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domingo, 10 de agosto de 2025

Bozofascismo: quando a crença supera a análise * Arnaldo Chioquetta/RS

Bozofascismo: quando a crença supera a análise

Nos últimos anos, surgiu um fenômeno político que muitos chamam de bozofascismo. Diferente do fascismo “clássico”, que frequentemente se apoia em ideias de superioridade genética ou étnica, o bozofascismo não precisa de um marcador físico ou de origem para unir seus seguidores. O que o sustenta é um alinhamento de pensamento e crença.

União pela narrativa

Nesse movimento, o que une as pessoas não é o sangue, mas a visão de mundo. Há um conjunto de ideias-chave que funciona como cola ideológica: a convicção de que a esquerda é hipócrita — alguém que se diz preocupada com o povo, mas busca apenas benefícios próprios — e o apelo ao tripé “Deus, Pátria e Família”.
O discurso moral também ocupa lugar central: a esquerda é retratada como imoral, e quem se considera detentor de moralidade seria naturalmente empurrado para a direita.

Socialismo, comunismo e a “grande ameaça”

Para o bozofascismo, não há diferença real entre socialismo e comunismo. Ambos são vistos como um mesmo inimigo, com a suposta meta de instaurar um regime comunista no país. A ideia de que a esquerda luta por justiça social é descartada como pura hipocrisia.

Circula, ainda, uma narrativa segundo a qual a esquerda se sustentaria pela pobreza: criaria e manteria pobres para lhes oferecer uma esperança e, assim, garantir votos.

A visão sobre os esquerdistas

Para o bozofascista, quem se identifica com a esquerda é, em essência, uma pessoa sem sucesso na vida, movida por inveja de quem possui bens ou prosperidade. O discurso por justiça social, nessa lógica, não passa de ciúmes travestidos de preocupação coletiva — mais um elemento de sua suposta hipocrisia.

O papel da religião e da moral

Na base do bozofascismo, muitas vezes, está uma prática religiosa combinada com afirmações morais. Essa mistura cria um terreno fértil para o controle e a mobilização das pessoas, que passam a enxergar o alinhamento político como extensão da fé.

Aliança com a cultura americana

Outro elemento marcante é a afinidade com valores e símbolos da cultura americana. Há um senso de prepotência, a crença de serem mais inteligentes e esclarecidos que o restante da população. Essa identificação leva a uma natural aliança de opiniões com os EUA, mesmo que isso signifique adotar posturas contrárias aos interesses do próprio país. Para eles, esse é um preço aceitável a pagar pela causa.

Sinais, símbolos e rede interna

Quando o grupo está formado, a coesão se reforça por meio de identificações visuais — um botão com a imagem do Bolsonaro, uma frase colada no carro, ou outros sinais que funcionam como códigos silenciosos. Reconhecer um desses símbolos dispensa palavras: a partir dali, já se sabe que se está entre aliados.
Essa identificação visual também serve para excluir: a simples presença de um símbolo associado a opositores pode significar a eliminação imediata de uma oportunidade, como uma vaga de emprego.

Dentro da rede, há um favorecimento mútuo. Os membros buscam se manter em posições de liderança e garantir que outros do mesmo grupo também ascendam, em uma prática comparada à lógica de sociedades fechadas como a maçonaria.

O líder puro e intocável

No centro de tudo está a figura de Bolsonaro. A crença em sua honestidade é absoluta, impermeável a provas, alegações ou investigações. Qualquer crítica é vista como tentativa maliciosa de destruir sua imagem. Essa devoção nasce, em grande parte, do desejo de ter um “líder puro” — alguém visto como incorruptível e, muitas vezes, colocado num pedestal quase religioso.

Fake news como combustível

Outro traço marcante é a forma como fakes são consumidos e compartilhados. Não há pesquisa ou verificação: se a informação parece se encaixar nas convicções do grupo, ela é imediatamente aceita e divulgada. A vontade de que aquilo seja verdade é tão grande que a possibilidade de ser falso é descartada de imediato.

Imunidade contra argumentos

O bozofascista é praticamente “vacinado” contra explicações convincentes vindas de opositores. Não importa a lógica, as provas ou a clareza da argumentação — qualquer coisa dita por quem não está alinhado é considerada mentira, parte de um plano para enganar.

Polarização absoluta

Essa postura leva a uma divisão rígida: qualquer pessoa que critique Bolsonaro, mesmo que seja da própria direita, é automaticamente rotulada como comunista, inimigo ou traidor. Não há espaço para nuances ou para discordância dentro do próprio campo ideológico.

Um fenômeno provocado

O bozofascismo não é um fenômeno espontâneo. Ele é, em grande parte, resultado de uma estratégia de colonização cultural e política conduzida pelos Estados Unidos, que historicamente tratam a América Latina como seu “quintal”.

Nos anos 90, essa influência ganhou força com a chegada massiva de igrejas pentecostais vindas dos EUA, sob o pretexto de fins filantrópicos e ajuda ao povo. Na prática, tratava-se de um passo inicial para criar uma base social e religiosa alinhada aos interesses norte-americanos, facilitando a penetração de valores, ideologias e narrativas que mais tarde moldariam o próprio bozofascismo.

Um propósito ativo

O bozofascismo não é apenas uma crença passiva. Seus adeptos mantêm um firme propósito de “ajudar na causa”, seja através de discursos, mobilizações ou da simples repetição das narrativas centrais. A lealdade ao grupo e ao líder é tratada como missão pessoal.

Um pacto emocional

O bozofascismo é, no fundo, um movimento de crença coletiva, onde símbolos, moralidade, religiosidade, afinidades culturais e influências externas se entrelaçam para formar um bloco sólido, disposto a se proteger e a defender seu líder incondicionalmente. Mais que política, ele funciona como um pacto emocional que sobrevive à realidade e se alimenta da própria devoção.

sábado, 27 de janeiro de 2024

ABIN DO BOZO BABOU * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

ABIN DO BOZO BABOU

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Esquema ilegal de espionagem na Abin buscava proteger família Bolsonaro, vigiar adversários e criar fake news; entenda
Investigação da PF encontrou indícios de uso indevido do órgão de inteligência sob o comando de Alexandre Ramagem (PL-RJ), aliado de Bolsonaro que, atualmente, é deputado federal.
Por g1


O esquema ilegal de espionagem na Agência Brasileira de Inteligência (Abin) investigado pela Polícia Federal tinha três objetivos principais: proteger membros da família Bolsonaro, vigiar adversários políticos do governo e criar fake news. A informação é da jornalista Daniela Lima, que concedeu entrevista ao podcast O Assunto que foi ao ar nesta sexta-feira (26).

