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domingo, 10 de agosto de 2025

Bozofascismo: quando a crença supera a análise * Arnaldo Chioquetta/RS

Bozofascismo: quando a crença supera a análise

Nos últimos anos, surgiu um fenômeno político que muitos chamam de bozofascismo. Diferente do fascismo “clássico”, que frequentemente se apoia em ideias de superioridade genética ou étnica, o bozofascismo não precisa de um marcador físico ou de origem para unir seus seguidores. O que o sustenta é um alinhamento de pensamento e crença.

União pela narrativa

Nesse movimento, o que une as pessoas não é o sangue, mas a visão de mundo. Há um conjunto de ideias-chave que funciona como cola ideológica: a convicção de que a esquerda é hipócrita — alguém que se diz preocupada com o povo, mas busca apenas benefícios próprios — e o apelo ao tripé “Deus, Pátria e Família”.
O discurso moral também ocupa lugar central: a esquerda é retratada como imoral, e quem se considera detentor de moralidade seria naturalmente empurrado para a direita.

Socialismo, comunismo e a “grande ameaça”

Para o bozofascismo, não há diferença real entre socialismo e comunismo. Ambos são vistos como um mesmo inimigo, com a suposta meta de instaurar um regime comunista no país. A ideia de que a esquerda luta por justiça social é descartada como pura hipocrisia.

Circula, ainda, uma narrativa segundo a qual a esquerda se sustentaria pela pobreza: criaria e manteria pobres para lhes oferecer uma esperança e, assim, garantir votos.

A visão sobre os esquerdistas

Para o bozofascista, quem se identifica com a esquerda é, em essência, uma pessoa sem sucesso na vida, movida por inveja de quem possui bens ou prosperidade. O discurso por justiça social, nessa lógica, não passa de ciúmes travestidos de preocupação coletiva — mais um elemento de sua suposta hipocrisia.

O papel da religião e da moral

Na base do bozofascismo, muitas vezes, está uma prática religiosa combinada com afirmações morais. Essa mistura cria um terreno fértil para o controle e a mobilização das pessoas, que passam a enxergar o alinhamento político como extensão da fé.

Aliança com a cultura americana

Outro elemento marcante é a afinidade com valores e símbolos da cultura americana. Há um senso de prepotência, a crença de serem mais inteligentes e esclarecidos que o restante da população. Essa identificação leva a uma natural aliança de opiniões com os EUA, mesmo que isso signifique adotar posturas contrárias aos interesses do próprio país. Para eles, esse é um preço aceitável a pagar pela causa.

Sinais, símbolos e rede interna

Quando o grupo está formado, a coesão se reforça por meio de identificações visuais — um botão com a imagem do Bolsonaro, uma frase colada no carro, ou outros sinais que funcionam como códigos silenciosos. Reconhecer um desses símbolos dispensa palavras: a partir dali, já se sabe que se está entre aliados.
Essa identificação visual também serve para excluir: a simples presença de um símbolo associado a opositores pode significar a eliminação imediata de uma oportunidade, como uma vaga de emprego.

Dentro da rede, há um favorecimento mútuo. Os membros buscam se manter em posições de liderança e garantir que outros do mesmo grupo também ascendam, em uma prática comparada à lógica de sociedades fechadas como a maçonaria.

O líder puro e intocável

No centro de tudo está a figura de Bolsonaro. A crença em sua honestidade é absoluta, impermeável a provas, alegações ou investigações. Qualquer crítica é vista como tentativa maliciosa de destruir sua imagem. Essa devoção nasce, em grande parte, do desejo de ter um “líder puro” — alguém visto como incorruptível e, muitas vezes, colocado num pedestal quase religioso.

Fake news como combustível

Outro traço marcante é a forma como fakes são consumidos e compartilhados. Não há pesquisa ou verificação: se a informação parece se encaixar nas convicções do grupo, ela é imediatamente aceita e divulgada. A vontade de que aquilo seja verdade é tão grande que a possibilidade de ser falso é descartada de imediato.

Imunidade contra argumentos

O bozofascista é praticamente “vacinado” contra explicações convincentes vindas de opositores. Não importa a lógica, as provas ou a clareza da argumentação — qualquer coisa dita por quem não está alinhado é considerada mentira, parte de um plano para enganar.

Polarização absoluta

Essa postura leva a uma divisão rígida: qualquer pessoa que critique Bolsonaro, mesmo que seja da própria direita, é automaticamente rotulada como comunista, inimigo ou traidor. Não há espaço para nuances ou para discordância dentro do próprio campo ideológico.

Um fenômeno provocado

O bozofascismo não é um fenômeno espontâneo. Ele é, em grande parte, resultado de uma estratégia de colonização cultural e política conduzida pelos Estados Unidos, que historicamente tratam a América Latina como seu “quintal”.

Nos anos 90, essa influência ganhou força com a chegada massiva de igrejas pentecostais vindas dos EUA, sob o pretexto de fins filantrópicos e ajuda ao povo. Na prática, tratava-se de um passo inicial para criar uma base social e religiosa alinhada aos interesses norte-americanos, facilitando a penetração de valores, ideologias e narrativas que mais tarde moldariam o próprio bozofascismo.

Um propósito ativo

O bozofascismo não é apenas uma crença passiva. Seus adeptos mantêm um firme propósito de “ajudar na causa”, seja através de discursos, mobilizações ou da simples repetição das narrativas centrais. A lealdade ao grupo e ao líder é tratada como missão pessoal.

Um pacto emocional

O bozofascismo é, no fundo, um movimento de crença coletiva, onde símbolos, moralidade, religiosidade, afinidades culturais e influências externas se entrelaçam para formar um bloco sólido, disposto a se proteger e a defender seu líder incondicionalmente. Mais que política, ele funciona como um pacto emocional que sobrevive à realidade e se alimenta da própria devoção.

A Última Cartada do Bolsonarismo * Reynaldo Aragon

A Última Cartada do Bolsonarismo
Reynaldo Aragon

Eduardo Bolsonaro aposta na radicalização internacional para sabotar o Brasil soberano que desafia Trump, as Big Techs e o império digital. Mas a tarifa de Trump não é pelo clã — é contra a autonomia brasileira.

