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sábado, 27 de setembro de 2025

25 ANOS DA 2ª INTIFADA * Brasil de Fato

25 ANOS DA 2ª INTIFADA

Segunda Intifada Palestina, iniciada em 2000, completa 25 anos em um cenário de recrudescimento da violência contra o povo palestino. Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), avaliou que o atual genocídio em Gaza escancara ao mundo a verdadeira face de Israel.

“Nesse momento, nós temos a humanidade enxergando a cara feia do sionismo, a cara feia de Israel, que nunca tinha aparecido. Essa cara não é nova, só que as pessoas estão vendo essa cara agora, porque este é um genocídio televisionado”, disse.

Rabah destacou que a Segunda Intifada nasceu de uma grande frustração com os Acordos de Oslo, firmados em 1993. Para ele, a morte de Yitzhak Rabin, então premiê israelense, e a ascensão de figuras como Ariel Sharon, ex-primeiro-ministro de Israel, e Benjamin Netanyahu, atual premiê israelense, sabotaram qualquer possibilidade de paz.

“Ariel Sharon se opunha a qualquer solução negociada. Ele chega ao poder [em 2001] e, imediatamente, começa a invadir cidades palestinas da Área A e, logo em seguida, cerca Hebron, a própria Ramallah. Inclusive, ao invadirem Ramallah, cercam a Muqata, a sede do governo palestino em que ficava [o ex-presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser] Arafat”, recordou.

A chamada Área A é a parte da Cisjordânia que deveria estar sob controle palestino, conforme os Acordos de Oslo, enquanto Hebron e Ramallah são duas das principais cidades da região. A Muqata, em Ramallah, era o complexo governamental onde Arafat ficou sitiado até sua morte, em 2004.

Segundo o presidente da Fepal, a militarização da Segunda Intifada também foi usada como justificativa por Israel para ampliar a repressão. “Há quem diga que ela se militariza no seu segundo momento e, ao se militarizar, teria dado a Israel argumentos públicos e midiáticos. Em história não existe ‘se’. Nós temos o que aconteceu”, afirmou.

11 de setembro e fim da liderança de Arafat

Para Rabah, os ataques de 11 de setembro de 2001 mudaram drasticamente a percepção mundial sobre os árabes e reforçaram a repressão israelense. Ele lembra que o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, deu o aval a Sharon para isolar e eliminar lideranças palestinas.

“Bush filho autoriza Ariel Sharon a implementar medidas de eliminação política e física de Yasser Arafat. Há também uma coordenação para a eliminação da liderança do Hamas”, apontou. O falecimento de Arafat em 2004 e a prisão de Marwan Barghouti, considerado uma espécie de “Nelson Mandela palestino”, simbolizaram o enfraquecimento das lideranças internas da resistência.

Reconciliação palestina e papel internacional

Apesar das divisões, Rabah se mostrou otimista com o processo de reconciliação nacional, mediado pela China em 2023, que tenta uma reunificação política entre as facções palestinas. Ele defendeu a integração do Hamas e da Jihad Islâmica à Organização para a Libertação da Palestina (OLP). “A OLP assume todo esse processo, em um governo de unidade nacional, com uma administração provisória exclusivamente para a reconstrução de Gaza”, explicou.

O dirigente também celebrou os reconhecimentos do Estado da Palestina por países ocidentais como Reino Unido, França, Canadá, Austrália e Japão, na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), iniciada na última terça-feira (23). “Esses países não poderão, pelo menos em tese, apoiar o genocídio na Palestina ou a eliminação da população palestina porque eles reconhecem o Estado da Palestina”, afirmou.

Genocídio em curso

Para Rabah, a ofensiva israelense atual busca não apenas exterminar palestinos, mas também apagar provas de crimes de guerra. “Nós vamos impedir que se investigue. Então nós vamos matar todos os jornalistas, todos os médicos, destruir todos os hospitais, todos os prontuários médicos, destruir todos os documentos, destruir tudo para dificultar a investigação do genocídio”, denunciou, referindo-se às ações de Israel e dos EUA.

Apesar da gravidade do momento, ele aposta que o processo de descolonização da Palestina seguirá a mesma trajetória de resistência que derrubou o apartheid na África do Sul. “A luta é uma sequência de vitórias, derrotas, acúmulo, e há um momento em que o Apartheid deixou de ser admissível. Nesse momento, nós temos a humanidade enxergando a cara feia do sionismo. Esse genocídio nunca custou tão caro”, projetou.

25 anos da Segunda Intifada palestina | BdF Entrevista Ualid Rabah
RÁDIO BRSIL DE FATO

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

COP 30 INCLUSIVA NA LEI OU NA MARRA * ERALDO PAULINO/BRASIL DE FATO

COP 30 INCLUSIVA NA LEI OU NA MARRA
Governo Barbalho recua e vai revogar lei que instituiu educação remota em comunidades indígenas
Após 23 dias de ocupação na Secretaria da Educação do Pará e bloqueios em rodovias, povos tradicionais venceram.

Em reunião realizada nesta quarta-feira (5), o governo de Hélder Barbalho (MDB) recuou e propôs acordo para revogação da lei 10.820/24, que institui o ensino à distância em comunidades indígenas. A mudança de postura do governo acontece após 23 dias de ocupação multiétnica da Secretaria de Educação do Pará (Seduc), de bloqueio parcial do quilômetro 83 da BR 163, no município de Belterra, região do Baixo Tapajós, e greve da rede pública estadual de educação.

