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sexta-feira, 22 de maio de 2026

A CUBA REVOLUCIONÁRIA * Reinício P. Cavalcante/RJ&outros

A CUBA REVOLUCIONÁRIA

China e Rússia rechaçam acusação dos EUA contra Raúl Castro
Pequim e Moscou condenam processo nos EUA e denunciam interferência contra Cuba em meio à escalada de Washington
22 de maio de 2026, 04:29 h

247 - A China e a Rússia rejeitaram as acusações dos Estados Unidos contra Raúl Castro e denunciaram a interferência contra Cuba em meio à escalada de Washington, segundo informações da Telesur.

A reação internacional ocorreu depois que a Justiça estadunidense acusou formalmente o ex-presidente cubano e general do Exército Raúl Castro Ruz, líder da Revolução Cubana, e outras cinco pessoas, no caso relacionado à morte de quatro indivíduos, entre eles três cidadãos dos Estados Unidos, durante a derrubada de duas aeronaves em 1996. As informações são da teleSUR.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, afirmou que Pequim se opõe firmemente a “sanções unilaterais ilegais sem fundamento no direito internacional e sem autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas” e à “manipulação abusiva de procedimentos judiciais”.

Segundo o diplomata chinês, os Estados Unidos devem suspender a “ameaça de sanções e ações legais contra Cuba” e deixar de recorrer à “ameaça de uso da força à menor oportunidade”. Guo também declarou que a China “apoia firmemente Cuba na defesa de sua soberania e dignidade nacional e se opõe à interferência estrangeira”.

A Rússia adotou posição semelhante. O embaixador russo em Havana, Viktor Koronelli, classificou as acusações apresentadas contra Raúl Castro nos Estados Unidos como parte da política de Washington para ampliar a pressão sobre a ilha caribenha.
“Essa decisão apenas demonstra o desejo de encontrar pretextos para intensificar as tensões em torno da ilha”, escreveu Koronelli em sua conta no X, antigo Twitter.

Reação de Cuba

O governo cubano acusou Washington de recorrer a manobras judiciais “obscuras” para tentar justificar agressões contra Estados soberanos. O vice-chanceler Carlos Fernández de Cossío afirmou que o amparo dos Estados Unidos “não é a Justiça; seu amparo é o uso do poderio militar descomunal”.

Fernández de Cossío disse ainda que qualquer tentativa de usar a acusação como pretexto para uma ação contra os acusados em Cuba “enfrentará uma resistência feroz do povo cubano”.
O diplomata cubano classificou a acusação contra Raúl Castro e as outras cinco pessoas como “fraudulenta”. Segundo ele, a medida “não tem respaldo legal, nem respaldo político, nem respaldo moral algum”.

Para o vice-chanceler, o caso deve ser interpretado dentro de uma “escalada crescente e agressiva” da Casa Branca contra Cuba ao longo de 2026.
Declaração do Governo Revolucionário

O Governo Revolucionário condena veementemente a desprezível acusação feita pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos em 20 de maio e divulgada há várias semanas contra o General do Exército Raúl Castro Ruz, líder da Revolução Cubana.

O governo dos Estados Unidos não possui legitimidade nem jurisdição para realizar essa ação. Trata-se de um ato desprezível e infame de provocação política, baseado na manipulação desonesta do incidente que levou à queda, em fevereiro de 1996, de duas aeronaves operadas pela organização terrorista Brothers to the Rescue, sediada em Miami, sobre o espaço aéreo cubano, cujas repetidas violações do espaço aéreo cubano para fins hostis eram de conhecimento público.

Além disso, o governo dos EUA distorce outras verdades históricas sobre o evento que usa como pretexto. Omite, entre outros detalhes, as inúmeras queixas formais apresentadas por Cuba durante esse período ao Departamento de Estado, à Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) e à Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) a respeito de mais de 25 violações graves e deliberadas do espaço aéreo cubano cometidas pela OACI entre 1994 e 1996, em flagrante transgressão do direito internacional e da própria legislação dos EUA.

Ignora também os avisos públicos e oficiais emitidos pelas autoridades cubanas sobre a inadmissibilidade de tais violações do seu espaço aéreo, bem como as mensagens de alerta transmitidas diretamente ao Presidente dos Estados Unidos sobre a gravidade e as possíveis consequências de tais transgressões.

A resposta de Cuba à violação de seu espaço aéreo constituiu um ato de legítima defesa, protegido pela Carta das Nações Unidas, pela Convenção de Chicago de 1944 sobre Aviação Civil Internacional e pelos princípios da soberania aérea e da proporcionalidade.

Os Estados Unidos, que já foram vítimas do uso da aviação civil para fins terroristas, não permitem e não permitiriam a violação hostil e provocativa do espaço aéreo estrangeiro sobre seu território e agiriam, como já demonstraram, com o uso da força.

A inação do governo dos EUA diante dos alertas emitidos por Cuba na época revelou sua cumplicidade no planejamento e execução, a partir de seu território, de ações violentas, ilegais e terroristas contra o governo e o povo cubano, uma prática recorrente e sistemática desde o triunfo da Revolução até os dias atuais.

É extremamente cínico que essa acusação seja feita pelo mesmo governo que assassinou quase 200 pessoas e destruiu 57 embarcações em águas internacionais do Caribe e do Pacífico, longe do território dos Estados Unidos, com o uso desproporcional da força militar, por supostos vínculos com operações de tráfico de drogas que nunca foram comprovadas, o que qualifica como crimes de execuções extrajudiciais, de acordo com o Direito Internacional, e assassinatos, segundo as próprias leis dos EUA.

Essa acusação espúria contra o Líder da Revolução Cubana soma-se às tentativas desesperadas de elementos anticubanos de construir uma narrativa fraudulenta, num esforço para justificar a punição coletiva e implacável contra o nobre povo cubano, através do fortalecimento de medidas coercitivas unilaterais, incluindo o injusto e genocida bloqueio energético e as ameaças de agressão armada.

Cuba reafirma seu compromisso com a paz e sua firme determinação em exercer o direito inalienável à autodefesa, reconhecido pela Carta das Nações Unidas.

O povo cubano reafirma sua decisão inabalável de defender a Pátria e sua Revolução Socialista e, com a maior força e firmeza, seu apoio irrestrito e inabalável ao General do Exército Raúl Castro Ruz, Líder da Revolução Cubana.

Pátria ou morte, nós venceremos.

Havana, 20 de maio de 2026.

“Ano do Centenário do Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz.”

RAUL CASTRO
As Forças Armadas Revolucionárias de Cuba realizaram, na quinta-feira, um exercício militar envolvendo a operação de armas antiaéreas, em preparação para um possível ataque do regime imperialista dos EUA. 

Os sistemas de radar foram ativados e os sistemas de mísseis terra-ar S-125M1 “Pechora-M1” realizaram exercícios de tiro real contra alvos simulados. 

Recentemente, exercícios de artilharia, o emprego de drones de correção de fogo e preparativos de defesa territorial também foram observados em várias províncias do território cubano.
HÁ QUE CUMPRIR OS IDEAIS DE BOLÍVAR!

