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quarta-feira, 18 de maio de 2022

A Chegada de Lampião no Inferno * José Pacheco da Rocha

A Chegada de Lampião no Inferno
José Pacheco da Rocha

Um cabra de Lampião

por nome Pilão Deitado
que morreu numa trincheira
um certo tempo passado
agora pelo sertão
anda correndo visão
fazendo mal-assombrado.

E foi quem trouxe a notícia
que viu Lampião chegar
o inferno nesse dia
faltou pouco pra virar
incendiou-se o mercado
morreu tanto cão queimado
que faz pena até contar

Morreu a mãe de Canguinha
o pai de Forrobodó
cem netos de Parafuso
um cão chamado Cotó
escapuliu Boca Insossa
e uma moleca moça
quase queimava o totó

Morreram cem negros velhos
que não trabalhavam mais
um cão chamado Traz Cá
Vira-Volta e Capataz
Tromba Suja e Bigodeira
um cão chamado Goteira
cunhado de Satanás.

Vamos tratar da chegada
quando Lampião bateu
um moleque ainda moço
no portão apareceu:
Quem é você, cavalheiro?
Moleque, eu sou cangaceiro:
Lampião lhe respondeu.

- Moleque, não; sou vigia
e não sou seu parceiro
e você aqui não entra
sem dizer quem é primeiro:
- Moleque, abra o portão
saiba que sou Lampião
assombro do mundo inteiro.

Então esse tal vigia
que trabalha no portão
dá pisa que voa cinza
não procura distinção
o negro, escreveu não leu
o macaíba comeu
lá não se usa perdão.

O vigia disse assim:
fique fora que eu entro
vou conversar com o chefe
no gabinete do centro
por certo ele não lhe quer
mas conforme o que disser
eu levo o senhor pra dentro.

Lampião disse: vá logo
quem conversa perde hora
vá depressa e volte já
eu quero pouca demora
se não me derem ingresso
eu viro tudo as avesso
toco fogo e vou embora.

O vigia foi e disse
a Satanás no salão:
saiba vossa senhoria
que aí chegou Lampião
dizendo que quer entrar
e eu vim lhe perguntar
se dou-lhe ingresso ou não.

- Não senhor, Satanás disse
vá dizer que vá embora
só me chega gente ruim
eu ando muito caipora!
eu já estou com vontade
de botar mais da metade
dos que tem aqui pra fora.

- Lampião é um bandido
ladrão da honestidade
só vem desmoralizar
a nossa propriedade
e eu não vou procurar
sarna pra me coçar
sem haver necessidade.

Disse o vigia: patrão
a coisa vai arruinar
eu sei que ele se dana
quando não puder entrar
Satanás disse: isso é nada
convide aí a negrada
e leve os que precisar

- Leve cem dúzias de negros
entre homem e mulher
vá lá na loja de ferragem
tire as armas que quiser
é bom avisar também
pra vir os negros que tem
mais compadre de Lúcifer

E reuniu-se a negrada
primeiro chegou Fuchico
com o bacamarte velho
gritando por Cão de Bico
que trouxesse o pau da prensa
e fosse chamar Tangença
em casa de Maçarico.

E depois chegou Cambota
endireitando o boné
Formigueiro e Trupe-Zupe
e o crioulo Quelé
chegou Caé e Pacáia
Rabisca e Cordão de Saia
e foram chamar Bazé.

Veio uma diaba moça
com a calçola de meia
puxou a vara da cerca
dizendo: a coisa está feia
hoje o negócio se dana!
E gritou: êta baiana
agora a ripa vadeia!

E saiu a tropa armada
em direção do terreiro
com faca, pistola e facão
clavinote e granadeiro
uma negra também vinha
com a trempe da cozinha
e o pau de bater tempero.

Quando Lampião deu fé
da tropa negra encostada
disse: só na Abissínia
oh! tropa preta danada!
o chefe do batalhão
gritou de arma na mão;
- Toca-lhe fogo, negrada!

