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domingo, 12 de novembro de 2023

NAZISSIONISMO ATACA O BRASIL * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

NAZISSIONISMO ATACA O BRASIL

SIONISMO E BOLSONARISMO PRESSSIONAM O LULISMO


CÉSAR FONSECA


A reunião do embaixador de Israel, Daniel Zonshine, com o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje, na Câmara dos Deputados, representou início de formação de aliança sionismo-bolsonarismo para pressionar governo Lula a se definir diante da agenda de guerra israelense, apoiada pelos Estados Unidos, favorável à bandeira político-ideológica de Israel de direito de autodefesa colocado em prática no massacre sionista contra Palestina.


O encontro Bolsonaro-Zonshine, curiosamente, coincidentemente, ocorre no mesmo dia em que a Polícia Federal apreende terrorista islâmico supostamente ligados ao Hezbollah suspeito de armar atentados contra israelenses em território brasileiro.


Imediatamente à ação da PF brasileira, o presidente Benjamin Netanyahu divulga nota oficial de agradecimento do governo israelense às forças de segurança do governo Lula pela pronta providência em proteger interesses de Israel.


Politicamente, o governo Netanyahu considerou o episódio fator positivo a fortalecer as relações Brasil-Israel, no instante mais dramático da guerra de extermínio patrocinada pelo sionismo judeu contra os palestinos sufocados na Faixa de Gaza, com fome, com sede, sem socorros médicos, transformada em cemitério a céu aberto.


Consequentemente, do ponto de vista de Netanyahu, com essa diplomacia do terror, ficou mais complicada e, sobretudo, constrangedora possível ação diplomática brasileira no sentido de radicalizar contra Israel, em eventual tentativa de o Itamaraty retirar o embaixador brasileiro de Telavive.


Essa possibilidade tem sido aventada internamente devido ao fato de Israel, na Faixa de Gaza, atrasar a saída de brasileiros rumo ao Egito, para serem repatriados, graças às providências de Lula nesse sentido, sob pressão da sociedade brasileira.


JOGADA POLITICAMENTE EXPLOSIVA


A jogada política do bolsonarismo direitista fascista de aproximar do sionismo, por puro oportunismo ideológico, levando para dentro do Congresso nacional, o debate sobre a guerra de extermínio em curso, na Faixa de Gaza, coloca em xeque o lulismo.


Lula e seus aliados de centro esquerda passam a sofrer pressões adicionais de sua base quando as tensões diplomáticas Brasil-Israel entram em ponto de ebulição.


A crise tende a se agravar, principalmente, porque crescem dúvidas sobre as circunstâncias e fatores reais que levaram à prisão de integrantes do Hezbollah pela Polícia Federal, avisada/alertada pelo serviço secreto israelense do Mossad.


De imediato, o alerta levanta suspeita sobre relações PF-Mossad.


Teriam ambas as partes acordos de cooperação prévios que permitissem esse tipo de ação internacional do Mossad em território nacional?


Desde quando essa cooperação se realiza, com o conhecimento de quem, do ponto de vista institucional etc.?


As investigações, portanto, se fazem necessárias, transformando-se no foco do debate político a partir de agora.


Portanto, ambas as ocorrências, politicamente, incendiárias – de um lado, a ação cooperativa Mossad-PF-Brasil, e, de outro, a articulação sionismo/bolsonarismo no parlamento brasileiro – criam fato político que passa a sobrepor a própria política nacional como subproduto da guerra, que tem todas as condicionantes para se alastrar, conforme totalidade dos observadores internacionais. 

CÂMARA FEDERAL




PASTORA PREGANDO "ACABE COM GAZA"

PROF FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA/UERJ/UFRJ-RJ
Algumas considerações

O que é espantoso nessa questão do pseudo atentado do Hezbolá no Brasil é a nossa imprensa burguesa não se questiona sobre os fatos.

Como a Polícia Federal ficou sabendo desse suposto atentado? Se prenderam duas pessoas, onde estão as provas: explosivos etc.? 

Nada. Depois que sabemos que foi o Mossad que assessorou a PF no caso (que supresa!) aí que a coisa toda vem por terra de maneira cômica. 

No entanto, há várias questões que exigem resposta. Porque Lula e Flávio Dino autorizaram tal operação fajuta? 

Por que o Hezbolá decidiu explodir sinagogas justamente no Brasil, país que acabar de aprovar o ingresso no Irã nos BRICS? 

Que propósito serviriam esses atentados?

Por que não há notícias de atentados contra sinagogas em outros países do mundo? 
 
Será que o Hezbolá vai dispersar os seus poucos recursos, necessários na guerra contra Israel para destruir prédios pelo mundo? 

*E mais importante de tudo: quem acredita nessa história?*

Agora, apesar de tudo isso, há algo político muito importante para os brasileiros: não está na hora de investigar essa PF que não para de organizar golpes deste tipo, provavelmente (?) com a colaboração do FBI e da CIA?

Acabamos de ter atentados terroristas em Brasília, em 08 de janeiro, com invasoes e depredacoes dos 03 mais importantes prédios públicos da Republica, fogo em onibus, invasao de predio da PF,  rodovias bloqueadas, atentado frustado em caminhao de queresone no Aerporto de Brasilia, na véspera do Natal de 2022, milhares de terroristas brasileiros presos, e alguns já julgados e condenados a 17 anos de cana, e os caras vem falar em planejamento de atentados contra alvos sionistas.

Acham que somos otários.

Tá na cara que é pressao de judeus ricos no Brasil, para tentar justificar o genocidio, em curso, do povo palestino em Gaza.

O governo brasileiro se prestar a esta palhaçada tambem, para liberar 24 brasileiros em Gaza, nao é eticamente justificável.
*

domingo, 2 de outubro de 2022

Os efeitos do eleitoralismo e do lulismo na esquerda radical * Heitor Silva - Revolução Brasileira

Os efeitos do eleitoralismo e do lulismo na esquerda radical

(NOTA DA FRT
A postagem deste texto em nosso blog é uma sugestão a todos os nossos militantes para refletirem sobre os caminhos a seguir rumo à Revolução Socialista em nosso país.)

