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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

TODO APOIO A DOM ORVANDIL * Roberto Bergoci/SP

TODO APOIO A DOM ORVANDIL

Cirurgia de Córnea para Dom Orvandil

Dom Orvandil, conhecido por sua atuação na defesa dos direitos da classe trabalhadora e dos pobres, e por seu trabalho no no canal np YouTube ( TV CP 12 ), necessita de apoio financeiro para uma cirurgia oftalmológica.

Ele apresenta visão ofuscada em ambos os olhos, sendo necessário um **transplante de córnea no olho direito**. O procedimento será realizado no Hospital Oftalmológico de Sorocaba, que já o incluiu na fila de espera para transplante, com previsão de 2 a 4 meses. Exames pré-operatórios foram solicitados para prepará-lo para a cirurgia.

Apoio inicial dos Professores Dora Incontri e Alysson Mascaro permitiu a realização de consultas e exames diagnósticos em Sorocaba, confirmando a viabilidade da recuperação visual.

**O valor necessário para esta etapa é de R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais).** Este montante cobrirá:

* Passagens aéreas (ida e volta Goiânia-Sorocaba).
* Custos da cirurgia e procedimentos associados.
* Hospedagem em Sorocaba para o período de observação médica pós-operatória (3 dias).

Para contribuir com esta necessidade, utilize a Chave PIX: **domorvandil@gmail.com**
Apoio solidário de amig@ e companheir@s. Contribua e compartilhe!

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sexta-feira, 18 de outubro de 2024

LULA PRIVATIZA HOSPITAL FEDERAL DE BONSUCESSO-RJ * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

LULA PRIVATIZA HOSPITAL FEDERAL DE BONSUCESSO-RJ
-Foto do dia do incêndio no hospital-
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CONFIRA QUEM SE BENEFICIOU
CONFIRA O EDITAL DE PRIVATIZAÇÃO
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LULA PPP
PROGRIDE PROPRIEDADE PRIVADA

LULA PRIVATIZOU O HOSPITAL DO ANDARAÍ
LULA PRIVATIZOU O HOSPITAL DO CÂNCER
LULA PRIVATIZOU O HOSPITAL DE BONSUCESSO

O QUE VOCÊ QUER MAIS?
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PIQUETE CONTRA INTERVENÇÃO
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DESMANDOS DA NOVA DIREÇÃO
A LUTA CONTINUA 

Há um deserto ao meu redor,
Uma paisagem quase sem vida,
Uma dor que não fica mais contida dentro de mim.
Há uma gente canalha destruindo o que temos de mais valioso na nossa Constituição: O SUS que a minha geração lutou tanto por construir. 
Há um ambiente de tristeza e decepção consumindo a nossa esperança,
Um cansaço, um desânimo que a gente precisa enfrentar. 
Esquerda neoliberal é esquerda adoecida, é falta de coragem, é derrota certa num futuro próximo.
Choram as paredes dos nossos hospitais públicos federais, universitários ou não; choram aqueles que ajudaram a construir essas instituições. 
A lógica do saber está sendo pervertida pela insensatez da ignorância no plano político da Estupidez, do cinismo e da hipocrisia.
De repente, os sonhos tornam-se pesadelos e a utopia vai sendo aniquilada nas mãos de uma gente fria, insensível e mergulhada na escuridão, perdida no tempo e escrevendo a história com desamor.
Hoje eu quero estar com os meus amigos, companheiros de jornada, para desabafar nos seus ombros e aliviar um pouco essa angústia, esse sofrimento.
Mas amanhã estarei de pé novamente, pronto outra vez para continuar a luta em defesa do SUS, dos servidores públicos civis estatutários, da Autonomia Universitária e da gestão dos nossos hospitais públicos federais sob o regime jurídico administrativo de direito público, e jamais de direito privado. 

Wladimir Tadeu Baptista Soares 
Cambuci/Niterói - RJ
Nordestino 
wladuff.huap@gmail.com 
19/10/2024
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EM DEFESA DO SUS
Em Defesa Do Sus 2024 * Wladimir Tadeu Batista Soares/RJ
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TESTEMUNHO DE UMA SERVIDORA

"E quem é o responsável por construir esse cenário é o próprio governo, que hoje entrega a gestão porque acusa a nossa gestão pública de ser incompetente. Mas quem conduz a gestão de forma que a gente não tenha condições de exercê-la? O governo. Através do corte de repasse, através do favorecimento do superávit fiscal, através do remanejamento das verbas de forma irregular, através da não realização de concurso público, de apostar na precarização da relação de trabalho. E aí, quando ele constroi essa narrativa, ele quer o quê? É dispensar as unidades. Por quê? Porque ele deixa de ter dentro das unidades a figura do servidor público, que é uma pedra no sapato. Porque a gente fiscaliza os recursos, a gente denuncia…” - 

Trabalhadora do Hospital Federal de Bonsucesso."
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... COM SANGUE E COM LÁGRIMAS 

Eu trago uma dor estancada no meu sorriso,
Um sangue que em mim não para de jorrar,
Cicatrizes de anos de muitas lutas
E lágrimas nos olhos de tanto chorar.

Estão privatizando aquilo que temos de mais bonito,
Rasgando a nossa Constituição,
Jogando no lixo a carreira pública estatal da saúde,
Alimentando com dinheiro público o setor privado que só quer lucrar.
O SUS está sendo ferido de morte e, aos poucos, tende a acabar.
Não adianta discursos cínicos querendo enganar a todos,
Há muitos traidores envolvidos nessa trama.

Se não houver resistência forte e determinada, em nível nacional, para defender o SUS é a carreira pública de Estado, em pouco tempo só existirão celetistas na área da saúde  e o SUS universal, integral e  gratuito deixará de existir. 
É nessas horas que a coragem precisa vencer o medo e a atitude precisa vencer a omissão. 

Defender o SUS é defender o povo brasileiro.
Defender o SUS é defender a nossa Cidadã Constituição. 

Wladimir Tadeu Baptista Soares 
Advogado, Médico, Professor de Medicina da Universidade Federal Fluminense, 
Mestre em Justiça Administrativa,
Doutor em Direitos, Negócios e Instituições 
12/10/2024
05:52h

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

LULA EMPURRA SERVIDORES FEDERAIS PARA A GREVE * ANDRÉ PELLICCIONE/SINDSPREV.RJ

LULA EMPURRA SERVIDORES FEDERAIS PARA A GREVE
ANDRÉ PELLICCIONE

Asssembleia dos servidores da rede federal de saúde do Rio realizada na tarde desta quarta-feira (4/9), no auditório do Sindsprev/RJ, aprovou a continuidade da greve por tempo indeterminado e reafirmou as pautas dos trabalhadores, como reajuste salarial, concurso público, não ao fatiamento/privatização dos hospitais federais e enquadramento na carreira da Ciência e Tecnologia. A assembleia também aprovou o envio de caravana dos servidores a Brasília, no dia 10 de outubro, para participar de audiência pública que acontecerá na Câmara dos Deputados — sobre a greve da rede federal — e depois realizar um acampamento em frente à casa do presidente Lula (PT). A convocação da audiência pública que acontecerá em outubro foi feita pelo deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ).

“A nossa greve está constituída e é uma coisa concreta. Tão concreta que o governo quer acabar com ela, apostando em seu esvaziamento. Mas não há ilegalidade alguma na nossa greve, que foi suscitada por conduta ilícita da administração pública. O governo sabe que não pode efetuar o corte do ponto, o governo sabe que não pode culpar a greve pelos problemas de sucateamento da rede. E agora o governo tem que entender que conseguimos abrir negociações com a ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos, com a qual teremos uma audiência na próxima segunda-feira, dia 9 de setembro, em Brasília”, afirmou Cristiane Gerardo, dirigente regional do Sindsprev/RJ.

