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sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Os desafios do Governo Lula na área Indígena (nistas) em 2023 * Eni Carajá Filho–MG.

Os desafios do Governo Lula na área Indígena (nistas) em 2023
Eni Carajá Filho–MG

A ampla pauta indígena que teremos que discutir no período vindouro da política, virá recheado de desafios e compreender essa lógica é passo fundamental no processo de construção de políticas extensivas aos indígenas e inclusivas a indigenistas que passaram por um período de quatro anos, somados a pelo menos seis séculos de expropriação de territórios originários, estávamos aqui muito antes da colonização das Américas e da nossa “pátria” genocídio, glotocidio, imposição de língua sobreposta as diferentes línguas mátria, tentaram o tempo todo desqualificar nossa ancestralidade, nossa espiritualidade e resistimos as intempéries da vida chegando ao final de 2022 assistindo um presidente que teve como pauta central o desfilamento de seu ódio contra os indígenas e as camadas mais empobrecidas da nossa sociedade, tanto indígena quanto a de matriz ocidental.

Na qualidade de pessoa indígena que foi obrigado a se submeter a toda opressão desse processo colonizador, que apaga as memórias e histórias, sufocando e amordaçando não somente aos indígenas e sim também boa parte de sociedade, pude viver desde criança as agruras passada pelo meu pai, um cidadão indígena que escapou desse processo de matança coletiva. Ganhou o mundo e como um jovem guerreiro seguiu o legado de seus pais chacinados João e Ana, além de outros parentes em nossa aldeia de referência ancestral, a Santa Isabel do Morro no estado do Tocantins, Ilha do Bananal assim resolvi fazer uma análise por meio deste texto.

As políticas indigenistas que discorriam sobre a forma e o comportamento que deveria ter o povo indígena há séculos, ditaram o desenho ideal para que a sociedade imaginasse ou compreendesse de quem se estava falando, de um povo nômade, primitivo, sem noção e idéias próprias, preguiçoso, que precisaria ser catequizado visando sair da condição de brugre, silvícola e que pudesse ser produtor e ter a mesma condição dos demais povos que viviam nas Américas.

O desenho foi o imaginário de que indígenas são os que moram em coletivo num lugar que se denominou aldeia, e que depois foi acrescida com as determinadas reservas, espaços de confinamento de seres humanos, e esqueceram que na mesma sociedade que pretendia dominar tinha indígenas que jamais foram contatadas, e esses ainda existem e resistem que havia indígenas vivendo em grutas, ocas, buracos, e ainda em localidades onde tinha outros povos, mais tarde essas localidades foram chamadas de cidades.

Atualmente os sinais claros de considerando todas as ofensa desferidas em nome da República pelo seu ocupante derrotado em 30 de outubro de 2022, deixou além de um alivio aos povos indígenas, uma grande esperança uma vez que o vencedor nesse pleito ter como uma de suas propostas a criação de uma instância pública que será o

Ministério dos Povos Originários, que além de uma proposição de coragem é uma ação contracolonizadora.

Defendo que o nome a esse Ministério ou Secretaria Especial vinculado a Presidência da Republica seja trocada de povos originários para povos indígenas, apesar de sermos originários, deparamos na sociedade com outros povos que também reivindicam status de originários.

Portanto como desafio não de uma comissão de transição, que a principio deveria ser composta por representações do governante que sai e do governante que entra, mas devido ao não reconhecimento da derrota o que sai não quer viabilizar a tranqüilidade ao governante que entrará ou seja a chapa Lula/Alckmin.

É preciso como já ilustrado no texto, sobre pena de fiasco, o governo Lula/Alckmin, diplomado em 12 de dezembro de 2022, que entenda a complexidade e a amplitude do que é o significado de Povos e de Indígenas nesse país, evitando mais uma vez o erro dos mesmos serem tratados como indígenas de primeira, segunda, e terceira categoria como entendem alguns, pois o próprio Ministro do STF Gilmar Mendes defendeu a tese do “bloco constitucional”, entendendo que a Emenda Constitucional nº 45/2004, editada no primeiro governo em que Lula era o presidente, equipararia a força hierárquica dos tratados de direitos internacionais ratificados pelo Brasil àquela da Constituição, portanto, a Convenção 169 de Organização Internacional do Trabalho foi investida pela sua ratificação no Brasil em uma legislação constitucional.