Hoje duas determinações políticas centrais moldam a visão e posicionamento dos partidos e organizações brasileiros mais à esquerda. A primeira está sintetizada nas profundas críticas às insuficiências do “modo petista de governar”: inexistência de projetos claros de rompimento da dependência e consequente subdesenvolvimento; a política de conciliação de classes, em que a burguesia fica com a parte do leão e a classe trabalhadora com as migalhas que caem da mesa do banquete, e com o efeito político de despolitização decorrente da opção pela conciliação de classes, que se mostra muito claro quando percebemos que, em quatorze anos de governos petistas, o povo nunca foi convocado para luta, relegando-se seu destino ao covil de ladrões que é o Congresso Nacional. A segunda determinação vem sendo alimentada pelas pesquisas de opinião que dão enorme vantagem ao lulismo, apontando a possibilidade, no mês recente, de vitória ainda no primeiro turno. Esta possibilidade de sucesso eleitoral alimenta o temor de que uma posição crítica ao lulismo signifique o isolamento dos partidos e organizações da população.

No choque entre essas duas determinações, vêm sendo desconsideradas, a nosso ver, as diferenças reais entre uma derrota eleitoral e uma derrota política. Derrotas eleitorais são conjunturais, ou seja, têm efeito de curto prazo e, caso a organização ou partido não esteja por demais apegada a cargos nos parlamentos, passam como atribulações que em nada as impedem de seguirem seus rumos, a exemplo da longevidade que ostentam os partidos comunistas a despeito dos poucos e curtos períodos de legalidade durante os quais lhes foi permitido ocupar cadeiras nos parlamentos ou executivos. As derrotas políticas, por outro lado, são potencialmente fatais, conquanto atingem a própria razão de existência dos partidos ou organizações, porque a comprovação prática de que suas análises e métodos de luta são sem sentido levam a que a classe trabalhadora tome de tais organizações políticas um distanciamento mortal. Sendo assim, fica claro que, para a esquerda radical, são aceitáveis derrotas eleitorais que tragam consigo ganhos políticos.

Nossa análise de conjuntura, que será levada a público nos primeiros meses de 2022, mesmo ainda carecendo de ajustes, aponta a que uma reedição da política de conciliação de classes levará a um retumbante fracasso.

A impossibilidade de sucesso de um futuro governo petista

Dos vários elementos que sustentam a afirmativa aqui anotada, apontaremos, suscintamente, apenas o principal: a conciliação de classes só é possível quando os dois pólos, a burguesia e os trabalhadores, têm um ponto de concordância. Qual concordância- questionamos, é possível no Brasil de hoje, em que assistimos ao ataque massivo e permanente ao emprego, aos salários e aos direitos trabalhistas? Em nenhum momento a burguesia aponta qualquer sinal de querer reduzir esta marcha sobre nossos corpos, mostrando-se evidente que vivemos uma declarada guerra de classes. Nesse terreno, qualquer tentativa de conciliação será rejeitada pela burguesia, que se sente em marcha vitoriosa sobre nossos direitos; já pelo lado dos trabalhadores, a necessária resistência e luta, defensiva, pela revogação de nossas sucessivas perdas também serão empecilhos à qualquer conciliação ainda que fosse com ganhos mínimos. Como exemplo concreto, citamos o caso da Emenda Constitucional n° 95, que limita e impede a ampliação dos gastos sociais por vinte anos. É evidente que haverá pressão para sua revogação por parte dos trabalhadores, porém tendo em vista que este torniquete sobre os gastos sociais é fundamental para que nossos impostos continuem alimentando os ganhos da burguesia no cassino da dívida pública, a conciliação entre estas posições é impossível.

Com a concretização deste quadro, aqueles que optaram por fechar os olhos para a impossibilidade de conciliação em troca de viabilidade eleitoral viverão em prazo muito curto um enorme repúdio. Um prazo de dois anos nos parece razoável, porque um governo recém-eleito sempre goza de um período de boa vontade e dada esperança mobilizada, que um tanto lentamente virá a desvanecer-se. Como exemplo histórico de como este fenômeno acontece, dois exemplos pretendemos citar. O primeiro se refere às críticas da UDN, partido da direita, ao segundo governo de Getúlio Vargas, que lhes trouxeram imensa popularidade e uma vitória eleitoral. No dia em que Vargas suicidou-se, o líder da UDN Carlos Lacerda teve de refugiar-se na embaixada dos Estados Unidos, que foi apedrejada, e o jornal O Globo foi invadido pela multidão furiosa, que quebrou máquinas, em uma derrota política que findou por impedi-lo de ser o candidato da direita a presidente da República no pleito seguinte.

Em protesto, manifestantes quebraram veículos do jornal de oposição O Globo

Fotógrafo desconhecido, Rio de Janeiro, 1954.

Períodos de isolamento podem representar ganhos de credibilidade no futuro

O segundo exemplo que trazemos diz respeito à postura de Leonel Brizola em 1986, de denunciar o Plano Cruzado (plano de combate à inflação) como fraude, e que custou a derrota de Darcy Ribeiro para Moreira Franco nas eleições para o governo do Rio de Janeiro, uma derrota eleitoral. Por outro lado, tivemos a postura do PCdoB, que defendia o plano e apontava, como causa do desabastecimento, não o fracasso do plano, mas como resultado de Brizola alegadamente ter escondido gado nas fazendas da família de sua esposa. Com o derretimento da farsa do Cruzado, a deputada do PCdoB do Rio de Janeiro que fizera antes tal afirmação então passou meses sem poder visitar os bairros populares, sob o risco de ser linchada pela população, outro claro exemplo de derrota política.

Acima vimos exemplos de que o isolamento em um período curto, em determinadas condições, pode significar um ganho de longo prazo. Cabe então ter uma análise clara da conjuntura para saber qual a capacidade de um governo retomar em curto prazo o crescimento econômico e de regenerar uma democracia podre. Diante da impossibilidade cabe ter a coragem de apontar esta impossibilidade e recolher a momentânea rejeição, sabendo que este é um momento pedagógico da luta de classes. Depois destes momentos durante os quais a população foi encantada pelo “flautista de Hamelin” e não alertada por aqueles nas quais ela deposita credibilidade, fica a lição pedagógica de tapar os ouvidos com a cera do descrédito aos que lhe enganaram. Neste momento aqueles que, firmes como rocha, suportaram as intempéries do repúdio popular serão vistos como aqueles que não mentem para o povo em troca das benesses do poder.