Segundo apuração da PF, a Abin pode ter sido "instrumentalizada" para monitorar ilegalmente autoridades e pessoas envolvidas em investigações, além de desafetos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O uso indevido do órgão teria ocorrido sob o comando de Alexandre Ramagem (PL-RJ), aliado de Bolsonaro que, atualmente, é deputado federal.

"Agora há indícios claríssimos de que a inteligência do Brasil, situada dentro do guarda-chuva do Gabinete de Segurança Institucional, vinculado, portanto, diretamente à Presidência da República, foi utilizado para espionar ilegalmente integrantes do Supremo Tribunal Federal, govenadores, deputados e senadores durante a gestão anterior. É um escândalo o que se desdobra a partir de agora", diz Daniela Lima.

A jornalista explicou no podcast as motivações do esquema ilegal. "Você tem, por exemplo, operações de contrainteligência que envolvem uma blindagem aos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. A Abin serviu para investigar e abastecer Flávio Bolsonaro numa saída jurídica no inquérito das rachadinhas e também atuou para blindar Jair Renan Bolsonaro na apuração de tráfico de influência", explicou.

Veja os principais pontos da operação que investiga espionagem ilegal da Abin
Daniela Lima comenta espionagem ilegal de ministros do STF, governadores e parlamentares

Fabricação de fake news

"Você tem uma segunda motivação: vislumbrar, vigiar adversários políticos. Então, manda um drone no então governador do Ceará, Camilo Santana. Rodrigo Maia [ex-presidente da Câmara] passa a ser vigiado também... E também tem a terceira 'perna', que era usar a Abin, delegado de polícia, para fabricar fake news", concluiu.
A jornalista destacou como exemplo do uso da agência para fabricação de fake news o caso em que o ex-presidente Jair Bolsonaro disse estar sendo alvo de uma suposta tentativa de golpe logo após Rodrigo Maia ter uma reunião com o ministro do Supremo Gilmar Mendes.

1.500 números de telefone observados

No episódio desta sexta-feira de O Assunto, Daniela Lima e Natuza Nery informam que investigações apontam mais de 60 mil registros coletados pela ferramenta FirstMile, tecnologia de empresa israelense que monitorou irregularmente a localização de celulares. Esses registros são relativos a cerca de 1.500 números de telefone que teriam sido ilegalmente observados pela Abin.

Daniela Lima também relaciona o atual escândalo da Abin aos inquéritos das milícias digitais e do 8 de janeiro: “O uso de equipamento público para arapongagem se insere no contexto de ataque à democracia e às instituições”.

Daniela Lima fala sobre como Ramagem foi usado para defender os filhos de Bolsonaro.

FONTE:
G1
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

PAULO GUEDES NAZISTA * Alexandre Santos - PE

PAULO GUEDES NAZISTA
PAULO GUEDES NÃO É MENOS CULPADO DO QUE BOLSONARO
Alexandre Santos

Por mais que tente, o governo moribundo de Jair Bolsonaro não consegue esconder seus desmandos e irresponsabilidades da lupa usada pelo gabinete de transição, que vem recorrendo ao Tribunal de Contas da União (TCU) para buscar e checar as informações fornecidas pela administração federal. Foi graças ao gabinete de transição, por exemplo, que a sociedade brasileira tomou conhecimento do rombo orçamentário estratosférico de R$ 500 bilhões e a total desorientação que campeia o ministério da economia. 

Na realidade, os problemas do ministério da Economia transcendem o campo da economia e enveredam a seara criminal. De fato, entregue ao plenipotenciário Paulo Guedes (chamado pelo presidente Bolsonaro como ‘o Posto Ipiranga’, numa alusão a multifuncionalidade a ele atribuída) - em mistura de preguiça, incompetência, perversidade, má-fé e irresponsabilidade -, o ministério da economia tratou de levar adiante uma política ultraliberal, concentrando atenção no desmonte do aparelho de Estado e do patrimônio público nacional e deixando o Povo, especialmente, os pobres e miseráveis, ao Deus-dará. 

A incompetência e maldade são marcas da gestão Paulo Guedes. Da mesma forma que não se pode esquecer o episódio no qual, ainda em 2018 - surpreendentemente sem conhecer o mecanismo de aprovação do orçamento (que ocorre no ano anterior) -, alegando que “não tinha nada para conversar com o presidente do senado em fim de mandato”, o arrogante Paulo Guedes recusou convite de Eunício Oliveira para discutir as rubricas de interesse do governo eleito e só voltou atrás quando alguém o alertou sobre o processo legislativo, também não se pode esquecer a comemoração feita em reunião ocorrida no gabinete do ministro da Economia, ainda no começo de 2020, quando, pensando que o coronavírus só matava idosos, a pandemia foi festejada como ‘possível solução para o déficit da previdência’. 

Não sei qual acordo livrou Paulo Guedes da CPI do Genocídio, mas todos sabem da sua responsabilidade em grande parte das quase 700 mil mortes decorrentes da pandemia de coronavírus - as infecções mortais ocorreram não apenas por falta das vacinas salvadoras, mas, também, porque, por falta do apoio material negado por influência de Paulo Guedes, as pessoas precisaram permanecer nas ruas em busca do sustento, ficando expostas ao vírus assassino.

