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quinta-feira, 5 de junho de 2025

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

TRABALHADORES DO MEU BRASIL * Beto Almeida/DF

TRABALHADORES DO MEU BRASIL
Beto Almeida*

“Foi, o chefe mais amado da nação, a nós ele entregou uma missão, que não largaremos mais”
Música ”Dr Getúlio”, Chico Buarque e Edu Lobo

Toda esta necessária discussão atual sobre a extorsão da Tirania Vídeo Financeira, praticada pelo Banco Central contra o direito de desenvolvimento econômico social do povo brasileiro, consignada nas taxas de juros mas também no Sistema da Dívida, que esterilizam a proclamada industrialização, é um dos temas que nos fazem recordar a atualidade de Getúlio Vargas; o presidente da república que realizou uma Auditoria da Dívida Pública Brasileira, reduzindo-a em mais da metade, para que fossem garantidos os investimentos necessários aos programas sócias e à industrialização do Brasil.

Realmente, não houve gesto mais consequente diante da tirania financeira, na época comandada por bancos ingleses, que estavam por detrás da mal rotulada Revolução Constitucionalista de 1932, que, na realidade, como disse o próprio presidente Lula recentemente, “não foi Revolução, mas uma tentativa de golpe contra o Governo Vargas”, exatamente porque os bancos ingleses, detentores da dívida externa brasileira, agindo em nome do imperialismo, queriam abortar, desde o início da Era Vargas, a proposta de industrialização baseada no protagonismo de estado que já se iniciara no Governo Provisório. Apoiada pelos Bancos Ingleses, a oligarquia paulista levou o Brasil a uma Guerra Civil de 6 meses de duração, com vistas a manter o Brasil como “uma grande fazenda de café”, destinado a ser eterna colônia fornecedora de matéria primas. É de se lamentar que o presidente Lula não conclua o próprio pensamento insinuado na denúncia do golpismo paulista contra Vargas. O golpismo continua atuando, com outras ferramentas. Mas em nome dos mesmos interesses> as Aves de Rapina!

A COAÇÃO DA HISTÓRIA

Em 1910, ainda estudante de direito, o jovem Getúlio Vargas, então líder estudantil, foi encarregado de fazer uma saudação ao Presidente de República eleito, Afonso Penna, quando em visita a Porto Alegre: “Pobres os países submetidos à coação da história, em que são obrigados a comprar a preços extorsivos, produtos industrializados a partir de sua própria exportação de matérias primas sub avaliadas”, sentenciou o então o jovem Getúlio, o que nos permite constatar a linha de coerência de seu pensamento de líder estudantil, como o que aplicaria mais tarde, já presidente, na condução da política econômica industrializante de seus governos, para o que criou ferramentas estatais, como o BNDES, que, até hoje, comprovam sua vigência, apesar da ausência de uma política eficaz de enfrentamento, no momento, com a tirania financeira.

A coação da história atual já tem números “desagradáveis“ a apresentar, para usar adjetivo que tem frequentado discursos do presidente Lula, especialmente no que toca à Venezuela. Em 1980, o Brasil detinha um PIB Industrial superior aos da China e dos Tigres Asiáticos somados. Estávamos então no período final daquilo que as diversas correntes de economistas brasileiros, até mesmo os mais colonizados, admitem como o fim da Era Vargas , que vai de 1930 a 1980, período em que o Brasil foi um dos países que mais se industrializou e cresceu. Depois disso, já com Figueiredo, o Brasil tem reprimarizada a sua pauta de exportações, e hoje registra um PIB Industrial que sequer alcança 30 por cento do registrado pela República Popular da China. Aliás, no momento em que comemoramos os 50 anos de relação bilateral construtiva entre Brasil e China, relações que foram retomadas pelo Governo Ernesto Geisel – um ex tenentista varguista que pegou em armas na Revolução de 1930 – desponta a oportunidade para uma reflexão menos corriqueira e mais estratégica sobre esta situação. A manobra imperial realizada, lamentavelmente com sucesso, para impedir que Geisel emplacasse um sucessor de sua linha, provavelmente o General Andrada Serpa, que era dos mais cotados, um general estatizante e que chegara a defender publicamente a Revolução Chinesa em debate com estudantes na UnB. “Se Mao Tse Tung conseguiu transformar a China, o Brasil conseguiria fazer infinitamente mais”, dissera, arrancando aplausos da estudantada.