O “flautista de Hamelin” levando a esquerda radical para o abismo

Os efeitos deletérios de Lula e sua hegemonia na esquerda já se fazem sentir! Vemos o PSOL, que foi protagonista contra as ocupações militares de favelas determinadas por Lula (2007), Dilma (2014) e nas ruas em 2014, cobrando avanços do governo Dilma, que se havia eleito com um discurso e a seguir passou a governar para os banqueiros, se dobrando por inteiro aos ditames da política eleitoral. As críticas à conciliação de classes desapareceram do mapa, as cobranças por um programa que atendesse questões como emprego, saúde e educação, nem são cogitadas. Hoje, o PSOL se divide entre dar um cheque em branco para Lula, em posição majoritária, e o apoio envergonhado, disfarçado de lançamento interno de candidatura, sendo em abril de 2022 o prazo para tal definição.

A posição majoritária, que apoia Lula sem que ele esboce um programa de governo, já começa, mesmo a um ano da eleição, a passar embaraço público. Envergonhado, há poucos dias, o ideólogo Sr. Fevereiro, uma versão psolista de Olavo de Carvalho, reclamou pelas redes quanto a possibilidade de Alckmin ser vice de Lula, no entanto, qual embasamento justificaria esta indignação senão que o que está em jogo é utilizar o prestígio eleitoral de Lula para obter cargos nos parlamentos.

O protagonista do apoio envergonhado, o Dep. Glauber Braga, sabe que por ser minoria não conseguirá ser o candidato do PSOL a presidente da República e que, na verdade, utiliza sua campanha como palanque para uma tentativa de reeleição e está de malas prontas para apoiar Lula. Neste caso, tiveram a louvável iniciativa de esboçar um programa. No entanto, o programa[1] apresentado por esta pré-candidatura, mesmo sendo um documento para abrir o debate, tem limitações graves. Em todo o programa proposto não há uma única linha de enfrentamento ao imperialismo! Não fala em controle da remessa de lucros e dividendos, pagamento de royalties e patentes, ou de medidas fundamentais, como por exemplo a construção de uma marinha mercante que gerasse empregos na construção naval e reduzisse os pagamentos de fretes ao exterior. O foco é apenas na tributação a la Stiglitz e Banerjee, vencedores de Prêmios Nobel de economia, que por teorizarem a partir das economias desenvolvidas, propõem apenas fórmulas de mitigação da pobreza, não apresentando jamais soluções para desenvolvimento econômico de países dependentes. A iniciativa meritória de um programa que poderia ser apresentado ao candidato petista perde-se diante de uma correlação de forças em que a ampla maioria da esquerda marcha com a candidatura petista sem nada cobrar. Desta forma, eleva-se a plausibilidade da interpretação de que o programa será nada mais que mais um dentre os papéis que o flautista performará, para depois jogar fora e seguir entoando sua flauta

Para sermos justos, não devemos culpar a Lula por todas as agruras de que padece a esquerda brasileira, decorrendo algumas delas inclusive de decisões de protagonistas do nosso campo, de olho em viabilidades eleitorais. Neste caso, temos o exemplo de Freixo, que em busca de viabilidade eleitoral tenta ampliar seu alcance se tornando um candidato palatável para a direita, como demonstram suas tentativas de, como candidato, aproximar-se de Eduardo Paes e de afastar-se de bandeiras que o notabilizaram, mas que não são toleradas pela direita. Falamos do progressivo abandono dos direitos humanos, que fica claro com a tentativa de aproximação com as policias militares e civis do Rio de Janeiro, materializada em duas emendas parlamentares[2]: a primeira, no valor de R$ 828.552,00, autorizada e não empenhada (não liberado o valor), para a Secretaria de Polícia Militar, e a segunda de valor equivalente a R$1.500.000,00, autorizada e empenhada para a Secretaria de Polícia Civil. Outro exemplo provém de Boulos, que em sua candidatura à Prefeitura da Cidade de São Paulo, para agradar ao empresariado falava em implantação, na cidade, de Parcerias-Público-Privadas (PPPs) para a gestão de serviços públicos. Os moradores da cidade do Rio de Janeiro sentem no seu dia-a-dia os efeitos das PPPs que administram os trens, o metrô e o BRT (sistema de ônibus articulados): todos configuram meios de tomar recursos pelo setor privado, que oferece em troca péssimos serviços a preços extorsivos, recursos esses que poderiam servir para o setor público prestar tais serviços em conformidade aos interesses populares. No mês de dezembro de 2021 a Supervia, administradora dos trens, enviou pedido de reajuste das tarifas. Pasmem, querem sete reais por uma passagem! Mesmo antes deste reajuste, vejam abaixo quanto custa se deslocar na cidade do Rio de Janeiro.

Preço passagem cidade do Rio de Janeiro em dezembro de 2021

Enquanto isso, na cidade de São Paulo, atualmente, o valor da tarifa para ônibus, trens e metrô é de R$ 4,40. Temos então, claramente, um destacado quadro da esquerda tentando agradar a empresários para viabilizar-se eleitoralmente às custas da classe trabalhadora, através da importação de um modelo sabidamente falido.

Exemplo dos efeitos do lulismo na esquerda

A aproximação ao lulismo se deve, em grande parte, ao temor do isolamento momentâneo que uma postura de distanciamento acarreta, vez que este isolamento atrapalha sonhos eleitorais que, em última instância, significam acreditar em uma saída dentro da ordem.

Um caso exemplar, a propósito, foi o racha que aconteceu em dezembro de 2021, na Consulta Popular, que tinha entre suas organizações o Levante Popular da Juventude. No documento dos que se dizem maioria, o “Manifesto por uma Assembleia Nacional de Lutadoras e Lutadores do Povo”, disponível na internet, reivindicam Marx para defender o reformismo e adesão ao lulismo, não apresentando uma linha sequer que contenha um diagnóstico da situação política, social ou econômica brasileira, apenas uma coletânea difusa inspirada nas manchetes da mídia petista. Fazem inclusive inúmeras citações a uma revolução brasileira abstrata e localizada em um futuro onírico, restando para o presente um não definido “projeto democrático popular”. Há contradições gritantes, evidentemente, como por exemplo ao se referirem a Revolução Brasileira (p.2) com a mesma desenvoltura com que falam em “possibilidade de disputas das instituições para fortalecer a organização popular” (p. 4), o que, em nossa opinião, é a antessala do cretinismo parlamentar. Quando apontam caminhos para o socialismo no Brasil apresentam: “(…) o caminho para o socialismo no Brasil passa

pela construção de uma revolução democrática, popular e anti-imperialista que viabilize reformas democráticas, nacionais e populares”.