O acordo foi firmado no início da tarde, na Secretaria de Planejamento do Pará (Seplad), em documento assinado por representantes governamentais, deputados, representantes de nações indígenas, quilombolas, ribeirinhos, comunidades tradicionais e do membros do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação Pública do Pará (Sintepp).

O acordo prevê, da parte do governo, enviar à Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) ainda nesta quarta um projeto de lei que revoga integralmente a lei 10.820, bem como desistir da ação judicial que pede abusividade da greve. Também aceita não punir e nem cortar ponto de grevistas, além de publicar decreto para criação de um Grupo de Trabalho para elaboração de uma nova lei para a educação pública do Pará, com participação de representantes do Sintepp.

Do lado dos manifestantes, fica firmado o compromisso de desocupação da Seduc, do desbloqueio de vias, além do encerramento da greve e da desistência do processo movido pelo Sintepp, cobrando revisão da lotação de professores.

Segundo a liderança indígena Poró Borari, da região do Baixo Tapajós, a desocupação da Seduc está condicionada ao envio do referido PL à Alepa. "Nós viemos aqui para o Palácio do Governo acompanhar o processo de envio do projeto de lei que vai revogar a lei 10.820, para aí sim decidirmos pela desocupação. Nós consideramos essa uma vitória, mas seguiremos vigilantes", avaliou o indígena. Segundo ele, a força das populações tradicionais foi mais uma vez demonstrada e a luta segue. "Caso o Hélder não cumpra com a palavra, não vai ter COP, porque nós vamos ocupar aeroportos, rodoviárias e portos", enfatizou.

"A assinatura do acordo, porém, pode se tornar sem efeito se a assembleia que pretendemos realizar amanhã (6) não aprovar os termos do documento", explica Beto Andrade, diretor do Sintepp. Segundo ele, se a categoria aprovar o documento, isso também significará o encerramento do movimento paredista, com uma vitória histórica da categoria e dos povos tradicionais do Pará. "Obviamente, o governo não aceitou colocar no acordo a exoneração do secretário de educação, Rossieli Soares, mas ele sai desse processo com a imagem desgastada e derrotado politicamente. E nós seguiremos cobrando a saída dele", conclui.

A professora Lidia Borari, que também faz parte da ocupação, reforça que, independente do prédio, a mobilização continua até que a revogação seja publicada no Diário Oficial do Estado do Pará. "Pelo termo de compromisso, a gente está verificando para onde vai essa ocupação agora. Porque no termo está que nós desocuparemos o prédio da Seduc. A gente está vendo se vai para o Palácio do Governo ou vai para Alepa".

Segundo a direção do Sintepp, o presidente da Alepa, deputado Chicão (MDB) explicou que o PL da revogação deve ser votado dia 18 de fevereiro, período após a recomposição das comissões temáticas e da apreciação do projeto por elas, que devem ocorrer na próxima semana. Enquanto isso, a primeira minuta da lei que vai propor a nova política de educação indígena seguirá o processo de consulta nas aldeias, com lideranças da ocupação se inserindo no GT que está discutindo essa proposição e no debate em si da minuta.

Da agressão a professores à ocupação

O governador Hélder gozava de uma recente vitória bastante significativa nas eleições municipais de 2024, quando o MDB, partido liderado pela família Barbalho, conseguiu ajudar a eleger 58% dos 144 mandatários municipais no estado, além de ter maioria aliada em boa parte nas Câmaras Municipais e na Alepa, onde, no último dia do funcionamento do calendário legislativo daquele ano aprovou, sem qualquer debate, o PL que revogava o antigo Estatuto do Magistério, tornando sem efeito várias conquistas da categoria, de pessoas com deficiência, de populações tradicionais. Isso incluia políticas públicas que foram frutos de décadas de luta, como o Sistema de Organização Modular de Ensino (Some), que beneficia comunidades com acessos mais complexos, incluindo comunidades quilombolas e aldeias indígenas.

Contudo, a mesma COP30, usada por Hélder como um grande capital político, fortaleceu os indígenas e impediu o uso da polícia, da mesma forma que se naturalizou fazer com outros manifestantes. Assim, os guerreiros indígenas, que deram várias lições de combatividade e de uso da comunicação popular, mantiveram a ocupação da Seduc, que chegou ao 23º dia ganhando apoio e solidariedade a nível internacional, sendo um dos principais fatores que provocaram o recuo do governo. "Quando nós chegamos, cortaram água, luz, colocaram gás lacrimogênio nos banheiros, mas não conseguiram nos tirar", recorda Alessandra Kroap, liderança Munduruku.

Ela recorda que, após a repercussão negativa, o governo tentou criar narrativas para desqualificar a luta da categoria da educação e dos indígenas. Tentou desatrelar a luta dos indígenas da categoria dos trabalhadores em educação, dividir os povos indígenas, e até acusou formalmente a ocupação de depredação do patrimônio. A indústria de desinformação montada por ele, porém, não apenas foi infrutífera, como resultou numa denúncia da Defensoria Pública da União (DPU) contra as fake news espalhadas pelo governo contra os povos originários.

"Tentaram dizer que somos massa de manobra do Sintepp, mas nós viemos pra cá [para a ocupação] convictos de que a educação não indígena também beneficia nosso povo. Também temos parentes professores, alunos da educação não indígena. E não aceitamos que só os aliados do governo falem por nós. Se quer fazer política pra indígena, tem que ouvir todos os indígenas", argumenta Alessandra. Ela também avalia que a não saída do secretário Rossieli causa revolta, mas considera que a ocupação, o bloqueio de BRs, a solidariedade dos movimentos sociais, a greve e toda repercussão das manifestações já manchou a imagem do governo Hélder, que sai menor dessa briga, "e com a certeza de que os povos indígenas são independentes e não se vendem."

