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domingo, 7 de abril de 2024

Brizola e os avanços que o Brasil jogou fora * Aydano André Motta/ProjetoColabora

Brizola e os avanços que o Brasil jogou fora
Aydano André Motta


_Documentário revive a trajetória, as obras, as ideias e a inesquecível oratória do líder trabalhista perseguido pela ditadura militar desde o primeiro dia_

A efeméride das seis décadas do golpe que impôs a ditadura militar ao Brasil, em 1964, atesta o apagamento histórico de vários personagens essenciais para entender – e lamentar – caminhos e escolhas da nossa sociedade. O maior deles, Leonel Brizola. As ideias do trabalhista gaúcho, governador de Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, seguem, 20 anos depois de sua morte, contemporâneas, inovadoras – revolucionárias. E tragicamente abandonadas.

Jamais por acaso, ele se cristalizou como inimigo público número 1 dos conservadores, os militares abrindo a fila. Corajoso na defesa de suas convicções, nunca cedeu a unanimidades nem a consensos artificiais. Pioneiro da polarização, cevou apaixonados que, hoje de cabelos brancos, suspiram de saudade do caudilho.

A paixão dos progressistas foi diretamente proporcional ao ódio dos conservadores – e Brizola pagou caro por ele, a começar pelos exatos 5.489 dias de exílio, o maior entre os políticos banidos pelo arbítrio de 1964. Consequência de ser bem menos pragmático do que manda a bula do “nem eu nem você” da política no país do conchavo.

“Brizola” também é o nome de documentário dirigido por Marco Abujamra e produzido por Mariana Marinho, incluído no 29º Festival É Tudo Verdade. Vai passar dias 7 e 9, no Rio, e 12 e 13, em São Paulo. Oportunidade preciosa, para brasileiros de todas as idades – os mais jovens conhecerão político único, de características extintas na terra arrasada de hoje; os menos jovens relembrarão a trajetória emocionante.

Quando governador, assinou atos únicos na história da gestão pública no Brasil, decretando estatizações de concessionárias privadas – primeiro, a Companhia Elétrica de Pelotas e a Companhia Nacional do Telefone, subsidiárias de multinacionais que bloqueavam a democratização da infraestrutura no Rio Grande do Sul; depois, as empresas de ônibus cariocas, referência de eterno serviço aviltante. Passaram-se os anos – hoje, São Paulo e outras cidades brasileiras comem (no escuro, no calor) o pão que Asmodeu amassou na surrealista incompetência da Enel para fornecer eletricidade.

Favorito na eleição presidencial de 1965, que não aconteceu pela ação de generais golpistas, Brizola desde sempre lutou a batalha da educação de qualidade. Após voltar do exílio com a anistia de 1979, elegeu-se governador do Rio em 1982, na primeira votação direta para o cargo pós-1964. Sua gestão teve como assinatura os Cieps (Centros Integrados de Educação Pública), ideia tão revolucionária como elementar: manter crianças na escola o dia inteiro, alimentadas e submetidas a currículo multidisciplinar.

Não à toa o povo rebatizou as novas escolas de “brizolões”. Além da comida de qualidade, estruturas com piscinas, espaços de arte e quadras poliesportivas, havia respeito por traços sociais eternamente criminalizados no racismo nosso de cada dia. Nas recreações, muitas vezes lideradas por trabalhadores recrutados em comunidades populares, eram encenadas brincadeiras com orixás e cânticos afro-brasileiros. A educação formal ganhava o tempero da cultura mais diversa.

Passados 40 anos da implantação, várias gerações de brasileirinhos poderiam ter vida radicalmente diferente da imposta por nossa inquebrável desigualdade. Mas os Cieps não duraram: foram bombardeados impiedosamente pelos conservadores, com voluntarioso auxílio da mídia.

Na eleição seguinte, em 1986, seu candidato, Darcy Ribeiro, perde para Moreira Franco, em meio a críticas de “excesso de recursos para a educação”. Brizola chegou a destinar 36% do orçamento para o setor e apanhou, porque empenhava pouco dinheiro na segurança. Era criticado também por – nas palavras dos intolerantes – “chamar bandido de cidadão e proibir a polícia de chutar porta de barraco em favela”. O vencedor no pleito ganhou as manchetes ao prometer acabar com a violência do Rio em seis meses. Jornais e TVs acreditaram, extasiados.