 Espero que, assim como Jair Bolsonaro, Paulo Guedes também seja levado aos tribunais para responder, não apenas pelos crimes lesa-pátria cometidos no âmbito do programa de desestatização, mas, também, pelas mortes ocorridas em decorrência da inexistência do auxílio necessário para as pessoas ficarem protegidas do coronavírus. Lugar de assassino é na cadeia.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

CENSO 2022 E OS POVOS ORIGINÁRIOS * TALITA BEDINELLI / SUMAUMA

CENSO 2022 E OS POVOS ORIGINÁRIOS
TALITA BEDINELLI / SUMAUMA

Exclusivo: governo
Bolsonaro pode
apagar milhares de
indígenas do
Censo 2022


IBGE não consegue helicópteros necessários para recensear parte das Terras Indígenas em 3 estados, entre elas a dos Yanomami, o que pode causar um apagão estatístico e dificultar políticas públicas consistentes nesta década inteira

Indígenas de 3 etnias correm o risco de serem apagados das estatísticas brasileiras no próximo Censo. Eles vivem em áreas só alcançadas por meio de helicóptero. Mas, às vésperas do encerramento da coleta de dados, as aeronaves necessárias ainda não foram contratadas, o que deve inviabilizar o trabalho dos recenseadores e prejudicar a compreensão exata de quantos indígenas vivem no país e quais as suas condições de saúde e nível de vulnerabilidade. É a violação mais recente contra os povos originários, negligenciados nos últimos 4 anos do governo Bolsonaro.

Um dos grupos atingidos é o dos Yanomami, povo cujo território (nos estados de Amazonas e Roraima) foi invadido pelo garimpo ilegal nos últimos anos. Isso levou ao aumento de doenças, da violência, da fome e, como consequência, da mortalidade. Há locais, inclusive, onde as equipes de saúde, que coletavam alguns dos dados estatísticos, foram expulsas pelos criminosos, conforme revelado por SUMAÚMA em setembro. Tanto as equipes médicas quanto as associações que trabalham na região afirmam que, por conta do cenário de violência, os números atuais já não correspondem ao cenário real. Se o Censo não for completado, o povo Yanomami sofrerá um segundo apagão estatístico. Na TI Yanomami vivem ainda os Ye’kwana, que também serão prejudicados. Outro território afetado é a Terra Indígena Wajãpi, no Amapá, área que também foi invadida por garimpeiros e caçadores ilegais. No total, a estimativa é que 15 mil indígenas deixem de ser contados, juntando as 3 etnias.

Sem os dados completos do Censo não será possível fazer uma comparação com as informações coletadas em 2010, ano das últimas estatísticas gerais do IBGE, e saber o que de fato aconteceu com essa população na última década e qual o exato impacto das atividades criminosas. Não se saberá quantos indivíduos morreram e nasceram, quantos deixaram as aldeias, o que se perdeu da riqueza cultural e se o mercúrio usado pelo garimpo e que polui os rios pode ter criado um problema de saúde pública. O questionário aplicado à população indígena tem 76 questões relacionadas a características dos domicílios, núcleo familiar, religião, deficiência, autismo, migração para estudo ou trabalho, educação, renda e mortalidade.

A falta de coleta dos dados é uma clara violação dos direitos dos povos indígenas, como reconheceu o próprio IBGE em documento a que SUMAÚMA teve acesso. “A omissão de coleta nessas localidades devido à inviabilidade de transporte implicaria em submeter os indígenas à invisibilidade estatística por mais uma década, uma vez que as áreas indígenas não compõem a amostra de pesquisas estatísticas contínuas [como a PNAD, por exemplo]”, afirmou o órgão em uma nota técnica conjunta da Diretoria de Pesquisas, Diretoria de Geociências e da Coordenação-Geral de Operações Censitárias, de 30 de novembro. “Isso implicaria em grandes obstáculos para a promoção dos direitos que compõem a espinha dorsal do Estado Social brasileiro e frustraria os objetivos constitucionais de desenvolvimento socioeconômico e de redução das desigualdades sociais”, continua o órgão. O Censo é a única pesquisa que fornece estatísticas oficiais sobre os povos indígenas brasileiros desde 1991. Segundo os dados de 2010, viviam no Brasil 896,9 mil indígenas de 305 etnias, que falam 274 idiomas diferentes.

O imbróglio na contratação dos helicópteros se arrasta desde o começo do ano. O IBGE afirma em documento ter tentado a ajuda da Fundação Nacional do Índio (Funai), da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que possuem contratos com empresas de táxi aéreo nessas regiões, e do Exército, que tem aeronaves e faz o patrulhamento das áreas na fronteira.

“O IBGE procurou esgotar todas as possibilidades para a obtenção de apoio logístico junto a outros órgãos que possuem a expertise necessária”, disse o órgão em um outro documento, este enviado à Advocacia-Geral da União (AGU), em que solicitava um parecer sobre a possibilidade de fazer uma contratação emergencial, ou seja, sem licitação, das horas-voo necessárias para complementar a coleta.

O pedido de ajuda ao Exército foi feito em maio de 2022, mas o apoio foi negado. No mesmo mês, o IBGE consultou a Sesai sobre a possibilidade de o órgão de saúde fornecer horas-voo para a realização do recenseamento, o que foi negado 2 meses depois, de forma “intempestiva”, segundo o documento do IBGE. Paralelamente, o órgão estatístico pediu, em junho, a mesma ajuda à Funai, que informou no mês seguinte que não tinha contrato vigente para fornecer todas as horas de voo de helicóptero necessárias, mas conseguiria ajudar com uma quantidade. Diante das negativas, o IBGE abriu um processo de contratação de táxi aéreo por meio da modalidade de compra direta, porque não haveria mais tempo hábil de fazer uma licitação, segundo justificou. Este processo tramitou entre setembro e novembro. Em 28 de novembro, a AGU deu parecer contrário.

A coleta do Censo 2022 começou em agosto e tem sua conclusão prevista para dezembro. No anterior, em 2010, o IBGE teve o apoio da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o que viabilizou acesso aéreo e apoio logístico na Terra Indígena Yanomami e na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, garantindo o recenseamento de um total de 43.722 pessoas nessas áreas. Para realizar o Censo nas áreas indígenas, o IBGE estimou a necessidade de cerca de mil horas de voo, distribuídas por 11 dos 34 DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas).

A maior parte desses locais é alcançada por aeronaves de asas fixas, como monomotores, em um total de 692 horas-voo, que foram fornecidas pela Funai. O restante precisava de aeronaves com asas rotativas, ou seja, que usam hélices, como os helicópteros, que não precisam necessariamente descer em uma pista de pouso – nem todas as aldeias as têm. Mas a Funai só conseguiu ceder uma parte dessas horas-voo, no território dos Kayapó, no Pará. E afirmou que não tinha contrato desse tipo nas áreas dos Yanomami e dos Wajãpi.