Contra a municipalização e privatização da rede federal

A assembleia foi aberta com a apresentação de informes das mobilizações e atividades de greve nos seis hospitais federais da rede no Rio. Também foram apresentados informes mais detalhados das sessões dos conselhos municipal e estadual de saúde que, em julho e agosto deste ano, rejeitaram a municipalização da rede federal. “A ideia dos conselhos é solicitar audiência com a ministra Nísia Trindade para confirmar a nossa posição contrária a qualquer municipalização ou fatiamento da rede federal”, explicou Osvaldo Mendes, dirigente do Sindsprev/RJ e presidente do Conselho Municipal de Saúde do Rio. Em resposta a dúvidas dos servidores sobre a sessão do Conselho Estadual de Saúde que também rejeitou a municipalização de unidades federais, Osvaldo respondeu que houve quórum suficiente para tal rejeição.

Presidente da Comissão de Saúde da Câmara Municipal do Rio, o vereador Paulo Pinheiro (PSOL) manifestou apoio aos servidores. “Sabemos que, infelizmente, a greve é feita majoritariamente por técnicos em enfermagem e sem grande envolvimento de outros profissionais, como médicos, odontólogos e psicólogos. Mas esses profissionais também serão atingidos se o fatiamento da rede acontecer, pois haverá redução do número de trabalhadores e uma piora da situação. Quero lembrar que o governo só não conseguiu fatiar a rede por causa da resistência de vocês. Por isto temos de fortalecer a greve, que é uma luta por mais qualidade no serviço público”, disse ele. Perguntado sobre quais medidas a Comissão de Saúde poderia tomar contra a Portaria nº 4.847 — que transfere a gestão do Hospital Federal do Andaraí ao município do Rio de Janeiro —, Paulo Pinheiro respondeu que, no momento, a orientação da assessoria jurídica da Câmara Municipal é no sentido de não ingressar imediatamente com ação na Justiça, uma vez que a referida Portaria foi apenas publicada pela ministra Nísia, mas ainda não executada.

Servidora lotada no Hospital Cardoso Fontes, Maria Isabel destacou a necessidade de fortalecer a greve. “Estamos num momento derradeiro da nossa luta. O nosso compromisso é o de lutar para conseguir o enquadramento na carreira da Ciência e Tecnologia, mas também vamos continuar brigando contra o fatiamento. Afinal, nós não estamos aqui em vão. Contamos com vocês”, ressaltou.

Fortalecer a greve da rede federal é essencial neste momento

“A importância da nossa união é essencial neste momento. Tomara que esta greve continue até novembro, quando acontecerão as atividades do G-20 aqui no Rio de Janeiro. Nossa mobilização é que nos levará à vitória”, frisou Sebastião José de Souza (Tão), dirigente do Sindsprev/RJ em Niterói.

Também membro da direção do sindicato, Sidney Castro analisou os desafios para os trabalhadores da rede federal. “Já estamos há mais de 100 dias em greve, o que não é nada fácil. Muitos que não acreditaram na nossa greve, como parte dos sindicatos dos enfermeiros e dos médicos, depois tiveram de reconhecer o acerto em fazê-la. Os ataques do governo aos nossos direitos começaram quando ele retirou as estruturas administrativas dos hospitais federais. Lutamos por concurso, pagamento da insalubridade, enquadramento na carreira da Ciência e Tecnologia e não ao fatiamento, mas, se não derrubarmos o fatiamento, vai ser difícil conseguirmos o enquadramento na Ciência e Tecnologia. Precisamos continuar resistindo, como fazemos desde o início desta greve”, disse.

Membro do Comando de Greve do INSS no Estado do Rio e ex-dirigente do Sindsprev/RJ, o servidor aposentado Carlos Vinícius Costa Lopes afirmou seu apoio à greve da rede federal. “Uma greve de quase quatro meses, como a de vocês, não é para qualquer um. Mas nós temos um ponto em comum, pois o mesmo patrão que ataca a saúde é o que também ataca a previdência pública. A greve do INSS continua forte no país e, neste momento, membros do Comando Nacional de Greve ocupam o gabinete da presidência do INSS, em protesto contra a tentativa de desconto dos dias parados. O governo tentou desmobilizar a greve do INSS, mas não conseguiu. Quanto à greve de vocês, eu também vejo que tem perspectiva de vitória”, afirmou, sob aplausos.

Plenária com Reimont sobre enquadramento na Ciência e Tecnologia

Finda a assembleia, por volta de 15h45, foi então iniciada a plenária dos servidores da rede federal — também no auditório do Sindsprev/RJ — com a presença do deputado federal Reimont (PT-RJ). O parlamentar foi convidado por ser autor de uma emenda ao texto do Projeto de Lei (PL) nº 3.102/2022, enquadrando os trabalhadores do Instituto Nacional de Cardiologia (INC) e do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO) na carreira da Ciência e Tecnologia. Já aprovada na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara, a emenda elaborada por Reimont seguirá as próximas etapas de tramitação. A intenção do Sindsprev/RJ é que o parlamentar envide esforços no sentido de também incluir, no texto do PL 3102 ou em outro dispositivo semelhante, a possibilidade de enquadrar os servidores dos seis hospitais federais (Cardoso Fontes, HSE, Andaraí, Bonsucesso, Lagoa e Ipanema) na carreira da Ciência e Tecnologia. Um dos argumentos centrais para isto é o fato de os trabalhadores dos institutos federais e dos hospitais federais terem ingressado no serviço público por meio do mesmo concurso, o que requer da administração pública um tratamento isonômico e paridade salarial entre os servidores enquadrados e ainda não enquadrados na carreira da Ciência e Tecnologia.

Antes de responder a esta demanda específica, Reimont foi solicitado pelos servidores do INSS e da rede federal a buscar a viabilidade, junto a instâncias do governo Lula, no sentido de abrir negociações com representantes das duas categorias em greve. Sobre o INSS, o deputado se comprometeu a conversar com os ministros Carlos Lupi (Previdência) e Rui Costa (Casa Civil). E sobre a rede federal ele se comprometeu a procurar a ministra Nísia Trindade e também o Ministério da Gestão e da Inovação (MGI).

Especificamente quanto ao pedido de enquadramento dos servidores dos hospitais federais na carreira da Ciência e Tecnologia, Reimont disse não saber se a reivindicação é viável, mas garantiu que ficará atento quanto às possibilidades de concretizá-la. Segundo ele, a viabilidade poderia ocorrer por meio de inclusão no PL 3.102 ou em outro projeto. “A verdade é que o governo Lula precisa ser pressionado para atender às demandas da sociedade brasileira. Afinal, governo é governo e movimento social é movimento social. Estou à disposição de vocês e quero dizer que podem contar comigo”, finalizou.

terça-feira, 14 de maio de 2024

A quem interessa que a Saúde seja luxo? * Ladislau Dowbor/Outras Palavras

A quem interessa que a Saúde seja luxo?
Ladislau Dowbor
no Meer | Tradução: Gabriela Leite

Há vastos exemplos de que sistemas públicos são mais eficientes. Mas modelo hiperfinanceirizado dos EUA se espalha pelo mundo, com remédios caríssimos, marketing trapaceiro e seguros abusivos. Resultado: mortes, sofrimento e dívidas
A indústria de Saúde tornou-se uma área-chave da atividade econômica. Está sendo rapidamente privatizada, com resultados profundamente negativos, exceto para os poucos felizardos no topo da pirâmide de riqueza. O mercado livre e irrestrito pode funcionar melhor para a escolha de sapatos. Mas para a Saúde, é um desastre. Não é uma questão de ideologia, mas de observar exemplos daquilo que funciona melhor.

Longe de fornecer Saúde Universal, o legado dos aportes das instituições de financiamento ao desenvolvimento em saúde privada com fins lucrativos tem mais chance de resultar em uma crescente concentração de riqueza e poder nas mãos de um pequeno número de homens escandalosamente ricos.¹

As simplificações ideológicas na economia são uma maldição, e são baseadas não apenas na ignorância, mas sobretudo no interesse financeiro. O Paxlovid, um tratamento recente da Pfizer para covid, com 30 pílulas, está sendo vendido por US$ 1.390 – no entanto, pesquisadores de Harvard descobriram que o custo de produção para o tratamento completo é de cerca de US$ 13. Até onde pode ir esse despropósito? A questão-chave aqui é que as decisões são tomadas não com base em quanto se pode melhorar a Saúde, mas quanto dinheiro é possível extrair, ainda que reduza drasticamente o acesso. Para os algoritmos que calculam a otimização de marketing, é óbvio que, nas comunidades abastadas, os clientes não verão muita diferença entre pagar cem ou mil dólares, ao sentirem que sua saúde está ameaçada – eles são muito sensíveis – e pagarão qualquer preço. Os algoritmos refletirão a lógica que incorporaram: maximizar lucros. A ideologia confere o sentimento de justiça: acumular dinheiro é correto e moral neste esporte.

