operava como mecanismo de precarização dos serviços públicos e de legitimação das privatizações.

O resultado foi a progressiva limitação das bases materiais de sustentação do projeto social esboçado na Constituição. Estabeleceu-se, assim, uma convivência tensa e subordinada entre uma arquitetura constitucional orientada à universalização de direitos e um regime macroeconômico neoliberal que restringe sistematicamente sua realização.

Durante a primeira década deste século, o projeto de inserção subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho, embora amplamente dominante, conviveu com uma espécie de ensaio social-desenvolvimentista de baixa intensidade que operou nos marcos institucionais abertos pela Constituição de 1988, precisamente porque não colocava em questão o núcleo estrutural do projeto liberal. A conjuntura externa favorável e o dinamismo do mercado interno permitiram alguma margem de acomodação social, abrindo espaço para concessões distributivas como a valorização real do salário-mínimo, a expansão das universidades públicas, a ampliação das políticas de transferência de renda, o aumento da formalização do emprego e a retomada do investimento público, especialmente em infraestrutura e no financiamento público ao investimento produtivo. Ainda assim, tratava-se de uma acomodação limitada, que produziu avanços sociais relevantes sem alterar os fundamentos do padrão dependente de acumulação.

Esse arranjo começou a se esgotar ao longo da década de 2010. Mesmo as concessões limitadas realizadas no período anterior passaram a gerar fricções crescentes no interior do padrão de acumulação.

De um lado, a crise internacional iniciada em 2008 aprofundava suas consequências no centro do capitalismo. A desaceleração do crescimento e a compressão das taxas de lucro intensificaram a pressão das grandes corporações e do capital financeiro por novos espaços de valorização. Nesse contexto, economias periféricas como a brasileira passaram a se tornar cada vez mais atrativas para o capital das potências imperialistas, sendo vistas como territórios privilegiados para a reabertura de oportunidades de acumulação e recomposição das taxas de lucro, seja pela ampliação da exploração de recursos naturais, seja pela apropriação de ativos estratégicos por meio de privatizações, liberalização econômica e desorganização de capacidades produtivas nacionais.

Por outro lado, a redução do desemprego, a elevação da renda do trabalho e o fortalecimento do poder de barganha da classe trabalhadora intensificavam os conflitos distributivos. A melhora das condições no mercado de trabalho ampliava o poder social do trabalho e tensionava as margens de rentabilidade do capital. Diante desse cenário, frações dominantes da burguesia doméstica passaram a pressionar pela recomposição das taxas de lucro e pela restauração da disciplina sobre o trabalho, tendo a austeridade fiscal e o ajuste do gasto social como instrumentos centrais dessa ofensiva.

O espaço político e econômico para concessões, por mínimas que fossem, à classe trabalhadora começou, então, a se fechar rapidamente. Frações dominantes do capital passaram a se mobilizar de forma cada vez mais agressiva pela reversão daquele ciclo, exigindo a recomposição das taxas de lucro, a restauração da disciplina sobre o trabalho e uma profunda reconfiguração do Estado em favor da acumulação privada sem freios. Já não se tolerava sequer a manutenção daquele esboço inacabado e precário de projeto de bem-estar social inscrito na Constituição de 1988.

Foi nesse contexto que, a partir de 2015, o conflito se deslocou para um novo patamar. A tentativa do governo Dilma de recompor a confiança das frações dominantes por meio de um ajuste ortodoxo revelou-se rapidamente insuficiente. Veio o golpe. Para amplos setores do capital, já não se tratava de corrigir rumos ou administrar a conjuntura dentro dos marcos existentes. O que estava em jogo era a remoção dos limites institucionais que ainda restringiam a plena realização de seu projeto, especialmente aqueles inscritos na Constituição de 1988 e em sua arquitetura de direitos sociais. Nada que pudesse obstruir esse movimento seria tolerado, nem a democracia.

