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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Foster Dulles, a mídia e a invasão da Guatemala * Leonardo Wexell Severo/CUT

Foster Dulles, a mídia e a invasão da Guatemala
 Leonardo Wexell Severo


Uma reflexão sobre a guerra de extermínio movida pelos EUA, sua mídia e demais eunucos contra o governo anti-imperialista de Jacobo Arbenz
Publicado: 16 Setembro, 2013

“A experiência da Guatemala constitui um verdadeiro arsenal de exemplos de luta anti-imperialista para os nacionalistas de todo o mundo”

Osny Duarte Pereira

Um dos principais acionistas da United Fruit, John Foster Dulles era também – ou por isso mesmo - o secretário de Estado do governo norte-americano no início dos anos 50 quando o presidente da Guatemala, Jacobo Árbenz, decidiu via reforma agrária levar a justiça ao campo e à cidade.

Livro disseca a armação imperialista contra a soberania e o desenvolvimento da Guatemala


O pequeno país centro-americano foi atacado para defender o interesse do secretário de Estado, que acusava o berço da civilização maia de ser uma “ameaça à paz e à segurança do Hemisfério. Da mesma forma que na guerra do Iraque foram injetados montanhas de bilhões de dólares na empresa do então vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, o principal beneficiado pela invasão. Nas duas sangrentas agressões à soberania nacional e aos direitos de todo um povo, os meios de comunicação atuaram como correia de transmissão política e ideológica do imperialismo. O livro de Plínio de Abreu Ramos, “Foster Dulles e a invasão da Guatemala” (Editora Fulgor, 1958) fala sobre a primeira intervenção ianque no continente após a guerra fria.

No prefácio, o professor e jurista Osny Duarte Pereira dá o seu testemunho sobre o que moveu a ira da United Fruit e sua “guerra de extermínio contra um governo”. “Lembro-me nitidamente e jamais me sairá da memória a comoção que me causou, uma fila de lavradores nos guichês da Repartição da Reforma Agrária, recebendo as escrituras de seus terrenos. Homens do campo, condenados perpetuamente à condição de peões, subitamente levados à condição de proprietários das terras, nas quais eram trabalhadores assalariados. Era necessário assistir à cena das fisionomias daquela gente humilde, segurando os documentos com as duas mãos, olhos arregalados, um sorriso largo e, em seguida, abraçaram-se efusivos, despedindo-se da odiosa situação de antigos servos da gleba que eram antes. Parecia uma cena de distribuição de diplomas em festa de formatura, embora se realizasse, como um ato de rotina da repartição governamental, em hora normal de expediente normal, sem discursos, nem aglomerações”.

Como também recorda o chefe da Casa Civil do presidente Getúlio Vargas, Lourival Fontes, logo na abertura do mesmo livro, “A história da América a partir dos tempos coloniais até os dias mais recentes da sua vida independente não se dissocia em nenhum momento do sistema econômico-internacional e das suas práticas de exploração. A transição do período colonial para o autonomismo marcou a passagem das maldições do monopólio para as penalidades das concessões, dos privilégios e do penhor estrangeiros”. Quando pensamos nas concessões de portos, aeroportos e rodovias, e muito mais grave, no leilão do campo de Libra, no pré-sal, temos a exata dimensão do alerta.

NACIONALIZAÇÃO DE TERRAS

O decreto de 7 de junho de 1953, que marcou o começo da reforma agrária na Guatemala, interrompida um ano depois pela invasão do país, previa a expropriação de menos de 10% das áreas - entre cultivadas e incultas - de propriedade da United Fruit. Poucas semanas depois, em 26 de junho, a República da Guatemala, por intermédio de seu embaixador em Washington, Guilhermo Garrido Torrielo, comunicou ao Departamento de Estado a nacionalização de 233.973 acres de terra de propriedade da Frutera.

O momento era de extrema tensão, lembra o então diretor do Diário de Notícias do Rio de Janeiro, João Portela Ribeiro Dantas, “com a América Central totalmente abalada pelos interesses da companhia norte-americana United Fruit, empresa a que pertencem suas rodovias, suas ferrovias, seus portos e seus navios”. Na verdade, o reinado estabelecido pelo cartel nos países do Caribe “antecede à investida dos trustes petrolíferos ingleses e americanos nas regiões produtoras da Venezuela e do México”.

Dando continuidade às transformações iniciadas pelo presidente Juan José Arévalo (1945-1950), Árbenz vê a necessidade da ruptura com a lógica semicolonial. “Três companhias estrangeiras – United Fruit Company, International Railway of Central America e a Companhia Agrícola de Guatemala – dominavam 75% da superfície agrícola do país e o total de suas linhas de comunicação terrestre e navegação marítima. 80% de sua população camponesa era empregada nas plantações de bananas exploradas pela Frutera. A Guatemala exportava para os Estados Unidos 76% de sua produção e importava, daquele país, 64% dos produtos consumidos no seu mercado interno”. O mesmo torniquete que o Tratado de Livre Comércio (TLC) EUA-Guatemala, assinado em anos recentes, visa perpetuar.

Baseado na Lei de Reforma Agrária e “de acordo com a resolução da ONU que reconhece a todas as nações o direito de nacionalizar seus recursos naturais”, o presidente guatemalteco anunciou a indenização da Frutera sob forma de pagamento em títulos, num prazo de 25 anos a partir da data da expropriação, “ao valor que a companhia havia declarado para fins de tributação”.

SONEGAÇÃO MONUMENTAL

“A United Fruit pagava ao governo da Guatemala 0,15 cêntimos de dólar por cacho de banana exportado, sem possibilidade de fiscalização aduaneira dessa operação, uma vez que o transporte para a zona de embarque e o carregamento do produto eram efetuados em ferrovias da companhia, embarcados em instalações portuárias controladas pela companhia e transportados para o exterior em navios da própria companhia. Dentro desse privilégio invulnerável de açambarcamento, a adulteração dos dados anuais da colheita da banana, fornecidos ao governo para efeito do imposto taxado por unidade-cacho, subia a mais de 120% sobre o total da produção anual. O Fundo Monetário Internacional documentou em seu relatório correspondente ao ano de 1946 que a declaração do montante da exportação da Frutera comunicada ao governo da Guatemala, naquele período, fora de oito milhões de dólares, quando a exportação avançava à cifra dos dezenove milhões”, apontou Plínio de Abreu Ramos. No ano seguinte, ainda de conformidade com estudos do FMI, “a empresa confessou uma exportação de onze milhões e meio, havendo exportado, de fato, trinta milhões oitocentos mil dólares”. Para ter uma ideia da sonegação, vale lembrar que naquele tempo uma residência na capital guatemalteca custava três mil dólares.

“As primeiras aquisições de propriedades agrárias alcançadas pela United Fruit na Guatemala remontam os tempos da ditadura de Cabrera, no período de 1901 a 1904, ampliadas mais tarde através de contratos assinados durante o efêmero governo de Orellana nos anos de 1923 e 1924. Em 1930, dominado o país pelo caudilho Lázaro Chacón, a companhia estende suas concessões sobre o litoral atlântico, criando em suas ferrovias uma tabela de frete sobre os transportes de produtos nacionais, cuja exportação se processava através desses portos localizados na orla do Pacífico. O resultado dessa ofensiva em direção à costa oriental do país foi, não só a expulsão de proprietários e camponeses das terras que cultivavam na região, mas de um modo especial veio onerar a produção nacional reduzida em face do monopólio, pela Frutera, da rede rodoviária do país. Alguns municípios da zona atlântica para resguardar os interesses dos proprietários nacionais lesados pela companhia, tentaram recurso à justiça, mas o ditador Ubico, apoiado no Exército subornado pelo truste, confirmou a posse da Frutera sobre as terras contestadas”.

“VENCER O VERMELHISMO”

Para garantir o êxito da ação, era necessário invisibilizar os inúmeros avanços obtidos pelos governos nacionalistas de Arévalo e Arbenz, que herdaram o caos do ditador Jorge Ubico (1931-1944), vassalo dos EUA. “As novas rodovias e ferrovias, as centrais elétricas, a reforma agrária, as escolas abertas por toda a parte, ofereciam um espetáculo naquela América Central que dera a sensação, confrontando com os países vizinhos, de estar fora do continente”, relata Osny Duarte Pereira.