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Todo apoio ao comandante Raul Castro: derrotar o imperialismo ianque e seus lacaios em toda a América Latina * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

Todo apoio ao comandante Raul Castro: derrotar o imperialismo ianque e seus lacaios em toda a América Latina!

O criminoso pedófilo Donald Trump, em mais um capítulo de sua ofensiva neocolonial contra os povos do mundo, "indiciou" hoje de forma farsesca, o comandante da revolução cubana, Raul Castro.

Segundo Trump e os agentes do imperialismo, Raul seria responsável por suposta "conspiração" contra os Estados Unidos e pela derrubada de aviões estadunidenses em 1996.

Na ocasião, os aviões tripulados por contra-revolucionarios e mercenários cubanos e estadunidenses, violaram a segurança área da ilha, ao que foram derrubados por jatos cubanos. A ação foi mais um dos inúmeros capítulos da provocação criminosa que o imperialismo americano tem feito contra Cuba e seu povo.

Às provocações mercenárias imperialistas, que ameaçavam a segurança nacional cubana, foram respondidas de forma legítima por suas forças de defesa, como qualquer Estado nacional o faria em tal circunstância.

O que busca Donald Trump e sua anturragem, com o atual factoide, é criar um clima e condições favoráveis para o isolamento de Cuba internacionalmente e uma possível invasão militar, regular ou irregular, contra a ilha.

Tal ação da Casa Branca, do Pentágono e dos falcões assassinos em Washington, é parte da ofensiva neocolonial e fascistóide mundial do imperialismo contra os povos. Os genocidas ianques e seus aliados sionistas, buscam impor uma espécie de "palestinização" contra todos os povos oprimidos, visando pilhar seus recursos naturais, implementar o recrudescimento da super exploração dos trabalhadores e impor regimes de força subordinados a Washington e amigos do sionismo, em todo o mundo, particularmente na América Latina.

É neste contexto que se encaixa o agravamento dessa nova ofensiva criminosa e covarde contra Cuba e contra o comandante Raul Castro. Basta vermos que recentemente foram divulgados áudios gravíssimos envolvendo Juan Orlando Hernández, o fantoche hondurenho, narcotraficante amigo de Trump, Benjamin Netanyahu e Javier Milei; em que deixam claro seu projeto terrorista contra a esquerda e os povos de Nossa América.

É urgente neste grave momento histórico, que os povos de nossa região se unam e se organizem para combater a ofensiva imperialista e seus agentes, inimigos mortais dos nossos povos.

É necessário internacionalizar nossas lutas contra o imperialismo e a extrema direita, na região. Precisamos concretizar de forma real e objetiva, uma frente latinoamericana antiimperialista de lutas.

O heróico povo irmão boliviano nos mostra o caminho. Tem demonstrado verdadeira bravura e espírito de luta no combate revolucionário contra o governo entreguista e criminoso de Rodrigo Paz.

Que seu exemplo e o da revolução cubana, sirvam para impulsionar e dar forças a todos os povos de nossa América.

Defender Cuba e o comandante Raul Castro, é obrigação sagrada para toda pessoa digna no mundo. Convocamos mobilizações em toda a América Latina pela defesa de Raul Castro e de Cuba.

Convocamos a construção de comitês de defesa da revolução cubana em toda a nossa região e a articulação de uma Frente Latinoamericana Antiimperialista.

*Defender Cuba e o comandante Raul Castro até às últimas consequências!
*Pela libertação imediata do presidente Nicolas Maduro e Cilia Flores!
*Fora imperialismo e sionismo da América Latina!
Frente Revolucionária dos Trabalhadores
FRT
SOLIDARIEDADE COMUNISTA COM O COMANDANTE RAUL CASTRO
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domingo, 22 de março de 2026

PETRÓLEO PARA CUBA * Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro/Change.org

PETRÓLEO PARA CUBA
Ao Excelentíssimo Sr. Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva

O atual cenário atravessado por Cuba é o mais dramático desde a vitória da Revolução em 1959. O presidente dos Estados Unidos Donald Trump tem adotado medidas com o objetivo de agravar o bloqueio econômico imoral e ilegal contra Cuba. Dentre essas medidas, a mais grave é a de bloquear a venda de petróleo com a finalidade de derrotar a Revolução e impor medidas de caráter genocida.

Quer o presidente dos Estados Unidos alcançar seu objetivo de derrotar a Revolução, tal como Netanyahu faz em Gaza, matando o povo cubano pela fome e pela deterioração das condições de vida. E se não bastasse, caso Cuba não se renda, a ameaça com uma invasão militar. Nesse momento tão dramático, a Solidariedade Internacional é a maior arma para derrotar a agressão imperialista.

Por isso, nós abaixo-assinados, personalidades públicas, representantes da sociedade civil e cidadãos brasileiros solicitamos ao senhor presidente o envio de petróleo à Cuba como parte do esforço internacional de ajuda humanitária para que a Ilha possa mitigar os efeitos nefastos do bloqueio econômico que lhe foi formalmente imposto em 7 de fevereiro de 1962. O momento agora é de retribuir o que o povo cubano sempre fez, em especial durante o Programa Mais Médicos, quando ofereceu atenção, dedicação e carinho ao povo brasileiro.
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sábado, 17 de maio de 2025

REFORMA AGRÁRIA EM CUBA * Associação Nacional de Pequenos Agricultores/Cuba

REFORMA AGRÁRIA EM CUBA
A Associação Nacional de Pequenos Agricultores (ANAP) trabalha para promover, diversificar e aumentar a produção agrícola em Cuba, o que é uma prioridade na agenda do governo para reverter a difícil situação econômica atual.

Essa foi uma das declarações do presidente nacional da ANAP, Félix Duarte, ao apresentar o relatório sobre o trabalho dos associados nos últimos anos, na abertura do 13º Congresso da entidade.

A produção de alimentos foi um tópico central no Comitê de Assuntos Econômicos do conclave, um dos três comitês criados para discutir as principais questões de interesse e inquietação dos membros.

Segundo relatos, as colheitas de raízes, vegetais e grãos não estão atendendo à demanda da população, mas os esforços de recuperação e a busca por alternativas para aumentar a produtividade continuam, dada a escassez de combustível, fertilizantes e outros recursos.

Vários delegados relataram que, em resposta às dificuldades, estão mudando práticas e, entre outras opções, promovendo o plantio de raízes, vegetais e grãos para, antes de tudo, abastecer as comunidades onde vivem.

Eles também incentivaram as pessoas a explorar a terra de forma mais eficiente e aproveitar os escassos recursos disponíveis.

Em particular, várias áreas da ilha estão promovendo estratégias para restaurar o plantio, a produção e o comércio de arroz, feijão e milho.

A produção de leite, carne bovina, suína, pequenos animais e peixes também são priorizados, utilizando recursos locais e um esforço para reduzir as importações.