É nesse momento que ganha centralidade o documento Uma Ponte para o Futuro, apresentado em 2015 pelo PMDB, como plataforma programática das classes dominantes para a reorganização da política econômica brasileira. O texto defendia a consolidação de um regime de austeridade fiscal radical e permanente, a desvinculação constitucional de receitas orçamentárias, a revisão dos mecanismos de indexação do gasto público, a ampliação das privatizações e concessões, a flexibilização das relações de trabalho e uma abertura mais ampla da economia ao capital privado, nacional e estrangeiro. Tratava-se de uma ofensiva destinada a remover qualquer limite institucional ainda preservado pela Constituição de 1988 à expansão do capital, liberando sua tendência a converter em mercadoria tudo o que encontra pela frente, a submeter sem freios o trabalho e a natureza à lógica da valorização e a dissolver os remanescentes de soberania econômica nacional.

Nos anos seguintes, essa agenda se materializou em uma série de contrarreformas estruturais: a instituição do teto de gastos por vinte anos, cuja lógica reapareceu no atual regime fiscal; a contrarreforma trabalhista, que desmontou mecanismos de proteção ao trabalho; as mudanças no sistema previdenciário, que ampliaram o espaço para a previdência privada; a autonomia formal do Banco Central; e a expansão de programas de privatização, concessões e parcerias público-privadas. Consolidou-se, assim, um Estado simultaneamente austero no plano social e ativo na reorganização institucional e regulatória necessária à ampliação dos processos de desestatização.

Longe de qualquer improviso ou curto-prazismo, avança a pleno vapor um projeto de longo prazo para as elites, enquanto a maioria não sabe se poderá se aposentar, se os jovens terão um emprego minimamente digno ou, em muitos casos, se haverá comida na mesa amanhã.
***

quinta-feira, 9 de abril de 2026

III Reunião Nacional do Capítulo Brasil – Internacional Antifascista

 III Reunião Nacional do Capítulo Brasil – Internacional Antifascista

Acontecerá em São Paulo, nos próximos dias 11 e 12 de abril, a III reunião nacional do Capítulo Brasil da Internacional Antifascista, quando serão debatidas as tarefas atuais no combate anti-imperialista, antifascista e em defesa da soberania dos povos.

A Internacional Antifascista foi criada em Caracas (VNZ), durante o Congresso Mundial contra o fascismo, o sionismo, o nazismo e outras práticas similares, com a participação de delegações de 97 países. O Capítulo Brasil foi formalizado em fevereiro de 2025, durante reunião em Brasília com dezenas de organizações. 

Construir a unidade contra o inimigo comum dos povos é a tarefa principal.

A III Reunião Nacional acontecerá nas dependências do Sindsep com a seguinte programação:

Dia 11/04, às 9hs (sábado)
Ameaça imperialista contra Cuba, Venezuela, Irã e Brasil 

Mesa de Debates:
Amyra El Khalili - Movimento Mulheres Pela Paz na Palestina
Benigno Perez - Cônsul Geral de Cuba em São Paulo
Sheik Hossein Khaliloo -  Centro Islâmico Imam Al Mahdi de Diálogo no Brasil - CIADB, Irã 
Marcelo Buzzeto - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST 

Mediação:
Pedro César Batista - Comitê General Abreu e Lima
Gabriela Gomes - Comitê General Abreu e Lima 

Dia 11/04, às 14hs (sábado)
Internacional Antifascista como instrumento de combate ao imperialismo e ao fascismo 

Mesa de Debates: 
Igor Grabois - Liga Comunista Brasileira - LCB
José Reinaldo - Centro Brasileiro de Solidariedade Aos Povos e Luta Pela Paz - Cebrapaz
Antonio Lima - Partido Comunista Brasileiro - PCB

Mediação:
Andreia Destefani - Grupo Emancipação do Trabalho - GET
Érico Cardoso - Grupo Emancipação do Trabalho - GET

Dia 11/04, às 17h (sábado)
Lançamento dos livros

"Textos Reunidos" de Maurício Grabois
"Marcha Interrompida" de Pedro César Batista. 30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás.