Ainda sobre educação, o documentário oferece cena emblemática: num debate, o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso elogia timidamente o Cieps, mas critica o preço das escolas, “entre 1 e 2 milhões de dólares e para poucos alunos”. Brizola não deixa barato e esculacha o tucano: “Cara é a ignorância”.

(Em outra obra emblemática, o governador sanou problema até então incurável no Rio, ao construir a Passarela do Samba. Ideia de Darcy Ribeiro projetada por Oscar Niemeyer, deu endereço definitivo ao desfile das escolas de samba, encerrando o monta-desmonta das estruturas para a festa. No bojo, viabilizou o crescimento do espetáculo, hoje evento de repercussão planetária.)

A valorização dos sambistas, da cultura e da religiosidade herdada dos africanos escravizados revela outra faceta supermoderna do brizolismo: era antirracista quando tudo isso aqui era mato. O líder gaúcho tinha entre seus conselheiros o ícone Abdias do Nascimento e o advogado e jornalista Carlos Alberto de Oliveira, o Caó, autor, como deputado, da lei fundamental contra a discriminação. Seu partido, o PDT, ainda abrigou o primeiro deputado federal indígena do país, o cacique Mario Juruna, em 1982.

Na terra de elite tão patologicamente atrasada, defender todas essas obviedades cobra preço alto. Brizola ganhou dos conservadores o rótulo de comunista, apesar de sempre jogar no campo do capitalismo. Herdeiro político de Getúlio Vargas, lutou apenas por dignidade para os trabalhadores, algo inaceitável na mesquinharia eterna destes trópicos melancólicos. Em verdade, a ditadura, em sua sanha destruidora, sabia quem estava perseguindo, dentro do projeto de manter o país no atraso.

Revisitar a trajetória, as obras e as ideias do caudilho de lenço vermelho no pescoço e oratória brilhante leva à constatação de que o Brasil jogou fora um punhado de oportunidades. Uma catastrófica especialidade da casa.

Na terra de elite tão patologicamente atrasada, defender todas essas obviedades cobra preço alto. Brizola ganhou dos conservadores o rótulo de comunista, apesar de sempre jogar no campo do capitalismo. Herdeiro político de Getúlio Vargas, lutou apenas por dignidade para os trabalhadores, algo inaceitável na mesquinharia eterna destes trópicos melancólicos. Em verdade, a ditadura, em sua sanha destruidora, sabia quem estava perseguindo, dentro do projeto de manter o país no atraso.

Revisitar a trajetória, as obras e as ideias do caudilho de lenço vermelho no pescoço e oratória brilhante leva à constatação de que o Brasil jogou fora um punhado de oportunidades. Uma catastrófica especialidade da casa."

CONTINUA
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quinta-feira, 4 de agosto de 2022

TRABALHADORES DO MEU BRASIL * GETÚLIO VARGAS / RS

TRABALHADORES DO MEU BRASIL
GETÚLIO VARGAS / RS

"Impera no Brasil essa democracia capitalista, comodamente instalada na vida, que não sente a desgraça dos que sofrem e não percebem, às vezes, nem mesmo o indispensável para viver.

Essa democracia facilita o ambiente propício para a criação dos trustes e monopólios, das negociatas e do câmbio negro, que exploram a miséria do povo. Tira o que foi cedido ao Estado para entregar ao monopólio de empresas particulares.

Ou a democracia capitalista, compreendendo a gravidade do momento, abre mão de suas vantagens e privilégios, facilitando a evolução para o socialismo, ou a luta se travará com os espoliados que constituem a maioria, numa conturbação de resultados imprevisíveis para o futuro.

Essa espécie de democracia é como uma velha árvore coberta de musgos e folhas secas. O povo um dia pode sacudi-la com o vendaval de sua cólera, para fazê-la reverdecer em nova primavera, cheia de flores e de frutos.”

