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sexta-feira, 12 de julho de 2024

O Trabalhismo venceu, mas não é um partido de esquerda * KEN LOACH/Il fatto quotidiano

O Trabalhismo venceu, mas não é um partido de esquerda
-Só cooptação... -

KEN LOACH*

O líder trabalhista Keir Starmer não é um moderado, não é um centrista, mas sim um político de direita, intransigente e orientado para o livre mercado

A vitória dos trabalhistas não é motivo para comemorar. Bem, é uma boa notícia que os conservadores de direita tenham perdido, mas é uma má notícia que a direita e o Partido Trabalhista tenham vencido. Um partido neoliberal.

Acho que já faz algum tempo que está claro que eles venceriam, mas o que não está claro para quem não mora na Inglaterra é que hoje o Partido Trabalhista não é o partido dos trabalhadores, mas o das grandes empresas. É o partido dos grandes negócios.

O seu líder, Keir Starmer, é um oportunista. Ganhou a liderança do partido prometendo água, ferrovias e correios públicos, mas uma vez obtida, desconsiderou essas promessas: mais de 200 mil membros se desfiliaram depois de algumas semanas, foi uma espécie de expurgo. A tarefa de Keir Starmer era convencer os meios de comunicação de direita e a BBC de que o país estava seguro, que nada mudaria: aproximou-se cada vez mais dos conservadores, no final das eleições quase não havia diferença entre eles.

Que os ricos continuarão ricos. Não haverá propriedade pública, nem políticas radicais. O Reino Unido continuará a fornecer armas. Para Israel, por exemplo. Keir Starmer deveria ser um advogado dos direitos humanos, mas ignora os direitos dos palestinos e orgulhosamente se autodenomina um sionista. Ele é um homem de direita.

A esperança continua de esquerda, mas precisamos nos organizar. Um caminho existe, a classe operária tem a mesma força de sempre, porque faz tudo: produz serviços, transportes, tudo. Mas se não agir para proteger os seus interesses, cai na propaganda de extrema-direita, e isso destrói a esperança.

Porque a extrema direita sempre apoiará o status quo, as grandes empresas. É dali que vem o dinheiro deles, mas os políticos de direita dirão o que a classe operária gosta de ouvir. No entanto, basta olhar para suas ações: eles são favoráveis a mais privatizações, eles destruiriam completamente o sistema de saúde pública.

O ex-líder trabalhista Jeremy Corbin foi eleito como independente. Eu o apoiei e também apoiei a sua candidatura publicamente. Veja, há uma coisa interessante: a votação trabalhista aumentou ligeiramente em termos proporcionais. Esta eleição não foi uma vitória dos Trabalhistas, mas uma rejeição dos Conservadores: as pessoas votaram em quem pudesse expulsá-los. Os Trabalhistas obtiveram um terço abundante, o que lhes dá uma grande maioria: é o sistema eleitoral.

Para ganhar as eleições hoje é não basta ser moderado, é preciso ser mentiroso. Keir Starmer não é um moderado, não é um centrista, mas sim um político de direita, intransigente e orientado para o livre mercado. Ele simplesmente se veste de maneira diferente. O Labour é um partido de negócios e reiteraram isso: não tributarão os lucros dos banqueiros, não aumentarão os impostos das grandes empresas. Farão crescer a economia à custa da Grã-Bretanha, lucrando com a força de trabalho, explorando os baixos salários e os sindicatos fracos. Keir Starmer não tem nada a ver com sindicatos, ele os ignora.

Não creio que Rishi Sunak, o primeiro-ministro que deixa o cargo, merecesse toda a hostilidade pessoal a que foi submetido, pois foram Boris Johnson e Liz Truss que destruíram os Conservadores.

Nigel Farage é um populista, uma espécie de Donald Trump. Um homem de direita que afirma falar em nome da classe operária, com quem você beberia alguma coisa. Obviamente, é uma fraude. O seu objetivo é dividir os trabalhadores, culpar os imigrantes e, ao mesmo tempo, cortar os impostos e acabar com os serviços públicos.

Le Pen e Bardella na França estão aí para negócios, estão com o capital, mas usam uma máscara e fazem-no muito bem. Mas ouvimos falar pouco de como a esquerda está se unindo na França: ela obteve mais votos do que Emmanuel Macron, mas fala-se apenas dele. Chamam Macron de centro, eu o chamaria de direita, como Starmer na Grã-Bretanha. Ao contrário da esquerda, a extrema direita não mudará o equilíbrio de poder e, embora desagradável, no final prefere-se a direita à esquerda, pois essa lhes tiraria o poder e a riqueza: foi isso que causou o fascismo e o nazismo.

Donald Trump é o desastre final, uma tragédia global. Mas os Democratas são mais uma vez muito de direita. Joe Biden claramente não consegue lidar com as coisas, é apenas um exemplo grosseiro de vaidade pessoal – os Democratas deveriam ter dito isso desde o início, mas os mecanismos financeiros e políticos são tão corruptos que não conseguem remover alguém que é claramente incompetente.


*Ken Loach é cineasta britânico. Dirigiu, entre outros filmes, Você não estava aqui.
Texto estabelecido a partir de entrevista concedida a Federico Pontiggia.
Tradução: Anselmo Pessoa Neto.
Publicado originalmente no portal Il fatto quotidiano.

