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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

O QUE SERIA DO MUNDO SEM A ESQUERDA * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

O QUE SERIA DO MUNDO SEM A ESQUERDA
VÍDEO
O que você sabe sobre os Direitos Sociais nas Constituições Brasileiras e as Políticas Afirmativas?
Myla Fonseca/Politize

Por acaso você já parou para observar que, desde nossa independência, já tivemos um total de sete constituições e que cada uma delas reflete o período histórico no qual foi constituída?

E, mais ainda, em como os direitos sociais nelas inseridos foram frutos de árduas conquistas e reivindicações não apenas em nosso país, mas também ao redor do mundo, abrindo espaço para as recentes políticas afirmativas aplicadas hoje?

Portanto, mais do que aprender na escola que algumas de nossas constituições foram ora outorgadas ou impostas, ora promulgadas ou aprovadas por assembleias constituintes, ter em mente o contexto histórico em que cada uma culminou facilita bastante entendermos a nossa própria evolução como nação.

Além disso, este é um tópico de estudo pertinente e de ampla discussão nas aulas de redação para a preparação no Enem e demais concursos públicos, já que a elaboração de um texto dissertativo em seus exames é exigida, possivelmente abordando temas dessa natureza.

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Como outras nações nos ajudaram a moldar os direitos sociais nas constituições brasileiras?

Quando pensamos a respeito da Revolução Francesa (1789-1799), as palavras Liberdade, Igualdade e Fraternidade, inspiradas nos ideais do Iluminismo, rapidamente nos vêm à mente. E, em sua Constituição Francesa de 1791, não poderia deixar de ser diferente.

Em seu primeiro título, já se previa a implementação de setores públicos que se responsabilizassem pela educação de crianças abandonadas, provessem alívio aos pobres enfermos e trabalho aos pobres inválidos que não o encontrassem.

Ao que tudo indica, esses foram alguns dos primeiros direitos sociais mencionados em uma carta magna, em qualquer país, à época.

Já a contribuição do México, segundo o professor de Direito Constitucional da pós-graduação da Escola Brasileira de Direito, Rafael Bertramello, vem do fato de que, a partir do momento em que tais direitos assumem certa relevância histórica ao redor do globo, a Constituição Mexicana de 1917 é a primeira a conferir a categoria de direitos fundamentais aos direitos trabalhistas, direitos políticos e às liberdades individuais, nos seus artigos 5º e 123.

Em seguida, a Constituição Alemã de Weimar (1919) vinha de um período pós Primeira Guerra Mundial (1914-1918), onde a Alemanha ainda tentava se reerguer em meio aos escombros e, portanto, ela inovou ao introduzir uma maior preocupação de cunho social nos textos constitucionais.

Dessa forma, a carta magna alemã influenciou bastante a Constituição Brasileira de 1934 que, embora vigente por apenas três anos, em um conturbado contexto político, foi a primeira constituição nacional que disciplinou os direitos sociais e econômicos, em especial, o direito ao trabalho.

Além disso, praticamente desde o pós-Segunda Guerra Mundial, houve um contínuo e gradual incremento da influência norte-americana em muitos setores importantes nas sociedades ocidentais. A esse respeito, por volta da década de 1960, os EUA atravessaram um intenso processo de reivindicações democráticas a escopo nacional.

Clamava-se pela igualdade de direitos sociais e foi nessa época que o movimento negro se articulou e foi ganhando cada vez mais força. Como resultado, houve o banimento das leis segregacionistas dos Estados Unidos e a instituição de melhorias nas condições de vida da população negra.

Assim, como veremos, foi nesse contexto que as políticas afirmativas surgiram, gradualmente endossando demais minorias e ampliando uma malha de direitos sociais, espalhando-se para demais cantos do globo.

Retomando, pode-se dizer que, de modo geral, da constituição de 1934 para a atual, a de 1988, também chamada de Constituição Cidadã, houve um aumento da preocupação dos legisladores acerca dos direitos humanos e sociais do cidadão brasileiro.

Em outras palavras, a atual constituição legislou uma ampla rede de direitos sociais, como educação, segurança, previdência social, trabalho, saúde, moradia, proteção à maternidade, lazer, dentre outros.

Breve evolução dos Direitos Sociais nas Constituições Brasileiras

A primeira constituição brasileira foi imposta pelo imperador Dom Pedro I, dois anos após a nossa independência do reino de Portugal e Algarves, em 1822.

Enquanto na mesma época surgiam, no continente sul-americano, as primeiras repúblicas libertas da América Espanhola, o Brasil se isolava ao se tornar uma Monarquia Constitucional Hereditária.

Constituição de 1824

Através da Constituição de 1824, instituíram-se o voto censitário (exigia do eleitor uma determinada renda mínima) e não secreto; um poder a mais, o poder moderador, conferindo poderes quase absolutos ao imperador; e a união entre Igreja e Estado.

Constituição de 1891

A Carta Magna seguinte, a de 1891, foi aprovada por uma assembleia constituinte no período da República Velha (1889-1930).

De forma geral, ela se opôs à constituição anterior: extinguiu o poder moderador, estabelecendo autonomia dos estados através de uma República Federalista Liberal e Presidencialista.

Criou o Estado Laico, separando-o da Igreja, e pôs fim ao voto censitário.

Acabou apoiando as elites, sobretudo a cafeicultura paulista, e o coronelismo com seu “voto de cabresto”, e garantiu algumas liberdades individuais.

Constituição de 1934

A constituição de 1934 surgiu em meio a muitas mudanças intensas pelas quais passava a sociedade brasileira.

Em poucas décadas, através da Revolução de 1930, o país migrou de um modelo agrário-exportador para outro, o urbano-industrial.

Criou-se a Justiça Eleitoral, e ampliou-se a legislação trabalhista, com a implementação da previdência social, salário mínimo, férias, jornada de trabalho de 8 horas, etc.

O voto feminino e a autonomia dos sindicatos foram instituídos. Contudo, o golpe de Estado de 1937 invalidou essa carga magna, até hoje a de menor duração da nossa história.

Constituição de 1937

Em seguida, o presidente Getúlio Vargas fechou o Congresso Nacional e instaurou a ditadura do Estado Novo (1937-1945).

Um Brasil temeroso da “ameaça comunista” e vivendo próximo a regimes totalitários como o nazifascismo da Alemanha, Itália, Espanha e Portugal, abriu espaço para a Constituição de 1937.

Houve o fechamento do Poder Legislativo e a subordinação do 

Judiciário ao Executivo.

Instaurou-se a ação de uma Polícia Especial, ferramenta repressora do governo e, assim, ocorreu um retrocesso da democracia e dos direitos humanos no país.

Eliminou-se o direito de greve e a pena de morte foi reintroduzida.

Constituição de 1946

Já a Constituição de 1946 retomou a tripartição dos poderes e ofereceu autonomia política e administrativa aos estados.

Lembre que, de início, até 1942, o Brasil se posicionou de forma neutra na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Após esse período, optou pelo lado dos aliados (União Soviética, Inglaterra, França e EUA) contra o Eixo (Alemanha, Itália e Japão), enviando milhares de soldados para a Itália.

Nesse sentido, a contradição de que o Brasil era uma ditadura nos moldes nazifascistas, lutando contra o nazifascismo europeu ficou cada vez mais presente e, portanto, discutível a nível nacional.

Isso, junto a outros fatores conjunturais, abriu caminho para uma possível redemocratização.

Constituição de 1967

No entanto, em 1964, houve o Golpe Militar que derrubou o governo do presidente eleito João Goulart e a carta magna de 1946 passou a ser invalidada aos poucos através dos Atos Institucionais (AIs).

Ainda em 1964, os dois primeiros AIs suspenderam os direitos políticos dos cidadãos por dez anos, decretaram o fim dos partidos políticos e o julgamento dos crimes contra a segurança nacional restringiu-se aos tribunais militares.

O AI-3 cancelou as eleições diretas para governador. O AI-4 aprovou a Constituição de 1967, fortalecendo sobremaneira o Executivo.

E, por fim, o AI-5 deu ao presidente poderes para fechar o Congresso Nacional por tempo ilimitado, suspendeu o direito a habeas corpus e os direitos políticos de qualquer cidadão, eliminando seu direito de recorrer à Justiça. Contudo, o direito de aposentadoria da mulher foi instituído.

Durante a década de 1970, o país passou por um crescimento econômico sem precedentes em sua história até então. O período conhecido como “milagre econômico” foi caracterizado por obras faraônicas, como a construção da ponte Rio-Niterói, a Usina de Itaipu e a Transamazônica.

No entanto, como esse crescimento não trouxe real desenvolvimento econômico, a euforia passou e a crise mundial do petróleo de 1973, junto a outros fatores, como hiperinflação, desemprego generalizado, produção industrial estagnada e dívida externa elevada nos atingiram em cheio.

Constituição de 1988

Foi nesse contexto que uma nova constituição brasileira se fez necessária. A Constituição Federal de 1988 inovou em vários aspectos, especialmente em sua ampla garantia de direitos fundamentais.

Os analfabetos e menores entre 16 e 18 anos obtiveram direito ao voto, e a assistência social foi instituída, ampliando os direitos dos trabalhadores.

Além disso, implementou-se a independência do Poder Judiciário, que pode julgar e anular os atos dos demais poderes, Legislativo e Executivo.

Os Direitos Sociais na Constituição de 1988

Como vimos, historicamente, o Brasil é um país de enormes desigualdades sociais, no qual certas elites são muito privilegiadas em detrimento de demais setores da sociedade.

Foi com o intuito de tentar remediar essa situação que a atual Constituição Federal de 1988 foi criada. Em um momento de rearticulação de vários movimentos sociais, uma série de conquistas de direitos foram efetivadas.

E seu Artigo 6º, entendemos que:

“são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma dessa constituição.” (Redação dada pela Emenda Constitucional nº. 64, de 2010).

Nesse sentido, os artigos 3º, 6º ao 11, e 193 e seguintes tratam de direitos sociais que podem ser de âmbito dos trabalhadores, da seguridade social, de natureza econômica, da cultura e de segurança.

Quanto ao direito à educação, os artigos 6º e 205 a 214 lidam com esse tema. O Estado é obrigado a fornecer o ensino fundamental gratuitamente.

Quanto à saúde, os artigos 196 a 200 discursam que o Estado precisa se abster de qualquer ato que prejudique a saúde do cidadão e oferecer medidas que visem prevenir e tratar as doenças.

Já quanto ao trabalho, os artigos 1º ao 11 e 170 o valorizam dentro da ordem econômica da livre iniciativa a fim de se obter uma existência digna a todos.

Em relação à moradia, o direito assegurado não é o de uma casa própria necessariamente, e, sim, o de um teto ou abrigo em condições que preservem a intimidade pessoal dos membros da família.