O pretexto e o alvo real.

Não é por Bolsonaro. Nunca foi. A tarifa de 50% imposta por Donald Trump sobre todas as importações brasileiras não é um gesto de solidariedade pessoal nem de lealdade ideológica. É um ataque estratégico. É o movimento inaugural de uma nova etapa da guerra híbrida declarada contra o Brasil, que tem como verdadeiro objetivo impedir a consolidação de um projeto nacional soberano em pleno século XXI.

A narrativa de retaliação pela “perseguição” ao ex-presidente e seus filhos é apenas a camada superficial do conflito. Serve para mobilizar a base radicalizada da extrema-direita, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, mas não explica a profundidade geopolítica e econômica da ofensiva. A real motivação dessa escalada é outra — e bem mais estrutural: a crescente autonomia do Brasil na cena internacional, seu protagonismo no BRICS, sua aproximação com a China e o Sul Global, e a decisão política de avançar na regulação das plataformas digitais, desafiando o poder concentrado das Big Techs norte-americanas.

A eleição de Lula e a postura externa de seu governo — altiva, multilateral, e voltada para a reconstrução de alianças do hemisfério sul — ativaram os alarmes em Washington e no Vale do Silício. A retomada de uma política externa soberana e de políticas de enfrentamento à desinformação, à captura algorítmica e ao abuso das plataformas digitais representam, juntas, uma ameaça sistêmica à hegemonia norte-americana no campo econômico, cultural e informacional.

A resposta de Trump, embora apresentada como defesa da liberdade de expressão ou da “injustiça” cometida contra Bolsonaro, na verdade, é parte de uma engenharia de contenção. Uma forma de conter, pelo colapso tarifário e pelo caos simbólico, o avanço de um Brasil que ousa querer ser mais do que mercado: que quer ser ator, e não apenas território ocupado. O nome disso é guerra — uma guerra em que o bolsonarismo serve como cortina de fumaça e instrumento de desgaste, mas já não é protagonista da história.

A engrenagem da guerra híbrida: EUA, Big Techs e domínio digital.

A aliança entre o governo dos Estados Unidos e as Big Techs forma o núcleo duro do novo imperialismo — um imperialismo de dados, de plataformas e de controle cognitivo. O que está em curso no Brasil, portanto, não é apenas uma disputa comercial, mas uma operação articulada para reverter avanços que ameaçam esse poder.

A recente decisão do Supremo Tribunal Federal de responsabilizar plataformas pelos conteúdos que divulgam e se recusam a moderar foi interpretada, em Washington e na Califórnia, como uma ruptura intolerável. O Brasil tornou-se o primeiro grande país do Ocidente a declarar que o espaço digital não é uma terra sem lei. A regulação, mesmo em estágio inicial, foi suficiente para acionar mecanismos de retaliação. Da mesma forma como o petróleo foi o estopim de guerras convencionais, a moderação de conteúdo e a responsabilização de plataformas se tornaram gatilhos para sanções econômicas e chantagem política.

Trump, ao alinhar sua retórica à defesa irrestrita das Big Techs, não apenas reafirma sua subordinação aos interesses do Vale do Silício como também instrumentaliza o caso brasileiro para enviar um recado global: qualquer nação que desafiar a supremacia digital norte-americana será punida. Não por meio de mísseis, mas por meio de tarifas, manipulação de mercados, desestabilização institucional e campanhas de desinformação internacional.

Esse processo é parte do que muitos já chamam de complexo civil-militar informacional — um aparato que funde a lógica de guerra do Pentágono com a arquitetura de dados das empresas privadas. As plataformas, longe de serem neutras, são agentes ativos na disputa por hegemonia. Elas moldam comportamentos, modulam afetos e operam como braços de um sistema de dominação silenciosa, mas eficaz. Quando o Brasil ameaça reverter essa lógica, torna-se alvo.

O governo Lula, ao insistir na regulação democrática do ambiente digital, tocou numa das feridas mais sensíveis do capitalismo contemporâneo. Não se trata apenas de legislar sobre fake news. Trata-se de afirmar que a soberania informacional é um direito do povo e uma condição para a existência de qualquer projeto nacional de longo prazo. O tarifaço, nesse contexto, deve ser lido como um ato de guerra: um sinal de que a autonomia digital passou a ser tratada como insurreição geopolítica.

O bolsonarismo como instrumento esgotado.

Durante quatro anos, o bolsonarismo foi o agente ideal para a execução da agenda imperial no Brasil. Entregou tudo o que lhe foi pedido: desmonte de políticas públicas, destruição da soberania ambiental, militarização do governo civil, privatizações de infraestrutura estratégica, paralisação de mecanismos de integração regional e — o mais importante — uma relação de completa subserviência à lógica das plataformas digitais e ao eixo geopolítico Washington-Silicon Valley.

Mas agora, fora do poder, essa aliança entra em crise. O bolsonarismo já não controla ministérios, nem embaixadas, nem orçamento. Não tem como romper com o BRICS, nem vetar a regulação da internet, nem entregar ativos nacionais. O que resta é sua utilidade residual: servir de massa de manobra, de gatilho narrativo, de bucha de canhão. Os filhos de Bolsonaro e seus aliados sabem disso. Eles não são mais os operadores da máquina — são apenas os provocadores que ainda têm algum valor simbólico enquanto conseguirem gerar instabilidade.

A reação histérica de Eduardo Bolsonaro — criticando o Itamaraty, ameaçando não voltar ao Brasil, apelando por sanções internacionais contra juízes brasileiros — não é apenas desespero. É cálculo. Ele sabe que Trump não vai salvar sua família. Mas aposta que, ao dobrar a aposta na radicalização, poderá criar um ambiente suficientemente caótico para interferir nas eleições de 2026. O exílio voluntário é transformado em narrativa messiânica. O golpismo fracassado vira martírio estratégico.

Esse movimento, porém, carrega uma contradição central: os EUA — e as Big Techs — não precisam mais do bolsonarismo para operarem seus interesses. O que eles querem é o enfraquecimento do governo Lula, seja com Eduardo, com Tarcísio, com o Centrão ou com um avatar novo. O bolsonarismo, nesse arranjo, tornou-se um problema tático. Ele é instável, ruidoso, exposto. A tática agora é usá-lo para romper o tecido institucional brasileiro e, quando não for mais funcional, abandoná-lo à própria sorte — como fizeram com tantos “aliados descartáveis” na história da geopolítica imperial.