REUNIÃO NA ALDEIA DEMINI, TERRA INDÍGENA YANOMAMI, EM AGOSTO DESTE ANO

Na parte da TI Yanomami localizada no Amazonas, a maior parte do recenseamento foi feito por via fluvial e outra parte com as aeronaves de asas fixas. Com isso, 84,4% dos setores censitários já foram visitados. Os 15,6% dos setores em falta dependem de acesso aéreo com asas fixas (4 setores) e com asas rotativas (outros 4 setores). A parte da TI Yanomami que fica em Roraima tem menos áreas com acesso fluvial ou terrestre e apenas 32,8% dos setores foram finalizados. Dos 229 setores em falta, 175 dependem dos helicópteros, afirma a nota técnica do órgão.

Na TI Wajãpi, no Amapá, a coleta começou em comunidades com acesso terrestre e fluvial, alcançando, em 24 de outubro, 74% dos setores recenseados. A partir dessa data, as atividades foram interrompidas, à espera da disponibilidade dos helicópteros. Nessa TI foram recenseados 175 domicílios, com 1.165 pessoas (média de 6 moradores por domicílio). A estimativa do IBGE era chegar a 281 domicílios.

Além de serem uma importante radiografia da população brasileira, os dados do Censo servem de referência para o cálculo de estimativas populacionais ao longo da década seguinte, para a distribuição de recursos públicos do governo federal para Estados e municípios com base na contagem populacional, e, no caso dos indígenas, são a principal fonte de dados da Funai e da Sesai para planejar políticas públicas. As estatísticas são coletadas a cada 10 anos – isso deveria ter acontecido em 2020, mas atrasou 2 anos devido a problemas orçamentários, primeiro, e depois pela pandemia. “Caso o Censo Demográfico 2022 não garanta a cobertura de todas as Terras Indígenas e, dentro delas, de todas as aldeias ou comunidades (…) [haverá] impactos na execução e no monitoramento da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, da Política Nacional de Gestão de Terras Indígenas e da Política Nacional de Educação Escolar Indígena”, ressaltou o documento das diretorias do órgão.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o IBGE afirmou que ainda não estão esgotadas as possibilidades de parceria para conseguir as horas-voo necessárias para completar o recenseamento. Mas uma fonte que trabalha na coordenação do Censo afirmou à SUMAÚMA que, com o tempo restante, devido à complexidade operacional do trabalho em áreas remotas, dificilmente será possível incluir os dados que faltam nas estatísticas gerais sem que seja feita uma força-tarefa federal. A situação se complica com a desmobilização das equipes de trabalho em dezembro e com a falta de previsão orçamentária para as atividades em 2023. Questionados sobre os motivos da recusa de ajudar na realização do Censo, Exército e Sesai não responderam até a publicação desta reportagem.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

DOS GESTOS NAZI-FASCISTAS ÀS DESPÉROLAS TEATRAIS * Adão Alves dos Santos - SP

DOS GESTOS NAZI-FASCISTAS ÀS DESPÉROLAS TEATRAIS

 CRÔNICAS PARA DESEMBURRECER TOMO CMXXXII

PARTE 1 

Se é inegável, o surgimento de gestos nazi-fascistas nas atuais manifestações golpistas que pipocam pelo Brasil, os fatores históricos que marcam tal surgimento, e estes países tem importâncias referências  no povoamento tupiniquim.


Os povos originários foram primeiro vítimas da invasão portuguesa, sentia a "clava diabólica da santa inquisição". Quando falamos desta invasão portuguesa, falamos do fascismo português, que só foi superado pela revolução dos cravos no dia "25/04/74".


Ainda no séc XVII, a coroa portuguesa, num instante vacância, "ou de matrimônio", integrou o reino espanhol, aqui o fascismo chegou ao auge com o generalíssimo Franco. Neste país, assim como no Brasil, não houve ruptura, o fim da fascismo se deu com a morte do ditador, e a Espanha voltou a ser um reinado, não uma república, como até a primeira metade do séc XX.


A Itália, durante os tempos anteriores a unificação, forneceu grande parte dos imigrantes "brancos", que vieram para cá, substituir a mão de obra escravizada. Na Itália o fim do fascismo, foi em consequências da derrota na guerra.


A imigração alemã, ocupou os estados do Sul, "Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, estados onde o despresidente bozo, teve os maiores percentuais de voto.


O fato completamente alienígena nesta história é o comportamento teatral, já que a arte, sempre foi pobre de libertação, ver o potencial artístico reforçando manifestações golpistas, enfraquecem a força revolucionária da arte, para felicidade geral, eles são uma absoluta minoria.

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OS GESTOS NAZI-FASCISTAS NAS MANIFESTAÇÕES GOLPISTAS: PARTE 2 INDO UM POUCO ALÉM

CRÔNICAS PARA DESEMBURRECER TOMO CMXXXIV


PARTE 2


Se imaginarmos que as razões para o surgimento do nazi-fascismo, já é um pouco mais profundo, que só as consequências da primeira guerra, sua expansão pela Europa também. O fascismo surgiu na Itália, com Mussolini, país de unificação tardia, foi para Alemanha, igualmente igualmente unificado apenas no séc XIX, teve ascensão também na Espanha com "Franco" e em Portugal, "Salazar". Nestes dois últimos, potências nos séc XV e XVI, tinha suas pujanças econômicas fundamentadas no capital externo, em outras palavras, fora a nobreza comercial, não houve "lucros" com as atividades, nem mesmo para o Estado, que estruturou as atividades, não usufruiu, exatamente como acontece no capitalismo. O Estado banca, as elites mamam.


Não foi só nestes países, que a características religiosas sobressaem, a Europa, foi o centro do mundo até o surgimento da potência yanque, assim como a presença da religião e da igreja católica e total, chegando até ser o próprio Estado. Igreja forte Estado fraco. É justamente a necessidade de fazer forte o Estado, o fermento para o surgimento do nazi-fascismo, tem tem como característica principal o estado forte, sem partido o com partido único.


O nazi-fascismo surge com o Estado forte, ele precisa fortalecer a hipotética imagem do homem, (justamente do homem), nazi-fascismo, é um regime machista, xenófobo, sexista, racista homofóbico, com um exemplo de ser humano, se surgiu na Europa, além de homem, pelo machista, intolerante religioso.