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sábado, 10 de setembro de 2022

DEPENDÊNCIA E MORTE * FREI BETTO / SP

 DEPENDÊNCIA E MORTE

FREI BETTO / SP


Com a exposição de um coração atribuído a D. Pedro I, importação cara e necrófila feita pelos atuais ocupantes do Planalto, o Brasil comemora 200 anos de independência de Portugal. Deixamos Portugal para cair nos braços da Inglaterra, da União Europeia e, sobretudo, dos EUA.


As narrativas sobre o episódio “às margens do Ipiranga” são quase todas elitistas. Afonso Taunay (1876-1958), ao encomendar pinturas para o Museu Paulista, fez questão de excluir as lutas populares pela Independência e favorecer uma versão oligárquica e pacifista.


 A participação dos indígenas em nossa Independência é ignorada ainda hoje. Na estátua de D. Pedro I na Praça Tiradentes, no Rio, o pedestal retrata indígenas e animais de nossas selvas. Ao ser inaugurada, em 1862, o historiador Mello Morais chegou a indagar: “Que parte tiveram esses índios e aqueles jacarés na Independência do Brasil?”


Quase todas as narrativas sobre nossos povos originários anterior a 1980 soam como “crônicas de morte anunciada”, como se estivessem condenados ao extermínio ou a serem assimilados pela população em geral. Só em 1988 a Constituição assegurou a eles direito à terra e às suas tradições e culturas. Pela primeira vez, o Estado brasileiro se reconheceu multiétnico.


Criou-se o mito de que a Independência assegurou a unidade territorial do Brasil. Ora, D. Pedro I se interessava apenas por Rio de Janeiro, São Paulo e Minas. Não dava ouvidos às outras províncias. Por isso teve que enfrentar várias revoltas regionais contra o governo imperial, como Farroupilha (1835-1845), no Rio Grande do Sul; Cabanagem (1835-1840), no Pará; e a Sabinada (1837-1838), na Bahia. Maranhão e Pará eram províncias apartadas do Brasil até 1820. O Acre pertencia ao Peru e à Bolívia, e só foi anexado ao Brasil em 1903.


D. Pedro I chegou a contratar o lorde inglês Thomas Cochrane (1775-1860) para reprimir rebeliões populares. No Pará, o cônego Batista Campos (1782-1834), que se opunha ao trabalho escravo, sofreu tortura em praça pública, enquanto 256 aliados dele eram asfixiados no porão de um navio. É considerado o autor intelectual da Cabanagem, que teve importante participação indígena. Na versão da elite, “cabano” significa aquele que vivia em cabanas à beira dos rios. Na versão dos ribeirinhos, o termo é associado aos brancos repressores que se vangloriavam da sanha repressora: “Acabamos com tudo.”

Se D. Pedro I tinha pouco interesse pelo resto do Brasil, por que o nosso país, então integrado por 18 províncias, não se fragmentou, como ocorreu em tantas regiões da América Latina? Entre várias hipóteses fico com a mais vergonhosa: a unidade territorial se manteve por força do projeto escravagista voltado à exploração mineral. O regime escravocrata uniu as elites provincianas e alicerçou a formação do Estado brasileiro.


Outro fator que influiu em nossa coesão territorial foi a vinda da Corte portuguesa para o Brasil em 1808. A frase atribuída ao governador de Minas, Antônio Carlos de Andrada, em 1930 – “façamos a revolução antes que o povo a faça” -, poderia ter sido dita no período colonial. D. Pedro I, filho de D. João VI, proclamou a Independência antes que as rebeliões populares, como a Conjuração Mineira, lograssem devolver a Corte a Portugal.


Não eram só as revoltas populares, pipocando Brasil afora e agravadas pelos quilombos, habitados por escravos libertos, que tiravam o sono do imperador. Ele sabia que os nossos vizinhos na América do Sul se independentizavam da Coroa espanhola: Bolívar comandou as independências de Colômbia (1810); Venezuela (1811); Equador (maio de 1822); e, em 1825, Bolívia. San Martin liderou as da Argentina (1816) e Peru (1821), e deu apoio à libertação do Chile (1818).


“Façamos a Independência antes que o povo a faça.” Aqui ela foi consumada “por cima”, a ponto de adotar uma bandeira que não traz o azul dos nossos céus, como aprendi na escola, e sim a cor símbolo da nobreza (“sangue azul”); o amarelo do ouro; e o verde que não retrata as nossas matas, e sim a cor da Casa Real de Bragança. Já a iconografia das bandeiras dos países hispânicos alude a movimentos de libertação e processos revolucionários.


O senso de brasilidade é tardio. Até final do século 18 os habitantes daqui se consideravam “portugueses da América” e muitos reivindicavam igualdade de direitos com os portugueses de Portugal. Isso incomodava a elite de Lisboa, que se arvorava em centro do Império. D. Pedro então foi pressionado a estabelecer uma Assembleia Legislativa no Brasil que adotasse leis próprias. Só então se popularizou a ideia de ser brasileiro.

Concordo com Caio Prado Junior e Florestan Fernandes: ao lograr a emancipação política do Brasil, a Independência criou um Estado capaz de preservar as estruturas econômicas e sociais do período colonial.


Ainda resta muito a conquistar. E as eleições estão à porta. Votemos pela independência do povo brasileiro!