O problema, para o Brasil, é que enquanto esse resíduo tóxico da extrema-direita continuar operando como força de sabotagem interna, a instabilidade será permanente. O bolsonarismo não governa, mas impede que o país governe. Não propõe, mas bloqueia. Seu papel hoje não é mais ser governo. É ser vírus.

Eduardo Bolsonaro e a aposta desesperada na escalada internacional.

Eduardo Bolsonaro não é ingênuo. Ele sabe que seu pai não será salvo por Trump. Sabe que a anistia não virá do Congresso e que o Supremo não recuará. Sabe que os Estados Unidos não moverão uma única engrenagem de seu complexo militar-jurídico-informacional por lealdade pessoal à família Bolsonaro. Mas mesmo diante desse diagnóstico, Eduardo dobra a aposta. E o faz não por convicção, mas por desespero estratégico.

Ao abandonar o Brasil e instalar-se no exterior como suposto “refugiado político”, Eduardo assume um novo papel: o de operador internacional de guerra cultural e sabotagem diplomática. Sua atuação passa a ser simbólica e estratégica — ele se converte em instrumento para acionar forças externas contra a institucionalidade brasileira. É isso que explica suas declarações recentes: o pedido para que Trump sancione juízes do STF, a ameaça de renunciar ao mandato, os ataques ao Itamaraty e até ao governador Tarcísio de Freitas. Eduardo não está apenas se defendendo — está tentando incendiar o cenário institucional brasileiro a partir de fora.

Essa estratégia carrega a lógica clássica da guerra híbrida: deslegitimar as instituições por dentro e por fora, forçar reações desproporcionais, desestabilizar alianças diplomáticas e apresentar o Brasil como uma “ditadura disfarçada” que precisa ser corrigida pelos “verdadeiros defensores da liberdade”. É a cartilha de Steve Bannon adaptada às condições de um país que ousou dizer não ao império.

Mas o que Eduardo ignora — ou finge ignorar — é que ele não é mais um protagonista necessário. O trumpismo tem outras prioridades. As Big Techs também. E se em algum momento ele for considerado um peso, será descartado com a mesma frieza com que o Departamento de Estado abandonou tantos outros agentes provocadores mundo afora. O exílio simbólico pode se transformar em exílio real. E a cruzada que hoje lhe rende manchetes poderá, em breve, render silêncio — ou prisão, se decidir voltar ao Brasil.

O cálculo de Eduardo é claro: ele não quer vencer dentro das regras. Ele quer destruir o tabuleiro. E sua aposta é que Trump o ajudará nisso — não por lealdade, mas porque a destruição do Brasil como projeto soberano interessa ao capital que Trump representa. A questão é: até onde Eduardo está disposto a ir para provocar essa ruptura? E o que ele arrasta junto consigo?

O empresariado brasileiro: rachaduras na base da direita.

Se Eduardo Bolsonaro joga no caos, o empresariado brasileiro joga no cálculo. E a conta, para quem tem investimentos, cadeia de produção e folha de pagamento, não fecha. A radicalização da extrema-direita, longe de representar estabilidade ou previsibilidade, virou um risco de negócio — um risco político, jurídico, diplomático e agora comercial. A tarifa de Trump acendeu o sinal vermelho nos gabinetes da FIESP, da CNI e dos fundos de investimento: apoiar aventureiros digitais pode sair caro.

A reação do setor produtivo não tem sido ruidosa, mas é visível. Empresários que até pouco tempo toleravam o bolsonarismo como um “mal necessário” para conter a esquerda já não escondem o incômodo. O tarifaço imposto por Trump, supostamente para “defender” Bolsonaro, prejudica exportações, encarece insumos e ameaça empregos. Mais do que isso: torna o Brasil um país imprevisível para o comércio internacional — e a instabilidade, como todo capitalista sabe, é o pior dos ambientes para o lucro.

Essa cisão explica o silêncio de boa parte da elite econômica diante das bravatas de Eduardo. Ninguém do setor financeiro, industrial ou do agronegócio de médio porte saiu em defesa da família Bolsonaro. Pelo contrário, há um movimento gradual de realinhamento com figuras como Tarcísio de Freitas, que encarnam o mesmo projeto de subordinação ao capital internacional, mas com uma estética mais polida, mais tecnocrática, mais vendável. Tarcísio fala inglês, usa terno sim e não pede golpe em live de domingo — e isso basta para parte da elite econômica que quer seguir entregando o país, mas sem ruído.

No entanto, essa aposta também carrega riscos. Tarcísio representa uma continuidade da lógica de submissão, da entrega, da alienação do que resta do Estado brasileiro. Seu projeto, embora mais silencioso, é igualmente hostil à soberania. Ele não repele o bolsonarismo: apenas o encapsula numa embalagem aceitável. É a ultradireita de gravata, o golpismo por dentro da norma, a captura neoliberal disfarçada de eficiência.

O empresariado brasileiro, nesse jogo, está dividido entre dois erros: a instabilidade alucinada dos Bolsonaro e a tecnocracia colonizada dos “liberais racionais”. Nenhum dos dois projetos serve ao país. Ambos respondem, em última instância, ao mesmo centro de comando: o capital estrangeiro, suas corporações e seus algoritmos.

BRICS, Sul Global e soberania digital: o que realmente está em jogo.

O tarifaço de Trump é o pavio visível; o barril de pólvora, porém, está nas transformações que o Brasil passou a liderar no eixo Sul Global. Desde que assumiu a presidência do BRICS em 2025, Brasília deu ao bloco um rumo claro: cooperação financeira em moedas locais, integração industrial entre América do Sul, África e Ásia e uma agenda de governança global centrada na redistribuição de poder hoje concentrado no FMI e no Conselho de Segurança da ONU. A Declaração do Rio de Janeiro, aprovada há poucos dias, coloca em texto corrido o que Washington sempre temeu: “fortalecer mecanismos de financiamento que reduzam a dependência do dólar” e “promover padrões regulatórios comuns para a economia digital”

É contra esse enunciado que a Casa Branca Dispara tarifas.