Nesta segunda, vários protestos foram realizados pelos povos tradicionais, em diferentes regiões do estado, contra as ações do governo Barbalho na educação. Confira a reportagem em vídeo:

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Manifestações pela revogação da Lei 10.820 crescem apesar do governo
No Pará, aumentam as manifestações dos povos indígenas pela revogação da Lei 10.820, que retirou do texto a educação indígena e apresentou uma série de retrocessos para os trabalhadores da rede pública estadual. Segundo os manifestantes, o governador Hélder Barbalho tenta dividir o movimento.
Veja na reportagem de Eraldo Paulino, com colaboração da Agência Carta Amazônia.
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sábado, 26 de outubro de 2024

REITOR DENUNCIA PRIVATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO * BRASIL DE FATO

REITOR DENUNCIA PRIVATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO
HENRY CAMPOS - reitor da UFC-Ceará

“É um programa simples que vai dar nova dinâmica para a Educação”. Com essas palavras, Jair Bolsonaro definiu o programa Future-se, anunciado em julho por seu governo em meio a uma profunda crise na área da educação devido ao corte de 30% no orçamento das universidades federais. O projeto prevê a criação de um fundo de cerca de R$ 102 bilhões para atrair investimentos privados nas instituições de ensino superior do país, mas causou mal-estar e preocupação dentro de setores da comunidade acadêmica.

Com a ideia central de diminuir a participação do Estado na manutenção das federais, o plano de financiamento defendido por Abraham Weintraub, ministro da Educação, permitirá que Organizações Sociais (OSs) compartilhem a gestão das universidades. O Future-se também permitirá a contratação de professores sem concurso público.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Henry Campos, reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC), analisa que o projeto abre espaço para a privatização do ensino superior.

“É inadmissível conviver com uma proposta dessa em um momento em que as universidades são duramente penalizadas com cortes sucessivos em seus orçamentos, porque além dos 30% já houve cortes adicionais de custeio. A minha universidade, por exemplo, há duas semanas, foi penalizada com um corte adicional de R$1,3 milhão em custeio”, afirma Campos.

Para o professor associado da Université Paris-Descartes, a pluralidade socioeconômica das federais está em jogo. “Esse projeto significa claramente o fim da democratização das universidades, processo que nós temos tido nos últimos anos. Hoje, na nossa universidade [UFC], 60% dos alunos são oriundos de escola pública. É um mecanismo de ascensão social dos mais relevantes”, ressalta Henry.

Segundo pesquisa da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), os universitários brasileiros que ingressam o ensino superior nas instituições públicas são, em sua maioria, pessoas de baixa renda, negros e mulheres. O estudo endossa que a democratização no ensino superior de fato aconteceu nos últimos 15 anos. A inclusão de estudantes mais pobres, por exemplo, com renda familiar per capita de um salário mínimo e meio, subiu de 42,8% para 70,2% de 2003 para 2018.

Preocupado com o desmonte da bem-sucedida política de expansão universitária pública, o reitor da UFC, lança a pergunta: "Qual o patrimônio maior da sociedade brasileira que não suas universidades públicas?”.

Confira entrevista na íntegra.

Brasil de Fato: O que o Future-se representa para o ensino superior brasileiro? Qual sua análise sobre essa proposta?

Henry Campos: É uma pergunta difícil de responder com a especificidade que merece, até porque é uma proposta muito pouco clara. Muito evasiva. E que suscita, por isso mesmo, muita dúvida e muita insegurança no meio acadêmico.

Essa questão do fundo, por exemplo, não é clara. O que faz pensar que esse fundo seria constituído em parte pelo orçamento atual das universidades e outra parte pela alienação de imóveis da União, preferencialmente das universidades. Estamos em um processo que não traz segurança e, pelo contrário, assinala e sinaliza um futuro muito incerto.

É inadmissível conviver com uma proposta dessa em um momento em que as universidades são duramente penalizadas com cortes sucessivos em seus orçamentos, porque além dos 30% já houve cortes adicionais de custeio. A minha universidade, por exemplo, há duas semanas, foi penalizada com um corte adicional de R$ 1,3 milhão em custeio.

Então, como podemos debater qualquer coisa nesse sentido, ou dar algum crédito para uma proposta vinda de um governo que age dessa maneira. E que não tem mostrado, nenhuma intenção, em fazer um grande investimento na educação. Seja na superior ou na educação básica. Há muita apreensão, muita insegurança e muita insatisfação com relação a isso.

O que está sendo discutido é principalmente a questão do investimento privado nas universidades. Qual sua opinião sobre esse e outros pontos do projeto?

Tudo aponta para uma privatização. Essa questão da universidade ser administrada por uma Organização Social (OS)… Será uma única? Será uma organização social por universidade?

Tem muita coisa que se coloca que as universidades já fazem e que precisam de condição para fazer melhor. A universidade já arrecada recursos. O problema é que quando podemos arrecadar recursos, tem um determinado limite. Depois o governo confisca porque vai pra conta única da União.

Então, nos deem liberdade e nós arrecadamos. Diminuiremos o custo das universidades para o Ministério da Educação. Vamos fazendo isso progressivamente. Não precisamos de uma proposta de Organização Social.

