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quinta-feira, 17 de novembro de 2022

VITÓRIA PÍRRICA OU DERROTA ESTRATÉGICA: OS DESCAMINHOS DA ESQUERDA LIBERAL * QUANTUM BIRD

VITÓRIA PÍRRICA OU DERROTA ESTRATÉGICA:
OS DESCAMINHOS DA ESQUERDA LIBERAL.
QUANTUM BIRD

As eleições federais acabam de ser concluídas no Brasil e o resultado – apesar da relutância da militância de “esquerda” – foi o esperado: Lula foi eleito presidente, pela terceira vez. Lula derrotou Bolsonaro por uma margem de aproximadamente 1%, em um universo de quase 100 milhões de votos úteis.

O profundo descrédito acumulado doméstica e internacionalmente por Bolsonaro, que executou um mandato caótico, reduzindo o Brasil a um anão geopolítico, e marcado por crimes, desmandos, corrupção, perda de controle sobre a economia, privatizações de recursos estratégicos e mais uma miríade de acontecimentos incrivelmente bizarros sugeriria, de acordo com a lógica mais simples, uma vitória de Lula por avalanche, ainda no primeiro turno.

[Sidebar: As pesquisas de opinião nunca indicaram que isto aconteceria, mas os institutos de pesquisa não são minimamente confiáveis no Brasil, portanto, deixemos de lado a pseudo-informação vinda dessas pesquisas.]

A “esquerda” não foi capaz de impor a Bolsonaro, e seu mítico “bolsonarismo” – imbecilismo seria termo mais adequado – uma derrota clara e definitiva. Nas linhas seguintes examino alguns dos fatores conjunturais e os prospectos para o exercício da presidência por Lula.

Militância eufórica e woke: a sexta-coluna brasileira [NR]
Jair Bolsonaro projetou-se durante o impeachment de Dilma Rousseff como um proxy de Olavo de Carvalho e militares rebeldes de alta patente, liderados pelo General Villas Boas, e acabou eleito em 2018 como resultado do colapso da estratégia da direita e quinta-coluna nativas, que apresentaram Geraldo Alckmin, então no PSDB – agora no PSB e vice-presidente de Lula (sic) – como candidato a presidente. A quinta-coluna surfou a onda do antipetismo fomentado por quase 20 anos por alguns dos setores, mas foi derrotada por algo ainda mais visceral: o discurso de ódio puro, difuso e imbecilizado, catalisado por Bolsonaro. Alckmin não passou ao segundo turno, e seus proponentes apoiaram automaticamente Bolsonaro contra Fernando Haddad, do PT. Lula estava então preso ilegalmente, sob ordem de Sérgio Moro, um dos líderes da famigerada operação Lava-Jato e agora eleito Senador por seu estado, o Paraná.

A militância de “esquerda”, que tolerou o golpe contra Dilma Rousseff e não conseguiu evitar a prisão de Lula, nunca foi capaz de entender e combater o bolsonarismo. De fato, os estrategistas wokes da campanha de Haddad preferiram se desconectar da realidade da maioria dos trabalhadores, e desprezar outros fatores táticos bem concretos, como por exemplo a profunda capilaridade do bolsonarismo nas redes sociais, igrejas evangélicas e forças de ordem do Estado, para aderir à sinalização de virtudes e ridicularização (memes) para contrapor-se a Jair Bolsonaro. As “virtudes sinalizadas” foram extraídas, como sempre, do wokeismo e do identitarismo que sensibilizam apenas um pequeno setor da classe média urbana, que por outro lado é majoritariamente reacionário e ideologicamente escravista. Slogans como o “O amor vai vencer o ódio” dizem muito pouco para uma população de trabalhadores vivendo em uma situação de vulnerabilidade permanente e expostos ao assalto cognitivo das redes sociais e a uma violência urbana avassaladora.