Neste momento é que entraram em cena para “vencer as forças do vermelhismo” as agências internacionais de notícias, particularmente a United Press. A empreitada desinformativa visava também cimentar o envolvimento dos “três reis caribenhos contra a Guatemala infiel, altiva e soberana”: “Don Tacho Somoza, da Nicarágua; Don Rafael Trujilo, de São Domingos e Don Perez Jimenez, da Venezuela, cumprindo o pregão da guerra santa exarado”.

Em comunicado oficial à imprensa mundial, o presidente Jacobo Árbenz exibiu mais de duzentas cópias de documentos apreendidos pelas autoridades guatemaltecas implicando Somoza, Trujillo e Jimenez na ação golpista comandada pelo coronel Castillo Armas, mercenário a serviço da CIA, exilado em Honduras. Segundo o comunicado, os conspiradores “estavam adquirindo aviões e bombas Napalm através da firma nicaraguense A.Somoza & CIA, em que Don Tacho e seu filho Somoza Debayle, atual ditador, eram sócios no comércio do contrabando de armas de guerra desembarcados clandestinamente nas costas do Atlântico para municiar as hordas mercenárias”. O governo alertou que numerosos bandos de ‘sabotadores, assassinos e soldados’ estavam sendo adestrados na ilha nicaraguense de Momotombito e na província de Tamarindo, esta última “feudo rural” da família Somoza.

A denúncia do presidente Árbenz ainda descrevia como foi planejado o desembarque nas costas do Pacífico “com tropas trazidas de portos nicaraguenses em barcaças acondicionadas”, o “apoio aéreo mediante bombardeio das povoações e aterragem em aeroportos particulares do Pacífico”, os “ataques simultâneos pela fronteira de Honduras”, e toda a sequência de ações dos mercenários



“Os despachos telegráficos da United Press e dos porta-vozes do Departamento de Estado, publicados nos jornais de 19 de junho anunciando a invasão da Guatemala, mostram que os chefes militares invasores não tiveram o cuidado de retificar o plano de ataque denunciado pelo governo de Jacobo Árbenz. O governo revidou esse agravo, providenciando a expulsão do país dos jornalistas americanos Sidney Gruson e Marshall Bannel, correspondentes respectivamente do ‘New York Times’ e da ‘National Broadcasting Company’, como sendo agentes mais ativos na campanha de desprestígio que, em forma maliciosa e crescente, desenvolvem certos órgãos de informação contra a Guatemala”, relata o livro.

“Irritada” com a expulsão dos dois espiões, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes “sugeriu” ao Departamento de Estado sanções econômicas à nação maia, suspendendo as compras do café daquele país. Na imprensa brasileira, o “entusiasmo” previsto pela United Press foi recebido com indescritível euforia nas manchetes do “O Globo” e dos “Diários Associados”. A “Tribuna da Imprensa” do Rio de Janeiro foi além na submissão: “Agora, sirvam-se chamar-nos de vendido ao estrangeiro. Isso não nos assusta nem nos desvia do caminho que temos a percorrer”.

NOTÍCIA DEFORMADA E CALUNIOSA

“O maior perigo” – advertiu o embaixador da Guatemala em Washington, Guilhermo Garrido Toriello – “é que estão procurando apoio coletivo da América para violar impunemente o princípio de não intervenção, porém nos recusamos a crer que estão querendo voltar às velhas práticas de antanho, em que os velhos monopólios influíam predominantemente na política de alguns países, por meio do temor ao grande porrete e da vergonhosa diplomacia do dólar, em que era coisa natural que a infantaria da Marinha dos Estados Unidos desembarcava em portos latino-americanos para dominar as alfândegas, a fim de ‘proteger interesses’ ou para ‘corrigir atividades políticas’ que não agradavam àqueles interesses”. “Tudo isso se está fazendo na Guatemala, porém não o sabem os povos da América. A notícia que lhes chega pelas agências noticiosas, que servem à causa dos monopólios, é uma notícia deformada e sempre caluniosa”, advertiu o chanceler, frisando que tal ação midiática se prestava à “subserviência mental”.

Para justificar a remessa de armamento norte-americano para Honduras, onde seriam entregues aos mercenários de Castillo Armas, os “eunucos de maior pedigree” passaram a propagar a versão de que o governo da Guatemala vinha adquirindo armas de guerra na União Soviética e na Polônia. Dando continuidade ao script, já na semana seguinte, a United Press divulgava um despacho, segundo o qual “as autoridades de Honduras descobriram vestígios de participação de elementos do governo guatemalteco na greve que estourara na véspera nos plantios de bananas da Frutera ao norte daquele país”. E na mesma toada utilizada hoje contra o presidente Assad e o povo da Síria, provocavam uma verdadeira avalanche desinformativa, buscando criar o caldo de cultura necessário à intervenção, com aviões norte-americanos lançando “armamento cunhado com a foice e o martelo” sobre a zona rural confiscada. O governo guatemalteco denunciou a armação. Mas ninguém repercutiu.

“ESPADAS DE MADEIRA”

Esclarecendo o caso da compra das “armas pesadas de guerra” – que infelizmente para a manutenção da soberania e da democracia também não era verdade - o governo suíço informou que “a carga enviada à Guatemala, orçada em 40 mil dólares, equivalentes a 134 mil francos suíços, constava apenas de 16 caixas de cartuchos para treinamento de defesa anti-aérea”. E assinalava a “impropriedade” de qualificar como “arma”, a “cartuchos que não podem ser mais úteis em guerra do que espadas de madeira”. Apesar deste esclarecimento oficial da própria fonte fornecedora, “a mentira nutrida pela corrupção do truste insistia, resoluta e audaciosa, em atribuir a origem da compra dos cartuchos à Polônia e à União Soviética”. Jogando verde, a mídia venal prospectava para os invasores as vulnerabilidades da resistência guatemalteca.

No Brasil, se prestando à genuflexão ianque, a Tribuna da Imprensa publicou em 24 de junho de 1954: “O navio sueco ‘Alfhelm’, depois de viagem misteriosa cheia de vaivens, desembarcou clandestinamente, mas sob as vistas diretas do governo, duas mil toneladas, em 25 mil caixas de armamento tcheco controlado pela Rússia, vindas do porto polonês do Sttettin, no Báltico. Interpelado, o governo guatemalteco declarou que desde 1949 os Estados Unidos, sob alegação de que não tinham confiança no destino que ia ser dado ao armamento, deixaram de vender ou ceder armas à Guatemala. Por isto, disse, recorreu a fontes russas, mas era um único e pequeno carregamento, garantiu Toriello, em nome do governo”.

Intencionalmente, inventaram dados, deturparam a fonte e a quantidade das armas encomendadas, “além de responsabilizarem Toriello por explicações que ele não deu, não podia dar nem tinha que dar”. As equipes sabotadoras, que agiam com impressionante e inexplicável desembaraço, “eram chefiadas dentro da própria Guatemala por um sacerdote francês expulso do país e acolhido no Rio de Janeiro pelas autoridades brasileiras, onde passou a conceder entrevistas difamatórias contra aquela República nas colunas do O Globo e da Tribuna da Imprensa”. “No terreno da espionagem, o governo não ignorava que nesse ofício criminoso exercitavam-se, abertamente, a imprensa colaboracionista da Frutera, ‘El Imparcial’, ‘El Espectador’, ‘El Mundo Libre’, certas facções do clero filiadas à Acción Social Cristiana”.

Antes de ordenar que suas tropas contra-atacassem o inimigo, que já ocupara uma faixa territorial de 15 quilômetros além da fronteira nicaraguense, o governo Árbenz recorreu ao Conselho de Segurança da ONU, com Toriello informando a presença de forças militares estrangeiras no Departamento de Chiquimula e o bombardeio de suas cidades por “aviões de construção norte-americana P-47”, oriundos de bases instaladas em Nicarágua e Honduras, “uma vez que os mercenários não possuíam nenhum aeródromo ou base militar no país”. O chanceler guatemalteco esclareceu ainda que na noite do dia 20 o navio hondurenho “Siesta de Trujillo” foi apreendido em Puerto Barrios quando descarregava metralhadoras, fuzis e granadas para abastecer os mercenários, “enquanto novos aviões bombardeavam Zacapa, York e Cristina e pontes ferroviárias que ligavam à fronteira de Honduras à capital da Guatemala”.

