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quarta-feira, 14 de junho de 2023

NAZISTALHA BLACK BLOG OU * Moisés Mendes

NAZISTALHA BLACK BLOG OU
O inverno de 2013, os silêncios e o sumiço das samambaias
Moisés Mendes 12 jun 2023

Daqui a alguns dias, o junho de 2013 pode ser denunciado pelo desaparecimento das samambaias das casas dos brasileiros de esquerda. Tudo agora é culpa de 2013.

Tem analista daquele inverno indo à Grécia antiga para tentar explicar as sequelas do avanço da retórica e das ações antipolítica e antissistema.

Quase todos os nossos desalentos e as nossas derrotas cabem dentro da perspectiva aberta por 2013.

Mas isso acontece invariavelmente sob o ponto de vista de quem não vestiu luvas e toucas de lã e foi às ruas naquele inverno.

Quem esteve lá não fala muito. O resguardo de protagonistas e de figurantes é uma das heranças daquele junho iniciado em Porto Alegre.

Escuta-se ao longe o silêncio dos que poderiam estar refletindo
sobre o que aconteceu a partir de 2013 e nos empurrou para o buraco de onde Lula e Alexandre de Moraes tentam nos tirar.

Alguns imersos naquele inverno são ouvidos e dizem o que trazem até hoje do que fizeram 20 anos atrás. Mas só falam quando provocados.

Onde está o texto exemplar, com alguma profundidade, escrito por um personagem daqueles tempos?

Como estamos na era das explicações, vamos tentar algumas. O constrangimento dos que estiveram lá e preferem ouvir hoje as vozes dos que não estavam também é parte da compreensão do que sobrou.

A guerra ao sistema, a inquietação com a incapacidade de avanço do poder de esquerda, a depreciação da representação política clássica e dos mandatos, tudo se voltou contra os que pretendiam forçar avanços.

Era um tempo de questionamentos sobre o esgotamento do PT, a desconfiança com Dilma e as vaciladas dos governos estaduais e das prefeituras progressistas.

Tarso Genro governava do Rio Grande do Sul, onde tudo começou. Fernando Haddad era o prefeito de São Paulo, por onde o junho se alastrou.

Tarso chegou a ver uma feição fascista na ala mais radical daquela movimentação, e talvez não se referisse apenas aos que tinham participação marginal e de forma genérica eram identificados como black blocs.

Era o que ele via lá no momento. Interessa ter o retrato do que enxergou em 2013, mesmo que hoje pense diferente.

Mas o junho da gurizada de 2013 foi sequestrado pela velharada de classe média e teve um desfecho que todo mundo experimentou.

A desqualificação da política não nos deu só Bolsonaro. Nos ofereceu Kim Kataguiri e Daniel Silveira, fortaleceu os Valdemares Costa Neto, em 2022 elegeu militares como nunca antes e criou o novo cangaço do Congresso comandado por Arthur Lira Lampião.

Os guris do junho de 2013 ficaram sem palco, sem voz e sem nada. A representação e os mandatos foram tomados pela renovação da direita engolida pela extrema direita.

O Congresso mais fascista de todos os tempos é o Everest de 2013. E as esquerdas não têm um nome, um só, de expressão que possa ser percebido hoje como cria daquele inverno.

É enganoso e desonesto citar Guilherme Boulos como filho legítimo de 2013, assim como é raso ver aquele junho como o ninho do identitarismo.

O certo é que a esquerda envelheceu, enquanto Globo, Bolsonaro e um balaio com muitas faces assumiam a pregação da antipolítica.

Por isso os que estiverem dentro daquele inverno, sem necessariamente andar de braços dados com pretensos anarquistas, não refletem em voz alta sobre o que aconteceu e o que sobrou daquilo tudo.

A desqualificação da política qualificou o fascismo. Os mandatos são deles. O Lula ressuscitado é um milagre facilmente explicável por sua excepcionalidade.

A extrema direita sobrevive e continua ameaçando que ficará mais forte na eleição municipal do ano que vem.

As cinco grandes concentrações e caminhadas pós-Bolsonaro, em meio à pandemia, que chegaram a sugerir que iriam derrubá-lo, foram comoventes na época. Hoje é possível dizer que só mantiveram a resistência acordada.

O inverno de 2013, que muitos só conseguem entender se forem a Atenas, nos desafia ainda hoje na vidinha de Ribeirão Preto, Bagé e Barbacena.

