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domingo, 24 de outubro de 2021

Comemorando a delinquência * Jeanderson Mafra / MA

 Comemorando a delinquência

Jeanderson Mafra/MA

Neste exato momento, vários fogos de artifício se ouvem em alguns
bairros de São Luís. São conglomerados de grupos – em sua maioria
jovens e adolescentes – que dizem pertencer a facções criminosas. É
“aniversário” de uma destas facções.

Enquanto escrevo estas linhas, não cessam os folguedos, e em minha
simplória análise, como agente de segurança pública – consciente da
violência urbana ao meu redor – o Estado falhou e continua a falhar
sobre a questão da segurança pública.

O “Pacto Pela Paz” estadual, tentativa nobre e relevante para as
periferias, é apenas um slogan sem efeito prático, cheio de defeitos e
inaplicabilidades. Em suma, um nome bonito colocado no papel e para se
usar no palanque político.

Esses jovens, em sua maioria negros e miseráveis das periferias de São
Luís, não têm sequer, de escolaridade, o nível fundamental menor e a
grande maioria não tem o que comer no almoço e jantar.

São um exército de delinquentes sem nenhuma perspectiva de “futuro” e
que se constituíram graças “ao apoio ‘inconstitucional'” do Estado,
que se quedou somente a fazer-se presente nas periferias como “Estado
Policialesco”. Sim, a única presença estatal nas periferias de São
Luís é sob a forma de camburões da Polícia Militar (o que é importante
sim, pois todos sabemos que segurança é direito do cidadão). O que
acontece – e só nós, favelados, sabemos – é que os camburões não estão
na periferia para nos dar “segurança” e muito menos nos veem como
“cidadão”.

No aglomerado de bairros (Divinéia, Sol e Mar, Turu, Santa Rosa, Vila
Luizão, Alonso Costa, Araçagi) que formam a Vila Litorânea, e onde
ouço ecoar os folguedos em comemoração à delinquência, não há nenhum
Projeto Social para a infância e a juventude. As crianças brincam nas
ruas descalças e não há planejamento familiar. Os esgotos correm a céu
aberto até desembocarem, num grande braço de dejetos, no Rio Gangan e
Rio Anil.

Como você, caro leitor, pode inferir, nunca se implementou, nestes
bairros, saneamento básico algum e faltam remédios e vacinas nos
hospitais e postos de saúde próximos.

O número de HIV positivos são dos maiores de toda a Grande São Luís e
a dependência química não para de alçar voo entre a juventude.
Enquanto isso, a única proposta do governo estadual, mesmo não sendo
uma ordem direta (nunca é! – ao menos recentemente ) tem sido vigiar e
punir estes “corpos não-rentáveis”, como diria Foucault; dar-lhes o
famoso “baculejo”, encostá-los à parede, como a polícia sempre faz, e
isso quando não ocorre uma tragédia e mortes por intervenção policial
como vem ocorrendo nos últimos anos.

Na minha concepção, olhando de dentro do sistema e também por fora,
como residente no meio desse caos social, é urgente uma presença do
Estado como Cultura, Esporte, Saneamento Básico, Urbanização e
Moradia.

Só pra se ter uma ideia, o bairro onde nasceu uma das facções mais
violentas de São Luís, e no exato lugar onde eclodiu, é um emaranhado
de casas formando uma espécie de condomínio fechado por onde não
passam viaturas, ambulâncias, ônibus e nada mais a não ser os próprios
moradores regidos por um código de conduta do crime e do tráfico de
drogas que ali se estabeleceu. Não por ironia, a essa localidade deram
a alcunha de “Marrocos”, dado o seu amontoado de casas de alvenaria
mal acabadas e desreguladas que ali convivem.

Bem entendido, toda ausência de políticas públicas e promoção social
nos territórios discriminados pelo poder público é responsável por
essa lacuna e vazio de oportunidades. Toda esta situação empurra com
mais vigor a infância e a juventude rumo à marginalização, cada vez
mais presente no cotidiano periférico. Fazendo com que a única
“identidade” – e aí está a palavra chave para se entender o contexto –
com que estes indivíduos se revistam seja a “violência” e toda sua
disposição para a barbárie tão banalizadas nos jornais e programas
policiais sensacionalistas.

É necessário dizer que esses jovens e adolescentes que anualmente
empunham foguetes para comemorar o crime – mesmo não tendo dinheiro
para se alimentar adequadamente e fumem crack e cheirem pó bancados
pelo roubo – não empunham tais foguetes sozinhos. O Estado, com sua
negligência em várias áreas, empunha e comemora o crime junto com
eles.