FHC: PRECISAMOS DESTRUIR A ERA VARGAS

Não por acaso o comando do Brasil a partir do aborto ao formato de sucessão pretendida por Geisel, foi recair exatamente nas mãos do General Figueiredo, filho daquele que havia sido o chefe militar da Contra Revolução de 1932, em nome do financismo inglês e da pauta da desindustrialização, que toma vulto, na forma de um Sistema de Dívida Externa monitorado de fora, combinado com medidas que, a partir da sabotagem para que Leonel Brizola não passasse ao Segundo Turno nas eleições presidenciais de 1989, resultaram na eleição de Fernando Collor, quando o desmonte do estado se acelera, a começar pela desestruturação da Petrobras, ainda a nossa maior estatal, a maior de toda a América Latina.

Quando Fernando Henrique Cardoso, eleito sob o cabresto do Consenso de Washington, declara que “Precisamos Destruir a Era Vargas”, confessando assim sub absoluta vassalagem aos ditames hegemônicos dos EUA, a operação de “Exterminador do Futuro do Brasil” adquire um grau de articulação e coerência que, uma vez mais, pela forma trágica, revelava a importância histórica e a atualidade do Presidente Getúlio Vargas para o Brasil. Com FHC a taxa Selic chegou a 48%, um paraíso para os banqueiros. A destruição era de conjunto, com método e profissionalismo, a ponto do Brasil chegar ao desarmamento unilateral, o que, para um país com tal abundância de riquezas e território, consiste em declaração de uma rendição antecipada perante os crescentes apetites intervencionistas dos EUA e demais sócios da OTAN. As declarações ingerencistas da Generala Laura Richardson, Chefa do Comando Sul do Exército dos EUA, não deixam a menor dúvida quanto isto: esta senhora teve o desplante de recomendar que “o Brasil não deve aprofundar sua cooperação com a China”. O mais curioso e revelador foi o silêncio do Itamaraty frente a escandalosa intromissão de representante do EUA em nossos assuntos internos. Os itamaratecas não mouraram sequer um “desagradável”, adjetivo que circula com frequência elevada quando se trata de ingerência em assuntos internos da Venezuela. Quem respondeu, com altivez que o Itamaraty não demonstrou, foi a própria Embaixada da China no Brasil, repelindo a declaração hegemonista da pirata gringa e exigindo respeito para a elevada e construtiva cooperação Brasil-China, não por caso, já superior à relação nada horizontal que o Brasil tem com os EUA. Que falta nos faz um brasileiro como Samuel Pinheiro Guimarães à frente do Itamaraty!

REINDUSTRIALIZAÇÃO E VARGAS.

Muito embora existam círculos progressistas tentando, inutilmente, esterilizar os inconvenientes perigosos e os efeitos desastrosos de uma relação submetida aos EUA, a experiência demonstra que a política Neoliberal de Estado Mínimo e de Privações Selvagens, inclusive a Preços Negativos, protagonizada principalmente pelo FHC, conduziu o Brasil a esta posição de retrocesso para tornar-se, novamente, um grande exportador de matérias primas, no fundamental. Já no governo Getúlio Vargas, a política externa brasileira se aproveitava legítima e inteligentemente do contexto mundial para consolidar o protagonismo de estado – a Cia Siderúrgica Nacional foi um caso inédito em que EUA financiaram uma estatal. Não aproveitava as circunstâncias da época para Falar Grosso com a Nicarágua e Falar Fino com os EUA, como agora, quando é impossível esconder os laços de marionetes que comandam o Banco Central a partir do Banco Central dos EUA.

“Abre Alas que o Gegê vai passar, na memória popular” , alerta o belo samba de Chico e Edu Logo. Aliás, apesar de demonizado pela Rede Globo, pelo academicismo subalterno da USP, pela sociologia de vassalagem, pelo udenismo neocolonial que inspirou até alas da esquerda, em vários momentos, Getúlio Vargas comparece novamente ao Debate Nacional, ecoando em ideias contundentes como aquele o estampido daquele Tiro no Coração do Brasil que fez todo um povo chorar e levou as Aves de Rapina a fugir!