Para atingir esses objetivos, a Associação incentiva a aplicação da ciência, tecnologia, inovação e agroecologia, além de promover a implementação de programas de fomento ao desenvolvimento agrícola.

Por outro lado, houve consenso de que o bloqueio econômico do governo dos EUA dificulta o crescimento agrícola e pecuário do país, mas não é desculpa para ineficiências associadas a problemas organizacionais e à falta de uso generalizado de experiências frutíferas.

Além das questões econômicas, outras comissões analisam o fortalecimento estrutural da ANAP, bem como sua atuação política e ideológica, com ênfase no trabalho com os jovens.

O evento termina amanhã no Centro de Convenções de Havana sob o lema "Fortalecidos, Unidos e Produtivos".

O Congresso contou com a presença de 397 agricultores representando todas as categorias de membros da organização: usufrutuários, proprietários, arrendatários e famílias camponesas.

Nesta sexta-feira, também estão previstas a aprovação dos novos estatutos da organização e a eleição do Comitê Nacional da organização.

Amanhã, 17 de maio, Dia do Agricultor, que comemora a assinatura da Primeira Lei da Reforma Agrária, o relatório do evento será discutido em plenário.

Pequenos produtores e cooperativas administram 45% das terras aráveis ​​de Cuba; No entanto, eles geram de 70 a 80 por cento da produção que impacta a economia cubana e diretamente a nutrição da população.

terça-feira, 9 de abril de 2024

Ex-agente duplo lança livro para contar bastidores de projeto articulado pela CIA em Cuba * Katia Marko/Brasil de Fato

Ex-agente duplo lança livro para contar bastidores de projeto articulado pela CIA em Cuba
Raúl Capote passou por Porto Alegre para lançar o livro “Inimigo: A guerra da CIA contra a juventude cubana” e a Campanha Cuba Vive, Resiste!

Livro de Raúl Capote detalha Projeto Génesis, barrado pela contraespionagem cubana
Katia Marko
Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) 


Durante sete anos, o jornalista cubano Raúl Antonio Capote Fernández foi um agente duplo. Aconteceu entre 2004 e 2011. Nesta história real de contraespionagem, para a Central Intelligence Agency, a CIA, ele era um opositor do governo cubano. Na realidade, Capote agia para descobrir o que estava por trás do projeto Génesis, engendrado pela espionagem norte-americana e com os olhos postados na ilha do Caribe.


Sob o biombo de ONGs, o plano visava doutrinar jovens estudantes cubanos no exterior que, seduzidos pela ideia de “modernizar” Cuba, retornariam ao seu país para semear uma rebelião, usando primeiro as redes e depois as ruas, partindo para o confronto até o ponto de demandarem uma intervenção militar dos EUA. Uma primeira versão das “revoluções coloridas” que agitaram o Oriente Médio e parte do mundo no embalo das guerras híbridas para promover golpes de estado. Em Cuba, não deu certo porque Havana descobriu.

Agora, Capote está lançando o relato dessa aventura em português. É o livro “Inimigo: A guerra da CIA contra a juventude cubana”. Publicado em Cuba em 2012, já recebeu edições em italiano, alemão, turco e russo. Também será editado em inglês e vai virar série de TV. Editor do Granma Internacional, também professor e escritor, Capote passou por Porto Alegre para lançar o livro e a Campanha Cuba Vive, Resiste, e conversou com Brasil de Fato RS. Confira:

Brasil de Fato RS - O que podes contar dessa história que trazes no livro?

Raúl Capote - Escrevi o livro em 2012. É um testemunho baseado em histórias reais, mais do que baseado, é absolutamente real. É a história de um agente secreto cubano que trabalhou durante mais de sete anos dentro da CIA, a agência central de inteligência dos Estados Unidos. Sete anos trabalhando em um projeto da CIA dirigido à juventude, sobretudo aos jovens universitários cubanos, tratando de construir uma liderança contrarrevolucionária.

Em 2004, quando se começa a contar essa história, os EUA decidiram mudar a política em relação a Cuba. Reconhecem que tudo o que fizeram durante tantos anos fracassou. Necessitavam preparar-se para o que ocorreria na direção do país. Prepararam-se para 10 ou 15 anos, quando Fidel já não estivesse, para impedir a continuidade revolucionária. O projeto se chamou Génesis.

A CIA criou um plano destinado para estudantes cubanos a serem formados na Europa

BdF RS - Génesis...

Raúl Capote - Começa com um ponto essencial para o trabalho que era a formação de uma nova liderança. Cria-se um plano (direcionado) a jovens estudantes cubanos a serem formados na Europa e com um vínculo estreito com organizações não governamentais. Elas financiariam os projetos.

Após esses 10 ou 15 anos, depois de cursos de pós-graduação, mestrado, doutorado, iriam para os serviços, a economia, a política, as forças armadas, os meios de comunicação. E isso iria formando uma rede com vínculos de formação ao governo estadunidense e, sobretudo, com a CIA. Ainda que não soubessem, porque acreditavam que realmente estavam sendo patrocinados por uma ONG.

BdF RS - Essas ONGs estavam atuando dentro de Cuba?

Raúl Capote - Sim, era um plano interno contra a revolução. A outra parte do projeto implicava desenvolver uma intensa guerra no terreno das ideias, da cultura, usando a indústria do entretenimento. Uma guerra muito sutil…

BdF RS - Conhecemos bem ela...

Raúl Capote - Foi criado para esse projeto secreto um canal offline. Criou-se um público. Parecia algo sem consequências. Bem, que bom, as pessoas querem ver televisão. Eram programas elaborados especialmente para Cuba. Alguns eram conhecidos e outros elaborados unicamente para Cuba.

A ideia era criar em Cuba uma massa crítica de pessoas que não acreditavam na revolução. Nunca foram contrarrevolucionários. Eram pessoas a quem não interessava a revolução para nada. Utilizavam-se os manuais das revoluções coloridas e, sobretudo, a experiência dos iugoslavos do movimento OPOR.

BdF RS - Como é o nome?

Raúl Capote - OPOR. Atuou contrarrevoluções na (antiga) Iugoslávia. Aparentava ser um movimento estudantil, independente, mas estava sendo dirigido por esta mesma estratégia. Havia criado o Canvas (sigla em inglês para “centro para conflito e estratégias não-violentas”).

BdF RS - Não-violenta?

Raúl Capote - Uma nova estratégia desenhada pela CIA que busca (derrubar um governo) com o menor esforço possível, sem nenhum armamento.

Começariam a atuar esses jovens treinados nas 150 ações para acabar com o governo

BdF RS - Sim, através da ideologia...

Raúl Capote - Tinham um manual chamado “Manual para pôr fim a uma ditadura" com 150 ações a serem feitas. Diz que, eliminando-se os pilares que sustentam um governo, ele cai, em implosão. A ideia é provocar o caos. Não que o governo renuncie, mas que não possa governar. Esse é o sentido da estratégia.