Getúlio Vargas, comício em Porto Alegre, 1946.
MONIZ BANDEIRA E LEONEL BRIZOLA
em algum lugar da Europa.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

QUEM TEM MEDO DE BRIZOLA * Hildegard Angel / RJ

 QUEM TEM MEDO DE BRIZOLA

O MEDO QUE OS MILITARES TINHAM DE BRIZOLA

Hildegard Angel / RJ


Hoje, o Centenário de Leonel de Moura Brizola não saiu na Globo, mas as redes sociais se transformaram num emaranhado de fotos, artigos, elogios, louvações, fogos de artifício, depoimentos, histórias, tudo dedicado aos 100 anos de nascimento de Leonel Brizola, que, a cada ano, mês, minutos, se torna maior, ao olhar da História.


Não precisei estudar a recente história brasileira para achar, como concluiu o  historiador Thomas Skidmore após pesquisar, que Leonel Brizola foi o político que "mais assustou" a elite. Mais até do que Lula.


Eu vi, eu acompanhei, eu mesma fui inoculada com o vírus do medo de Leonel Brizola, e só fui votar nele para governador do Rio de Janeiro da segunda vez, totalmente abduzida pelo seu carisma, a devoção aos pequenos, a coragem sempre demonstrada e as boas companhias, como Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer, Nilo Batista e outros que já admirava.


O temor a Brizola não foi construído pela mídia, como foi o temor a Lula. Foi construído pelos seus atos e por seu temperamento. Brizola não era manso, muito menos conciliador. Era agitador, desafiador, destemperado. Foi o único que peitou e conseguiu evitar um golpe no Brasil, já prontinho, bem cozido no forno das conspirações dos militares, para ser servido ao povo.


Como governador do Rio Grande do Sul, Brizola conseguiu fazer o assado desandar e garantir a posse do cunhado, João Goulart, na Presidência, com a formação de sua genial "Cadeia da Legalidade". Assim como tem Lula, o gaúcho Leonel tinha um dom invulgar para a oratória. Discursava com raiva esfuziante, era um talento histriônico, magnético no palanque, no rádio e na TV.


Falava como bandeira desfraldada, espada desembainhada, e cunhava imagens extraordinárias. Brizola estava pronto, não estava crescendo nem aprendendo. Era engenheiro, era culto, era ameaçador. Foi ele quem os militares mais temeram.

Era o governo de Figueiredo. Cobri o governo para minhas páginas do Globo. Ia às festas em Brasília, às reuniões sociais, acompanhei viagens, vi e ouvi muita coisa. Muita mesmo. Ninguém me contou.


Eu estava hóspede em Brasília na casa dos amigos Rai e Said Farhat, o ministro da Comunicação Social. Era um domingo, e a vizinha da casa ao lado, na QL 12, quadra onde residiam os ministros de estado, Liliane Andreazza, esposa do Ministro dos Transportes, telefonou, convidando o casal para um  churrasco. Rai informou, "estamos com hóspedes em casa, a Hilde". E Liliane, atenciosa como sempre, estendeu o convite.


Era uma reunião de amigos, informal, com ministros militares e civis, assessores. Um recorte expressivo da Corte conversava abertamente. Ali pude atestar ao vivo e a cores a enorme preocupação dos homens da ditadura com Brizola. Isso já era sabido, mas fui testemunha ocular e auditiva, senti o pulso das palpitações que despertava o receio, naqueles homens e em suas mulheres, de um possível retorno de Leonel Brizola ao Brasil e à política brasileira.


Naqueles anos, quase não se falava em PT, muito menos em Lula. A volta de Brizola foi o maior argumento para emperrar a porta da abertura. Foi o pivô que justificou as lutas intestinas do poder. Foi o medo de Brizola que alimentou o cabo de guerra no Governo Figueiredo. Por um lado, fazia força a linha dura, com o general Otávio Medeiros e um grupo de militares de óculos com lentes pretas. Sem aparecer, do alto de seu pedestal de eminência parda, o general Golbery puxava para esse lado (sim, posso dizer isso).

Na linha pró-abertura, Figueiredo puxava a corda, tendo o incentivo de alguns militares, sendo o único civil o ministro da Comunicação Social, Said Farhat, que devido a isso mesmo acabou defenestrado por pressão de Golbery – assim Farhat pensava.


