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terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

TEM UM GOLPE NO MEIO DO CAMINHO * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

TEM UM GOLPE NO MEIO DO CAMINHO
PASSAPORTE PARA A PAPUDA

"Golpe de 1964 foi precedido por tentativa frustrada. Estamos diante de uma nova ‘omissão estratégica’?

Em 1959 não havia apoio internacional e nem da caserna, mas os envolvidos não desistiram: só esperaram o momento certo.

Enfim a Procuradoria-Geral da República ofereceu denúncia contra Bolsonaro e seus 33 aliados. Para os que acompanhavam o caso de perto, não há grandes novidades: o texto não traz elementos realmente novos, mas expõe minúcias e detalhes que dão ainda mais robustez ao que já era evidente: Bolsonaro. Bolsonaro não apenas tentou ou articulou — ele executou um golpe.

A denúncia do PGR é cristalina quanto a isso.

Os mais conservadores afirmam que tudo não passou de uma “tentativa” pelo simples fato do golpe não ter perdurado, não ter alcançado a consistência necessária para se sustentar em público e, de fato, impedir a posse do presidente Lula. Para tanto, precisariam de mais aliados, aliados maiores, tanto dentro quanto fora do país. Especialmente fora!

E digo isso mirando no exemplo de 1964. O golpe não emergiu de forma espontânea naquele famigerado primeiro de abril, muito pelo contrário. O golpe militar foi gestado ainda durante o governo Getúlio Vargas e foi por – pelo menos – duas vezes adiado até o fatídico ano de 64, até o momento em que estava robusto o suficiente para ver a luz do dia.

Inclusive, nesse ínterim, entre a gestação e o nascimento, tivemos um episódio muito importante e pouco comentado nos dias de hoje, a chamada Revolta de Aragarças, uma tentativa de golpe militar contra o governo de Juscelino Kubitschek ainda em 1959.

Na ocasião, um grupo de militares autointitulado Comando Revolucionário, insatisfeito com os rumos da política, sequestrou cinco aviões repletos de armamentos e explosivos e sitiou o aeroporto de Aragarças, na divisa entre Goiás e Mato Grosso. Apesar de modesta, a cidade tinha um papel crucial na logística aérea da época. O plano dos revoltosos incluía bombardear o palácio do Catete e assassinato do então presidente Juscelino Kubitschek.

A revolta fracassou, ao menos aparentemente. Boa parte da classe política e setores influentes da sociedade civil rechaçaram publicamente a tentativa de golpe, dando ao governo de JK amplo apoio para organizar uma contraofensiva armada digna de cinema, com direito a utilização de tropas de elite que saltaram de paraquedas sobre a cidade de Aragarças para sabotar os aviões dos rebeldes.

Acuados, os amotinados terminaram fugindo para países vizinhos e terminariam anistiados em 1960, retornando para o país já no governo de Jânio Quadros.

Fim da história? Não. Muito pelo contrário, é aqui, justamente, que ela se torna importante para o presente.

É consenso entre os historiadores que, a despeito da ampla rejeição da classe política e da sociedade brasileira, o fator realmente decisivo para o fracasso da Revolta de Aragarças foi, justamente, a falta de apoio entre os próprios militares.

Melhor dizendo – e esse é o detalhe que faz toda a diferença –, falta de um apoio público da caserna. Pois também é consenso de que havia uma sinfonia golpista entre militares da época, especialmente os do alto escalão. Pelo menos desde Vargas se organizavam e articulavam para um golpe de estado: estavam apenas em busca ou a espera do momento que consideravam mais adequado.

Os amotinados de Aragarças, impacientes, buscavam justamente antecipar esse momento, organizando um movimento que, imaginaram, daria origem a uma reação em cadeia, inspirando e contagiando praças e obrigando os oficiais a saírem de sua inércia.

O que só aconteceria, sabemos, anos depois. Em 1964.

