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quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Um desafio à Marx: lumpens organizados * Fernando Perissé / PB

Um desafio à Marx: lumpens organizados

Os fascistas ocuparam "militarmente" as redes sociais com um exército completo e bem equipado com comando tático e estratégico, linhas de comunicação e suprimento verticalizadas e rápidas e uma gigantesca retaguarda de produção de "munição" monetizada e até altamente lucrativa.

Desafiaram Marx e conseguiram organizar lumpens numa disciplinada tropa de combate - os Minions - e abriram trincheiras nos milhões de grupos de ZAP mistos, a maioria por eles criados e administrados.

Corações, mentes e multidões

Ali são travados intensos combates onde usam como arma a desinformação, agressões, ofensas e xingamentos e são cultivados o ódio e a intolerância, matérias-primas indispensáveis para a implantação de ditaduras fascistas

Para eles a Internet não é apenas uma nova mídia - como ainda a vêem as forças progressistas - mas milhões de assembleias populares aonde lutam todo o tempo para aprisionar corações e mentes.

Também é o principal instrumento de mobilização de multidões que são usadas como instrumento de pressão e até - como no caso de Dilma- para "legalizar" - golpes de estado.

Negacionismo de esquerda?

Os fascistas têm conseguido mobilizar multidões bem maiores do que as das forças progressistas só usando as redes e sem nenhuma inserção nos movimentos populares.

Já as forças progressistas minimizam o trabalho nas redes e dizem priorizar os movimentos de rua, usando, megafones, panfletos e bandeiraços e a Internet apenas como um quadro de avisos ou mídia auxiliar.

Têm amargado grandes decepções e o pior de tudo é que com essa estratégia equivocada deixaram desguarnecido o território em que o inimigo está atacando, facilitando o seu avanço e crescimento.

O ideal seria também atuarem nas redes sociais sem abandonarerm o corpo-a-corpo de rua, onde são imbatíveis.

A vanguarda exilou-se em bunkers de segurança máxima

Os poucos ativistas da vanguarda dos progressistas que chegaram a lutar nas trincheiras populares não resistiram às baixarias dos Minions e se exilaram em grupos só de progressistas onde eles são proibidos de entrar.

Participam agora apenas de poucos, pequenos e menos agressivos grupos mistos de Igreja, família, escola, condomínio, etc

Nas demais redes bloquearam - vibrando de alegria - os Minions - internautas, parentes e amigos - diminuindo mais ainda a dimensão e alcance do seu algoritmo. Caíram na armadilha dos fascistas: isolaram-se.

Formam hoje um grande arquipélago de bolhas sem ligação formal entre si e nem tampouco com as direções partidárias e dos movimentos sociais.

Nas redes sociais os progressistas falam apenas com progressistas - não atingindo as classes mais populares - numa comunicação horizontal, lenta, informal e ocasional.

A Resistência Popular

Nos territórios ocupados ficaram eleitores e admiradores das forças progressistas e seus líderes, quase todos sem nenhum vínculo partidário ou com movimentos sociais, com pouca consciência política e de classe e pertencentes ao lumpesinato.

Essa resistência popular se formou de forma espontânea. Um contingente grande mas fragmentado. Carente de um comando tático e estratégico, de linhas de comunicação e suprimento mais rápidas e principalmente de "munição" mais eficientes.

Perguntem ao Pepe Escobar se pode dar certo!

De um lado um Exército de Ocupação super organizado e equipado.

Do outro uma Resistência Popular não estruturada, fragmentada, sem comando, com linhas de comunicação lentas e sem munição eficiente.

Os fascistas já estão passando

O objetivo principal deste exército de ocupação é a destruição - física inclusive - das forças progressistas, suas lideranças, sua ideologia, sonhos e ideais.

Perderam algumas batalhas mas continuram avançando: hoje o número de pessoas que se declaram de direita já é o dobro dos que se dizem de esquerda.

As forças progressistas têm que acordar e se conectarem com a Resistência Popular já existente, fornecendo-lhe o apoio que necessita.

Caso contrário,
OS FASCISTAS PASSARÃO!

Fernando Perissè/PB
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domingo, 12 de fevereiro de 2023

A LETARGIA DA SOCIEDADE BRASILEIRA * Uribam Xavier/Segunda Opinião

 A LETARGIA DA SOCIEDADE BRASILEIRA

Por Uribam Xavier, no Segunda Opinião

Fevereiro de 2023


Quando Euclides da Cunha, na sua obra maior “Os sertões”, publicada em 1902, afirmou que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, talvez quisesse dizer, embora o sertanejo tenha resistido e derrotado por duas vezes as forças armadas, que ele era capaz de sobreviver às adversidades naturais do sertão e à exploração e ao domínio dos donos do capital, atributo que os dotavam de capacidades diferenciadas para suportar a servidão. Hoje, porventura, estamos constatando que parte dos brasileiros, aquela que se identifica com o pensamento político de esquerda e portadora de um pensamento crítico, seja portadora do medo de rupturas estruturais e do conflito violento com o poder, talvez, por medo de perder os privilégios de classe média num país de desigualdade brutal, comportamento bem diferente dos setores de extrema direita e fascistas que vêm se consolidando no país depois do golpe de 2016. Estes, com objetivos fascistas, colocam-se contra a ordem e forçam as esquerdas a serem o seu guardião, pois renunciaram a um horizonte político emancipador.