Os últimos quatro anos do Brasil sob Jair Bolsonaro viram o aprofundamento e consolidação do wokeismo e do identitarismo como atitudes ideológicas dominantes entre os militantes de “esquerda”. Esta militância aderiu massivamente ao “Ele não”, “Fora Bolsonaro” e denunciou incansavelmente o governo como fascista e opositor das diretivas civilizatórias wokeistas, reagindo a clickbaits políticos com memes, e sinalizando virtudes e cancelando vozes dissidentes, reiteradamente. Tudo isto enquanto ignorava o desmonte da infraestrutura econômica e industrial do Brasil. Por exemplo, protestos massivos foram organizados ao longo dos anos durante, e ao redor, das Paradas ao Orgulho Gay, mas poucos moveram um dedo para defender a Eletrobras ou a Petrobras da privatização. Durante a pandemia, esta “esquerda” aderiu e legitimou a erosão dos direitos humanos atacados durante o estabelecimento de lockdowns (confinamentos) e apoiou amplamente a inviabilização da estrutura sanitária nacional para fabricação de vacinas, favorecendo as multinacionais da Big Pharma. Por fim, a mesma “esquerda”, que denunciou Bolsonaro como fascista por quatro anos, posicionou-se ao lado do Ocidente Coletivo e do Regime Nazista em Kiev, quando a Operação Militar Especial Russa foi lançada para defender a População do Donbass na antiga Ucrânia.

Tudo isto contribuiu para formar um quadro de desconexão com a realidade e dissonância cognitiva que produziu anomia na população e desmobilização das entidades e quadros representativos da agenda de esquerda real, trabalhista e soberanista, abrindo espaço para a formação de alianças amplas à direita, articuladas de modo a sinalizar as devidas virtudes wokes à massa de trabalhadores e desempregados que tomou conta das ruas do país, mas sem qualquer detalhamento real a respeito do que de fato importa, ou seja, a agenda econômica e a recuperação dos recursos liquidados a toque de caixa por Bolsonaro. O próprio vice de Lula é um quadro orgânico da quinta-coluna nativa, e sua escolha passou ao largo das opiniões da militância mais crítica e comprometida. A militância woke, por outro lado, papagaia ad nauseum slogans vazios como “garantia de governabilidade”, “ele (Alckmin) mudou e busca redenção” e outros disparates.

Instituições renegadas

A perda de controle sobre as instituições começou ainda no primeiro mandato de Lula, que perdeu por pura inépcia o controle da ABIN. Desde o início, o principal fomentador da erosão da ordem institucional é o STF, que passou a atuar como um partido político de oposição ao governo de esquerda, em colusão com a mídia nativa e conspirando com os partidos políticos da direita quinta-colunista e interesses transnacionais. Nos anos seguintes, a rebelião reacionária alastrou-se para setores inferiores do Judiciário e Ministério Público – vide Operação Lava-Jato – Polícias Federais (judiciária e rodoviária) – policiais federais postaram rotineiramente vídeos nas redes sociais treinando tiro de pistola em alvos com o rosto da presidente Dilma Rousseff, sem sofrerem punições além de uma reprimenda. O quadro de balburdia institucional logo se alastrou para a sociedade civil, para o baixo clero do Judiciário e contaminou as polícias estaduais e municipais. Boicotes promovidos por caminhoneiros e apoiados pelas instituições que deveriam reprimi-los, judicial e criminalmente, se tornaram comuns. As instituições renegadas da República, que agora incluíam também o alto-comando das forças armadas, toleraram oficialmente, e fomentaram nos bastidores, todo tipo de ação que pudesse minar o governo de esquerda e contribuíram para jogar o país no abismo da crise institucional.

Entretanto, a caixa de Pandora da anarquia institucional que foi aberta para debelar o governo de Dilma Rousseff e prender Lula não pode mais ser fechada. E aqueles que a abriram perderam o controle sobre os ânimos raivosos que liberaram. Bolsonaro tornou-se o seu catalisador e representante.