(p. 4), ou seja, tudo quanto é impossível pela política de conciliação de classes.

Temos também o recente caso do Sr. Douglas Belchior, que em sua carta de saída do PSOL[3] acusa o partido de racismo estrutural. Ao lermos, por outro lado, os motivos da saída apresentados na internet, encontramos a queixa quanto a:“(…) proibição de candidaturas apoiadas por iniciativas da sociedade civil e na limitação da possibilidade de busca de recursos fora dos ‘padrões partidários”, o que caracteriza uma discordância com a proibição do financiamento de candidaturas por empresários. Temos então uma insatisfação não relacionada a questões de princípios, mas sim ao desejo de receber recursos de empresários, os mesmos que pagam à base de um salário-mínimo de R$1.100,00, enquanto o salário-mínimo necessário[4] deveria corresponder, em dezembro de 2021, a um valor de R$ 5.969,17, considerando-se ainda que, do total de ocupados[5] no Brasil, 34,4% recebem até um salário-mínimo. Curioso é que alguém denuncie o racismo e ao mesmo tempo queira receber “doações” para campanha eleitoral justamente daqueles que exploram majoritariamente os negros, como podemos ver no gráfico a seguir.

Trabalhadores com até um salário-mínimo, por raça, em %


Fonte: Idados

Tudo quanto apresentamos até aqui constrói afinal o quadro de uma esquerda que não tem um diagnóstico da crise econômica, social e política brasileira, acrescido, em alguns casos, de um elemento de oportunismo, caracterizado por se falar apenas o que a consciência ingênua do nosso povo quer ouvir neste momento, constituindo-se em uma forma de populismo. Fica evidente que, para sairmos deste vale de lágrimas, precisamos de uma prática política diversa, resta-nos qualificar qual deve ela ser.

O necessário destemor e coerência para poder se apresentar à população como alternativa

Países de economias subordinadas às nações imperialistas necessitam compensar as “perdas internacionais” – como o chamava Brizola, e quem paga essa conta é a classe trabalhadora, através da superexploração, ilustrada claramente e sintetizada pela diferença gritante entre o salário-mínimo nacional e o salário-mínimo necessário, a uma razão de mais de cinco vezes! Esta é a bola de ferro que entrava o crescimento do mercado interno de um país tão grande e rico e que nos mantêm na periferia do capitalismo. Desde os anos 60 que vários intelectuais militantes, tais como Rui Mauro Marini, Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra, Alberto Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto e Florestan Fernandes, já apontavam que a burguesia nacional, subordinada ao imperialismo, não almejava superar a subordinação e portanto só a classe trabalhadora poderia cumprir este papel, mas que o rompimento com as amarras impostas pelo imperialismo necessariamente levariam à oposição ferrenha das burguesias externas e das internas àquelas associadas. Naquele momento, alguns ainda acreditavam no proveito de uma possibilidade de associação entre trabalhadores e burguesia nacional. Hoje, nem como devaneio essa hipótese pode sustentar-se. A burguesia nacional hoje é uma farsa claramente identificável pelo fato do presidente da FIESP (Federação das Indústrias de SP) do período que agora se encerra não possuir indústria!

No entanto, antes da solução de qualquer questão a espécie humana elabora mentalmente a solução. Neste caso é necessário o papel daqueles que estão dispostos a elaborar, apresentar e discutir a Revolução Brasileira. Neste caso, há de se romper com projetos que estejam restritos a banalidades como políticas compensatórias. Um país como o Brasil não pode contentar-se com tão pouco. Nossas riquezas, somadas à criatividade que é atributo característico da classe trabalhadora, angariado a partir da necessidade de dar soluções prementes às suas difíceis condições de vida – ao passo em que a burguesia apenas se acomoda e copia do estrangeiro – nos conduzirão a sermos a potência que sonharmos. Precisamos construir um projeto de nação, tendo clareza de que contra ele se levantarão o imperialismo e seus lacaios internos, e que apenas a classe trabalhadora organizada será capaz de sustentar e realizar este projeto.

Como disse Alberto Guerreiro Ramos: A luta contra a internacionalização do Brasil não consiste apenas em repelir o condicionamento externo de nossa vida política e econômica. Também consiste em libertar a intelectualidade da servidão conceptual em que se acha. Compreender o Brasil e o mundo de hoje na perspectiva própria da história nacional não é imperativo acadêmico, é requisito da existência independente.

Para tanto, nossa postura tem que ser de firmeza ideológica e compromisso inabalável com a classe trabalhadora. O efeito prático é não mentir para a classe em busca de ganhos eleitorais. A independência do Brasil há de ser conquistada pela classe trabalhadora pela via revolucionária, em uma revolução nacional de caráter incontornavelmente socialista. A Revolução Brasileira.

sábado, 1 de outubro de 2022

PARA ENTENDER O LULISMO * Igor Peres / André Singer - SP

PARA ENTENDER O LULISMO
Entre 2006 e 2014, o lulismo conseguiu neutralizar o crescimento do conservadorismo popular, mas o preço a pagar por isso foi a desmobilização de suas bases sociais. Para que a história não se repita, é preciso maior audácia, não menos confronto.

SOBRE LULA

No dia 2 de outubro serão realizadas as eleições presidenciais no Brasil. Embora Lula lidere todas as pesquisas, uma vitória nas urnas não se traduz automaticamente em vitória política ou social. Para isso, são necessárias transformações profundas, que só podem ser alcançadas com a mobilização popular. Porque se há algo que a história recente do Brasil mostra, é que sem uma força popular que apóie massivamente nas ruas, nenhuma mudança social progressiva pode ser sustentada ao longo do tempo.