O LEGADO DE VARGAS

Comparece, inclusive, no debate da comunicação, como por exemplo, na Criação da Voz do Brasil – primeira experiência de regulamentação informativa no Brasil, enfrentando a tirania do mercado midiático. Mas, também, com a nacionalização da Rádio Nacional, com a criação da Rádio Mauá, a Emissora dos Trabalhadores, na qual entidades sindicais figuravam em sua direção. Nem se pode esquecer o jornal Última Hora, o único a defender o aumento de 100% do cento do salário mínimo e a criação do Décimo Terceiro Salário, numa linha editorial popular, trabalhista e nacionalista que o levou a ser Escola de Jornalismo, o único diário que defendeu o Governo Jango frente ao Golpe de 1964. Este Getúlio comparece ao debate nacional, esgrimindo a necessidade da regulamentação do trabalho, inclusive da profissão de jornalista, na qual foi pioneiro, inclusive na destemida doação do imponente edifício sede da Associação Brasileira de Imprensa, ABI, de onde até tentaram, absurdo, esterilizá-lo, e onde agora também promovem necessárias reflexões sobre o Legado de Vargas.

Para quem começou na vida política recebendo capas de jornais e revistas do anti varguismo, bem como olhares indulgentes da Fiesp e da Igreja Católica Escola Paga, Lula até que foi bastante corajoso ao visitar o Mausoléu de Vargas, em março de 2017, para homenageá-lo, revisando suas antigas críticas ao presidente gaúcho, poucos dias antes de ser preso pela Operação Neocolonial Lava Jato, comandada pelos EUA para desindustrializar o Brasil ainda mais, além de rapinar o petróleo, alterando a legislação no dia seguinte à derrubada de Dilma, ela também uma simpatizante do varguismo. Mas, sendo importantes para as novas gerações as revisões históricas de Lula, inclusive o pedido perdão público que fez a Brizola e Darcy Ribeiro, por não ter apoiado o CIEPs, a grave situação de estrangulamento que o Brasil vive hoje precisa mais que revisões e mea culpas. O maior legado de Vargas foi ter construído uma Unidade Nacional contra o imperialismo e as oligarquias desindustrializantes, uma maioria capaz de gerar a energia social e a força política capaz de enfrentar toda a Coação da História, todas as tiranias financeiras, bem como toda a pedagogia da subserviência acadêmica e tecnológica. É a esse Getúlio Vargas que o Brasil deve resgatar, do Presidente da República ao petroleiro, do Sem Terra ao Intelectual, dos Sindicatos aos movimentos sociais, dos Militares aos Empresários nacionalistas, para recolocar o país nos trilhos de uma definitiva e verdadeira emancipação nacional.

*Beto Almeida
Conselheiro da ABI
Diretor do Documentário “Vargas, a transformação do Brasil
“Abre Alas que o Gegê vai passar, olha a evolução da Historia..
Abre Alas para o Gegê desfilar na memória popular”
Música Dr Getúlio – Chico Buarque e Edu Logo, gravação de Beth Carvalho
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segunda-feira, 20 de setembro de 2021

SÃO INJUSTIFICÁVEIS AS CRÍTICAS DE ALAS DA ESQUERDA BRASILEIRA A VENEZUELA E NICARÁGUA * BETO ALMEIDA

 SÃO INJUSTIFICÁVEIS AS CRÍTICAS DE ALAS DA ESQUERDA BRASILEIRA A VENEZUELA E NICARÁGUA

BETO ALMEIDA  

                                         Quanto mais agressivas são as medidas do império e seus asseclas europeus contra Venezuela e Nicarágua, com sanções econômicas, políticas e guerra midiática implacáveis, repetem-se declarações de lideranças da esquerda brasileira contra os governos legítimos de Nicolás Maduro e Daniel Ortega, esgrimindo argumentos falsos que, via de regra, coincidem com aqueles lançados contra os dois países caribenhos pelo governo dos EUA e sua desmoralizada agência de política imperial, a Organização dos Estados Americanos, portadora de sinistra folha corrida de apoio a ditaduras e golpes de estado na região,  ao longo de décadas.  



O curioso é que os argumentos lançados pela Casa Branca contra governos populares no Brasil, incluindo a criação da Lava Jato, uma clara ingerência norte-americana contra a soberania brasileira, até conseguir sua meta  - a derrubada Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a destruição de empresas nacionais de engenharia  -   são lançados pelos mesmos agentes da estratégia dos EUA, só que agora , contra dois países com governos de esquerda , que se preparam, uma vez mais, como o fazem regularmente, para realizarem eleições em novembro próximo. Muitos destes dirigentes de esquerda no Brasil, e alguns da América Latina,  que reclamaram dos ataques imperiais com falsas acusações contra governo progressistas nacionais, agora repetem vários destes argumentos que a guerra midiática patrocinada pelos EUA lança contra a Revolução Bolivariana e a Nicarágua Sandinista.



