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sexta-feira, 23 de agosto de 2024

TRABALHADORES DO MEU BRASIL * Beto Almeida/DF

TRABALHADORES DO MEU BRASIL
Beto Almeida*

“Foi, o chefe mais amado da nação, a nós ele entregou uma missão, que não largaremos mais”
Música ”Dr Getúlio”, Chico Buarque e Edu Lobo

Toda esta necessária discussão atual sobre a extorsão da Tirania Vídeo Financeira, praticada pelo Banco Central contra o direito de desenvolvimento econômico social do povo brasileiro, consignada nas taxas de juros mas também no Sistema da Dívida, que esterilizam a proclamada industrialização, é um dos temas que nos fazem recordar a atualidade de Getúlio Vargas; o presidente da república que realizou uma Auditoria da Dívida Pública Brasileira, reduzindo-a em mais da metade, para que fossem garantidos os investimentos necessários aos programas sócias e à industrialização do Brasil.

Realmente, não houve gesto mais consequente diante da tirania financeira, na época comandada por bancos ingleses, que estavam por detrás da mal rotulada Revolução Constitucionalista de 1932, que, na realidade, como disse o próprio presidente Lula recentemente, “não foi Revolução, mas uma tentativa de golpe contra o Governo Vargas”, exatamente porque os bancos ingleses, detentores da dívida externa brasileira, agindo em nome do imperialismo, queriam abortar, desde o início da Era Vargas, a proposta de industrialização baseada no protagonismo de estado que já se iniciara no Governo Provisório. Apoiada pelos Bancos Ingleses, a oligarquia paulista levou o Brasil a uma Guerra Civil de 6 meses de duração, com vistas a manter o Brasil como “uma grande fazenda de café”, destinado a ser eterna colônia fornecedora de matéria primas. É de se lamentar que o presidente Lula não conclua o próprio pensamento insinuado na denúncia do golpismo paulista contra Vargas. O golpismo continua atuando, com outras ferramentas. Mas em nome dos mesmos interesses> as Aves de Rapina!

A COAÇÃO DA HISTÓRIA

Em 1910, ainda estudante de direito, o jovem Getúlio Vargas, então líder estudantil, foi encarregado de fazer uma saudação ao Presidente de República eleito, Afonso Penna, quando em visita a Porto Alegre: “Pobres os países submetidos à coação da história, em que são obrigados a comprar a preços extorsivos, produtos industrializados a partir de sua própria exportação de matérias primas sub avaliadas”, sentenciou o então o jovem Getúlio, o que nos permite constatar a linha de coerência de seu pensamento de líder estudantil, como o que aplicaria mais tarde, já presidente, na condução da política econômica industrializante de seus governos, para o que criou ferramentas estatais, como o BNDES, que, até hoje, comprovam sua vigência, apesar da ausência de uma política eficaz de enfrentamento, no momento, com a tirania financeira.

A coação da história atual já tem números “desagradáveis“ a apresentar, para usar adjetivo que tem frequentado discursos do presidente Lula, especialmente no que toca à Venezuela. Em 1980, o Brasil detinha um PIB Industrial superior aos da China e dos Tigres Asiáticos somados. Estávamos então no período final daquilo que as diversas correntes de economistas brasileiros, até mesmo os mais colonizados, admitem como o fim da Era Vargas , que vai de 1930 a 1980, período em que o Brasil foi um dos países que mais se industrializou e cresceu. Depois disso, já com Figueiredo, o Brasil tem reprimarizada a sua pauta de exportações, e hoje registra um PIB Industrial que sequer alcança 30 por cento do registrado pela República Popular da China. Aliás, no momento em que comemoramos os 50 anos de relação bilateral construtiva entre Brasil e China, relações que foram retomadas pelo Governo Ernesto Geisel – um ex tenentista varguista que pegou em armas na Revolução de 1930 – desponta a oportunidade para uma reflexão menos corriqueira e mais estratégica sobre esta situação. A manobra imperial realizada, lamentavelmente com sucesso, para impedir que Geisel emplacasse um sucessor de sua linha, provavelmente o General Andrada Serpa, que era dos mais cotados, um general estatizante e que chegara a defender publicamente a Revolução Chinesa em debate com estudantes na UnB. “Se Mao Tse Tung conseguiu transformar a China, o Brasil conseguiria fazer infinitamente mais”, dissera, arrancando aplausos da estudantada.