Era previsto (em Cuba) que fosse em 2019. Antes disso, houve uma mudança na política para Cuba. Tudo teve sentido. Nada foi casual. Diziam que a estratégia de confrontação direta não dava resultado e que era preciso recorrer à sedução. Queriam ganhar o cubano e acabar com a revolução impedindo sua continuidade quando Fidel morresse.

"A ideia era criar em Cuba uma massa crítica de pessoas que não acreditavam na revolução" / Foto: Ricardo Haesbaert

Evitando qualquer choque com as autoridades, nos dizíamos uma agência literária que promovia a obra, o autor e nos permitia atuar dentro de Cuba. Foi se ampliando, criando grupos de pensamento, muito suave, sem chamar atenção.

Apresentava-se como uma organização nascida nas universidades, integrada por jovens cubanos, acadêmicos, artistas plásticos, pintores, músicos, líderes sociais. Que proporia à Cuba uma alternativa à via socialista. Queria “modernizar o socialismo”. Não se apresentava como um grupo de direita ou de centro, mas como esquerda cujo único objetivo seria “modernizar o socialismo”. A palavra da organização era mudança.

BdF RS - Que tipo de mudança?

Raúl Capote - Não sabíamos para onde. Era engenhoso. Dizia-se “Não vamos destruir a revolução, não vamos acabar com o socialismo. Queremos modernizar. Vamos mudar”. O que havia atrás disso era uma proposta de privatização. Era muito neoliberal o projeto. Eu pensava: “Vão gerar uma grande confusão”.

E é nesse ambiente que haveria eleição. Começariam a atuar esses jovens treinados nas 150 ações para acabar com o governo. Sairiam às ruas a manifestar-se, a tomar e destruir instituições, provocar as autoridades, chocar-se com a polícia. A missão era deixar o país absolutamente ingovernável.

BdF RS – E o objetivo era uma intervenção militar?

Raúl Capote - Exato. Nessa situação de caos, o líder dessa organização deveria solicitar intervenção militar ao governo dos Estados Unidos. Seria um pedido para “garantir a tranquilidade e evitar derramamento de sangue”. Planejavam que a ocupação militar se prolongaria por três ou quatro anos até se criarem condições para celebrar “eleições livres”.

E nisso aplicariam o que estabelece a lei Helms-Burton (aprovada no governo Clinton, em 1996, para ampliar o bloqueio contra Cuba) em seu capítulo 1º. A Helms-Burton converte o bloqueio em lei estadunidense. Nenhum presidente pode opinar. Tem que reunir o congresso dos EUA e eliminar essa legislação com maioria. E o presidente poderia vetar ou não.

Em meio ao caos, a organização pediria intervenção militar aos EUA

Uma das razões fundamentais para o bloqueio é a exigência dos EUA de indenização para os donos de propriedades nacionalizadas em Cuba em 1958, quando triunfou a revolução. Falam em 90 bilhões de dólares. Como um pequeno país pagaria essa dívida?

É uma lei que sanciona os bancos que utilizam o dinheiro cubano, os barcos que levam produtos a Cuba. Significa um fechamento quase total do acesso de Cuba ao sistema financeiro e ao comércio internacional. É um plano estadunidense de colonização, de anexação. O propósito do projeto Genesis era garantir que isso acontecesse. Mas acaba antes porque o governo de Cuba denuncia o projeto em 2011.

BdF RS - O governo cubano então já sabia do projeto.

Raúl Capote - Desde o princípio.

BdF RS - Já estavas como agente?

Raúl Capote - Prefiro dizer que trabalhava como agente do povo cubano. Para se entender que coisa é um serviço de segurança como o cubano, é preciso outra compreensão do que as pessoas entendem como serviço de segurança. Fazíamos um serviço de segurança popular com pessoas que trabalhavam por convicção.

Sempre existiu um projeto coletivo porque é o segredo da resistência de Cuba

BdF RS - Te oferecestes para ser?

Raúl Capote - Sim e, como eu, milhões de pessoas em Cuba. É a estratégia de se antecipar a qualquer ação estrangeira. De que maneira um país que está a 150 km dos Estados Unidos, praticamente desarmado, sem recursos para enfrentar uma potência como essa, pode sobreviver? A única forma é sabendo o que vai acontecer. Antecipando-se sempre. Foi uma estratégia que Fidel (Castro) desenhou muito bem. De ter sempre pessoas que eram fiéis. Não recebíamos um centavo do Estado. É um tipo de trabalho que se faz de maneira voluntária por muita gente.

BdF RS - Foi assim também com a Rede Vespa? (*)

Raúl Capote - Isso. Não eram profissionais de espionagem. Eram pessoas como quaisquer outras.

BdF RS - O próprio Tony (Guerrero) era engenheiro, não é?

Raúl Capote - Engenheiro, professor universitário, jornalista. Não tinha vínculo, nenhum tipo de preparação, inclusive, para fazer um enfrentamento como esse. O que acontece é que a CIA foi se acercando. Ou me convertia em traidor do meu povo e país ou defendia Cuba. Não havia terceira opção. Cuba é um projeto coletivo. Sempre existiu um projeto coletivo porque é o segredo da resistência de Cuba. Se tivesse uma ditadura não seria possível. Nenhuma ditadura dura 62 anos dessa maneira, a não ser que seja, absolutamente...

Não é uma guerra contra o socialismo. É uma guerra contra a independência, a insubmissão

BdF RS - Defendida pelo povo...

Raúl Capote - É um projeto de que participa a maioria dos cubanos. Sente-se parte do que se faz. Sente-se parte da defesa do país, do que se produz, do que o país faz. Da maneira como funciona a nação. Não somos um país perfeito e temos muito o que evoluir. Nos equivocamos também e fizemos coisas que não eram para o momento. E é a base que a converteu em um inimigo declarado dos EUA, que não admite, sob nenhum princípio, que a ilha sobreviva e seja independente.


Não se trata de socialismo. Não se trata de que Cuba construiu um sistema socialista, como as pessoas pensam. É porque a ilha é independente. É parecido com o que o império francês fez ao Haiti, no século 19. O plano aplicado contra o Haiti é o mesmo que os EUA fazem contra nós. A França bloqueou o Haiti, impondo-lhe uma indenização ao antigo colono francês. E o Haiti não teve remédio senão pagar à coroa francesa com o dinheiro que a França lhe emprestou. Não se trata de uma guerra contra o socialismo. É uma guerra contra a independência. Contra a insubmissão.

"A história aqui contada é real e faz parte da epopeia do povo cubano" / Divulgação

O Haiti seguiu seu próprio caminho e sofreu a consequência. Passou anos pagando a dívida da França depois de um embargo. E, depois, os EUA roubaram tudo que havia no Haiti que, até hoje, está pagando o preço de haver sido a primeira República livre da América.

Em Cuba, o governo (em 1958) não era socialista. O que cria conflito é a lei da reforma agrária. Mas a reforma agrária estava na Constituição cubana desde 1940! Ou seja, sequer é uma invenção da revolução.

