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quarta-feira, 5 de abril de 2023

Entrevista de Leonel Brizola Fevereiro de 1964 * Jornal A Pátria

Entrevista de Leonel Brizola Fevereiro de 1964


Dois meses antes do Golpe de abril de 64, Leonel Brizola foi entrevistado pela Monthly Review, revista que desde 1949 reunia a fina flor do pensamento marxista como Leo Huberman, Paul Baran, Paul Sweezy, Harry Magdoff e Fred Magdoff.

Esta entrevista de Brizola constitui mais uma prova de seu anti-imperialismo e revela como o pessoal da universidade aqui no Brasil o interpretou maldosa e equivocadamente como “populista”. A verdade era outra: Brizola foi um político socialista.

BRIZOLA GANHA DIREITO DE RESPOSTA CONTRA REDE GLOBO


MR – No momento Leonel Brizola é sem dúvida o líder popular mais influente da Frente de Mobilização Popular, um organismo que engloba a esquerda. Ele frequentemente fala ao povo na rádio mais ouvida do Brasil, ele fala uma linguagem clara usando muitas imagens e comparações.

BRIZOLA – “Você terá observado” (ele começou sem esperar a pergunta), “que o fato mais relevante no Brasil de hoje é a sua inflação. Nas atuais circunstâncias, a inflação é um problema insolúvel, porque sua origem é externa e controlada de fora, ela é um produto da pilhagem imperialista.”

MR – O processo inflacionário está acelerando?

BRIZOLA – “De janeiro de 1945 até dezembro de 1952 o custo de vida duplicou. Foram oito anos. Duplicou novamente de 1952 a 1958 em apenas seis anos, e de 1958 a 1961, três anos; outra vez de janeiro de 1962 a junho de 1963, um ano e meio. Agora o custo de vida duplicará em oito ou nove meses.”

MR – Como o senhor explica isso?

BRIZOLA – “É como se o imperialismo tivesse colocado uma grande bomba de sucção em nosso corpo para poder sugar nosso sangue. Já que não podemos resistir, o imperialismo retira o sangue e injeta água no seu lugar. O dinheiro que é posto aí, que não representa valor real, é a água. E é assim que nós vivemos. Mas o colapso virá, está se aproximando a passos de gigante.”

MR – Como ocorrerá o colapso?

BRIZOLA – “Pouco a pouco a situação está se tornando mais difícil de segurar: em vista disso, as classes dominantes, apoiadas pelo imperialismo, estão se unificando para dar um golpe de direita, a fim de estabelecer um governo de força, uma ditadura, seja ela escancarada ou disfarçada. Evidentemente seria difícil impor uma ditadura, pois já não é fácil enganar o povo. Nós estamos dispostos a lutar, estamos preparados, e isso será o começo da luta revolucionária pela libertação nacional. O exemplo de 1961 mostra que o povo lutará junto com os seus irmãos do Exército – os sargentos, os cabos, os soldados e os oficiais nacionalistas”.

MR – Quais são as condições necessárias para essa luta?

BRIZOLA – “Organização e unidade. Nós tivemos problemas com os erros cometidos pelo partido Comunista e por Francisco Julião. Devemos no entanto reconhecer que Julião possui o grande mérito de ter despertado o setor mais oprimido da nossa população: os trabalhadores rurais. E nós acreditamos que todos esses erros serão superados. Nós não somos anti-comunistas, recebemos bem a todos os brasileiros patriotas que venham a lutar pela libertação de seu país. O problema latino-americano tem de ser concebido como um problema de libertação nacional. Sem libertação nacional não podem existir as reformas de base porque não se resolve problema da pobreza.”

MR – Como o senhor pensa a revolução?

BRIZOLA – “Em primeiro lugar precisa ter unidade de todo os patriotas. É imperativo que a revolução encontre soluções socialistas. E não é uma questão de escolher uma doutrina de um livro. Somente as soluções socialistas é que permitem a defesa dos povos contra o imperialismo.”

(Ele me interrompe, sorrindo, antes que eu possa fazer a próxima pergunta.)