Trump reage porque os números já contam a história. Em 2003, os EUA absorviam quase um quarto das exportações brasileiras; hoje recebem 12%, enquanto a China saltou para 28%.

Cada ponto percentual que o Brasil desloca para o mercado asiático é uma fissura na arquitetura unipolar que sustenta o poder norte-americano. E não se trata apenas de soja ou minério: falamos de semicondutores produzidos em parceria com a Índia, cabos de dados submarinos conectando Fortaleza a Luanda, satélites geoestacionários cofinanciados pelo Novo Banco de Desenvolvimento. A tarifa, nesse jogo, não busca proteger empregos em Ohio; ela tenta conter a geometria de um mundo em que o Atlântico deixa de ser o meridiano definitivo do comércio e da cultura.

No plano doméstico, Lula apoiou outro movimento que irrita Silicon Valley: a responsabilização legal das plataformas digitais. Em 26 de junho, o Supremo Tribunal Federal declarou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet, exigindo pronta remoção de conteúdos ilícitos e estabelecendo dever de cuidado algorítmico

A decisão converte o Brasil em laboratório jurídico para qualquer país que pretenda quebrar a imunidade das Big Techs. Se a sentença se consolidar, cria-se jurisprudência capaz de atravessar oceanos. A tarifa, portanto, é mensagem cifrada: “regulem e pagarão”.

A convergência de soberania econômica (BRICS) e soberania informacional (regulação das plataformas) compõe o coração estratégico do conflito. Ao articular-se com Pequim, Joanesburgo e New Delhi para monetizar comércio em moedas locais, o Brasil desafia o privilégio exorbitante do dólar. Ao impor barreiras jurídicas ao poder algorítmico, desafia a renda de monopólio dos conglomerados digitais que sustentam a máquina de inteligência dos EUA. Essa dupla audácia altera o centro de gravidade do sistema-mundo: já não basta controlar portos e minas — é preciso submeter cabos de fibra e leis de dados.

Trump, estrategista do choque, escolheu a arma tarifária porque é rápida, concentrada e fácil de vender a um eleitorado protegido por slogans nacionalistas. Mas o alvo real não está nos contêineres que deixam Santos; está no cabo óptico que liga Santos a Xiamen, nos pilotos de IA que rodam em nuvem brasileira sem intermediação da Califórnia, no estatuto jurídico que pode obrigar o Facebook a contratar moderadores em Recife ao invés de automatizar censura em Boston.

Por isso o conflito de 2025 é qualitativamente distinto das guerras tarifárias dos séculos passados. É disputa sobre quem define as regras do tráfego de bits, sobre quem captura excedentes cognitivos, sobre quem registra a contabilidade em qual moeda. E, nesse xadrez, o Brasil tornou-se, num mesmo lance, peça-chave e peça-alvo: se conseguir manter a rota BRICS e consolidar a regulação digital, abre precedente para todo o Sul Global; se recuar, reforça a tese de que nenhuma potência periférica pode ousar reformar o sistema sem sofrer retaliação exemplar.

Cenários até 2026: o confronto inevitável entre soberania e submissão.

Até outubro de 2026, o Brasil enfrentará uma encruzilhada histórica. O que está em jogo não é apenas a reeleição de um presidente ou a sobrevivência política de um grupo extremista. Está em jogo a possibilidade — talvez a última em décadas — de consolidar um projeto de país soberano em meio a uma ofensiva global coordenada que combina guerra comercial, sabotagem informacional e chantagem diplomática.

A máquina de guerra híbrida já está em operação. A tarifa de 50% imposta por Trump é apenas o início. Fontes próximas ao Departamento de Comércio dos EUA falam em ativar a seção 301 para iniciar investigações formais contra o Brasil por “restrições à liberdade de expressão e ao livre mercado digital” — linguagem fabricada sob medida para proteger os interesses das Big Techs. A Meta, o Google, a Amazon e o X, cada uma à sua maneira, vêm pressionando parlamentares brasileiros, ameaçando suspender serviços, alegando insegurança jurídica, enquanto injetam recursos em campanhas de desinformação e manipulação do debate público.

Nesse ambiente, o bolsonarismo seguirá operando como força de sabotagem. Sem poder institucional, funcionará como milícia digital, como rede paralela de influência e como elo informal entre os interesses do trumpismo, da extrema-direita europeia e dos grupos que operam nas sombras do capital financeiro e tecnológico. Não se trata de disputar eleições para vencer — trata-se de inviabilizar o processo eleitoral, esgarçar a credibilidade das instituições, plantar a dúvida, esticar a corda.

A aposta de Eduardo Bolsonaro é clara: transformar 2026 em um plebiscito entre “a ditadura do STF” e “a liberdade”, entre “o comunismo do BRICS” e “o Ocidente cristão”, entre “a censura petista” e “a verdade do povo”. Trata-se de um roteiro pronto para ser executado em plataformas controladas por interesses estrangeiros, operado com inteligência artificial generativa, redes de bots, influenciadores pagos e o apoio silencioso — mas ativo — de think tanks, fundações e setores do próprio empresariado internacional.

Mas essa narrativa não encontrará terreno fértil com a mesma facilidade de 2018. O cenário mudou. A pandemia desnudou o custo da irresponsabilidade. O 8 de janeiro revelou os limites do golpismo. E o tarifaço de Trump expôs a fratura entre os interesses do povo brasileiro e os da extrema-direita internacional. O empresariado está dividido. O eleitorado está mais desconfiado. E o campo democrático aprendeu a reconhecer que as eleições já não são apenas disputa de votos — são guerra de percepção.

Do lado do governo, o desafio é enorme: manter a estabilidade institucional, ampliar a frente de defesa da soberania, comunicar com clareza o que está em jogo e resistir à tentação de responder no mesmo tom da provocação. Lula sabe que não basta vencer. É preciso vencer com legitimidade inquestionável, com mobilização popular, com articulação internacional — e com um novo pacto nacional que não inclua golpistas nem neoliberais envernizados.