Enquanto escrevo este artigo, caminhoneiros estão bloqueando estradas – com o apoio de policiais rodoviários federais e estaduais – protestando contra o resultado das eleições. Atos de vandalismo e boicote econômico estão se intensificando nos estados onde Bolsonaro venceu. A continuação dessa situação fatalmente exigirá o emprego das forças armadas para restabelecer a lei e a ordem. Mas isso é problemático, pois as forças armadas são majoritariamente ocupadas por comandantes rebeldes e bolsonaristas, e tal ação seria amplamente interpretada pela metade da população que elegeu Lula como um golpe de Estado, o que fatalmente aprofundaria o caos institucional.

O grande jogo geopolítico

O cenário doméstico de convulsão institucional operante desde 2008, aliado à política externa inepta e caótica de Dilma Rousseff, bem como o alinhamento desastrado do Brasil aos EUA de Trump, promovido por Bolsonaro, reduziram o país a um membro irrelevante das instituições que o próprio Brasil protagonizou e ajudou a criar, como o G20 e os BRICS. A ausência de uma política externa coerente e nacionalista, converteu o Brasil em um play-ground das potências econômicas ocidentais e da China, que têm adquirido a valores irrisórios o patrimônio estratégico nacional. A economia nacional foi adicionalmente financeirizada, levando a uma desindustrialização profunda. Tudo isto ocorrendo concomitantemente com uma precarização histórica do trabalho assalariado, que tem convertido as cidades brasileiras em verdadeiras zonas de guerra do tráfico de drogas, e reativado redes de prostituição e tráfico internacional de seres humanos.

Just another talking head? (apenas uma cabeça falante?)
Em seu discurso, realizado logo após a divulgação dos resultados da eleição, Lula fez, como de costume, excelente uso da retórica. Principalmente se comparado às (não) intervenções de seu bizarro oponente. Se deixarmos de lado a euforia que contagiou a militância woke de “esquerda”, que vivenciou tudo como um carnaval fora de época, e analisarmos o que foi efetivamente sinalizado, somos forçados a admitir que os prospectos são sombrios. Lula citou a necessidade de restaurar urgentemente os contatos comerciais com a UE e os EUA, falou superficialmente sobre a restauração da economia, citou an passant os BRICS e nada mencionou sobre a recuperação das empresas estatais estratégicas que foram liquidadas pela dupla Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Temas irrelevantes, integrantes do receituário woke, como “energia verde” e aquecimento global mereceram espaço amplo no discurso, enquanto nenhum aceno foi de fato feito ao Sul Global.

Porquanto tenha sido importante afastar Bolsonaro da presidência do país, a verdade é que a vitória de Lula não foi, e nem pode ser lida, em nenhuma medida como uma vitória da esquerda, tão pouco dos setores progressistas e soberanistas do país.

É tudo sobre a consolidação de uma coalizão de centro-direita para recolocar nos trilhos uma economia fortemente desregulamentada e reestabelecer uma certa normalidade institucional no país, sem entretanto mudar as regras do jogo. O papel de Lula nessa coalizão pode muito bem se limitar a trazer os votos e fazer a interlocução com o povo. Uma espécie de neoliberalismo com uma face humana.

Algumas evidências desse arranjo já estão disponíveis. Geraldo Alckmin e Aloísio Mercadante – que não goza da confiança de Lula – estão liderando a equipe de transição de governo. Bolsonaro pode ter perdido a eleição, mas obteve mais votos do que nunca, já conta com sua tropa de lunáticos raivosos ocupando as ruas em diversas localidades – pedindo intervenção militar – e sabotando a rede logística de distribuição de alimentos e combustíveis do país. Bolsonaro endossou tais atividades em declaração recente. Ao mesmo tempo, o que transpira dos bastidores sobre a formação do novo governo não inspira nada de positivo. Por exemplo, Simone Tebet – fortemente ligada ao agrobusiness no Mato Grosso do Sul – condicionou seu apoio a Lula no segundo turno a sua indicação para o Ministério da Educação.