E nem de uma proposta completamente absurda como, por exemplo, remunerar professor por trabalho científico publicado. O que é isso? O Brasil é um dos grandes produtores de ciência no mundo: 95% das pesquisas são feitas nas universidades públicas.

Como é que se propõe abolir concurso público na universidade? Isso é sério? Qual seriedade que existe? É dar vez a privatização e todos os mecanismos que regem as entidades que se orientam pelo lucro. É muito claro que tudo está caminhando nessa direção.

Então, sua avaliação é que a proposta é danosa…

É uma proposta absurda, inaceitável. Ninguém pode ser convencido do contrário principalmente porque não se diz como isso vai ser feito. Pelo menos 16 leis teriam que ser mudadas para que isso aconteça.

Esse projeto significa claramente o fim da democratização das universidades, processo que nós temos tido nos últimos anos. Hoje, na nossa universidade [UFC], 60% dos alunos são oriundos de escola pública. É um mecanismo de ascensão social dos mais relevantes.

Uma parte, diria mais que 50% dos alunos, tem renda familiar a um salário mínimo e meio. São os primeiros de várias gerações a ter acesso à universidade. A sociedade precisa estar atenta para isso. Estamos correndo um sério risco.

Temos uma universidade diversa, plural, com grupos étnicos merecidamente contemplados por meio de cotas. Podemos perder tudo isso, nossa autonomia, nossa governança, que só faz melhorar… Nós somos controlados diariamente pelos órgãos de controle.

Possuímos uma posição muito boa com relação ao sistema de governança. Reconhecido pelos órgãos de controle. Pelo Tribunal de Contas da União (TCU), pela Controladoria-Geral da União (CGU). Seja a governança de maneira geral ou da tecnologia da informação. É uma falácia dizer que as universidades são mal administradas, não é verdade.

Agora, desde 2014 estamos sofrendo restrições orçamentárias. O dinheiro só encolhe e continuamos dando continuidade ao processo que tinha sido desenhado. Realmente, é um golpe. É um duro golpe na educação superior pública.

E é interessante que tudo isso acontece de par. Ocorre em um momento em que está havendo a fusão de grandes conglomerados de educação privada que certamente estão fortalecidos. E que, obviamente, em uma situação dessa, onde as leis passam a ser outras, vão poder absorver. Vai ser lei de mercado. É realmente muito preocupante.

Tem uma previsão de que ações do Fundo poderão ser negociados na Bolsa. Como isso funcionará?

Isso é uma pura falácia. Não há nenhuma indicação de que esse fundo terá liquidez. Qual é a segurança que se vai ter de liquidez desse Fundo para dizer que ele vai ser negociado na Bolsa de ações e que será valorizado? Nenhuma.

Isso é um absurdo. Deixa as universidades jogadas a sorte e ao acaso, e a todo um jogo de interesses em que se vai manipular e certamente favorecer os interesses de grandes conglomerados da educação privada. É a destruição do sistema de unidade das universidades federais do país.

Em longo prazo, com as sinalizações que o governo Bolsonaro tem colocado para as universidades, como o senhor analisa que será o futuro das federais?

O futuro não existirá. A tendência é que as universidades morram de inanição aos poucos. Como já começam a sofrer nesse momento. Não temos a menor segurança de como chegaremos ao fim do ano.

Na minha universidade, por exemplo, teremos recursos para trabalhar até o fim de agosto. E mais nada. Quando é que vão ser liberado mais recursos? Se quer falar em futuro da universidade, tem que começar criando um momento diferente e não um em que deixa a universidade sem condições de funcionamento com esses cortes.

Outra coisa: Por que essa proposta não foi construída as claras, construídas com as universidades? Dizem que houve discussão.. Uma apresentação e um show midiático, onde tudo foi contato e pegou todo mundo de surpresa? Realmente é um absurdo. É uma tristeza, uma lástima. Espero que a universidade resista a esse projeto. Que tenhamos apoio, no Congresso, para combatê-lo porque é um absurdo.

O que significa um governo, no primeiro semestre, decidir por esse tipo de projeto?

É muito claro que há todo um interesse, uma obsessão pela questão ideológica. As universidades como centro de pensamento livre não são de direita e nem de esquerda, por mais que se procure rotular. São centro de pensamentos livres indispensáveis para o crescimento de qualquer sociedade. Há essa preocupação em introduzir um mecanismo de controle nas universidades.

Qual a marca que o governo Bolsonaro deixa no ensino superior público ao propor esse projeto?

É uma profunda tristeza. É uma falta de respeito, as coisas sendo tratadas de uma maneira pouco respeitosa. Medidas realmente muito estranhas. É uma obsessão pela ideologia, tudo é ideológico. Isso é terrível. Está nos colocando em uma posição vergonhosa no mundo.

As posições que tem sido tomadas pelo Brasil, o descompromisso com as metas estabelecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU), para atingir os objetivos do milênio… Isso é muito triste. Essa questão de querer esconder o aumento do desmatamento. Infelizmente, não é um governo do qual possamos nos orgulhar. É um governo que divide a sociedade, estimula a violência, o preconceito. É muito preocupante para as próximas gerações o país que teremos.

Lamentamos muito e esperamos que, de alguma maneira, o bom senso prevaleça, e que se faça uma análise. Há questões muito mais graves a serem tratadas e que as universidades não se recusam a discutir. Esse projeto é destruidor para as universidades. Qual o patrimônio maior da sociedade brasileira que não suas universidades públicas?