Poderiam justificar com a alegação de que tiveram que gastar muito em pesquisa. Isso é parcialmente verdadeiro, claro, e válido para várias das grandes corporações farmacêuticas. Mas a verdade é que o enorme progresso feito pela humanidade em pesquisa em Saúde é principalmente herdado dos avanços científicos amplos que nos deram o entendimento do DNA, a microscopia eletrônica, bioinformática, IA, nanotecnologia e tantas transformações estruturais nas bases tecnológicas da pesquisa. Quando uma corporação oferece um produto final, pelo qual a população terá que pagar, mas que a maior parte dos insumos de capacidade de pesquisa usados para produzi-lo foi herdada e paga por nossos impostos, isso representa, como Gar Alperovitz e Lew Daly chamaram, “merecimentos injustos”.

O esquema OxyContin nos revela outra dimensão, na qual causar mortes em grande escala é irrelevante, desde que o produto se pague. A crise dos opioides “evoluiu, começando com pílulas sob prescrição médica e terminando com o fentanil sendo produzido ilicitamente, além de outras drogas que juntas já foram responsáveis por 800 mil vidas americanas nos últimos 25 anos, com previsões de mais um milhão de mortes até o final da década”. As famílias Sackler, Purdue e Johnson & Johnson foram levadas à justiça, mas foram penalizadas com apenas algumas multas: “Os reguladores federais e promotores não foram capazes de aproveitar o momento. Mais uma vez, as grandes farmacêuticas escaparam. Os promotores negociaram um acordo no qual a Purdue pagou uma grande multa, mas foi autorizada a continuar vendendo OxyContin praticamente sem restrições. Foi feito apenas um acordo para que seus executivos se declarassem culpados de contravenções e evitassem a prisão… Os EUA ainda não conseguem aprender as lições de uma catástrofe unicamente norte-americana, são incapazes de romper a influência do dinheiro de grandes corporações sobre a medicina, a regulamentação de drogas e a responsabilidade política”.²

Podemos encontrar milhares de exemplos de fraudes, marketing mentiroso e outras ilegalidades. É possível encontrá-los em uma rápida pesquisa na internet, colocando o nome de qualquer grande corporação farmacêutica junto com “acordos”. A lógica é simples: trata-se de uma área diferente de responsabilidade legal, na qual os culpados pagam somas enormes, mas que são como troco de bala em comparação com seus lucros. Assim, seus donos se livram não apenas da prisão, mas também de admitir culpa. A Wikipedia também fornece uma “lista dos maiores acordos farmacêuticos”, cada um na casa dos bilhões de dólares, por violações da Lei de Reivindicações Falsas [False Claims Act é uma lei estadunidense que pune entidades ou indivíduos que defraudam programas governamentais] e similares. Tudo é feito com exércitos de advogados e especialistas de primeira linha em negócios, finanças e até mesmo em drogas. Não é uma questão de não saberem o que estão fazendo. E eles interrompem seu programa de TV com uma garota simpática dizendo que esse medicamento será maravilhoso para você. O consumidor paga por esse comercial, cujo custo está incluído no preço dos produtos. Cerca de 27% do preço de um produto da Johnson & Johnson são para custos de marketing, não para pesquisa.

Esses poucos exemplos se referem à Big Pharma, mas uma lógica similar se aplica a tantos outros serviços de saúde privatizados. A questão que levantamos aqui é: a privatização é compatível com a garantia de vidas saudáveis, ou apenas com os lucros provenientes de serviços de saúde? O problema básico é que um sistema de saúde privatizado, com suporte de regulação pública, que é o modelo dos EUA, é um fracasso sistêmico. É incompetente e ineficiente. No Brasil, como nos EUA e outros países, os oligipólios de saúde assumiram as instituições de regulação. Alega-se frequentemente que a “autorregulação” é suficiente. Mas é um desastre.

Os números são muito explícitos na figura acima. Os gastos com Saúde nos EUA, em 2019, foram de US$ 10.921 per capita, e a expectativa de vida de 77,3 anos. Trata-se do sistema basicamente privatizado e não regulamentado que vimos. No Canadá, onde a Saúde é basicamente pública, gratuita e com acesso universal, o custo per capita foi de US$ 5.048, menos da metade, e a expectativa de vida de 81,7 anos. A lógica não é complexa: nos países onde os sistemas são pensados para garantir a saúde da população de fato, as políticas se concentram, entre outros, na saúde preventiva, na água limpa, no controle de emissões, em vacinas, em cidades mais saudáveis. A preocupação central não está em vender o máximo possível de medicamentos e serviços de cura. Trata-se de saúde, não de negócios.

Este estudo do Banco Mundial é esclarecedor. No Reino Unido, os números correspondentes são US$ 4.313 de gasto per capita e 80,9 anos de expectativa de vida, apesar de tantos ataques ao NHS [Sistema Nacional de Saúde]. A Dinamarca é outro caso interessante onde há serviço de saúde basicamente público: US$ 6.003 e 82 anos. Na França, US$ 4.492 e 82 anos. Em outro nível, Cuba é um exemplo interessante, com gastos de US$ 1.032 e 79 anos, superior aos 77 anos dos EUA. Para o Brasil, os números são US$ 853, e uma expectativa de vida de 76 anos, graças, em grande medida, ao Sistema Único de Saúde. Os grupos de seguro de saúde brasileiros, alguns deles propriedade de corporações de saúde privadas dos EUA como United Health, ou da indústria de gestão de ativos como BlackRock, são um exemplo impressionante de ineficiência sistêmica. Eles drenam recursos financeiros de cerca de 50 milhões de pessoas. Mas quando você se aposentar, não poderá mais pagar por eles, na idade em que mais precisaria.

Os serviços de saúde privados tornaram-se uma enorme arena financeira. No geral, os serviços de saúde representam quase 20% do PIB nos EUA – é sua maior indústria, com resultados dramaticamente pobres, a menos que você esteja no clube dos ricos com acesso a ilhas de serviços de saúde privados de luxo. “Enquanto isso, um terço dos americanos sem seguro não pode pagar seus medicamentos, e quase metade dos que não têm cobertura solicitou aos médicos opções mais baratas. A presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi (Democrata da Califórnia), apresentou na semana passada o plano de seu partido para permitir que o governo participe da definição dos preços dos medicamentos prescritos. O projeto foi nomeado de ‘Ato para Reduzir Agora os Custos dos Medicamentos’.”³ Eles ainda estão lutando.

O que é impressionante é que os EUA oferecem o modelo mais ineficiente e caro, mas é ele que está sendo gradualmente expandido em muitos países. Porque é lucrativo, mesmo que deixe a maior parte da população em situações dramáticas. A razão é que faz parte de um sistema financeiro integrado global. Eu pago a uma faxineira, um dia por semana, para limpar minha casa em São Paulo. Ela tem problemas de saúde, então entrou em um grupo de seguro saúde privado, o Notre Dame. Verifiquei dados sobre essa corporação e encontrei, entre seus investidores, a BlackRock. Assim, parte do que pago a uma pessoa modesta no Brasil é transferida para acionistas internacionais, em frações de segundo, como dinheiro virtual. Esta capilaridade de drenos financeiros com dinheiro virtual funciona em escala mundial. Precisamos de saúde, e em situações desesperadoras pagamos qualquer coisa, e nos endividamos – ou adiamos a busca por cuidados até que as coisas piorem, e fiquem mais caras. É um sistema de gestão globalmente falho.