Quanto ao lazer, este direito se preocupa com o descanso do trabalhador para que retome as atividades com energia renovada. Os artigos 3º e 217 dispõem sobre isso.

No que concerne à segurança, ela é a garantia da expressão e exercício pleno dos demais direitos e liberdades constitucionais.

Em relação à previdência social, prestam-se auxílios em moeda para aposentadoria por invalidez, por velhice, e por tempo de contribuição; por doença, maternidade, reclusão e funeral; no salário-desemprego, na pensão por morte do segurado, todos arrolados ao longo do artigo 201.

Além disso, prestam-se serviços de assistência médica, farmacêutica, odontológica, hospitalar, social e de reeducação ou readaptação profissional.

Já em relação à proteção à maternidade e à infância, tal direito entra como direito previdenciário (art. 201) e direito assistencial (art. 203), e o artigo 7º provê a licença à gestante.

Por fim, a assistência aos desamparados sob a forma de assistência social deverá ser prestada aos necessitados, independente do fato de contribuírem ou não com a previdência social.

As Políticas Afirmativas no Brasil

Foi em meio a essa ampliação dos direitos sociais e a uma maior articulação dos movimentos sociais reivindicatórios por igualdade que as ações ou políticas afirmativas nasceram.

Ou seja, as políticas afirmativas são políticas públicas do governo, mas que também podem surgir no ambiente empresarial, por iniciativa da sociedade civil, e visam diminuir as desigualdades históricas que certas minorias sofreram, sejam elas à luz de discriminação étnica, racial, religiosa, de gênero, classe, idade ou quaisquer outras.

A ideia principal seria a de mitigar possíveis prejuízos gerados pela desigualdade política, social e econômica das minorias, tais como mulheres, afrodescendentes, pessoas LGBTQIA+, minorias religiosas, portadores de deficiências, povos indígenas, quilombolas, ciganos, ribeirinhos e outros. O que os unem é terem sido alvo de inquestionável discriminação ao longo da nossa história.

Ainda em outras palavras, as políticas afirmativas visam fomentar a inclusão socioeconômica de minorias historicamente destituídas do acesso igualitário a oportunidades.

Essas políticas podem se dar por meio da priorização no atendimento de serviços públicos como saúde e educação, através de instituição de cotas em diversos níveis de ensino e em concursos públicos, bolsas de estudo, auxílios, empréstimos, creche, reserva de vagas em programas habitacionais, fundos de estímulo, preferência em contratos públicos e redistribuição de terras.

Nesse sentido, a Constituição de 1988 assegura as cotas para deficientes no serviço público e também direitos dos povos indígenas, levando em consideração as peculiaridades de cada etnia.

A previsão da proteção do mercado de trabalho para a mulher também é um destaque, assim como a determinação de cotas mínimas de participação feminina na política. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal estipulou que 30% do fundo partidário sejam alocados a um dos sexos, estimulando as candidaturas femininas.

Como somos a segunda maior nação de negros do mundo, atrás apenas da Nigéria, e detemos um legado histórico de quase quatro séculos de escravidão, as políticas afirmativas em relação aos negros têm se desenvolvido desde os anos 2000.

Hoje podemos contar com o Estatuto da Igualdade Racial, a Lei de Cotas no Ensino Superior e as Leis 10.639/03, 11.645/08 e 12.990/14.

Por fim, em 2012, o STF qualificou as políticas afirmativas como constitucionais e, embora de caráter temporário, fundamentais para a transformação social e a fomentação de futuras sociedades mais igualitárias, inclusivas e respeitosas das diversidades culturais.

No entanto, é bom lembrar que existe um descompasso entre essas iniciativas e a realidade empregatícia praticada pelo grande empresariado brasileiro.

Na maioria das vezes, as grandes empresas não se empenham em implementar ações afirmativas a médio e longo prazos e isso emperra a aplicação dessas políticas.

Direitos Sociais nas Constituições Brasileiras e Políticas 

Afirmativas no ENEM

Agora que você já entendeu melhor sobre o que são os direitos sociais no contexto das constituições brasileiras e as políticas afirmativas, que tal discutir sobre esse assunto com os amigos e a família?

E depois, redigir uma redação a esse respeito, lembrando de seguir certas dicas infalíveis, como se você estivesse redigindo uma redação do Enem?

A respeito do uso de técnicas de redação eficazes sobre esse tema, você já observou que, além de entender o tema proposto, a estrutura do seu texto conta muito?

Como fazer uma boa introdução na redação de forma simples e efetiva?

Durante a elaboração da tese, é interessante você observar se conta com uma boa declaração inicial, que fomente a curiosidade de seu leitor e o desperte para a leitura. Esse já é um ótimo começo!

Crie uma linha argumentativa, utilize informações confiáveis, seja atento à estrutura do seu texto e pratique bastante.

Quanto mais você escrever de forma atenta e consciente sobre um assunto, mais você ficará fera nele!
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terça-feira, 13 de maio de 2025

CARTA AOS BISPOS DO BRASIL SOBRE A ESCRAVIDÃO * PAPA LEÃO XIII

CARTA AOS BISPOS DO BRASIL SOBRE A ESCRAVIDÃO
Encíclica escrita pelo Santo Padre

Leão XIII

aos Bispos do Brasil

sobre a escravidão (5-5-1888)

Legionário, N° 296, 15 de Maio de 1938, págs. 1, 4 e 7


Nem todos conhecem a magnífica Carta Encíclica (de 5-5-1888) escrita por Sua Santidade o Papa Leão XIII aos Bispos do Brasil sobre a escravatura. – Os historiadores silenciam lamentavelmente o grande papel do imortal Pontífice na abolição. – Transcrevemos abaixo o documento em questão, como a melhor das homenagens que possa um jornal católico prestar à passagem do cinquentenário da Abolição

Aos Nossos Veneráveis Irmãos Bispos Do Brasil

LEÃO XIII, PAPA

Veneráveis Irmãos, Saúde e benção apostólica

Dentre os muitos e grandes testemunhos de piedade, que quase todos os povos Nos manifestaram e continuam a manifestar, felicitando-Nos por motivo de Nosso qüinquagésimo aniversário de sacerdócio, há um que particularmente Nos comove, e é o que Nos veio do Brasil, que por ocasião daquele feliz acontecimento, legalmente concedeu a liberdade a um grande número dos que ainda gemiam sob o jugo da escravidão nos dilatados domínios daquele Império.

Uma obra de tal magnitude, formada pelo espírito de caridade cristã e filha do zelo de varões e matronas, animados da mesma virtude e em união com o clero, foi oferecida a Deus, supremo autor e distribuidor de todos os bens, em testemunho de reconhecimento pela mercê, que tão benignamente Nos concedeu de atingirmos são e salvo a idade de Nosso ano jubilar.

Isto foi-Nos sobremodo agradável e consolador, e mais que tudo porque logramos ver a confirmação duma tão feliz notícia, a de que os brasileiros queriam abolir desde já e extirpar completamente a barbárie da escravidão. A vontade do povo foi secundada pelo zelo desvelado do Imperador e de sua augusta filha, bem como pelos que dirigem a pública administração, havendo para isso promulgado e sancionado leis adequadas. Manifestamos a alegria que sentimos, especialmente quando, em Janeiro passado, declaramos ao enviado do augusto Imperador, que Nós mesmo escreveríamos aos Bispos do Brasil recomendando-lhes a causa dos míseros escravos (por ocasião de Nosso jubileu... Nós desejamos dar “ao Brasil um testemunho particular do Nosso paternal afeto com referência à emancipação dos escravos”. Resposta à mensagem do ministro do Brasil, Souza Correia).

Somos em verdade o Vigário de Cristo, Filho de Deus, que a tal extremo amou o gênero humano, que não só não se dignou fazendo-se Homem, habitar entre nós, senão que também, comprazendo-se em chamar-se Filho do homem, claramente protestou que se abatera à nossa condição a fim de anunciar aos cativos a sua libertação (Is. LVI, I, Luc. IV 19.) a fim de que, quebrando as algemas da escravidão que oprimiam o gênero humano, isto é, as algemas do pecado, restaurasse todas as coisas nos céus e na terra (Ef. 1, 10) deste modo restabelecesse na prístina dignidade toda a descendência de Adão contaminada pelo pecado original.

Oportuníssimamente disse a este respeito São Gregório Magno: Pois que o nosso Redentor, criador de todas as coisas, determinou livremente em sua misericórdia, assumir a natureza humana a fim de que, pela graça da sua divindade, esmigalhada a cadeia que nos prendia à escravidão, fossemos restituídos à prístina liberdade, é por sem dúvida obra mui salutar o restituir à liberdade os que tendo nascido livres por natureza o direito das gentes tornou escravos (Lib VI, ep. 12).

Convém, pois, e muito se compadece com a índole de Nosso Magistério apostólico, fomentar e promover poderosamente tudo o que pode assegurar aos homens, quer individual, quer coletivamente considerados, os auxílios adaptados ao alívio de suas inumeráveis misérias que provieram, como fruto de uma àrvore corrompida, do pecado dos nossos primeiros pais; e estes auxílios, quaisquer que sejam, não somente influem eficazmente na civilização, mas também conduzem convenientemente a essa restauração integral de todas as coisas, que foi o ideal de Jesus Cristo Redentor dos homens.

Ora, dentre tantas misérias aparece uma bem digna de ser vivamente deplorada, a da escravatura a que há tantos séculos está sujeita uma grande parte da família humana, gemendo na dôr e na abjeção em menosprezo do estatuído primitivamente por Deus e pela natureza. E de fato, decretara o supremo autor de todas as coisas que o homem tivesse um como domínio real sobre todos os animais da terra, peixes do mar e aves do céu, e não que os homens exercessem domínio sobre os seus semelhantes.

Criando o homem racional, diz Santo Agostinho, Deus criou-o à sua imagem, e quis que fosse senhor apenas das criaturas irracionais, de modo que o homem exercesse domínio não sobre os homens, mas sobre os animais (Gen. I, 26).

De onde se conclui que o estado de escravidão de direito foi imposto ao homem pecador, e por isso é que nas Escrituras não encontramos a palavra escravos antes que o justo Noé vindicasse com tal palavra o pecado do filho. É pois proveniente este nome, não da natureza, mas do pecado (Gen. 1, 25, Noé c. XXX). Do contágio do primeiro pecado se derivam todos os males, e, sobretudo, essa perversidade monstruosa, em virtude da qual homens houve que, esquecidos da fraternidade original e desprezando os ditames da razão natural, não só não observaram entre si o mútuo amor e a mútua benevolência, senão que também, arrastados pela ambição, começaram a ter os outros na conta de inferiores a si, e por isso a tratá-los como animais nascidos para o jugo. Deste modo, não tendo em consideração alguma a identidade da natureza, a dignidade humana, a imagem divina impressa no homem, sucedeu que, graças às questões e guerras que ao depois estalaram, os vencedores escravizassem os vencidos, e a multidão, ainda que da mesma raça, se dividisse gradualmente em indivíduos de duas categorias distintas, a saber: os escravos vencidos sujeitos ao domínio dos vencedores seus senhores.