“PROPAGANDA POLÍTICA”

A United Press ainda aproveitou o fato de ter sido o soviético Viatcheslav Molotov o primeiro chanceler a responder à exortação de Toriello. No dia 27, em artigo publicado no Diário de Notícias do Rio de Janeiro, Rafael Correa de Oliveira denuncia os propósitos da desinformação veiculada pelas agências de notícias, restabelecendo a versão exata das notas diplomáticas trocadas entre chancheleres da Guatemala e da União Soviética. Com esse espírito, esclarece o articulista, “tenha o leitor muito cuidado com o noticiário das agências telegráficas”. “Anteontem, por exemplo, tentaram impingir aos jornais um comunicado sobre as viagens de cruzadores russos que viriam trazer uma especializada missão militar para defender a Guatemala. Era mentira. Ontem publicaram um apelo da Guatemala a Molotov. Também mentiram. Trata-se do telegrama-circular enviado a todos os membros do Conselho de Segurança – o Brasil e a Rússia incluídos. O noticiário tendencioso individualizou o apelo para assim melhor cumprir as instruções da propaganda política da guerra da banana”.

No setor de Zacapa, denunciava o governo guatemalteco, “era considerável o número de civis mortos em consequência do metralhamento da população por aviões P-47, marca Thunderbolt, de fabricação norte-americana, que só poderiam proceder de Manágua ou de Tegucigalpa, cujos aeroportos, de Las Mercedes e Toncintis, respectivamente, eram os únicos na América Central que possuíam pistas de pouso para aparelhos daquele tipo”.

No dia 28 de junho, “com a Guatemala sangrando nos campos de batalha e traída pela covardia remunerada da diplomacia norte-americana”, Arbenz renuncia. As ações da Frutera sobem dois pontos na Bolsa de Valores de Nova York.

“A corrupção imperialista na Guatemala, como não podia deixar de acontecer, causou efeitos imediatos de fome, terrorismo e ditadura logo nos primeiros meses da subida de Castillo Armas ao poder”. Apenas nos campos de concentração de Poptum, no Departamento de Peten, havia cerca de 6.500 prisioneiros. Os assassinatos políticos respondiam à “orientação” por uma “justiça severa, rápida e eficaz”. “Uma das primeiras vítimas dos assassinatos judiciários ordenados pela ditadura, depois dos massacres de Vila Nueva, Amatitlan e Antigua, em que foram metralhados quase todos os líderes sindicais dos trabalhadores da Frutera, foi o deputado Alarico Bennet, executado a mando de Rozendo Perez, facínora e bandoleiro fugitivo da justiça guatemalteca, que alugara seus serviços às quadrilhas mercenárias de Castillo Armas”.

CORRUPÇÃO NORTE-AMERICANA

O “nível de decomposição generalizada que a corrupção norte-americana provocou na atmosfera de venalidade que rodeia o país” logo ficou evidenciado. Tamanhas foram a “indecência e a infâmia” das “cláusulas” enviadas pelo ditador à Assembleia Constituinte, “eleita” depois da invasão sem a participação dos partidos aliados de Árbenz, postos na ilegalidade, que o deputado Clemente Rojas - diretor do jornal bananeiro “La Hora”, que participou de toda a violenta campanha movida contra o governo nacionalista - chegou a declarar que se retirava “enojado desta assembleia” e “deste Congresso corrompido”. “Igual desprezo pela ditadura mercenária manifestou outro antigo prócer bananeiro, senhor Alfonso Carrillo, quando expressou em seu discurso: “Sinto-me como se formássemos parte dos Estados Unidos. A tradução macarrônica desses contratos é, obviamente, o resultado da tradução do inglês para o castelhano”.

“Como nos tempos antigos aparecem, de novo, na Guatemala, os descalços e andrajosos que enchem especialmente as ruas da capital”, descreve Carleton Beals, no “The Progressive”. E prossegue: “grande percentagem de desempregados são trabalhadores despedidos das obras e dos projetos de casa popular, assim como também camponeses despojados de suas terras. Cerca de um milhão de acres lhes haviam sido entregues pelo governo de Arbenz, parcelas de terras devolutas que os camponeses com seus próprios recursos haviam preparado para a semeadura. O desemprego geral e a destruição dos Sindicatos acarretou uma baixa de salários de aproximadamente um dólar - que ganhavam na época democrática - até o salário de quinze centavos, que era o nível corrente sob a ditadura de Ubico. Em alguns lugares os salários do campo foram rebaixados em 50% ou mais. Ao mesmo tempo, a inflação e a escassez de alimentos elevou até o céu o custo de vida”.

Em meio a este cenário de devastação e degeneração, Ramon Blanco, sócio do jornal golpista “El Imparcial”, colunista da “Tribuna da Imprensa”, escreve em 24 de setembro de 1954 que “há muita gente que tem estranhado muitíssimo que não se organizasse, até agora, uma homenagem pública ao embaixador dos Estados Unidos da América, senhor John Peurifoy, como demonstração de agradecimento e carinho por sua magnífica atuação e colaboração para vencer a administração que acaba de ser derrotada”.

A “deificação lisonjeira” expressa pelo escriba pró-imperialista, conclui Plínio de Abreu Ramos, “vai ao cúmulo de louvor ao espião alegre e libertino com a mesma solicitude do serviçal Lebel que, ao beijar os calções rendados de Luiz XV, exclamava enternecido: “Senhor, podeis contar com a minha canalhice!”

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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

DOSSIÊ USAID * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

O QUE É USAID
*O QUE É A USAID, UM INSTRUMENTO DOS EUA PARA FINANCIAMENTO DE GOLPES DE ESTADO*
*Publicado RT Espanhol: 4 de fev de 2025 15:00 GMT*

*A equipe de Donald Trump suspendeu o financiamento de projetos da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, que vem sendo acusada há anos de realizar atividades subversivas em vários países.*

▪️O que é a USAID?
▪️Histórico da criação da agência
▪️O que a USAID faz?
▪️Atividades na América Latina
▪️Críticas da equipe de Trump
▪️Início da reforma da USAID

*O que é a USAID?*

A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) tem sido há muito tempo um instrumento essencial da política externa americana.

De acordo com o site oficial do governo dos EUA, é a principal agência "para estender assistência a países que se recuperam de desastres, buscam escapar da pobreza e empreendem reformas democráticas".

*Histórico da criação da agência*

A USAID foi criada em 1961, no meio da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Como observa a AP, o ex-presidente dos EUA John Kennedy queria uma maneira mais eficiente de combater a influência soviética no exterior por meio de ajuda externa e considerou o Departamento de Estado "frustrantemente burocrático" ao fazê-lo.

*O que a USAID faz?*

A agência emprega mais de 10.000 pessoas, das quais aproximadamente dois terços trabalham no exterior. A USAID continua sendo a maior doadora mundial de ajuda humanitária, fornecendo 42% de toda a ajuda humanitária registrada pelas Nações Unidas em 2024. A agência destinou mais de US$ 40 bilhões em assistência financeira a 130 países no ano fiscal de 2023.

Apesar de seus objetivos humanitários declarados, a agência é regularmente criticada por governos estrangeiros, que a veem como uma ferramenta de influência dos EUA para interferir nos assuntos internos de suas nações.

*Atividades na América Latina*

A América Latina tem sido historicamente uma das regiões nas quais a USAID desenvolveu suas atividades. Além da estreita cooperação entre a USAID e o FBI na segunda metade do século XX, a agência de desenvolvimento também foi acusada de interferir nos assuntos soberanos de países da região mais recentemente.

*Venezuela*

A USAID intensificou seu trabalho na Venezuela antes e imediatamente após o golpe de 11 de abril de 2002 contra o presidente Hugo Chávez, que retomou o poder dois dias depois. A entidade foi acusada de apoiar a oposição e participar da tentativa de mudança de poder. Em 2006, foi revelado que o Escritório de Iniciativas de Transição da USAID supervisionou mais de US$ 26 milhões em doações para vários grupos na Venezuela desde 2002.