BRIZOLA – “Você vai me perguntar como cheguei a estas conclusões. Na época em que me tornei governador, eu era político convencional com todos os preconceitos habituais. Eu estava convencido de que bastava uma boa administração, trabalhar duro para melhorar a situação do povo em todos os setores. Mas eu vi que o povo trabalhava mais e melhor e, apesar disso, estava ficando pobre. Então, eu tive a compreensão do problema da América Latina em conjunto. Depois, quando tomei medidas contra determinadas companhias que nos exploravam, eu vi diante de meus olhos o problema da opressão imperialista. Olhe: é como se você e eu quiséssemos arrumar a mobília desta sala, mas alguém está carregando-a para fora. Aí chega uma hora em que não há mais mobília para arrumar. Por conseguinte, a primeira tarefa nossa é fechar a porta para impedir a espoliação.”

FONTE

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Pelé: uma representação além do futebol * Carlos Santana - RJ

 Pelé: uma representação além do futebol

Rio de Janeiro, 30 de dezembro 2022


O ano de 2022 termina não só com o fim do processo de destruição do Brasil sob o governo de Bolsonaro, mas também com a perda física do nosso Rei do Futebol: Pelé, aos 82 anos, nos deixou no dia 29 de dezembro. Falamos de sua ausência física pois sabemos que seu nome e sua presença ultrapassam as questões materiais, uma vez que Pelé ultrapassou as barreiras do esporte, e como maior atleta do século XX fez do Brasil um país reconhecido internacionalmente.


Às portas do ano que se inicia, também teremos o retorno de Lula à nossa presidência. Ter em tão curto espaço de tempo a perda de Pelé e a posse de Lula nos leva a se envolver em questões fundamentais para reflexão a respeito de nosso povo brasileiro. É porque Pelé sintetiza a luta de um povo em sua busca por reparações históricas a partir de um esporte que no Brasil, nos primeiros anos do século XX, era apenas praticado por uma elite econômica e burguesa nas principais cidades do país. 


Ao levarmos em consideração as conquistas do Rei com a bola nos pés, abrimos nossos olhos para as referências do movimento de luta contra o racismo no Brasil ao longo dos anos que se sucederam após a Abolição. Logo o futebol, que viu brotar no ano de 1904 em Bangu, um bairro operário da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, o Bangu Athletic Club - assim mesmo, escrito em inglês por conta de sua diretoria ser parte britânica -, um clube de operários da fábrica de tecidos local e que, conta a história, foi palco não só da primeira partida de futebol no país e da chegada da primeira bola, como também foi o primeiro time da modalidade a ter em seu elenco um homem negro. 


Ainda nos subúrbios cariocas também vimos o Vasco da Gama, em 1923,  levar o campeonato carioca daquele ano, tendo em seu esquadrão jogadores negros. Times das elites cariocas, como América, Flamengo, Fluminense e Botafogo, que jogavam apenas com jogadores brancos, sucumbiram diante dos Camisas Negras. Fizeram história e tornaram-se referência para além dos gramados em um momento em que a questão racial no Brasil ainda era fortemente marcada pelos preconceitos e estereótipos herdados dos mais de três séculos de escravidão.


A morte de Pelé cai sobre nossas vidas em um momento importantíssimo para as políticas raciais no Brasil. Em 2023 será debatida a prorrogação da Lei de Cotas nas universidades do país, tendo como proposta sua ampliação da aplicação para mais 50 anos. Por isso, a importância de refletirmos da representatividade de Pelé ao pensarmos a reconstrução de nosso país após essa temporada de desmonte, uma vez que temos ciência de toda sua importância até mesmo a nível diplomático.

O único jogador de futebol a conquistar três títulos mundiais com a seleção de seu país é um homem negro, vindo do interior de Minas Gerais. Pelé é a personalidade mais conhecida do mundo quando falamos de Brasil. Interrompeu, em 1969, uma guerra civil  na África, destacando a importância de sua representação também para a população negra mundial. Sendo assim, podemos afirmar que Pelé junta-se a outras figuras brasileiras que têm papel fundamental na construção do Brasil moderno, em especial após a Segunda Guerra Mundial.