A escravidão no mundo antigo

Deste lutuoso espetáculo é testemunha a história antiga até ao advento do Redentor; a escravatura propagou-se em todos os povos, e tão reduzido era o número dos homens livres que um poeta chegou a pôr nos lábios de César esta atrocidade: O gênero humano vive para poucos (Lucan. Phars. V, 343).

A escravatura estava em vigor nas nações mais civilizadas, entre os gregos e romanos, onde a dominação dum pequeno número se impunha à multidão, e esta dominação era exercida com tanta perversidade e orgulho, que as turbas de escravos eram considerados como bens, não como pessoas, como coisas desprovidas de todo o direito e até da faculdade de conservar a vida.

Os escravos vivem sob o poder dos senhores, este poder emana do direito das gentes; em quase todas as nações vemos, com efeito, que os senhores tem direito de vida e de morte sobre os escravos, e tudo o que estes adquirem, adquirem-no para os seus senhores (Justinian, Inst. I. I, tit. 8, n. 1).

Deste transtorno moral seguiu-se que era lícito aos senhores permutar, pública e impunemente, legá-los como herança, matá-los, abusar deles para satisfação das suas paixões e da sua cruel superstição.

Ainda mais, os que entre os gentios tinham a reputação de sábios, filósofos insignes, jurisconsultos doutíssimos trataram de se persuadir a si mesmo e de persuadirem a outros, por um supremo ultraje ao senso comum, que a escravatura nada mais é do que a condição necessária da natureza; e não se envergonharam de ensinar que a raça dos escravos era muito inferior em aptidões intelectuais e em beleza física à raça dos homens livres; que era necessário, por isso, que os escravos, instrumentos desprovidos de razão e de sabedoria, estivessem em tudo sujeitos à vontade de seus senhores.

Esta doutrina desumana e iníqua é altamente detestável, e tal que uma vez admitida não há opressão, por infame e bárbara que seja, que não possa impudentemente sustentar-se com uma certa aparência de legalidade e de direito.

A história abunda em exemplos de grande número de crimes e de perniciosos flagelos que a escravatura trouxe às nações; excitou-se o ódio no coração dos escravos, e os senhores viram-se reduzidos a viverem em apreensões e receios contínuos; aqueles preparavam os fachos incendiários do seu furor, estes exacerbavam as suas crueldades; os Estados viam-se abalados e expostos a todos os momentos à ruína pelo número de uns e pela força dos outros; numa palavra, da escravatura provieram os tumultos, as sedições, a pilhagem, as guerras e as carnificinas.

Nesta profunda abjeção da escravatura viviam muitos, e tanto mais miseravelmente quanto mais profundas eram as trevas em que estavam submergidos, quando na plenitude dos tempos determinados por conselho divino, resplandece do alto dos céus uma admirável luz, e a graça redentora de Cristo se derrama copiosamente sobre todos os homens; em virtude deste benefício os homens foram levantados do lodo e do opróbrio da escravidão, e todos, sem exceção, remidos da servidão do pecado e sublimados à nobilíssima dignidade de filhos de Deus.

A caridade e a escravidão

Em verdade, os Apóstolos, desde os primórdios da Igreja tiveram o cuidado de ensinar e de inculcar, entre outros preceitos de uma vida santíssima, este, que repetidas vezes fora ensinado por São Paulo aos regenerados pelas águas do Batismo: Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Porque todos os que fostes batizados em Cristo, revestiste-vos de Cristo. Não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há macho, nem fêmea. Porque todos vós sois um em Jesus Cristo (Gal. III, 26, 28). Não há diferença de gentio e de judeu, de circuncisão e de prepúcio, de bárbaro e de seita, de servo e de livre; mas Cristo é tudo e em todos (Coloss. II, 11). Porque no mesmo espírito fomos batizados todos nós, para sermos um mesmo corpo, ou sejamos judeus, ou gentios ou servos, ou livres e todos temos bebido em um mesmo Espírito (I Cor, XII, 13).

Documentos são estes realmente áureos, honestíssimos e salutares, cuja eficácia não só redunda em honra e aumento do gênero humano, senão que também leva os homens, qualquer que seja a sua nacionalidade, a sua língua, a sua condição a unirem-se estreitamente pelos laços de uma caridade fraternal.

Essa caridade de Cristo, da qual estava inflamado o beatíssimo Paulo, tinha-a haurido no próprio Coração dAquele que misericordiosamente se tornou irmão de todos e cada um dos homens, e que os enobrecera a todos sem exceção de um só, da sua própria nobreza, de modo a torná-los partícipes da natureza divina. Por esta mesma caridade se foram formando e constituindo divinamente as gerações e floresceram dum modo sobremaneira admirável para esperança e felicidade pública, até que, no decurso dos tempos e dos acontecimentos e graças ao trabalho perseverante da Igreja, as nações se puderam constituir sob uma forma cristã e livre, renovada à semelhança da família.

Na verdade, desde o princípio a Igreja dedicou especial cuidado para que o povo cristão recebesse e observasse, como era de justiça, numa questão de tão súbito momento, a pura doutrina de Jesus Cristo e dos seus Apóstolos. Graças ao novo Adão, que é Jesus Cristo, subsiste a comunhão fraterna não só do homem com o homem, mas das nações entre si; e assim como todos tem uma só e mesma origem na ordem natural, assim também na ordem sobrenatural todos tem uma só e mesma origem de salvação e de fé; todos são igualmente chamados à adoção de um só Deus e Pai, porque todos foram remidos mediante o mesmo preço; todos são membros de um grande corpo; todos são admitidos a participar do divino banquete, a todos são oferecidos os benefícios da graça e os da vida imortal.

Postas estas coisas como base e fundamento, a Igreja, como terna mãe, esforçou-se em levar algum alívio ao pêso e ignomínia da vida servil, definiu e inculcou veementemente os direitos e deveres recíprocos dos senhores e dos servos, consoante foram afirmados nas epístolas dos Apóstolos.

Em verdade, os príncepes dos Apóstolos recomendavam aos escravos que tinham lucrado para Jesus Cristo: Sêde sujeitos em todo o temor, não só aos bons e modestos, mas ainda aos díscolos (I Petr. II, 18). Obedecei aos senhores carnais com temor e com tremor, na simplicidade de coração, como a Cristo; não servindo só aparentemente, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, cumprindo com todo o coração a vontade de Deus, servindo com boa vontade, como ao Senhor, e não aos homens; sabendo de mais que cada um, servo ou livre, receberá de Deus a recompensa do bem que praticar (Ef. VI, 5-8).

O mesmo São Paulo diz a Timóteo: Os que vivem sob o jugo da escravidão tenham os seus senhores como dignos de toda honra; aqueles que tem por senhores fiéis não os desprezem, porque são fiéis muito amados e porque são irmãos, mas sirvam-nos ainda mais participantes dos benefícios. Eis o que deveis ensinar e exortar (I Tim. VI, 1-2). A Tito igualmente ordenou que ensinasse os servos a serem submissos aos seus senhores, que os não contradissessem nem enganassem, mas que em tudo mostrassem boa fé, a fim de que a boa doutrina do nosso Salvador resplandecesse em todos (Tit. II, 9-10).

Assim é que aqueles primeiros discípulos da fé Cristã muito bem compreenderam, que a igualdade fraternal dos homens em Cristo de nenhum modo devia apoucar ou fazer esquecer o respeito, a honra, a fidelidade e os demais deveres a que eram obrigados para com seus senhores; e daqui provieram grandes benefícios, que tornaram mais certos aqueles deveres, mais leve e suave o seu cumprimento, e mais frutuosos para merecerem a glória celeste.

Professavam, com efeito, o respeito para com os seus senhores, honravam-nos como homens revestidos da autoridade de Deus, origem de todo o poder, e não eram movidos a isto por medo dos castigos, pela astúcia ou pela ambição, mas pela consciência do seu dever, pelo zelo da sua caridade. Reciprocamente, as justas exortações do Apóstolo dirigiam-se aos senhores, a fim de que tratassem com caridade os servos em compensação dos seus bons serviços: E vós, senhores, procedei do mesmo modo para com eles; não os ameaceis sabendo que o vosso Senhor e o deles está nos céus, e que diante dEle não há acepções de pessoas (Ef. VI, 9).

Eram igualmente exortados a considerar que, assim como não é justo para o servo o queixar-se de sua sorte, pois que é liberto do Senhor, assim também não é permitido ao homem livre, porque é o servo do Senhor (I. Cor. VII, 22), ostentar altivez e mandar com orgulho. Por isso, foi ordenado aos senhores que reconhecessem a dignidade humana nos servos, e que os tratassem convenientemente, considerando-os não como sendo de natureza diferente, mas iguais a si pela religião e pela comunidade de servidão para com a majestade do Senhor comum.

Estas leis, tão justas e tão adaptadas a harmonizar as diversas partes da sociedade doméstica, foram praticadas pelos mesmos Apóstolos. Bem digno de notar-se é o exemplo de São Paulo quando escrevia com tanta benevolência em favor de Onesino, escravo fugitivo de Filemon, que enviou a este com terna recomendação: Recebe-o como muito querido do meu coração... não como um escravo, mas como um irmão querido segundo a carne e segundo o Senhor; porque se alguma coisa te prejudicou ou é teu devedor, imputa isto a mim (Ad Fil. 12-18).

A ação da Igreja

Por pouco que se compare um e outro modo de procedimento, o dos pagãos e o dos cristãos, para com os escravos, vê-se claramente que um era cruel e pernicioso, outro cheio de doçura e humanidade, e certamente que ninguém ousará negar à Igreja o mérito que lhe pertence por ter sido o instrumento duma tão grande indulgência. E tanto mais não negaremos à Igreja tal mérito, se atentamente se considerar com que doçura e com que prudência a Igreja extirpou e destruiu o abominável flagelo da escravatura. – Ela não quis, na verdade, proceder apressadamente à libertação dos escravos; o que certamente não poderia realizar senão de um modo tumultuoso que redundaria em detrimento da própria Igreja e da sociedade. Foi a razão porque, se na multidão de escravos que havia agregados aos fiéis, algum aparecia que, levado de esperança de liberdade, recorria à violência e à sedição, a Igreja reprovava e reprimia estes esforços condenáveis e empregava, por meio dos seus ministros, o remédio da paciência. Ensinava os escravos a persuadirem-se de que em virtude da luz da santa fé e do caráter cristão, eram sem dúvida muito superiores em dignidade aos senhores pagãos; mas que também eram mais estritamente obrigados, para com o próprio autor e fundador da fé, a não formarem desígnios hostis e a não faltarem em nada ao respeito e à obediência que lhes eram devidas; e desde o momento em que sabiam que eram chamados ao reino de Deus, dotados da liberdade de seus filhos e destinados a bens imortais, não se deviam afligir por causa da abjeção e dos males da vida caduca; mas, levantando os olhos ao céu, deviam consolar-se em suas santas resoluções.