Um dos telegramas da agência vazados pelo WikiLeaks explicou a estratégia dos EUA na Venezuela entre 2004 e 2006, que incluía as seguintes disposições: "1) fortalecer as instituições democráticas, 2) penetrar na base política de Chávez, 3) dividir o chavismo, 4) proteger negócios vitais dos EUA e 5) isolar Chávez internacionalmente".

*Bolívia*

Em 2013, o então presidente boliviano Evo Morales expulsou a USAID do país, acusando-a de conspiração e interferência em assuntos políticos internos.

Durante o mandato de *Evo Morales,* a agência foi acusada pelo Governo de participar ativamente de planos violentos de desestabilização, separatismo e intervenção em processos eleitorais na Bolívia.

*Cuba*

A USAID estava por trás da criação do chamado "Twitter cubano", uma rede social cujo objetivo real era mudar o poder em Cuba, conforme revelado pela AP em 2014. O plano da agência era criar uma audiência para o projeto ZunZuneo, atraindo principalmente usuários jovens, e então incentivar a organização de manifestações políticas.

O financiamento da plataforma foi canalizado por meio de empresas criadas na Espanha e nas Ilhas Cayman para ocultar a origem do dinheiro. O ZunZuneo operou por vários anos e deixou de existir em 2012, quando o financiamento governamental cessou.

O então administrador da USAID, Rajiv Shah, descartou a ideia de que se tratava de um programa secreto, embora admitisse que "algumas partes dele foram feitas discretamente". A agência disse na época que estava "orgulhosa de seu trabalho em Cuba para fornecer assistência humanitária básica, promover direitos humanos e liberdades fundamentais e ajudar a informação a fluir mais livremente para o povo cubano".

*México*

Em um dos exemplos mais recentes de atividade subversiva da USAID, o governo mexicano revelou em agosto de 2024 que, durante o mandato de *Andrés Manuel López Obrador,* a agência financiou a organização de oposição Mexicanos Contra a Corrupção e a Impunidade (MCCI) com 96,7 milhões de pesos (mais de 5 milhões de dólares).

*Críticas da equipe de Trump*

Desde que assumiu o cargo, o presidente dos EUA, Donald Trump, e sua equipe têm feito uma torrente de críticas contra a agência, que ele disse ser "administrada por um bando de lunáticos radicais".

*Elon Musk,* chefe do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), acusou a USAID de financiar pesquisas sobre armas biológicas, incluindo um laboratório ligado à disseminação da Covid-19, e de pagar "meios de comunicação para publicar sua propaganda".

Revelando as despesas mais "ridículas" da agência, o governo Trump revelou que os fundos foram alocados para alimentação de "combatentes afiliados à Al Qaeda na Síria", "uma 'ópera transgênero' na Colômbia" e financiamento de "turismo no Egito", entre outros propósitos.

*Início da reforma da USAID*

Em meio a críticas, o financiamento para projetos da USAID foi suspenso, enquanto Musk alegou que a agência estava "além de qualquer reparo", acrescentando: "Estamos fechando-a".

As operações da agência estão sendo reorganizadas, e o Secretário de Estado dos EUA *Marco Rubio* se tornou seu administrador interino. Ele disse que muitas funções "continuarão" e confirmou a fusão da agência com o Departamento de Estado.

Nesse contexto, *Rubio* notificou o Congresso de que "as atividades de ajuda externa da USAID estão sob revisão para possível reorganização".

*Reconhecido como um grupo terrorista na Rússia e proibido em seu território.

"EUA FECHA USAID E A CLASSIFICA COMO “GRUPO DE CRIMINOSOS”
04/02/2025 

O governo dos Estados Unidos anunciou a decisão de fechar a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) definitivamente, classificando a agência como um “grupo de criminosos”. A USAID, que deveria supervisionar programas humanitários e de desenvolvimento no exterior, é conhecida pela esquerda combativa como um grupo que de atua na desestabilização de países e governos ao redor do mundo.

Historicamente, a agência teve papel decisivo em eventos como o Maidan na Ucrânia, onde grupos neonazistas tomaram o poder em 2014. Entre 1995 e 2002, os EUA investiram mais de US$ 23 milhões, em média, apenas na assistência à mídia de oposição para derrubar Slobodan Milosevic, totalizando mais de US$ 100 milhões em esforços para sua deposição, com forte envolvimento do investidor George Soros.

Além disso, a USAID tem um “braço” formado por ONGs que atuam ativamente no apoio a certos grupos opositores em diversos países. Enquanto na Espanha esse apoio é feito através do ministério do exterior, nos EUA, organizações como o National Endowment for Democracy (NED), a Freedom House e o International Republican Institute, ligados ao partido republicano, recebem substanciais financiamentos da USAID. Essa agência, por sua vez, já capitaneou movimentos golpistas na América Latina desde os anos 60, incluindo no Brasil.

Na Bolívia, documentos obtidos pelo jornalista Jeremy Bigwood revelaram que a USAID manteve um “Escritório para Iniciativas de Transição”, que investiu US$ 97 milhões em projetos de “descentralização” e “autonomias regionais” desde 2002, fortalecendo governos estaduais opositores ao então presidente Evo Morales. Um PowerPoint vazado pelo WikiLeaks mostrou que a USAID colaborava com o IRI e a Freedom House, que também recebem vultuosos financiamentos da agência.

Recentemente, foram divulgados os fundos históricos da USAID destinados à subversão em Cuba, totalizando 197.270.000 dólares entre 2001 e 2008, conforme reportado por Tracey Eaton em seu blog “Along the Malecon”. Um texto assinado por Bolívia, Cuba, Equador, Dominica, Nicarágua e Venezuela denunciou as ações de “ingerência aberta” da USAID, que financia grupos e projetos voltados para desestabilizar governos legítimos que não se alinham aos interesses de Washington.

Evo Morales, em um ato público no Dia Internacional dos Trabalhadores, anunciou a expulsão da USAID da Bolívia, alegando que a agência conspirava contra seu governo. O mandatário boliviano justificou a decisão como uma questão de soberania e segurança do Estado, ressaltando as experiências negativas que a USAID teve em outros países da região, onde houve clara intervenção e desestabilização.

Em que pesem todas as más intenções do atual presidente dos EUA, fato é que a decisão de fechar de uma vez por todas essa obscura agência só poderá beneficiar os povos de todos os países.

FOTO: USP

FONTE: https://www.facebook.com/photo?fbid=9076362669085843&set=a.105549126167287 "
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

QUADRILHA DO JUDICIÁRIO ASSALTOU O BRASIL *(Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT)

QUADRILHA DO JUDICIÁRIO ASSALTOU O BRASIL
COMANDADOS
E COMANDANTES

"Jornal francês mostra como os EUA usaram a Lava Jato para seus próprios fins: o maior escândalo judicial do planeta.

A "força-tarefa" da "lava jato" no Paraná: combate à corrupção ou peões dos EUA?

Compartilhamos a reportagem publicada pelo Consultor Jurídico, o ConJur, principal site especializado da área jurídica no Brasil

O que começou como a “maior operação contra a corrupção do mundo” e degenerou no “maior escândalo judicial do planeta” na verdade não passou de uma estratégia bem-sucedida dos Estados Unidos para minar a autonomia geopolítica brasileira e acabar com a ameaça representada pelo crescimento de empresas que colocariam em risco seus próprios interesses.

A história foi resgatada em uma reportagem do jornal francês Le Monde deste sábado (10/4), assinada por Nicolas Bourcier e Gaspard Estrada, diretor-executivo do Observatório Político da América Latina e do Caribe (Opalc) da universidade Sciences Po de Paris.

Tudo começou em 2007, durante o governo de George W. Bush. As autoridades norte-americanas estavam incomodadas pela falta de cooperação dos diplomatas brasileiros com seu programa de combate ao terrorismo. O Itamaraty, na época, não estava disposto a embarcar na histeria dos EUA com o assunto.

Para contornar o desinteresse oficial, a embaixada dos EUA no Brasil passou a investir na tentativa de criar um grupo de experts locais, simpáticos aos seus interesses e dispostos a aprender seus métodos, “sem parecer peões” num jogo, segundo constava em um telegrama do embaixador Clifford Sobel a que o Le Monde teve acesso.