Cuba era um estado narco-mafioso, subordinado aos interesses americanos. Foi isso que Fidel e os cubanos enfrentaram

BdF RS - Quando sofremos o golpe militar em 1964 também, o presidente Jango queria fazer a reforma agrária.

Raúl Capote - O grande tema foi esse: o bloqueio de guerra contra Cuba nasce da lei da reforma agrária. E a primeira medida foi "Não lhe compramos o açúcar”!

E o mercado do açúcar cubano eram os Estados Unidos.

Quando Cuba avisa que venderá o açúcar aos soviéticos, os EUA dizem que não lhes venderão petróleo. Então, os russos dizem “Bem, nós vendemos o petróleo”. Mas as refinarias em Cuba eram americanas. E, então os EUA dizem: “Não refinaremos o petróleo soviético”.


Foi aí que tudo começou. O conflito começa antes de Cuba se declarar socialista. É simplesmente uma revolução democrático-burguesa e nacionalista que está a tentar recuperar a sua economia e fazer justiça.

Foi uma guerra contra a independência e um ato de vingança por ter tirado a riqueza dos antigos proprietários que possuíam 82% das melhores terras de Cuba.

A norte-americana United Fruit Company era dona das terras de um lado a outro do país. Estavam em mãos dos EUA as minas, refinarias e fábricas. Hotéis e cassinos pertenciam à máfia ítalo-americana. O ditador Fulgencio Batista morava nos EUA e tinha laços estreitos com o mafioso Lucky Luciano. Deu um golpe de estado e construiu o império de Havana, liderado por Meyer Lansky, nada mais nada menos do que o banqueiro da máfia. Era um estado narco-mafioso, totalmente subordinado aos interesses americanos. Foi isso que Fidel e os cubanos enfrentaram.

A estratégia seguida contra Kadhafi foi semelhante ao que queriam fazer em Cuba

BdF RS - Voltando à operação denunciada em 2011...

Raúl Capote - Muitas coisas estavam sendo preparadas e não só contra Cuba. Naquela época, ainda não se conhecia esse tipo de estratégia. Agora está se tornando muito popular com todo mundo falando em guerra híbrida...

BdF RS - O Brasil também viveu isso.

Raúl Capote - Agora temos 1 milhão de gurus especializados em como travar guerras não convencionais. Naquele tempo, ainda não se falava em revoluções coloridas e golpes suaves. Por isso é tão importante denunciar.

O que aconteceu na Líbia foi muito semelhante. A estratégia seguida contra (o líder líbio Muammar) Kadhafi foi semelhante ao que pretendiam em Cuba. Muito parecida com o que ocorreu no Oriente Médio com as revoluções árabes. O livro foi escrito para explicar do que se tratava. Foi traduzido para o italiano, alemão, turco, russo e agora português. E vai ser traduzido para o inglês. Tenho também um canal no YouTube onde tenho o livro narrado em espanhol. E está sendo produzida uma série de TV baseada nele.

BdF RS - Como será a série?

Raúl Capote - Planejamos fazer uma série que tenha muito mais alcance, seguindo o princípio de torná-lo (o livro) compreensível. Algo que comunique. Real, mas usando elementos de ficção. Copiando até um pouco os cânones de Hollywood, do cinema e das séries americanas: muita ação, velocidade, muitos cortes rápidos.

Cuba não pode solicitar empréstimo a nenhum banco do mundo

BdF RS - Em meio à pandemia, o governo Trump não apenas reforçou o bloqueio, mas também incluiu Cuba na Lista de Estados Patrocinadores do Terrorismo. O que isso significa?

Raúl Capote - Sim, estava na lista havia muito tempo, mas estar na listagem não significava o que representa hoje. Depois, Barack Obama retirou Cuba da relação de países patrocinadores do terrorismo. Mas Donald Trump mais uma vez nos incluiu, poucos dias antes de sair da presidência. Nem houve tempo para um debate no Congresso dos EUA sobre o assunto.


A inclusão de Cuba agora agrava muito a situação porque o alcance que a lista tem hoje é muito maior. O fato de sermos considerados um país terrorista, embora seja uma lista criada pelos EUA, impede os bancos de admitirem as transações comerciais cubanas. Ou seja, Cuba não pode comprar. Na China, sim. Mas não se pode ir à China com uma pasta de dinheiro e comprar um trator.

No mundo inteiro, para você comprar isso, faz através dos bancos. Faz uma transferência bancária e compra o que quiser. Bem, Cuba não pode. Não pode solicitar empréstimo a nenhum banco do mundo. Os bancos não podem te dar porque Cuba é um país terrorista, segundo a lista infame.

Pune as companhias de navegação. Se uma companhia marítima transporta um produto para Cuba, está transportando algo para um país que é acusado pelos EUA de ser terrorista. Portanto, essa transportadora pode ser sancionada. E não o fará.

Se um barco toca num porto cubano, tem que esperar seis meses para tocar num porto norte-americano

Complica muito o dia a dia dos cubanos porque aborda coisas essenciais. Por exemplo, se o combustível não entra, a eletricidade não pode ser gerada. Dependemos em grande medida dos combustíveis fósseis. Estamos tentando alcançar a independência nesta matéria, mas isso não acontece em dois anos. Exige anos e recursos e créditos que não temos. Paralisa o seu transporte.

Cria um problema sério em todos os sentidos e também visa dívidas. Por exemplo, Cuba tem uma dívida com um país por uma compra, algo normal em qualquer lugar. Mas você não pode pagar porque não tem como fazer chegar ao outro o dinheiro que deve. Por isso é tão importante que Cuba se livre disso. Não é nada justo porque aquilo de que está sendo acusada não faz o menor sentido.

BdF RS - Existem ainda mais sanções, não?

Raúl Capote - A lei Torricelli, que é outra das leis do bloqueio, diz que se um barco toca num porto cubano, tem que esperar seis meses para tocar num porto norte-americano. Então, a companhia marítima vai trazer uma carga para Cuba e perder o mercado norte-americano? Não vai. E sancionam também os capitães dos navios. Sancionam individualmente os proprietários dos navios ou das companhias marítimas num sistema de punições severas contra quem pensa negociar com Cuba.

Cuba é um dos poucos países do mundo onde uma bandeira americana nunca foi queimada

BdF RS - Uma ilha tão pequena e ameaça tanto os Estados Unidos...

Raúl Capote - Porque decidiu seguir seu próprio caminho. Nunca fomos inimigos dos EUA. Nunca declaramos guerra aos EUA, nunca cometemos um ato de agressão contra eles. É um dos poucos países do mundo onde uma bandeira americana nunca foi queimada. Em Cuba, é proibido queimar a bandeira americana. É um país com laços culturais estreitos, inclusive laços familiares sólidos, porque há cubanos que vivem do outro lado.


Muita gente mora nos EUA desde antes de 1959. Minha família morou lá na década de 1930. Esse fluxo sempre ocorreu porque eles são muito próximos. Porém, na medida em que Cuba resistiu, piorou. Ou seja, não aceitou nenhuma proposta desonrosa que vá contra os seus princípios.