Foi aos homens reduzidos à escravidão que São Paulo se dirigiu, quando escrevia: A graça consiste em suportar por dever de consciência para com Deus, aflições e até sofrer injustamente. É nisto com efeito que consiste a vossa vocação, porque Jesus Cristo sofreu por vós, deixando-vos o exemplo para que O imitásseis (1. Petr. II, 19-21).

Esta tão levantada glória da solicitude unida à moderação, e que faz admiravelmente resplandecer a divina virtude da Igreja, sobe de ponto atendendo à grandeza de alma eminente e invencível, que pode inspirar e sustentar entre tantos humildes escravos. Era um espetáculo admirável o exemplo de boas obras que davam aos seus senhores, e não menos admirável o exemplo de sua grande paciência em todos os seus trabalhos, sem que nunca fosse possível levá-los a preferir as ordens iníquas de seus senhores aos santos mandamentos de Deus, se bem que, com ânimo imperturbável, o rosto sereno, expiravam no meio dos mais atrozes tormentos.

Eusébio celebra a memória da invencível constância de uma virgem de Patames, na Arábia, que, resistindo à licença de um senhor impudico, afrontou corajosamente a morte e, com o preço do seu sangue, permaneceu fiel a Cristo. Podem admirar-se outros exemplos dados por escravos, que resistiam firmemente até à morte aos seus senhores, que atentavam contra a liberdade de sua alma e contra a fé que tinham jurado a Deus. Quanto a escravos cristãos que, por outros motivos, teriam resistido aos seus senhores ou tramado conspirações prejudiciais ao Estado, a história não cita um só exemplo.

Quando alvoreceu para a Igreja a era da paz e da tranquilidade, os Santos Padres expuseram com admirável sabedoria os ensinamentos apostólicos sobre a união fraternal dos corações entre os cristãos, e com igual caridade aplicaram estes ensinamentos em proveito dos escravos, esforçando-se em persuadi-los de que os senhores tinham sem dúvida legítimos direitos sobre o trabalho dos seus servos, mas que de nenhum modo lhes era permitido terem poder absoluto sobre a sua vida e tratá-los com sevícia cruel.

São Crisóstomo tornou-se notável entre os gregos, tratando-se muitas vezes deste ponto e afirmando com um coração e linguagem cheia de franqueza que a escravatura, segundo a antiga significação da palavra, já então havia sido suprimida por um insígne benefício da fé cristã, a ponto de que, entre os discípulos do Senhor, a mesma escravatura parecia e era de fato um nome sem realidade. Com efeito Jesus Cristo (e assim raciocina, em resumo, o Santo Doutor) desde o momento em que, pela sua soberana misericórdia para conosco, apagou a culpa original, curou também a corrupção que daquela falta resultara nas diversas classes da sociedade humana; portanto, assim como graças a Jesus Cristo, a morte perdeu os seus horrores e não é senão uma tranquila passagem à vida bem-aventurada, assim também a escravatura foi suprimida. Se o cristão não é escravo do pecado, não pode com razão chamar-se escravo.

Todos os que foram regenerados e adotados por Jesus Cristo são completamente irmãos; é desta nova procriação e desta adoção na família do mesmo Deus que deriva a nossa glória; é da verdade e não da nobreza de sangue que provém a nossa dignidade; e, para que a forma desta fraternidade evangélica produza um fruto mais abundante, é de toda a necessidade que, ainda mesmo nas relações exteriores da vida, se manifeste numa reciprocidade mútua de bons ofícios, de modo que os escravos sejam tratados como domésticos e membros da família, e que os chefes da família lhes forneçam, não só o que é necessário para o sustento da vida, mas também todos os socorros da religião. Enfim, a saudade singular que São Paulo envia a Filemon, desejando a graça e a paz à Igreja que está em sua casa (Ad. Phil., v.2), é um como ensinamento de que os senhores e os escravos, entre os quais existe a comunhão da fé, devem igualmente ter entre si a comunhão da caridade (Hom. XXIX, in Gen., or in Lazar., Hom. XIX, in ep. I ad Cor., Hom. 1 in ep. ad Phil.).

Entre os latinos podemos mencionar Santo Ambrósio que tão diligentemente investigou, a este propósito, as razões das relações sociais e que, melhor que ninguém, precisou segundo as leis cristãs o que pertence a uma e a outra categoria; e é desnecessário dizer que as suas doutrinas se harmonizam perfeitamente com as de Crisóstomo (De Abr., De Jacob et vita beata c. III de Patr. Joseph, c. IV, Exhort. virgin. c. I.).

Vê-se que tais ensinamentos eram de alta justiça e utilidade, e, o que é capital, eram inteira e fielmente observados onde quer que o cristianismo floresceu.

Se assim não fôra, Lactâncio, esse eminente defensor da religião, não ousaria certamente dizer, falando de alguma sorte como testemunha: Alguns fazem-nos esta censura: Não há entre vós pobres e ricos, escravos e senhores? Não há porventura diferenças entre vós? Não; e a razão porque uns aos outros damos o nome de irmãos, não é outra senão porque todos nos julgamos iguais; porque desde o momento em que consideramos todas as coisas humanas, não sob o ponto de vista corpóreo mas espiritual, ainda que a condição do corpo é diversa, todavia para nós não há escravos, mas nós os temos como irmãos e tais os chamamos com referência ao espírito, em quanto que somos co-escravos quanto à religião (Divin. Instit. I. v. c. 6.).

Solicitude da Igreja pelos escravos

A solicitude da Igreja na tutela dos escravos era de dia para dia mais entranhada, e, aproveitando toda a oportunidade a que (tal) solicitude tendia lograr com a devida prudência, que lhes fosse enfim concedida a liberdade, o que certamente lhes era também de grande proveito para a eterna salvação.

Os anais da história eclesiástica dão testemunho de que os fatos corresponderam a esta solicitude. Contribuíram poderosamente para isso nobres matronas, dignas por isso dos louvores de São Jerônimo. A este propósito conta: Sabíamos que, nas famílias cristãs ainda nas que não eram opulentas, não raras vezes sucedia que os escravos eram generosamente restituídos à liberdade. Ainda mais, São Clemente havia louvado muito antes o testemunho de caridade dado por alguns cristãos, os quais, oferecendo as suas pessoas em lugar de outras, se sujeitaram à escravidão para libertar os escravos que de outro modo não podiam libertar (1 Ef. ad Cor., c. 55.).

Eis porque a libertação dos escravos começa a realizar-se nos templos como um ato de piedade e a Igreja o institui como tal, recomendando aos fiéis que o pratiquem nos seus testamentos a título de ato agradável a Deus e digno a seus olhos de grande mérito e recompensas e daí vem estas palavras pelas quais era dado aos herdeiros a ordem de libertação dos escravos: pelo amor de Deus, para a salvação ou para o merecimento de minha alma. Nada se omitia que pudesse servir para resgate dos cativos: vendiam-se os bens dados a Deus; fundiram-se os vasos sagrados de ouro e prata; vendiam-se os ornamentos e as riquezas das basílicas, como por mais que de uma vez fizeram os Ambrósios, os Agostinhos, os Hilários, os Elói, os Patrícios e outros muitos personagens santos.

Grandes coisas foram feitas em favor dos escravos pelos Pontífices Romanos, os quais foram verdadeiramente os defensores dos fracos e os vingadores dos oprimidos. S. Gregório o Grande, deu a liberdade ao maior número de escravos que lhe foi possível, e no Concílio romano de 597 quis que fosse dada a liberdade aos que quisessem seguir a vida monástica.

Adriano I ensinou que os escravos podiam livremente contrair matrimônio, ainda mesmo contra a vontade dos seus senhores. Em 1167, foi abertamente intimado por Alexandre III ao rei mouro de Valença que não tornasse escravo nenhum cristão, porque ninguém é escravo por natureza e Deus a todos criou livres. Em 1198, Inocêncio III aprovou e confirmou a pedido dos fundadores João da Matha e Félix de Valois, a Ordem da Santíssima Trindade para redenção dos cristãos, que haviam caído em poder dos turcos.

Uma Ordem semelhante, a de Nossa Senhora das Mercês, foi aprovada por Honório III e depois por Gregório IX, Ordem que São Pedro Nolasco havia fundado com esta lei severa que os seus religiosos se entregassem à escravidão em lugar dos cristãos cativos, se tanto fosse necessário para os libertar. Gregório IX assegurou à liberdade um mais vasto asilo, decretando que era proibido vender escravos à Igreja, e exortou aos fiéis a que, em expiação das suas culpas, oferecessem os seus escravos a Deus e aos Santos.

Poderíamos a este propósito assinalar muitos outros benefícios prestados pela Igreja que constantemente defendeu, empregando para este fim a severidade das suas penas, os escravos contra os processos violentos e perniciosos ultrajes dos seus senhores; aos oprimidos pela violência oferecia o refúgio dos seus templos; ordenou que os libertos fossem admitidos a depor nos tribunais, repreendeu e corrigiu os que por meio de tramas condenáveis intentavam reduzir homens livres ao estado de escravidão. A Igreja favoreceu sempre a liberdade dos escravos que de qualquer modo lhe pertenciam, segundo os tempos e os lugares, quer estabelecendo que todo o laço de escravidão pudesse ser dissolvido pelo Bispo em favor dos que, durante um certo tempo, dessem provas de uma vida digna de louvor, que permitindo ao Bispo que declarasse livres os que espontaneamente lhe eram dedicados.

Deve atribuir-se também ao espírito de misericórdia e ao poder da Igreja o ser mitigada em favor dos escravos a severidade das leis civis; e as disposições suaves estabelecidas acerca de escravos, por São Gregório o Grande, foram adotadas pelos códigos das nações, graças sobretudo a Carlos Magno, que as introduziu nas suas Capitulares, do mesmo modo que ao depois Graciano no seu Decreto.

Enfim, no decurso das idades, os monumentos, as leis, as instituições, tem constantemente proclamado, por meio de testemunhos magníficos, a soberana caridade da Igreja para com os escravos, cuja condição humilhante a Igreja não só não deixou sem tutela, senão que também sempre procurou aliviar.

Assim bem digna é a Igreja Católica de ser honrada, exaltada e do reconhecimento de todos, e bem digna de que se proclame que bem mereceu da prosperidade dos povos, destruindo a escravatura por um benefício inapreciável de Cristo Redentor, e garantindo aos homens a verdadeira liberdade, fraternidade e igualdade.

