domingo, 30 de janeiro de 2022

BOLSONARISTA ASSASSINO AMEAÇA A ANVISA * Priscila Tessuto

FASCISTA ASSASSINO AMEAÇA A ANVISA

A cara do fascismo brasileiro no assassinato do cachorro em ameaça à Anvisa

Priscila Tessuto*

A fragilidade da democracia brasileira está patente, seja na facilidade em se legitimar um impeachment, seja no poder dos discursos do presidente da república que ameaça, abertamente, as instituições e os profissionais que fazem o país continuar funcionando. O que o veganismo tem a ver com isso?

Qualquer pessoa vegana que seja responsável por crianças já se deparou com a questão da vacinação. Os que, como eu, assumem esses cuidados a partir do parto, sabem que a criança não sai da instituição – hospital ou casa de parto – sem vacinas: BCG ID e a vacina contra Hepatite B são aplicadas no primeiro dia de vida. Depois, o calendário do SUS acompanha quase mês a mês o desenvolvimento do primeiro ano da criança, com vacinas: DTP, Hib2, VOP, VORH, SRC, dentre outras, em duas, três doses e reforços. Ainda durante a infância, não se matricula a criança em creche ou escola infantil sem o cartão de vacinação em dia. Ou seja, é uma lógica do Estado para zelar pela população humana e nunca houve grandes questionamentos desse padrão.

A dificuldade enfrentada pelas pessoas veganas está na consciência que têm de todo o processo da vacina até ela estar pronta para os humanos: animais de diversas espécies são expostos a doenças e experimentações para que a vacina tenha comprovação de eficácia e segurança entre humanos. Esse processo, para aqueles que buscam a compreensão e a desconstrução do especismo, é penoso e violento. Aceitar o pacto social, o compromisso coletivo do controle e da erradicação de doenças entre humanos às custas de vidas inocentes e descartáveis, é viver uma contradição ética desconcertante.

Por mais que nosso desejo seja o de avançar no debate sobre as vacinas e buscar progredir nos testes, evitando sofrimento e morte de milhares de coelhos, ratos, cães, primatas etc., nos deparamos com uma realidade cuja produção de doenças caminha lado a lado com o crescimento – e a ideia arcaica de progresso – de indústrias alimentícias, farmacêuticas e outras cujos lucros dependem do confinamento e da exploração de corpos não humanos. A COVID-19 é um vírus que, como outros vírus e bactérias igualmente agressivos e letais, é oriundo do confinamento de porcos e aves criados para alimento. Outras tantas doenças têm suas origens no mesmo contexto: aglomeração de espécies exploradas pelo ser humano, para diferentes fins. Mas parece, infelizmente, que não estamos preparados para essa conversa. Ainda nos debatemos na cultura antropocêntrica, pautada pela lógica do capital, tentando sobreviver aos vermes do eugenismo que insistem em contaminar nossa humanidade. E que, sim, detêm as mesmas raízes ideológicas que condenam as demais espécies.

O bolsonarismo é o escancaramento do furor de uma parte significativa da população brasileira que se sentiu ultrajada em compartilhar, cada vez mais, os direitos civis – que avançavam significativamente – por meio da democratização dos direitos sociais. Incluir o pobre no orçamento, como diz o presidente Lula, foi uma ofensa para aqueles que lucravam, material ou simbolicamente, e/ou se confortavam sobre a opressão de corpos alheios. A crença na meritocracia, calcada pela ideia de democratização racial, como se todos os brasileiros partissem da mesma realidade em busca do sucesso, sofreu um xeque quando o estudante da onerosa escola católica perdeu a vaga na universidade federal para o jovem da escola pública da periferia. A presença de corpos pobres, pretos e femininos questiona a eficácia do Homem como figura única do fazer história; a presença de indígenas nos debates políticos questiona a ideia de progresso cultivada desde a colonização e carimbada em nossa bandeira, que virou escudo para aqueles que têm saudades da violência como instrumento “educacional” – controle, obediência e adestramento.

Bolsonaro foi eleito democraticamente sem precisar mentir sobre suas intenções e as percepções da população brasileira. Ainda em campanha, sugeriu metralhar membros do partido opositor, garantiu a retirada de terras indígenas, comprovou a cultura do estupro, inferiorizou mulheres e pessoas negras, em entrevistas, congressos e assembleias. Em seu mandato, incentiva e facilita o porte de armas, questiona e desmantela as instituições, leva metade do país à insegurança alimentar – não os que tem armas! Em meio à pandemia, desmotiva a vacinação com falsidades ideológicas.