Na Argentina, no início de dezembro de 2022, quando a justiça condenou Cristina Kirchner por corrupção e lavagem de dinheiro, uma parte saiu às ruas para defender a prisão e outra para protestar contra esta, afirmando que se tratava de uma manobra política e jurídica para retirar Cristina da disputa pela presidência da República. No Peru, é impressionante a intensa mobilização e enfrentamento com a força policial que a maioria da população vem realizando desde 8 de dezembro de 2022, quando o presidente Pedro Castillo foi destituído e preso após tentar fechar o Congresso ao ser cassado. A população peruana, desde então, ocupa as ruas e vem se deslocando de várias partes do país para a capital pedindo a renúncia da presidenta Dina Boluarte e novas eleições gerais. O confronto da polícia com a população já produz mais de 60 mortos, mas ela não se retira das ruas, não se verga ao poder.


No Brasil, passamos quatro anos de mandato de Bolsonaro, assistindo, de forma pacífica ou adormecida, ao governo patrocinando e participando de atos antidemocráticos que pediam intervenção militar; assistimos, durante dois anos, ao governo comandando uma política genocida como forma de enfrentamento da pandemia da covid-19; assistimos aos atentados golpistas por meio do terrorismo aos três poderes no dia 8 de janeiro de 2023; e assistimos ao fato chocante revelado pelas imagens dos povos originários Yanomami vitimados pela política genocida de Bolsonaro e seus ministros, mas nada de mobilização nas ruas.


É assustador o adormecimento da sociedade brasileira que se diz crítica e de esquerda, parece que ela renunciou a participar do processo de intervenção estrutural da sociedade, aderiu à ideologia do fim da história e do sujeito político, esperando resolução dos problemas a partir de algum tipo de salvador da pátria (Lula), da combinação de ações atrapalhadas dos que mantêm a servidão e exploração dos corpos e das consciências coletivas, da providência divina ou, até mesmo, do acaso.


O comportamento do brasileiro de esquerda é esdrúxulo, ele afirma, por meio das mídias sociais, “não à anistia”, mas espera, juntamente com os seus, tomando cerveja na mesa de bar ou trocando ideias em suas lives, que a partir das instituições políticas de sustentação da reprodução do capital, principalmente o poder judiciário, que se possa fazer justiça e manter a ordem. A indignação como rebelião e resistência à ordem de dominação e exploração é algo que nos falta, é algo que os partidos de esquerda não alimentam como possiblidade de sedimentação de uma nova cultura política.


Não à toa que o paroxismo da política de esquerda passou a ser “democracia sempre”, democracia como respeito às regras do jogo, num ordenamento jurídico de manutenção da ordem que garante a expansão do processo de acumulação do capital e, ao mesmo tempo, da pobreza, da miséria, da violência e da destruição do planeta.


FONTE

https://segundaopiniao.jor.br/o-adormecimento-da-sociedade-brasileira/


*Uribam Xavier* - gosta de café com tapioca e cuscuz, peixe frito ou no pirão, de frutas e verduras, antes de ser hipertenso era chegado a uma buchada e a um sarapatel. Frequenta o espetinho do Paraíba, no boêmio e universitário bairro do Benfica [Fortaleza], e no pré-carnaval segue o bloco Luxo da Aldeia. É professor, ativista decolonial e anti-imperialista, escrever para puxar conversa e fazer arenga política. Seus dois últimos livros são: “América Latina no Século XXI – As resistências ao padrão Mundial de poder”. Expressão Gráfica Editora, Fortaleza, 2016; “Crise Civilizacional e Pensamento Decolonial. Puxando conversa em tempos de pandemia”. Dialética Editora, São Paulo, 2021


ANEXO

VALTER EUDES - PE

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

SÍNDROME DA CASA GRANDE * Alfredo J. Gonçalves-DF

SÍNDROME DA CASA GRANDE

Parafraseando a metáfora de Gilberto Freire, os moradores da Casa Grande sempre odiaram o pobre sem eira nem beira, o negro, o indígena, o migrante, o povo de rua, muitas vezes a mulher, enfim, aqueles(as) que, de alguma forma, lhes são diferentes, estranhos - "outros". A Casa Grande mantêm um ódio figadal por tudo o que vem da ou cheira à Senzala.

Em tempos idos, quando o rádio surgiu como grande novidade, a Casa Grande escarnecia dos pobres e migrantes que, a partir da cidade, levavam um rádio para os parentes do interior. "Pobre metido a rico", diziam com requintes de desprezo...

Depois, foram o fogão, a televisão e a geladeira que apareceram como objetos cobiçados. Novamente aqui, quando os pobres e migrantes enchiam os porta-malas dos ônibus da Itapemirim, São Geraldo ou Gontijo com essas novidades, a Casa Grande atiravam-lhes olhares oblíquos e com mal disfarçado desdém...

Mas esses olhares se encheram de veneno quando chegou a moda da TV a cores e sobretudo da antena parabólica. Pobres e migrantes faziam sacrifícios inauditos para presentear os pais e irmãos da roça com essas imagens coloridas. A Casa Grande comentava que a tal antena não se adaptava aos casebres miseráveis. Muitos destes sequer tinham estrutura para a novidade, sendo necessário construir um suporte adequado.