Há uma óbvia dimensão ética. Tornar o acesso à saúde mais difícil, para ganhar mais dinheiro, é simplesmente imoral. E as empresas ganham mais dinheiro quando atende aos mais ricos. Que haja tanta desgraça em um país abastado como os EUA é algo simplesmente absurdo. O que os gigantes da gestão de ativos sabem sobre serviços de saúde, exceto em relação a quanto dinheiro podem extrair? Mas a dimensão econômica é igualmente absurda. E trata-se de economia básica: com muitos produtores e uma riqueza de escolhas, a concorrência pode estimular melhores produtos e preços. Não é o que acontece no caso do sistema de saúde.

Um amigo médico resumiu de forma clara para mim: ele trabalha em um hospital privado e precisa cumprir cotas de procedimentos, que o hospital cobrará do seguro saúde, que por sua vez dificulta a aprovação de procedimentos, exigindo que se avalie caso a caso. O grupo de seguro de saúde cobrará tanto quanto possível dos clientes. Ele geralmente está ligado a uma grande gestora de ativos, e o retorno para os investidores é central. No triângulo entre o médico, o hospital e os seguros de saúde, os interesses do paciente vêm por último. É caro e ineficiente – e aumenta o PIB. Mas o que precisamos é de mais saúde, serviços melhores e mais baratos. Quando você aumenta custos e preços, você aumenta o PIB, mas da maneira errada.

A ideia básica que estou tentando transmitir aqui é que algumas atividades funcionam claramente melhor em um ambiente de mercado livre, como produzir bicicletas, tomates ou abrir um bar. Mas colocar nossa saúde nas mãos de corporações financeiras em um ambiente de maximização de lucros é um tributo à incompetência. E as mortes e sofrimento resultantes são dramáticos, sem falar no sentimento permanente de insegurança, para nós e para nossas famílias. É apenas uma questão de seguir os exemplos comprovados do que funciona melhor: acesso público universal gratuito. Quanto tempo mais os norte-americanos continuarão cruzando a fronteira para o Canadá?




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sexta-feira, 22 de setembro de 2023

PLANO ESTRATÉGICO 2014-2024 * LIGA NACIONAL DOS CORPOS DE BOMBEIROS MILITARES DO BRASIL / LIGABOM

LIGABOM
PLANO ESTRATÉGICO 2014 - 2024
LIGA NACIONAL DOS CORPOS DE BOMBEIROS MILITARES DO BRASIL
LIGABOM
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Plano Estratégico da LIGABOM 2014-2024, o que os Oficiais Militares dos corpos de bombeiros pensam.


Indo direto ao assunto, os oficiais pensam que: “Bombeiros civis e voluntários são ameaças”, consideram os “desastres”, a “Força Nacional de Segurança Pública” e “ o aumento de representação legislativa” como oportunidades, excelentes propagandas na sociedade espetacular a qual permite holofotes para instituições públicas que se portam como empresas.

Se verificarmos o que aconteceu no país na última década veremos que os Corpos de Bombeiros Militares estaduais, estão em franco ataque as iniciativas de bombeiros civis, inclusive com criações de leis federais que limitam os serviços, e impõem sob o estado o recrudescimento do militarismo, que tem levado Associações de Bombeiros Voluntários de terceiro setor a adaptar-se com roupagem organizacional militar para sobreviverem, o que permite um poder absoluto para elites que as controlam.

Por outro, lado os desastres se transformaram em palco onde militares de diversos estados transitam com a ideia de “apoio”, mas que na verdade serve a implementar o “soft power” que inibe a população e sociedade civil de se organizarem com aportes públicos para criarem novas formas de atuarem em Proteção Civil e Emergência, minando inclusive iniciativa de bombeiros civis.

Neste caminho, a Força Nacional de Segurança Pública, passa a ser um dos painéis de ação dos “comandantes” militares para imprimir poder em desastres e trazer credibilidade institucional dentro e fora do Brasil, como numa das últimas “missões” com a de ida de 21 militares ao Canadá, para enfrentamento dos incêndios florestais, ou seja, em pleno governo de esquerda o lobby de militares sendo priorizado e fomentado através do grande tiro no pé, da primeira gestão Lula que foi a criação da Forna Nacional de Segurança Pública, ninho de articulação dos oficiais a nível com influência nas 55 corporações Policiais e Bombeiros Militares e outras 27 Policiais Civis do país, o que fatalmente contribuiu com o bolsonarismo. E por fim, observando o grande avanço no número de políticos oriundos dos corpos de bombeiros militares, que em SC elegeram recentemente um governador na esteira avassaladora do Bolsonarismo. 

O que não está sendo visto, pela esquerda, é que não há aleatoriedade, mas um planejamento calcado em metas e estratégias seguidas fielmente nos últimos anos, inclusive minando o que ele observam como adversários, não a esquerda, mas os Bombeiros Civis, hoje estes, perdidamente apaixonados em grande medida pela mosca da ultra direita. Por outro lado, a esquerda, para os oficiais de alta patente, dos Corpos de Bombeiros nunca foi um problema e se quer é lembrada, justamente pela forma como lidamos e vemos os bombeiros, “ anjos que salvam vidas”.

Logo, fica claro que a esquerda não sabe, mas as articulações militares estão nos escaninhos do Estado Burguês atuando sorrateira e silenciosamente, de maneiras mais ou menos clara, com mecanismos diversos, em reuniões públicas e privadas, ou em jantantes reuniões em salões e restaurantes com políticos e empresários, a atual nobreza, sanguessuga da classe  trabalhadora.

Assim, é a LIGABOM - Liga Nacional dos Corpos de Bombeiros Militares - a qual hoje é nomeado como Conselho Nacional dos Corpos de Bombeiros Militares do Brasil, fundando em 2003, é uma associação que serve aos interesses de expor o pensamento e a forma determinante hegemônica de como lidar com a emergência e defesa civil no país, sob a tutela e domínio dos oficiais dos Corpos de Bombeiros Estaduais.

Através das 10 comissões que articulam o pensamento único em áreas da emergência e salvamento que vão, dos resgates urbanos, incêndios florestais, etc. Pode parecer que é algo simples e altruísta, aliás está a melhor estratégia de lidar com o assunto no país, “Bombeiros São heróis, salvam vidas”, logo são impassíveis de críticas e não se manifestam politicamente e são incólumes as ideologias de ultra direita.

O que não é verdade, pois que a essência é, o domínio e controle social, através da dependência ao serviço de militares, portanto ao seu poder. Assim, a Ligabom serve desde sua fundação, até o presente momento, aos interesses do oficialato dos 27 estados da federação, não havendo espaços nem para as praças discutirem e proporem caminhos.

Diante do cenário catastrófico de emergências climáticas e de desastres de mega magnitudes que desponta no horizonte humano, mais que nunca se torna importante e estratégico as classe trabalhadoras vir reivindicar seu poder e direito no que diz respeito à forma como realizar Proteção Civil, e Emergência no país, e no mundo, sendo questão de enfrentar as forças da grande locomotiva que queima tudo como combustível. Para tanto, descortinar as hegemonias e dominações de instituições públicas como os Corpos de Bombeiros Militares e seus tentáculos de roupagem civil como a LIGABOM, além de também dos fantasmas militaristas e centralizadores de diretorias anacrônicas e práticas de mercados dentro de associações civis de bombeiros voluntários que se portam como trampolim da elite para domínios políticos em pequenas cidades, conhecer o Plano Estratégico da LIGABOM é um instrumento de entendimento necessário.


Comuna, setembro, 2023

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sexta-feira, 23 de junho de 2023

Centrão quer assaltar a Saúde * Dr Drauzio Varella&Gabriel Brito e Antonio Martins/Outraspalavras

Centrão quer assaltar a Saúde (II)
Drauzio Varella

É um pesadelo ver a pressão do centrão pelo Ministério da Saúde

Depois do que a Saúde sofreu nos últimos quatro anos vamos retroceder dessa forma humilhante?

Semana passada, passei quatro dias gravando o atendimento médico que a ONG Zoé presta aos habitantes das margens dos rios Tapajós, Guarapiuns e Amazonas.

Sair da correria infernal de São Paulo e cair no mundo silencioso dos ribeirinhos, gente simples que vive em contato íntimo com a natureza, devolve a paz que a cidade grande teima em nos negar. O Tapajós é um rio imenso, que chega a ter 18 km de largura, o Amazonas, nem se fala. Que geografia generosa a nossa.