Para refletir profundamente sobre a fundamental disputa eleitoral que está por vir, entender o que está em jogo e poder situar a situação atual do Brasil no processo mais longo dos últimos vinte anos, conversamos com André Singer (*), cientista político e professor da Universidade de São Paulo, autor de vários livros e porta-voz do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Em Os sentidos do lulismo Reforma gradual e pacto conservador (Companhia das Letras, 2012), são mencionados os resultados de sua pesquisa anterior sobre as eleições presidenciais de 1989 e 1994 no Brasil. Apresenta então a ideia da “questão do norte”, definida como uma “estranha monstruosidade política onde os excluídos sustentam a sua própria exclusão”. Como argumentado ali, esse era o empecilho que a esquerda vinha encontrando ao tentar construir um poder alternativo no país.

- Aliás, você menciona a esse respeito uma declaração do próprio Lula após o revés no concurso de 1989: «a verdade mais crua é que quem nos derrotou foram os setores menos favorecidos da sociedade». Gostaria que comentasse a ideia da “questão do norte” e sua importância para a compreensão do lulismo.

A ideia da questão norte tem a ver com o período anterior a 2006, quando foi possível identificar um bloco conservador que tinha forte base no Nordeste e Norte do Brasil. Essa base é tão importante que permitiu à ditadura derrotar, com votos no Congresso, uma das maiores mobilizações de massa da história recente do país: a campanha pelas "Diretas Já", ocorrida em 1984. Como foi criada? base conservadora? Através de uma articulação entre oligarquias regionais e bases eleitorais. Quando falo da 'questão do norte' quero dizer isso. O lulismo transformará essa relação e produzirá uma novidade no processo político brasileiro ao criar uma base fixa no Nordeste.

Por outro lado, após as eleições presidenciais de 1989, Lula diz algo como "fomos derrotados pela periferia, não pelos ricos". Essa periferia também pode estar localizada em grandes cidades brasileiras da região sudeste, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Acontece que as periferias das grandes cidades são formadas em certa medida por pessoas que vêm da região Nordeste.

Para entender, portanto, a questão do norte, é fundamental a distinção que faço entre os pobres e as classes trabalhadoras. Os pobres fazem parte da classe trabalhadora, mas são uma fração —que chamei de subproletariado— desta última. Quando comecei a trabalhar a questão eleitoral, o que levantei foi que esse setor é vulnerável e carece do que poderíamos chamar de “cidadania trabalhista”. Essa fração da classe trabalhadora carece de direitos (estamos falando de cerca de metade da força de trabalho que nunca conseguiu se integrar totalmente ao mercado de trabalho).

O lulismo conseguiu começar a integrar parte desse contingente, que nos últimos anos voltou a crescer. Procurei caracterizar esse setor como um setor vulnerável e sugerir que essa vulnerabilidade o impede de participar da «luta de classes», como disse Paul Singer. Não é que você não possa fazer nada; mas, em condições normais, sua participação é difícil. Assim, me ocorreu pensar que essa condição é parte da explicação de por que uma parte da classe trabalhadora tende a não apoiar posições vinculadas aos sindicatos, por exemplo, tendendo a opções políticas que garantam a ordem. Isso é o que muda com a reeleição de Lula em 2006.

-É neste mesmo livro que a ideia de «Lulismo» ganha a estatura de um conceito. Ele nomeia o encontro entre uma ocasião adversa, marcada por denúncias de corrupção na arena legislativa nacional —que mais tarde se chamará Mensalão— e a decisão do Executivo nacional de adotar "políticas públicas para reduzir a pobreza e ativar o mercado interno sem confronto capital. Para explicar o que emerge desse encontro, você usa a categoria de «realinhamento eleitoral», movimento que acabaria por dar origem ao lulismo, em 2006. Você poderia reconstruir esse raciocínio?

O lulismo é o corolário eleitoral de um programa prático que atende ao subproletariado. Acredito que este programa não foi concebido como tal, mas praticado. Em que consiste? É um programa de combate à pobreza. Não estou me referindo à distribuição de renda, que é um conceito mais complexo. Falo em reduzir a pobreza sem confrontar o capital.

A partir de 2004, já é perceptível a redução da pobreza, alcançada por meio do Programa Bolsa Família e do crédito consignado; em 2005, somou-se a essas duas iniciativas o aumento do salário mínimo. Esse programa prático teve muito sucesso, pois produziu um aumento no nível de consumo de parte da população que ganhava muito pouco, sustentando a situação econômica desse segmento em situação de baixo crescimento. Do meu ponto de vista, isso representou uma invenção. Foi algo que não foi planejado. Insisto, sem confrontar o capital: não foi feito em detrimento de certas diretrizes centrais do neoliberalismo (juros altos, baixos níveis de investimento público e uma estrutura cambial flutuante), e foi isso que permitiu que os dois governos de Lula se movessem dentro de um certa estabilidade.

O que chamo de "realinhamento eleitoral" ocorre em 2006 e é composto por dois elementos. A primeira delas tem a ver com a mudança de posição dos mais pobres em relação a Lula, e o consequente surgimento do lulismo eleitoral. Ou seja, até 2002, o PT tinha um perfil eleitoral mais de classe média. A partir de 2006 houve uma mudança, e é justamente isso que interpreto a partir de uma ideia que vem da ciência política norte-americana, que busca pensar a transição de determinados setores do eleitorado de um bloco para outro. Se olharmos para os números, notamos que em termos de massa de votos, ambas as disputas presidenciais são semelhantes, o que muda é o perfil dos eleitores.

Os mais pobres passaram a votar em massa em Lula, principalmente no Nordeste (e continuam votando até hoje). Por sua vez, a classe média se voltou para o Partido da Social Democracia Brasileira (PSBD). É verdade que esta última sempre esteve relacionada à classe média, mas a classe média estava dividida. O Mensalão, que foi uma crise desencadeada por denúncias de corrupção relacionadas a suposta compra de votos na arena legislativa nacional, unificou a classe média contra o lulismo e contra o PT. Em suma, este foi o realinhamento que o lulismo deu à luz. Os mais pobres de um lado, a classe média do outro; é uma polarização social que persiste até hoje. Acredito que a hipótese do realinhamento sobreviveu até mesmo àquela grande mudança que a eleição de Bolsonaro representou em 2018.