O componente religioso é importante, já que historicamente a igreja impôs ao mundo a inquisição, onde perseguia os hereges.


Nos países como Itália e Alemanha, o inexsistente Estado precisou ser forte, para colocar este países no cenário europeu, que também era mundial.


Estes quatro países, tem em diferentes estágios, papel de relevância na colonização do Brasil e, é esta importância que discutiremos amanhã.


Adão Alves dos Santos - SP

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

O BOZO E OS ETS * Rodrigo Fontes - SP

O BOZO E OS ETS


Tem a história de uma mulher nos anos 70 que disse que os ETs iam enviar um dilúvio e destruir toda a humanidade, menos quem tivesse no quintal dela (que ganharia uma carona num disco voador top). No dia e na hora anunciados, a multidão que se convenceu da mensagem da mulher esperava debaixo do sol quente o dilúvio, que não veio. Quando ficou claro que não ia acontecer nada, e a multidão começou a ficar desconfortável e insegura, a mulher sai da casa finalmente. 

Ela olha para aquela multidão de otários no sol (que já estava pra se pôr) e diz, com um sorriso enorme e muita alegria:  "Os ETs disseram que graças a energia e fé de vocês que vieram pra cá, não vai mais ter dilúvio! Vocês salvaram o mundo, podem ir pra casa!". Depois de uns segundos de silêncio, a multidão irrompe em gritos de alegria: "Salvamos o mundo!"


O Custo afundado é quando você já colocou tanto investimento (emocional, físico, mental e até espiritual) em algo, que simplesmente não consegue aceitar o valor perdido e então dobra a aposta, mesmo contra toda a razão e lógica. É um processo irracional, e no fundo vem da dificuldade que o ser humano tem de reconhecer que errou e/ou que foi feito de otário.


É difícil demais aceitar que você se alimentou de fake news, aceitando uma ideologia insana e desconectada com a realidade, criando espantalhos e inimigos imaginários, ignorando e piorando os problemas reais em pról de mentiras e loucuras.


É difícil aceitar que você estava do lado errado, que se fosse um alemão você estaria do lado do bigodinho. É difícil perceber isso, mesmo fazendo o Seig Heil em protesto e pedindo por golpe militar e ditadura. É difícil perceber que você é o golpista, você é quem quer transformar o país numa Venezuela. É difícil, bizarro e revoltante - mas tá tudo bem. Não vai ter mamadeira de piroca, não vão fechar igreja, não vão proibir a bíblia e nem vai ter gente abortando a torto e direito. O brasil não vai virar comunista. 


A única coisa que vai acontecer é que o fascismo vai voltar pro bueiro, quando o bozo e sua trupe perderem o foro e começarem a ser investigados e as provas surgirem. Aí vocês vão perceber o que todo mundo já percebe. E aí, tomara, que sintam vergonha na cara e reconheçam os erros, ao invés de dobrar novamente a aposta e se tornar ainda mais alienado e irracional, vivendo no seu próprio mundo paralelo - onde apesar de não ter sinal nenhum de et e de dilúvio, prefere acreditar que salvou o mundo ao invés de cogitar que talvez só tenha perdido um tempo que nem otário se queimando no sol por acreditar numa mentira sem pé nem cabeça."


(Texto de Rodrigo Fontes)





sexta-feira, 28 de outubro de 2022

UM FASCISTA TUPINIQUIM * Pedro Cesar Batista - DF

UM FASCISTA TUPINIQUIM

*
EIS A GARRA DO MILITANTE

Mais um dia começaria. Ele tinha programado outro discurso, falaria com convicção, a mesma de sempre. Antes de chegar ao plenário, encontrou no Salão Verde a deputada Maria Rosário. Partiu para cima dela aos gritos:


- “Não te estupro porque você é feia, você não merece”. 


Muitas pessoas acompanharam a ofensa. Ele foi além, a empurrou, ameaçava estapeá-la. Continuou o seu caminho, seguiu sorrindo, como se nada tivesse acontecido.


- “Teria que ter matado 30 mil, mataram pouco”, costumava falara em coletivas de imprensa lembrando a ditadura militar de 1964. Abertamente defendia que deveriam ter matado mais, - mataram pouco, afirmava sempre. Seus filhos, desde criança foram educados com essa ideia, que era preciso matar quem fosse de esquerda.


Durante a campanha eleitoral para presidente do Brasil, em um comício no Estado do Acre, pegou um suporte de microfone, imitou uma metralhadora e falou ao microfone: “Vamos fuzilar a petralhada”. A sua assistência gritava como cães raivosos.


Na Tribuna, com muito orgulho, afirmou “fui o único deputado a votar contra os direitos das empregadas domésticas”, reafirmou o que tinha dito antes, que “não empregaria mulheres com o mesmo salário”, o homem deve ganhar, pois não engravida e não precisa se afastar do trabalho por não ficar gestante, merece um salário maior.


Veio a pandemia da Covid-19, governantes em todo o mundo, orientados por pesquisadores e a Organização Mundial da Saúde deram orientações para salvar vidas. No Brasil, milhares de pessoas morriam diariamente e ele repetia: “Não sou coveiro, todos vão morrer, só os mais fortes viverão”. Ao mesmo tempo, levantava em frente à sede da residência oficial, o Palácio da Alvorada, uma caixa de ivermectina, como um troféu. Seus seguidores, sem usar máscaras, nem fazer o distanciamento, gritavam ao vê-lo levantar o remédio para matar piolhos, incentivando todos a fazerem o “tratamento preventivo”. As Forças Armadas definiram um protocolo médico, orientou os militares a tomarem o mata piolho e a cloroquina. As mortes passavam de 4 mil por dia e ele negando a pandemia, afirmava que a vacina contra a covid-19 “faria a pessoa virar jacaré”, “ficar gay”, “causar aids”. “Só se eu compra vacina na casa de sua mãe”, respondia aos que pediam vacina. Enquanto isso, durante suas lives, imitava um doente sem ar: “cof, cof, cof”.  


Certa vez, ainda deputado, durante visita a um centro israelita, no Rio de Janeiro, contou uma visita que fez a um quilombo. A seleta plateia de judeus ricos escutou: “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Nem para procriador ele serve mais", mostrando seu desprezo pelo povo negro.