Brasil de Fato

terça-feira, 9 de abril de 2024

Ex-agente duplo lança livro para contar bastidores de projeto articulado pela CIA em Cuba * Katia Marko/Brasil de Fato

Ex-agente duplo lança livro para contar bastidores de projeto articulado pela CIA em Cuba
Raúl Capote passou por Porto Alegre para lançar o livro “Inimigo: A guerra da CIA contra a juventude cubana” e a Campanha Cuba Vive, Resiste!

Livro de Raúl Capote detalha Projeto Génesis, barrado pela contraespionagem cubana
Katia Marko
Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) 


Durante sete anos, o jornalista cubano Raúl Antonio Capote Fernández foi um agente duplo. Aconteceu entre 2004 e 2011. Nesta história real de contraespionagem, para a Central Intelligence Agency, a CIA, ele era um opositor do governo cubano. Na realidade, Capote agia para descobrir o que estava por trás do projeto Génesis, engendrado pela espionagem norte-americana e com os olhos postados na ilha do Caribe.


Sob o biombo de ONGs, o plano visava doutrinar jovens estudantes cubanos no exterior que, seduzidos pela ideia de “modernizar” Cuba, retornariam ao seu país para semear uma rebelião, usando primeiro as redes e depois as ruas, partindo para o confronto até o ponto de demandarem uma intervenção militar dos EUA. Uma primeira versão das “revoluções coloridas” que agitaram o Oriente Médio e parte do mundo no embalo das guerras híbridas para promover golpes de estado. Em Cuba, não deu certo porque Havana descobriu.

Agora, Capote está lançando o relato dessa aventura em português. É o livro “Inimigo: A guerra da CIA contra a juventude cubana”. Publicado em Cuba em 2012, já recebeu edições em italiano, alemão, turco e russo. Também será editado em inglês e vai virar série de TV. Editor do Granma Internacional, também professor e escritor, Capote passou por Porto Alegre para lançar o livro e a Campanha Cuba Vive, Resiste, e conversou com Brasil de Fato RS. Confira:

Brasil de Fato RS - O que podes contar dessa história que trazes no livro?

Raúl Capote - Escrevi o livro em 2012. É um testemunho baseado em histórias reais, mais do que baseado, é absolutamente real. É a história de um agente secreto cubano que trabalhou durante mais de sete anos dentro da CIA, a agência central de inteligência dos Estados Unidos. Sete anos trabalhando em um projeto da CIA dirigido à juventude, sobretudo aos jovens universitários cubanos, tratando de construir uma liderança contrarrevolucionária.

Em 2004, quando se começa a contar essa história, os EUA decidiram mudar a política em relação a Cuba. Reconhecem que tudo o que fizeram durante tantos anos fracassou. Necessitavam preparar-se para o que ocorreria na direção do país. Prepararam-se para 10 ou 15 anos, quando Fidel já não estivesse, para impedir a continuidade revolucionária. O projeto se chamou Génesis.

A CIA criou um plano destinado para estudantes cubanos a serem formados na Europa

BdF RS - Génesis...

Raúl Capote - Começa com um ponto essencial para o trabalho que era a formação de uma nova liderança. Cria-se um plano (direcionado) a jovens estudantes cubanos a serem formados na Europa e com um vínculo estreito com organizações não governamentais. Elas financiariam os projetos.

Após esses 10 ou 15 anos, depois de cursos de pós-graduação, mestrado, doutorado, iriam para os serviços, a economia, a política, as forças armadas, os meios de comunicação. E isso iria formando uma rede com vínculos de formação ao governo estadunidense e, sobretudo, com a CIA. Ainda que não soubessem, porque acreditavam que realmente estavam sendo patrocinados por uma ONG.

BdF RS - Essas ONGs estavam atuando dentro de Cuba?

Raúl Capote - Sim, era um plano interno contra a revolução. A outra parte do projeto implicava desenvolver uma intensa guerra no terreno das ideias, da cultura, usando a indústria do entretenimento. Uma guerra muito sutil…

BdF RS - Conhecemos bem ela...

Raúl Capote - Foi criado para esse projeto secreto um canal offline. Criou-se um público. Parecia algo sem consequências. Bem, que bom, as pessoas querem ver televisão. Eram programas elaborados especialmente para Cuba. Alguns eram conhecidos e outros elaborados unicamente para Cuba.

A ideia era criar em Cuba uma massa crítica de pessoas que não acreditavam na revolução. Nunca foram contrarrevolucionários. Eram pessoas a quem não interessava a revolução para nada. Utilizavam-se os manuais das revoluções coloridas e, sobretudo, a experiência dos iugoslavos do movimento OPOR.

BdF RS - Como é o nome?

Raúl Capote - OPOR. Atuou contrarrevoluções na (antiga) Iugoslávia. Aparentava ser um movimento estudantil, independente, mas estava sendo dirigido por esta mesma estratégia. Havia criado o Canvas (sigla em inglês para “centro para conflito e estratégias não-violentas”).

BdF RS - Não-violenta?

Raúl Capote - Uma nova estratégia desenhada pela CIA que busca (derrubar um governo) com o menor esforço possível, sem nenhum armamento.

Começariam a atuar esses jovens treinados nas 150 ações para acabar com o governo

BdF RS - Sim, através da ideologia...