Foi o medo de Brizola que adiou a volta dos exilados, foi o medo que a repressão tinha de Brizola que inspirou uma anistia que também os anistiava, foi o medo de Brizola e tudo o que ele representava que quase espichou a ditadura por mais um ou dois mandatos. Foi o medo de Brizola que soltou bombas na OAB, no Riocentro e incendiou a Tribuna da Imprensa. Os que faziam “o circo pegar fogo” eram os que não queriam largar o osso do poder. A eles servia incentivar o medo de Brizola.


O Inimigo Nº 1 da Ditadura era Brizola, não era Lamarca ou Marighela ou Jango ou JK ou Rubem ou Herzog ou Sônia ou Yara ou Gabeira ou Astrogildo ou Chael ou Pomar ou Fiel ou Santa Cruz ou Palhano ou Marilene ou Stuart ou Zuzu. Esses incômodos já haviam sido eliminados.  


Não contavam, porém, com o temperamento de Figueiredo, que não era de voltar atrás à palavra dada, sobretudo após declarar na posse “juro que farei desse país uma Democracia” (discurso redigido por Farhat), e depois dizer que caso criassem dificuldades “eu prendo e arrebento”.


 A ala das bombas era a dos ‘óculos pretos’, que, no auge da insatisfação com a liberalidade de Farhat com a mídia (que desancava o governo), enviou de presente para sua esposa não uma caixa de bombons, mas um livro, recheado com uma bomba.

Voltando ao governador Brizola, por mais maravilhas que realizasse para o Rio de Janeiro, mais a imprensa o desprezava. Fez os Cieps, inventaram que eram “elefantes brancos”. Depois os tucanos os copiaram em São Paulo, e depois a TV Globo instalou, no primeiro Ciep (despejado), o seu “Criança Esperança”. Fez a Linha Vermelha. O Sambódromo (inicialmente, com falhas, em seguida corrigido). Fez uma política de Segurança Pública que exigia para os moradores dos morros e favelas o mesmo respeito e a mesma norma cumprida nos condomínios e prédios da Zona Sul: o mandado de busca.


Isso, principalmente isso, revoltou a polícia, quase toda anti-Brizola. Não poder meter o pé na porta de um barraco. Não poder fazer zunirem balas sobre as cabeças dos moradores. Não poder terceirizar os assaltos aos menininhos pobres, os pivetes, que depois entregavam aos policiais a ‘parte do leão’, a ‘féria’ dos roubos.

O Rio de Janeiro de Brizola também era insuportável para aqueles com pensamento curto, que julgavam poder manter seus privilégios ad eternum, que a violência continuaria a passar longe de seu cercadinho e as balas perdidas jamais encontrariam o caminho da Zona Sul.


Encontraram, estão aí, zunindo sobre nossas cabeças.

Brizola, que falta faz você!

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sábado, 23 de janeiro de 2021

BRIZOLA ANTIIMPERIALISMO E PATRIOTISMO EM PROL DOS TRABALHADORES * FRT/BR

BRIZOLA

ANTIIMPERIALISMO E PATRIOTISMO EM PROL DOS TRABALHADORES

 
(Dois meses antes do Golpe de 64 Leonel Brizola foi entrevistado pela Monthly Review)

NOTA DA EDITORIA

Reproduzimos aqui a entrevista de Leonel de Moura Brizola, concedida em fevereiro de 1964 à Revista Marxista Monthly Review, onde ele destaca os instrumentos necessários no combate às multinacionais e ao capital estrangeiro, e conclui apresentando a proposta de união e organização populares como ferramenta revolucionária.

Gostaríamos de ressaltar que é responsabilidade de todo aquele que se denomina revolucionário, baseado no marxismo sem adjetivos, resgatar o manancial riquíssimo do Pensamento Antiimperialista existente em nossa história e tirá-lo do limbo oportunista, eleitoreiro, e decorativo em que a cultura burguesa o enterrou. É isso que ocorre com Getúlio Vargas, João Goulart, Brizola e tantos outros, que empenharam o seu patriotismo em benefício do país e dos trabalhadores, pagando com as suas vidas por fazêlo.

Nosso desejo é que leiam, tirem suas conclusões e dêem um passo adiante: junte-se a nós, a FRENTE REVOLUCIONÁRIA DOS TRABALHADORES

"

 Dois meses antes do Golpe de abril de 64, Leonel Brizola foi entrevistado pela Monthly Review, revista que desde 1949 reunia a fina flor do pensamento marxista como Leo Huberman, Paul Baran, Paul Sweezy, Harry Magdoff e Fred Magdoff. Esta entrevista de Leonel Brizola constitui mais uma prova de seu anti-imperialismo e revela como o pessoal da universidade aqui no Brasil o interpretou maldosa e equivocadamente como “populista”. A verdade era outra: Leonel Brizola foi um político socialista.