12/04, às 9h (domingo)
Informes, organização e ações

12h - Encerramento

Local:
Sindsep - Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo
Rua da Quitanda, 101/106, Centro
São Paulo 




quarta-feira, 8 de abril de 2026

RETOMAR A LUTA PELA SOBERANIA NACIONAL * Liga Comunista Brasileira/LCB

RETOMAR A LUTA PELA SOBERANIA NACIONAL

No atual contexto, de evidente crise da hegemonia imperialista estadunidense, o governo Donald Trump responde com uma política abertamente agressiva e neocolonial. Formas de dominação mais insinuantes, pela via do soft power, são substituídas por uma retórica e ações mais contundentes. A política imperialista é defendida sem meias palavras, impondo-se aos países da periferia do sistema um estado de exceção permanente.

Se quiser manter sua influência global, o imperialismo estadunidense precisa assegurar o controle da América Latina como base para sua projeção mundial. Para tanto, a reafirmação da antiga estratégia, de “América para os americanos”, exposta na Doutrina Monroe no começo do século XIX, é retomada com virulência. Expressando a personalidade narcísica do atual comandante da Casa Branca, agora se chama Doutrina Donroe. Mas se a Doutrina Monroe queria barrar a influência europeia nas Américas, a Doutrina Donroe tem como seu adversário a China.

Na luta dos Estados Unidos para reverter sua crise hegemônica, o Brasil é uma peça-chave. Somos o maior país da América Latina em dimensões territoriais, temos a maior população e a natureza nos dotou de grandes riquezas naturais cobiçadas pelo imperialismo. Temos importante projeção regional, com a luta de classe em nosso país repercutindo na luta de classe das nações do entorno.

Por todas essas razões, a eleição presidencial de 2026 assume uma importância decisiva para o futuro do Brasil. Paira sobre o nosso país uma grave ameaça de recolonização. Facções da burguesia brasileira, galvanizadas pelo bolsonarismo, defendem uma submissão completa do país aos interesses estadunidenses. Em congresso de líderes políticos fascistas, nos Estados Unidos, o candidato Flávio Bolsonaro declarou, caso eleito presidente, que colocará toda a riqueza das terras raras brasileiras a serviço dos Estados Unidos em sua disputa concorrencial com a China.

Essa manifestação de subserviência extrema reflete a política dessas facções, para quem a associação subordinada com o imperialismo estadunidense é um dado inquestionável. A instituição da presidência da República seria transformada em uma espécie de autoridade delegada pelos presidentes dos Estados Unidos.

As forças majoritárias da esquerda brasileira, nos seus últimos 50 anos, secundarizaram a questão nacional. Parida nas lutas contra a ditadura, e sofrendo com o impacto da dissolução do campo socialista, a questão democrática ocupou todas as suas preocupações. Teve até quem definiu a democracia como dotada de valor universal. Ela também embarcou na canoa furada da globalização, ignorando a permanência do imperialismo.

A luta pela soberania nacional deve ser resgatada com urgência pela esquerda brasileira. É impossível apresentar um programa político de superação das nossas contradições sociais, sem propormos um programa político capaz de resgatar a soberania nacional em todas as suas dimensões. Ambas as lutas, no contexto brasileiro, entram em contradição direta com o capitalismo. Associada em diferentes dimensões ao imperialismo, a classe dominante brasileira é o maior obstáculo à conquista de um país soberano e de uma superação da miséria e da pobreza do nosso povo. É urgente nos livrarmos da nossa classe dominante para não sucumbirmos a um projeto de recolonização do Brasil.

Para isso, será preciso construir instrumentos políticos capazes de unificar diferentes forças e personalidades em torno de um programa anti-imperialista como pressuposto das transformações econômicas, políticas e sociais revolucionárias em nosso país.

A MALHAÇÃO DO JUDAS E A MALHAÇÃO DA DITADURA MILITAR

A Malhação do Judas é uma tradição cultural de cunho religioso de vários países da América Latina. A malhação do Judas ocorre no sábado de Aleluia, dentre as festividades da Páscoa católica.

Tradição herdada da cultura ibérica, a malhação faz referência à traição de Judas, que delatou Jesus às autoridades romanas em troca de trinta moedas de prata. O evento é realizado em diversas cidades e bairros Brasil a fora.