Sempre estivemos dispostos a dialogar, mas em igualdade de condições. Eles sempre impuseram condições. Mas não têm o direito de nos impor condições e muito menos de nos pedir que renunciemos ao que a maioria dos cubanos escolhe. Não é decisão de um homem, nem de um grupo de pessoas. É a decisão de todo um povo.

BdF RS - O filme O Poderoso Chefão mostra bem a relação do (ditador Fulgencio) Batista com a máfia americana, não?

Raúl Capote - Tem um livro chamado O Império de Havana, do jornalista Enrique Cirules, que é maravilhoso, um trabalho investigativo fantástico. Todas as tardes um barco ligava Havana à Flórida. Fazia duas viagens por dia, uma de manhã e outra à tarde. O dinheiro da máfia saía na balsa para os EUA. Apenas do Riviera Hotel e do Riviera Casino, saia 1 milhão de dólares. Imagine 1 milhão de dólares na década de 1950. Batista também recebia sua parte. Foi um grande negócio.

Era um Estado mafioso onde se podia fazer o que quisesse. Luis Santos, traficante, membro da máfia italiana, foi senador da República em Cuba. Era um narco-estado. O plano de Batista era construir quilômetros de hotéis com cassinos, enquanto a maior parte do país passava fome. Foi a primeira ditadura que utilizou a tortura elétrica como método. Experiências que, depois, foram aplicadas nos regimes golpistas da América Latina.

(*) Rede de contraespionagem cubana presente em Miami nos anos 1990 para descobrir os responsáveis por atentados terroristas praticados contra Cuba. Cinco de seus integrantes – Tony Guerrero, Gerardo Hernández, Ramón Labañino, Fernando González e René González – foram presos e receberam sentenças de até 22 anos de prisão nos EUA. As condenações receberam críticas e oito Prêmios Nobel pediram a libertação dos cubanos. No governo Barack Obama foram libertados através de troca por espiões norte-americanos presos na ilha. O drama foi contado no livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, e no filme Wasp Network: Rede de Espiões, de Olivier Assayas.

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segunda-feira, 27 de março de 2023

CARTAS A CHÊ GUEVARA * FREI BETTO-SP

CARTAS A CHÊ GUEVARA - I

FREI BETTO/SP

Querido Che,

Passaram-se muitos anos desde que a CIA te assassinou nas selvas da Bolívia, em 8 de outubro de 1967. Tu tinhas, então, 39 anos de idade. Pensavam teus algozes que, ao cravar balas em teu corpo, após te capturarem vivo, condenariam tua memória ao olvido. Ignoravam que, ao contrário dos egoístas, os altruístas jamais morrem.

Mudanças radicais ocorreram nesses trinta e seis anos. O muro de Berlim caiu e soterrou o socialismo europeu. Muitos de nós só agora compreendem tua ousadia ao apontar, em Argel, em 1962, as rachaduras nas muralhas do Kremlin, que nos pareciam tão sólidas.

Quem sabe a história do socialismo seria outra, hoje, se tivessem dado ouvido às tuas palavras: “O Estado às vezes se equivoca. Quando ocorre um desses equívocos, percebe-se uma diminuição do entusiasmo coletivo devido a uma redução quantitativa de cada um dos elementos que o formam, e o trabalho se paralisa até ficar reduzido a magnitudes insignificantes: é o momento de retificar”.

Che, muitos de teus receios se confirmaram ao longo desses anos e contribuíram para o fracasso de nossos movimentos de libertação. Não te ouvimos o suficiente. Da áfrica, em 1965, escreveste a Carlos Quijano, do jornal Marcha, de Montevidéo: “Deixe-me dize-lo, sob o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem essa qualidade”.

Alguns de nós, Che, abandonaram o amor aos pobres que, hoje, se multiplicam no mundo. Deixaram de se guiar por grandes sentimentos de amor para serem absorvidos por estéreis disputas partidárias e, por vezes, fazem de amigos, inimigos, e dos verdadeiros inimigos aliados. Minados pela vaidade e pela disputa de espaços políticos, já não trazem o coração aquecido por ideais de justiça.

Quando o amor esfria, o entusiasmo arrefece e a dedicação retrai-se. A causa como paixão desaparece. O que era “nosso” ressoa como “meu” e as seduções do capitalismo afrouxam princípios, transmutam valores e, se ainda prosseguimos na luta, é porque a estética do poder exerce maior fascínio que a ética do serviço.

Teu coração, Che, pulsava ao ritmo de todos os povos oprimidos e espoliados. Saíste todo o tempo de ti mesmo, incandescido pelo amor que, em tua vida, se traduzia em libertação. Por isso podias afirmar, com autoridade, que é preciso ter uma grande dose de humanidade, de sentido de justiça e de verdade para não cair em extremos dogmáticos, em escolasticismos frios, em isolamento das massas. Todos os dias é necessário lutar para que este amor à humanidade viva se transforme em fatos concretos, em gestos que sirvam de exemplo, de mobilização”.

Quantas vezes Che, nossa dose de humanidade ressecou-se calcinada por dogmatismos que nos inflaram de certezas e nos deixaram vazios de sensibilidade com os dramas dos condenados da Terra! Quantas vezes nosso senso de verdade cristalizou-se em exercício de autoridade.

Apesar de tantas derrotas e erros, tivemos conquistas importantes. Movimentos populares irromperam em todo o continente. Hoje, em muitos países, são mais bem organizados as mulheres, os camponeses, os operários, os índios e os negros. Entre os cristãos, parcela expressiva optou pelos pobres engedrou a Teologia da Libertação. Extraímos s consideráveis lições das guerrilhas urbanas dos anos ; da breve gestão de Salvador Allende; do governo democrático de Maurice Bishop, em Granada, massacrado pelas tropas dos EUA; da ascenção e queda da Revolução Sandinista; da luta do povo de El Salvador. No Brasil, o Partido dos Trabalhadores chegou ao governo com a eleição de Lula na Guatemala, as pressões indígenas conquistam espaços significativos no México, os zapatistas de Chiapas põem a nu a política neoliberal.

Há muito a fazer. De onde estás, Che, abençoa todos nós que comungamos teus ideais e tuas esperanças. Abençoa todos nós que, diante de tanta miséria a erradicar vidas humanas, sabemos que não nos resta outra vocação senão converter corações e mentes, revolucionar sociedades e continentes. Sobretudo, abençoa-nos para que, todos os dias, sejamos motivados por grandes sentimentos de amor, de modo a colher o fruto do homem e da mulher novos.

CARTAS A CHÊ GUEVARA II

Querido Che,

Trinta anos após seu assassinato na Bolívia, escrevi-lhe a primeira carta aberta. Agora, às vésperas de se completarem 50 anos, no dia 8 de outubro de 2017, volto a escrever-lhe esta nova carta.