Se o Brasil resistir até 2026, terá vencido não apenas uma eleição, mas uma guerra. Uma guerra contra o projeto de recolonização digital e financeira, contra a tentativa de transformar o país numa filial algorítmica da política externa norte-americana. E essa vitória — se acontecer — não será de Lula apenas, mas do povo brasileiro e de todas as nações que ousam desafiar a ordem imperial.

A hora de nomear a guerra e decidir o lado da História.

A tarifa de Trump não é sobre Bolsonaro. É sobre o Brasil. É sobre impedir que um país do Sul Global alcance maturidade geopolítica, autonomia digital e protagonismo internacional fora da órbita imperial. Bolsonaro é apenas o biombo — uma figura útil enquanto servia para desmontar o Estado por dentro, hoje reciclada como peça de agitação simbólica na guerra informacional travada contra a soberania.

Estamos diante de uma operação coordenada que articula governo dos Estados Unidos, Big Techs e setores do capital financeiro internacional para reverter um ciclo que ameaça escapar do controle do centro. O Brasil do BRICS, da regulação digital, das parcerias sul-sul, da desdolarização e da reconstrução do Estado não pode ser permitido. Não porque seja radical — mas porque é exemplo.

Nesse contexto, o bolsonarismo é o vírus e o vetor, mas não é o cérebro. É o agente do caos, mas não o autor da ofensiva. Eduardo sabe disso. Por isso radicaliza. Por isso se exila. Porque o que está em disputa não é mais o destino de sua família, mas o futuro da própria arquitetura de poder que sua família serviu. E se ele tiver que incendiar o país para voltar ao jogo, ele o fará.

Do outro lado, o Brasil tem uma chance histórica. Mas não pode errar a leitura. O que se desenha até 2026 não é apenas uma eleição. É um campo de batalha entre dois projetos antagônicos: soberania ou submissão. Multipolaridade ou dependência. Civilização ou colônia digital.

É preciso nomear a guerra. E é preciso decidir, sem ambiguidade, de que lado da História o Brasil quer estar. Não haverá mais neutralidade possível. A guerra já começou — e ela não é pelo Bolsonaro. Ela é contra o Brasil.


Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

domingo, 3 de setembro de 2023

QUEM PARIU BOLSONARO * Jair de Souza/RJ

QUEM PARIU BOLSONARO
Jair de Souza

Por que devemos continuar empregando o termo bolsonarismo?

Justificativas linguístico-filosóficas para o emprego do termo bolsonarismo

Muita gente tem reclamado do uso do termo “bolsonarismo” para fazer referência à corrente política de extrema direita que começou a ganhar destaque em nosso país a partir de meados da década passada.

O que se costuma alegar para justificar tal contrariedade é, fundamentalmente, o fato de que a pessoa de cujo nome o termo se deriva não contaria com a envergadura requerida para ser reconhecido como o idealizador de uma corrente de pensamento político.

De acordo com quem levanta esta objeção, não é justo que um sujeito tão inculto, tosco, falto de caráter e desprovido de qualquer brilhantismo intelectual venha a gozar de uma importância tão significativa a ponto de ter seu próprio nome servindo como base para a designação de uma linha de visão política, seja ela de que orientação for.

É inegável que, se os critérios a respeitar nesta questão forem realmente os mencionados no parágrafo anterior, seríamos forçados a reconhecer que os que levantam essa objeção estão cobertos de razão.

Não há dúvidas de que o ex-capitão que é visto como a Alma Mater do bolsonarismo pode ser considerado um dos políticos mais abjetos de que se tem notícia no cenário político brasileiro desde tempos imemoriais. Afora a circunstância de ter sido eternamente arredio ao trabalho, ele jamais se envolveu em nenhuma atividade que não fosse exclusivamente em seu próprio benefício.

Além do mais, sua cultura e sua capacidade intelectual nunca foram seus pontos fortes, muito pelo contrário.
Em vista do que expusemos até o momento, não deveríamos evitar recorrer a essa designação daqui para frente?

Não está mais do que evidente que alguém com qualificações tão escabrosas não é merecedor de ser fonte para a nomeação de nenhuma força atuante no jogo social?

Bem, embora eu tenha ciência de que vou frustrar as expectativas de várias pessoas, quero deixar bem claro que sou favorável a que não apenas continuemos a empregar a expressão, senão que passemos a utilizá-la com muito mais frequência.

As justificativas para este meu posicionamento é o que vou me esforçar por explicar nas seguintes linhas.
Em primeiro lugar, precisamos entender que, neste caso específico, esta expressão não tem o objetivo de louvar aquele de quem ela etimologicamente se derivou, e sim o de desmascarar a todos os que engendraram a monstruosidade e depravação que ela carrega consigo.

Em outras palavras, ao escrevê-la ou proferi-la oralmente e vinculá-la com certas pessoas ou grupos, nossa intenção é revelar toda a podridão que caracteriza aos que com ela estão associados.

De modo nenhum almejamos equiparar um energúmeno a um filósofo gestador de uma nova maneira de sentir e refletir o mundo em que estamos inseridos, ou seja, devemos considerar sua aplicação como uma severa punição daqueles que são, em realidade, os responsáveis pela existência de todas as mazelas que o termo simboliza e transmite.

Não nos iludamos, não foi o ex-capitão miliciano o inventor das monstruosidades com as quais sua imagem está indissoluvelmente ligada.

A bem da verdade, ele é o fruto mais completo de toda a sordidez comportamental e de caráter que vem marcando nossas classes dominantes desde os primórdios de nossa constituição como sociedade.

Portanto, mesmo sem ser criador de nada, sua figura reflete todas as aberrações cultivadas e praticadas pelos setores que sempre agiram como senhores absolutos de tudo e de todos.
À continuação, vamos tentar expor e elucidar as principais características do bolsonarismo.

Em sua base, está um furibundo ódio contra as maiorias populares e uma profunda aversão a tudo que possa favorecer as camadas mais despossuídas.

Em consequência, sempre houve uma enorme resistência a qualquer medida que viesse a contribuir para diminuir o nível de desigualdade social. Este traço tem se evidenciado em nossas terras desde os primórdios da colonização europeia.

Não podemos nos esquecer que, com a chegada dos colonos portugueses, instalou-se por aqui um regime de cruel exploração, com a coisificação da mão de obra aborígene e daquela trazida da África na condição de escravos.