Campanha da Legalidade


Certamente, é importantíssimo mencionar que quando os governos populares aqui eram alvo de falsas acusações de uma mídia internacional comandada por Washington, sobretudo acusações  - nunca provadas e agora desmentidas -  de prática de corrupção, essas mesmas lideranças , com justiça , se diziam , e eram, vítimas de uma guerra desinformativa desestabilizadora internacional, alertando  - corretamente  -  que eram ações preparativas de um golpe de estado para internacionalizar o petróleo. E , de fato, o golpe aconteceu em 2016, derrubando Dilma Rousseff e prendendo Lula, e pavimentando o caminho para  a rapina do petróleo e outras riquezas nacionais. E não houve resistência a este golpe. Foi muito frequente ouvir alguns slogans da esquerda, entre eles "Não vai ter golpe", quando, desgraçadamente,  o golpe se desenrolava aos olhos de todos, sem que o governo sequer convocasse uma cadeia de TV e Rádio para chamar a população a defender a Legalidade, como fez o governador Leonel Brizola, em 1961, derrotando o golpe com a sua Rede da Legalidade.  Mesmo tendo o poder de convocar uma cadeia nacional comunicativa para chamar o povo, o governo Dilma não o fez, sendo deposto sem uma acusação sequer de irregularidade, sem chamar uma greve, uma campanha popular em defesa da democracia.


Por tudo isto, soa ainda mais incoerente que agora, algumas  lideranças da esquerda brasileira, venham a criticar, de público, aos governos da Venezuela e da Nicarágua, que estão sob cerco e sob ataque ilegal do exterior, por usarem todas as ferramentas da legalidade nacional para resistir ao pretendido golpe dos EUA E, algumas destas lideranças, acusam Maduro e Ortega de não permitirem a liberdade de expressão, quando ambos os países estão com seu calendário eleitoral em marcha,  com a participação de  vários partidos de oposição, nos dois países, que concorrerão nas eleições marcadas para novembro próximo. 


Passividade ou Resistência?


Seria razoável criticar os bolivarianos e sandinistas por não se manterem passivos ante ações de ingerência externa financiada pelos EUA, conduta aliás que  foi aqui predominante, quando estruturas do estado brasileiro foram utilizadas e penetradas por agentes estatais dos EUA, com a mais inaceitável e vergonhosa tolerância por parte das autoridades brasileiras, que poderiam ter feito uso de instrumentos legais de defesa da democracia, previstos na Constituição, para chamar a sociedade brasileira a resistir ao Golpe, aliás, como é feito hoje pelos governos da Venezuela e da Nicarágua, rigorosamente dentro da legalidade, para combater atos ilícitos organizados do exterior? O que querem essas lideranças da esquerda brasileira, que  a Venezuela, sob coerção imperial há mais de 20 anos, e a Nicarágua, alvo constante de desestabilizações, país invadido várias vezes pelos Eua,  por parte da Casa Branca , fiquem inertes, passivas, e se submetam a estas pressões ilegais externas que visam impor o que chamam de alternância de poder, que, na verdade, é a interrupção dos processos revolucionários dos dois países? Por que acreditar agora na linha editorial dos sócios da TV Globo em outras latitudes que atacam Maduro e Ortega , como atacaram Lula e Dilma?


Corretamente, dentro da Constituição, o governo sandinista faz cumprir a legislação que proíbe o financiamento de partidos políticos e meios de comunicação por governos exteriores! Qual a dúvida  destes dirigentes de esquerda brasileiros? Querem que os sandinistas sigam o exemplo da passividade que norteou e balizou a queda do governo Dilma?  Acreditam que os sandinistas devem deixar impunes os crimes contra a soberania nacional nicaraguense? E por que criticar a Venezuela Bolivariana, agredida por confisco de ativos financeiros pela "democrática" Inglaterra, de receita petroleira pelos  EUA, com sua imagem falsificada e desfigurada por uma guerra mediática implacável por aqueles mesmos agentes que criaram a Fake News do Mensalão e da Lava Jato?  O governo Nicolás Maduro também mantém diálogo com a oposição, ao mesmo tempo em que organiza o processo eleitoral para novembro, com participação pluripartidária, como também se caracteriza o processo eleitoral da Nicarágua. Quem é o agredido nesta história, senão a soberania venezuelana? É legítimo ou não o direito de defesa da Revolução Bolivariana?