Assim, naquele ano, Sergio Moro foi convidado a participar de um encontro, financiado pelo departamento de estado dos EUA, seu órgão de relações exteriores. O convite foi aceito. Na ocasião, fez contato com diversos representantes do FBI, do Departament of Justice (DOJ) e do próprio Departamento de Estado dos EUA (equivalente ao Itamaraty).

Para aproveitar a dianteira obtida, os EUA foram além e criaram um posto de “conselheiro jurídico” na embaixada brasileira, que ficou a cargo de Karine Moreno-Taxman, especialista em combate à lavagem de dinheiro e ao terrorismo.

Por meio do “projeto Pontes”, os EUA garantiram a disseminação de seus métodos, que consistem na criação de grupos de trabalho anticorrupção, aplicação de sua doutrina jurídica (principalmente o sistema de recompensa para as delações), e o compartilhamento “informal” de informações sobre os processos, ou seja, fora dos canais oficiais. Qualquer semelhança com a “lava jato” não é mera coincidência.

Em 2009, dois anos depois, Moreno-Taxman foi convidada a falar na conferência anual dos agentes da Polícia Federal brasileira, em Fortaleza. Diante de mais de 500 profissionais, a norte-americana ensinou os brasileiros a fazer o que os EUA queriam: “Em casos de corrupção, é preciso ir atrás do ‘rei’ de maneira sistemática e constante, para derrubá-lo.”

“Para que o Judiciário possa condenar alguém por corrupção, é preciso que o povo odeie essa pessoa”, afirmou depois, sendo mais explícita. “A sociedade deve sentir que ele realmente abusou de seu cargo e exigir sua condenação”, completou, para não deixar dúvidas.

O nome do então presidente Lula não foi citado nenhuma vez, mas, segundo os autores da reportagem, estava na cabeça de todos os presentes: na época, o escândalo do “Mensalão” ocupava os noticiários do país.

Semente plantada

O PT não viu o monstro que estava sendo criado, prosseguem os autores. As autoridades estrangeiras, com destaque para um grupo anticorrupção da OCDE, amplamente influenciado pelos EUA, começaram a pressionar o país por leis mais duras de combate à corrupção.

Nesse contexto, Moro foi nomeado, em 2012, para integrar o gabinete de Rosa Weber, recém indicada para o Supremo Tribunal Federal. Oriunda da Justiça do Trabalho, a ministra precisava de auxiliares com expertise criminal para auxiliá-la no julgamento. Moro, então, foi um dos responsáveis pelo polêmico voto defendendo “flexibilizar” a necessidade de provas em casos de corrupção.

“Nos delitos de poder, quanto maior o poder ostentado pelo criminoso, maior a facilidade de esconder o ilícito. Esquemas velados, distribuição de documentos, aliciamento de testemunhas. Disso decorre a maior elasticidade na admissão da prova de acusação”, afirmou a ministra em seu voto.

O precedente foi levado ao pé da letra pelo juiz e pelos procuradores da “lava jato” anos depois, para acusar e condenar o ex-presidente Lula no caso do tríplex.

Em 2013, a pressão internacional fez efeito, e o Congresso brasileiro começou a votar a lei anticorrupção. Para não fazer feio diante da comunidade internacional, os parlamentares acabaram incorporando mecanismos previstos no Foreign Corrupt Practices Act (FCPA), uma lei que permite que os EUA investiguem e punam fatos ocorridos em outros países. Para especialistas, ela é instrumento de exercício de poder econômico e político dos norte-americanos no mundo.

Em novembro daquele mesmo ano, o procurador geral adjunto do DOJ norte-americano, James Cole, anunciou que o chefe da unidade do FCPA viria imediatamente para o Brasil, com o intuito de “instruir procuradores brasileiros” sobre as aplicações do FCPA.

A nova norma preocupou juristas já na época. O Le Monde cita uma nota de Jones Day prevendo que a lei anticorrupção traria efeitos deletérios para a Justiça brasileira. Ele destacou o caráter “imprevisível e contraditório” da lei e a ausência de procedimentos de controle. Segundo o documento, “qualquer membro do Ministério Público pode abrir uma investigação em função de suas próprias convicções, com reduzidas possibilidades de ser impedido por uma autoridade superior”.

Dilma Rousseff, já presidente à época, preferiu não dar razões para mais críticas ao seu governo, que só aumentavam, e sancionou a lei, apesar dos alertas.

Em 29 de janeiro de 2014, a lei entrou em vigor. Em 17 de março, o procurador-geral da República da época, Rodrigo Janot, chancelou a criação da “força-tarefa” da “lava jato”. Desde seu surgimento, o grupo atraiu a atenção da imprensa, narra o jornal. “A orquestração das prisões e o ritmo da atuação do Ministério Público e de Moro transformaram a operação em uma verdadeira novela político-judicial sem precedentes”, afirmam Bourcier e Estrada.

Lição aprendida

Ao mesmo momento, a administração de Barack Obama nos EUA dava mostras de seu trabalho para ampliar a aplicação do FCPA e aumentar a jurisdição dos EUA no mundo. Leslie Caldwell, procuradora-adjunta do DOJ, afirmou em uma palestra em novembro de 2014: “A luta contra a corrupção estrangeira não é um serviço que nós prestamos à comunidade internacional, mas sim uma medida de fiscalização necessária para proteger nossos próprios interesses em questões de segurança nacional e o das nossas empresas, para que sejam competitivas globalmente.”

O que mais preocupava os EUA era a autonomia da política externa brasileira e a ascensão do país como uma potência econômica e geopolítica regional na América do Sul e na África, para onde as empreiteiras brasileiras Odebrecht, Camargo Corrêa e OAS começavam a expandir seus negócios (impulsionadas pelo plano de criação dos “campeões nacionais” patrocinado pelo BNDES, banco estatal de fomento empresarial).

“Se acrescentarmos a isso as relações entre Obama e Lula, que se deterioravam, e um aparelho do PT que desconfiava do vizinho norte-americano, podemos dizer que tivemos muito trabalho para endireitar os rumos”, afirmou ao Le Monde um ex-membro do DOJ encarregado da relação com os latino-americanos.

A tarefa ficou ainda mais difícil depois que Edward Snowden mostrou que a NSA (agência de segurança dos EUA) espionava a presidente Dilma Rousseff e a Petrobras, o que esfriou ainda mais a relação entre Brasília e Washington.

Vários dispositivos de influência foram então ativados. Em 2015, os procuradores brasileiros, para dar mostras de boa vontade para com os norte-americanos, organizaram uma reunião secreta para colocá-los a par das investigações da “lava jato” no país.

Eles entregaram tudo o que os americanos precisavam para detonar os planos de autonomia geopolítica brasileiros, cobrando um preço vergonhoso: que parte do dinheiro recuperado pela aplicação do FCPA voltasse para o Brasil, especificamente para um fundo gerido pela própria “lava jato”. Os americanos, obviamente, aceitaram a proposta.

A crise perfeita

Vendo seu apoio parlamentar derreter, em 2015 Dilma decidiu chamar Lula para compor seu governo, uma manobra derradeira para tentar salvar sua coalizão de governo, conforme classificou o jornal. Foi quando o escândalo explodiu: Moro autorizou a divulgação ilegal da interceptação ilegal de um telefonema entre Lula e Dilma, informando a Globo, no que veio a cimentar o clima político para a posterior deposição da presidente em um processo de impeachment. Moro, depois, pediu escusas pela série de ilegalidades, e o caso ficou por isso mesmo.

Os EUA estavam de olho nas turbulências. Leslie Backshies, chefe da unidade internacional do FBI e encarregada, a partir de 2014, de ajudar a “lava jato” no país, afirmou que “os agentes devem estar cientes de todas as ramificações políticas potenciais desses casos, de como casos de corrupção internacional podem ter efeitos importantes e influenciar as eleições e cenário econômico”. “Além de conversas regulares de negócios, os supervisores do FBI se reúnem trimestralmente com os advogados do DoJ para revisar possíveis processos judiciais e as possíveis consequências.”