No último quartel do século XV, quando o funesto flagelo da escravatura havia desaparecido das nações cristãs, os Estados se forçaram por se consolidarem sobre a base da liberdade evangélica e dilatar os limites de seu Império, a Sé Apostólica velava com o maior cuidado a fim de impedir que novamente surgisse a escravatura. Para isto olhou com especial cuidado para as regiões novamente descobertas da África, da Ásia e da América; espalhara-se, com efeito, a notícia de que os chefes das expedições ainda que cristãos, injustamente empregavam as suas armas e os seus talentos para estabelecer e impor a escravidão entre aquelas populações inofensivas. A áspera natureza do solo que tentavam subjugar, as riquezas metalíferas que tentavam explorar e que exigiam enormes trabalhos, levaram aquelas expedições a adotar planos absolutamente injustos e desumanos. Para isso começou-se a exercer o tráfico de escravos trazidos da Etiópia, tráfico a que se chamou escravatura dos negros e que largamente se propagou naquelas colônias.

Por um tal excesso praticou-se com os indígenas, geralmente designados sob o nome de Indianos, uma opressão semelhante à escravatura. Desde que foi conhecido com certeza este estado de coisas, Pio II dirigiu-se imediatamente à autoridade episcopal do lugar onde se exercia a escravatura, por uma carta na qual repreende e condena tão grave iniquidade. Pouco depois Leão X exerce, quanto possível, os seus bons ofícios e a sua autoridade junto aos reis de Portugal e Espanha a fim de que tomem a peito extirpar completamente um tal excesso, tão contrário à religião como à humanidade e à justiça. Todavia a calamidade da escravatura lançou profundas raízes, por causa da persistência de sua causa ignóbil, que era a inextinguível sêde do lucro. Então Paulo III, preocupado em sua caridade paternal com a condição dos escravos indianos, chegou ao extremo de se pronunciar públicamente sobre esta questão e por assim dizer em face de todas as nações, por decreto solene, estabelecendo que se devia reconhecer uma tríplice faculdade justa e própria a todos aqueles indígenas, a saber que cada um deles pudesse ser senhor de sua pessoa, que pudesse viver em sociedade segundo as suas leis e que pudessem adquirir e possuir bens. Confirmou isto mais amplamente por cartas ao Cardeal Arcebispo de Toledo, estabelecendo nelas que os que transgredissem aquele decreto seriam punidos com Interdicto e que era absolutamente reservado ao Pontífice Romano a faculdade de os absolver (Veritas ipsa, 2 Inn, 1859).

Em defesa da liberdade dos índios e dos negros

Com igual solicitude e constância, outros Pontífices como Urbano VIII e Bento XIV se mostraram valentes defensores da liberdade em favor dos indianos e dos negros e daqueles que ainda não tinham recebido a fé cristã. Foi ainda Pio VII que por ocasião do congresso realizado em Viena pelos príncipes confederados da Europa, chamou a sua atenção comum, entre outras coisas, para o tráfico dos negros, a fim de que fosse prontamente abolido, já em desuso em muitas localidades. Gregório XVI também admoestou gravemente aqueles que, sobre aquele ponto, violaram as leis e os deveres da humanidade; renovou os decretos e as penas impostas pela Sé Apostólica, e nada omitiu que pudesse levar as nações longínquas a imitar a mansidão da nações européias, a aborrecer e evitar a ignomínia e a crueldade da escravatura (In supremo Apostolus fastigio, 3 dec. 1857).

Sucedeu-Nos muito oportunamente o termos recebido as felicitações dos depositários supremos do poder público, por termos obtido, graças a perseverantes instâncias, que se fizesse justiça às reiteradas e justas reclamações da natureza e da religião.

Resta-nos todavia um outro cuidado, que vivamente nos preocupa com referência a um assunto semelhante e que reclama a Nossa solicitude. É que se o ignóbil tráfico de seres humanos cessou realmente sobre o mar, é largamente praticado na terra e com muita barbaridade, principalmente em certos lugares da África. Com efeito, desde o momento em que aos olhos dos maometanos, os etíopes e os habitantes de nações semelhantes são considerados apenas como alguma coisa superiores aos brutos, facilmente podemos conceber com amargura, com que pérfida e crueldade são tratados. Invadem subitamente, com a violência e processos dos ladrões, as tribos etíopes, que surpreendem de improviso; invadem as cidades, as vilas e os campos, devastando e assolando tudo, arrebanham, como prêsa fácil de conquistar, os homens, as mulheres e as crianças e conduzem-nos à viva força para os tráficos mais infames. É do Egito, de Zanzibar e também em parte do Sudão, como de outras tantas estações, que partem estas abomináveis expedições; obrigam a percorrer longos caminhos a homens carregados de cadeias, sustentados com uma alimentação miserável e feridos com horríveis açoites; os que não podem suportar tantas fadigas são mortos; os que sobrevivem são condenados a serem vendidos em massa e expostos diante de compradores cruéis e cínicos. Os assim vendidos viam-se expostos à deplorável separação de suas mulheres, de seus filhos, de seus pais, e o senhor, em cujo poder caíam, os sujeitava a uma escravidão duríssima e abominável, obrigando-os até a abraçarem a religião de Maomé. Com grande mágoa de nosso coração ouvimos ainda há pouco estas coisas dos próprios lábios daqueles que, com lágrimas nos olhos, foram testemunhas de uma tão infame ignomínia, e a sua narração é confirmada pelos modernos exploradores da África equatorial. Vê-se do seu testemunho que o número dos africanos vendidos deste modo, como se fossem um rebanho de bestas, é de quatrocentos mil, a metade dos quais pouco mais ou menos, depois de duros açoites durante um longo caminho, sucumbem miseravelmente, a ponto de que os viajantes, como é triste dizê-lo!, seguem os vestígios dos restos de tantas ossadas.

Quem não se comoverá em presença de tão grandes males? Quanto a Nós, Vigário de Cristo, o libertador e redentor amantíssimo de todos os homens, e que vivamente Nos alegramos com os méritos tão numerosos e gloriosos da Igreja para com todos os desgraçados, dificilmente podemos exprimir a comiseração da nossa alma para com aquelas populações desventuradas, a imensa caridade com que lhes abrimos os braços, e o quanto ardentemente desejamos procurar-lhes os socorros e alívios possíveis, a fim de que libertados da escravidão dos homens e da superstição, lhes seja finalmente concedido servirem o único e verdadeiro Deus, sob o jugo suavíssimo de Cristo, e serem admitidos conosco à herança divina. Praza a Deus que todos os que se acham investidos do poder e da autoridade, queiram salvaguardar os direitos das gentes e da humanidade, ou que sinceramente se dediquem ao progresso da religião, se esforcem todos ardentemente sob as Nossas instâncias e exortações, a reprimirem, impedirem e abolirem aquele tráfico, o mais ignóbil e infame que se pode imaginar!

Graças a um movimento mais acentuado do talento e da atividade, abrem-se novos caminhos para as regiões africanas e estabelecem-se novas relações comerciais, e os homens dedicados ao apostolado trabalham, podendo assim dedicarem-se melhor à salvação e libertação dos escravos. E não conseguirão feliz resultado nos seus trabalhos senão enquanto, fortalecidos pela graça, se consagrarem totalmente à propagação da Nossa santa fé e trabalharem cada vez com mais adorno no seu desenvolvimento, porque é fruto insígne desta fé o fomentar e favorecer admiravelmente a liberdade com a qual fomos libertados por Cristo (Galat. IV, 31.). Para este fim Nós os exortamos a considerar, como num espelho de virtude apostólica, a vida e obras de Pedro Claver, a quem ultimamente decretamos as honras do altar; a admirável constância com que totalmente se consagrou, durante 40 anos consecutivos, ao ministério daquelas desgraçadas multidões de escravos negros, fez com que fosse considerado o apóstolo daqueles de quem ele mesmo se dizia e era assíduo servo. Se os missionários copiarem e reproduzirem em si a caridade e a paciência deste apóstolo, tornar-se-ão seguramente dignos ministros da salvação, consoladores mensageiros da paz, e ser-lhes-á dado, mediante Deus, converter a desolação, a barbárie, a ferocidade, em feliz prosperidade da religião e da civilização.

A abolição no Brasil

Sentimos o ardente desejo de convergir para vós, Veneráveis Irmãos, o Nosso pensamento e as presentes letras, para de novo vos manifestar e compartilhar convosco a grande alegria que experimentamos por causa das resoluções publicamente adotadas no Império do Brasil relativamente à escravatura. Com efeito, desde o momento em que a lei determinou que todos os que ainda se achavam na condição de escravos fossem imediatamente admitidos à classe e direitos de homens livres, não somente isto Nos pareceu em si bom e salutar, mas ainda vimos animada e confirmada a esperança de fatos que no futuro muito hão de influir nos interesses civis e religiosos. Deste modo, o nome do Império do Brasil será justamente celebrado com louvor em todas as nações civilizadas e ao mesmo tempo o nome do augusto Imperador, a quem se atribui este belo pensamento, “que o seu maior desejo é ver prontamente abolidos nos seus Estados qualquer vestígio de escravatura”.

Mas entretanto que se cumpram aquelas prescrições da lei, Nós vos pedimos que vos dediqueis ativamente com toda a vossa autoridade, e que consagreis os vossos cuidados na execução daquela obra que deve superar não pequenas dificuldades. A vós pertence fazer com que os senhores e escravos se concertem entre si e com toda a boa fé, que não seja violada a clemência e a justiça, que todas as transações sejam legítimas e cristãmente resolvidas. É muito para desejar que a supressão e a abolição da escravatura, de todos querida, se realize felizmente, sem o menor detrimento do direito divino e humano, sem transtorno público, e de modo a garantir a utilidade estável dos escravos.

A cada um destes, bem como aos que já estão livres, como aos que vierem a sê-lo, dirigimos com zelo pastoral e coração de pai alguns ensinamentos salutares, tirados dos oráculos do grande Apóstolo das gentes. Guardem religiosamente a lembrança e o sentimento de gratidão, e manifestem-no com cuidado para com aqueles a cujos cuidados devem o ter recuperado a liberdade. Não se tornem nunca indignos de um tão grande benefício, e não confundam nunca a liberdade com a licença das paixões; pelo contrário usem a liberdade como convém a cidadãos honestos, para o trabalho de uma vida ativa, para o bem da família e do Estado. Cumpram assiduamente, não tanto pelo temor como pelo espírito de religião, o dever de respeitar e honrar a majestade dos príncipes, de obedecer aos magistrados, de observar as leis; abstenham-se de invejar as riquezas e a superioridade de outrem, porque é muito para lamentar que um grande número dentre os mais pobres se deixem dominar daquela inveja, que é a fonte abundante de muitas obras de iniquidade, contrárias à segurança e à paz da ordem restabelecida. Contentes antes com a sua sorte e com os seus bens, nada tenham tanto a peito, e nada desejem tanto como os bens celestes para alcançar os quais foram criados e remidos por Jesus Cristo; que sejam animados de piedade para com Deus, seu Senhor e Libertador, que O amem com todas as suas forças, que observem os seus mandamentos com toda a fidelidade. Que se gloriem de serem filhos da sua Esposa, a Santa Igreja, que se esforcem por serem dignos dela e que correspondam tanto quanto possam ao seu amor amando-a.