Essa tratativa internacional já traz o condão da autodeclaração e não precisaria de uma liderança de fora definir quem é ou quem não é indígena, acabou-se a tutela da Fundação Nacional do Índio – Funai, sobre as mesmas e os mesmos.

Outro desafio é o próprio entendimento de que as organizações indígenas jamais substituirão a narrativa própria dos povos indígenas, no individual e ou as vezes no coletivo, sua cultura especifica e ou seus modos e costumes, se alguns querem carregar longos cocares de pena tudo bem, temos que respeitar e do mesmo modo sermos respeitados se não adotamos esses adereços a nossa pratica e existência cotidiana.

Orçamento a um Ministério ou Secretaria Especial, outra questão uma vez que existem órgãos que tratam de questões indígenas dentro da estrutura oficial do Estado, a Funai veio a substituir o SPI e mesmo sendo esvaziada pelo militar que a preside a instituição como patrimônio Público precisa seguir existindo com sua missão de proteção, como uma instância autárquica com papeis específicos e necessário se faz é a auditagem nesse importante Orgão, uma vez que nos últimos anos agiu contrariando sua missão de criação.

Para Gregório, 1980, as condições que o SPI estava vivendo quando foi deparado que “familias indígenas eram submetidas a um processo lento de desapropriação e de extermínio, suas terras eram invadidas roubadas, sua têmpera amolecida pela cachaça, seus filhos condenados a morrerem a míngua, os renitentes abatidos a tiros...”

(Gregório,j,1980, pg 74). Essa menção ainda perdura contra Yanomamis e outros povos no nosso pais.

“Dessa forma e com fatos tão lamentáveis, uma Comissão Parlamentar e Inquérito – (CPI), de âmbito nacional, iniciou uma campanha de constatação dos fatos verídicos e achou por bem a supressão do Serviço de Proteção ao Índio, do Conselho Nacional de Proteção ao Índio e do Parque Nacional do Xingu, em substituição, o Congresso Nacional resolveu criar a Fundação Nacional do Índio (Funai) aprovada pela lei nº 5.371 de 5 de dezembro de 1.967”. (Gregório,j,1980, pg 74).

Dentro das atribuições da Funai, se encontrava a seguinte: - “Permitir a adoção de medidas profiláticas de doenças trazidas pelos civilizados entre as quais as febres eruptivas que dizimam rapidamente as tribos”. (Gregório,j,1980, pg 76). Essa atribuição foi dividida com a Funasa posteriormente e depois com a criação da SESAI.

O antropólogo brasileiro Carlos Fausto (1963-), em matéria publicada no Nexo Jornal em 11 de junho, afirmou que os Kuikuro do Alto Xingu anunciaram que “vão fazer lockdown na aldeia”. Uma palavra nova atualizando uma prática que os povos indígenas conhecem há cinco séculos: resistir às consequências trágicas da guerra de conquista. Revista Ciência Hoje, (2020,p.7). O que foi condenado ao povo brasileiro ter o locdown em função do acelerado processo de mortes por Covid no Governo Bolsonaro, tudo isso sem registro do numero de indígenas perdidos nesse período.

Com a extinção do SPI e criação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), vinculada ao Ministério do Interior (1967), essa passa a ter como missão cuidar da saúde indígena; pois passou-se a debater o estabelecimento de um Estatuto do Índio efetivado pela Lei Federal 6001,de 19/12/1973; pode se no entanto criar as Equipes Volantes de Saúde (EVS), que eram integradas por médicos, enfermeiras e atendentes e auxiliares de enfermagem. Esses passaram a atuar em procedimentos curativos e nas ações epidemiológicas que visavam atenuar e diminuir as demanda em casos de surto e endemias a isso chamou modelo de atenção demandista, ou seja, somente quando acionados é que agiam.