Estava nesse estado contemplativo quando tive a infelicidade de receber um sinal de internet. Maldita hora.

Os jornalistas comentavam a notícia de que o assim denominado centrão pressionava o presidente para derrubar a ministra Nísia Trindade, com a intenção de entregar o comando do Ministério da Saúde aos deputados que compõem esse grupo.

Se possível "de porteira fechada", termo grosseiro que empregam quando pretendem preencher com apadrinhados todos os cargos com acesso às verbas governamentais.

Parecia um pesadelo: depois dos atentados criminosos que a Saúde sofreu nos últimos quatro anos, vamos retroceder dessa forma humilhante?

Justamente quando nos enchíamos de esperança de que uma profissional respeitada pelos que atuam na área iria organizar a reconstrução do ministério arrasado pela incompetência administrativa, pela estupidez e pelos desmandos de gente prepotente e despreparada para conduzi-lo?

O SUS é o maior programa de saúde pública do mundo. Nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes ousou oferecer assistência médica a todos os habitantes. Em pouco mais de 30 anos, fizemos a maior revolução na história da saúde pública brasileira.

O que mais me dói quando vejo o mau gerenciamento do sistema, a falta de financiamento, as interferências políticas da pior espécie, a roubalheira desavergonhada e o desinteresse daqueles que contam com os planos de saúde, é que o SUS dispõe de tudo o que é necessário para funcionar bem.

Não há que inventar nada. Está tudo aí: o programa Estratégia Saúde da Família, em que os agentes batem de porta em porta, mais de 42 mil Unidades Básicas de Saúde, os pequenos hospitais dos municípios para os atendimentos rotineiros, os regionais para os casos mais graves e os hospitais terciários para os procedimentos de alta complexidade, além de programas nacionais como os de imunizações, transplantes de órgãos, hemodiálises, medicamentos de alto custo, o resgate e tantos outros elogiados mundo afora.

O que nos falta são recursos financeiros mínimos, gerenciamento e uma política de saúde pública digna desse nome.

Anos atrás escrevi neste espaço que, apenas no período de 2008 a 2018, o país teve 13 ministros da Saúde. A média de permanência no cargo foi de dez meses. O que dá para construir em período tão curto? Quando eles começam a entender os problemas enfrentados nas grandes cidades e no Brasil profundo, são trocados por outros.

E, pior: não são substituídos por sanitaristas mais competentes, mas por políticos carreiristas que asseguram aos governos maioria no Parlamento.

Por esse caminho, já tivemos ministros sabidamente corruptos, outros eram ignorantes, alheios às dificuldades de acesso à saúde que atormentam o dia a dia dos mais pobres. Um deles confessou não ter ideia do que era o SUS, uma vez que sempre foi atendido em hospitais militares.

O que leva um cidadão a aceitar um cargo nessas condições? Não seria o mesmo que eu aceitar o convite para ser comandante das Forças Armadas sem nunca ter entrado num quartel?

Os desmandos que ocorrem na esfera federal se repetem nos estados e nos municípios.

Quem anda pelo Brasil é testemunha da incompetência dos gestores, das interferências de políticos da pior espécie, dos roubos e dos desmandos que castigam os usuários do SUS.

E enxerga a diferença abissal existente nas cidades em que o secretário municipal e o prefeito são comprometidos com o atendimento à população.

Reconstruir o SUS exigirá trabalho árduo e anos de dedicação dos melhores especialistas em saúde pública.

E estes felizmente existem, embora tenham sido afastados ou rebaixados para posições subalternas, chefiadas por gente com interesses duvidosos e nenhum compromisso com a saúde dos brasileiros.
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Centrão quer assaltar a Saúde (I)

Por Gabriel Brito e Antonio Martins/Outraspalavras


Captura desviaria recursos do ministério para impulsionar candidatos conservadores nas eleições municipais de 2024. Mas há outro fator decisivo: a transição tecnológica, que pode tanto revigorar o SUS quanto escancarar as portas para sua privatização por dentro

Na semana que passou, escancararam-se as especulações em torno de uma suposta troca de comando no ministério da Saúde, a partir de pressões de “forças ocultas” da política brasileira. O presidente da Câmara dos Deputados e líder principal do “Centrão”, Arthur Lira, encheu a mídia de blefes a respeito de seu interesse em garantir o ministério para seu grupo político. Ao mesmo tempo, a ministra do turismo, Daniela Carneiro, também integrante do grupo, jogou seus dados, fazendo chegar ao público a notícia de que aceitaria sair da pasta, mas com uma “recompensa”: a Diretoria Geral dos Hospitais Federais do Rio de Janeiro, riquíssimo manancial de verbas e alvo de pesadas disputas políticas nos bastidores que antecederam a nomeação do atual diretor, Alexandre Telles. O que está por trás destes movimentos? Qual seu timing preciso? E que consequências adviriam de uma hipotética cedência de Lula?

Um artigo escrito em coautoria pela cientista Sonia Fleury – uma das pioneiras da Reforma Sanitária – e pelo médico e professor Luiz Antonio Neves, ex-prefeito de Piraí (RJ) ajuda a decifrar a questão. Sonia e Luiz Antonio participaram com destaque de uma reunião plenária em que a Frente pela Vida (FpV) examinou o tema, na última quarta-feira (14/6). Seu texto, que será publicado nas próximas horas em Outras Palavras, também ajuda a compreender, de forma mais ampla, a involução das instituições políticas do país. Mostra como os interesses fisiológicos do “Centrão” articulam-se com os apetites de medicina de negócio, no esforço para privatizar o SUS por dentro. Apontam como tais práticas ameaçam corroer a frágil democracia brasileira. E propõem um antídoto: a mobilização social, especialmente nos dias que nos separam da 17ª Conferência Nacional de Saúde e em seus desdobramentos.

Com dotações de R$ 162 bilhões em 2023, o ministério da Saúde é o menos pobre da esplanada, em despesas correntes (mas apenas o quinto, em investimentos). A isso deve-se acrescentar, lembram Sonia e Luiz Antonio, sua imensa capilaridade, fruto do próprio caráter federalista do SUS. As despesas com Saúde são comandadas principalmente por prefeituras e governos de Estado. Mas a fonte de recursos central é a União, que repassa verbas aos demais entes por meio do Fundo Nacional de Saúde. Quase nenhum dos 5.568 municípios brasileiros é capaz de manter os gastos do SUS sem contar com ele.

O ministério da Saúde é, portanto, crucial. Se gerido com espírito republicano, como sob a ministra Nísia Trindade, contribui para dar conforto e construir cidadania entre 160 milhões de brasileiros que recorrem exclusivamente à Saúde pública. Mas se aparelhado para fins eleitoreiros, suas verbas transformam-se em instrumento de chantagem e interferência política espúria. Basta, por exemplo, que irrigue os prefeitos “amigos” e que dificulte o acesso dos adversários a recursos indispensáveis.

Esta ação pode, aliás, ser complementada por outra, a cargo dos próprios deputados e senadores e apontada em reportagem recente da Folha de S.Paulo. Consiste em utilizar as emendas parlamentares, que deveriam beneficiar os municípios, não para seus prefeitos – mas a grupos opositores, que as recebem por meio de entidades civis. A matéria descreve o caso de Amargosa, no interior da Bahia. Lá a Codevasf, alimentada por estas emendas, entrega máquinas de irrigação para grupos políticos ligados a ruralistas enquanto mantém na seca a prefeitura, do PT. Basta imaginar estas práticas multiplicadas pela ação nacional do ministério da Saúde para entender como podem manipular as eleições de 2024, cujas alianças começarão a ser definidas nos próximos meses.

O texto de Sonia e Luiz Antonio chama atenção, a seguir, para um papel mais estratégico do ministério da Saúde: o de definir a configuração futura do SUS – limitando ou ampliando, em especial, a presença da medicina de negócios em seu interior. Os autores descrevem o enorme esforço já realizado por Nísia para recuperar a pasta dos desmandos bolsonaristas. Mas destacam com igual vigor a importância do Complexo Econômico e Industrial da Saúde (CEIS), cuja ampliação é um compromisso de Lula. A partir das encomendas do SUS, lembram eles, o Brasil pode (re)construir uma vasta indústria de medicamentos, vacinas, insumos, equipamentos hospitalares, de diagnóstico e a vasta gama de serviços ligados a eles. Isso será ainda mais importante dado o grande salto tecnológico diante do qual está a Saúde. Nos próximos anos, práticas como as teleconsultas e o uso da Inteligência Artificial irão se tornar onipresentes.

