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domingo, 26 de janeiro de 2025

VIVA OS POVOS DO MUNDO * ANGELO CAVALCANTE/RED

VIVA OS POVOS DO MUNDO
ANGELO CAVALCANTE*

Em 27 de janeiro de 1945, o imponente e glorioso Exército Vermelho irrompe os portões de Auschwitz.

O que se encontra, o que se vê ali, o que ao fim, se descobre é algo absolutamente inimaginável; nos pátios e alargados do Campo existem pilhas, amontoados e mesmo montanhas de cadáveres.

Já não são humanos…

São ossadas, carrancas e caveiras humanas com expressões de dor, angústia e muito, muito sofrimento!

Todos foram assassinados!

A maioria pereceu nas obscuras câmaras de gás, outros foram fuzilados e tantos outros morreram mesmo de frio, fome e desnutrição.

São homens, são mulheres, são velhos, são jovens, crianças, pessoas especiais e até bebês de colo.

Em assustador comunicado ao camarada Stalin, o líder soviético notadamente surpreso, questiona “se isso é mesmo possível”?

A conferência desse morticinio, desses infinitos mortos, desses combalidos, é algo impossível; mesmo os mais veteranos e experimentados oficiais do Exército Vermelho, tocados, sensibilizados e com olhos marejados, se surpreenderam com o tamanho do ódio e da impiedade dos alemães.

Não por acaso, esse é precisamente o Dia Mundial de Lembrança do Holocausto.

Comunistas libertaram judeus! Afora desse fato, não há história!

Vamos tentar situar um pouco dessa jornada absolutamente impressionante…

Sob o Reich nazista, a Alemanha havia se convertido na principal potência militar do planeta; naquela altura não havia, de fato, força militar que se comparasse ao poderio alemão.

Sem contar a disciplina, a capacidade de organização, a superioridade tática e formativa da tradicional escola militar prussiana e, sobretudo, o fundamental sentimento nacional e pátrio e que fora criado pelo nazismo.

Orientado pelo lebensraum ( cf. Friedrich Ratzel ) ou a ampliação dos espaços vitais para o próprio desenvolvimento do império alemão, a wehrmacht, as mesmas forças armadas alemãs, não raro eram tidas como força incomparável.

Lideradas e conduzidas pelo fanatismo ultra-nacionalista de Adolf Hitler ( 1889-1945 ), um cabo medíocre, inexpressivo e advindo das ruínas, flagelos e derrotas alemãs da Primeira Guerra Mundial ( 1914-1918 ), o nazismo como força política só pode ser compreendido e traduzido no contexto da pior crise econômica da história da Alemanha o que envolveu, inclusive, taxas e índices inflacionarios dos maiores da história econômica mundial.

Em síntese, a Alemanha, no imediato fim da Primeira Guerra Mundial, é um desterro, um ambiente distópico de miséria, pobreza, mágoas, ressentimentos e muitas lacunas políticas ao dispor, inclusive, da extrema direita.

Pois bem…

É necessário somar a esse quadro, lutas e refregas políticas entre comunistas e sociais-democratas e que, desapercebidos, não identificaram ou conseguiram identificar, a serpente do nazismo avançando, se expandido pelos esgotos da política alemã.

Quando a II Grande Guerra é por fim, eclodida e declarada como tal em primeiro de setembro de 1939, tem-se início o pior, mais brutal e desumano conflito militar da história humana.

Em outros termos, não há guerra que se compare com o apetecido nos infames e desgraçados anos da Segunda Guerra Mundial.

O conflito fora responsável pela morte de, pelo menos, setenta milhões de seres humanos.

Nesse ambiente, a máquina de guerra alemã seguia vigorosa e destruindo tudo o que encontrava em sua frente; países como Polônia, Hungria, Checoslováquia, Bélgica e Holanda foram devastados pela tempestade de morte alemã.

Algo, no entanto, estava no meio do caminho da ferocidade, da sanha nazista; justamente a única nação que conseguiu se industrializar fora do capitalismo: a União Soviética.