Um boneco representando o personagem é espancado ou queimado. Em Itu, o boneco é explodido com fogos de artifício.

Em alguns locais, a festa assume caráter carnavalesco. E políticos desgastados e pessoas impopulares são personificados no Judas a ser malhado.

Na época da ditadura, os presidentes generais foram alvo da ira popular na forma do Judas malhado. No período final do regime, o ditador Figueiredo era o Judas favorito do povo nos bairros e cidades pequenas Brasil a fora. A criatividade popular transformou a festa religiosa em diversão e protesto social.

Neste ano, em alguns lugares do Brasil e no México, onde a tradição é mantida, a malhação do Judas teve Donald Trump como alvo da ira e do protesto popular. 

 Segue um documentário sobre a malhação do Judas, dirigido por Vitor Diniz e Danilo Agripino: https://www.youtube.com/watch?v=ZMvVvpHGXhY.
***

terça-feira, 7 de abril de 2026

IVAN PINHEIRO FEITO NAS LUTAS * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

  IVAN PINHEIRO FEITO NAS LUTAS

"MUITO AFETO E UMA BOA POLÊMICA NOS FESTEJOS DE MEUS 80 ANOS!

(Ivan Pinheiro)

No recente 18 de março, tive a honra de compartilhar momentos fraternos com camaradas de muitas lutas comuns, na Taberna da Glória, um restaurante icônico da boemia carioca. Emocionou-me o pluralismo respeitoso e unitário que contagiou os presentes, em sua grande maioria militantes ou ex-militantes de movimentos sociais e/ou de organizações do campo da esquerda.

A cada rosto amigo que eu encontrava e a cada corpo que abraçava – em alguns casos depois de décadas - me vinham à mente histórias alegres e tristes, vitórias e derrotas, mas sempre a sensação de que, apesar de tudo, sempre mantivemos o afeto, a confiança e o respeito mútuo. Muitas ausências físicas eram percebidas ao lado de amizades comuns, sobretudo dos que ficaram apenas em nossa memória, mas também daqueles que, por razões diversas, não puderam estar presentes, embora o desejassem!


Alguns dias antes, meu velho amigo e companheiro de lutas Arlindenor Pedro me telefonara perguntando se poderia fazer um documentário durante a comemoração, o que aceitei de pronto, e se eu queria conhecer seu trabalho antes da divulgação pública, o que obviamente não aceitei, em respeito à sua iniciativa e aos seus critérios. Sugeri alguns poucos nomes de camaradas com quem compartilhei lutas nos movimentos secundarista, universitário e sindical e nos partidos em que tive a honra de militar, mas o deixei à vontade para fazer suas escolhas.


Foi difícil moderar a emoção ao assistir com calma os cerca de 40 depoimentos do documentário, revisitá-los no dia seguinte e constatar a unidade, a harmonia e a alegria que marcaram a inesquecível comemoração. Mexeu muito com meus sentimentos rever cada um dos presentes, cada uma das minhas cinco filhas, cada um dos meus três netos e três netas. A ausência física mais sentida foi da minha companheira Stela, que se encontrava internada tratando de uma pneumonia, o que quase me levou a suspender o encontro, não fora sua firmeza em me estimular a mantê-lo. Teve alta alguns dias depois e recuperou a saúde de sempre. As presenças virtuais mais sentidas foram de minha única irmã, ausente também por saúde, e da minha mãe e do meu pai, por saudades.


Quanto ao documentário, era previsto que dois temas tivessem relevo nas entrevistas, entre os quais o histórico “racha” do PCB, em janeiro de 1992, e o desfecho da campanha salarial dos bancários cariocas, em setembro de 1979. O primeiro não gerou qualquer controvérsia nos depoimentos, pois eu jamais convidaria para meu aniversário o principal antagonista que ajudei a enfrentar e derrotar naquela ocasião, o líder oportunista de um movimento cujo objetivo principal era enterrar em vida o PCB, fundado setenta anos antes.