FHC: PRECISAMOS DESTRUIR A ERA VARGAS

Não por acaso o comando do Brasil a partir do aborto ao formato de sucessão pretendida por Geisel, foi recair exatamente nas mãos do General Figueiredo, filho daquele que havia sido o chefe militar da Contra Revolução de 1932, em nome do financismo inglês e da pauta da desindustrialização, que toma vulto, na forma de um Sistema de Dívida Externa monitorado de fora, combinado com medidas que, a partir da sabotagem para que Leonel Brizola não passasse ao Segundo Turno nas eleições presidenciais de 1989, resultaram na eleição de Fernando Collor, quando o desmonte do estado se acelera, a começar pela desestruturação da Petrobras, ainda a nossa maior estatal, a maior de toda a América Latina.

Quando Fernando Henrique Cardoso, eleito sob o cabresto do Consenso de Washington, declara que “Precisamos Destruir a Era Vargas”, confessando assim sub absoluta vassalagem aos ditames hegemônicos dos EUA, a operação de “Exterminador do Futuro do Brasil” adquire um grau de articulação e coerência que, uma vez mais, pela forma trágica, revelava a importância histórica e a atualidade do Presidente Getúlio Vargas para o Brasil. Com FHC a taxa Selic chegou a 48%, um paraíso para os banqueiros. A destruição era de conjunto, com método e profissionalismo, a ponto do Brasil chegar ao desarmamento unilateral, o que, para um país com tal abundância de riquezas e território, consiste em declaração de uma rendição antecipada perante os crescentes apetites intervencionistas dos EUA e demais sócios da OTAN. As declarações ingerencistas da Generala Laura Richardson, Chefa do Comando Sul do Exército dos EUA, não deixam a menor dúvida quanto isto: esta senhora teve o desplante de recomendar que “o Brasil não deve aprofundar sua cooperação com a China”. O mais curioso e revelador foi o silêncio do Itamaraty frente a escandalosa intromissão de representante do EUA em nossos assuntos internos. Os itamaratecas não mouraram sequer um “desagradável”, adjetivo que circula com frequência elevada quando se trata de ingerência em assuntos internos da Venezuela. Quem respondeu, com altivez que o Itamaraty não demonstrou, foi a própria Embaixada da China no Brasil, repelindo a declaração hegemonista da pirata gringa e exigindo respeito para a elevada e construtiva cooperação Brasil-China, não por caso, já superior à relação nada horizontal que o Brasil tem com os EUA. Que falta nos faz um brasileiro como Samuel Pinheiro Guimarães à frente do Itamaraty!

REINDUSTRIALIZAÇÃO E VARGAS.

Muito embora existam círculos progressistas tentando, inutilmente, esterilizar os inconvenientes perigosos e os efeitos desastrosos de uma relação submetida aos EUA, a experiência demonstra que a política Neoliberal de Estado Mínimo e de Privações Selvagens, inclusive a Preços Negativos, protagonizada principalmente pelo FHC, conduziu o Brasil a esta posição de retrocesso para tornar-se, novamente, um grande exportador de matérias primas, no fundamental. Já no governo Getúlio Vargas, a política externa brasileira se aproveitava legítima e inteligentemente do contexto mundial para consolidar o protagonismo de estado – a Cia Siderúrgica Nacional foi um caso inédito em que EUA financiaram uma estatal. Não aproveitava as circunstâncias da época para Falar Grosso com a Nicarágua e Falar Fino com os EUA, como agora, quando é impossível esconder os laços de marionetes que comandam o Banco Central a partir do Banco Central dos EUA.

“Abre Alas que o Gegê vai passar, na memória popular” , alerta o belo samba de Chico e Edu Logo. Aliás, apesar de demonizado pela Rede Globo, pelo academicismo subalterno da USP, pela sociologia de vassalagem, pelo udenismo neocolonial que inspirou até alas da esquerda, em vários momentos, Getúlio Vargas comparece novamente ao Debate Nacional, ecoando em ideias contundentes como aquele o estampido daquele Tiro no Coração do Brasil que fez todo um povo chorar e levou as Aves de Rapina a fugir!