Insisti, Veneráveis Irmãos, para que os libertos sejam profundamente imbuídos destes ensinamentos, a fim de que, como Nós o desejamos convosco e com todos os bons, a religião assegure para sempre em toda a extensão do Império os frutos da liberdade que é outorgada.

A fim de que tudo seja realizado, pedimos e imploramos de Deus abundantes graças, mediante a intercessão maternal da Virgem Imaculada. Como penhor dos favores celestes e em testemunho da Nossa paternal benevolência, Nós concedemos afetuosamente a benção apostólica a vós, Veneráveis Irmãos, ao clero e a todo o povo.

Dada em Roma, junto de São Pedro, aos 5 de Maio de 1888, undécimo ano do Nosso Pontificado.

LEÃO XIII, PAPA
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sábado, 25 de maio de 2024

ESQUERDA X COMUNISMO * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

ESQUERDA X COMUNISMO

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Um dos antigos
hábitos da esquerda tradicional, é permanecer sempre nas mesmas litanias. É a mais pura reedição do ditado mais metafísico de Lao Tsé: “Enquanto eu for monge, tocarei a campainha.

Tal invariabilidade é especificamente ilustrada quando se fala dos agentes da revolução. Ignora-se que através de certas agências, sistemas e instituições ocorreu uma mudança na consciência do tempo. Não sei se você entendeu perfeitamente que devido aos efeitos da ciência e da tecnologia, especialmente das TIC, surgiu uma nova experiência e percepção do tempo vivido. Não falamos mais sobre lugares-comuns e história linear. Neste contexto, as famosas narrativas que retratam o tempo atual, olhando para trás, foram enfraquecidas.

A verdade é que essas narrativas antigas e do século XIX perderam o seu poder heurístico e demonstrativo. Assuntos tradicionais, como o sujeito, a classe e o sujeito povo, foram desestruturados material, lógica e simbolicamente. Pode-se ver, no horizonte, outros sujeitos sociais como redes, chats e grupos de discussão.

Outra manifestação é que as pessoas abandonaram a mania de adiar a sua existência para um futuro incerto que nunca chega. As pessoas relutam em aceitar as escatologias da vida após a morte. Coerente com as mudanças, na filosofia, na sociologia e na educação, este cronotrópio é cada vez mais elevado: invisibilidade, fenómenos e acontecimentos saturados.

Uma revolução que não se reconhece nestas transformações e não delineia as suas políticas de transformação está fadada ao fracasso.
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PALESTRA COM EDUARDO MARINHO-ES
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sábado, 29 de abril de 2023

1º DE MAIO INTERNACIONALISTA DE CLASSE E DE LUTA * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

1º DE MAIO INTERNACIONALISTA 
DE CLASSE E DE LUTA
RUMO AO SOCIALISMO!

Neste 1º de Maio a FRT e todos seus integrantes - pessoas e organizações - traz aos trabalhadores e demais oprimidos o convite a se empenhar nas lutas contra os ataques do capital. 

Companheiros, com uma rápida olhada no cenário mundial, qualquer um de nós constata claramente a desgraça causada pela exploração capitalista. Há guerras em todos os sentidos, desde o modo como as notícias são veiculadas na mídia, passando pelas novas bactérias até às mais avançadas tecnologias de destruição em massa, como os drones. 

Desde a invasão do Iraque, da Síria, do Afeganistão, da Líbia com a execução covarde de Muammar al-Kadafi, estamos assistindo a destruição de vidas humanas de forma apocalíptica. Em todas essas demonstrações de força, o seu protagonista tem sido o testa-de-ferro do capital, o IMPERIALISMO, que apesar de tantas derrotas, não se conteve e aventurou o domínio da Europa desde a QUEDA DO MURO DE BERLIM. Para isso, se apoderou de uma republiqueta nazista chamada UCRANIA, onde em 2014, depôs um governo eleito e empossou um boneco intitulado Zelenski. Passou a instalar bases da OTAN, ameaçando a Rússia, como se ela não tivesse o direito de se defender. Bom, o resultado nós já sabemos.

Hoje todos nós estamos vivendo no limite. Defender a vida se tornou um ato revolucionário. É nossa única saída diante da voracidade com que as grandes potencias se lançam sobre nossos países para se apoderarem dos nossos recursos minerais, hídricos e ambientais, além de empresas estratégicas e setores importantes de nossas economias. O golpe de 2016 no Brasil é isso, só para tomar o nosso PRE-SAL. O golpe de 2019 no Bolívia, só pra tomar o lítio dos bolivianos etc. O que vem ocorrendo na África e na América Central se encaixa nessa direção. 

Devido a essa disputa mundial pelos recursos, as grandes potências já racharam o imperialismo e se dividiram. Antes, havia apenas um bloco de países, que se agrupava em torno do FMI - Fundo Monetário Internacional. Mas agora já temos dois, claramente organizados, formando o novo BRICS, encabeçado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. No entanto, avaliamos que isso não vai parar por aí. Acreditamos que paralelo ao FMI e ao BRICS surja um terceiro bloco de países, os NÃO ALINHADOS.

Companheiras, companheiros, trabalhadores de todos os setores, o 1º DE MAIO é a data eleita pelo proletariado mundial para denunciar os crimes cometidos em Chicago - EUA, no ano de 1886, contra a vida de de nossos irmãos, que passaram à história como os MÁRTIRES DE CHICAGO. Portanto, foi devido às péssimas condições de vida e trabalho que eles foram obrigados a reagir contra a exploração patronal. 

Por isso, hoje tanto quanto naquela época, nós trabalhadores, não temos outra alternativa a não ser nos unirmos e defender os nossos direitos. Somente assim poderemos dar fim à política de assalto e extorsão imposta pelo capitalismo através da política neoliberal de extinção dos direitos sociais conquistados pela humanidade ao longo dos últimos séculos de lutas sociais.

Prova disso é a mobilização da classe trabalhadora na Europa e na América Latina. A Europa de Margareth Tatcher não existe mais. As privatizações estão sendo revogadas em todos os países. Assistimos nos últimos dias a um dos maiores levantes operários daquele continente, feito pelos aposentados contra as reformas da previdência francesa. E aqui no nosso continente, os aposentados chilenos vem dando trabalho ao chicago-boy Gabriel Bóric. 

NOSSA PAUTA PARA AVANÇARMOS

Portanto, nossa única saída é a luta. Precisamos de uma pauta de reivindicações construída em consenso dentro da classe. E ela precisa ser iniciada pela REVOGAÇÃO DAS REFORMAS NEOLIBERAIS JÁ! Todos os desastres cometidos contra os trabalhadores precisam ser alvo de nossa reação, de forma organizada e mobilizada, comandada por nós, sem direções pelegas nem partidos patronais. Nossos sindicatos devem ser dirigidos e controlados, resultados de nossa união desde o local de trabalho, sem manda-chuvas paus mandados dos patrões.

PONTOS DE PAUTA:

REVOGAÇÃO DAS REFORMAS NEOLIBERAIS JÁ!

1 - Geração de emprego com redução da jornada de trabalho;
2 - Reestatização das empresas privatizadas com a instituição da cogestão;
3 - Salário igual para trabalho igual com paridade nos recursos humanos, instituindo a inclusão dos deficientes, homossexuais, negros, povos originários indígenas e imigrantes;
4 - Fim do trabalho intermitente;
5 - FGTS corrigido pela inflação;
6 - Aposentadoria digna para todos, respeitando a contribuição e revisão do FATOR PREVIDENCIÁRIO;
7 - Fortalecimento da soberania nacional, com Banco Central público em cogestão, instituição de taxa de juros que fortaleça o crescimento econômico;
8 - Política externa independente, fortalecimento da paz entre as nações e combate ao nazismo;
9 - Fortalecimento dos programas de intercambio cientifico com bolsas de estudos entre nações parceiras;
10 - Desmilitarização, fim do alistamento militar obrigatório.
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DOCUMENTOS DE ENTIDADES E ORGANIZAÇÕES PARCEIRAS
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O 1-° DE MAIO DA EMANCIPAÇÃO DO TRABALHO COM  SEU SISTEMA!


O Crítica Radical convida você para uma reflexão á altura dos desafios apresentados pela crise do limite do capitalismo, diante da configuração de uma oportunidade histórica para realizarmos sua suplantação.

     Três textos ( e não  só ) estarão na base do debate dessa instigante conspiração acalentada durante muito tempo pelo grupo. Um é o Manifesto Contra o Trabalho ( krisis) lançado em 1999,  um  texto de Robert Kurz lançado em 1997 e extraído do livro Os Últimos Combates ( Vozes) e o outro um texto de Tomasz Konicz Emancipação na Crise de 2022 ( Exit).


     O transcorrer do tempo confirmou as análises apresentadas. Diante disso, abre-se a possibilidade para enquanto antissujeitos(as) realizarmos a façanha histórica de irmos muito além do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias e inaugurarmos a sociedade da emancipação humana e ambiental.


Obs: se a manifestação for á tarde a reflexão será pela manhã ou vice versa ( às 9 ou 15 horas)

Dia 1-° de maio de 2023 

Na sede do Crítica. Praça Rosa Fonseca, (antiga João Gentil) Benfica 

      Abraço!

 Crítica Radical



Você sabe quais as bandeiras de luta as Centrais Sindicais levarão ao 1º de Maio em todo o Brasil?

Se não souber, não se preocupe, vamos te contar.


O dia do trabalhador e da trabalhadora, celebrado na próxima segunda-feira (1º), terá como tema "Emprego, Direitos, Renda e Democracia". 


Para isso, a CUT e as demais centrais sindicais mobilizam suas bases em todo o país com materiais que reforçam os direitos e a luta da classe trabalhadora.


Da valorização do salário mínimo ao fim da alta taxa de juros, as centrais preparam 15 reivindicações para o #1Maio2023. Entre elas, estão: o fortalecimento da negociação coletiva; mais emprego e renda; trabalho igual, salário igual; valorização do servidor público; regulamentação do trabalho por aplicativos e a defesa das empresas públicas.


Para ficar por dentro do que vai acontecer no 1º de maio, veja nossos materiais e ajude a compartilhar em suas redes sociais para alcançar mais trabalhadoras e trabalhadores.


Veja as demais pautas no Portal CUT: https://bit.ly/41X1TAX



DECLARACIÓN 1° MAYO

ASOCIACION INTERSINDICAL DE TRABAJADORES Y TRABAJADORAS CLASISTAS (AIT)


El mes de mayo, y fundamentalmente el primero, conmemoramos el día internacional de la clase trabajadora. Recordamos a nuestros y nuestras mártires, a quienes han dedicado su vida a la defensa de los intereses de la clase. Intereses inmediatos, como mejoras de sueldos, tiempo de trabajo, condiciones laborales, participación en las decisiones, y los históricos, como el fin a la explotación, socialización de los medios de producción, poder para transformar la sociedad, fin a toda discriminación y opresión.