Se bem planejadas, podem ajudar a oferecer serviços de excelência à população e, de quebra, contribuir para a luta contra a reprimarização econômica no país. Caso contrário, desumanizarão os serviços, alienando os profissionais de Saúde da relação com os pacientes e servindo como cavalo-de-tróia para invasão do SUS por corporações privadas. Aqui, é interessante refletir em como entrelaçam-se os interesses da política mais fisiológica com os da medicina de negócios. Sonia e Luiz Antonio lembram, a respeito: “devido à incapacidade do mercado de planos e seguros de saúde de ultrapassar a cobertura além de ¼ da população, mesmo com os subsídios governamentais, sua possibilidade de expandir a lucratividade depende da disputa dos fundos públicos da saúde”…

Há por fim, na investida do Centrão, uma terceira ameaça: a que atinge a própria democracia brasileira. Os autores chamam atenção para uma “conjuntura de disputa político-eleitoral permanente”, na qual “as forças que perderam as eleições presidenciais, mas que são majoritárias no Congresso, buscam emparedar o governo Lula, esvaziando sua força política e impedindo, assim, o cumprimento do programa reformista para o qual foi eleito”. O que está em jogo, demonstra o texto, é “o poder de transformar o país em uma democracia social ou de continuar minando a democracia eleitoral por dentro, destruindo a inteligência do aparato estatal, desmontando as políticas de proteção social, inviabilizando investimentos e construção de uma economia nacional competitiva e uma nação soberana”. O artigo adverte: antecipa-se assim “o cenário eleitoral para as próximas eleições presidenciais que permitiria o retorno de um governo de direita. Esse jogo já está sendo jogado”.

Lula cederá? A depender de sua própria vontade e espírito de sobrevivência, é certo que não. Mas o jogo institucional é bruto. Por isso, Sonia e Luiz Antonio chamam atenção para a necessidade de incluir, no cenário, um elemento hoje ausente: a mobilização social em favor das reformas. E há um cenário muito promissor para exercê-la: a 17ª Conferência Nacional de Saúde (em Brasília, de 2 a 5 de julho). Uma mobilização importante, frisa o texto, já começou nas primeiras etapas (municipais, estaduais, setoriais, e mais de cem “conferências livres”) do grande evento. Este processo se dá, até o momento, sob o silêncio das mídias comerciais.

Mas poderá desabrochar, concluem os autores. Para isso, é preciso que a 17ª Conferência desencadeie ações capazes de demonstrar “que saúde não é mercadoria e que o ministério da Saúde não será moeda de troca, pois o SUS é a maior conquista democrática da nossa sociedade, exatamente porque foi construída no seio das lutas sociais pela democracia”.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

A MORTE LENTA DOS NOSSOS HOSPITAIS UNIVERSITÁRIOS * Wladimir Tadeu Baptista Soares Cambuci/Niterói - RJ

 A MORTE LENTA DOS NOSSOS HOSPITAIS UNIVERSITÁRIOS 

Existia um hospital
Que era universitário

E servia para formar muita gente na área da saúde.

Era um hospital com emergência aberta 24 horas e que atendia a todos os Princípios Constitucionais do SUS.

Acolhedor e humano,

Era referência de bom atendimento e de respeito ao sofrimento de todo ser humano.

O seu quadro de pessoal era formado por servidores públicos estatutários, concursados e estáveis, compromissados com a boa prestação do serviço público de saúde a todos que a ele recorria.

Infelizmente, um dia, reitores inconsequentes

Jogaram esse hospital nas mãos de um monstro chamado EBSERH:

uma empresa brasileira de serviços hospitalares,

Com personalidade jurídica de direito privado,

Que nega os Princípios e os fundamentos do SUS.

O hospital, antes universitário e sob a gestão de uma Universidade Pública Federal, passou, da noite para o dia, a ser um hospital empresarial, predominantemente assistencial e sem qualquer compromisso com a formação acadêmica dos estudantes das áreas da saúde, tornando-se um hospital de portas fechadas, ignorando o interesse público e funcionando sob uma lógica de direito privado, em que o lucro não é mais social, mas sim econômico.

O seu quadro de pessoal é formado por empregados públicos celetistas, não estáveis, sem perfil acadêmico e aprovados em um concurso público sem a participação da Universidade na sua organização.

Essa "publicização" (ao deixar de ser regido pelo regime jurídico administrativo de direito público e passado a ser regido pelo regime jurídico administrativo de direito privado) imposta àquele nosso antigo Hospital Universitário só trouxe prejuízos para os estudantes, trabalhadores e população, não trazendo nada de bom para nenhum deles.

A formação médica está precarizada, a sociedade pouco assistida e os trabalhadores sem autonomia para o exercício do seu ofício.

Essa morte lenta imposta ao hospital universitário precisa ser interrompida, sendo o remédio para que isso aconteça é o retorno desse hospital para a sua respectiva universidade pública federal, resgatando a sua gestão pública a ser exercida sob o regime jurídico de direito público, respeitando todos os princípios Constitucionais norteados do SUS e afirmando o regime jurídico único como aquele que deve reger os seus trabalhadores (servidores públicos estatutários).

Assim, aquele governo que criou essa aberração chamada EBSERH e aquele Congresso Nacional que autorizou a sua criação devem, agora, reconhecer o grave erro que cometeram no passado e extinguir essa empresa, que jamais deveria ter sido criada, de modo a salvar a vida daquele nosso tão necessário e imprescindível hospital público federal universitário,

Que hoje mal respira por aparelhos.

É o que esperamos do próximo governo.


Wladimir Tadeu Baptista Soares
Cambuci/Niterói - RJ
Nordestino wladuff.huap@gmail.com
05/11/2022

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sábado, 3 de dezembro de 2022

PRIVATIZAÇÕES: O GRANDE CONSENSO BURGUÊS * Vinícius Corrêa.Lavrapalavra

PRIVATIZAÇÕES: O GRANDE CONSENSO BURGUÊS

Por Vinícius Corrêa.Lavrapalavra

Faz um mês que Lula derrotou Bolsonaro nas urnas e o debate tem rumado cada vez mais à direita. O que é a um só tempo, previsível e decepcionante, como tende a ser com o Partido dos Trabalhadores. Debate-se o “rombo do orçamento” na economia em um tom de dar inveja aos Sardenbergs da vida. E na educação? Aqui esse debate não existe, pois por que debater algo que é consensual?


Em evento fechado[1] aos movimentos sociais, aos estudantes, professores e entidades de pesquisa em educação, Fernando Haddad realiza um grande encontro sobre educação para pensar nas prioridades “urgentes” para o MEC no futuro próximo. No melhor estilo Fernando Haddad, seus convidados de honra foram Priscila Cruz (Todos Pela Educação), Neca Setubal (Fundação Tide Setubal e herdeira do Itaú), Diniz Mizne (Fundação Lemann), Ana Inoue (Itaú Educação) e Ricardo Henriques (Instituto Unibanco), ou seja, trata-se do mesmo grupo que predou a educação pública e ocupou o MEC na última década e teve nenhum problema em se aliar ao governo golpista de Temer.

Este grupo é comumente chamado de “tubarões da educação” (ou seus representantes públicos, pois não veremos CEOs de Kroton, Positivo, COC e outros nas reuniões), um nome que penso deve ser repensado, pois para qualquer um que tenha ido a um aquário ou assistido a um documentário sobre tubarões fica claro que o comportamento deste predador é muito menos agressivo do que estes agentes, convivendo tranquilamente com suas presas pela sua relativa preguiça e parcimônia, talvez seja melhor chamá-los por outro apelido, mais assustador, porém fidedigno: think tanks e lobistas da educação burguesa pela privatização, publicização e terceirização.