Raúl Capote - Tinham um manual chamado “Manual para pôr fim a uma ditadura" com 150 ações a serem feitas. Diz que, eliminando-se os pilares que sustentam um governo, ele cai, em implosão. A ideia é provocar o caos. Não que o governo renuncie, mas que não possa governar. Esse é o sentido da estratégia.

Era previsto (em Cuba) que fosse em 2019. Antes disso, houve uma mudança na política para Cuba. Tudo teve sentido. Nada foi casual. Diziam que a estratégia de confrontação direta não dava resultado e que era preciso recorrer à sedução. Queriam ganhar o cubano e acabar com a revolução impedindo sua continuidade quando Fidel morresse.

"A ideia era criar em Cuba uma massa crítica de pessoas que não acreditavam na revolução" / Foto: Ricardo Haesbaert

Evitando qualquer choque com as autoridades, nos dizíamos uma agência literária que promovia a obra, o autor e nos permitia atuar dentro de Cuba. Foi se ampliando, criando grupos de pensamento, muito suave, sem chamar atenção.

Apresentava-se como uma organização nascida nas universidades, integrada por jovens cubanos, acadêmicos, artistas plásticos, pintores, músicos, líderes sociais. Que proporia à Cuba uma alternativa à via socialista. Queria “modernizar o socialismo”. Não se apresentava como um grupo de direita ou de centro, mas como esquerda cujo único objetivo seria “modernizar o socialismo”. A palavra da organização era mudança.

BdF RS - Que tipo de mudança?

Raúl Capote - Não sabíamos para onde. Era engenhoso. Dizia-se “Não vamos destruir a revolução, não vamos acabar com o socialismo. Queremos modernizar. Vamos mudar”. O que havia atrás disso era uma proposta de privatização. Era muito neoliberal o projeto. Eu pensava: “Vão gerar uma grande confusão”.

E é nesse ambiente que haveria eleição. Começariam a atuar esses jovens treinados nas 150 ações para acabar com o governo. Sairiam às ruas a manifestar-se, a tomar e destruir instituições, provocar as autoridades, chocar-se com a polícia. A missão era deixar o país absolutamente ingovernável.

BdF RS – E o objetivo era uma intervenção militar?

Raúl Capote - Exato. Nessa situação de caos, o líder dessa organização deveria solicitar intervenção militar ao governo dos Estados Unidos. Seria um pedido para “garantir a tranquilidade e evitar derramamento de sangue”. Planejavam que a ocupação militar se prolongaria por três ou quatro anos até se criarem condições para celebrar “eleições livres”.

E nisso aplicariam o que estabelece a lei Helms-Burton (aprovada no governo Clinton, em 1996, para ampliar o bloqueio contra Cuba) em seu capítulo 1º. A Helms-Burton converte o bloqueio em lei estadunidense. Nenhum presidente pode opinar. Tem que reunir o congresso dos EUA e eliminar essa legislação com maioria. E o presidente poderia vetar ou não.

Em meio ao caos, a organização pediria intervenção militar aos EUA

Uma das razões fundamentais para o bloqueio é a exigência dos EUA de indenização para os donos de propriedades nacionalizadas em Cuba em 1958, quando triunfou a revolução. Falam em 90 bilhões de dólares. Como um pequeno país pagaria essa dívida?

É uma lei que sanciona os bancos que utilizam o dinheiro cubano, os barcos que levam produtos a Cuba. Significa um fechamento quase total do acesso de Cuba ao sistema financeiro e ao comércio internacional. É um plano estadunidense de colonização, de anexação. O propósito do projeto Genesis era garantir que isso acontecesse. Mas acaba antes porque o governo de Cuba denuncia o projeto em 2011.

BdF RS - O governo cubano então já sabia do projeto.

Raúl Capote - Desde o princípio.

BdF RS - Já estavas como agente?

Raúl Capote - Prefiro dizer que trabalhava como agente do povo cubano. Para se entender que coisa é um serviço de segurança como o cubano, é preciso outra compreensão do que as pessoas entendem como serviço de segurança. Fazíamos um serviço de segurança popular com pessoas que trabalhavam por convicção.

Sempre existiu um projeto coletivo porque é o segredo da resistência de Cuba

BdF RS - Te oferecestes para ser?

Raúl Capote - Sim e, como eu, milhões de pessoas em Cuba. É a estratégia de se antecipar a qualquer ação estrangeira. De que maneira um país que está a 150 km dos Estados Unidos, praticamente desarmado, sem recursos para enfrentar uma potência como essa, pode sobreviver? A única forma é sabendo o que vai acontecer. Antecipando-se sempre. Foi uma estratégia que Fidel (Castro) desenhou muito bem. De ter sempre pessoas que eram fiéis. Não recebíamos um centavo do Estado. É um tipo de trabalho que se faz de maneira voluntária por muita gente.

BdF RS - Foi assim também com a Rede Vespa? (*)

Raúl Capote - Isso. Não eram profissionais de espionagem. Eram pessoas como quaisquer outras.

BdF RS - O próprio Tony (Guerrero) era engenheiro, não é?

Raúl Capote - Engenheiro, professor universitário, jornalista. Não tinha vínculo, nenhum tipo de preparação, inclusive, para fazer um enfrentamento como esse. O que acontece é que a CIA foi se acercando. Ou me convertia em traidor do meu povo e país ou defendia Cuba. Não havia terceira opção. Cuba é um projeto coletivo. Sempre existiu um projeto coletivo porque é o segredo da resistência de Cuba. Se tivesse uma ditadura não seria possível. Nenhuma ditadura dura 62 anos dessa maneira, a não ser que seja, absolutamente...