Não foi diferente com os casos da moto, do celular ou do computador... a Casa Grande sempre tinha o olhar atravessado quando pobres e migrantes "se metiam" a consumir coisas que "não lhes pertenciam". Capazes de passar fome para comprar o que não podem, não sabem economizar para o futuro...

Pior ainda quando veio o carro e a possibilidade de viajar ao "norte"/nordeste de avião. Que é que essa gente está pensando? - se interrogavam com ironia. Em vez de comprar o necessário, ficam tentando imitar os ricos. Por que não se contentam com o que possuem? Como se somente os privilegiados da Casa Grande pudessem desfrutar da tecnologia e das novidades que ela colocava no mercado!...

É isso! Quem nasceu e cresceu na Casa Grande odeia ver pobres, negros, indígenas e migrantes nos aeroportos e aviões, nos shopping-centers e praias, nos hotéis e casas com algum tipo de luxo, nos colégios e hospitais particulares, nos carros de classe média e nos clubes... como se gritassem com raiva que "o lixo deve estar lixo", deixando o luxo para quem o merece ou desde o berço o herdou...

O ódio chega ao limite, porém, quando um pobre nordestino, vindo lá do sertão de Pernambuco, passa a trabalhar como metalúrgico; mas, ao invés de se contentar com seu lugar, junto com outros companheiros toma o comando do sindicato, depois inventa de fundar o PT e, como se nada fosse, começa a disputar o cargo de Presidente da República. Tenta uma, duas, três vezes... Até que na quarta vez sobe vitoriosamente a rampa do Palácio do Planalto, morando no Palácio da Alvorada. Onde já se viu tamanha ousadia?!...

Mais grave ainda, consegue eleger a sua sucessora. Depois... Bem, depois as forças da Casa Grande, elite branca, se organizam, depõem a Presidente Dilma e levam à cadeia o tal "nordestino atrevido", colocando-o, agora sim, "no seu devido lugar"...

Contudo, a teimosia e a resistência venceram o mal e o medo. Tendo deixado a prisão, o nordestino sem mestrado nem doutorado candidata-se novamente à Presidência da República e... Vence as eleições, apesar de todas as fraudes, armadilhas, dinheiro e truques das forças da Casa Grande. Não há perdão para um "pecado" dessa natureza, para tamanho atrevimento. Daí os dentes arreganhados, as unhas afiadas, os olhos ensaguentados de tantos tigres raivosos...

A Casa Grande, histórica e estruturalmente, jamais suportou que alguém da Senzala ousasse invadir seu território. Enquanto a Casa Grande é movida a benesses e privilégios, a Senzala é movida a favores. Ora, estes últimos são efêmeros, dependem do humor do senhor, ao passo que aqueles são intocáveis. Quando a Senzala tenta transformar os favores em direitos e em dignidade humana, os senhores da Casa Grande apelam para o chicote, o tronco, o capataz, o capitão do mato, a polícia ou e exército... Definitivamente, o esquema da Casa Grande & Senzala mostra-se, uma vez mais e sempre, incompatível com a democracia!

Alfredo J. Gonçalves
Brasília, 06/01/2023

terça-feira, 29 de novembro de 2022

QUEM É INDÍGENA, AFINAL? * PORAKÊ MUNDURUKU

 QUEM É INDÍGENA, AFINAL?


É muito fácil deixar de ser indígena, basta sair do território, ou ser expulso dele, ou nascer fora de uma aldeia, ou esquecer as línguas que o colonizador se esforçou em apagar, ou ter um ancestral não indígena. Voltar a ser indígena é que é difícil, para muitos impossível. 


O colonizador foi quem criou este conceito, "indígena", e o tornou excludente para sua própria conveniência. Mas somos nós, a quem este conceito foi imposto, que precisamos refletir: O que faremos com ele? Será uma forma de unir e organizar nossas lutas? Ou  será uma forma de nos deixar subjugar pela lógica excludente do sistema colonial-capitalista?


#resistênciaíndigena #lutaindígena #retomadaindígena #indigenasemcontextourbano #anticolonial  


PORAKÊ MUNDURUKU

https://www.instagram.com/p/ClhoXiTsWJo/?igshid=YmMyMTA2M2Y=  

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Porakê Munduruku – Medium

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quinta-feira, 13 de outubro de 2022

A pior política na minha casa * Lorran Matheu / RJ

 A pior política na minha casa

Lorran Matheu / RJ

Sábado, 8 de outubro de 2022


Meu domingo num bairro pobre que elegeu Bolsonaro.

Domingo passado, 2 de outubro, me desloquei até minha velha e conhecida seção eleitoral. Saí dos arredores do Centro e atravessei 50 quilômetros, de trem e ao longo de duas horas, até Inhoaíba, um pequeno bairro na Zona Oeste do Rio de Janeiro. É uma região rural de 60 mil habitantes que tem um dos piores índices de desenvolvimento humano da capital fluminense – ocupa o 115º lugar em um ranking de 126 bairros.


Toda a minha vida, até o ano passado, teve a Zona Oeste como plano de fundo. Bairros como Campo Grande, Paciência, Cosmos e Santa Cruz, com todas as suas peculiaridades, fazem parte da minha história. Por isso, eu já esperava que a onda bolsonarista fosse forte na região. Mas o retrato foi bem mais radical do que eu imaginava.