Diante deste processo de conquistas dentro e fora do mundo do esporte, Pelé está ao lado de figuras nacionais que atuaram em outras áreas. Não podemos deixar de cruzar sua pessoa com outras tantas erefrências de personalidades negras que também construiram as estradas da luta antirracista em nosso país, como Abdias do Nascimento e sua luta política pela libertação de presos políticos do Estado Novo, além de sua contribuição artística; Caó, cujo principal resultado de sua luta política foi ter incluído na Constituição de 1988 o racismo como crime inafiançável e imprescritível; Lélia Gonzales e seus estudos sobre a cultura negra no Brasil e sua participação na fundação no Movimento Negro Unificado; Benedita da Silva, a primeira senadora negra do Brasil e primeira vereadora negra da cidade do Rio de Janeiro; Milton Santos e sua contribuição à Geografia mundial, sendo a primeira personalidade de fora do mundo anglo-saxão e o primeiro brasileiro a receber o Nobel de Geografia; Conceição Evaristo e sua influência na Literatura pós-modernista; coronel Nazareth Cerqueira e sua política de segurança comunitária, repensando o papel da Polícia Militar no RJ; Marielle Franco, assassinada por impor sua voz contra as desigualdades sociais enquanto vereadora no Rio.


A lista de nomes e referências na luta contra as estruturas racistas no Brasil é grande. A representatividade das lutas de liberatação do povo negro no Brasil atravessam a histórica luta de Zumbi e desemboca em Anielle Franco e Silvio Almeida. Pelé, entre essas diferentes personalidades, é referência para jogadores também negros ao redor do mundo, e que brilharam ou ainda brilham e suas atividades. Não podemos esquecer de nomes do futebol, como Adriano Imperador que, mesmo tendo reconhecimento mundial, jamais esqueceu suas origens na Vila Cruzeiro; e Kilyan Mbappé, o segundo jogador mais jovem a conquistar uma Copa do Mundo com a seleção de seu país, em 2018, e que lamentou demais a partida de seu ídolo de referência. 


Nosso Rei, que nasceu Edson e se imortalizou Pelé, fez a seleção brasileira ser referência de pluralidade racial. O único monarca reconhecido por outros monarcas e repúblicas; um rei do povo, da ginga, do sangue bantu que ergueu um país. O maior de todos os tempos discursou para um Maracanã lotado que assistiu ao seu milésimo gol e nos deixou uma mensagem inspiradora, que dizia:  “Pelo amor de Deus, o povo brasileiro não pode esquecer das criancinhas, as criancinhas pobres”. Pelé, que sintetizava na cor de sua pele a história das raízes de nosso país, com seu jogo reinventou o futebol e descortinou o Brasil para outras nações. Foi diplomata de chuteiras, tendo sua imagem a marca da brasilidade; trajando o manto canarinho e fazendo história no Santos, tornou-se lendário.


Sua imortalidade estará presente na luta diária pela reparação histórica do povo negro no Brasil e no mundo. Teremos a oportunidade de retomar os debates de forma séria sobre a construção de uma verdadeira agenda antirracista atrelada aos novos tempos, durante o novo governo de Lula. Assim, podemos ter a certeza que seremos ouvidos para que em cada rua deste país, em cada subúrbio, periferia e favela do Brasil tenhamos o Rei como inspiração presente na vida de nossas crianças, jovens e adultos.



Carlos Santana 

Ex-deputado federal por cinco mandatos pelo PT-RJ; Presidente do Sindicato dos Ferroviários da Central do Brasil; Presidente estadual da CUT-RJ; Professor universitário; Doutor em História pela UFRJ e Bacharel em Direito.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

GADO EM APERREIOS * Alberto Maciel Natal RN

 GADO EM APERREIOS


E o desespero pintou

No seio da boiada 

Que estão a meio pau 

Com as gaias arriadas 


As gaias que digo é chifres

A famosa capela de vaca

Que impuseram sem pena ou dó 

Na cabeça desses babacas 


Começou o mimimi 

De falar asneiras da urna eletrônica 

Mentindo e alterando fatos

Esse povo é uma bronca 


Muitos já estão a

arrependidos

Sentem que perderam o voto

Em troca de uns trocados 

Mode abastecer suas motos


Uns dizem fui enganado 

Vou perder essa eleição 

Por apostar neste cornudo 

Isto foi arrumação do cão 


Enquanto ecoa no Brasil 

Um grito de liberdade 

Uma áurea de alegria 

Com intensa felicidade 


Fora armas, arremedo de cristão 

Fora propina, Centrão 

Fora falta de esperança 

Fora governo do cão 


Que volte nossa ternura 

Alegria ,fé e esperança 

Fora armas e violência 

Toda falta de segurança 


Aliás, falar em armas

Coisa desumana, ou pior 

Vamos tomar os trabucos dos bolsominions 

E enfiar em seus fiofós 


Alberto Maciel

Natal RN, 02/10/2022, 16hs10min