Não é uma guerra contra o socialismo. É uma guerra contra a independência, a insubmissão

BdF RS - Defendida pelo povo...

Raúl Capote - É um projeto de que participa a maioria dos cubanos. Sente-se parte do que se faz. Sente-se parte da defesa do país, do que se produz, do que o país faz. Da maneira como funciona a nação. Não somos um país perfeito e temos muito o que evoluir. Nos equivocamos também e fizemos coisas que não eram para o momento. E é a base que a converteu em um inimigo declarado dos EUA, que não admite, sob nenhum princípio, que a ilha sobreviva e seja independente.


Não se trata de socialismo. Não se trata de que Cuba construiu um sistema socialista, como as pessoas pensam. É porque a ilha é independente. É parecido com o que o império francês fez ao Haiti, no século 19. O plano aplicado contra o Haiti é o mesmo que os EUA fazem contra nós. A França bloqueou o Haiti, impondo-lhe uma indenização ao antigo colono francês. E o Haiti não teve remédio senão pagar à coroa francesa com o dinheiro que a França lhe emprestou. Não se trata de uma guerra contra o socialismo. É uma guerra contra a independência. Contra a insubmissão.

"A história aqui contada é real e faz parte da epopeia do povo cubano" / Divulgação

O Haiti seguiu seu próprio caminho e sofreu a consequência. Passou anos pagando a dívida da França depois de um embargo. E, depois, os EUA roubaram tudo que havia no Haiti que, até hoje, está pagando o preço de haver sido a primeira República livre da América.

Em Cuba, o governo (em 1958) não era socialista. O que cria conflito é a lei da reforma agrária. Mas a reforma agrária estava na Constituição cubana desde 1940! Ou seja, sequer é uma invenção da revolução.

Cuba era um estado narco-mafioso, subordinado aos interesses americanos. Foi isso que Fidel e os cubanos enfrentaram

BdF RS - Quando sofremos o golpe militar em 1964 também, o presidente Jango queria fazer a reforma agrária.

Raúl Capote - O grande tema foi esse: o bloqueio de guerra contra Cuba nasce da lei da reforma agrária. E a primeira medida foi "Não lhe compramos o açúcar”!

E o mercado do açúcar cubano eram os Estados Unidos.

Quando Cuba avisa que venderá o açúcar aos soviéticos, os EUA dizem que não lhes venderão petróleo. Então, os russos dizem “Bem, nós vendemos o petróleo”. Mas as refinarias em Cuba eram americanas. E, então os EUA dizem: “Não refinaremos o petróleo soviético”.


Foi aí que tudo começou. O conflito começa antes de Cuba se declarar socialista. É simplesmente uma revolução democrático-burguesa e nacionalista que está a tentar recuperar a sua economia e fazer justiça.

Foi uma guerra contra a independência e um ato de vingança por ter tirado a riqueza dos antigos proprietários que possuíam 82% das melhores terras de Cuba.

A norte-americana United Fruit Company era dona das terras de um lado a outro do país. Estavam em mãos dos EUA as minas, refinarias e fábricas. Hotéis e cassinos pertenciam à máfia ítalo-americana. O ditador Fulgencio Batista morava nos EUA e tinha laços estreitos com o mafioso Lucky Luciano. Deu um golpe de estado e construiu o império de Havana, liderado por Meyer Lansky, nada mais nada menos do que o banqueiro da máfia. Era um estado narco-mafioso, totalmente subordinado aos interesses americanos. Foi isso que Fidel e os cubanos enfrentaram.

A estratégia seguida contra Kadhafi foi semelhante ao que queriam fazer em Cuba

BdF RS - Voltando à operação denunciada em 2011...

Raúl Capote - Muitas coisas estavam sendo preparadas e não só contra Cuba. Naquela época, ainda não se conhecia esse tipo de estratégia. Agora está se tornando muito popular com todo mundo falando em guerra híbrida...

BdF RS - O Brasil também viveu isso.

Raúl Capote - Agora temos 1 milhão de gurus especializados em como travar guerras não convencionais. Naquele tempo, ainda não se falava em revoluções coloridas e golpes suaves. Por isso é tão importante denunciar.

O que aconteceu na Líbia foi muito semelhante. A estratégia seguida contra (o líder líbio Muammar) Kadhafi foi semelhante ao que pretendiam em Cuba. Muito parecida com o que ocorreu no Oriente Médio com as revoluções árabes. O livro foi escrito para explicar do que se tratava. Foi traduzido para o italiano, alemão, turco, russo e agora português. E vai ser traduzido para o inglês. Tenho também um canal no YouTube onde tenho o livro narrado em espanhol. E está sendo produzida uma série de TV baseada nele.

BdF RS - Como será a série?

Raúl Capote - Planejamos fazer uma série que tenha muito mais alcance, seguindo o princípio de torná-lo (o livro) compreensível. Algo que comunique. Real, mas usando elementos de ficção. Copiando até um pouco os cânones de Hollywood, do cinema e das séries americanas: muita ação, velocidade, muitos cortes rápidos.

Cuba não pode solicitar empréstimo a nenhum banco do mundo

BdF RS - Em meio à pandemia, o governo Trump não apenas reforçou o bloqueio, mas também incluiu Cuba na Lista de Estados Patrocinadores do Terrorismo. O que isso significa?