“Parabéns à polícia civil do Rio de Janeiro” disse, em nome da Presidência da República, em nota oficial, logo após uma incursão da policial civil carioca, acompanhada de policiais rodoviários federais à Favela do Jacarezinho, que deixou 28 pessoas mortas. Todos negros e pobres, fuzilados na cabeça.


Em rodas de admiradores dizia que se “o filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento”, informando como combatia a orientação sexual das pessoas LGBT. “Eu sou imbrochável”, bradou durante o ato em comemoração ao bicentenário da independência, na Esplanada dos Ministérios, na Capital Federal, sendo repetido em coro por uma multidão vestida com a camisa da seleção de futebol do Brasil: “imbrochável, imbrochável, imbrochável”.


Mais uma vez, disputava uma eleição, candidato à reeleição para a Presidência da República, “nunca teve um governo tão honesto como o meu”, afirmava, sem esquecer sua máxima “Eu sonego tudo que for possível”, falava sorrindo sobre o pagamento de impostos, ao mesmo tempo que tinha decretado sigilo de 100 anos sobre seus gastos no cartão coorporativo. Sem esquecer que certa vez, perguntado sobre por que pegava o auxílio moradia da Câmara dos Deputados se possuía residência em Brasília, respondeu: para comer gente”. Sempre se assumiu como desonesto, nunca escondeu. 


O que assustava quem ouvia estes discursos era que ele tinha muitos seguidores, os quais gritavam “mito, mito, mito”, por onde ele passava, depois de finalizar seu discurso com o bordão “Brasil acima de todos, Deus acima de tudo”, ao mesmo tempo que animava seus apoiadores a se armarem, “vamos armar todo mundo”, “as minorias terão que aceitar ou serão expulsas do Brasil”.


O imbrochável animava a massa ignara quando contava que “pintou um clima com umas 3 ou 4 meninas de 14 e 15 anos”. “Nossa bandeira nunca será vermelha”, destacava sempre que destruía algum patrimônio nacional. “Eu vim para destruir”, ele disse, assim que assumiu a presidência, durante ato em Washington, ao lado de Donald Trump e fora aplaudido.


Pedro César Batista.DF

domingo, 14 de agosto de 2022

A FOME COMO POLÍTICA DO CAPITAL * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

A FOME COMO POLÍTICA DO CAPITAL


Número equivale a 15,5% da população brasileira em situação de insegurança alimentar grave.


Divulgado nesta quarta-feira (8), o 2º VIGISAN – Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil revela que a quantidade de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, ou seja, passando fome, praticamente dobrou em menos de dois anos.

Esse contexto afeta diretamente 33,1 milhões de brasileiros, o equivalente a 15,5% da população, 14 milhões a mais de pessoas passando fome na comparação com o primeiro levantamento realizado em 2020.

Para o nutricionista e presidente do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN), Élido Bonomo, os dados apontam para um cenário de retrocesso. “Atingimos um nível muito próximo do observado na década de 1990. Vimos cenas horripilantes, como a ‘fila dos ossos’, algo inaceitável para um país como o Brasil, que já foi referência no combate à fome. Devemos voltar nossa atenção para o fortalecimento das políticas públicas, com ações efetivas que garantam a segurança alimentar e nutricional da população”, destacou.

O presidente do CFN reforça que, desde 2010, o Direito Humano à Alimentação Adequada está previsto na Constituição Federal, fruto da luta e articulação dos movimentos, redes e coletivos da sociedade civil organizada. “Precisamos unir todos os movimentos da sociedade civil em ações conjuntas. Neste sentido, os dados apresentados pela pesquisa são elementos que devem ser atentamente analisados. Servem como contribuição para quais ações e políticas precisamos executar”, declarou Élido.

O levantamento foi realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) entre novembro de 2021 e abril de 2022, passando por 12.745 domicílios de 577 municípios nos 26 estados e no Distrito Federal.


Piora do cenário

A pandemia de Covid-19 e a crise econômica são fatos associados diretamente ao avanço da fome observado nos últimos dois anos. O I VIGISAN, divulgado em abril de 2021, apontava 19 milhões de brasileiros passando fome. Também deve ser levado em consideração, o esvaziamento de políticas públicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Maiores impactados

Na distribuição geográfica da fome, o Norte e o Nordeste são as regiões mais impactadas (71,6% e 68% respectivamente). São indicadores maiores que a média nacional (58,7%), sendo realidade diária para 25,7% das famílias no Norte e 21% no Nordeste.

O campo também enfrenta a fome. Nas áreas rurais, a insegurança alimentar, em todos os níveis, atinge 60% das residências. Desse total, 18,6% das famílias vivem com insegurança alimentar grave. A fome atingiu 21,8% dos domicílios de agricultores familiares e pequenos produtores.

A fome também afeta diretamente 65% dos lares chefiados por pessoas pretas ou pardas, que convivem com restrição de alimentos. Na comparação com o I VIGISAN, de 2020, a fome passou de 10,4% para 18,1% nas casas comandadas por pretos ou pardos. O gênero também é um fator que contribui para este cenário. Nos lares chefiados por mulheres, a fome saltou de 11,2% para 19,3%.

Insegurança alimentar

Segundo a pesquisa, 125,2 milhões de pessoas convivem com algum grau de insegurança alimentar, algo que corresponde a 58,7% da população brasileira. Comparando com 2020, houve aumento de 7,2% e na análise com 2018, o avanço alcança 60%.

A insegurança alimentar é classificada em três níveis: leve, moderada e grave.

Leve – quando a família possui preocupação ou incerteza sobre o acesso aos alimentos no futuro, com qualidade inadequada, resultado de estratégias que visam não comprometer a quantidade de alimentos. Já atinge 28% da população.

Moderada – quando existe redução quantitativa de alimentos entre adultos ou mudança nos padrões alimentares por falta de alimentos. Já atinge 15,2% dos brasileiros.