Assim, tudo somado, somos forçados a contemplar a possibilidade de que a vitória de Lula nas eleições de 2022 represente um mero avanço tático em uma Guerra Pírrica ou, o que parece ainda mais provável, represente uma derrota estratégica para a esquerda histórica e trabalhista, que foi substituída pelos wokes com sua agenda verde e identitária, e pode muito bem ficar sem qualquer representação no novo governo.

[NR] Woke, wokismo: Ideologia mistificatória promovida pelo Partido Democrata dos EUA, com o apoio de alguns movimentos sociais, destinada a dividir os trabalhadores através da promoção de políticas identitárias (feminismos, minorias étnicas e sexuais, deficientes, etc). Nos media corporativos o wokismo muitas vezes é apresentado como se fosse um movimento “de esquerda”.

FONTE
***
O BRASIL DEPOIS DAS ELEIÇÕES
AÇÃO REVOLUCIONÁRIA COMUNISTA

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

As quinta e sexta colunas brasileiras * Quantum Bird

As quinta e sexta colunas brasileiras
Quantum Bird [*] 

Recentemente, em seu amplamente elogiado artigo "Revisiting Russia’s 5th and, especially, 6th columns" (disponível em inglês e português ), Andrei Raevsky, do Blog do Saker, retomou o seu conceito – bastante original – de sexta coluna, focando-se no panorama político e conjuntura geopolítica russa.

Neste pequeno artigo, pretendo aplicar os conceitos expostos por Raevsky ao Brasil e, tanto quanto possível, identificar, pelo menos indiretamente, os principais membros e facções que compõem a sexta coluna brasileira.

Antes de analisarmos a sexta coluna propriamente dita, convém relembrar que os tipos que compõem a quinta coluna no Brasil são basicamente os membros da elite e classe média compradoras locais. Essas pessoas – políticos, militares, empresários, acadêmicos, artistas ou intelectuais – são notórias por seu anti-nacionalismo explícito, vulgar e, despudoradamente, servil. Desprovidos de qualquer traço de brio nacional ou civilizatório, passaram a ser referidos como vira-latas na cultura popular.

Os quinta colunistas brasileiros gostam de se apresentar como neoliberais ou neoconservadores, mas na verdade são desprovidos de verdadeira ideologia. São apenas um resquício do passado colonial e escravista brasileiro; sempre dispostos a servir à metrópole estrangeira dominante no momento, contra os interesses nacionais. Mais especificamente, falamos de adeptos do consenso de Washington – com muitos portadores de diploma de economia egressos das Universidades de Chicago, Harvard e outras da Europa e dos EUA . São defensores explícitos, ou implícitos, da Doutrina Monroe e violadores seriais de direitos humanos.

Historicamente, essa gente se aglutina politicamente em torno dos partidos de direita locais e de uma certa rede local de televisão. E esse é um aspecto importante, pois em toda América Latina, e o Brasil não é uma exceção, as pautas principais de esquerda são a justiça social, o anti-imperialismo e o nacionalismo, no sentido de conquista e manutenção da soberania plena.

O que é a sexta coluna ?

O último parágrafo da seção anterior já contém a resposta. Concisamente, os integrantes da sexta coluna, parecem atuar como anti-imperialistas, nacionalistas e defensores dos direitos humanos etc, mas suas ações consistentemente promovem os mesmos interesses perseguidos pelos quinta colunistas. Esta aparente contradição entre fins, meios e, principalmente, consequências, fornece aos integrantes da sexta coluna a cobertura necessária para realizar operações psicológicas complexas e infectar setores importantes da sociedade, sempre promovendo a agenda imperial.

O wokeismo tropical ou "o ultimato Borg"

O movimento woke tem sido discutido na mídia corporativa e alternativa, e existem bons artigos sobre isso, de forma que não pretendo me aprofundar muito na definição do wokeismo em si. Em vez disso, escolhi esse trecho do Manual do Mentícidio: Wokeness, que no meu entender basta para compreender o conceito:

Wokeness é a euforia sobre gênero e raça.
A euforia em psicologia é o estado mental de felicidade agravada. ... Os wokes estão extremamente eufóricos com a descoberta de todas as raças e gêneros. Para eles, ser woke é a coisa mais importante do mundo.
É causada pela liberação excessiva de neurotransmissores dopamina e serotonina em seus cérebros, levando a uma sensação de extrema felicidade. As pessoas wokes estimulam seu sistema de prazer entregando-se ao sexismo e ao racismo incessantes.