Vejam só…

Para Hitler, os povos eslavos, como de resto, todos os povos do mundo, eram necessariamente inferiores e “comprovadamente” incapazes se comparados com a superioridade genética e racial dos assim ditos arianos, logo, é natural e condição que essa “gentalha” seja dominada, submetida e escravizada.

Esse, não por menos, é o essencial do Mein Kampf ( Minha Luta ) de Hitler e que virou uma doxa , uma espécie de bíblia da loucura extremista dos nazistas.

Ocorre que as teorias de superioridade/inferioridade natural não se aplicaram, tampouco se revelaram nos efetivos campos de batalha de uma Europa devastada.

A resistência aconteceu com firmeza e coragem, inclusive, em guetos dominados pelas forças do nazismo.

Dentre os muitos equívocos da estratégia nazista estava a invasão da União Soviética perpetrada pela assim batizada Operação Barbarosa.

Ocorre que a matança desmedida e sistematizada dos alemães contra, sobretudo, camponeses russos, era algo surpreendente pela violência, crueldade e perversão. Essa marcha seguia de vento em popa e é preciso lembrar e recordar que nenhuma nação sofreu ou perdeu tantos dos seus concidadãos como o povo russo.

A estimativa geral é que, ao menos, vinte milhões de russos tenham sido mortos durante a Guerra.

Ocorre que, bem sabemos disso, a história nunca e jamais é linear e muito menos se repete; sob o juízo esquemático e previsível de Hitler na invasão do território soviético, as hordas nazistas, contrariando aberta e frontalmente as recomendações do Estado-Maior alemão, se dividiram em três frentes.

A primeira frente seguia em direção a Leningrado, a seguinte para a capital Moscou e a terceira para a cidade industrial de Stalingrado.

Era, enfim, a deixa para que os “vermelhos” realizassem, vejam bem, a maior matança militar e que o mundo moderno havia presenciado.

Sob a firme liderança de Stalin e sob o comando dos marechais Zukov, Chuikov, Tukhatchévsky, Yeremenko e Rokossovsky, as tropas soviéticas partiram firmes e decididas contra os alemães o que envolveu, inclusive, lutas corporais, rua por rua, prédio por prédio, casa por casa.

Stalingrado se converteu em espécie de “caldeirão” de sangue e morte; dos cinco milhões de invasores alemães restaram pouco mais de cento e cinquenta mil soldados.

Estavam famelicos, vestindo farrapos e andrajos e dura e penosamente açoitados pelo fatal frio russo, pela fome e pelo tifo.

Nas margens do Rio Volga, milhares e milhares de cadáveres de jovens soldados alemães se espraiavam em seus contornos.

Stalingrado virou uma necrópole!

O drama dos soldados alemães atingiu um nível tal de sofrimento e degradação que tal quadro atingiu, inclusive, a moral e a compaixão dos soldados soviéticos e que, encarecidamente, pediam-lhes rendição; que poupassem suas vidas, posto que a batalha estava encerrada. Ao fim, lhes seria oferecido abrigo contra o frio com chá e sopa quente.

Coube ao Marechal Paulus, líder da campanha alemã em solo russo, em aberta divergência às determinações de Hitler, o acerto e acordo da rendição, o que permitiu salvar milhares de vidas alemãs.

Bom…

Acerca da memorável Batalha de Stalingrado, o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade fiou o poema “Stalingrado” onde diz:

“Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades! O mundo não acabou, pois que entre as ruínas, outros homens surgem,
a face negra de pó e de pólvora e o hálito selvagem da liberdade dilata os seus peitos, Stalingrado, seus peitos que estalam e caem, enquanto outros, vingadores, se elevam”.
(Rosa do Povo (1945). In Carlos Drummond de Andrade. Poesia e Prosa. Rio de janeiro, Editora Nova Aguilar, 1983).

Pois bem…

Em tempos de ascensão neofascista, em grave momento onde a extrema direita mostra suas unhas e dentes querendo, buscando barbarizar sobre os povos do mundo é necessário relembrar dessa história.

Aliás, fascistas odeiam… Odeiam a história.

Não passarão!
Stalingrado vive!
Viva a humanidade!

*Angelo Cavalcante
Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.