Quando os governos populares no Brasil eram alvo de guerra midiática que fabricou as campanhas do Mensalão , do Petrolão e da Lava Jato, a esquerda nacional, coerentemente, denunciou a falsificação destas agressões. Mas, agora, quando as mesmas fontes de guerra midiática atacam Venezuela e Nicarágua, para fazer crer que esses dois países, que regularmente realizam eleições, com participação pluri partidária,  são ditatoriais, alguns dirigentes da esquerda brasileira, fazem uso de dois pesos e duas medidas, e se associam ao coro organizado pelo império que condena os governos de Nicolás Maduro e Daniel Ortega.


Maduro e Ortega defendem conquistas revolucionárias, com apoio popular


Esses governos estão defendendo, com os instrumentos legais aprovados na Constituição, as suas conquistas revolucionárias, entre elas a erradicação do analfabetismo, algo que o Brasil , mesmo depois de 14 anos de administração progressista,  não foi priorizado, e sequer foi definida uma meta para ser alcançada. Razão pela qual, no Centenário de Paulo Freire, o Brasil ainda não derrotou o chaga do analfabetismo. Mas, se dá ao direito, por algumas vozes de esquerda, de criticar aqueles povos que erradicaram o analfabetismo e que resistem na defesa da nacionalização do petróleo, das suas empresas estatais, das riquezas minerais, de legislações trabalhistas avançadas, de programas sociais generosos, que estão de pé na Venezuela e na Nicarágua, enquanto a aqui, não soubemos derrotar o golpe, nem fomos capazes de impedir a subida do agente estrangeiro ao Palácio da Alvorada, nem temos sido capazes de barrar a demolição do estado nacional e dos direitos sociais.  


Venezuela e Nicarágua precisam e merecem apoio para resistir às criminosas agressões dos EUA. Aliás, como está bem definido em declaração oficial do Foro de São Paulo em relação esses dois países!


Beto Almeida 

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quarta-feira, 21 de julho de 2021

Angola expulsa Universal e Mourão também * Beto Almeida / 247

ANGOLA EXPULSA UNIVERSAL E MOURÃO TAMBÉM

Foto: 247

 Mourão, o anti-Geisel, e sua fracassada tarefa em Angola


O General Mourão foi indevidamente encarregado, pelo Presidente Bolsonaro, de fazer gestões junto ao presidente de Angola, João Lourenço, em favor dos interesses da Igreja Universal, empresa que foi expulsa de solo angolano por lavagem de dinheiro. O vice-presidente brasileiro ainda solicitou a mandatário angolano que recebesse uma delegação parlamentar brasileira, chefiada por um parlamentar que é bispo, para , de algum modo, evitar que a punição soberana do estado angolano fosse cumprida.


Além do evidente rebaixamento do cargo de vice-presidente da república às funções de operador em favor dos interesses de uma empresa cuja matéria-prima é a circulação manipulada da  fé, mas é possuidora de meios de comunicação (televisoras, rádios, editoras, jornal, gravadora de discos etc), a gestão feita por Mourão constitui-se em lamentável ingerência em assuntos internos de estado soberano, com o qual o Brasil possui larga e expressiva tradição de amizade, e, também, significativas ações de cooperação.


Estatizante X Neoliberal


É possível que o General Mourão, que durante a campanha eleitoral, em programa na Globo News, definiu-se como um "anti-Geisel",  explicando que considerava o ex-Presidente brasileiro "um estatizante", enquanto ele era neoliberal -   não tenha sabido  valorizar a importância que o MPLA, partido a que pertence o presidente Lourenço,  atribui ao mandatário gaúcho. Foi o governo do Presidente Geisel o primeiro a reconhecer a Independência de Angola e o governo do Presidente Agostinho Neto, em 1975, quando a nação angolana ainda lutava para expulsar o exército da África do Sul, então sob o regime do Apartheid. 


A decisão de Ernesto Geisel foi imensamente valorizada pela comunidade de países que lutava contra o colonialismo, entre eles a URSS, e, muito especialmente pela República de Cuba, que em solidariedade à justa luta de Angola por sua independência, enviou-lhe cooperação militar de envergadura, com cerca de 400 mil homens e mulheres cubanos que, ao final de uma longa guerra, foi fator determinante para derrotar o Exército da África do Sul, na memorável Batalha de Cuito Cuanavale, mesmo com o régio apoio que as tropas do Apartheid recebiam dos Estados Unidos e de Israel, países de submissa simpatia do General Mourão. Entrevistando a jornalista e escritora Katiusca Blanco,  biógrafa de Fidel, que também integrou as forças militares cubanas que derrotaram o exército mercenário de Jonas Savimbi , a UNITA, soube que a notícia da decisão do Presidente Geisel pela TV foi aplaudida pelas tropas cubanas e angolanas.