O LEGADO DE VARGAS

Comparece, inclusive, no debate da comunicação, como por exemplo, na Criação da Voz do Brasil – primeira experiência de regulamentação informativa no Brasil, enfrentando a tirania do mercado midiático. Mas, também, com a nacionalização da Rádio Nacional, com a criação da Rádio Mauá, a Emissora dos Trabalhadores, na qual entidades sindicais figuravam em sua direção. Nem se pode esquecer o jornal Última Hora, o único a defender o aumento de 100% do cento do salário mínimo e a criação do Décimo Terceiro Salário, numa linha editorial popular, trabalhista e nacionalista que o levou a ser Escola de Jornalismo, o único diário que defendeu o Governo Jango frente ao Golpe de 1964. Este Getúlio comparece ao debate nacional, esgrimindo a necessidade da regulamentação do trabalho, inclusive da profissão de jornalista, na qual foi pioneiro, inclusive na destemida doação do imponente edifício sede da Associação Brasileira de Imprensa, ABI, de onde até tentaram, absurdo, esterilizá-lo, e onde agora também promovem necessárias reflexões sobre o Legado de Vargas.

Para quem começou na vida política recebendo capas de jornais e revistas do anti varguismo, bem como olhares indulgentes da Fiesp e da Igreja Católica Escola Paga, Lula até que foi bastante corajoso ao visitar o Mausoléu de Vargas, em março de 2017, para homenageá-lo, revisando suas antigas críticas ao presidente gaúcho, poucos dias antes de ser preso pela Operação Neocolonial Lava Jato, comandada pelos EUA para desindustrializar o Brasil ainda mais, além de rapinar o petróleo, alterando a legislação no dia seguinte à derrubada de Dilma, ela também uma simpatizante do varguismo. Mas, sendo importantes para as novas gerações as revisões históricas de Lula, inclusive o pedido perdão público que fez a Brizola e Darcy Ribeiro, por não ter apoiado o CIEPs, a grave situação de estrangulamento que o Brasil vive hoje precisa mais que revisões e mea culpas. O maior legado de Vargas foi ter construído uma Unidade Nacional contra o imperialismo e as oligarquias desindustrializantes, uma maioria capaz de gerar a energia social e a força política capaz de enfrentar toda a Coação da História, todas as tiranias financeiras, bem como toda a pedagogia da subserviência acadêmica e tecnológica. É a esse Getúlio Vargas que o Brasil deve resgatar, do Presidente da República ao petroleiro, do Sem Terra ao Intelectual, dos Sindicatos aos movimentos sociais, dos Militares aos Empresários nacionalistas, para recolocar o país nos trilhos de uma definitiva e verdadeira emancipação nacional.

*Beto Almeida
Conselheiro da ABI
Diretor do Documentário “Vargas, a transformação do Brasil
“Abre Alas que o Gegê vai passar, olha a evolução da Historia..
Abre Alas para o Gegê desfilar na memória popular”
Música Dr Getúlio – Chico Buarque e Edu Logo, gravação de Beth Carvalho
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sexta-feira, 12 de julho de 2024

O Trabalhismo venceu, mas não é um partido de esquerda * KEN LOACH/Il fatto quotidiano

O Trabalhismo venceu, mas não é um partido de esquerda
-Só cooptação... -

KEN LOACH*

O líder trabalhista Keir Starmer não é um moderado, não é um centrista, mas sim um político de direita, intransigente e orientado para o livre mercado

A vitória dos trabalhistas não é motivo para comemorar. Bem, é uma boa notícia que os conservadores de direita tenham perdido, mas é uma má notícia que a direita e o Partido Trabalhista tenham vencido. Um partido neoliberal.

Acho que já faz algum tempo que está claro que eles venceriam, mas o que não está claro para quem não mora na Inglaterra é que hoje o Partido Trabalhista não é o partido dos trabalhadores, mas o das grandes empresas. É o partido dos grandes negócios.

O seu líder, Keir Starmer, é um oportunista. Ganhou a liderança do partido prometendo água, ferrovias e correios públicos, mas uma vez obtida, desconsiderou essas promessas: mais de 200 mil membros se desfiliaram depois de algumas semanas, foi uma espécie de expurgo. A tarefa de Keir Starmer era convencer os meios de comunicação de direita e a BBC de que o país estava seguro, que nada mudaria: aproximou-se cada vez mais dos conservadores, no final das eleições quase não havia diferença entre eles.

Que os ricos continuarão ricos. Não haverá propriedade pública, nem políticas radicais. O Reino Unido continuará a fornecer armas. Para Israel, por exemplo. Keir Starmer deveria ser um advogado dos direitos humanos, mas ignora os direitos dos palestinos e orgulhosamente se autodenomina um sionista. Ele é um homem de direita.

A esperança continua de esquerda, mas precisamos nos organizar. Um caminho existe, a classe operária tem a mesma força de sempre, porque faz tudo: produz serviços, transportes, tudo. Mas se não agir para proteger os seus interesses, cai na propaganda de extrema-direita, e isso destrói a esperança.