Mas quanto ao outro tema polêmico, era natural que aparecessem as divergências. Afinal, eu havia corretamente convidado protagonistas dos dois lados que naquela época disputavam a hegemonia do sindicato, ou seja, meus melhores companheiros de diretoria e meus melhores adversários da oposição, entre os quais o mais representativo, o combativo e coerente companheiro de lutas Cyro Garcia, meu principal antagonista político no ambiente sindical bancário carioca, a quem enfaticamente convidei para a confraternização de meu aniversário, sugerindo que se pronunciasse no documentário que seria gravado durante o evento. A foto do grupo de bancários que ilustra este texto expressa o afeto e o respeito mútuo que todos herdamos deste episódio de quase meio século atrás!


Por conta das controvérsias que surgiram na fala de outros depoentes, em relação àquela importante greve - que até hoje merece e pede um debate público entre seus protagonistas - o autor do documentário percebeu a importância das palavras de Cyro, ao qual dedicou um tempo maior e a abertura da lista de pronunciamentos, com sua interpretação dos desenvolvimentos e do desfecho daquele movimento grevista, com a qual concordo em muitos aspectos, exceto algumas de suas opiniões e informações, em alguns casos inclusive em relação à veracidade dos fatos.


Tendo em vista que, por decisão minha, gravei os dois minutos de meu agradecimento para o final do vídeo sem conhecer qualquer dos depoimentos, permito-me polemizar aqui com algumas declarações do companheiro Cyro, começando por uma frase sua: “Lamentavelmente, nós não tivemos o apoio total do sindicato na greve!”, uma inverdade que já tinha sido corrigida por Fernanda Carísio - também ex-presidente do Sindicato dos Bancários do RJ e opositora à diretoria que eu presidia - em um debate presencial público entre nós três, há cerca de 5 anos, na sede da entidade, que está registrado em um filme de Antonio Garcia, militante bancário daquela época, que opina a respeito da greve no documentário dos meus 80 anos, com uma abordagem interessante.


Lembro alguns fatos. A greve foi decretada em assembleia geral no dia 13 de setembro de 1979, uma quinta-feira, que acabou sendo o dia mais dramático de minha militância. Como presidente do sindicato, eu vinha desde o início da campanha contribuindo para a unidade de ação de todas as lideranças e forças de esquerda da categoria e para a sua mobilização, politização e organização, inclusive agitando a perspectiva de uma greve, num quadro político de explosão do movimento sindical brasileiro. Do primeiro ao último dia daquela campanha salarial, o sindicato colocou toda sua máquina política, financeira e material a serviço da luta, preparando-se inclusive para assegurar a sustentação de uma greve que desde o início da campanha se mostrava inevitável.


Apesar disso, na véspera dessa assembleia decisiva, o Comitê Central do PCB, do qual eu ainda não era membro, – sob o argumento absurdo de que as greves poderiam desestabilizar a chamada “transição democrática” - me impôs a tarefa de ser o principal orador contra a greve. Depois de uma madrugada tensa e insone, decidi acatar a decisão, por não me identificar com nenhuma outra alternativa partidária naquele momento e principalmente por decidir me credenciar a enfrentar a luta interna que já se manifestava timidamente, em um partido então clandestino, contra o reformismo e a conciliação de classes. Ao declarar a decisão da assembleia a favor da greve, tive o ímpeto de subir em cima da mesa do palanque, com o microfone nas mãos, assumindo a direção do movimento, juntamente com o unitário comando de greve previamente articulado.


Na sexta-feira, o primeiro dia da greve, percorri com megafone em punho todo o centro bancário da cidade, ao lado dos companheiros mais combativos da diretoria, estimulando os piqueteiros e convencendo os poucos bancários vacilantes a aderirem à greve. O sindicato se colocou desde cedo totalmente a serviço do movimento, disponibilizando toda a estrutura material ao seu alcance para o êxito da greve e preparando a Assembleia Geral que se realizaria naquela noite, na qual fui o primeiro orador, defendendo a continuidade da greve. Tratamos de organizar com funcionários e diretores a impressão de panfletos durante a madrugada, em nossa própria gráfica, com pequeno texto agitativo e um título do tipo “A greve continua!”.