Enquanto esperava na fila, percebi que pessoas vestidas de verde e amarelo não se acovardaram em recitar mentiras que eram compartilhadas havia dias na internet. Os corajosos que se permitiam usar adesivos de candidatos de esquerda, ou roupas vermelhas, eram hostilizados. 


Na Zona Oeste, as igrejas evangélicas estão enraizadas na vida local. A presença é tão forte que é comum ver mais de duas por quadra em bairros pequenos – enquanto não há serviços básicos como saúde, bancos e até mesmo escolas. Em algumas regiões, nem o saneamento básico chega. Mas a igreja está lá.


Eu já vivi essa cultura e por isso sei que, em dias de votação, era comum que a tradicional escola bíblica dominical, realizada desde a manhã até o comecinho da tarde, fosse cancelada. Não foi o que aconteceu desta vez. Vi muitas pessoas pessoas com Bíblias indo votar. O Intercept já mostrou que as Assembleias de Deus adotaram uma estratégia de ataque para o período eleitoral. Nesta semana, o jornal Folha de S.Paulo também revelou que, em São Paulo, a Assembleia de Deus ameaça punir fiéis de esquerda. Essa denominação é maioria na Zona Oeste carioca. 


Essa realidade teve impacto nos votos? Bem, na minha seção, em que 484 pessoas estão aptas a votar, houve 251 votos para Bolsonaro e 96 para Lula. Para o governo do estado, Cláudio Castro, do PL, que marcou presença em eventos gospel dos últimos meses, teve 188 votos contra 50 de seu adversário, Marcelo Freixo, do PSB. Ou seja: apesar de a votação de Lula ter sido maior, em geral, em regiões periféricas e de menor renda, isso não aconteceu em Inhoaíba. Lá, o PT perdeu de lavada.  


Enquanto as emissoras de TV exibem o mapa do Brasil com a dualidade vermelha e azul, eu via o mapa da cidade do Rio, onde bairros com os piores índices de desenvolvimento votavam em Bolsonaro e alguns mais abastados, como Laranjeiras e Tijuca, iam com Lula. 


Ontem, o teólogo e pesquisador Ronilso Pacheco publicou no Intercept um texto sobre a distância dos analistas da realidade dos evangélicos. Para ele, a categoria demorou a ser levada à sério – e, em seguida, foi simplificada sem ser compreendida. "Enquanto isso, a extrema direita no Brasil ascendeu sem ser citada, debatida em rede nacional ou sequer entrevistada. Sem profundidade – não por incompetência, mas pela limitação imposta por um tema complexo do qual se sabia pouco ou nada –, os analistas se ativeram ao trivial", ele escreveu. 


O que aconteceu? Segundo Pacheco, a vitória de Bolsonaro em 2018 fez o Brasil entrar para uma articulação global focada na família e nos valores cristãos conservadores. É um movimento que avança no país camuflado de conservadorismo "evangélico" ou "católico", mas é mais profundo e amplo –  passa pelo conservadorismo dos EUA e por Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, um dos principais expoentes dessa nova extrema direita. "Não havia jornalistas e analistas para discernir as dissimulações da extrema direita e dar nome aos bois", lamentou o teólogo.


Para Pacheco, é preciso "conversar com a sociedade e desarmar esse arcabouço ideológico, desfazer a captura do sentido da vida pela extrema direita". "Enquanto ideologia, o nacionalismo cristão nem de longe está circunscrito aos evangélicos. Não é religião. É política, a pior delas", ele escreveu. 


Eu concordo. As regiões dominadas por esse pensamento "moralizador", tão familiares para mim, são onde a extrema direita que se camufla como defensora desses valores se enraizou. Agora finalmente vejo comentaristas tentando explicar um fenômeno que é natural para o povo de Inhoaíba e tantos outros bairros pobres. Isso deixa claro como a realidade demora a ser percebida por um jornalismo que não é feito por ou para nós. Conheço bem Silas Malafaia, Marcos Feliciano e Eduardo Cunha, três dos maiores representantes dessa política descrita por Pacheco. Eles já estavam na minha casa muito antes de estarem nos jornais.


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terça-feira, 5 de julho de 2022

Hollywood é um dos grandes motores da invasão cultural do Brasil * André Nunes

 Hollywood é um dos grandes motores da invasão cultural do Brasil.


Enquanto não houver mecanismos para diminuir a influência dessa indústria de propaganda yankee, nossa população vai continuar idiotizada, sonhando viver o "american way of life" da fantasia hollywoodiana.


Na guerra do Vietnã,  os estadunidenses cometeram mais atrocidades em diversos vilarejos vietnamitas do que os nazistas nas vilas francesas. O massacre de My Lai no Vietnã é equivalente (ou até mesmo pior) à ação dos nazistas em Oradour-sur-Glane na França.


Ao chegar no pequeno povoado de My Lai, em 16/03/1968, os norte-americanos não encontraram guerrilheiros, nem soldados e nem comunistas, não havia ali nenhum vietcong, encontraram apenas meros camponeses, simples e inofensivos, muitos idosos, mulheres e crianças.


Mesmo sem nenhum alvo militar e nenhuma resistência apresentada pelos camponeses, não houve clemência. 


Os estadunidenses queimaram as casas e os que tentavam fugir eram fuzilados à queima-roupa. Mulheres, incluindo crianças de apenas 12 anos, foram estupradas por diversos soldados antes de serem assassinadas.