No entanto, com o passar do tempo, este ódio ao povo não deixou de existir. Tão somente adquiriu novas facetas e até se acentuou.

Hoje em dia, esta ira histórica contra os menos privilegiados continua presente e permanece como um dos fundamentos de nossos exploradores e, como não poderia deixar de ser, do bolsonarismo.

Em segundo lugar, mas não menos importante para sua constituição, está a hipocrisia. Seria impossível definir o bolsonarismo sem levar em conta este fator.

Porém, uma vez mais, não foi o ex-capitão e nem seus aduladores mais achegados os introdutores do hábito de fingir e falsear posicionamentos para levar vantagens na vida política de nosso país.

Poderíamos, sim, dizer que o bolsonarismo conseguiu a proeza de sintetizar e potencializar quase todas as variantes de hipocrisia que há muito vêm sendo destiladas em profusão por nossas classes dominantes.

Em suma, ele tão somente se transformou no desaguadouro natural das variadas torrentes de manipulação farsante de cunhos pseudo-nacionalista, pseudo-moral, pseudo-cristão, entre outros, oriundas dos eternos sanguessugas da nação brasileira.

Sabemos que o bolsonarismo foi gestado nas casernas e nos círculos de militares retirados inconformados com a possibilidade de acerto de contas com a Comissão da Verdade criada por Dilma Rousseff. Para ganhar musculatura, se apropriaram das cores de nossa bandeira e dos símbolos nacionais.

Por isso, tornou-se corriqueiro em manifestações bolsonaristas o vestir camisetas verde-amarelas de nossa seleção de futebol, cantar o hino nacional e bradar loas à Pátria.

Tudo isso para justificar a entrega de nossas reservas petrolíferas às multinacionais gringas, o desmantelamento e inviabilização da Petrobrás, a privatização e transferência da Eletrobrás a grupos capitalistas estrangeiros e nacionais, e por aí vai.

Ou seja, nunca antes os símbolos da Pátria tinham sido manipulados tão descaradamente para favorecer nossa espoliação e submissão aos desígnios de potências estrangeiras.

 Porém, o bolsonarismo foi reflexo e consequência de um espírito entreguista de longa data, e não a razão causante do mesmo.
Como exemplo do moralismo hipócrita que permeia os meios de comunicação corporativos do Brasil, é fundamental observar como esses órgãos atuaram para ancorar e fortalecer o lavajatismo-morismo e sua pretensa luta contra a corrupção.

Agora, já está mais do que comprovado que o lavajatismo-morismo foi um dos mais nefastos instrumentos arquitetados pelas forças do imperialismo e do grande capital local para travar o avanço de nosso país pelos caminhos da soberania nacional.

Sob o pretexto de combater a corrupção, esses meios se lançaram com tudo na campanha de endeusamento do ex-juiz suspeito Sergio Moro e a justificação de todas as arbitrariedades por ele cometidas.

Além de destruir grande parte da infraestrutura industrial do Brasil, de causar e expandir a miséria como nunca antes a todos os rincões de nossa pátria, o lavajatismo-morismo acabou se mostrando como uma das mais insidiosas máquinas de corrupção de toda nossa história, estando envolvido em desvios ilegais que ultrapassariam a casa dos dois bilhões de reais.

Em outras palavras, o lavajatismo-morismo levava em seu bojo a hipocrisia típica de nossas classes dominantes. Cresceu e se nutriu com base no apoio total e articulado da rede Globo e do restante da mídia corporativa.

Atuou sempre em consonância com os interesses das classes que o patrocinaram. Em decorrência, como não podia deixar de ser, o lavajatismo-morismo ajudou a abrir as portas para a chegada do bolsonarismo ao comando do Estado.

Para sacramentar essa questão da hipocrisia, convém escrever algumas palavras sobre a mais significativa fonte de sustentação numérica de massas do bolsonarismo: as igrejas ditas evangélicas, mormente as neopentecostais.

Neste caso, temos o mais flagrante descaramento de ver como se usa o nome de Jesus para defender tudo aquilo contra o que o próprio Jesus lutou durante toda sua vida.

Os capitalistas donos dessas igrejas não se envergonham de passar a seus seguidores a ideia de um Jesus avarento, sequioso por dinheiro, vingativo, guerreirista e profundamente preconceituoso. Ou seja, procuram transformar a imagem de Jesus em algo completamente contrário ao que Jesus foi.

São essas igrejas que dão ao bolsonarismo uma certa expressividade numérica junto ao povo. Essas igrejas neopentecostais bolsonaristas recebem aos que vão a procura da bondade de Jesus e procuram reencaminhá-los na rota do diabo.

Por tudo o que argumentamos até este ponto, defendemos que o termo bolsonarismo continue sendo usado para fazer referência a toda a podridão de nossas classes dominantes.

Entendo isto como uma maneira de puni-los por todo o mal que vêm causando a nosso povo.

*Jair de Souza é economista formado pela UFRJ; mestre em linguística também pela UFRJ.
Paulo Henrique Amorim
Senador Fabiano Contarato.PT/ES
ALEXANDRE DE MORAIS

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Às ruas para defender nossas conquistas e direitos! * Alternativa Socialista/Luta Socialista/PSOL

 Às ruas para defender nossas conquistas e direitos!


Bolsonaro e um grupo minoritário de sua gangue de extrema direita está bloqueando as estradas. A PRF segue as ordens do miliciano e se nega a levantar os bloqueios. Ministros do STF cedem à pressão e não atuam. As instituições dessa democracia dos ricos demonstram suas limitações até para o mais básico que é respeitar o resultado de uma eleição.


A classe trabalhadora e o povo pobre não pode confiar mais que do que em sua capacidade de luta e organização para defender seus direitos e conquistas.

O desbloqueio deve ocorrer de forma imediata para que comida, remédios e outros suprimentos básicos e necessários cheguem às cidades e à população, nenhuma ação antidemocrática, fascista deve ser tolerada e o caminho da mobilização da classe trabalhadora deve ser prioridade. Devemos desbloquear as ruas e recupera-las para que seja cenário da mobilização do povo trabalhador.