Nessa voz ouviu-se tiros
que só pipoca no caco
Lampião pulava tanto
que parecia um macaco
tinha um negro neste meio
que durante o tiroteio
brigou tomando tabaco.

Acabou-se o tiroteio
por falta de munição
mas o cacete batia
negro rolava no chão
pau e pedra que achavam
era o que as mãos pegavam
sacudiam em Lampião.

- Chega traz um armamento!
(assim gritava o vigia)
traz a pá de mexer doce
lasca os ganchos de caria
traz um bilro de Macau
corre, vai buscar um pau
na cerca da padaria!

Lúcifer mais Satanás
vieram olhar do terraço
todos contra Lampião
de cacete, faca e braço
o comandante no grito
dizia: briga bonito
negrada, chega-lhe o aço!

Lampião pôde apanhar
uma caveira de boi
sacudiu na testa dum
ele só fez dizer: oi!...
Ainda correu dez braças
e caiu enchendo as calças
mas eu não sei dizer o que foi.

Estava travada a luta
duma hora fazia
a poeira cobria tudo
negro embolava e gemia
porém Lampião ferido
ainda não tinha sido
devido a grande energia.

Lampião pegou um seixo
e rebolou-o num cão
mas o que: arrebentou
a vidraça do oitão
saiu fogo azulado
incendiou o mercado
e o armazém de algodão.

Satanás com esse incêndio
tocou no búzio chamando
correram todos os negros
que se achavam brigando
Lampião pegou a olhar
não vendo com quem brigar
também foi se retirando.

Houve grande prejuízo
no inferno nesse dia
queimou-se todo dinheiro
que Satanás possuía
queimou-se o livro de pontos
perdeu-se vinte mil contos
somente em mercadoria.

Reclamava Lucifer:

horror mais não precisa
os anos ruins de safra
agora mais esta pisa
se não houver bom inverno
tão cedo aqui no inferno
ninguém compra uma camisa.

Leitores, vou terminar
tratando de Lampião
muito embora que não possa
vou dar a explicação
no inferno não ficou
no céu também não entrou
por certo está no sertão.

Quem dúvida desta história
pensar que não foi assim
querer zombar do meu sério
não acreditando em mim
vá comprar papel moderno
escreva para o inferno
mande saber de Caim

FIM



José Pacheco da Rocha, ou José Pacheco, como é mais conhecido, nasceu no Município de Corrientes, em Pernambuco, residindo algum tempo na cidade de Caruaru, naquele mesmo estado.

Viveu muitos anos em Maceió, Alagoas, vindo a falecer naquela cidade, provavelmente em 1954.

As histórias de gracejos são um dos aspectos marcantes dos cordéis de José Pacheco, considerado um dos maiores cordelistas satíricos do Brasil. Mas o poeta se dedicou também a outros temas, como histórias de bichos, religião e romances.

Seus folhetos mais importantes são História da princesa Rosamunda ou a morte do gigante e A chegada de Lampião no inferno.
***

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Dia do nordestino * Frente Revolucionária dos Trabalhadores / FRT

 DIA DO NORDESTINO

NORDESTE À GALOPE

THEO NETTO / RN
@theonetto_poeta


CADÊ O MEU ARRAIAL?


DESCULPAS PEÇO A SÃO JOÃO

POR NÃO FESTEJAR O SEU DIA

COM TODA AQUELA ALEGRIA

QUE  ME CAUSAVA EMOÇÃO.

MAS A TRISTE PANDEMIA.

NÃO RESPEITOU NOSSO DIA

ROUBOU O  NOSSO ARRAIAL,

E A FOGUEIRA  APAGOU

E ME CAUSOU ESTA DOR

QUE ME APERTA O CORAÇÃO.


MESMO TRISTE VOU SORRIR,

PARA A DEUS AGRADECER

PELA GRAÇA DE VIVER

CERCADA DE TANTO AMOR

DA FAMILIA E  DOS AMIGOS.