Assim, foi com conhecimento de causa que as autoridades norte-americanas celebraram acordo de “colaboração” com a Odebrecht, em 2016. O documento previa o reconhecimento de atos de corrupção não apenas no Brasil, mas em outros países nos quais a empresa tivesse negócios. Como a empreiteira relutava, os magistrados ordenaram ao Citibank, que administrava o dinheiro da empresa nos EUA, que desse um prazo de 30 dias para encerrar as contas da Odebrecht. Em caso de recusa do acordo, os valores depositados nessas contas seriam colocados em liquidação judicial, situação que excluiria o conglomerado do sistema financeiro internacional, levando, inevitavelmente, à falência. A Odebrecht aceitou a “colaboração”.

A “lava jato” estava confiante de sua vantagem, apesar de ter ascendido sem a menor consideração pelas normas do Direito. “Quando Lula foi condenado por ‘corrupção passiva e lavagem de dinheiro’, em 12 de julho de 2017, poucos relatos jornalísticos explicaram que a condenação teve base em ‘fatos indeterminados'”, destacou o jornal.

Depois de condenar Lula e tirá-lo de jogo nas eleições de 2018, Sergio Moro colheu os louros de seu trabalho ao aceitar ser ministro da Justiça do novo presidente Jair Bolsonaro. Enquanto isso, os norte-americanos puderam se gabar de pôr fim aos esquemas de corrupção da Petrobras e da Odebrecht, junto com a capacidade de influência e projeção político-econômica brasileiras na América Latina e na África. Os procuradores da “lava jato” ficaram com o prêmio de administrar parte da multa imposta pelos EUA à Petrobras e à Odebrecht, na forma de fundações de Direito privado dirigida por eles próprios em parceria com a Transparência Internacional.

Conversão lucrativa

A recompensa que Sergio Moro escolheu para si também foi o início do fim de seu processo de canonização. Depois da eleição de Bolsonaro, veio à tona o escândalo da criação do fundo da Petrobras. O ministro Alexandre de Moraes frustrou os planos dos procuradores ao determinar a dissolução do fundo e direcionar o dinheiro para outras finalidades.

Em maio de 2019, o The Intercept Brasil começou a divulgar conversas de Telegram entre procuradores e Moro, hackeadas por Walter Delgatti e apreendidas pela Polícia Federal sob o comando do próprio Moro, enquanto ministro da Justiça. Elas mostram, entre outros escândalos, como Moro orientou os procuradores, e como estes últimos informaram os EUA e a Suíça sobre as investigações e combinaram a divisão do dinheiro.

Depois de pedir demissão do Ministério, Moro seguiu o mesmo caminho lucrativo de outros ex-agentes do DOJ e passou a trabalhar para o setor privado, valendo-se de seu conhecimento privilegiado sobre o sistema judiciário brasileiro em casos célebres para emitir consultorias, um posto normalmente bastante lucrativo. A Alvarez e Marsal, que o contratou, é administradora da recuperação judicial da Odebrecht
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terça-feira, 9 de abril de 2024

Ex-agente duplo lança livro para contar bastidores de projeto articulado pela CIA em Cuba * Katia Marko/Brasil de Fato

Ex-agente duplo lança livro para contar bastidores de projeto articulado pela CIA em Cuba
Raúl Capote passou por Porto Alegre para lançar o livro “Inimigo: A guerra da CIA contra a juventude cubana” e a Campanha Cuba Vive, Resiste!

Livro de Raúl Capote detalha Projeto Génesis, barrado pela contraespionagem cubana
Katia Marko
Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) 


Durante sete anos, o jornalista cubano Raúl Antonio Capote Fernández foi um agente duplo. Aconteceu entre 2004 e 2011. Nesta história real de contraespionagem, para a Central Intelligence Agency, a CIA, ele era um opositor do governo cubano. Na realidade, Capote agia para descobrir o que estava por trás do projeto Génesis, engendrado pela espionagem norte-americana e com os olhos postados na ilha do Caribe.


Sob o biombo de ONGs, o plano visava doutrinar jovens estudantes cubanos no exterior que, seduzidos pela ideia de “modernizar” Cuba, retornariam ao seu país para semear uma rebelião, usando primeiro as redes e depois as ruas, partindo para o confronto até o ponto de demandarem uma intervenção militar dos EUA. Uma primeira versão das “revoluções coloridas” que agitaram o Oriente Médio e parte do mundo no embalo das guerras híbridas para promover golpes de estado. Em Cuba, não deu certo porque Havana descobriu.

Agora, Capote está lançando o relato dessa aventura em português. É o livro “Inimigo: A guerra da CIA contra a juventude cubana”. Publicado em Cuba em 2012, já recebeu edições em italiano, alemão, turco e russo. Também será editado em inglês e vai virar série de TV. Editor do Granma Internacional, também professor e escritor, Capote passou por Porto Alegre para lançar o livro e a Campanha Cuba Vive, Resiste, e conversou com Brasil de Fato RS. Confira:

Brasil de Fato RS - O que podes contar dessa história que trazes no livro?

Raúl Capote - Escrevi o livro em 2012. É um testemunho baseado em histórias reais, mais do que baseado, é absolutamente real. É a história de um agente secreto cubano que trabalhou durante mais de sete anos dentro da CIA, a agência central de inteligência dos Estados Unidos. Sete anos trabalhando em um projeto da CIA dirigido à juventude, sobretudo aos jovens universitários cubanos, tratando de construir uma liderança contrarrevolucionária.

Em 2004, quando se começa a contar essa história, os EUA decidiram mudar a política em relação a Cuba. Reconhecem que tudo o que fizeram durante tantos anos fracassou. Necessitavam preparar-se para o que ocorreria na direção do país. Prepararam-se para 10 ou 15 anos, quando Fidel já não estivesse, para impedir a continuidade revolucionária. O projeto se chamou Génesis.

A CIA criou um plano destinado para estudantes cubanos a serem formados na Europa

BdF RS - Génesis...

Raúl Capote - Começa com um ponto essencial para o trabalho que era a formação de uma nova liderança. Cria-se um plano (direcionado) a jovens estudantes cubanos a serem formados na Europa e com um vínculo estreito com organizações não governamentais. Elas financiariam os projetos.

Após esses 10 ou 15 anos, depois de cursos de pós-graduação, mestrado, doutorado, iriam para os serviços, a economia, a política, as forças armadas, os meios de comunicação. E isso iria formando uma rede com vínculos de formação ao governo estadunidense e, sobretudo, com a CIA. Ainda que não soubessem, porque acreditavam que realmente estavam sendo patrocinados por uma ONG.

BdF RS - Essas ONGs estavam atuando dentro de Cuba?

Raúl Capote - Sim, era um plano interno contra a revolução. A outra parte do projeto implicava desenvolver uma intensa guerra no terreno das ideias, da cultura, usando a indústria do entretenimento. Uma guerra muito sutil…

BdF RS - Conhecemos bem ela...

Raúl Capote - Foi criado para esse projeto secreto um canal offline. Criou-se um público. Parecia algo sem consequências. Bem, que bom, as pessoas querem ver televisão. Eram programas elaborados especialmente para Cuba. Alguns eram conhecidos e outros elaborados unicamente para Cuba.

A ideia era criar em Cuba uma massa crítica de pessoas que não acreditavam na revolução. Nunca foram contrarrevolucionários. Eram pessoas a quem não interessava a revolução para nada. Utilizavam-se os manuais das revoluções coloridas e, sobretudo, a experiência dos iugoslavos do movimento OPOR.

BdF RS - Como é o nome?

Raúl Capote - OPOR. Atuou contrarrevoluções na (antiga) Iugoslávia. Aparentava ser um movimento estudantil, independente, mas estava sendo dirigido por esta mesma estratégia. Havia criado o Canvas (sigla em inglês para “centro para conflito e estratégias não-violentas”).

BdF RS - Não-violenta?

Raúl Capote - Uma nova estratégia desenhada pela CIA que busca (derrubar um governo) com o menor esforço possível, sem nenhum armamento.

Começariam a atuar esses jovens treinados nas 150 ações para acabar com o governo

BdF RS - Sim, através da ideologia...