A não adesão das Forças Armadas à Revolta de Aragarças não foi uma questão de ideologia, foi uma omissão estratégica. Tanto que alguns dos principais personagens do motim também estariam envolvidos na construção e na condução da Ditadura Militar. Entre eles, João Paulo Moreira Burnier, na época um tenente-coronel da Aeronáutica – acusado, entre outras coisas, de estar envolvido no desaparecimento do estudante Stuart Angel –, e ninguém menos do que o general do Exército Humberto Castelo Branco, o mesmo que viria assumir a presidência da república em 1964.

O que mudou entre 1959 e 1964? Nas Forças Armadas pouca coisa. No contexto geral, o ideário golpista passou a contar com o amplo apoio de setores da sociedade civil e dos Estados Unidos. E isso, sabemos, especialmente para aquele cenário, não é um detalhe trivial.

Mas voltamos para o presente, para a denúncia oferecida pela PGR.

Chama atenção para a maneira como o documento, apesar de denunciar militares de alta patente pela conspiração, preserva a caserna, especialmente os generais que, mesmo sabendo do planejamento ativo de um golpe de estado, pouco ou nada fizeram para efetivamente impedi-lo.

Supostamente, apenas afirmaram que não compactuariam com o movimento. A mesma caserna que se recusou a investigar e efetivamente punir militares suspeitos de participar da insurgência golpista do Oito de Janeiro.

Um dos casos mais notórios é o do ex-comandante Militar do Planalto, Gustavo Henrique Dutra de Menezes, que teria impedido a Polícia Militar de desmobilizar acampamentos de golpistas na véspera do ataque terrorista. De forma sintomática, o ministro da Defesa, José Múcio, imediatamente deu declarações que circunscreviam a participação da caserna na trama totalitária à uma espécie de “banda pobre” do oficialato.

Perceba, não que eu esteja dizendo que ver generais denunciados por tramarem um golpe de estado seja algo trivial, mas não te parece pouco, muito pouco, diante do que vimos nos últimos anos?

Você realmente acredita que uma eventual punição dos supostos líderes do movimento golpista será capaz de modificar a própria estrutura das Forças Armadas brasileiras que, tem anos, vem desafiando e até ameaçando publicamente a combalida democracia brasileira? Lembram do que ocorreu às vésperas do julgamento de Lula pelo STF, da mensagem explícita do general Villas Boas? Essa não é uma história que começa e termina no governo Bolsonaro.

E por isso mesmo, não te parece perigoso que isso seja tratado dessa forma? Especialmente no cenário mundial atual, onde Donald Trump é novamente o presidente dos Estados Unidos, um sujeito que tranquilamente reconheceria o governo golpista de Jair Bolsonaro. Será que não foi justamente isso que faltou para a alta cúpula militar para aderir ao movimento encabeçado pelo ex-presidente, a falta de um apoio internacional? Será que não estamos diante de uma nova “omissão estratégica” da cúpula militar, como ocorreu em 1959?

Nesse sentido, é importante lembrar que o próprio ex-vice-presidente, o general Hamilton Mourão, escreveu em seu perfil no Twitter, ainda em 2022, durante o auge da conspiração, que os golpistas defendiam um golpe que colocaria o Brasil em uma “situação difícil perante a comunidade internacional”.

Será que o mesmo aconteceria agora?

Mais uma vez, não que eu ache que a denúncia e eventual prisão dos supostos líderes da conspiração não seja importante, apenas me pergunto se isso será o suficiente para impedir uma nova trama golpista."

ORLANDO CALHEIROS

CONFIRA MAIS GOLPES
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domingo, 16 de junho de 2024

FORA LIRA * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT


VIDA PREGRESSA

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A perversidade tomou conta do Brasil
Rudá Ricci

Tenho a impressão de que giramos a chave no Brasil. A perversidade, revestida de fundamentalismo religioso, foi além do imaginável com a PL do Estupro. Foi como um soco no estômago de quem tem um mínimo de empatia com a vida de crianças que sofreram abusos e atrocidades.