Dessa forma a transformação dos serviços prestados ela FUNASA redundou na criação da Secretaria Especial de saúde Indígena – SESAI dentro da estrutura do Ministério da Saúde, o que não queremos para o modelo de Ministério ou Secretaria Especial dos Povos originários ou Povos indígenas, e sim que a Sesai de fato seja para a atenção a saúde a todas e todos indígenas independente de ser apenas o critério adotado nos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas/Dseis, que atendem apenas indígenas aldeados, a 5ª Conferencia Nacional de Saúde Indígena aprovou a criação de novos Dseis e não foi nenhum operacionalizado e aprovou que os mesmos atendessem todos os indígenas e se tivesse feito não haveria tantos indígenas falecidos por Covid 19.

Desafios sendo muitos vem o do Marco Temporal, é preciso agilizar junto ao poder judiciário a posição do movimento indígena de não adoção dessa prerrogativa, justamente sob a alegação firme de que as terras e os territórios indígenas foram

ultrajados, invadidos, e o Presidente Bolsonaro que já havia manifestado antes de ser eleito, em 2018 a máxima de que em seu governo não se demarcaria um centímetro de terra indígena, o que foi cumprido e é hora da redenção.

A questão indígena perpassa por todas as políticas públicas, é pauta transversal e intersetorial e por isso o Presidente e sua equipe de governo precisa compreender que não basta ter um Ministério ou Secretaria Especial, precisa haver representações indígenas nos órgãos e Ministérios tanto na Esplanada, quanto nos Estados, não podemos prescindir de nossa presença na área da agricultura, saúde, no Incra, no desenvolvimento social, na cultura, nas questões ligadas a economia solidaria e sequer na área fazendária, os indígenas precisam não somente das políticas sociais, mas queremos estar presentes nas áreas econômicas e no planejamento para assegurar que não sejamos alijados, pois mesmo com todo compromisso de governo expressada pelo presidente Lula, a máquina púbica extensa guarda surpresas na execução das políticas e os que não estão na margem elitizada padecem com os cortes de recursos.

Que tenhamos dessa vez a recomposição das instâncias de controle social e de participação, queremos o Conselho de Políticas Indigenistas funcionando, queremos anistia aos conselheiros e conselheiras literalmente cassados no Governo Bolsonaro, como os Conselhos de segurança alimentar, dos idosos, de Pessoas com deficiência que mesmo com mandato foram cassados pelo mandatário derrotado na ultima eleição presidencial.

DADOS DO AUTOR
Eni Carajá Filho – Indígena, educador social e Articulador da Rede de
Indígenas em Contextos Urbanos e Migrantes – Reniu Brasil – Coordenador
do Setorial de Assuntos Indígenas do Partido dos Trabalhadores – PT MG.
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quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Nós e a república * Eni Carajá Filho * MG

NÓS E A REPÚBLICA

Eni Carajá Filho

Jokãntyhy Novembro 2022.


O Grande Espírito ainda chama, convoca nos a refletir sobre que República é essa que proclamada segue pisoteando sobre os povos Originários dessa terra, que são os indígenas.


Pisoteiam também sobre toda diáspora Africana que habita esse território e que foram escravizados junto aos que aqui já estavam e que boa parte haviam sido chacinadas a exemplo dos Karajá, invisibilizam os povos tradicionais, Quilombolas, Marisqueiros,os das Vazantes, apanhadores de flores, castanhas, dos faxinais,  Congadeiros, Moçambiqueiros, e todos aqueles que ousassem  a lutar por dias melhores para todos, mas a República seguiu perversa, engordou se nas diversas e diferentes ditaduras.


Seguiu concentrando a riqueza adquirida sob o lombo desses povos e dos demais que viviam na Terra se Santa Cruz, e quem usufruiu   foi uma elite reacionária, militarizada e que arrota ordem e progresso, para quem?