Então é isso. O wokeismo é uma doutrina identitarista radical, instrumentalizada com uma série de mecanismos bastante intrusivos, divisivos e perturbadores que tenta ditar como as pessoas devem agir e pensar. O objetivo final dos identitaristas wokes é substituir a diversidade real por uma versão falsa e simplificada, restrita à questões raciais superficiais e definições de gêneros artificiais.

Os identitaristas wokes fazem parte da sexta coluna porque num primeiro momento seu identitarismo pode soar honesto, e de fato dialogar causas legítimas como as reivindicações por justiça racial, direitos das mulheres, povos indígenas etc.

Entretanto, fica logo evidente que o identitarismo woke não é sobre as condições sociais objetivas, mas sobre a difusão do próprio identitarismo, que promove na população hospedeira, agitação social, fragmentação e anomia. A decorrente fragilização das estruturas sociais e a perda de foco no debate político, impossível de ser seguido por indivíduos agora confusos sobre sua própria raça e seu gênero, cria um ambiente propício para a infiltração das estruturas e agendas imperiais.

O caráter violento da agenda identitarista woke se manifesta explicitamente através do fenômeno popularmente conhecido como cancelamento, aplicado pela coletividade identitarista woke contra aqueles que resistem à sua doutrinação.

O comportamento dos identitaristas wokes com aqueles que não aderem às suas causas se assemelha muito com o comportamento dos Borgs, proferindo seu famoso ultimato,

"A resistência é inútil. Você será assimilado".

De fato, o website Memory Alpha, mantido pelos fans de Jornada nas Estrelas, documenta:

Os Borg são uma pseudo-espécie de organismos cibernéticos mostrados no universo ficcional da franquia Star Trek.
[...] os Borg usam melhoramentos cibernéticos reforçados como um meio de atingir aquilo que eles acreditam ser a perfeição.
[...]
Os Borg se tornaram um símbolo na cultura popular para qualquer rolo compressor contra o qual "a resistência é inútil".
[...] A procura da perfeição é a única motivação dos Borg, uma perfeição mecânica e sem emoção. Isso é alcançado através da assimilação forçada, um processo que transforma indivíduos e tecnologia em Borg, melhorando-os — simultaneamente controlando — por meio de implantes sintéticos.

E assim são os identitaristas wokes.

Os tucanos vermelhos

Os tucanos são uma família de aves que vivem nas florestas tropicais da América Central e América do Sul. Como todos sabem, um tucano com penas nas cores da bandeira brasileira é também o mascote do PSDB, partido social-democrata brasileiro, notório pela sua política de extrema direita e neo-liberalismo econômico radical e privatista, que arruinou o Brasil na década de 90, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso – outra similaridade com a Rússia, que sofreu do mesmo mal no mesmo período. Tudo isto faz dos tucanos verde-amarelos membros orgânicos da quinta coluna. Até aqui, nenhuma novidade.

Acontece que no panorama político brasileiro, os tucanos verde-amarelos não são os únicos membros da família Ramphastida. Existem os exóticos tucanos vermelhos. Refiro-me aos quadros políticos que na prática compartilham da mesma ideologia, mas infestam os partidos de esquerda. O número exato desses elementos é difícil de estimar, pois na maior parte do tempo esses personagens interpretam bem o papel de esquerdistas, evitando expor sua verdadeira filiação ideológica simplesmente não abordando temas como soberania, anti-imperialismo, combate e erradicação efetiva da pobreza, estatização dos setores estratégicos da economia etc.