Toda la riqueza, los bienes y servicios son producidos por las y los trabajadores, cualquiera sea su trabajo, la vida en toda la sociedad está basada en la producción. Este modelo capitalista, en cualquiera de sus “versiones” (la democrático-liberal, la autoritaria conservadora, la globalizada o la dictadura abierta) se reproduce y amplía en base a la explotación.


Las clases dominantes y opresoras, la patronal (criolla o trasnacional) y los gobiernos a su servicio saben muy bien que la mantención de sus privilegios se juega en gran parte en las diferentes políticas y medidas (de fuerza o de “consenso democrático”) que debilitan a la organización sindical autónoma y clasista, democrática en la base y con acción directa de la clase trabajadora. Para eso recurren a sus leyes, a la fragmentación de la organización sindical, al ataque mismo a la posibilidad de organización, y de manera muy importante, a la cooptación o compra de dirigencia sindical.


Es estratégico para la patronal (además de perseguir la organización propia obstaculizando la creación de sindicatos) contar con “sindicatos” burocráticos y de colaboración de clases. Organizaciones dirigidas por una verdadera “aristocracia” sindical, vendida a los intereses de los gobiernos de distinto signo colaborador. Este tipo de sindicalismo es funcional a la explotación, a la flexibilización, precarización, a la mantención de un sistema opresivo y explotador.


En esta opción política se inscribe el actual gobierno. Surgido como una alternativa de los mismos de siempre para acabar con el ímpetu rebelde de octubre, nos impusieron un pacto de relegitimación del orden que parecía explosionar el año 2019. Este pacto se vistió de nueva constitución para desalojar de las calles a un movimiento de masas que se organizaba y comenzaba a confiar en su propia fuerza, bien sabemos fue un fracaso y se expresa hoy en un nuevo proceso que a todas luces carece de toda legitimidad incluso en el marco de sus propias lógicas. Ellos, los Boric/Vallejos/Toha; los Kast/Piñera/Paris/Carter; los Frei/Lagos/Bachelet se unen para imponer un nuevo pacto constitucional. Ese circo triste y fome no tiene nada que ver con las luchas y derechos de la clase trabajadora.


Más allá de las palabras, sus leyes y acciones apuntan a precarizar y mantener la explotación y marginalidad. Las legítimas (aunque insuficientes)  40 horas, son transformadas por su consenso legislativo en flexibilidad laboral y precarización. La verdadera seguridad social y pensiones dignas, transformada en salvataje camuflado a las AFP y la capitalización individual. La legítima organización de las y los trabajadores transformada en leyes que sirven como camisa de fuerza a los sindicatos y sus luchas. El salario vital para vivir dignamente transformado en un aumento miserable que solo se ajusta a la inflación.


Ahora mismo, manipulando las vivencias de inseguridad y narco-violencia de los territorios populares, la exclusión educacional y la ausencia de futuro digno posible en los marcos de sus modelos, nos venden un reforzamiento y mayores competencias y garantías para la policía. Nosotras y nosotros sabemos que esta legislación de “gatillo  fácil”, esta palabrería de reconocimiento y “protección” a carabineros y PDI es para avanzar en la criminalización de la protesta y la organización sindical clasista. La policía reforzada y con defensa propia privilegiada, no es sino libertad para reprimir las huelgas y movilizaciones, hacer retroceder a punta de balas, gases y abusos la luchas populares y de la clase trabajadora. Es fortalecer el desarrollo de un Estado Contrainsurgente. 


Frente a esta situación es urgente redoblar esfuerzos. Construir sindicatos en cada unidad productiva o de servicios, unificar estos sindicatos en Federaciones, Confederaciones y una Central Sindical verdaderamente clasista y de masas, denunciando y combatiendo a la vez al sindicalismo burocrático y conciliador. 


Nos convocamos, aportamos con decisión a construir una corriente sindical clasista y combativa. Este sindicalismo recoge y recrea creativamente la tradición del sindicalismo de protagonismo de la base, de las luchas directas por mejores condiciones de vida, solidaridad internacionalista, que porta y organiza un proyecto histórico de construcción de una sociedad sin explotación. Llamamos a construir más y mejores sindicatos, a enfrentar a los gobiernos patronales y a sus políticas antipopulares, a desenmascarar y denunciar a las dirigencias burocráticas del movimiento sindical. Nos convocamos a la unidad y a la lucha organizada, Gritamos con fuerza, junto a los mártires de Chicago, junto a Juan Pablo, VIVAN LOS SINDICATOS, MIERDA… abajo la conciliación, la colaboración y el entreguismo. Por un sindicalismo clasista y combativo.


Contra la ofensiva patronal y la burocracia sindical

¡SINDICALÍZATE PARA LUCHAR!

MANIFESTO DE 1º DE MAIO

Hoje a luta é pela Vida!
em homenagem a Don Pablo González Casanova fundador da Nova Central dos Trabalhadores.

Ao povo do México.

Ao Movimento Social Democrático.

Ao Sindicalismo Independente.

Aos Trabalhadores do Mundo.

Colegas:

Vivemos tempos difíceis, de incerteza, conflito e desagregação social.

Em meio à crise estrutural do capitalismo, trabalhadores de todo o mundo travam uma batalha desigual pela vida. A pandemia de COVID-19 e a guerra na Ucrânia como expressão da disputa pela hegemonia mundial entre as grandes potências imperialistas nos colocaram repentinamente em um novo cenário global em que as crises que abalam o mundo se entrelaçam. alimentação, mudanças climáticas, precariedade energética, todos ligados ao naufrágio da recessão econômica global. Um cenário, aliás, em que o maior impacto desses obstáculos recai sobre metade da população, sobre mulheres pobres, assalariadas e não assalariadas.

Vivemos em um mundo de maior desigualdade. Enquanto 1,0% da população concentra a maior riqueza do planeta, 99% da população mundial empobreceu sob os efeitos da precarização do trabalho, dos cortes governamentais nos gastos públicos, do pesado fardo das dívidas ilegítimas que subjugam nossos povos, da expropriação e a privatização de bens comuns como a água e o território, e as consequências irreversíveis da devastação do meio ambiente por um capitalismo selvagem e decadente que põe em risco a existência da sociedade humana.

Como nos disse Don Pablo González Casanova: “Hoje a luta é pela Vida”.

O que significa lutar pela vida em um mundo em disputa, no qual os flagelos do capitalismo se manifestam em toda a sua dureza? Don Pablo levantou a classe trabalhadora do México,“a necessidade de reformular suas lutas e reestruturar suas organizações para fortalecer sua capacidade defensiva e aumentar sua inegável capacidade de construir um outro mundo possível”.

Estamos neste caminho, retomando o programa de luta que generosamente nos ofereceu na época da fundação daNova Central dos Trabalhadores.

A vida é possível em um novo mundo a salvo da exploração do homem pelo homem, da opressão das mulheres e protegido pela mãe natureza. Precisamos ousar construir, com autonomia de classe e uma perspectiva socialista, ecológica e feminista, uma plataforma de convergência onde todas as resistências, todos os movimentos sociais temáticos e

todas as utopias libertárias. É urgente deixar para trás o neoliberalismo, o neocolonialismo, o patriarcado e a opressão de qualquer outro tipo. Para isso, é fundamental construir uma nova hegemonia popular de caráter global inscrita em um horizonte emancipatório, travando uma luta frontal contra o capitalismo, os governos neoliberais e as novas formas de corporativismo.

Neste primeiro de maio, trabalhadores de todo o mundo sairão às ruas para protestar contra as reformas neoliberais que buscam tirar nossas conquistas históricas. Governos neoliberais, e alguns que se dizem progressistas, estão lançando uma ofensiva brutal contra a classe trabalhadora, impondo reformas antipopulares por decreto, como a reforma da previdência de Emmanuel Macron na França, que aumenta os anos de trabalho e contribuição para poder se aposentar naquele país. Há protestos operários na Inglaterra, Alemanha, Espanha, Grécia e Portugal que estão colocando em xeque as democracias burguesas europeias.

Na América Latina, a mobilização social busca conter a continuidade do neoliberalismo (Uruguai, Panamá, Equador, Costa Rica, etc.), bem como aprofundar as mudanças políticas, econômicas e sociais nos países onde governa o progressismo (Chile, Colômbia, Brasil, Bolívia, etc).

Do México queremos expressar nossa solidariedade militante com todos esses processos de luta operária e popular que estão abalando as estruturas de dominação burguesa em todo o mundo.

Ao protesto social contra o aumento dos preços, os despedimentos em massa e a precarização do trabalho; somam-se reivindicações políticas a favor das liberdades democráticas e contra os governos neoliberais, destacando-se as mobilizações das mulheres por reivindicações específicas contra o feminicídio e a crescente violência de gênero, pela plena igualdade laboral e pelo direito de decidir sobre seus corpos.

Neste 1º de maio, trabalhadores de todo o mundo sairão para lutar por reivindicações universais: Redução da jornada de trabalho, renda básica universal, defesa da previdência solidária, direito à greve, liberdade sindical e contratação coletiva; pela abolição de dívidas ilegítimas e pelo resgate cooperativo de empresas falidas devido à crise econômica.

No México, a situação da classe trabalhadora não é tão diferente da de outros países. A reforma da liberdade sindical de 2019, a reforma da terceirização de 2021 e os aumentos consecutivos do salário mínimo não reverteram totalmente o processo de precarização do trabalho. São mudanças que, embora possam gerar oportunidades de progresso na democratização do sindicalismo e aliviar a precária situação de vida de uma parcela da população trabalhadora, estão longe de reverter as políticas neoliberais que nos foram impostas a sangue e fogo durante o período neoliberal período comandado pelo PRI e pelo PAN. E o que é pior, algumas práticas, típicas desses governos oligarcas, são atualmente reproduzidas do governo da 4ª. Transformação pela falta de diálogo com os movimentos sociais, pelo descaso com suas reivindicações e pela ausência de uma solução justa para os conflitos trabalhadores-empregadores. O que nalguns casos se traduz na aprovação de leis como a Lei das Pensões com Pagamento em Unidades de Medida e Atualização (UMAS), a violação da autonomia dos nossos

organizações sindicais, a criminalização de nossos movimentos e a repressão às lutas populares.