SE HOJE, MAIS VELHA ESTOU,

AGRADECIDA E FELIZ

POR TER SIDO ACORDADA 

POR FILHA E VIZINHA AMADA

COM LAUTO E GOSTOSO CAFÉ

QUE LHES VOU APRESENTAR

A FOTO QUE A NETA BATEU

PRA REGISTRAR O MOMENTO,

E O MEU AGRADECIMENTO,

POR TANTO AMOR E BONDADE

QUE ME TRAZ FELICIDADE

PRA GRITAR AOS QUATRO VENTOS

SOU UMA MULHER FELIZ! 

       E VIVA O SÃO JOÃO! 

       E VIVA O MEU ANIVERSÁRIO!



 AGORA, PRENDI A LUA


Outro dia  prendi o sol

Nas grades do meu terraço

Que pouco tempo ficou

Na prisão que lhe ofertei.

Pediu-me pra caminhar.

E para o Japão chegar

Onde só havia escuridão.


Ontem à noite,  eu prendi,

Nas grades da minha janela,

A lua  prateada e bela,

Que  airosa passeava,

Pelos caminhos do céu

Prateando e encantando

A nossa terra distante.


Mas, a prisão durou pouco,

Pois lembrei- me bem ligeiro

Que a Lua é dos namorados,

Dos seresteiros , coitados!

Que choram por um amor

Aí, então, senti grande dor,

Pois lembrei-me do passado,

Quando ao luar namorei,

E, encantada fiquei,

Vendo a lua e as estrelas,

Ao lado do grande amor.

E a elas fiz uma prece:

Nunca se apaguem do céu

Porque não existe véu ,

Que turve tanta beleza,

Que a nossa Mãe-natureza

A nós de graça nos dá.


E a lua agradecida

Piscou o olho pra mim

Parecendo me dizer: 

Obrigada,  amiguinha,

Preciso espalhar amor,

Na terra tão devastada

Por males e desamor.

Por isso eu já me vou.

Adeus, até outra noite!



RECIFE, CADÊ TEU SOL?


RECIFE de cara fechada,

não se pode ver

quase nada, 

há três dias o sol sumiu.


O vento faz rodopios,

no arvoredo, os pios

de passarinhos frientos,

de penas encharcadinhas,

pedindo as asas da mãe.


Nas ruas quase desertas,

não se vê janelas abertas,

só sombrinhas coloridas,

atestando que há vidas

na luta cotidiana.


Nos carros,

passam os sortudos 

(ou talvez os endividados),

que tentam, a todo custo,

lutar, para sem susto,

ao seu destino chegar.


Os menos sortudos passam,

de guarda-chuva na mão,

não há chuva que os impeça

de cumprir a obrigação,

pois o emprego é seu pão.


As plantas estão felizes,

a garantia da vida,

lhes chega pelas raízes.

Mesmo assim,

 esperançosas,

esperam a volta do sol.


Eu também, no meu casulo,

sinto o frio que aconchego 

tanto no corpo e na alma,

com um café bem quentinho,

com uma coberta fofinha,

e com a saudade que vem,

fazendo eu sempre sonhar

e relembrar o passado

que está sempre a dizer:

Na vida onde tudo passa, 

onde tudo se esvai,

só o amor verdadeiro

permanece por inteiro

dentro do coração.


SOU NORDESTINA


SOU NORDESTINA, e apois?

Eu não deixo pra depois

Pra falar do meu orgulho

Com seca, com pedregulho

E dizer: eu nasci no NORDESTE,

TERRA DE CABRA DA PESTE,

Que temem castigos divinos,

Que mudam nossos destinos,

Pelos pecados dos homens, 

Dos quais eu não cito nomes, 

Pra não melindrar ninguém,

Mas nisto existe um porém,:

A carapuça só cai 

Na cabeça de quem sai

Falando de NORDESTINO!

É bom que ninguém esqueça,

Nordestino é povo bom,

Da poesia tem o dom

Para cantar a Natureza

O amor, a fé, a beleza

A bravura, a lealdade, 

E toda nossa bondade 

Exuberantes entre nós

Por isso ergo minha voz

E grito: VIVA O NORDESTE!