A barbárie foi relatada por um oficial e piloto, Hugh Thompson Jr, que dava cobertura de helicóptero às tropas terrestres. Porém, ao ver a carnificina cometida por seus compatriotas, resolveu intervir e comunicar o ocorrido aos seus superiores. Infelizmente, apesar do ato louvável de Thompson, frente aos horrores levados a cabo por seus companheiros de armas, já não havia tempo suficiente para deter a ação.


Dos mais de 500 mortos pela brutalidade estadunidense, contavam-se 182 mulheres (17 grávidas) e 173 crianças. Apenas 12 pessoas conseguiram sobreviver ao massacre.


A realidade da sociedade e da moral estadunidense é bem diferente da que se pinta nas telas de cinema, onde, na grande maioria dos filmes, os norte-americanos são todos heróis. Hollywood é o reino da hipocrisia yankee!


André Nunes

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

PROGRESSISTA: PROGRESSISTA? * SERGIO RODRÍGUEZ GELFENSTEIN/VE

PROGRESSISTA: PROGRESSISTA?
SERGIO RODRÍGUEZ GELFENSTEIN/VE

Assim como nas décadas de 1970 e 1980, quando a América Latina e o Caribe lutavam para se livrar das ditaduras de segurança nacional feitas em Washington, o movimento popular da região debate a orientação política e ideológica que terão os combates ao neoliberalismo e ao imperialismo. É preciso dizer que isso é muito mais do que um debate teórico.

Embora agora a situação seja diferente, levando em conta o desenvolvimento dialético dos acontecimentos, mais uma vez as forças revolucionárias se deparam com a busca de soluções reformistas para a crise. Esse pensamento se agrupa sob as ideias de fazer política "na medida do possível" ou a satisfação de ter levado ao poder o "mal menor".

Uma e outra escondem a incapacidade dos setores políticos mais avançados da sociedade para superar as dificuldades que levam à construção de uma alternativa popular e revolucionária. Ninguém poderá dizer que isso ocorre por causa do abandono dos povos em sua luta pela democracia, paz e equidade. É muito fácil culpar o povo quando na realidade foram algumas elites políticas que paralisaram os processos. É até visível o que aconteceu nos últimos anos na região, quando as organizações de esquerda, uma vez conquistadas o governo, priorizaram alianças com a burguesia e a direita, deslocando os setores populares para um papel marginal como “objeto” de governo medidas,

No caso do golpe contra Dilma Rousseff no Brasil, essa situação era mais do que evidente. Depois que a presidente se distanciou do movimento popular, ninguém saiu para defender o PT, seu governo ou ela mesma quando ela foi destituída.

Um elemento fundamental que marca a diferença entre o século passado e este é que essas lutas ocorreram no quadro da guerra fria e do mundo bipolar em que o padrão ideológico era o que ordenava a política e, portanto, as relações internacionais. Hoje, emergiu um grande número de movimentos sociais que lutam por demandas setoriais, sugerindo que a necessidade de uma transformação radical da estrutura social que oprime e exclui a maioria não é mais relevante.

En el plano internacional, la política de principios -propia de la guerra fría- que emanaba de una orientación ideológica de los gobiernos, dio paso al interés nacional (que en algunos casos se ha convertido en necesidad de sobrevivencia) para definir la actuación internacional de alguns países.

Assim, na transição das ditaduras para os sistemas de democracia representativa de cunho neoliberal, na maioria dos quais a doutrina da segurança nacional continua presente em grande parte -se não em sua totalidade- como instrumento de dominação e controle do poder por das elites, os setores reformistas saíram vitoriosos, iniciando processos de perseguição a sindicatos, imprensa livre, organizações sociais e partidos políticos, sob o pressuposto da necessidade de defender o status negociado, aceito e estabelecido que vem sendo chamado de "Estado de direito ", só que só funciona para um setor da cidadania.

Em grande medida, isso foi possível pela domesticação de líderes outrora populares, de esquerda e revolucionários que sucumbiram aos encantos da social-democracia europeia e da democracia cristã, que os transformaram em seus aríetes para a destruição de tudo o que cheirasse a revolução e socialismo. Na segunda metade da década de 1980, Washington descobriu com prazer o trabalho que esses partidos europeus haviam feito e acolheu a possibilidade de sair das já desacreditadas ditaduras para dar lugar a opções gatopardianas que mantivessem seus interesses intactos. Nessa medida, aprovava as transições e até as apoiava com fervor, aplacando a possibilidade de soluções populares para a crise da democracia que havia atingido quase toda a região.

Vale dizer que, em meio a essa situação complicada e difícil, Cuba se manteve firme, defendendo seu processo revolucionário e conseguindo - digo isso sem retórica - ser um farol que irradiava luz para aqueles que lutavam em toda a região, inclusive os convertidos domesticados na Europa que se aproveitaram descaradamente da solidariedade da ilha caribenha.

A implantação de governos neoliberais aguçou os conflitos na sociedade cada vez que o capitalismo não foi capaz de resolver as necessidades mais básicas dos cidadãos. O "caracazo" de 1989 na Venezuela e o levante zapatista de 1994 no México -dois países que não estavam sob a pressão da bota militar no governo- foram uma expressão clara de que o neoliberalismo não poderia estar associado apenas ao domínio direto das forças armadas no poder, mas a todo o arcabouço jurídico e político que a sociedade capitalista comporta.