Porque a extrema direita sempre apoiará o status quo, as grandes empresas. É dali que vem o dinheiro deles, mas os políticos de direita dirão o que a classe operária gosta de ouvir. No entanto, basta olhar para suas ações: eles são favoráveis a mais privatizações, eles destruiriam completamente o sistema de saúde pública.

O ex-líder trabalhista Jeremy Corbin foi eleito como independente. Eu o apoiei e também apoiei a sua candidatura publicamente. Veja, há uma coisa interessante: a votação trabalhista aumentou ligeiramente em termos proporcionais. Esta eleição não foi uma vitória dos Trabalhistas, mas uma rejeição dos Conservadores: as pessoas votaram em quem pudesse expulsá-los. Os Trabalhistas obtiveram um terço abundante, o que lhes dá uma grande maioria: é o sistema eleitoral.

Para ganhar as eleições hoje é não basta ser moderado, é preciso ser mentiroso. Keir Starmer não é um moderado, não é um centrista, mas sim um político de direita, intransigente e orientado para o livre mercado. Ele simplesmente se veste de maneira diferente. O Labour é um partido de negócios e reiteraram isso: não tributarão os lucros dos banqueiros, não aumentarão os impostos das grandes empresas. Farão crescer a economia à custa da Grã-Bretanha, lucrando com a força de trabalho, explorando os baixos salários e os sindicatos fracos. Keir Starmer não tem nada a ver com sindicatos, ele os ignora.

Não creio que Rishi Sunak, o primeiro-ministro que deixa o cargo, merecesse toda a hostilidade pessoal a que foi submetido, pois foram Boris Johnson e Liz Truss que destruíram os Conservadores.

Nigel Farage é um populista, uma espécie de Donald Trump. Um homem de direita que afirma falar em nome da classe operária, com quem você beberia alguma coisa. Obviamente, é uma fraude. O seu objetivo é dividir os trabalhadores, culpar os imigrantes e, ao mesmo tempo, cortar os impostos e acabar com os serviços públicos.

Le Pen e Bardella na França estão aí para negócios, estão com o capital, mas usam uma máscara e fazem-no muito bem. Mas ouvimos falar pouco de como a esquerda está se unindo na França: ela obteve mais votos do que Emmanuel Macron, mas fala-se apenas dele. Chamam Macron de centro, eu o chamaria de direita, como Starmer na Grã-Bretanha. Ao contrário da esquerda, a extrema direita não mudará o equilíbrio de poder e, embora desagradável, no final prefere-se a direita à esquerda, pois essa lhes tiraria o poder e a riqueza: foi isso que causou o fascismo e o nazismo.

Donald Trump é o desastre final, uma tragédia global. Mas os Democratas são mais uma vez muito de direita. Joe Biden claramente não consegue lidar com as coisas, é apenas um exemplo grosseiro de vaidade pessoal – os Democratas deveriam ter dito isso desde o início, mas os mecanismos financeiros e políticos são tão corruptos que não conseguem remover alguém que é claramente incompetente.


*Ken Loach é cineasta britânico. Dirigiu, entre outros filmes, Você não estava aqui.
Texto estabelecido a partir de entrevista concedida a Federico Pontiggia.
Tradução: Anselmo Pessoa Neto.
Publicado originalmente no portal Il fatto quotidiano.

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quinta-feira, 11 de abril de 2024

DOCUMENTÁRIO BRIZOLA * Wellington Penalva

DOCUMENTÁRIO BRIZOLA
Wellington Penalva
Obra que mergulha na vida do fundador do PDT consultou documentos reunidos pelo CMT

No cenário político brasileiro, poucos nomes ressoam com a força e o legado de Leonel Brizola. O documentário “Brizola”, dirigido por Marco Abujamra e produzido por Mariana Marinho, estreiou neste domingo (7), trazendo à tona a vida e a luta do emblemático trabalhista. A obra é destaque no 29° Festival É Tudo Verdade e teve apoio do acervo reunido pelo PDT ao longo dos seus 44 anos de existência.

Com estreia marcada para às 16h, na Estação Net Botafogo, no Rio de Janeiro (RJ), o documentário fornece uma reflexão sobre a construção da classe política brasileira e o ideal democrático, contribuídos ativamente por Brizola desde a primeira metade do século XX. A obra promete uma viagem pela história e uma lição de tolerância da diversidade política.