É o caso do Sindicato Mexicano de Eletricistas (SME), que tem sido sistematicamente negado o direito de ser ouvido por funcionários da República, como o Diretor da Comissão Federal de Eletricidade (CFE), apesar de compartilharmos a política energética do atual governo no sentido de recuperar a soberania energética de nosso país. O fechamento deste funcionário, ancorado em seu passado PRI, impediu a solução fundamental para a necessária reintegração trabalhista dos trabalhadores filiados ao SME que foram demitidos injustamente pelo governo de drogas de Felipe Calderón Hinojosa com a cumplicidade do Judiciário da Federação . Exigimos a reinserção dos trabalhadores demitidos do SME, sua refiliação ao Instituto Mexicano de Seguridade Social e a retirada das ações penais do CFE contra sua direção sindical.

Manifestamo-nos contra o desaparecimento da Agência de Notícias do Estado Mexicano (NOTIMEX) após três anos da Greve do Sindicato Único de Trabalhadores de NOTIMEX (SUTNOTIMEX) exigimos respeito por sua fonte de trabalho e cumprimento dos prêmios obtidos de seus Favor. Levantamos nossas vozes contra o desaparecimento do Instituto Mexicano de Tecnologia da Água (IMTA), que eliminaria o Acordo Coletivo de Trabalho dos colegas do Sindicato dos Trabalhadores do Instituto Mexicano de Tecnologia da Água (SITIMTA) e os deixaria desempregados.

Exigimos o reconhecimento dos direitos dos médicos e cientistas agrupados no Sindicato Independente dos Trabalhadores em Pesquisa em Ciências da Saúde (SITIC-Saúde) que buscam a assinatura de seu Acordo Coletivo de Trabalho; Apoiamos os camaradas do Sindicato Independente dos Trabalhadores da Indústria Automotiva (SINTTIA) que neste momento enfrentam o carisma sindical da CTM na busca de um Acordo Coletivo que beneficie os companheiros da empresa Fränkische.

Deter o desmonte da Cooperativa de Trabalhadores Democráticos de Occidente (TRADOC), produto de uma das lutas mais emblemáticas da classe trabalhadora em nosso país.

Exigimos o restabelecimento da mesa de diálogo entre o Governo Federal e a Coordenadoria Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e exigimos solução para suas justas demandas.

Pela aprovação legislativa da iniciativa cidadã da Lei Geral da Água promovida pela Coordenadora Nacional “Água para Todos Água para a Vida” e a ficha limpa para a Assembleia Nacional dos Utilizadores de Energia Elétrica (ANUEE) que luta pelo Direito Humano à Energia. Reconhecimento dos direitos trabalhistas dos trabalhadores da Aplicación.

Exigimos respeito perante os locais de revisão salarial e contratual dos colegas da Associação Sindical dos Trabalhadores do Instituto de Habitação (ASTINVI), do Sindicato do Sindicato dos Trabalhadores do Instituto de Ensino Médio (SUTIEMS), e pela defesa da questão trabalhista do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte de Passageiros da Cidade do México (STTP) que hoje enfrenta funcionários intransigentes que não ouvem os trabalhadores e violam sistematicamente seu direito à livre sindicalização e negociação coletiva.

Exigimos salários justos, melhores condições de trabalho e segurança social para os trabalhadores agrícolas. Parem com a superexploração e discriminação a que são submetidos! Exigimos proteção trabalhista e social para os trabalhadores migrantes que buscam refúgio em nosso país. Nosso apoio à justa luta dos povos indígenas que defendem seu território e seus recursos naturais contra empresas extrativistas transnacionais e megaprojetos. Nossa solidariedade às mães dos desaparecidos que procuram. Ainda faltam 43.Justiça para Ayotzinapa!

No caso das mulheres trabalhadoras, apoiamos a demanda pela redução das desigualdades, contratação estável, melhores oportunidades de acesso, permanência e promoção no emprego e ambientes de trabalho livres de violência. Da mesma forma, exigimos que o cuidado e o trabalho doméstico, o trabalho de reproduzir a vida seja reconhecido, revalorizado e redistribuído pela sociedade, pelo Estado e nas famílias, para o que precisamos de uma política pública que resgate os serviços assistenciais e reduza a jornada de trabalho para que os trabalhadores recuperem sua direito ao lazer. A mais-valia que sua força de trabalho gerou não deve ser usada para continuar engordando os bolsos das elites oligárquicas, deve ser redistribuída para o bem viver de todos os assalariados.

Por fim, queremos informar que em breve os convocaremos para a realização de uma Convenção Nacional Democrática dos Trabalhadores que contribua para a reorganização da classe trabalhadora e nos forneça uma plataforma de luta antissistêmica e reivindicativa. Aderimos ao chamado para um Diálogo Nacional.

NÓS EXIGIMOS

RESPEITO À LIBERDADE E AUTONOMIA SINDICAL!

ABAIXO O CARRISMO DA UNIÃO!

NÃO AOS AFORES, POR UMA APOSENTADORIA DECENTE COM UM SALÁRIO MÍNIMO!

AUMENTO SALÁRIO DE EMERGÊNCIA!

POR UMA LEI GERAL DA ÁGUA!

SOLUÇÃO PARA O CONFLITO DO Sindicato MEXICANO DOS ELETRICISTAS! SOLUÇÃO PARA O STRIKE SUTNOTIMEX!

NÃO AO DESAPARECIMENTO DO IMTA!

PARE AS AGRESSÕES NAS COMUNIDADES ZAPATISTAS!

SOLUÇÃO PARA AS EXIGÊNCIAS JUSTAS DA CNTE E DA ANUEE!

APOIO TOTAL À GREVE GERAL NA FRANÇA!

TODAS E TODOS À MARCHA INDEPENDENTE DE PRIMEIRO DE MAIO!DO ANJO DA INDEPENDÊNCIA AO MONUMENTO À REVOLUÇÃO. 9:00 da manhã.

“A emancipação da classe trabalhadora será obra da própria classe trabalhadora”
NOVA SEDE DOS TRABALHADORES México 1º de maio de 2023.

Declaração da FSM sobre o Primeiro de Maio de 2023

25 de abril de 2023

A Federação Sindical Mundial, a voz militante e classista, representando 105 milhões de trabalhadores que vivem, trabalham e lutam em 133 países em 5 continentes, homenageia o 137º aniversário da luta dos trabalhadores em Chicago em 1886, que constituiu um marco duradouro da classe trabalhadora e um farol brilhante para as lutas de hoje e de amanhã por trabalho estável com direitos, seguridade social, assistência médica e educação públicas gratuitas e universais, uma vida digna.

Atualmente, a crise do capitalismo está se agravando em todo o mundo, resultando na violação aberta dos direitos democráticos e sindicais, na deterioração das condições de trabalho e de vida e no aumento dramático das desigualdades sociais, da pobreza e da exploração. O grande capital e seus representantes políticos usam o pretexto da crise capitalista de todos os tipos para atacar até mesmo os direitos democráticos e sindicais mais fundamentais, como o direito de greve, de manifestação e de organização. Eles fazem de tudo para transferir as consequências da crise para os ombros da classe trabalhadora, dos aposentados, dos agricultores e da parte mais pobre dos trabalhadores autônomos.

O aumento incontrolável dos preços, especialmente dos produtos de primeira necessidade, bem como a "pobreza energética", é outra forma de reduzir os salários e proteger e aumentar os lucros, o que se traduz em mais pobreza e na deterioração do padrão de vida dos trabalhadores. Mais uma vez, eles querem que os povos e os trabalhadores paguem por sua crise. Mas os trabalhadores não estão dispostos a pagar a conta. Essa mensagem é ouvida em alto e bom som em um número cada vez maior de locais de trabalho, em um número cada vez maior de países.

Os afiliados da FSM, no espírito militante do recente 18º Congresso que realizamos em Roma há um ano, estão na vanguarda dessas lutas, exigindo o atendimento das necessidades contemporâneas dos trabalhadores em todos os níveis: salários, emprego, seguridade social, assistência médica, educação, cultura. Reforçamos nossa oposição às privatizações e às políticas antitrabalhadores, estamos ao lado das mulheres trabalhadoras em luta, aquelas que sofrem com a dupla exploração, lutando por direitos iguais ao trabalho, à sociedade e à vida. Na mesma direção, continuamos nossa luta pelos jovens, que são sempre as primeiras vítimas da crise capitalista, e pelos migrantes que são explorados como mão de obra barata. Estamos lado a lado com as partes vulneráveis da classe trabalhadora, exigindo rendimentos decentes para os trabalhadores subempregados, empregos adequados para os desempregados e pensões decentes para os aposentados. Reforçamos nossas ações militantes para garantir todos os direitos e liberdades trabalhistas e para que os acordos sejam implementados na prática, em vez de serem apenas palavras vazias. Essas lutas continuam incessantemente e sem trégua, apesar da intensificação da repressão e do autoritarismo do Estado, infelizmente com a tolerância ou até mesmo a colaboração de líderes sindicais vendidos, juntamente com sindicatos pelegos que estão alinhados às ordens do capital.

Além das consequências da pandemia e da crise econômica, a burguesia quer que a classe trabalhadora pague o preço da guerra imperialista dos EUA, da OTAN e da UE com a Rússia na Ucrânia. Reiteramos nossa firme solidariedade internacionalista com os povos que sofrem.  Exigimos o fim da guerra na Ucrânia, a eliminação de todas as guerras imperialistas, a retirada e o desmantelamento da OTAN e de todas as coalizões militares e a abolição das armas nucleares. Intensificamos nossa luta para garantir o direito dos povos de viver em paz e de determinar livre e independentemente seu presente e seu futuro.  Lutamos pelo fim das guerras e sanções econômicas como meio de promover interesses imperialistas estrangeiros em países soberanos e independentes. Exigimos o fim imediato dos embargos criminosos contra a Cuba socialista e o crime contínuo contra o povo palestino. Nossas armas mais poderosas são o INTERNACIONALISMO e a SOLIDARIEDADE. Nenhum trabalhador deve se sentir sozinho.

A FSM, por ocasião do Dia Internacional dos Trabalhadores de 2023, transmite suas saudações calorosas, internacionalistas, militantes e de classe a todos os trabalhadores em luta e a todos os sindicatos militantes que, incansável e resolutamente, realizam a luta diária pela dignidade, pela satisfação das necessidades contemporâneas da classe trabalhadora e das camadas populares. Intensificamos nossas ações comuns em todos os setores, em todos os países, em todos os continentes, pela emancipação da classe trabalhadora, para satisfazer nossos próprios interesses e necessidades da classe; contra as raízes da pobreza, da miséria, das guerras e dos refugiados; para construir uma sociedade justa centrada no ser humano, com condições dignas de vida e de trabalho para cada ser humano, uma sociedade livre da barbárie capitalista e da exploração do homem pelo homem.

Convocamos todos os afiliados e amigos da FSM a homenagear o Dia Internacional dos Trabalhadores sob os slogans e as bandeiras da FSM:

-Solidariedade internacionalista: a arma da classe trabalhadora.

-Nós nos recusamos a pagar por sua crise

-Parem os bloqueios imperialistas e as guerras econômicas.