Nessas condições, Hugo Chávez surgiu como expressão do povo e de setores militares cansados ​​de serem usados ​​para a repressão e a manutenção da ordem das elites. A vitória eleitoral de 1998 foi o estopim que fez explodir um sentimento e um desejo de transformação que a história fez coincidir na liderança de dirigentes que em vários países, como disse Cristina Kirchner, “são mais parecidos com seus povos”.

Os evidentes sucessos sociais que, em maior ou menor grau, esses governos obtiveram e que, juntos, permitiram à região avançar em processos de integração que garantiram sua presença e protagonismo no mundo do século XXI, despertaram - mais uma vez - a preocupação da Casa Branca que ao mobilizar as oligarquias regionais, as instituições mercenárias que não foram removidas, os grandes meios transnacionais de confinamento solitário e as mentes subordinadas da direita, conseguiram deter temporariamente o processo iniciado nos últimos anos do século passado . Desta vez não foi necessário recorrer às forças armadas, bastou colocar os meios de comunicação a trabalhar,

Mas a influência neoliberal que retornou ao poder pelas mãos de Macri, Áñez, Bolsonaro, Lenin Moreno, Piñera e outros personagens semelhantes não foi sólida, pois se baseia no aval e apoio dos Estados Unidos na arena internacional e no apoio dado pela gestão da mídia para a construção de falsas verdades, por um lado, além do peso dos militares e policiais que atuam como gendarmes, por outro. No que diz respeito ao aprendizado dos povos, sua consciência e sua superior (embora ainda insuficiente) capacidade organizativa, o retorno ao momento do fluxo foi muito mais curto do que o tempo entre a queda de Allende em combate em 1973 e a vitória eleitoral de Chávez em 1998.

Nos últimos anos, uma expressão disso foi a vitória eleitoral de Andrés Manuel López Obrador no México, a volta dos peronistas ao governo na Argentina e do MAS na Bolívia, as vitórias de candidatos progressistas no Peru, Honduras e Santa Lúcia, a derrota do neofascismo no Chile, ao mesmo tempo em que Barbados rompeu com a subordinação pós-colonial da Grã-Bretanha, transformando-se em república e nomeando Sandra Mason como sua primeira presidente. Na mesma lógica, pode-se acrescentar que Lula no Brasil e Petro na Colômbia, candidatos progressistas da oposição, lideram as pesquisas antes das eleições que serão realizadas este ano nos dois países.

Vale dizer - e quero reiterar - que tudo isso foi possível devido à resistência à dominação imperial dos povos de Cuba, Nicarágua e Venezuela. Se esses países tivessem caído, a avalanche imperial teria passado impiedosamente sobre a América Latina e o Caribe. Isso me lembra José Martí quando, em 18 de maio de 1895, às vésperas do combate que o levou à morte, em carta a Manuel Mercado ele dizia: e por Meu dever – desde que o compreendo e tenho força para realizá-lo – impedir a tempo com a independência de Cuba que os Estados Unidos se espalhem pelas Antilhas e caiam, com ainda mais força, em nossas terras em América". Mais de 125 anos depois, a situação é a mesma, embora agora Cuba não esteja sozinha.

Mas eis que a direita e principalmente os Estados Unidos também aprenderam, também fazem as contas e também movimentam suas cartas. Assim, eles estão trabalhando para dividir a esquerda e separá-la para facilitar sua tarefa, que em nível estratégico visa evitar que a América Latina e o Caribe configurem um bloco de potência mundial.

Nesta medida, um novo perigo espreita os povos da região. Al igual que en el siglo pasado se busca la mediatización de la lucha de los pueblos para que sus éxitos no superen los cambios cosméticos que permitan a las elites continuar ostentado el poder, mientras ciertos sectores arropados con un discurso de izquierda puedan seguir haciendo política “ na medida do possivel".

Isso decorre do artigo escrito por Andrés Oppenheimer, porta-voz da extrema direita nos Estados Unidos, publicado no Nuevo Herald de Miami em 25 de dezembro, sob o título: "Gabriel Boric liderará uma nova esquerda latino-americana?" O autor cita Heraldo Muñoz, o inefável ministro das Relações Exteriores do governo de Michelle Bachelet - que o autor coloca perto de Boric - que teria afirmado que Boric "referiu-se ao regime venezuelano como uma ditadura e criticou a fraude eleitoral na Nicarágua » , acrescentando que: «Ele tem convicções bastante sólidas em termos de democracia e direitos humanos». Feito, os Estados Unidos e a direita chilena certificaram o papel que o novo presidente daquele país terá que desempenhar, não só internamente, mas também internacionalmente.

Mais tarde, o artigo afirma: “Boric deve mostrar independência do Partido Comunista. Seus críticos o pintaram como um jovem inexperiente que será controlado pelo Partido Comunista. Boric perderia muitos de seus eleitores mais moderados se fosse um fantoche de um partido da esquerda jurássica.

O discurso que visa criar uma "nova esquerda" longe de Cuba, Nicarágua e Venezuela vem ganhando força, mesmo em setores "progressistas" da região. De autores de orientação "socialista" como o chileno Roberto Pizarro a intelectuais como o brasileiro Emir Sader, de quem não há dúvida de sua integridade intelectual, escreveram artigos nos quais se apressam a visualizar uma esquerda latino-americana destacada de Cuba, Nicarágua e Venezuela.