O junho de 2013 pode não ser responsável pela extinção das samambaias, mas foi lá que começou a montagem do cenário que temos hoje.

Não é um julgamento. É uma realidade incômoda, que cala muitos dos que poderiam estar falando.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

LULA IRMÃO CORAGEM * Moisés Mendes / MG

 LULA IRMÃO CORAGEM

CHEGOU A HORA DE PARAR DE TER MEDO DO FASCISMO

Moisés Mendes  3 jan, 2023


Não queriam que Lula desfilasse em carro aberto porque poderia levar um tiro. Ele desfilou. Não queriam que subisse a rampa do Planalto. Ele subiu.


O medo despejado sobre Lula e sobre o povo que iria a Brasília vinha não só de lideranças da extrema direita e dos terroristas. Partia também, com ênfase surpreendente, de setores da esquerda.


Mas Lula não se submeteu ao terror e não seguiu a recomendação de quem dizia estar ao seu lado como conselheiro do bom senso e do sempre oportunista alerta do eu-to-avisando.


Lula fez o que deveria ser feito, e o povo esteve ao seu lado o tempo todo, apesar do clima criado pelos espalhadores de medos.


No discurso no Congresso, Lula relembrou que na eleição de 2002 também havia sido assim. A esperança precisava vencer todos os medos.


Lembrou que estava ali de novo, eleito e diplomado para o terceiro mandato, porque temores infundados haviam sido vencidos.


Mas o medo disseminado em 2022 não era mais o mesmo medo de duas décadas antes.


O medo na primeira eleição vinha do esforço para passar insegurança diante da terceira tentativa de um operário de esquerda de chegar à presidência. A direita espalhava que não deveriam confiar naquele barbudo.


O medo de 2022, que vem desde antes do golpe de 2016 contra Dilma, é o que dissemina as várias formas de terror do fascismo na carona do lavajatismo.


O brasileiro passou a ter medo de Bolsonaro, dos filhos dele, dos militares, dos milicianos e de toda a estrutura de poder aparelhada em torno de quem ameaçou matar inimigos na ponta da praia.


O medo paralisou o sistema de Justiça. Permitiu que extremistas perseguissem jornalistas, sem reação das suas corporações. Imobilizou autoridades que deveriam estar cumprindo com suas obrigações e prerrogativas.


O medo venceu as instituições, com as exceções conhecidas. Bolsonaro avisava que, num segundo mandato, tudo seria muito pior.


Criminosos agiram com desenvoltura em várias frentes, das milícias digitais aos vampiros das vacinas e pastores das barras de ouro.


E todos ficaram impunes, com a contenção pontual apenas de integrantes do terceiro time do bolsonarismo e de manés e patriotas.


O vacilo das instituições trouxe todo tipo de bandido graúdo livre e solto até aqui, com Bolsonaro à frente deles.


O ponto alto da afronta foi a fuga do derrotado para Orlando. E num avião da FAB.


Bolsonaro fugiu como quis porque não vai temer agora o que não o atemorizou em quatro anos de desmandos e de crimes.


O brasileiro comum tinha medo desse poder sem limites, porque as autoridades que deveriam defendê-lo estavam recolhidas e, nos casos mais graves, acovardadas.


Os militares, os milicianos, os cúmplices de Bolsonaro no setor privado, os milionários financiadores do golpe, os manés, os patriotas armados, os garimpeiros, todos eles disseminaram medos.


A grande imprensa frouxa passou a trabalhar com medo. Servidores públicos sofreram perseguições. O fascismo caçou artistas e matou negros, pobres, índios, gays, trans.


A universidade foi amordaçada por mandaletes da família e não reagiu. Os estudantes sumiram.


O Brasil com medo quase reelegeu Bolsonaro. Mas a eleição e a festa da posse começam a encerrar o período de propagação do terror.


O povo foi a Brasília para dizer que nem os setores medrosos da própria esquerda conseguiriam sabotar seu direito de estar com Lula.


Lula e o povo ofereceram uma lição de destemor, principalmente a quem tem agora a obrigação de dar encaminhamento às reparações.


Não é hora de caçar bruxas, como dizem certos emissários dos garimpeiros da Faria Lima. Bruxas, não.


É a hora em que o sistema de Justiça precisa deixar de temer Bolsonaro e os delinquentes que estiveram ao lado do derrotado.


Não tenham medo. Não peguem as bruxas. Peguem os criminosos, mas não só os manés.

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