-Em Os sentidos do lulismo destaca a dificuldade do lulismo em passar de um «reformismo fraco» para um «reformismo forte». Analisa como o "sonho de Roosevelt" que surgiu como horizonte no segundo mandato de Lula está subordinado ao realismo da correlação de forças. E descreve também como a decisão de manter os antagonismos em equilíbrio e a arbitragem acabou sendo imposta como meio e fim de seu segundo mandato presidencial. Você poderia detalhar essa ideia?

A questão da passagem de um reformismo fraco para um reformismo forte me dá a oportunidade de fazer alguns ajustes que só a passagem do tempo permite. Ambos os livros — Os sentidos do lulismo. Reforma gradual e pacto conservador e (2012) e O lulismo em crise. Um quebra-cabeça do período Dilma (2011-2016) (2018)— foram escritos quentes, por assim dizer. Nesse sentido, e olhando para trás, eu diria que a segunda presidência de Lula é um mandato em que as grandes diretrizes neoliberais começam, de alguma forma, muito lentamente, a sofrer uma mudança. O investimento público, por exemplo, está começando a derreter. Era limitado e começa a se expandir. Há também algum tipo de contenção das taxas de juros e, além disso, uma pequena mudança em termos de política cambial.

São movimentos que apontam para uma política econômica mais próxima do desenvolvimentismo. Não se torna uma política econômica desenvolvimentista, mas visa a isso. Nesse sentido, acredito que o segundo termo seja diferente do primeiro. Entre outras mudanças importantes, destaco, por exemplo, a troca do primeiro ministro da Fazenda (que havia sido Antonio Palocci) por Guido Mantega. Agora, também é verdade que essa ainda é uma medida bastante homeopática, no sentido de preservar a premissa de não enfrentar o capital —que é o que garante a estabilidade política— mantendo um baixo nível de conflito, mesmo no segundo mandato de Lula.

Esta decisão é baseada em uma avaliação da correlação de forças em cada momento. Esta é uma questão decisiva, e devemos pensá-la de uma perspectiva objetiva e o menos ideológica possível. Como é medida a correlação de forças? Uma primeira maneira é olhar para a Câmara dos Deputados, que é uma expressão (um pouco distorcida, é verdade) do eleitorado de cada estado. Não é a única, mas é uma expressão significativa. O Congresso Nacional, tanto a Câmara dos Deputados quanto o Senado, retiraram, por exemplo, 30 bilhões de reais de investimentos na área da saúde (em valores da época) em 2007.

No Brasil temos o Sistema Único de Saúde (SUS) garantido pela Constituição de 1988, que é como se tivéssemos uma espécie de Sistema Único de Saúde, que na Inglaterra foi fruto de um forte reformismo após a Segunda Guerra Mundial. Mas na verdade isso nunca foi feito no Brasil. O sistema existe, mas não atende a todos e não o faz com a devida qualidade. Em 2007, uma enorme quantidade de investimento é retirada deste sistema. E por que o Congresso fez isso? Porque tem uma maioria conservadora. Poderia ter havido um processo social fora do Congresso? Sim, poderia, mas não havia. Seria preciso pensar em combinar ação institucional e mobilização social.

-Você dedica parte de O lulismo em crise à caracterização do primeiro mandato de quem sucedeu o ex-líder metalúrgico na presidência. Segundo o senhor, “[...] estimulada pelo capital político acumulado por Lula, Dilma levou a sério a ideia de acelerar o ritmo da iniciativa do presidente, dando lugar a uma política econômica desenvolvimentista”. Gostaríamos que você resumisse o que você chama de “ensaio desenvolvimentista” de Dilma.

A principal medida que caracteriza o ensaio desenvolvimentista é a redução acentuada da taxa de juros. A taxa de juros havia sido apontada pela esquerda brasileira, antes da chegada do PT ao governo em 2003, como o principal obstáculo ao crescimento (se esse diagnóstico estava correto ou incorreto não posso dizer, porque não sou economista, sou cientista). político, e não pretendo ser economista... quando falo de economia é porque entendo que a economia está no centro da política e que a luta de classes está no centro da economia ). Toda a esquerda brasileira havia identificado o problema da taxa de juros como fundamental para a questão da distribuição de renda. E faz sentido, pois estamos falando em mudar o perfil de distribuição de renda em um dos países mais desiguais do mundo.

Nessa linha, Dilma tomou a corajosa decisão de baixar drasticamente a taxa de juros no início de 2012. Ela o conseguiu porque travou uma grande e importante luta para mudar os rumos do Banco Central, quando estava apenas começando seu mandato. Ele escolheu um presidente do Banco Central que não veio do mercado financeiro, mas da burocracia do Banco Central, que é bem diferente. Os bancos privados não gostaram da queda das taxas de juros. Com isso, desencadeou-se o que chamo de “guerra do spread”: o Estado baixa sua taxa, mas os bancos privados continuam praticando a sua. Dilma usou os bancos públicos para fazer os bancos privados baixarem as taxas de juros, argumentando que se os bancos privados não fizessem o mesmo, perderiam clientes. Os bancos privados foram forçados a reduzi-lo. Isso significa lutar com o núcleo do capitalismo,

A segunda medida consistia em tratar da questão cambial, que basicamente significava administrar as importações e facilitar as exportações, favorecendo as indústrias brasileiras. Houve uma desvalorização cambial em torno de 20%. Aqui há um debate entre os economistas: há quem diga que essa magnitude de desvalorização não foi suficiente, que com essa desvalorização não foi garantida a competitividade da indústria nacional. Seja como for, é preciso reconhecer que Dilma foi a única que fez isso. E fez isso para favorecer a indústria brasileira.

Se os industriais viram insuficiente a magnitude da desvalorização, por que não fizeram um movimento para apoiar a decisão do presidente? Por que eles não pressionaram por mais desvalorização? O que de fato aconteceu foi que enquanto Dilma tomava essas decisões em questões econômicas, os industriais, paradoxalmente, começaram a mudar de posição em relação ao seu governo. Ela fez tudo para favorecê-los, mas eles se opuseram a ela por razões que não são fáceis de entender. Esse processo, que se inicia em 2012, levará à queda de Dilma em 2016.