- No momento Leonel Brizola é sem dúvida o líder popular mais influente da Frente de Mobilização Popular, um organismo que engloba a esquerda. Ele frequentemente fala ao povo na rádio mais ouvida do Brasil, ele fala uma linguagem clara usando muitas imagens e comparações.

- “Você terá observado” (ele começou sem esperar a pergunta), “que o fato mais relevante no Brasil de hoje é a sua inflação. Nas atuais circunstâncias, a inflação é um problema insolúvel, porque sua origem é externa e controlada de fora, ela é um produto da pilhagem imperialista.”


- O processo inflacionário está acelerando?


- “De janeiro de 1945 até dezembro de 1952 o custo de vida duplicou. Foram oito anos. Duplicou novamente de 1952 a 1958 em apenas seis anos, e de 1958 a 1961, três anos; outra vez de janeiro de 1962 a junho de 1963, um ano e meio. Agora o custo de vida duplicará em oito ou nove meses.”


- Como o senhor explica isso?


- “É como se o imperialismo tivesse colocado uma grande bomba de sucção em nosso corpo para poder sugar nosso sangue. Já que não podemos resistir, o imperialismo retira o sangue e injeta água no seu lugar. O dinheiro que é posto aí, que não representa valor real, é a água. E é assim que nós vivemos. Mas o colapso virá, está se aproximando a passos de gigante.”


- Como ocorrerá o colapso?


- “Pouco a pouco a situação está se tornando mais difícil de segurar: em vista disso, as classes dominantes, apoiadas pelo imperialismo, estão se unificando para dar um golpe de direita, a fim de estabelecer um governo de força, uma ditadura, seja ela escancarada ou disfarçada. Evidentemente seria difícil impor uma ditadura, pois já não é fácil enganar o povo. Nós estamos dispostos a lutar, estamos preparados, e isso será o começo da luta revolucionária pela libertação nacional. O exemplo de 1961 mostra que o povo lutará junto com os seus irmãos do Exército – os sargentos, os cabos, os soldados e os oficiais nacionalistas”.


- Quais são as condições necessárias para essa luta?


- “Organização e unidade. Nós tivemos problemas com os erros cometidos pelo partido Comunista e por Francisco Julião. Devemos no entanto reconhecer que Julião possui o grande mérito de ter despertado o setor mais oprimido da nossa população: os trabalhadores rurais. E nós acreditamos que todos esses erros serão superados. Nós não somos anti-comunistas, recebemos bem a todos os brasileiros patriotas que venham a lutar pela libertação de seu país. O problema latino-americano tem de ser concebido como um problema de libertação nacional. Sem libertação nacional não podem existir as reformas de base porque não se resolve problema da pobreza.”


- Como o senhor pensa a revolução?


- “Em primeiro lugar precisa ter unidade de todo os patriotas. É imperativo que a revolução encontre soluções socialistas. E não é uma questão de escolher uma doutrina de um livro. Somente as soluções socialistas é que permitem a defesa dos povos contra o imperialismo.”


Ele me interrompe, sorrindo, antes que eu possa fazer a próxima pergunta.


- “Você vai me perguntar como cheguei a estas conclusões. Na época em que me tornei governador, eu era político convencional com todos os preconceitos habituais. Eu estava convencido de que bastava uma boa administração, trabalhar duro para melhorar a situação do povo em todos os setores. Mas eu vi que o povo trabalhava mais e melhor e, apesar disso, estava ficando pobre. Então, eu tive a compreensão do problema da América Latina em conjunto. Depois, quando tomei medidas contra determinadas companhias que nos exploravam, eu vi diante de meus olhos o problema da opressão imperialista. Olhe: é como se você e eu quiséssemos arrumar a mobília desta sala, mas alguém está carregando-a para fora. Aí chega uma hora em que não há mais mobília para arrumar. Por conseguinte, a primeira tarefa nossa é fechar a porta para impedir a espoliação.”

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