Grave – quando existe redução quantitativa dos alimentos entre as crianças, com mudanças nos padrões alimentares por conta da falta de alimentos. Nesse contexto, a fome passa a ser uma realidade dentro do lar. Esse cenário já atinge 15,5% da população.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

INIMIGO PÚBLICO Nº1 DO BRASIL * Leonardo Boff / Jean Marc Von der Weid

INIMIGO PÚBLICO Nº1 DO BRASIL

"Publicamos este texto de Jean Marc von der Weid que se tem distinguido por suas análises profundas, bem pensadas sobre a situação brasileira e sobre as ameaças reais que pesam sobre o destino político de nosso país. O poder central no Brasil é ocupado por um dirigente energúmeno, cercado de assessores inescrupulosos, a maioria militares, que contra a constituição, se metem na política e estão dispostos a apoiar um grande caos social. Este daria ao Inominável que está levando o povo à fome e ao desespero a à esta porção de militares conservadores, reacionários, incultos e ainda reféns de fantasmas que estão apenas em suas cabeças como a ameaça comunista internacional travestida de globalização a uma interrupção de nossa democracia.

O fanatismo criado em seus seguidores, verdadeira seita violenta potencialmente sanguinária, poderá provocar assassinatos e atentados terroristas durante as eleições. Jean Marc nos alerta por esta eventualidade, até a suspensão das eleições e o prolongamento do atual poder já com conotações terroristas. Temos que estar atentos, participar das reações, tomar as ruas em protesto para bloquear este ato de insanidade política. Nunca como antes, o destino de nosso país está em nossas mãos, impedindo a dominação pelo ódio, pela violência (até armada) e pela destruição das bases de uma democracia minimamente representativa dos anseios das grandes maiorias por pão, casa, trabalho,justiça social e educação"

A opinião é de Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor, publicada no seu blog, 16-07-2022.

A seguir, o artigo de Jean Marc von der Weid.

Jean Marc von der Weid, foi presidente da UNE (69/71), fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (1983), ex-membro do CONDRAF/MDA (2004/2016) e militante da Geração 68 Sempre na Luta.

Eis o artigo.

Nos meus tempos de militante da Ação Popular, organização de esquerda que lutou contra a ditadura militar, discutíamos muito quem era o “inimigo principal”, conceito muito usado para orientar as estratégias e táticas a serem empregadas. Havia um debate, muitas vezes estéril, sobre o alvo maior a ser atacado, se os militares no poder ou seu mandante, o imperialismo americano.

Ao risco de cair na esterilidade que critiquei acima vou pôr em debate a aplicação do conceito no quadro político atual. Vamos ver se vai fazer sentido.

Intuitivamente, o alvo maior das forças progressistas atualmente é o energúmeno que preside o nosso triste Brasil, Bolsonaro. O inominável ameaça as eleições, quer pela derrama de dinheiro distribuído para ganhar apoio entre os mais pobres em uma situação de imensa miséria e fome no país, quer pela mais que evidente preparação de um golpe contra as próprias eleições. É a tática que descrevi em um artigo anterior como de “bola ou búlica”.

Analisando o quadro político desenhado nos últimos dias, em particular as votações do Congresso que permitiram a derrama de dinheiro para distribuição eleitoreira, temos que avaliar se a ameaça maior não está no presidente da Câmara, Artur Lira.

Está cada vez mais claro que Bolsonaro entendeu que precisa da colaboração do Congresso para suspender as eleições. Sua tentativa de setembro passado foi um fiasco tamanho que mostrou a fragilidade da sua base de fanáticos, de policiais militares e das próprias forças armadas para gerar o evento político e social de descontrole que justificasse um estado de exceção, com a suspensão da vida democrática. O presidente vem pelejando com sucesso para fortalecer esta base, envolvendo as FFAA no esforço de emparedar o TSE e o STF, trocando comandos para colocar generais mais bem dispostos em relação aos seus arreganhos liberticidas; ampliando a sua militância armada nos Clubes de Tiro; acirrando seus apaniguados nas polícias militares e excitando ao paroxismo seus fanáticos, o que está multiplicando atentados contra os eleitores de Lula e até chegando ao primeiro assassinato político destas eleições. Mas o perigo maior parece estar na facilidade com que Lira atropelou a Constituição, o regimento da Câmara e a legislação eleitoral.

Lira fez votar, até com um mais que suspeito apagão na energia da Câmara, o estado de emergência nacional. Estado de emergência? Ele não foi aventado na votação do Auxílio Brasil, meses atrás, para enfrentar a real emergência da fome que assola já 33 milhões de pessoas em todo o país, sem falar nas outras mais de 90 milhões em estado de insegurança alimentar em graus variados de gravidade. Pensando apenas nos efeitos eleitorais, Bolsonaro propôs e fez aprovar uma distribuição de recursos mal elaborada tanto nos valores como na definição dos beneficiários, resultando em poucos recursos para os mais pobres e acesso a outros menos mal aquinhoados. Quando viu que a derrama não estava dando certo do ponto de vista das intenções de voto, Bolsonaro aumentou a aposta visando aportar mais 200,00 reais para os já inscritos e acrescentando dois milhões de beneficiários.

Soma-se a esta derrama de dinheiro, supostamente para os mais pobres, uma série de outras medidas que arrombam totalmente a lei eleitoral, facilitando a distribuição de recursos do orçamento secreto sem qualquer controle para as bases do Centrão.

O resultado desta operação, que estoura completamente o erário e que prejudica todos os outros setores da administração ao longo deste ano, talvez não garanta a virada de votos que Bolsonaro necessita para ficar competitivo nas eleições de outubro. Entretanto, uma coisa é mais provável: os candidatos à reeleição vinculados ao Centrão vão ter um forte estímulo para garantir seus votos entre os mais pobres. Lira e seus apaniguados ganham, com ou sem a vitória de Bolsonaro. A perspectiva de ser eleito um Congresso ainda mais lamentável do que o atual vai ficando cada dia mais concreta.

Se a derrama de dinheiro não resultar em uma virada de expectativa de votos para Bolsonaro e/ou não garantir a reeleição da maioria fisiológica do Congresso, o que vão fazer Bolsonaro e Lira? Suponhamos que as pesquisas de opinião indiquem em setembro a perspectiva de derrota para estas forças da direita. A alternativa de suspender as eleições e prorrogar todos os mandatos passa a ser a solução.

Votar a derrama para fortalecer uma vitória eleitoral foi fácil para Lira, mas a suspensão das eleições é um passo muito mais grave a ser dado por esta corja. Como já disse em outros artigos, votar um estado de exceção a seco, sem uma situação de tumulto político e social generalizado é bem mais difícil, mas não impossível. Tudo depende da reação da sociedade ao quadro de descalabro que estamos vivendo.