Seus eleitores começam a desconfiar da vacina, questionando sua origem, composição e objetivos, fantasiando possibilidades comunista-imperialistas num paradoxo cuja análise renderia um longo estudo (considerando a cultura hegemônica vinda dos EUA, país por eles tão admirado, em um patriotismo esquisito que mora aqui e louva o de lá. Mas seguimos). A resistência à vacinação e a descrença nas instituições fervilharam quando chegou a vez das crianças na fila da injeção. Até então, nunca tinha havido preocupação sobre a composição das vacinas e seu laboratório de origem, ou interesse no nome daqueles que as liberaram para aplicação em nossas crias. As dúvidas provocadas não têm pertinência nem mesmo como interesses reais em compreender o processo – seja da vacina ou do mercado.

A preocupação com as crianças está para além das crianças… Elas carregam para o futuro a ânsia de quem está preso no passado. Da escola sem partido à mamadeira de piroca, as crianças são utilizadas como instrumentos de ataque aos direitos sociais quando o questionamento do status quo começa a aparecer nas instituições escolares que, na lógica do sistema, deveriam formar cidadãos focados no “ser alguém na vida”, mantendo a estrutura social nas opressões privadas dos lares cristãos, onde a mulher tem uma função social, o prazer é pecado e o pai, louvado. A educação sexual e a provocação para uma percepção crítica da realidade são condenáveis nessa manutenção, e o ódio ao que não é espelho faz parte da construção do sujeito, que tem espaço, comportamento e ideologia bem delineados pela estrutura social e cultural do país. A ponte recém-construída sob o abismo entre classe e cor é desmantelada com o dinheiro público e suas partes arremessadas contra quem insiste em reforçá-la.

“Bolsonarista que matou cão em ameaça à Anvisa tem 17 anos e faz parte de grupo nazista no RS” [1]

Um jovem menor de idade que, por lei, não responde por seus atos, ameaça profissionais da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que trabalham pela saúde pública lutando contra os discursos coercitivos do presidente da república. Um cachorro, ainda que considerado propriedade, tem direitos de proteção e bem-estar protegidos por lei. Mas é torturado e assassinado em tempo real, ações registradas no vídeo-ameaça: “É isso que vai acontecer com vocês”. Esse é um grupo social que encontrou espaço seguro para se denominar neonazista! Trata-se de uma lógica eugenista, de superioridade de raças, num país que caminhava para a compreensão da dívida histórica para com os cidadãos não brancos que ergueram, e ainda sustentam, esta nação.

O cachorro, julgado inferior por sua condição não humana, ainda possui algum direito garantido na escala especista eletiva, onde cada espécie recebe um tratamento de acordo com os interesses humanos. Ao porco, a facada ainda é considerada legal perante a lei; ao boi, o tiro de pressão na testa; à vaca, a inseminação forçada e o afastamento de sua cria, já condenada. Mas cães e gatos escaparam do direito humano de matar. Filmar o assassinato de um cachorro é gerar provas contra um crime, e a crueldade causou espanto por parte dos que acessaram o conteúdo do vídeo. Outra parte, dos que – arrisco dizer – são eleitores de Bolsonaro, justificaram: “é só um cachorro”.

“É só um cachorro”, para esta vegana que vos escreve, lembra o poema “A indiferença”, de Bertold Brecht. Talvez os que ainda estão moralmente presos no antropocentrismo se ofendam: afinal, o dramaturgo se limita às referências humanas. Mas quem exercita a desconstrução do especismo sabe que quem filma a morte e a tortura de um animal é capaz de fazer o mesmo com seu semelhante, porque a pessoa não se vê mais no outro, não há empatia, não há semelhança. Há uma prática de coisificação da vida, presa na lógica de Descartes de que os gritos dos animais são como os rugidos da carroça.

O cachorro, aqui, pode ser bem representado pelo referente ausente conceituado na obra de Carol Adams, A política sexual da carne: um corpo utilizado para um fim que ignora o sujeito que sente, sabe que sente e não pode resistir. A autora associa essa violência com os corpos das mulheres abusadas sexualmente que, em comentários comuns entre elas, referem-se a si mesmas como carnes de açougue: “Me senti como um pedaço de carne”. Um pedaço de carne não representa o sujeito daquele corpo; um pedaço de carne não faz mais parte de um corpo morto de um sujeito ignorado. Um pedaço de carne não sente. É possível se aproximar daquela ideia de outrora, que se referia ao corpo do trabalhador se tornando uma máquina, cujos movimentos repetitivos, nas longas jornadas de trabalho, acabava compondo o próprio maquinário que acionava. Em muitos momentos da história, o ser humano pôde sentir-se como um pedaço de carne, ou um pedaço de máquina, que não sente: um sujeito inexistente.

O acontecido, com o jovem e seu cachorro, tem tantas camadas de violência e violação que este artigo se limita a um convite para a reflexão sobre as estruturas e hierarquias de poder. É exatamente no exercício de enxergar essas camadas que lutamos pela vida das pessoas e de todos os animais.

*PRISCILA TESSUTO é atriz, psicopedagoga, ativista vegana, mãe. Licencianda em Ciências Sociais e arte educadora.

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