A irrupção do “progressismo” como ideia de libertação, embora não seja nova, ganhou força nos últimos tempos. A Internacional Progressista apoiada pelos setores do "imperialismo de esquerda" nos Estados Unidos que aspiram a devolver seu país ao caminho da "democracia" e da justiça social, a fim de tornar o império mais eficiente em sua intenção de subjugar à mundo, assumiu a batuta desta corrente.

Não devemos esquecer que a ideia de progresso surgiu da possibilidade que se dá à transformação da sociedade de forma gradual. Na realidade, o progresso deve levar à libertação total do ser humano das forças que o oprimem. Enquanto isso não for proposto, é um conceito vazio e enganoso. A Internacional Progressista teve sua contraparte na América Latina e no Caribe no "Grupo Puebla", no qual, embora participem proeminentes e honrados líderes políticos da região, levanta dúvidas porque é liderada por um mercenário chileno de reputação muito duvidosa que fez do "progressismo" um negócio e que também mantém amizades próximas com altas lideranças do chavismo, como o ex-presidente Mauricio Macri. Suspeitamente, em nenhum dos dois casos participam cubanos, venezuelanos ou nicaraguenses.

Mais uma vez, levanta-se a disputa ideológica sobre o caminho que a América Latina e o Caribe terão que percorrer. Nós nos contentamos com o "mal menor" ou somos capazes de construir uma força política e social que produza as mudanças profundas que a sociedade precisa. Em vez de se contentar com o que pode ser feito "na medida do possível", trabalhe para transformar o impossível em realidade. Como eu disse em um artigo anterior citando um amigo, o “mal menor” deve se opor ao “bem maior”.

Isso significa que nosso esforço deve ser direcionado para jogar em nosso campo, não naquele que o inimigo nos impõe. Em um momento em que muitos não querem se posicionar e a política se destina a definir entre centro-direita, centro-esquerda ou centro, cabe aos setores mais avançados da sociedade construir o novo cenário de combate como tem acontecido em pelas ruas do Chile e da Colômbia.

O futuro libertador dos povos não está no progressismo. Está e continuará a estar na revolução. Entendo que no caminho da vitória as alianças táticas devem ser feitas para unir forças, mas elas só terão esse caráter se forem assumidas a partir da hegemonia e do poder. Qualquer aliança construída a partir da fraqueza ou subordinação leva à subordinação dos interesses populares a outros, de setores ou grupos minoritários. Espera-se que aqueles que assumem essas posições de mediação entendam a diferença entre os conceitos de estratégia e tática e os apliquem corretamente, sem esquecer que errar em sua aplicação leva a erros dolorosos de dimensões imprevistas para o movimento popular.
Sergio Rodriguez Gelfenstein
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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

ACEITA SER MANIPULADO: TENHA ÓDIO DE POLÍTICA! * FREI BETO / SP

 ACEITA SER MANIPULADO: TENHA ÓDIO DE POLÍTICA!

 

Frei Betto / SP


       Há uma tradicional maneira de caçar ratos: basta colocar um pedaço de queijo dentro de uma armadilha. O roedor sente o cheiro da iguaria e, ágil, corre para devorá-la. Ao se aproximar, comete um erro involuntário que lhe custa a vida: pisa no mecanismo que fecha, automaticamente, a ratoeira, aprisionando-o.

       É o que faz o populismo de direita para neutralizar potenciais adeptos das teses progressistas. Apregoa o ódio à política. Alardeia que todos os políticos são corruptos! (Inclusive seus adeptos...). Substitui as pautas sociais pela de costumes. Reforça o moralismo farisaico. Assim, convence muitas pessoas a ter aversão à política.

       Quem tem ódio da política é governado por quem não tem. E tudo que os maus políticos querem é que tenhamos bastante nojo da política para, então, dar a eles carta branca para fazerem o que bem entenderem. O que mais temem é que participemos da política para impedir que seja manipulada por eles.

       Não existe neutralidade política. Existe a doce ilusão de que podemos ignorar a política, abdicar do voto e ficar recolhido ao nosso comodismo. Ao agir desta forma, nos tornamos o rato que come tranquilamente o saboroso queijo, sem ainda se dar conta de que perdeu a liberdade e, provavelmente, a vida.

       Ninguém escapa dos dois únicos modos de fazer política: por omissão ou participação. Ao ficar alheio à conjuntura política, ignorar o noticiário, evitar conversas sobre o tema e nos abster nas eleições, assinamos um cheque em branco à política vigente. A omissão é uma forma de adesão à política e aos políticos que, no momento, dirigem a política do país no qual vivemos. 

       O outro modo é a participação, que tem duas faces: a dos que apoiam a política vigente e a dos atuam para mudá-la e implantar um novo projeto político.

       As forças políticas de direita, que naturalizam a desigualdade social, acusam muitos políticos de corruptos (às vezes, com razão!). Mas não propõem ignorarmos a política. Propõem substituir os políticos por empresários, dentro da lógica capitalista de privatização do espaço público e do Estado. Foi o caso do governo fracassado de Macri, na Argentina, e de muitos outros exemplos mundo afora.