Ao ver o rosto impassível de Arthur Lira após encaminhar nebulosamente a votação simbólica da urgência deste projeto de lei da perversidade, veio à mente uma passagem de uma minissérie sobre Marco Polo. A cena se passa na segunda temporada desta série é uma das mais angustiantes que já assisti: Kublai Khan abraça a criança Zhao Xian e o sufoca até a morte. A criança representaria uma ameaça ao avanço do poder mongol no sul da China porque fazia parte da dinastia que acabava de ser destruída.
A repulsa que a cena causa tem relação direta com a PL do Estupro. A reação das mulheres que saíram às ruas em tantas cidades brasileiras na noite de quinta-feira, dia 13, um dia após o dia que o comércio comemora as vendas do dia dos namorados foi um alento, mas não limpou o gosto amargo que permanece na boca de quem não consegue entender como a maldade avança em nosso país com tanto desembaraço.
Acredito que tudo começou com o arrombamento da “Janela de Overton” a partir de 2015. Esta janela indicaria a tolerância de uma sociedade ou comunidade a respeito de comportamentos ou ideias que passam a ser aceitáveis. Em 2015, o Brasil sofreu um ataque de escroques que articularam ofensas gratuitas no parlamento brasileiro e que se somaram aos ataques em massa desferidos nas redes sociais. A fusão das duas frentes atordoou os setores progressistas que demoraram a reagir. O ataque que alargou os batentes da Janela de Overton brasileira envolveu um enorme investimento de setores empresariais. Somente entre janeiro de 2019 e agosto de 2021, período do desmando do governo Bolsonaro, onze canais bolsonaristas no YouTube, responsáveis por propagar fake news sobre as urnas eletrônicas e defender o governo federal, lucraram mais de 10 milhões de reais, segundo o TSE.

Segundo o Intercept Brasil, o governo Bolsonaro entregou mais de R$ 11 milhões ao Google, entre maio de 2019 e julho de 2020, para que o gigante da internet distribua anúncios do governo de extrema direita pela internet. Parte considerável desse dinheiro (até 68%, segundo o próprio Google) foi parar no bolso dos editores dos sites que veiculavam fake news.

A enorme manipulação da opinião pública disseminada por 7 anos seguidos gerou um esgoto informacional que quebrou parte dos limites morais que definia a identidade pública dos brasileiros.

Tenho para mim que o impacto desta quebra de limites morais foi tão significativo que atingiu a leitura dos segmentos democráticos organizados em partidos políticos. A convicção sobre a aliança necessária para se vencer o extremismo fascista no Brasil criou uma chancela para construção de uma amálgama estranho, desequilibrado, quase amorfo.

E é este cenário que liberou as maldades na Câmara dos Deputados. Não se trata de um parlamento majoritariamente conservador. O pensamento conservador, a começar pelos princípios do seu grande formulador, Edmund Burke, nunca rompeu com princípios morais básicos, de defesa da infância, por exemplo. O que temos no parlamento brasileiro não é conservadorismo, mas escárnio. Uma ambição política tão desmedida que não teme dizer seu nome em canais de TV à cabo, declarando que vão impor o fim do aborto “custe o que custar”, incluindo o futuro de crianças abusadas, o que criará um ciclo sem fim de sofrimento e segregação social.

Não há como respirar ar puro num país que não consegue conter mais a maldade dos fundamentalistas que colocam seu poder e ideário acima da vida e da humanidade. Não há como alimentar esperança num país em que fundamentalistas zombam de quem consideram que vivem à sua mercê.

No Império Mongol não havia o conceito de sociedade civil. Os mongóis eram caçadores e exploravam rebanhos, passando a maior parte da sua vida na sela de seus pôneis das estepes. Aprendiam a cavalgar e usar armas ainda com pouca idade. Autores, como o consagrado Reinhard Bendix, sugerem que as sociedades que foram dominadas pelo Império Mongol não conseguem, ainda hoje, consolidar uma democracia porque vivem sob o manto da violência e imposição das elites nacionais.
Não temos na nossa história qualquer vínculo com o Império Mongol. Porém, o fundamentalismo desumano que toma conta da Câmara dos Deputados procura, de todas as formas, negar os princípios da sociedade civil e sufoca o futuro de muitas crianças brasileiras. Um basta seria pouco para este tipo de ataque à democracia e humanidade em nosso país. É preciso algo grandioso para restabelecermos as bases da nossa Janela de Overton.
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