Você deu a vida pela libertação da América Latina e de todos os povos oprimidos. Seu exemplo simboliza uma esquerda que, dentro da própria esquerda, é considerada romântica. Há companheiros e companheiras que miram a sua trajetória como equivocada por ter valorizado a luta armada e mergulhado nas selvas da Bolívia, acreditando que a penúria em que viviam os camponeses seria um fator propício a despertar-lhes a consciência política.

Não concordo com tais críticas. Considero-o um asceta da utopia. Não eram os conceitos marxistas que, prioritariamente, o mobilizavam. Era a sensibilidade indignada frente à miséria e ao desamparo. Por isso se fez médico. E por isso percorreu a América Latina para, voluntariamente, cuidar de enfermos desprovidos de recursos. A dor humana o comovia. A exclusão social o revoltava. O marxismo serviu-lhe de método para desvendar as causas da injustiça.

Essa busca o levou ao México e, lá, a unir-se aos revolucionários cubanos, sobreviventes do ataque ao quartel Moncada, em 1956, na luta contra a tirania de Fulgêncio Batista. Além de médico em Sierra Maestra, você se destacou como líder guerrilheiro e se tornou um dos comandantes do Exército Rebelde. Vitoriosa a Revolução Cubana em 1959, você ocupou funções ministeriais importantes, inclusive a presidência do Banco Central, para forjar os alicerces da sociedade socialista da ilha revolucionária.

Você estava em paz consigo mesmo e com a história, querido Che. Poderia ter permanecido em Cuba até o fim de seus dias. No entanto, ousou fazer um gesto semelhante ao do jovem Francisco de Assis, no século XIII: abandonou o poder e, anonimamente, deslocou-se para o Congo e, em seguida, para a Bolívia, coração da América do Sul, movido pelo sonho de emancipar a Pátria Grande Latino-Americana. Como me disse Fidel, fosse você católico, a Igreja o proclamaria santo, como fez com a guerreira francesa Joana D’Arc.

Os tempos mudaram e, hoje, guerrilhas já não se justificam na América Latina. A última que resta, a das FARC na Colômbia, busca em Havana um acordo de paz com o governo colombiano. Isso não significa que a luta armada esteja definitivamente riscada da agenda da esquerda. Na atual conjuntura democrática, na qual não nos defrontamos com regimes ditatoriais, a luta armada interessa apenas a dois setores: à extrema direita e aos fabricantes de armas.

Porém, se no futuro as vias democráticas forem de novo suprimidas, não restará ao nosso povo senão o recurso tomista do tiranicídio. Quando a força do direito é negada pelos opressores, não resta aos oprimidos senão o direito à força.

A atual conjuntura do nosso continente é substancialmente diferente da que você conheceu nas décadas de 1950 e 1960, e também de quando lhe escrevi a primeira carta aberta, em 1997. Nos últimos 50 anos, a América Latina passou por três grandes ciclos. Primeiro, a partir de 1960, as ditaduras que proliferaram por quase todos os países da região, patrocinadas pelo sucessivos governos dos EUA. Elas deixaram um rastro indelével de sangue mas, felizmente, foram vencidas pelas forças democráticas.

Em seguida, veio o ciclo dos governos “messiânicos” neoliberais: Collor no Brasil; Menem na Argentina; Fujimori no Peru; Caldera na Venezuela; García Meza na Bolívia etc. Todos fracassaram e, nas urnas, foram rechaçados pelo povo.

Após um breve período de governos social democratas, a via democrática burguesa não impediu o surgimento de governos democrático-populares: Ortega na Nicarágua; Chávez e Maduro na Venzuela; Lula e Dilma no Brasil; Morales na Bolívia; Salvador Sánchez en El Salvador; os Kirchner na Argentina; Correa no Equador; e Mujica no Uruguai.

Agora, Che, parece que esse ciclo progressista se esgota. Se salva Cuba, a única nação socialista da América Latina e do Ocidente. É nosso dever indagar por que nossos governos de centro-esquerda não lograram conquistar sustentabilidade. Atribuir a causa apenas à ofensiva imperialista estadunidense é fácil. Difícil é fazer autocrítica e admitir os erros cometidos, de modo a superar o atual impasse.

Nossos governos democrático-populares confiaram demasiadamente na reprimarização de suas economias. Investiram prioritariamente no mercado de commodities. Adotaram uma política de expansão agropecuária e extrativista profundamente danosa ao meio ambiente e às comunidades rurais, indígenas e quilombolas.

Graças à alta do preço do barril de petróleo, e também de minerais e produtos do agronegócio, como a soja e a carne, nossos governos amealharam suficientes recursos para equilibrar suas contas, romper vínculos com o FMI, reunificar a América Latina e o Caribe, tirar Cuba do limbo diplomático e, sobretudo, financiar programas sociais que livraram da miséria milhões de famílias. Contudo, não souberam aproveitar a maré favorável para tornar nossos países menos dependentes das flutuações do comércio exterior e das oscilações econômicas das nações metropolitanas.

A estratégia para promover a inclusão dos mais pobres foi equivocada – pela via do consumo. Não se propiciou a eles condições de produção e, portanto, emancipação. Não se tocou nas estruturas que, ainda hoje, fazem de nosso continente o primeiro em desigualdade social.

No caso do Brasil, os pobres foram integrados como consumidores, e não como cidadãos. Tiveram acesso a bens pessoais (celular, computador, geladeira, TV, micro-ondas, fogão etc.) e não a bens sociais de qualidade (educação, saúde, moradia, saneamento, transporte coletivoetc.). Alguns de nossos governos julgaram, equivocadamente, que agradariam aos ricos ao evitar a revolta dos pobres, e também contentariam os pobres ao canalizar recursos, antes destinados aos ricos, a programas sociais.

Essa política compensatória contentou, principalmente, o sistema financeiro, responsável pela ampliação do crédito e beneficiado regiamente pelas extorsivas taxas de juros.

Frente à pobreza, adotou-se exatamente a receita prescrita pelo Banco Mundial: tratá-la com medidas administrativas, sem alterar as estruturas causadoras de desigualdade social. Não se promoveram reformas estruturais, como a agrária, a trabalhista, a política e a tributária.

Tal assistencialismo de Estado favoreceu a despolitização dos segmentos populares. Maquiou-se a luta de classes, pois o consumismo cria no pobre a ilusão de ascensão social, graças ao acesso a mercadorias impregnadas de fetiche ou a produtos símbolos de status, como celular e carro.

Ao contrário de Cuba, que criou uma cultura de resistência e partilha, em nossos países a consciência de classe foi ofuscada pela aspiração de alpinismo social. Muitos sonham em ser ricos, e a classe média se sente incomodada por ver o “pobretariado” ameaçando ocupar os seus espaços, inclusive o político, como a eleição a presidente de um metalúrgico no Brasil e de um índígena na Bolívia.

Abandonou-se o trabalho político de base. Acreditou-se que a máquina governamental seria suficiente para mobilizar a população. Não houve o cuidado de organizar politicamente os beneficiários dos programas sociais. E, no Brasil, o inimigo encontrou suficiente espaço para prosseguir utilizando a mídia segundo seus interesses, e revestir o seu discurso político de exacerbado moralismo, sobretudo no combate seletivo à corrupção, sem que os corruptos de direita fossem igualmente punidos.