Não acredito em uma reação espontânea da população desesperada pela pobreza e pela fome. Pensei que isto ia acontecer com o horror vivido pelo país durante a pandemia, com uma forte colaboração do governo para que este estado se instalasse. Mas as pessoas morreram sem ar e sem atendimento nas portas e corredores de hospitais repletos. O sofrimento atroz dos enfermos, contados aos milhões e com quase 700 mil mortos, não foi suficiente par promover reações populares. As pessoas sofreram e morreram e seus familiares choraram suas perdas ao som do riso escarninho do presidente. Seus fanáticos arrogantemente desprezaram as medidas de controle da pandemia, deixando de usar máscaras como forma de afirmação da sua adesão ao negacionismo de Bolsonaro e favorecendo a contaminação pelo vírus. O horror não foi suficiente para provocar reações de massa. Não houve manifestação por vacinas, sequer por oxigênio no caso de Manaus. Foi um extremo sofrimento vivido solitariamente por cada família afetada.

Pensei que a fome crescente em uma escalada que acrescenta milhões de novos sofredores mês a mês levaria a uma reação popular com saques a supermercados e feiras. Também nada ocorreu de relevante. Cenas de famintos precipitando-se para pegar restos de frigoríficos, pelanca e ossos, chocaram o país, mas não se multiplicaram. Bolsonaro mostrou-se frustrado com esta falta de reação, indicando que contava com o desespero do sofrimento para gerar o estado de instabilidade social e política que permitisse a adoção de medidas de força pelo executivo.

Este histórico aponta para a improbabilidade de uma convulsão social para a qual não faltam razões objetivas. Neste quadro, como Bolsonaro vai justificar o seu pedido de estado de exceção e a suspensão das eleições?

É aqui que entra em jogo a provocação do bolsonarismo. Uma campanha eivada de ódio, com milhares de extremistas fanáticos armados dispostos a tudo tem toda a possibilidade de gerar uma situação de confronto entre eleitores de Lula e os de Bolsonaro. Por enquanto o energúmeno está só criando o clima de provocações com resultados ainda pontuais embora dramáticos, como o assassinato do militante do PT, Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu. Mas não se pode descartar algo muito mais pesado, em particular atentados com tiros e bombas nos comícios de Lula e dos candidatos progressistas. Isto é muito fácil de fazer. Basta Bolsonaro e/ou seus filhotes darem o sinal para os grupos organizados da extrema direita atacarem.

Outro cenário de enorme perigo é a mobilização destes mesmos grupos para atacarem os comícios da oposição com agressões e pancadaria, com ou sem tiros e bombas. A reação dos apoiadores de Lula levaria à uma intervenção das polícias militares, fiéis bolsonaristas em grande parte, sentando o cacete na massa de oposição. Quanto mais pancadaria, quanto mais gás lacrimogênio, feridos e mortos, melhor para a criação do “clima de instabilidade política”. Este desenho de provocações está mais do que inscrito na estratégia de Bolsonaro e deve ir se aguçando até setembro, sendo que o dia sete está anunciado como o momento do grande confronto. Isto pode ser evitado, neste dia, se a oposição decidir não se manifestar na ocasião e deixar para outro dia seus atos de massa, que não deixarão de acontecer, nem que seja no encerramento da campanha. Mas, se for interessante para Bolsonaro, o confronto existirá, seja qual for o momento escolhido pela oposição para se manifestar.

Ou seja, estamos diante de um processo eleitoral explosivo e cheio de riscos, exacerbado pelo discurso de ódio e pelas provocações dos grupos organizados do bolsonarismo. Sempre com a tática do “bola ou búlica”, se Bolsonaro não conseguir reagir nas pesquisas de opinião ele vai acionar suas “tropas” para culminar a campanha com uma superprovocação às manifestações da oposição. Com um quadro de violência generalizada ele vai pedir ao Lira para votar um estado de exceção e suspender as eleições. Lira sabe que, mesmo se tiver uma base ampliada do Centrão no Congresso, um governo Lula não vai facilitar a sua vida. Com Bolsonaro ele sabe que o estado atual das relações com o executivo vai se prolongar e a dependência do energúmeno em relação ao seu aliado parlamentar vai, se possível, aumentar. É claro que o risco existe, para Lira, do energúmeno achar que o estado exceção poderá dispensar este apoio do Congresso. Se for o caso, Bolsonaro vai ter que dar mais um passo na direção do golpe explícito, para dominar o legislativo como os generais da ditadura o fizeram ao longo de 21 anos.

E o que fazer para enfrentar estes riscos enormes? Defendo que os candidatos contra Bolsonaro busquem um acordo republicano pela defesa das eleições, do TSE, das urnas eletrônicas e da posse dos eleitos. E que se busque um acordo de todos os partidos não bolsonaristas no Congresso afirmando o mesmo princípio. E que partidos e sociedade civil se organizem e se manifestem da mais ampla forma contra a violência nas eleições e pelo respeito às urnas e seus resultados. Entidades de todas as classes devem ser convocadas a se manifestarem neste sentido, cobrando, sobretudo das patronais, uma posição pela democracia.

Fica a questão de a oposição ir ou não ir às ruas durante a campanha. Uma tática mais defensiva, evitando dar ocasião para as provocações do bolsonarismo, parece a mais prudente e razoável. Entretanto, ceder as ruas para as manifestações de Bolsonaro vai acuar a oposição na campanha e não garante evitar os confrontos. Não podemos excluir uma operação terrorista do bolsonarismo no próprio dia da eleição, com sabotagem da rede elétrica (seguindo o modelito de Lira na votação da PEC) nos locais onde haja uma clara probabilidade de uma votação forte para Lula. Ou com atentados a bomba nestes mesmos locais. Ou agressões a eleitores lulistas por bandos de provocadores com o beneplácito das polícias militares. Multiplique isto por todo o país e teremos o pretexto para o estado de exceção. A sabotagem dos TREs e do TSE no dia da eleição teria o mesmo efeito.

Por todos estes argumentos continuo achando que teremos que correr o risco dos enfrentamentos de rua, em paralelo com a campanha pela paz nas eleições e esperar que esta combinação empurre o eleitorado contra o energúmeno e a derrota seja de tal ordem que iniba o Congresso a aceitar melar o jogo.