VIVA EU, VIVA VOCÊ!

VIVA O POVO NORDESTINO!


ENAIDE VIDAL / PE

(Enaide de Alencar Vidal Pires)

Recife, 08/10/2020

08/10/2021 14:40 -

A POÉTICA NORDESTINA


NORDESTINIDADE

(Ilton Marques)


Poesia e cordel 

Se gosta desde criança

Minha terra é festança

De um estrelado céu

O sotaque é canção

Na voz de cada menino

Xote, xaxado e baião

Cantigas do coração

Viva o povo nordestino


Patativa do Assaré

Luiz Gonzaga do povo

Poema como renovo

De gente de muita fé 

Se longe está do rincão

Ele não faz desatino

E nunca esquece não 

Sua terra, seu torrão 

Viva o povo nordestino.


Hoje a gente comemora 

Nossa nordestinidade

Quem tá Íonge tem saudade

Quem daqui foi morar fora

P'resse povo, nosso irmão, 

Canto como se fosse hino

Faço a minha louvação 

O Nordeste é nosso chão

VIVA O POVO NORDESTINO!

DE NOVE ESTADOS SE FAZ O NORDESTE
RAISSA XAVIER


Cabra forte destemido

Que tem no país inteiro

Talvez o mais brasileiro

Corajoso e aguerrido

Por todo país tem sido

Cumpridor do destino

Sai de casa ainda menino

Pro planeta trabalhar

Quero parabenizar

O dia do nordestino.


Mote e glosa José Vieira


DIA DO NORDESTINO


Caboclo forte, arretado

Cabra da peste, danado

Retrato do meu  país

Trazendo em sua cerviz

A poeira do sertão

Bondoso de coração

Jovens, velhos e meninos

Aqui deixo meu abraço

Aos queridos nordestinos.


Autoria de professora Alba Valéria / GO


DIA DO NORDESTINO

DIA DO NORDESTINO * MARIO JR by RÁDIO VOZ LIBERTÁRIA

MÁRIO JR

(Colaborador)


*"O Dia do Nordestino é comemorado anualmente em 8 de outubro, no Brasil. Esta data homenageia a cultura nordestina e a diversidade folclórica típica da região Nordeste do Brasil. O povo nordestino é um grande tesouro da cultura nacional, um dos maiores traços da identidade do Brasil."*



"O sabiá no sertão

Quando canta me comove,

Passa três meses cantando

E sem cantar passa nove

Porque tem a obrigação

De só cantar quando chove

Chover chover

Valei-me Ciço o que posso fazer

Chover chover

Um terço pesado pra chuva descer

Chover chover

Até Maria deixou de moer

Chover chover

Banzo Batista, bagaço e banguê

Chover chover

Cego Aderaldo peleja pra ver

Chover chover

Já que meu olho cansou de chover

Chover chover

Até Maria deixou de moer

Chover chover

Banzo Batista, bagaço e banguê


Meu povo não vá simbora

Pela Itapemirim

Pois mesmo perto do fim

Nosso sertão tem melhora

O céu tá calado agora

Mais vai dar cada trovão

De escapulir torrão

De paredão de tapera

Bombo trovejou a chuva choveu

Choveu choveu

Lula Calixto virando Mateus

Choveu choveu

O bucho cheio de tudo que deu

Choveu choveu

suor e canseira depois que comeu

Choveu choveu

Zabumba zunindo no colo de Deus

Choveu choveu

Inácio e Romano meu verso e o teu

Choveu choveu

Água dos olhos que a seca bebeu

Quando chove no sertão

O sol deita e a água rola

O sapo vomita espuma

Onde um boi pisa se atola

E a fartura esconde o saco

Que a fome pedia esmola


Seu boiadeiro por aqui choveu

Seu boiadeiro por aqui choveu

Choveu que amarrotou

Foi tanta água que meu boi nadou

Zé Bernardinho

João Paraíbano

Toque pra boiadeiro


(Chover ou Invocação Para Um Dia Líquido - Cordel Do Fogo Encantado)

***