Depois das análises de Piketty, querido Che, estou convencido de que não se erradica a pobreza sem combater a riqueza. Sem reduzir o poder da especulação financeira e priorizar a atividade produtiva. Sem impor regras ao capital financeiro e limites ao mercado. Sem abraçar convictamente um amplo programa de preservação ambiental, do qual os principais protagonistas têm que ser os que, hoje, são as maiores vítimas da degradação, os camponeses, os povos indígenas e os quilombolas.

Nem tudo, entretanto, está perdido. Há que guardar o pessimismo para dias melhores. Na base social, brilham luzes de esperança, como as mobilizações estudantis, operárias e camponesas; as iniciativas de economia solidária; o paradigma indígena do “bem viver”; os novos partidos que não se envergonham de afirmar que “o outro mundo possível” terá de ser socialista ou simplesmente não será, considerando que o capitalismo esgotou a sua cota de relativo humanismo após a queda do Muro de Berlim. Hoje, até o papa Francisco ousa denunciá-lo, considera-o uma “ditadura sutil”, como declarou em sua visita à Bolívia, em 2015, uma vez que, caída a máscara do capitalismo, é notória sua natureza bélica (guerras), excludente (refugiados e desempregados), desumana (apropriação privada da riqueza) e antiecológica.

Che, mais do que nunca nos enche de esperança e ânimo o seu testemunho exemplar de que, assim como o caminho se faz ao caminhar, a vitória se alcança ao lutar.

CARTAS A CHÊ GUEVARA III

Querido Che,

Escrevi-lhe em 1997 e 2011. Agora, vinte e seis anos depois da primeira carta, e doze da segunda, envio-lhe esta terceira.

Tenho ido com muita frequência à nossa amada Cuba. Em 2022, foram cinco visitas, quase todas por períodos de duas semanas. Não viajo como turista, e sim como assessor do governo cubano e da FAO para a implementação do Plan San, o Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional, já regularizado em lei aprovada pela Assembleia Nacional do Poder Popular.

A Revolução atravessa um momento muito difícil, resultado da soma de fatores adversos: o bloqueio genocida imposto pela Casa Branca, que já dura mais de 60 anos (Biden mantém as medidas criminosas do governo Trump que revogaram as flexibilizações adotadas pelo governo Obama); a pandemia, que fez refluir as atividades laborais e desaparecer os turistas que traziam divisas; as frequentes mudanças climáticas, como secas, tufões e furacões; e, agora, a guerra entre Rússia e Ucrânia, dois importantes fornecedores de insumos agrícolas e fertilizantes, e também de fluxos turísticos.

A população padece o desabastecimento de alimentos essenciais e ainda não houve tempo para o Plan San demonstrar resultados efetivos. O governo faz o que pode para minorar esse estado de coisas, como renegociar as dívidas do país e permitir investimentos estrangeiros. Felizmente, Cuba não figura no Mapa da Fome da ONU e não se vê nas ruas o cenário tão comum na maioria dos países do Continente, nos quais hordas de famílias desamparadas reviram o lixo em busca do que lhes possa aplacar a fome.

Sei bem, querido Che, que Cuba enfrentou, após a vitória da Revolução, períodos muito difíceis. E não soçobrou. Enfrentou a invasão mercenária de Playa Girón; a crise dos mísseis; atentados terroristas; o Período Especial após o desaparecimento da União Soviética. A resiliência cubana demonstrou força inquebrantável diante de tantas adversidades. Nenhuma delas fez diminuir a vocação internacionalista da pátria de Martí e sua solidariedade com povos carentes de médicos e professores ou afetados por calamidades naturais. O avanço da ciência cubana, capaz de produzir cinco vacinas contra o vírus da Covid-19, permite, hoje, que outras nações sejam beneficiadas com este recurso imprescindível frente à gravidade da pandemia.

No entanto é preocupante o aumento do fluxo migratório, em especial rumo aos EUA. Muitos deixam a Ilha – a maioria jovens – não por razões políticas, e sim por razões econômicas. São igualmente preocupantes a espiral inflacionária, o mercado paralelo de alimentos, a corrupção que ameaça a moral revolucionária.

O que diria você, querido Che, diante dessa desafiadora conjuntura? Talvez haja quem imagine que você dissesse que o comando da Revolução ficou prejudicado com o desaparecimento físico de Fidel e o afastamento de Raúl das funções de governo. Isso não me soa justo. Diaz-Canel é um homem preparado, teve desempenho exitoso no combate à pandemia em Cuba, e o Birô Político e a direção do PCC são integrados por homens e mulheres de comprovada capacidade e firmeza revolucionárias.

Contudo, uma revolução não pode depender apenas de sua superestrutura de governo. Isso ocorre nas democracias burguesas, onde o povo é tido como beneficiário das iniciativas governamentais, majoritariamente voltadas aos interesses da classe dominante.

Na democracia socialista o governo é, por excelência, o povo politizado, organizado e mobilizado. Talvez falte maior empenho na formação ideológica das novas gerações, hoje muito conectadas com as redes digitais que, controladas por corporações capitalistas (big techs), disseminam a ideologia marcadamente consumista e individualista.

Em Cuba, é preciso transformar as redes digitais em trincheiras revolucionárias. E fortalecer política e ideologicamente as organizações de massa, como os CDRs. Você e Fidel são a prova, a exemplo de Martí, que adversidades são vencidas com firmeza ideológica. Se as condições objetivas não são favoráveis ao desenvolvimento das forças produtivas, então é preciso priorizar o aprimoramento das forças indutivas – aquela disposição subjetiva que fez do fracasso de Moncada a vitória de Sierra Maestra, ou da sua morte nas selvas da Bolívia um icônico alento a tantas gerações de revolucionários.

Não se pode reduzir a proposta socialista ao consumismo burguês. Ela deve se sustentar nas raízes da subjetividade, nos valores morais tão enfatizados por Martí, na espiritualidade combativa de Fidel, no seu exemplo ao dar a vida para que o povo latino-americano e caribenho tivesse vida.

Querido Che: sua emulação, sua ética revolucionária, seu testemunho despojado de quem não se apegou ao poder, são qualidades essenciais na atual conjuntura de Cuba. É imprescindível que as novas gerações conheçam sempre mais o seu exemplo e a sua obra e, martinianamente, sejam dotadas desse sentimento de amor que forja o homem e a mulher novos. Como declarou Fidel, “hago una apelación a nuestros militantes, a nuestros jóvenes, a nuestros estudiantes, nuestros economistas, para que estudien y conozcan el pensamiento político y el pesamiento económico del Che”[1]

* Frei Betto é escritor, autor de Paraíso perdido – Viajes por el mundo socialista – Editorial de Ciencias Sociales, La Habana, Cuba, 2016, entre otras obras. Site: freibetto.org