Predando o Estado, este grupo compõe grande parte do CNE[2], MEC, CONSED[3] e UNDIME[4], sendo fortemente financiado por organizações filantrópicas e desinteressadas como Itaú, Natura, Banco Mundial, Ambev e outras, a coalização burguesa em educação é capaz da proeza de formular, regulamentar, implementar, fiscalizar e financiar as políticas públicas, porque está em todos os níveis da administração do Estado.

Se o Estado burguês pode ser descrito de forma leninista como uma democracia para a burguesia e uma ditadura para o proletariado, no caso específico da educação é exatamente desta forma como o Estado se comporta: estudantes, profissionais da educação, responsáveis dos alunos e, talvez mais importante, as necessidades educacionais concretas da população brasileira sempre são completamente excluídos do debate sobre a educação básica.

Basta lembrar da reorganização escolar de Geraldo Alckmin, as OSs de gestão escolar em Goiás, qualquer coisa que a gestão Renato Feder fez no Paraná, mas principalmente o contrato criminoso com a UNICESUMAR para transformar cursos técnicos em aulas online presenciais, e, a sua obra-prima, a contrarreforma do ensino médio por medida provisória assinada pelos excelentíssimos Michel Temer e Mendonça Filho.

Em todos esses casos os estudantes secundaristas demonstraram sua capacidade de auto-organização, pensamento crítico e disposição de luta negando intransigentemente essas tentativas de apropriação privada da educação pública, e, como narra brilhantemente Allan Steimbach em sua tese de doutorado: “os sujeitos que ocuparam [as escolas], antes de mais nada, queriam ser ouvidos, queriam debater, mas tiveram esta possibilidade negada.” (2018, p. 136). Em todos esses casos, os interesses materiais que impediram os estudantes de serem ouvidos eram os mesmos, think tanks educacionais que hoje sentam à mesa e fartam-se com o banquete oferecido pelo PT: de entrada temos reuniões do gabinete de transição, o prato principal é o MEC e as políticas públicas educacionais, a sobremesa são as portarias que abrem espaço para contratos superfaturados com empresas que parasitam o Estado e sacrificam a qualidade educacional (ou seria este justamente o prato principal?); servem os pratos os professores, diretores e pedagogos, recebendo goela abaixo as instruções de secretarias que mal sabem interpretar as políticas públicas formuladas pela burguesia; do lado de fora, esperando alguma migalha estão os movimentos sociais, e principalmente, os estudantes. Cabe aqui novamente a frase de Marx sobre a repetição da história.

Talvez aquilo que nos coloca numa posição mais vulnerável é justamente a posição contraditória do grupo educacional que hoje parasita o MEC. Depois de toda uma pandemia criticando o MEC bolsonarista (mesmo que cooperando fortemente com ele na implementação da reforma do ensino médio) por seu negacionismo sanitário, o Todos Pela Educação repete na educação o que os think tanks econômicos fazem na economia praticando um verdadeiro negacionismo educacional, complemento necessário do negacionismo econômico promovido pelos arautos do ajuste fiscal permanente e a fada da confiança.

Orientados por uma racionalidade econômica vil, o projeto educacional desses think tanks é o mesmo da economia neoliberal, mínimo gasto e máxima precarização, o ponto mais alto dessa racionalidade é o texto “Um ajuste justo” do Banco Mundial, que propõe a necessidade de diminuir ao mínimo a razão aluno-professor, ou seja, maximizar o número de alunos por turma. Qualquer um que tenha sido aluno sabe que uma sala com 20 alunos tem uma qualidade de ensino maior do que uma sala com 40 alunos, qualquer professor que avalie 20 alunos sabe a qualidade de seu trabalho será muito superior do que se avaliar 40 ou 50 alunos por turma, quando o próprio conceito de avaliação diagnóstica cai por terra pela impossibilidade de diagnosticar qualquer coisa quando você mal lembra o nome e o rosto dos alunos.

Outra grande proposta desse projeto educacional é a educação profissional, não importa com quem você converse, a educação profissional parece ser um consenso. Não obstante, a educação profissional do novo ensino médio não é a mesma dos Institutos Federais, pelo contrário, é a educação profissional que nem mesmo um curso técnico é, podendo se dividir em cursos menores que completam uma só carga horária de forma cumulativa, o que talvez seja melhor do que a pavorosa iniciativa de trancar alunos dentro de uma sala de aula para ver vídeo aulas, como nos técnicos administrados pela SEED de Renato Feder.

Por outro lado, temos a educação básica, compreendida pela famosa BNCC, com sua carga horária expandida e diluída, afinal para que física e sociologia se podemos ter Projeto de Vida, Empreendedorismo, Educação Financeira e uma série de outras eletivas que são administrada pelos mesmos professores que perdem as aulas nas disciplinas nas quais se formaram e dedicaram uma vida a aperfeiçoar? Sem falar no caráter ideológico dessas novas disciplinas.

Isso nos deixa com um cenário onde somos obrigados a relembrar o apelido dado ao Novo Ensino Médio: “NEM-NEM”, nem prepara para a educação superior, nem para a vida profissional. De fato passamos da fase da educação dualista divida entre propedêutico e profissional, o problema é que isso foi feito no sentido de aprofundar o fosso que separa às classes sociais no Brasil, e não diminuí-las.

O Novo Ensino Médio foi formulado partindo de um modelo fracassado, a parte básica chamada BNCC foi inspirada na educação estadunidense estabelecida no Common Core, seu objetivo básico é o aumento do aprendizado em áreas cobradas diretamente em testes padronizados internacionais como o PISA, o que faz com que apenas Matemática, Português e Inglês mantenham sua carga horária completa, todas as outras disciplinas tradicionais tiveram suas carga horárias reduzidas. Sem entrar no mérito do fracasso desse próprio objetivo[5], deve-se ressaltar o fracasso histórico dos Estados Unidos nas avaliações, neste caso não faria mais sentido copiar o modelo chinês que frequentemente ocupa as primeiras posições?

O resultado é um fracasso retumbante. Quem está nas escolas reprova o novo ensino médio taxativamente, vemos alunos exaustos com a carga horária ampliada, o desespero dos alunos-trabalhadores do noturno ao ter quatro anos de ensino médio, professores com sua carga horária reduzida se desdobrando em disciplinas como Projeto de Vida e Pensamento Computacional quando veem seus alunos não chegarem à química orgânica ou à ditadura militar, pois estes são tradicionais conteúdos de terceiro ano da química e da história, respectivamente; sem contar o aumento do trabalho burocrático realizado pelos professores oriundo da BNCC, suas competências vagas e o constante desinvestimento da verba educacional que faz com que o pouco pessoal administrativo seja insuficiente para dar conta de todas as atribuições de uma escola.

Mas talvez a pior parte seja a reprovação unânime à disciplinas como Projeto de Vida e as eletivas, impostas aos estudantes e contrárias à própria tradição escolar, essas disciplinas causam um profundo desinteresse e, na realidade, se manifestam como a expressão do tempo excessivo na escola que esgota mentes pela fadiga e, ao contrário do que a propaganda nos diz, afasta ainda mais os estudantes do aprendizado.

Se os professores reprovam a nova estrutura curricular, os alunos a desprezam. Os contrarreformadores iniciam um novo sistema de avaliação, com a brilhante ideia de não haver mais notas, eles apenas esqueceram que os alunos de ensino médio já passaram nove anos dentro da escola e dentro dela foram ensinados que a única motivação para fazer uma atividade é a nota. Triste realidade esta nossa, mas o reformador (ou contrarreformador) que ignora a realidade só pode ser um utopista ou um demagogo, sabemos qual deles são os think tanks educacionais.

Chegamos ao último ponto, e a resistência? Por que apesar de todos esses problemas são com estas pessoas que um governo de esquerda se senta para planejar seu programa educacional? Será se o PT e Haddad não enxergam que o novo ensino médio e os interesses do grande capital não são os mesmos de uma educação emancipadora e popular?

Bom seria se assim fosse, mas a política não é o espaço dos trouxas e dos iludidos. Se se sentam nas mesas com estes aliados, é porque estes aliados são aqueles que ou são ideologicamente afeitos ou seriam inimigos tão formidáveis que é melhor precaver-se. Então vamos ao histórico da figura que comanda o gabinete de transição do PT para a educação.