Por fim, alterou as regras relativas ao setor de energia elétrica, que era uma demanda dos empresários industriais, principalmente os das indústrias eletrointensivas. Com eletricidade cara, os produtos brasileiros perderam competitividade. Em seguida, houve uma mudança no regulamento que baixou as taxas, incluindo as taxas domésticas, em setembro de 2012.

Em suma, eu diria que essas são as três principais medidas do ensaio desenvolvimentista. Acrescento mais uma informação: há quem acredite que o investimento público feito naquela altura estava longe de ser suficiente. É verdade que em 2011 foi feito um corte nos investimentos públicos, mas penso que, embora a magnitude dos investimentos não tenha sido provavelmente a ideal, há elementos para caracterizar o período de 2011 a 2014 como um «teste de desenvolvimento». O governo Dilma foi um avanço em relação ao mandato anterior. É como se ela tivesse dito: “agora vamos pisar no acelerador”. Mas a decisão foi cara, porque a reação do capital nacional e internacional foi violenta e, mais uma vez, não houve tentativas de mobilização dos trabalhadores para defender esse “julgamento”.

-No meio do caminho desenvolvimentista havia uma pedra... Referindo-se a uma passagem de Tocqueville, para quem as grandes convulsões sociais eclodem “quando as coisas estão melhores”, em Os sentidos do lulismo ele prenunciava que o subproletariado começaria a tem suas próprias demandas. No entanto, ao analisar os protestos de 2013, você chega a conclusões diferentes sobre a composição social daqueles que saíram às ruas naquele momento. Gostaríamos que você voltasse à caracterização desse evento decisivo na história recente do Brasil.

Junho de 2013 representa, como Marx disse em outro contexto, "relâmpagos em um céu sereno". Eu investiguei com base nos dados disponíveis e minha conclusão é que o subproletariado estava ausente das manifestações, que contaram principalmente com a participação dos setores médio e alto. O que aconteceu em 2013 foi uma espécie de transformismo mas das ruas. Começou como um protesto de esquerda, honesto, de jovens, com uma visão interessante, muito mais radical que o lulismo, sem dúvida. Aquelas pessoas, que não tinham nada a ver com o subproletariado, entenderam que a situação era melhor, mas que precisavam avançar, dar um passo à frente. O que acontece é que eles acordaram um monstro que não podiam controlar.

Em questão de dias, entre 13 e 17 de junho do mesmo mês, as manifestações mudaram completamente de sentido. É incrível. Houve uma sequência de manifestações de esquerda pela redução do preço das passagens de transporte, principalmente em São Paulo. Essas manifestações terminaram em uma grande repressão no dia 13, que foi criticada até pelos jornais mais conservadores, porque a polícia estava realmente fora de controle. Em reação a essa repressão, desencadeou-se uma manifestação que foi aproveitada pela classe média conservadora, que usou o argumento antirrepressivo para iniciar um movimento de massas contra o lulismo, que na cidade de São Paulo foi representado pelo prefeito Fernando Haddad , e contra o governo federal liderado por Dilma Rousseff.

Na época eu não entendia: parecia uma grande manifestação de esquerda, mas não era. Tanto que dois dias depois, em uma terceira manifestação, a esquerda foi expulsa das ruas. Grupos vestidos com camisetas da seleção brasileira de futebol começaram a aparecer. Não se sabia exatamente de onde vinham, mas hoje vemos que esse foi o germe do bolsonarismo. Acho que isso tem a ver com o fenômeno das redes sociais. Tudo isso aconteceu no subsolo. Não teria acontecido cinco anos antes. Foi um "transformismo espontâneo". Muitas pessoas da esquerda participaram das conferências, que se espalharam pelo país, e não as critico, porque não foi fácil entender o que estava acontecendo. Às vezes, a extrema esquerda e a extrema direita protestavam na mesma avenida.

Em suma, 2013 é um evento muito especial. Há autores que o relacionam com os casos da Turquia ou do Egito, mas o caso brasileiro é diferente. Mas o que aconteceu em junho de 2013 foi um ponto de virada. Desde então, a direita mudou de posição e partiu para a ofensiva contra o governo, o que impactará no golpe parlamentar de 2016.

-Além do “ensaio desenvolvimentista”, em O lulismo em crise você sustenta que Dilma também teria promovido um segundo “ensaio” em seu primeiro mandato, que você batiza de “republicana”. A tentativa do ex-juiz Sergio Moro de se apresentar como representante da indignação social contra a corrupção pode ter relegado essa iniciativa às sombras, pouco comentada até mesmo por analistas políticos dedicados a esse período. Gostaríamos que ele voltasse à ideia de um “ensaio republicano”.

O que verifiquei em minha pesquisa foi que Dilma, além de realizar o que chamei de "ensaio desenvolvimentista" —que teve mais visibilidade— implementou outras transformações sistemáticas que não chamaram tanta atenção. A ex-presidente implementou uma política sistemática de combate ao que no Brasil chamamos de fisiologismo, ou seja, a ocupação de espaços no Estado em benefício próprio. Dilma tomou decisões muito claras e distintas no sentido de combater o fisiologismo, que lhe custou a maioria no Congresso (especialmente na Câmara dos Deputados) e pelo qual pagou um alto custo.

Por sua decisão de combater a fisiologia, Eduardo Cunha (PMDB), representante por excelência dessa prática, foi eleito presidente da Câmara dos Deputados. Estamos falando de um político extremamente agressivo, com grande capacidade de ação e articulação nessa esfera do poder legislativo. Dilma foi, mais uma vez, muito corajosa. O que acontece é que ele não o fez de forma mobilizadora. Ele incitou bestas; No caso do que chamei de “ensaio republicano”, segundo ensaio de Dilma, estou me referindo a parlamentares ferozes, que ela decidiu enfrentar sem recorrer à mobilização para se sustentar. Ela o fez sem as bases sociais necessárias, e a única maneira de realizá-lo com sucesso seria através da mobilização massiva das forças sociais. É sempre um processo arriscado, mas é uma opção.