Lembrando que à época não havia telefone celular, em meio ao meu discurso na Quadra do Salgueiro chegam ao palanque da assembleia jornalistas e diversos parlamentares de esquerda então ligados ao MR-8 e ao PCB (o Vereador Antonio Carlos de Carvalho, o Deputado Estadual Raymundo de Oliveira e os Federais Marcelo Cerqueira e Modesto da Silveira), pedem para eu interromper a minha fala e me informam que, naquele exato momento, o nosso sindicato já estava fechado e  ocupado pela Política Federal, sob a direção de uma junta interventora nomeada pelo Ministério do Trabalho. Além disso, informam que a Polícia Federal havia chegado discretamente na rua principal ao lado, com mandado de prisão contra mim, Cyro Garcia e Zola Xavier da Silveira, à época do PCB, um combativo diretor do sindicato.


Informei à assembleia a intervenção e o fechamento do sindicato mas não sobre as prisões, pensando em um esquema que acabou funcionando perfeitamente. No final da assembleia, depois de aprovada a continuidade da greve por unanimidade e em consenso com o comando de greve, mobilizamos dezenas de militantes para espalhar discretamente aos ouvidos dos milhares de bancários presentes a orientação para saírem da quadra pela porta da rua em que estavam os carros descaracterizados da Polícia Federal e ficarem conversando até que os perseguidos saíssem por outro local em carros oficiais de parlamentares e fossem levados para locais seguros, no meu caso a residência de Marcelo Cerqueira, em Santa Tereza.


Em resumo: “Nós não tivemos o apoio total do sindicato na greve” apenas quando os interventores e a Polícia Federal já o haviam ocupado!


A segunda divergência factual que tenho com o depoimento do companheiro é a respeito das nossas eleições sindicais de abril de 1985. Para se entender melhor a polêmica, no SEEB-RJ o mandato da diretoria até hoje é de 3 anos e o presidente não pode ser reeleito para um mandato consecutivo. Naquela época, militantes do PCB presidimos o sindicato por seis anos: eu, de 1979 a 1982, e Roberto Percinoto, de 1982 a 1985, quando perdemos a eleição para uma chapa da CUT, cujas lideranças principais eram o presidente eleito, Ronald Barata, que havia saído do PCB com Prestes em 1980 e militava no PDT de Brizola, e Cyro Garcia, da Convergência Socialista, à época uma das tendências do PT, que mais tarde criou o PSTU.


Cyro opina no documentário sobre a vitória da chapa que liderou junto ao Barata com alguns argumentos que colidem com a verdade. O mais grave foi afirmar textualmente que nessa eleição de 1985 eu me utilizei do expediente de “dividir para reinar... Ivan dividiu o PT para ficar uma parte com ele”, desvalorizando e atribuindo a mim uma proposta unitária que não era nem ideia e muito menos “malandragem” minha, como ele sugere, mas uma articulação séria e correta, proposta publicamente alguns meses antes não por mim nem pela diretoria do sindicato, mas pelo MUDE, uma corrente bancária de esquerda socialista, também de oposição à diretoria do sindicato, petista e cutista como a Convergência Socialista!


A proposta era inédita no ambiente sindical brasileiro e tinha objetivos unitários e combativos para além do SEEB-RJ. A ideia era formar uma nova diretoria do sindicato em que estivessem todas as forças de esquerda presentes na categoria, forjando assim uma unidade de ação. Um processo eleitoral democrático, em que os diretores do sindicato seriam eleitos pelos seus próprios colegas de trabalho e não como nomes incluídos em chapas fechadas por cúpulas partidárias. Em resumo, respeitando a proporcionalidade na categoria, a diretoria de 24 membros teria 4 empregados do BANERJ, 4 do Banco do Brasil e 16 de bancos particulares, eleitos pelos sindicalizados dos seus respectivos bancos. Pela liberdade sindical de que gozavam, os do BANERJ e do Banco do Brasil seriam eleitos pelos votos secretos de seus colegas em seus locais de trabalho e os dos demais bancos, a maioria particulares, em assembleia geral.