Fernando Haddad é tudo, menos um político de cariz popular na educação. Ministro da educação no governo Lula, o ex-prefeito de São Paulo sempre deixou claro sua afeição pelo mercado educacional tendo sido sócio-fundador do próprio Todos Pela Educação[6]. Não se trata aqui de uma aliança tática, de uma forte pressão de um adversário implacável, mas uma relação umbilical que já dura mais de uma década entre um dos nomes fortes do Partido dos Trabalhadores para a área da educação. Por isso, só se surpreende com os acenos ao mercado educacional quem não conhece a trajetória do petismo, eis a justificativa do título: há um consenso burguês sobre o novo ensino médio representado pelo Todos Pela Educação, este consenso burguês é adotado de corpo e alma pelo governo eleito.

Portanto, a resistência a isso só poderá vir por fora do futuro governo. Mas devemos nos lembrar de quem está hoje à frente das organizações populares que podem mobilizar-se em direção a pressionar o governo. Da UNE, o PCdoB, da UBES, o PCdoB, da CUT (portanto dos maiores sindicatos educacionais do país), o PT. Sejamos francos camaradas, a resistência ao novo ensino médio será tanto mais árdua quanto haja uma linha de continuidade entre a ação dessas organizações no primeiro período petista no governo e o novo governo do PT que se inicia, já que estas organizações vergonhosamente se ocuparam de apaziguar as contradições de classe e ser uma mera cadeia de transmissão do governo para as bases durante os quatorze anos de governo.

Resta a auto-organização de alunos e professores para criar um debate nacional em torno da necessidade da revogação da Lei 13.415/2017 da reforma do ensino médio e da construção de uma nova reforma educacional, que não se restrinja aos currículos e ao ensino médio, mas altere a própria forma de ser da educação brasileira. Lembremos também, que se o PT será um adversário nessa luta, é um adversário que permite ao menos a possibilidade da discussão da revogação da contrarreforma, enquanto que as alternativas à direita nem mesmo esta possibilidade está em aberto. Temos pouco tempo, mas muita revolta.

Por fim, me permitirei uma indiscrição ao compartilhar uma frase de uma grande lutadora pela educação pública e popular no Brasil ao receber as notícias dessa semana: “Nós fizemos campanha intensa pela eleição de Lula, e hoje estamos tristes e preocupados… foram chamados para conversar os representantes do setor empresarial e privatista. ‘Aperfeiçoar o Novo Ensino Médio’[7] não nos representa, não representa a juventude das 87% das matrículas do ensino médio público do país, então pergunto: qual educação voltou a ser prioridade?”.

É com esta tristeza e preocupação que precisamos lutar pela revogação imediata da reforma do ensino médio, e pela construção da escola popular no Brasil.


Referências:

FARIA, Camila Grassi Mendes de. A privatização da política educacional brasileira: o papel do movimento pela Base Nacional Comum na ampliação do modelo de governança do Estado. Tese de Doutorado em Educação. Curitiba, UFPR, 2022.

FARIA, Camila Grassi Mendes de.; SILVA, Monica Ribeiro. O Movimento pela Base Nacional Comum: configurações da relação público-privado no contexto do ensino médio. In: AZEVEDO, J. C.; REIS, J. T. (Orgs.). Neoconservadorismo e resistência: dilemas da educação pública. Porto Alegre: Editora Universitária Metodista, 2019. Pp. 85-100.

MALINI, Eduardo. O consenso como ponto de partida? Uma análise dos papéis desempenhados pelos atores participantes na formulação do plano de desenvolvimento da educação. Dissertação de Mestrado em Educação. Juiz de Fora, UFJF, 2009.

MARTINS, Erika Moreira. “Movimento Todos Pela Educação”: Um projeto de nação para a educação brasileira. Dissertação de Mestrado em Educação. Campinas, UNICAMP, 2013.

RAVITCH, Diane. The death and life of the great american school system. Ed. 1. Nova Iorque: Basic Books, 2011.


Notas

[1] Para ler sobre o encontro: Haddad reúne representantes de fundações e ex-MEC para discutir educação em governo Lula. Renata Cafardo. Estadão. 07 nov. 2022. Disponível em: https://www.estadao.com.br/politica/haddad-reune-representantes-de-fundacoes-e-ex-mec-para-discutir-educacao-em-governo-lula/. Acesso em 9 nov. 2022.

[2] Conselho Nacional de Educação, órgão permanente de Estado responsável pela regulamentação e implementação de políticas públicas.

[3] Conselho Nacional de Secretários de Educação, associação dos secretários estaduais de educação. Historicamente tiveram um importante papel de contestação do MEC, sobretudo no período FHC, hoje atuam quase como linha de transmissão direta do MEC, os conselheiros possuem grupos de trabalho sobre temas específicos onde a linha política do empresariado educacional serve como orientação. Importante aliado na implementação e concretização da reforma do ensino médio.

[4] União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, similar ao Consed, mas menor em escala e com menor ligação orgânica com o CNE e o MEC. Ambos Consed e Undime tem fortes ligações com o Movimento Pela Base Nacional Comum Curricular. Sobre este e outras redes de governança empresariais na educação: FARIA, C. G. M. 2022; FARIA; SILVA, 2019; MARTINS; KRAWCZYK, 2018.

[5] Diane Ravitch (2011) avalia o modelo estadunidense e demonstra como seu resultado é a burocratização da educação, de forma que os professores passam a transformar o conteúdo educacional em preparação para os testes, além disso, não aumenta significativamente o conhecimento nessas áreas, sendo mais provável explicar o pequeno aumento da nota dos testes pelo melhor preparo dos alunos para os testes do que pelo conhecimento adquirido.

[6] Erika Moreira Martins (2011) escreveu uma dissertação sobre o movimento Todos Pela Educação onde demonstra que Haddad foi o elo entre o poder executivo e o movimento, algumas das citações da dissertação demonstram isso:

“Neste momento, o grupo que estava à frente do TPE era: Ana Maria Diniz (grupo Pão de Açúcar); Antônio Jacinto Matias (Grupo Itaú); Luís Norberto Paschoal (grupo DPaschoal); Milu Villela (Grupo Itaú-Unibanco); Ricardo Voltolini (Jornalista); Maria Lúcia Meirelles Reis e Priscila Fonseca Cruz, ambas ligadas ao tema de trabalho voluntário e terceiro setor. Por parte do governo federal, a participação no “Pacto” foi corroborada pela presença nas primeiras reuniões do então ministro da educação Fernando Haddad, do então Secretário de educação básica, Francisco dasChagas Fernandes, de José Henrique Paim Fernandes, presidente do FNDE na época, de Gabriel Chalita, presidente do CONSED na época e da então presidente da Undime, Maria do Pilar Lacerda” (p. 53).

“A gente não sabia queia ter um alinhamento tão forte e tão explícito por parte do Fernando Haddad. Se você for olhar, o Ideb, as metas do Ideb, o que compõe o PDE, são totalmente alinhados com as metas do Todos pela Educação (Entrevista 2, diretora executiva do TPE, citada em Martins, 2011, p. 122-123).

Outra análise interessante foi feita por Eduardo Malini (2009, p. 110) em sua dissertação de mestrado, quando traz a seguinte citação:

“Seja como for, o paralelo que se estabelece é a concomitância entre a elaboração do documento Dez causas, 26 Compromissos [elaborado pelo Todos Pela Educação] com a chegada de Haddad ao MEC, como Ministro. Dessa forma começa-se a delinear as formas mais gerais que o PDE iria assumir depois de apresentado à sociedade. A apresentação desse documento ao Ministro fez com que ele se surpreendesse com a capacidade de síntese da equipe do Movimento. Segundo Priscila Cruz [Intelectual orgânica e liderança do Todos Pela Educação], a reação de Haddad foi de perplexidade “’Poxa! Mas isso é tudo o que o Brasil precisa. Vocês conseguiram sintetizar num documento curto tudo que o Brasil precisa colocar na educação. Vocês conseguiram dar um foco, vocês conseguiram dar um norte bem claro’” (CRUZ, 2008)