Através de um meticuloso trabalho de pesquisa, o Centro de Memória Trabalhista (CMT), braço da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP) do PDT, disponibilizou um acervo rico, incluindo revistas, livros, vídeos, entrevistas e fotos que se tornaram essenciais para a construção narrativa do documentário. O partido foi procurado pela produção do filme e se prontificou em colaborar, enxergando a obra como outro importante documento sobre a história do Trabalhismo.

“Indicada por Trajano Ribeiro, Mariana Marinho [produtora do filme] entrou em contato conosco e pediu a nossa contribuição com o documentário. Foi uma excelente oportunidade, afinal é um registro importante para o Trabalhismo e para o Brasil. Além disso, uma obra como essa dá às novas gerações a oportunidade de conhecer Leonel Brizola, um dos líderes políticos mais importantes da história nacional”, conta o coordenador do CMT, Henrique Matthiesen.

O diretor Marco Abujamra destaca: “Um dos maiores comunicadores do país, Brizola entendeu como poucos o alcance e o poder da mídia. E usou esse entendimento para promover ideias consideradas, pelo Brasil da época, como extremistas, “comunistas”, e até mesmo subversivas”. Essa visão progressista e a habilidade de Brizola em utilizar a mídia para difundir suas ideias são pontos centrais do documentário.

A produtora Mariana Marinho enfatizou a origem humilde e a trajetória de luta do trabalhista. “Brizola teve seu pai assassinado quando pequeno, sua mãe o alfabetizou em casa, o estudo nunca fácil, conciliando com trabalho para ajudar a mãe com os irmãos. No ensino médio fundou o Grêmio estudantil de sua escola e se formou em engenharia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul”, destacou.

Brizolistas, lideranças do PDT e dirigentes da FLB-AP, além da presidente estadual do PDT, deputada Martha Rocha, confirmaram presença no lançamento, no Rio. Aguarda-se que o documentário, após sua jornada por festivais nacionais e internacionais, encontre um lar permanente no Canal Curta!, ampliando ainda mais seu alcance e impacto.

domingo, 7 de abril de 2024

Brizola e os avanços que o Brasil jogou fora * Aydano André Motta/ProjetoColabora

Brizola e os avanços que o Brasil jogou fora
Aydano André Motta


_Documentário revive a trajetória, as obras, as ideias e a inesquecível oratória do líder trabalhista perseguido pela ditadura militar desde o primeiro dia_

A efeméride das seis décadas do golpe que impôs a ditadura militar ao Brasil, em 1964, atesta o apagamento histórico de vários personagens essenciais para entender – e lamentar – caminhos e escolhas da nossa sociedade. O maior deles, Leonel Brizola. As ideias do trabalhista gaúcho, governador de Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, seguem, 20 anos depois de sua morte, contemporâneas, inovadoras – revolucionárias. E tragicamente abandonadas.

Jamais por acaso, ele se cristalizou como inimigo público número 1 dos conservadores, os militares abrindo a fila. Corajoso na defesa de suas convicções, nunca cedeu a unanimidades nem a consensos artificiais. Pioneiro da polarização, cevou apaixonados que, hoje de cabelos brancos, suspiram de saudade do caudilho.

A paixão dos progressistas foi diretamente proporcional ao ódio dos conservadores – e Brizola pagou caro por ele, a começar pelos exatos 5.489 dias de exílio, o maior entre os políticos banidos pelo arbítrio de 1964. Consequência de ser bem menos pragmático do que manda a bula do “nem eu nem você” da política no país do conchavo.

“Brizola” também é o nome de documentário dirigido por Marco Abujamra e produzido por Mariana Marinho, incluído no 29º Festival É Tudo Verdade. Vai passar dias 7 e 9, no Rio, e 12 e 13, em São Paulo. Oportunidade preciosa, para brasileiros de todas as idades – os mais jovens conhecerão político único, de características extintas na terra arrasada de hoje; os menos jovens relembrarão a trajetória emocionante.

Quando governador, assinou atos únicos na história da gestão pública no Brasil, decretando estatizações de concessionárias privadas – primeiro, a Companhia Elétrica de Pelotas e a Companhia Nacional do Telefone, subsidiárias de multinacionais que bloqueavam a democratização da infraestrutura no Rio Grande do Sul; depois, as empresas de ônibus cariocas, referência de eterno serviço aviltante. Passaram-se os anos – hoje, São Paulo e outras cidades brasileiras comem (no escuro, no calor) o pão que Asmodeu amassou na surrealista incompetência da Enel para fornecer eletricidade.