Kissinger, fora da agenda


Se por um lado Fidel Castro e Agostinho Neto, com o apoio da URSS, aplaudiam o pioneiro reconhecimento feito pelo governo Geisel,  de outro, o então Secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, mais conhecido como o "viajante da morte", desembarcou em Brasília , onde queixou-se do presidente brasileiro , alegando que "o governo brasileiro está fazendo o jogo dos comunistas em Angola com aquela linha em sua política exterior". De poucas palavras, Geisel respondeu em tom firme e surpreendente ao intervencionismo gringo: " Senhor Secretário, a nossa política externa não está na agenda da reunião".


Na realidade, os EUA  tinham alguma expectativa de que o Brasil algo pudesse fazer contra aquela histórica Operação Carlota, -   nome de uma negra cubana que lutou heroicamente contra a escravidão  -    que, em rota contrária à dos Navios Negreiros, ao longo de anos, cruzou o  Atlântico levando tropas e armamentos de Cuba para a libertação Angola. Entretanto, como Kissinger pode constatar, aquele reconhecimento pioneiro do Governo de Agostinho Neto por Ernesto Geisel não era um ato isolado da política externa brasileira de então. Enquanto naquela época defendiam-se interesses estratégicos do Brasil, Mourão,hoje,  rebaixa o Estado Brasileiro a um varejismo desqualificado em defesa de uma empresa atravessadora  da fé.


Geisel furou o bloqueio dos EUA ao Iraque


 A política externa brasileira, naquela época,  também registrou apoio e reconhecimento aos governos de Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Além disso, sustentava o Direito ao Mar para a Bolívia, ao mesmo tempo que reatava relações com a República Popular da China, então sob o comando de Mao Tsé Tung. Além disso, adotava nova postura em relação aos países árabes, impulsionando as relações com a Líbia e Iraque, ao ponto do Brasil enviar para este país a estatal Braspetro, responsável pela descoberta do maior manancial de petróleo por lá, em equipe sob o comando do geólogo Guilherme Estrella, que, mais tarde, teria grande responsabilidade na coordenação dos trabalhos de equipe que levaram à descoberta do Petróleo Pré-Sal. Quando o Iraque, na década de 70, passa a explorar o poço gigante de Majnou, os EUA impõem bloqueio contra o governo de Sadam Housseim, o qual o governo de Ernesto Geisel furou, comprando enormes quantidades de petróleo iraquiano, apesar da proibição imperial estadunidense.


O episódio em que o vice-presidente Mourão, em desqualificada tentativa de imiscuir-se em assuntos de outros estados para defender empresa punida por leis angolanas, é uma flor de oportunidade para refletir sobre o rebaixamento da política externa brasileira hoje, permitindo realçar o contraste com uma linha terceiro-mundista  praticada pelo Itamaraty por décadas. O soberano e altivo NÃO que o vice-presidente Mourão recebeu do presidente angolano João Lourenço, tornar-se-á ,certamente,  uma espécie de  paradigma negativo da involução da política exterior do Brasil, similar à batida de continência de Jair Bolsonaro ante a bandeira dos EUA.


 No contraste, está a postura de Geisel que, ao reconhecer o governo do MPLA, liderado por Agostinho Neto, inscreveu o Brasil na página da descolonização da África, em sintonia com o heroico esforço empreendido por Cuba que, ao derrotar o poderoso e bem armado exército sul-africano, libertou Angola e a Namíbia, desestabilizando o regime do Apartheid, contribuindo decisivamente para a libertação de Nelson Mandela. Ao sair da prisão, Nelson Mandela viaja a Cuba onde, agradecido, declara, em comício ao lado de Fidel Castro: "Devemos a Cuba o fim do Apartheid". A política externa brasileira estava do lado certo da História. 


Beto Almeida, jornalista

https://www.brasil247.com/brasil/presidente-da-angola-rejeitou-pedido-de-mourao-para-receber-delegacao-de-parlamentares-brasileiros-pro-universal

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