Reproduzo abaixo o resumo de um boletim do MUDE, de 28 de janeiro de 1985, que pode ser visto na íntegra ao final deste texto. Trata-se da apresentação de seus candidatos do BB e da exposição de sua proposta, aprovada por imensa maioria em uma Assembleia Geral específica da categoria, convocada pela diretoria do sindicato, em que a Convergência Socialista foi amplamente derrotada e se recusou a acatar a decisão soberana:
MUDE (Chapa 2 – Oposição bancária)

“AGORA VOCÊ PARTICIPA:


Neste ano, a eleição para nosso sindicato será diferente. Até aqui, os grupos se reuniam, conchavavam propostas e nomes, formavam e registravam as chapas e só então iam à categoria pedir votos. Agora o processo está sendo muito mais democrático, dando condições à participação de todos. A Assembleia Geral do último dia 17 aprovou, em seus pontos essenciais, a proposta de processo eleitoral democrático que o MUDE vinha defendendo há meses... Em primeiro lugar, permite a todo e qualquer bancário sindicalizado propor nomes e influir na definição da chapa, diminuindo muito a margem de manobra dos especialistas do conchavo, o que ajudará, sem dúvida, a arejar e desburocratizar nosso sindicato. Em segundo lugar, não exclui da diretoria as chapas minoritárias ... porque o preenchimento das vagas vai se dar na proporcionalidade obtida por cada uma delas. E isso também, evidentemente, contribui para fortalecer o Sindicato.


QUEM TEM MEDO DAS PRÉVIAS?


“... Durante anos e anos exigimos a democratização do Sindicato. Durante este tempo todo combatemos a prática eleitoral dos conchavos de nomes. É por isso que discordamos veementemente dos outros setores da oposição que, após serem derrotados na Assembleia do dia 17, não acatam esta decisão soberana da categoria e, dividindo a oposição, insistem em concorrer pelo processo tradicional do “prato feito”, do conchavo e da exclusão. Quanta incoerência!”


Tendo deixado claro que não fui eu que desrespeitei a decisão da assembleia e muito menos que “dividi o PT para reinar”, revelo aqui a minha reação à proposta apresentada pelo MUDE, depois de estudá-la com atenção, concordar inteiramente com seus termos e confiar que seus membros a honrariam em qualquer circunstância.


Em primeiro lugar, nunca imaginei que parte da oposição pudesse ser contra aquela proposta, até porque lhe era amplamente favorável naquela conjuntura de desgaste do PCB. Portanto, minha decisão de apoiá-la levava em conta a possibilidade de esse processo democrático resultar na eleição de um presidente do sindicato do campo oposicionista, hipótese na qual meu candidato “in pectore” era Ronald Barata, com quem sempre mantive uma relação madura e cordial .


Foi difícil e desgastante o debate interno sobre essa proposta, tanto na diretoria da entidade como no meu partido, com muitas resistências, de alguns com argumentação política sólida, seja com receio de a nova diretoria rachar seja porque eram contra a CUT e a favor da linha política do PCB, e de outros porque temiam perder sua vaga na chapa, por decisão de seus próprios colegas de banco. Não seria mais o PCB que os bancaria, mas a sua base! Graças ao empenho de alguns camaradas da diretoria e do partido e sobretudo da excelente repercussão que a proposta do MUDE teve na vanguarda bancária e nas bases, ela acabou passando na diretoria e no partido, por resultados apertados, e na Assembleia Geral por uma aprovação avassaladora.


No meu caso pessoal, assumo que me moviam em defesa da proposta duas perspectivas que julgava importantes não só para o SEEB-RJ, mas também para repercutir no movimento sindical brasileiro. Uma delas era a expectativa de construção de uma diretoria unitária, democrática e combativa, com lideranças de confiança das bases e a outra era de que nosso sindicato passaria a ter uma diretoria majoritariamente favorável à sua filiação à CUT, fato que teria uma repercussão nacional impactante no movimento sindical brasileiro mais combativo e que poderia ao menos postergar a degeneração progressiva dessa central.
Já em outro momento do seu pronunciamento no documentário, Cyro acerta em cheio, ainda que parcialmente, ao explicar a vitória da chapa de oposição: “nós nos aproveitamos da conjuntura, do apoio do Lula e do Meneguelli, que era presidente da CUT”.


