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segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O POVO * EÇA DE QUEIROZ - Portugal

O POVO
EÇA DE QUEIROZ

Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, e se lamentam em vão.

Estes homens são o Povo.

Estes homens, sob o peso do calor e do sol, transidos pelas chuvas, e pelo frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua forca, para criar a pão, o alimento de todos.

Estes são o Povo, e são os que nos alimentam.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.

Estes homens são o Povo, e são os que nos vestem.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.

Estes homens são o Povo, e são as que nos enriquecem.

Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, a neve, a chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.

Estes homens são o Povo, e são os que nos defendem.

Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados.

Estes homens, são os que nos servem.

E por isso que os que tem coração e alma, e amam a Justiça, devem lutar e combater pelo Povo.

E ainda que não sejam escutados, tem na amizade dele uma consolação suprema.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

RAPADURA * Marcilio Godoi

  RAPADURA

MARCÍLIO GODOI

O bolsonarismo é o triunfo dos medíocres, dos incapazes, dos frustrados, dos capitãezinhos do mato. O bolsonarismo decorre de um grande ressentimento com ostracismo que a abertura democrática e a Constituição de 1988 legou a esses seres das sombras. O bolsonarismo é uma insurgência contra a PEC das domésticas ou o PNE, tomados como ofensa moral ao arraigado sentimento colonialista, escravocrata do brasileiro médio. O bolsonarismo é uma imensa mágoa com a felicidade. O bolsonarismo já existia, portanto, bem antes do capitão Cloroquina.


-TEMOS QUE DERROTAR MUITO MAIS DO QUE BOLSONARO-

E o bolsonarista não é quem apoia o atual presidente. O bolsonarista é esse herdeiro natural do Integralismo, do fascismo brasileiro, rastejante, intolerante, burro. Com Bolsonaro no poder, essa laia egoísta e sem freio está em êxtase. E não é porque Bolsonaro é um grande líder e vai implantar reformas. Não. O bolsonarista está em mania, brincando de Polícia Rodoviária numa moto, esfuziante por saber que alguém tão destituído de qualidade humana alçou alguma notoriedade. Em suma, o bolsonarista está feliz porque é um infeliz.


Funciona assim: o bolsonarista vê a atual equipe de governo sem uma só pessoa que tenha talento, informação ou brilho. Então sente que faz parte daquilo, e acolhe seus iguais. Trata-se de uma confraria de ernegúmenos, um sindicato de estúpidos obscurantistas. Um covil de milicianos, como prova a cidade do Rio, talvez o seu ninho mais violento.


500 MIL
ROSÂNGELA NASCIMENTO/RN

O bolsonarismo funciona como uma seita fundamentalista cujo mantra é odiar quem pensa, quem usa a lógica ou a inteligência. O bolsonarista, assumido ou não, sempre foi um sujeito reativo a arte, a cultura, aos estudos, ao estado democrático de direito. Miseravelmente egoísta, o bolsonarista sempre se sentiu à margem do mundo exatamente por ausência total de empatia. Agora que o mundo virou só truculência e escrotidão, ele se vê ali, realizado enfim. E faz arminha, grita mito, muito esquisito, masturba-se com as fotografias de Ulstra, Pinochet, Hitler e Mussolini, machos que o sodomizam em suas fantasias.


O que impressiona é a quantidade desses pobres diabos, surgindo dos esgotos, geralmente do nosso passado de assédios violentos tornados vingança. O bolsonarismo é o resultado do acúmulo de nossos graves erros históricos, um painel das covardias nacionais ao longo dos séculos. Por isso, combater o bolsonarismo é combater toda forma de injustiça. Do contrário, com uma cara nova, ele voltará. Na Alemanha há uma série de dispositivos técnicos legais e sociais para matar toda e qualquer manifestação hitlerista em seu nascedouro.


Aqui, o show diário de horrores, à cavalo, ema, jetski ou motocicleta, tais como invadir hospitais, humilhar motoboys, agredir mulheres, negros, lgbts e adversários políticos, aglomerar, enfiar veneno nas pessoas e nas lavouras, assim como plantar fakenews, não vai cessar, mesmo numa possível derrota eleitoral. O bolsonarismo tirou suas máscaras: assumiu-se como uma ração diária de ódio dada a esses tiozões do pavê-Sukita que estavam órfãos de uma ditadura pra chamar de sua. A internet facilita, viabiliza tudo isso. Steve Bannon é a mistura do Joseph Goebbels com a Leni Riefenstahl.


Passivos, indevidamente pacíficos, alienados, deixamos que fosse chocado o ovo da serpente, e o monstro de muitas cabeças hoje está aí, dando de comer aos corvos que comerão os cadáveres de nossos filhos com os nossos devidos impostos, se nada for feito imediatamente. A não ser, claro, que viajemos todos para Paris.


Apertem os cintos, para usar uma expressão de Brecht, referindo-se ao fascismo, a "besta imunda" vai destruir o Brasil e deixá-lo como o fim de todos os regimes autoritários de que temos notícias. O palhaço-demônio não entregará essa rapadura de volta pra gente tão fácil assim, não. "Vai ter que morrer uns 30 milhões, tu sabe disso!"