Não podemos esperar que as instituições do estado burguês tomem providências para que as estradas e avenidas sejam desbloqueadas. É necessário uma postura firme, as Centrais Sindicais, os movimentos sociais e os partidos da classe trabalhadora devem imediatamente se mobilizar e ir às ruas. Está claro que Bolsonaro e sua horda de fanáticos antidemocráticos querem sabotar o resultado eleitoral e mais evidente o erro de desviar a luta direta para o processo eleitoral. Por isso não dá para esperar é necessário chamar a classe trabalhadora às ruas para derrotar o Bolsonarismo, é Fora Bolsonaro golpista, já!

São Paulo, 2 de novembro de 2022

Comitê de Enlace: Alternativa Socialista e Luta Socialista - tendências internas do PSOL

Liga Internacional Socialista (LIS)
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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

OMISSÃO ANTE O FASCISMO JAMAIS * Júlio C Santos - RJ

 OMISSÃO ANTE O FASCISMO JAMAIS

Esse artigo foi elaborado como resposta urgente e dramática a algumas discussões, posições e ilusões que tenho presenciado nas redes sociais acompanhadas do silêncio suicida ou de manifestações que reforçam a expectativa de vitória institucional sobre o fascismo. Para fazê-lo interrompi outro artigo que falava do The Day After (O Dia Seguinte – conhecido filme, dirigido por Nicholas Meyer), em alusão ao dia seguinte à vitória da chapa Lula / Alckmin.



Quando fechava o texto, foi noticiado que Bolsonaro, pelo twitter, deu uma nova declaração chamando claramente seus apoiadores a desobstruírem as rodovias. Independentemente dessa declaração e do efeito que ela provoque, o valor desse texto em seu conteúdo principal permanece inalterado.


Não. A discussão é mais embaixo quando se trata de luta contra a extrema direita em suas diversas variantes, principalmente a variante fascista. Aqui não há espaço para discussão democrática nem para depositar ilusão no funcionamento das instituições do Estado burguês, principalmente as FFAA (em todos os seus braços) que é onde os setores da burguesia que semeiam o pântano onde cresce o fascismo vão buscar seu suporte armado e intimidador.


O fascismo, é necessário destruí-lo nas ruas em seu nascedouro. É vital que não o deixemos gostar das ruas, pois o fascismo é sedutor (há uma série brilhante na Netflix chamada “Peaky Blinders” (não tem tradução) que, já no charme, beleza e exotismo dos personagens fascistas, mostra, lá pela quinta ou sexta temporada, como o fascismo é sedutor – e, para quem gosta do tema, recomendo a ficção histórica “O Inverno do Mundo”, o segundo livro da brilhante trilogia “O Século” do escritor inglês Ken Follet, onde essa discussão é exemplarmente desenvolvida. E quem quiser se aprofundar ainda mais não pode deixar de ler a série de artigos escritos por Leon Trotsky entre 1930 e 1933 sobre a ascensão do nazifascismo na Alemanha e que foram organizados editorialmente no livro intitulado “Revolução e Contrarrevolução na Alemanha” – considerado por intelectuais e historiadores sérios, não estalinistas, como os textos que mais claramente entenderam o que significava o processo de afirmação do fascismo no cenário político mundial.


Isso tem a ver não só com o momento atual, mas também como esse núcleo que responde diretamente aos comandos da extrema direita sai do momento atual para o futuro. Nesse sentido, qualquer discussão que vá no sentido de não criar um estado de alerta vermelho em relação às embrionárias manifestações de articulação orgânica e unificada, paramilitar, da extrema direita sob o falso pretexto de  “não podemos morder a isca” é não só de um everéstico desconhecimento da história, mas fundamentalmente é desarmar os trabalhadores, a juventude e o povo pobre das favelas e periferias para uma tarefa que só pode ser realizada com a organização e a preparação consciente para o enfrentamento à extrema direita que, como Bolsonaro falou, veio para ficar. Nesse momento isso significa unir o campo e a cidade em defesa do resultado das eleições.


Caminhamos para 72 horas de bloqueios que já afetam o abastecimento de alimentos e combustível e colocam em risco de colapso o funcionamento das capitais. O comportamento das polícias militares, nem de longe tem o mesmo rigor e a mesma tenacidade com que agem com as lutas dos trabalhadores e do povo pobre. Mais do que isso: como nos mostra o método dialético de análise, não existe estabilidade no mundo real; ou as coisas recuam ou elas avançam: a manutenção dos bloqueios apesar de todo o furor da decisão do STF, das condenações por parte da sociedade civil e de diversas autoridades públicas, e da investida da grande mídia que tenta fazer crer que a declaração de Bolsonaro foi condenatória aos manifestantes, pode levar a novos capítulos mais dramáticos. Já houve um tenente no Pará que quebrou a hierarquia e se recusou a desmobilizar um piquete de bloqueio e em Santa Catarina houve manifestação com a saudação nazista. 


O que o tenente do Pará pôs em prática é, sem dúvida, o sentimento da maioria da tropa que só não segue claramente esse caminho pela insegurança gerada pelas manifestações condenatórias dos piquetes nas estradas pela quase totalidade da sociedade civil. Mas se o impasse permanece e não aparece uma força clara dissuasória desse movimento da extrema direita, poderemos ter sérios problemas.


A declaração de Bolsonaro é apenas pro forma e, como bem o entenderam os caminhoneiros, não representa um chamado a suspender os piquetes nem um reconhecimento da vitória eleitoral de Lula que sequer é citado. As instituições da sociedade civil, em sua maioria, tentam fazer um contorcionismo para dar esse significado a sua declaração e, com isso, aproveitar de sua liderança junto aos golpistas para chamar a extrema direita de volta à normalidade democrática.


Num artigo publicado em junho e republicado em setembro deste ano nas redes sociais de que participo, eu dizia:


“(...)

Assim, o mais provável é que haja um acordo para “anistiar” os setores civis e militares responsáveis pela trágica condução da pandemia, pelo massacre de povos originários, pelos acordos espúrios que resultaram no atraso da vacinação e pelas práticas neonazistas da Prevent Sênior, pela destruição acelerada da Amazônia, pela crescente quebra da laicidade do Estado, pelos constantes ataques às instituições do regime democrático burguês brasileiro, pela política de dizimação da juventude negra nas regiões de periferia e favelas e pelos atos de barbárie cometidos pelas forças de segurança estaduais e federais.