Raúl Capote - Tinham um manual chamado “Manual para pôr fim a uma ditadura" com 150 ações a serem feitas. Diz que, eliminando-se os pilares que sustentam um governo, ele cai, em implosão. A ideia é provocar o caos. Não que o governo renuncie, mas que não possa governar. Esse é o sentido da estratégia.

Era previsto (em Cuba) que fosse em 2019. Antes disso, houve uma mudança na política para Cuba. Tudo teve sentido. Nada foi casual. Diziam que a estratégia de confrontação direta não dava resultado e que era preciso recorrer à sedução. Queriam ganhar o cubano e acabar com a revolução impedindo sua continuidade quando Fidel morresse.

"A ideia era criar em Cuba uma massa crítica de pessoas que não acreditavam na revolução" / Foto: Ricardo Haesbaert

Evitando qualquer choque com as autoridades, nos dizíamos uma agência literária que promovia a obra, o autor e nos permitia atuar dentro de Cuba. Foi se ampliando, criando grupos de pensamento, muito suave, sem chamar atenção.

Apresentava-se como uma organização nascida nas universidades, integrada por jovens cubanos, acadêmicos, artistas plásticos, pintores, músicos, líderes sociais. Que proporia à Cuba uma alternativa à via socialista. Queria “modernizar o socialismo”. Não se apresentava como um grupo de direita ou de centro, mas como esquerda cujo único objetivo seria “modernizar o socialismo”. A palavra da organização era mudança.

BdF RS - Que tipo de mudança?

Raúl Capote - Não sabíamos para onde. Era engenhoso. Dizia-se “Não vamos destruir a revolução, não vamos acabar com o socialismo. Queremos modernizar. Vamos mudar”. O que havia atrás disso era uma proposta de privatização. Era muito neoliberal o projeto. Eu pensava: “Vão gerar uma grande confusão”.

E é nesse ambiente que haveria eleição. Começariam a atuar esses jovens treinados nas 150 ações para acabar com o governo. Sairiam às ruas a manifestar-se, a tomar e destruir instituições, provocar as autoridades, chocar-se com a polícia. A missão era deixar o país absolutamente ingovernável.

BdF RS – E o objetivo era uma intervenção militar?

Raúl Capote - Exato. Nessa situação de caos, o líder dessa organização deveria solicitar intervenção militar ao governo dos Estados Unidos. Seria um pedido para “garantir a tranquilidade e evitar derramamento de sangue”. Planejavam que a ocupação militar se prolongaria por três ou quatro anos até se criarem condições para celebrar “eleições livres”.

E nisso aplicariam o que estabelece a lei Helms-Burton (aprovada no governo Clinton, em 1996, para ampliar o bloqueio contra Cuba) em seu capítulo 1º. A Helms-Burton converte o bloqueio em lei estadunidense. Nenhum presidente pode opinar. Tem que reunir o congresso dos EUA e eliminar essa legislação com maioria. E o presidente poderia vetar ou não.

Em meio ao caos, a organização pediria intervenção militar aos EUA

Uma das razões fundamentais para o bloqueio é a exigência dos EUA de indenização para os donos de propriedades nacionalizadas em Cuba em 1958, quando triunfou a revolução. Falam em 90 bilhões de dólares. Como um pequeno país pagaria essa dívida?

É uma lei que sanciona os bancos que utilizam o dinheiro cubano, os barcos que levam produtos a Cuba. Significa um fechamento quase total do acesso de Cuba ao sistema financeiro e ao comércio internacional. É um plano estadunidense de colonização, de anexação. O propósito do projeto Genesis era garantir que isso acontecesse. Mas acaba antes porque o governo de Cuba denuncia o projeto em 2011.

BdF RS - O governo cubano então já sabia do projeto.

Raúl Capote - Desde o princípio.

BdF RS - Já estavas como agente?

Raúl Capote - Prefiro dizer que trabalhava como agente do povo cubano. Para se entender que coisa é um serviço de segurança como o cubano, é preciso outra compreensão do que as pessoas entendem como serviço de segurança. Fazíamos um serviço de segurança popular com pessoas que trabalhavam por convicção.

Sempre existiu um projeto coletivo porque é o segredo da resistência de Cuba

BdF RS - Te oferecestes para ser?

Raúl Capote - Sim e, como eu, milhões de pessoas em Cuba. É a estratégia de se antecipar a qualquer ação estrangeira. De que maneira um país que está a 150 km dos Estados Unidos, praticamente desarmado, sem recursos para enfrentar uma potência como essa, pode sobreviver? A única forma é sabendo o que vai acontecer. Antecipando-se sempre. Foi uma estratégia que Fidel (Castro) desenhou muito bem. De ter sempre pessoas que eram fiéis. Não recebíamos um centavo do Estado. É um tipo de trabalho que se faz de maneira voluntária por muita gente.

BdF RS - Foi assim também com a Rede Vespa? (*)

Raúl Capote - Isso. Não eram profissionais de espionagem. Eram pessoas como quaisquer outras.

BdF RS - O próprio Tony (Guerrero) era engenheiro, não é?

Raúl Capote - Engenheiro, professor universitário, jornalista. Não tinha vínculo, nenhum tipo de preparação, inclusive, para fazer um enfrentamento como esse. O que acontece é que a CIA foi se acercando. Ou me convertia em traidor do meu povo e país ou defendia Cuba. Não havia terceira opção. Cuba é um projeto coletivo. Sempre existiu um projeto coletivo porque é o segredo da resistência de Cuba. Se tivesse uma ditadura não seria possível. Nenhuma ditadura dura 62 anos dessa maneira, a não ser que seja, absolutamente...

Não é uma guerra contra o socialismo. É uma guerra contra a independência, a insubmissão

BdF RS - Defendida pelo povo...

Raúl Capote - É um projeto de que participa a maioria dos cubanos. Sente-se parte do que se faz. Sente-se parte da defesa do país, do que se produz, do que o país faz. Da maneira como funciona a nação. Não somos um país perfeito e temos muito o que evoluir. Nos equivocamos também e fizemos coisas que não eram para o momento. E é a base que a converteu em um inimigo declarado dos EUA, que não admite, sob nenhum princípio, que a ilha sobreviva e seja independente.


Não se trata de socialismo. Não se trata de que Cuba construiu um sistema socialista, como as pessoas pensam. É porque a ilha é independente. É parecido com o que o império francês fez ao Haiti, no século 19. O plano aplicado contra o Haiti é o mesmo que os EUA fazem contra nós. A França bloqueou o Haiti, impondo-lhe uma indenização ao antigo colono francês. E o Haiti não teve remédio senão pagar à coroa francesa com o dinheiro que a França lhe emprestou. Não se trata de uma guerra contra o socialismo. É uma guerra contra a independência. Contra a insubmissão.

"A história aqui contada é real e faz parte da epopeia do povo cubano" / Divulgação

O Haiti seguiu seu próprio caminho e sofreu a consequência. Passou anos pagando a dívida da França depois de um embargo. E, depois, os EUA roubaram tudo que havia no Haiti que, até hoje, está pagando o preço de haver sido a primeira República livre da América.

Em Cuba, o governo (em 1958) não era socialista. O que cria conflito é a lei da reforma agrária. Mas a reforma agrária estava na Constituição cubana desde 1940! Ou seja, sequer é uma invenção da revolução.

Cuba era um estado narco-mafioso, subordinado aos interesses americanos. Foi isso que Fidel e os cubanos enfrentaram

BdF RS - Quando sofremos o golpe militar em 1964 também, o presidente Jango queria fazer a reforma agrária.

Raúl Capote - O grande tema foi esse: o bloqueio de guerra contra Cuba nasce da lei da reforma agrária. E a primeira medida foi "Não lhe compramos o açúcar”!

E o mercado do açúcar cubano eram os Estados Unidos.

Quando Cuba avisa que venderá o açúcar aos soviéticos, os EUA dizem que não lhes venderão petróleo. Então, os russos dizem “Bem, nós vendemos o petróleo”. Mas as refinarias em Cuba eram americanas. E, então os EUA dizem: “Não refinaremos o petróleo soviético”.