Por outro lado, está ocorrendo um processo completamente diferente, do qual participa o juiz Sergio Moro, e que começa em 2014. Estou me referindo à Operação Lava-Jato, que foi um processo extraordinário, que produziu descobertas incríveis, e que foi realizado por uma ação de tipo inédito no Brasil. A operação acabou sendo, em suma, uma manobra faccional cujo objetivo claro era destruir o PT e o ex-presidente Lula. Mesmo assim, ele tem um aspecto republicano por causa do que descobriu. Mas o uso político e partidário da operação era absurdo do ponto de vista democrático. Um juiz tem que ser imparcial, e o juiz Moro demonstrou sua imparcialidade ao aceitar ingressar no governo Bolsonaro, que foi o principal beneficiário de sua forma de agir. Quando isso aconteceu,

Então fica claro que o julgamento republicano de Dilma e a operação Lava-Jato são dois processos totalmente diferentes. Onde eles se cruzam? Eles se cruzam quando a Operação Lava-Jato faz suas descobertas sobre a Petrobras. Quando isso aconteceu, fazia mais de um ano que Dilma havia afastado toda a gestão da empresa, sem que sua ação tivesse relação direta com a Lava-Jato. Involuntariamente, então, e em um fato incrível, os processos se cruzam. O processo político brasileiro daqueles anos produziu acontecimentos que deveriam fazer parte de qualquer compêndio da política mundial. Distâncias à parte, é como 2013: fatos fora do roteiro conhecido, processos com direções opostas que se cruzam inesperadamente.

-Fonte de inspiração para o ensaio desenvolvimentista, «o roosevelteanismo surgiu no centro capitalista numa fase de keynesianismo dominante», sustenta em O lulismo em crise . "Aplicado à questão brasileira em tempos de globalização e neoliberalismo, despedaçou o lulismo, levando a sociedade a um lugar distante de qualquer anseio igualitário."

Talvez hoje já estejamos em condições de dar um nome a esse "lugar" que você menciona; podemos chamar de bolsonarismo. Recentemente, você vem analisando o que você caracteriza como um processo de "reativação do direito" no Brasil. Você poderia nos explicar o que quer dizer com isso?

Acho que o processo de impeachment foi um golpe parlamentar. Não foi um golpe no sentido clássico do termo, mas um golpe parlamentar típico dos processos de erosão da democracia que estão ocorrendo em todo o mundo. É um processo que ocorre dentro das leis. Não rompe com as constituições, mas usa-as: um golpe faz-se uso da lei. O impeachment está previsto na Constituição. Mas a mesma constituição prevê que este instrumento só poderá ser acionado quando houver crime de responsabilidade. E é claro que a presidente Dilma Rousseff não cometeu crime de responsabilidade. Portanto, acho que foi um golpe parlamentar que abriu as portas para o desmonte da democracia brasileira.

O bolsonarismo é uma continuação desse processo. O governo Temer já havia sido um governo de retrocessos sociais e econômicos muito importantes, e o de Bolsonaro segue essa tendência. O importante é que em 2018 houve eleições relativamente representativas. Digo relativamente porque a participação de Lula na disputa foi impedida, e isso foi resultado de uma ação deliberada da Operação Lava-Jato para impedir sua volta ao governo. Mesmo assim, o PT decidiu reconhecer os resultados, e se o PT reconheceu os resultados, eles devem ser analisados.

Examinando os resultados dessas eleições de 2018, percebe-se uma reativação de uma base de direita que é muito forte no eleitorado brasileiro, embora não seja a maioria. A direita tem uma base eleitoral próxima de 30%, o que equivale ao peso que o lullismo tem em condições normais, ou seja, em momentos anteriores ao início das campanhas. Quando estes últimos são ativados, os eleitores que estão localizados entre os dois extremos tendem a se deslocar.

A dinâmica da reativação funciona, por exemplo, quando Bolsonaro adota uma retórica anticomunista que a princípio pode soar extemporânea para alguns. E isso porque não há ameaça comunista real no Brasil, já que o lulismo, como argumentei, não é comunista. É verdade que houve um processo político e econômico mais forte com Dilma, mas sem mobilização, como também mencionei anteriormente. Podemos pensar também, mesmo no contexto do governo Dilma, nas manifestações de junho de 2013, mas aqui a radicalização foi liderada pela direita, não pela esquerda.

Então, por que a retórica anticomunista ressoa? Porque há uma base caracterizada pelo que chamei de "conservadorismo popular". Esse segmento há muito é identificado pela literatura brasileira dedicada ao assunto, mas ao mesmo tempo é um fenômeno ainda pouco compreendido. Essa base é composta por setores da classe média baixa aos quais se somam frações da massa trabalhadora. São setores que não dispõem de muitos recursos, mas que, pela existência de um grande subproletariado, funcionam como classes médias e têm medo de perder o que têm. Os setores vulneráveis ​​—que não têm quase nada— também temem a desordem, pois são o elo mais fraco. Eles querem uma mudança, mas pelo medo com que se alimentam, pedem que qualquer transformação seja feita dentro da ordem.

A combinação de uma situação econômica negativa —que começou em 2015, ainda no governo Dilma— e uma tradição ideológica que tem longa história no país criou as condições para uma reativação da direita, antes adormecida, por Bolsonaro.

Em um estudo recente tentei mostrar que o lulismo neutralizou e desmantelou aquele conservadorismo popular entre 2006 e 2014, mas que o preço a pagar por isso foi a desmobilização. Havia uma espécie de entorpecimento deliberado do conservadorismo causado pela política homeopática do lulismo, que procurava evitar o confronto. Temos que esperar para ver o que acontecerá no processo eleitoral de 2022. Embora com continuidades, estamos hoje diante de uma nova situação devido à presença de fenômenos políticos com componentes fascistas na política nacional e internacional. Isso não fazia parte do cenário global até 2016, nem no Brasil em 2018. Mas é algo que aqui, como talvez também na Argentina, veio para ficar.

* André Singer , jornalista e professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo. Foi porta-voz do primeiro governo de Lula da Silva no Brasil. Esta entrevista foi realizada no âmbito do ciclo "A conjuntura brasileira entre o passado e o futuro", promovido pelo Departamento de Estudos Políticos do Centro Cultural de Cooperação (Buenos Aires).

* Igor Peres é doutor em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atuou como professor visitante na Escola Interdisciplinar de Estudos Sociais Superiores (IDAES). Atualmente desenvolve pesquisas sobre lulismo e kirchnerismo em perspectiva comparada.