Isso significa perder a oportunidade de dar um golpe letal nesses setores e permitir que, mesmo debilitados, mantenham a espinha dorsal de suas ideias, organizações e lideranças intactas e prontas para se reaglutinarem e intervirem nos principais pontos políticos da pauta nacional. E, se o plano de Lula de cooptação dos de baixo vingar, com a classe trabalhadora desmobilizada e desorganizada para o enfrentamento político – o que colocaria novos riscos de aventuras golpistas na ordem do dia.”


O rápido reconhecimento da chapa Lula / Alckmin nacional e internacionalmente é um indicativo de que esse acordo já está firmado. No entanto tudo indica também que ele não vai até Bolsonaro e sua família, nem ao setor do empresariado mais identificado com a lúmpen-burguesia e mais claramente relacionados com a sustentação de atividades golpistas e / ou ilegais (madeireiros, mineradores, agropecuaristas responsáveis pelas queimadas na Amazônia e no Pantanal e alguns setores da burguesia urbana ligada ao varejo).


Esse é um dos principais fatores que podem estar por trás dos atos de bloqueio nas estradas. O fato de Bolsonaro, na reunião com o STF, ter demonstrado preocupação com o “revanchismo” daquele poder reforça uma interpretação nesse caminho.


Mais adiante, o mesmo artigo de junho, republicado em setembro, dizia:


“(...)

Assim como no artigo “Dialogando com Safatle” que publiquei em setembro do ano passado, não creio que haja espaço político para um golpe: não há perigo de quebra da institucionalidade e da perda do controle do Estado pela burguesia; não há uma situação de crise social manifesta nem organizações com influência de massa que questionem a ordem burguesa; a burguesia vai muito bem, obrigado, com vários setores batendo recordes de lucro e com contratos futuros que não querem ver sacudidos por uma crise institucional de proporções e desfecho desconhecidos; o imperialismo americano aposta suas fichas nas democracias controladas na busca de estabelecer uma nova ordem mundial sob sua reconhecida hegemonia. 


O fato de não haver espaço político claro para um golpe não significa que não haja um setor golpista, oriundo do BOLSONARISMO e personificado na figura de Bolsonaro, que não possa se aventurar a isso por interesses corporativos próprios, aliado a setores ideologicamente alinhados com a extrema direita mundial. O mais provável então, nesse momento, é que, na hipótese de segundo turno apontando a vitória de lula/Alkmin, esse setor tente se fortalecer relativamente com uma tática golpista que culmine, por exemplo, num ato de massas, inclusive com a presença de possíveis setores armados, por ocasião do fim do segundo turno, nas principais cidades do país, que venha a lhes dar fôlego político e organizativo para se constituir em uma ameaça real por fora da institucionalidade que tem representado uma contenção ao BOLSONARISMO e à Bolsonaro e sua vocação golpista.


Para Bolsonaro, a derrota eleitoral pode significar uma enxurrada de processos que podem leva-lo à cadeia. Fomentar uma alternativa golpista que fortaleça a extrema direita, criando um clima de tensão e instabilidade, mais do que um compromisso ideológico é para ele uma questão de sobrevivência que, como mínimo, fortalece o espaço para uma negociação.”


As manifestações golpistas não vieram sob a forma de atos pelo país. A forma como se deram os resultados do primeiro e segundo turno e a campanha eleitoral entre os dois turnos transformaria esses atos em velórios.  Lembremos que, além das medidas inconstitucionais já abundantes antes, foram empregados entre os dois turnos todos os artifícios ilegais, aéticos e imorais que a administração do Estado burguês pode pagar, incentivar e promover. Isso fez com que a vitória de Bolsonaro, antes uma tarefa quase impossível, se transformasse em uma perspectiva real para seus seguidores. A imobilização causada pela dor da derrota, que teve por ser evitada por tão pouco, foi muito maior e justificou que as ações de conteúdo golpista se deslocassem das cidades para as rodovias, onde um pequeno exército, aliado de primeira ordem com o presidente derrotado, pudesse, com a ajuda da Polícia Rodoviária Federal (braço do Estado mais aparelhado pelo bolsonarismo) dar início ao processo de conteúdo golpista.


Ocorre que quanto mais tempo as ruas são oferecidas a esses bandos, mais riscos corremos desse movimento crescer e abarcar braços armados do estado ou da sociedade civil e se sentirem fortes e unidos o suficiente para continuarem a agir no futuro não só contra a institucionalidade do Estado do Direito, como agora, mas principalmente contra a organização e a luta dos trabalhadores – objetivo final do fascismo. 


É nesse sentido que temos que entender a aula do professor Alysson Mascaros que circula na rede, em particular a parte em que ele diz: “(...) o capitalismo é o fascismo. O fascismo é um fenômeno do capitalismo, mas não todo momento do capitalismo é sempre fascista. Estão é preciso identificar o momento do perigo... e pasmem!!! Esse momento é momento de perigo”.


Então é preciso encarar a realidade com a seriedade que ela exige. 


Armar emocional e conceitualmente a vanguarda lutadora, os trabalhadores e trabalhadoras, assim como o povo explorado e oprimido das periferias e favelas para o perigo que está no ar e mostrar aos fascistas que não tomarão as ruas é uma necessidade para não colocar em risco a vitória que tivemos nas urnas contra o bolsonarismo.


É preciso a imediata convocação de encontros locais, regionais, estaduais e nacional do movimento sindical, popular e da juventude, onde o proletariado oriente e organize seus aliados do campo brasileiro, dos povos originários, do movimento negro, dos coletivos de periferias e favelas, das organizações feministas e LGBTQI+ para a garantia do resultado eleitoral e da posse do presidente eleito.


Não podemos ter medo de querer garantir nossa vitória quando o Estado, depois de três dias, permanece inerte diante das ações golpistas.


Júlio C Santos - RJ

Membro do Conselho Diretor do Centro Cultural Octavio Brandão – CCOB

OBS: O texto reflete minhas posições e conclusões individuais e está autorizada sua divulgação