Favorito na eleição presidencial de 1965, que não aconteceu pela ação de generais golpistas, Brizola desde sempre lutou a batalha da educação de qualidade. Após voltar do exílio com a anistia de 1979, elegeu-se governador do Rio em 1982, na primeira votação direta para o cargo pós-1964. Sua gestão teve como assinatura os Cieps (Centros Integrados de Educação Pública), ideia tão revolucionária como elementar: manter crianças na escola o dia inteiro, alimentadas e submetidas a currículo multidisciplinar.

Não à toa o povo rebatizou as novas escolas de “brizolões”. Além da comida de qualidade, estruturas com piscinas, espaços de arte e quadras poliesportivas, havia respeito por traços sociais eternamente criminalizados no racismo nosso de cada dia. Nas recreações, muitas vezes lideradas por trabalhadores recrutados em comunidades populares, eram encenadas brincadeiras com orixás e cânticos afro-brasileiros. A educação formal ganhava o tempero da cultura mais diversa.

Passados 40 anos da implantação, várias gerações de brasileirinhos poderiam ter vida radicalmente diferente da imposta por nossa inquebrável desigualdade. Mas os Cieps não duraram: foram bombardeados impiedosamente pelos conservadores, com voluntarioso auxílio da mídia.

Na eleição seguinte, em 1986, seu candidato, Darcy Ribeiro, perde para Moreira Franco, em meio a críticas de “excesso de recursos para a educação”. Brizola chegou a destinar 36% do orçamento para o setor e apanhou, porque empenhava pouco dinheiro na segurança. Era criticado também por – nas palavras dos intolerantes – “chamar bandido de cidadão e proibir a polícia de chutar porta de barraco em favela”. O vencedor no pleito ganhou as manchetes ao prometer acabar com a violência do Rio em seis meses. Jornais e TVs acreditaram, extasiados.

Ainda sobre educação, o documentário oferece cena emblemática: num debate, o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso elogia timidamente o Cieps, mas critica o preço das escolas, “entre 1 e 2 milhões de dólares e para poucos alunos”. Brizola não deixa barato e esculacha o tucano: “Cara é a ignorância”.

(Em outra obra emblemática, o governador sanou problema até então incurável no Rio, ao construir a Passarela do Samba. Ideia de Darcy Ribeiro projetada por Oscar Niemeyer, deu endereço definitivo ao desfile das escolas de samba, encerrando o monta-desmonta das estruturas para a festa. No bojo, viabilizou o crescimento do espetáculo, hoje evento de repercussão planetária.)

A valorização dos sambistas, da cultura e da religiosidade herdada dos africanos escravizados revela outra faceta supermoderna do brizolismo: era antirracista quando tudo isso aqui era mato. O líder gaúcho tinha entre seus conselheiros o ícone Abdias do Nascimento e o advogado e jornalista Carlos Alberto de Oliveira, o Caó, autor, como deputado, da lei fundamental contra a discriminação. Seu partido, o PDT, ainda abrigou o primeiro deputado federal indígena do país, o cacique Mario Juruna, em 1982.

Na terra de elite tão patologicamente atrasada, defender todas essas obviedades cobra preço alto. Brizola ganhou dos conservadores o rótulo de comunista, apesar de sempre jogar no campo do capitalismo. Herdeiro político de Getúlio Vargas, lutou apenas por dignidade para os trabalhadores, algo inaceitável na mesquinharia eterna destes trópicos melancólicos. Em verdade, a ditadura, em sua sanha destruidora, sabia quem estava perseguindo, dentro do projeto de manter o país no atraso.

Revisitar a trajetória, as obras e as ideias do caudilho de lenço vermelho no pescoço e oratória brilhante leva à constatação de que o Brasil jogou fora um punhado de oportunidades. Uma catastrófica especialidade da casa.

Na terra de elite tão patologicamente atrasada, defender todas essas obviedades cobra preço alto. Brizola ganhou dos conservadores o rótulo de comunista, apesar de sempre jogar no campo do capitalismo. Herdeiro político de Getúlio Vargas, lutou apenas por dignidade para os trabalhadores, algo inaceitável na mesquinharia eterna destes trópicos melancólicos. Em verdade, a ditadura, em sua sanha destruidora, sabia quem estava perseguindo, dentro do projeto de manter o país no atraso.

Revisitar a trajetória, as obras e as ideias do caudilho de lenço vermelho no pescoço e oratória brilhante leva à constatação de que o Brasil jogou fora um punhado de oportunidades. Uma catastrófica especialidade da casa."

CONTINUA
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