Entretanto, a plumagem vermelha desses tucanos cai, inexoravelmente eles exercem o poder e tomam decisões. Claro, geralmente é tarde demais, pois já foram eleitos e, de fato, é daí que vem boa parte do dano que eles causam. Quando não estão traindo o povo legislando ou implementando leis e atos que amplificam a penetração do imperialismo no país, os tucanos vermelhos gastam seu tempo sabotando as organizações populares. Isso é feito promovendo pautas divisivas, alienantes e desmobilizadoras. Muitos tucanos vermelhos da atualidade são também identitaristas wokes. Outros, mais sutis, mas não menos perigosos, posam como intelectuais e produzem conteúdo deturpador da história e da cultura nacional e internacional, promovendo mitos claramente contra-producentes para a agenda da consolidação da soberania. Os tucanos vermelhos são mestres em implodir, alienar e cooptar organizações populares.

Três exemplos, antes de passarmos à próxima categoria:

1. O ex-candidato a presidente pelo Partido dos Trabalhores (PT), que como ministro da educação no governo Lula promoveu um aumento significativo do financiamento, e consequente endividamento, dos estudantes brasileiros ao priorizar a ampliação do setor privado do ensino superior no país, tudo enquanto pousava como um construtor de universidades públicas. Atualmente, o mesmo personagem dedica-se a torpedear todo e qualquer avanço da luta anti-imperialista na América Latina, atacando da Venezuela até a Nicarágua. Recentemente sentiu que deveria também atacar a Rússia, por promover o multipolarismo e respeitar o Brasil, re-estabelecendo os contatos normais e protocolares com o governo atual.

2. Os líderes do MST, Movimento dos Sem Terra, que cuspiram na história da organização e a envolveram com o turbo-capitalismo financista predatório global. O MST hoje tem títulos na bolsa de valores e participa de organizações sediadas em Washington DC, em parceria com entidades com tubarões do capitalismo global.

3. A rede de influenciadores digitais e youtubers wokes, que se vendem como esquerdistas, mas não passam de impostores intelectuais que aceitam de bom grado, quando não concorrem por, doações das fundações dos imperialistas do capitalismo central, para comprar pacotes de likes e visualizações, a fim de promover suas atividades perturbadoras da coesão social.

O terceiro setor

No Brasil, o complexo obscuro e emaranhado das Organizações Não-Governamentais (ONGs) é, por motivos igualmente crípticos, chamado de terceiro setor.

Críptico porque as ONGs estão repletas de funcionários e ex-funcionários públicos e tipicamente interagem com as organizações governamentais via um esquema clássico de porta giratória, seguido geralmente de escadas rolantes ascendentes.

As ONGs fornecem o ambiente perfeito para a distribuição das pautas e financiamentos das entidades do imperialismo, sob o disfarce de prestação de serviços úteis ao público, por isso as classifico como integrantes da sexta coluna. Como se costuma dizer

"Quem paga a banda, escolhe a música".

O dinheiro é injetado no topo do sistema, via editais temáticos e doações pelos suspeitos usuais, e em seguida é redistribuído de forma capilarizada, de modo que é muito fácil de ser seguido. De fato, não é incomum encontrar pessoas que contribuem doando dinheiro e trabalho para ONGs sem nunca perceberem que estão colaborando com a promoção de guerras híbridas, por exemplo. A ausência de uma legislação específica para rotular essas entidades como agentes estrangeiros e regular mais atentamente suas atividades, transformou o Brasil no paraíso das ONGs.

Conclusões

O conceito de quinta, e principalmente, sexta colunas são muito úteis para entender o cenário político brasileiro, ininterruptamente agitado por operações psicológicas e uma confusão ideológica enorme. Existem milhares de outros exemplos e cobri-los exigiria um livro, provavelmente volumoso. Felizmente não é necessário cobrir todos os casos para identificar os sexta colunistas. De fato, basta aplicar o critério já indicado por Andrei Raevsky: "cui bono?" Ou seja, quem ganha ou sai fortalecido com as operações dos agentes suspeitos, mas aparentemente bem intencionados ? A resposta indicará o caminho.

20/Fevereiro/2022

CONFIRA
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