Ele tem toda a razão: foi a conjuntura! A derrota da chapa identificada com o PCB em um sindicato plural e importante, em abril de 1985, era bastante provável, ainda mais no Rio de Janeiro. O PCB já estava no fundo do poço de sua conciliação de classes, desde que seu CC havia puxado o tapete no episódio da greve bancária de 1979, tido um papel decisivo, em 1983, para fundar a CONCLAT, que virou CGT, depois Farsa Sindical, em detrimento da CUT, que ainda estava no auge do seu “prazo de validade” como central sindical combativa, e depois de ter tentado retirar a chapa Marcelo Cerqueira/João Saldanha à Prefeitura do Rio, para apoiar Jorge Leite, do PMDB. Além do mais, nos dias daquela eleição sindical, no Rio de Janeiro o PCB era oposição à direita de Leonel Brizola e já costurava o apoio a Moreira Franco no ano seguinte, quando chegou ao ponto de retirar a candidatura própria do PCB a governador - tarefa que me fora atribuída por uma Conferência Política Regional - e cuja campanha não durou mais de 40 dias, até o registro no TRE da coligação do partido com o “gatinho angorá” do PMDB, como o chamava Brizola, e em detrimento de Darcy Ribeiro!
Durante os poucos dias de campanha, tive o orgulho de receber apoio público de algumas forças de esquerda, inclusive do PSTU, que ainda não tinha registro no TSE.


Cyro tem razão ao valorizar a importância do apoio formal de Lula à chapa que tinha como lideranças ele e Ronald Barata, que participaram da fundação da CUT em 1983. Lula, em 1985, já era a principal liderança popular em nosso país e ainda parecia um militante de esquerda. Mas o companheiro esqueceu de citar o personagem político que mais influenciou a vitória apertadíssima da chapa de oposição naquela eleição sindical: Leonel de Moura Brizola, então governador do Rio de Janeiro, apoiado pela maioria da classe trabalhadora e, além do mais, o principal responsável pelo BANERJ, quando ainda 100% estatal! E o candidato da oposição a Presidente do sindicato era Ronald Barata que, além do prestígio como grande liderança banerjiana, militava na ocasião no mesmo PDT de Brizola, o que obviamente sugeria aos seus colegas de banco um relacionamento amigável para suas demandas.


A derrota da nossa chapa em 1985 se deveu muito mais ao PCB que aos então dirigentes do sindicato e ainda teve um efeito nacional devastador para o peso que o PCB desde muito tempo tivera, como a força mais importante no ambiente sindical brasileiro.


Para se ter uma ideia da influência de Brizola no resultado eleitoral, das dezenas de urnas que colheram votos nas centenas de dependências bancárias do Rio de Janeiro, em 11 delas só votavam bancários do mesmo banco, no caso do BANERJ e do BB, que à época tinham seus principais departamentos no RJ. As demais urnas eram por bairros e nelas votavam os bancários de todos os bancos com agências na região, inclusive dos dois bancos públicos citados.


No BANERJ, onde as principais lideranças eram Roberto Percinoto (chapa 1) e Ronald Barata (chapa 2), esta venceu em todas as 5 urnas específicas. Já no BB, onde as principais lideranças éramos Cyro Garcia (chapa 2) e eu (chapa 1), esta venceu em 5 das 6 urnas específicas.


Concluo essa análise, sugerindo um debate público com as principais lideranças das diversas correntes que compartilharam as tensões e emoções da greve carioca bancária de 1979 e reproduzindo abaixo, na íntegra, o boletim do MUDE que comprova a origem da proposta de eleição da diretoria do sindicato a partir de prévias nas bases.

&
Ivan Pinheiro (2 de abril de 2026)"

FRENTE REVOLUCIONÁRIA DOS TRABALHADORES/FRT