Foi aí que tudo começou. O conflito começa antes de Cuba se declarar socialista. É simplesmente uma revolução democrático-burguesa e nacionalista que está a tentar recuperar a sua economia e fazer justiça.

Foi uma guerra contra a independência e um ato de vingança por ter tirado a riqueza dos antigos proprietários que possuíam 82% das melhores terras de Cuba.

A norte-americana United Fruit Company era dona das terras de um lado a outro do país. Estavam em mãos dos EUA as minas, refinarias e fábricas. Hotéis e cassinos pertenciam à máfia ítalo-americana. O ditador Fulgencio Batista morava nos EUA e tinha laços estreitos com o mafioso Lucky Luciano. Deu um golpe de estado e construiu o império de Havana, liderado por Meyer Lansky, nada mais nada menos do que o banqueiro da máfia. Era um estado narco-mafioso, totalmente subordinado aos interesses americanos. Foi isso que Fidel e os cubanos enfrentaram.

A estratégia seguida contra Kadhafi foi semelhante ao que queriam fazer em Cuba

BdF RS - Voltando à operação denunciada em 2011...

Raúl Capote - Muitas coisas estavam sendo preparadas e não só contra Cuba. Naquela época, ainda não se conhecia esse tipo de estratégia. Agora está se tornando muito popular com todo mundo falando em guerra híbrida...

BdF RS - O Brasil também viveu isso.

Raúl Capote - Agora temos 1 milhão de gurus especializados em como travar guerras não convencionais. Naquele tempo, ainda não se falava em revoluções coloridas e golpes suaves. Por isso é tão importante denunciar.

O que aconteceu na Líbia foi muito semelhante. A estratégia seguida contra (o líder líbio Muammar) Kadhafi foi semelhante ao que pretendiam em Cuba. Muito parecida com o que ocorreu no Oriente Médio com as revoluções árabes. O livro foi escrito para explicar do que se tratava. Foi traduzido para o italiano, alemão, turco, russo e agora português. E vai ser traduzido para o inglês. Tenho também um canal no YouTube onde tenho o livro narrado em espanhol. E está sendo produzida uma série de TV baseada nele.

BdF RS - Como será a série?

Raúl Capote - Planejamos fazer uma série que tenha muito mais alcance, seguindo o princípio de torná-lo (o livro) compreensível. Algo que comunique. Real, mas usando elementos de ficção. Copiando até um pouco os cânones de Hollywood, do cinema e das séries americanas: muita ação, velocidade, muitos cortes rápidos.

Cuba não pode solicitar empréstimo a nenhum banco do mundo

BdF RS - Em meio à pandemia, o governo Trump não apenas reforçou o bloqueio, mas também incluiu Cuba na Lista de Estados Patrocinadores do Terrorismo. O que isso significa?

Raúl Capote - Sim, estava na lista havia muito tempo, mas estar na listagem não significava o que representa hoje. Depois, Barack Obama retirou Cuba da relação de países patrocinadores do terrorismo. Mas Donald Trump mais uma vez nos incluiu, poucos dias antes de sair da presidência. Nem houve tempo para um debate no Congresso dos EUA sobre o assunto.


A inclusão de Cuba agora agrava muito a situação porque o alcance que a lista tem hoje é muito maior. O fato de sermos considerados um país terrorista, embora seja uma lista criada pelos EUA, impede os bancos de admitirem as transações comerciais cubanas. Ou seja, Cuba não pode comprar. Na China, sim. Mas não se pode ir à China com uma pasta de dinheiro e comprar um trator.

No mundo inteiro, para você comprar isso, faz através dos bancos. Faz uma transferência bancária e compra o que quiser. Bem, Cuba não pode. Não pode solicitar empréstimo a nenhum banco do mundo. Os bancos não podem te dar porque Cuba é um país terrorista, segundo a lista infame.

Pune as companhias de navegação. Se uma companhia marítima transporta um produto para Cuba, está transportando algo para um país que é acusado pelos EUA de ser terrorista. Portanto, essa transportadora pode ser sancionada. E não o fará.

Se um barco toca num porto cubano, tem que esperar seis meses para tocar num porto norte-americano

Complica muito o dia a dia dos cubanos porque aborda coisas essenciais. Por exemplo, se o combustível não entra, a eletricidade não pode ser gerada. Dependemos em grande medida dos combustíveis fósseis. Estamos tentando alcançar a independência nesta matéria, mas isso não acontece em dois anos. Exige anos e recursos e créditos que não temos. Paralisa o seu transporte.

Cria um problema sério em todos os sentidos e também visa dívidas. Por exemplo, Cuba tem uma dívida com um país por uma compra, algo normal em qualquer lugar. Mas você não pode pagar porque não tem como fazer chegar ao outro o dinheiro que deve. Por isso é tão importante que Cuba se livre disso. Não é nada justo porque aquilo de que está sendo acusada não faz o menor sentido.

BdF RS - Existem ainda mais sanções, não?

Raúl Capote - A lei Torricelli, que é outra das leis do bloqueio, diz que se um barco toca num porto cubano, tem que esperar seis meses para tocar num porto norte-americano. Então, a companhia marítima vai trazer uma carga para Cuba e perder o mercado norte-americano? Não vai. E sancionam também os capitães dos navios. Sancionam individualmente os proprietários dos navios ou das companhias marítimas num sistema de punições severas contra quem pensa negociar com Cuba.

Cuba é um dos poucos países do mundo onde uma bandeira americana nunca foi queimada

BdF RS - Uma ilha tão pequena e ameaça tanto os Estados Unidos...

Raúl Capote - Porque decidiu seguir seu próprio caminho. Nunca fomos inimigos dos EUA. Nunca declaramos guerra aos EUA, nunca cometemos um ato de agressão contra eles. É um dos poucos países do mundo onde uma bandeira americana nunca foi queimada. Em Cuba, é proibido queimar a bandeira americana. É um país com laços culturais estreitos, inclusive laços familiares sólidos, porque há cubanos que vivem do outro lado.


Muita gente mora nos EUA desde antes de 1959. Minha família morou lá na década de 1930. Esse fluxo sempre ocorreu porque eles são muito próximos. Porém, na medida em que Cuba resistiu, piorou. Ou seja, não aceitou nenhuma proposta desonrosa que vá contra os seus princípios.

Sempre estivemos dispostos a dialogar, mas em igualdade de condições. Eles sempre impuseram condições. Mas não têm o direito de nos impor condições e muito menos de nos pedir que renunciemos ao que a maioria dos cubanos escolhe. Não é decisão de um homem, nem de um grupo de pessoas. É a decisão de todo um povo.

BdF RS - O filme O Poderoso Chefão mostra bem a relação do (ditador Fulgencio) Batista com a máfia americana, não?

Raúl Capote - Tem um livro chamado O Império de Havana, do jornalista Enrique Cirules, que é maravilhoso, um trabalho investigativo fantástico. Todas as tardes um barco ligava Havana à Flórida. Fazia duas viagens por dia, uma de manhã e outra à tarde. O dinheiro da máfia saía na balsa para os EUA. Apenas do Riviera Hotel e do Riviera Casino, saia 1 milhão de dólares. Imagine 1 milhão de dólares na década de 1950. Batista também recebia sua parte. Foi um grande negócio.

Era um Estado mafioso onde se podia fazer o que quisesse. Luis Santos, traficante, membro da máfia italiana, foi senador da República em Cuba. Era um narco-estado. O plano de Batista era construir quilômetros de hotéis com cassinos, enquanto a maior parte do país passava fome. Foi a primeira ditadura que utilizou a tortura elétrica como método. Experiências que, depois, foram aplicadas nos regimes golpistas da América Latina.

(*) Rede de contraespionagem cubana presente em Miami nos anos 1990 para descobrir os responsáveis por atentados terroristas praticados contra Cuba. Cinco de seus integrantes – Tony Guerrero, Gerardo Hernández, Ramón Labañino, Fernando González e René González – foram presos e receberam sentenças de até 22 anos de prisão nos EUA. As condenações receberam críticas e oito Prêmios Nobel pediram a libertação dos cubanos. No governo Barack Obama foram libertados através de troca por espiões norte-americanos presos na ilha. O drama foi contado no livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, e no filme Wasp Network: Rede de Espiões, de Olivier Assayas.

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