Raúl Capote - Sim, estava na lista havia muito tempo, mas estar na listagem não significava o que representa hoje. Depois, Barack Obama retirou Cuba da relação de países patrocinadores do terrorismo. Mas Donald Trump mais uma vez nos incluiu, poucos dias antes de sair da presidência. Nem houve tempo para um debate no Congresso dos EUA sobre o assunto.


A inclusão de Cuba agora agrava muito a situação porque o alcance que a lista tem hoje é muito maior. O fato de sermos considerados um país terrorista, embora seja uma lista criada pelos EUA, impede os bancos de admitirem as transações comerciais cubanas. Ou seja, Cuba não pode comprar. Na China, sim. Mas não se pode ir à China com uma pasta de dinheiro e comprar um trator.

No mundo inteiro, para você comprar isso, faz através dos bancos. Faz uma transferência bancária e compra o que quiser. Bem, Cuba não pode. Não pode solicitar empréstimo a nenhum banco do mundo. Os bancos não podem te dar porque Cuba é um país terrorista, segundo a lista infame.

Pune as companhias de navegação. Se uma companhia marítima transporta um produto para Cuba, está transportando algo para um país que é acusado pelos EUA de ser terrorista. Portanto, essa transportadora pode ser sancionada. E não o fará.

Se um barco toca num porto cubano, tem que esperar seis meses para tocar num porto norte-americano

Complica muito o dia a dia dos cubanos porque aborda coisas essenciais. Por exemplo, se o combustível não entra, a eletricidade não pode ser gerada. Dependemos em grande medida dos combustíveis fósseis. Estamos tentando alcançar a independência nesta matéria, mas isso não acontece em dois anos. Exige anos e recursos e créditos que não temos. Paralisa o seu transporte.

Cria um problema sério em todos os sentidos e também visa dívidas. Por exemplo, Cuba tem uma dívida com um país por uma compra, algo normal em qualquer lugar. Mas você não pode pagar porque não tem como fazer chegar ao outro o dinheiro que deve. Por isso é tão importante que Cuba se livre disso. Não é nada justo porque aquilo de que está sendo acusada não faz o menor sentido.

BdF RS - Existem ainda mais sanções, não?

Raúl Capote - A lei Torricelli, que é outra das leis do bloqueio, diz que se um barco toca num porto cubano, tem que esperar seis meses para tocar num porto norte-americano. Então, a companhia marítima vai trazer uma carga para Cuba e perder o mercado norte-americano? Não vai. E sancionam também os capitães dos navios. Sancionam individualmente os proprietários dos navios ou das companhias marítimas num sistema de punições severas contra quem pensa negociar com Cuba.

Cuba é um dos poucos países do mundo onde uma bandeira americana nunca foi queimada

BdF RS - Uma ilha tão pequena e ameaça tanto os Estados Unidos...

Raúl Capote - Porque decidiu seguir seu próprio caminho. Nunca fomos inimigos dos EUA. Nunca declaramos guerra aos EUA, nunca cometemos um ato de agressão contra eles. É um dos poucos países do mundo onde uma bandeira americana nunca foi queimada. Em Cuba, é proibido queimar a bandeira americana. É um país com laços culturais estreitos, inclusive laços familiares sólidos, porque há cubanos que vivem do outro lado.


Muita gente mora nos EUA desde antes de 1959. Minha família morou lá na década de 1930. Esse fluxo sempre ocorreu porque eles são muito próximos. Porém, na medida em que Cuba resistiu, piorou. Ou seja, não aceitou nenhuma proposta desonrosa que vá contra os seus princípios.

Sempre estivemos dispostos a dialogar, mas em igualdade de condições. Eles sempre impuseram condições. Mas não têm o direito de nos impor condições e muito menos de nos pedir que renunciemos ao que a maioria dos cubanos escolhe. Não é decisão de um homem, nem de um grupo de pessoas. É a decisão de todo um povo.

BdF RS - O filme O Poderoso Chefão mostra bem a relação do (ditador Fulgencio) Batista com a máfia americana, não?

Raúl Capote - Tem um livro chamado O Império de Havana, do jornalista Enrique Cirules, que é maravilhoso, um trabalho investigativo fantástico. Todas as tardes um barco ligava Havana à Flórida. Fazia duas viagens por dia, uma de manhã e outra à tarde. O dinheiro da máfia saía na balsa para os EUA. Apenas do Riviera Hotel e do Riviera Casino, saia 1 milhão de dólares. Imagine 1 milhão de dólares na década de 1950. Batista também recebia sua parte. Foi um grande negócio.

Era um Estado mafioso onde se podia fazer o que quisesse. Luis Santos, traficante, membro da máfia italiana, foi senador da República em Cuba. Era um narco-estado. O plano de Batista era construir quilômetros de hotéis com cassinos, enquanto a maior parte do país passava fome. Foi a primeira ditadura que utilizou a tortura elétrica como método. Experiências que, depois, foram aplicadas nos regimes golpistas da América Latina.

(*) Rede de contraespionagem cubana presente em Miami nos anos 1990 para descobrir os responsáveis por atentados terroristas praticados contra Cuba. Cinco de seus integrantes – Tony Guerrero, Gerardo Hernández, Ramón Labañino, Fernando González e René González – foram presos e receberam sentenças de até 22 anos de prisão nos EUA. As condenações receberam críticas e oito Prêmios Nobel pediram a libertação dos cubanos. No governo Barack Obama foram libertados através de troca por espiões norte-americanos presos na ilha. O drama foi contado no livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, e no filme Wasp Network: Rede de Espiões, de Olivier Assayas.

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