O Estado é o Pai da Delinquência. Uma Delinquência que ele sempre se
nega a assumir, mas que possui, flagrantemente, o seu DNA.

São Luís, 19 de Outubro de 2019

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Quilombolas ameaçados! * Jeanderson Mafra/MA

Quilombolas ameaçados!

Comunidades quilombolas de Alcântara vivem ameaçadas desde a instalação do Centro de Lançamento de foguetes 

(CLA) na década de 80. Algumas famílias foram expulsas e outras resistem.


O Jornal Tambor dessa quarta-feira (20/10) vai ouvir Davi Pereira Junior. 


Ele é quilombola do Território Quilombola de Itamatatiua - Alcântara. É Antropogo, doutor em Estados Latinos Americanos e da Diáspora Africana pela Universidade do Texas. É voluntário do Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara.


Nessa entrevista, ela falará sobre o veto da Comissão do Senado americano para o uso de verbas para remoção da comunidades quilombolas de Alcântara.


*Confira o Jornal Tambor às 11h no:* 


*YouTube:* https://youtube.com/channel/UCSU9LRdyoH4D3uH2cL8dBuQ


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*Twitter:* https://twitter.com/Agencia_Tambor?s=08


Ouça também o TamborCast: agora você pode ouvir as entrevistas pelo:https://open.spotify.com/show/1HtbNu0vfMd8mFrQ4qRoYb

*


quarta-feira, 28 de julho de 2021

Violência policial no Maranhão * Jeanderson Mafra/MA

VIOLÊNCIA POLICIAL NO MARANHÃO

Flavio Dino omisso

NOTA DE REPÚDIO CONTRA O GOVERNO DO MARANHÃO FRENTE A POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA


Neste 27 de Julho nascia Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, covardemente assassinada por ex-policiais milicianos que sempre tem como argumento o estridente e tedioso barulho das armas. A mesma arma usada  contra o Padre Jósimo no Maranhão, a mesma arma utilizada contra a irmã Dorothy no Pará e a mesma arma utilizada contra tantos mártires da violência estatal que recruta da delinquência policial os mais carrascos servos da morte para os seus conglomerados de interesses político-empresariais em detrimento do povo pobre e que sempre lutou não pelo egoísmo e individualidade, mas pelo direito à terra e moradia, ou seja:

pelos interesses coletivos de sua gente. 


O Maranhão tem sido, mais ainda recentemente, um grande palco do conflito agrário, onde Jósimos e Gerôs continuam a ser assassinados pela brutalidade policialesca formada pelo Estado. 


Esta Nota é para lembrar que o povo pobre do Maranhão necessita urgente de proteção, necessita urgente de Segurança Pública, e por Segurança Pública entendemos uma Segurança para todos. Por Segurança Pública também entendemos um baluarte popular para a manutenção da democracia, da liberdade de expressão e proteção dos desfavorecidos, sem terra, sem moradia e sem assistência. 


A Polícia deve ser o elo entre o Povo e o Estado de Bem Estar Social. Não deve servir a uma lógica militarista herdada das incursões bandeirantes que dizimaram povos nativos e pretos. E para isso compreendemos ser também urgente devolver a humanidade dos policiais e construí-la com ênfase em todo o curso de formação para que o povo alcance nestes representantes do Estado a assistência pública que o seu ofício público requer. 


Ou então, estaremos continuamente condenados a assistir sucessivas tragédias como a do jovem médico,  em Imperatriz, assassinado por um agente do Estado; continuaremos a assistir o assasinato de Brunas Lícias, de Gerôs e de jovens autistas como Hamilton César Bandeira, de 23 anos, que foi assassinado após  sua casa ser invadida por policiais civis. 


Estamos em um tempo decisivo, onde podemos romper com a lógica militarista da Segurança Pública e servir ao povo e a democracia, no que exigimos ao Governo do Maranhão que cumpra o seu papel e mude a formação policial e devolva assim a paz que nosso Estado precisa. 


Nosso Luto pelas vidas ceifadas,  com sobrenome ou não, e nosso REPÚDIO ao Governo do Estado do Maranhão por sua negligência e por sua não-atuação estrutural no sistema de Segurança Pública, mantendo a lógica desumana e militarista da política de Segurança como arma quente voltada contra o Povo do Maranhão.