 

Em tudo há política

       

       A política não é tudo, mas em tudo há política. Desde a qualidade do café que tomamos todas as manhãs até as condições humanas (ou desumanas) de nossas moradias. Tudo na vida de cada um de nós depende da política vigente no país: a qualidade de nossa educação escolar, o atendimento à saúde, a possibilidade de emprego, as condições de saneamento, transporte, segurança, cultura e lazer. Não há nenhuma esfera humana alheia à política. Inclusive a natureza depende dela – se as florestas são ou não preservadas, se as águas são ou não contaminadas, se os alimentos são orgânicos ou transgênicos, se os interesses do capital provocam ou não desmatamentos e desequilíbrio ambiental. A qualidade do ar que respiramos depende da política vigente. 

       Um dos recursos que a direita utiliza para dominar a política é a manipulação da religião, em especial no continente americano, onde a cultura está impregnada de religiosidade. A modernidade logrou estabelecer uma saudável distinção entre as esferas política e religiosa. Isso após longos séculos de dominação da política pela religião. Hoje, em princípio, o Estado é laico e, na sociedade, a diversidade religiosa é respeitada e tem seus direitos assegurados, tanto no âmbito privado (crer ou não crer), quanto no público (manifestação de culto).

       Atualmente, os religiosos fundamentalistas querem confessionalizar a política. Usar e abusar do nome de Deus para enganar os incautos. Ora, nem a política deve ser confessionalizada, pois tem que estar a serviço de crentes e não crentes, nem a religião deve ser partidarizada. A Igreja, por exemplo, deve acolher todos os fieis que comungam a mesma fé e, no entanto, votam em candidatos de diferentes partidos políticos.

       Isso não significa que a religião é apolítica. Não há nada nem ninguém apolítico. Uma religião que acata a política vigente está, de fato, legitimando-a. Toda religião tem como princípio básico defender o dom maior de Deus – a vida, tanto dos seres humanos quanto da natureza. Se um governo promove devastação ambiental ou privilegia os ricos e exclui os pobres, é dever de toda religião criticar este governo. Sem pretender ocupar o espaço dos partidos políticos, como, por exemplo, apresentar um projeto de preservação ambiental ou de reforma econômica. Em sua missão profética, cabe às confissões religiosas abrir os olhos da população para as implicações éticas da política deletéria do governo. 

       No caso dos cristãos, entre os quais me incluo, é sempre bom frisar que somos discípulos de um prisioneiro político, Jesus de Nazaré. Ele não morreu de acidente nas escadarias do Templo de Jerusalém, nem de doença na cama. Foi perseguido, preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e condenado a morrer assassinado na cruz. Foi considerado subversivo por defender os direitos dos pobres e ousar, dentro do reino de César, propor outro reino, o de Deus, que consiste em um novo projeto civilizatório baseado no amor (nas relações pessoais) e na partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano (nas relações sociais).

       Portanto, não há como alguém escapar da política. Estamos todos imersos nela. Se a política que predomina hoje em nosso país e no mundo não nos agrada, busquemos meios para alterá-la. A realidade atual de nosso país e do mundo resulta da política adotada nas décadas precedentes. Cabe a cada um de nós se decidir: acatar ou transformar? 

       Um dos exemplos mais curiosos de que tudo tem a ver com a política é este: o último mês do ano é dezembro, que equivale ao numeral dez. Antes dele, novembro, nove. Atrás, outubro, oito. Precedido por setembro, sete.  E quantos meses tem o ano? Doze! 

       Eis a política: na Roma antiga o ano compreendia 304 dias e tinha 10 meses: martius, aprilis, maius, junius, quintilis, sextilis, september, october, november e december. Mais tarde foram acrescidos os meses de janus e februarius.

       Para homenagear os césares, o senado romano mudou os nomes de quintilis para julho, em honra do imperador Júlio César, e sextilis para agosto, em honra de César Augusto.  Como havia a alternância de 31/30 nos dias de cada mês, não era admissível que o mês de Augusto tivesse um dia a menos que o de Júlio. Assim, arrancou-se um dia de fevereiro. Julho e agosto são os únicos dois meses do ano que se sucedem com 31 dias cada um. 

       Podemos não saber que a política está em tudo, mas está. Porque o ser humano não inventou, e acredito que nem inventará, outra maneira de organizar a sua convivência social a não ser através da política.

 

Frei Betto é escritor, autor de "A mosca azul" (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org 

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quinta-feira, 14 de outubro de 2021

ATLETAS TAMBÉM PODEM SE MANIFESTAR * Cezar Gomes / RJ

ATLETAS TAMBÉM PODEM SE MANIFESTAR

Se os jogadores de futebol, que na sua maioria, vieram de famílias pobres

no momento em que o povo das favelas e periferias está sofrendo com o desemprego, a fome, a miséria, e a violência do poder do estado,

deveriam se posicionar, com a mesma consciência da Carol. 

Os artistas famosos, os atletas, e principalmente, os jogadores de futebol, precisam entender, que este povo humilde não tem ânimo para vibrar com emoção ao se deparar com a carestia nos produtos essenciais para sua sobrevivência, diante da pandemia e de um governo desastroso e fascista, que fere os direitos fundamentais do ser humano.

Só tem um caminho:

A nossa luta e união através da consciência de cada um, em busca da construção de um mundo melhor para todos !!!!


Saudações a todos, e vamos a luta  !!!