Essa República ainda tem concerto e as eleições no Brasil de 2022 mostrou um novo desenhar na política, uma reaglutinação de forças democráticas de centro, esquerda, com potente acompanhamento da imprensa, de setores que não concordam com a forma de gestão que usa o Deus como escudo para tampar as falcatruas e blindar escondendo por mais de 100 futuros anos aquilo que se fez e deveria estar difundido no portal da transparência para pleno conhecimento de todos os 215 milhões de brasileiros e das demais nações.


Essa tirania promoveu a mais contundente disseminação de práticas anti o culto alheio e de intolerancia religiosa que se percebeu, a ponto de na campanha eleitoral disseminar notícias falsas, comprar Pastores e subverter a Divindade.


A república do orçamento secreto será sepultada com a troca de comando, Luiz Inácio Lula da Silva, que liderou todas as pesquisas de intenção de votos desde o início da campanha, retorna ao topo desse poder, eleito em segundo turno e o Brasil demonstrava que assim como sua história republicana, não reelegeriam um despota, dando ao Ex Operário o direito legítimo de conduzir pela terceira vez essa nação e sabemos que o mesmo não fará milagres e sim fará a diferença a essa nação, restituindo minimamente aos nossos povos e aqueles em situação de vulnerabilidade, o direto a comer pelo menos três refeições dia, ter conforto de encostar a cabeça no travesseiro e dormir, seja na cama, na rede ou onde quiser, é preciso trazer empregos de volta, revogar as imbecilidades dos últimos seis anos praticadas no planalto central.


Que bom que estamos aqui para ver e escrever esse novo momento.


Faça sua parte nessa história e ajude a combater o feminicídio, a negação, a mordaça, o chicote, a matança que vinha sendo corriqueira em nosso país  que só clama pela verdadeira democracia.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Carajá povo daqui * Eni Carajá Filho / MG

CARAJÁ POVO DAQUI 

Eni Carajá Filho

Nhé luta humana Carajá é da Cabana, nossa aldeia é aqui onde o Branco tentou interferir.

Nossa causa é de todos os de lá e os daqui.

Por isso Carajá é também um Povo Iny.


Juntos cantando no ritmo da natureza pois chega de destruir e desmatar mãe Terra de proeza.

Nossos ancestrais pediram pra continuar.

Nossa luta, nossa causa desse povo Carajá.

Pois indígena é indígena esteja onde estiver.

Chega de racismo pois Tupã é nossa fé.

Um Deus que é protetor desse povo sem igual trazendo pra cidade esse grupo que é transversal.

Mais respeito mais acolhimento de um povo da metropolitana que aqui estão há décadas combatendo a política insana.

Hora de incluir e acesso a ocupar, esse espaço originário que também é Carajá. 

MASSACRES INDÍGENAS 1

MASSACRES INDÍGENAS 2
ENI CARAJÁ FILHO/MG

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Parecia mentira naquela tarde fria adentrando a noite * Eni Carajá Filho / MG

Parecia mentira naquela tarde fria adentrando a noite

Eles assistiam no gozo a queimada pós enforcamento  de mulheres de esquerda que não aceitavam as imposições do machismo inveterado.

Deram o nome de bruxa, arrumaram até data para lembrar as guerreiras.
Halloween ou podemos dizer sangue sugado da vida de quem gera.
Isso não acontece mais?
Nas manifestações furam os olhos com balas de borracha, atacam de spray de pimentas essas mulheres consideradas bruxas atualmente só porque lutam contra a carestia e o alto preço do gás de cozinha.
Mas nem nos contaram que as mulheres indígenas vieram para essa luta enfrentando o branco opressor Karaí que tanto por aí matou.
Eclodem o grito de basta de silenciamento e que hanseníase é apenas uma doença que a saúde pública tem que dar conta.
Professoras e professores mostrando o que está por trás da máscara de gestão na Pandemia que coleciona corpos no túmulo, alertando que todo cuidado é pouco.
E por falar em cuidado quem cuida do cuidador que cuida de quem temos muito amor?

Eni Carajá Filho BHMG