Mostrando postagens com marcador luta armada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador luta armada. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Clandestina: A Coragem e a Resistência Feminina na Ditadura Brasileira * Paulo Canabrava Filho/Youtube

Clandestina: A Coragem e a Resistência Feminina na Ditadura Brasileira

O livro Clandestina, de Ana Corbisier, é uma obra única que ilumina a participação feminina na resistência à ditadura militar no Brasil, uma história frequentemente esquecida ou obscurecida.

Para falar sobre o lançamento desse livro que ocorreu no último dia 10,no Armazém do Campo do MST, o jornalista _*Paulo Cannabrava Filho*_ conversa com a autora do livro, _*Ana de Cerqueira César Corbisier.*_

Você acompanha essa conversa no “ _*Dialogando com Paulo Cannabrava”*_ especialmente nessa *quarta-feira (18), às 17h,* na *TV Diálogos do Sul Global.*

O livro Clandestina, de Ana Corbisier, é uma obra única que ilumina a participação feminina na resistência à ditadura militar no Brasil, uma história frequentemente esquecida ou obscurecida. Em contraste com as inúmeras memórias publicadas por homens, o relato de Ana destaca a presença ativa e decisiva das mulheres na guerrilha e na clandestinidade. A autora narra suas experiências com autenticidade, desde os treinamentos em Cuba até os desafios enfrentados no Brasil, oferecendo um olhar sincero e vibrante sobre a luta por liberdade em tempos de repressão. É uma história de coragem e aprendizado, contada com intensidade e alegria, mesmo em meio às adversidades. A trajetória de Ana é marcada por eventos de grande impacto, como sua atuação logística na ALN (Ação Libertadora Nacional) e a fuga que a levou a viver uma década no exílio, inicialmente em Paris. Com episódios como o resgate de um companheiro ferido durante um tiroteio e os desafios de estar desconectada da organização após deixar o país, Clandestina revela o lado humano e resiliente da militância. Mais do que uma memória, o livro é um convite para refletir sobre o papel das mulheres na luta contra a opressão e o peso do esquecimento histórico que recai sobre elas. Para falar sobre o lançamento desse livro que ocorreu no último dia 10,no Armazém do Campo do MST, o jornalista Paulo Cannabrava Filho conversa com a autora do livro, Ana de Cerqueira César Corbisier. Em sua história de vida Ana, nascida em São Paulo, capital, relata como na década de 60 trabalhou como assistente de produção na TV Cultura e passou a integrar a ALN (Ação Libertadora Nacional) atuando no GTA (Grupo Tático Armado). Como exilada Ana morou na França e em Cuba onde fez treinamento de Guerrilha e viveu algumas das mais enriquecedoras experiências de sua existência. Além de exilada, precisou viver por muitos anos na clandestinidade.

CLANDESTINA
PAULO CANABRAVA FILHO

sábado, 17 de setembro de 2022

CARLOS LAMARCA: PRESENTE ! * Emiliano José / T&D

CARLOS LAMARCA: PRESENTE ! 

Emiliano José / T&D


Quanto heroísmo. Quantos tropeços. Quantos erros. Um brasileiro, cheio de amor por sua terra, por sua pátria, seu Brasil. 50 anos depois, em 17 de setembro, lembrado com reverência

Nasceu no Estácio, em 1937. No Estácio se criou.

À mente, matéria sobre ele, “As emoções de Lamarca”, segundo semestre de 1979, publicada pela revista Isto É. Assinada por mim, Mônica Teixeira e Mariluce Moura.

Era setembro, estava no Recife, comício de Miguel Arraes, volta dele do exílio, capital pernambucana em festa recebendo as grandes lideranças políticas do país.

E vem a recordação nesses cinquenta anos do assassinato dele no sertão da Bahia. Morreu com a idade de Cristo, aos 33 anos. E a vontade é falar novamente das emoções dele, naquele momento de transe da vida brasileira, a ditadura a todo vapor, prendendo, torturando e matando, sem sinais de reação popular, em meio ao chamado “milagre brasileiro”.

Sonhou desde cedo: ser militar. Com 17 anos, ingressa na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre. Em 1957, já cursava a Academia Militar de Agulhas Negras, em Resende, no Rio de Janeiro. É aqui seu primeiro contato com as ideias comunistas. Lia avidamente os panfletos e documentos distribuídos clandestinamente pelo PCB naquela escola – rito de iniciação.

Casou-se cedo, e para completar o soldo, foi para Suez, integrar as forças da ONU, onde serve entre 1962 e 1963. Choque de realidade. Depara com a pobreza da região, e guarda dali uma convicção: tivesse de combater, seria ao lado dos árabes.

Angústia no golpe de 1964. Pouco a fazer, salvo pequena insubordinação, quando deu jeito de dar fuga, em Porto Alegre, onde estava servindo então na 6ª Companhia da Polícia do Exército, ao capitão da Aeronáutica, Alfredo Ribeiro Daudt, preso político. Pede transferência para o 4º Regimento de Infantaria (4º RI), em Quitaúna, São Paulo, onde servira pela primeira vez.

No 4º RI, inicia-se uma virada em sua trajetória. Faz contato com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e dá passos nas convicções revolucionárias. No início de 1969, a insatisfação com a vida militar agiganta-se: o papel desempenhado pela corporação na vida política do país, envolto numa ditadura violenta de responsabilidade das Forças Armadas, AI-5, tudo isso o angustiava.

Resolve jogar tudo pelos ares, e sai do Quartel de Quitaúna para sempre, enchendo a Kombi dele com 63 fuzis FAL, algumas metralhadoras, uma pistola 45, farta munição. Era o dia 24 de janeiro de 1969, final da tarde. Armas para a Revolução.

Na rua, sem lenço, sem documento, vai deparar com a real situação da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Constata: havia recebido informes idealizados sobre a situação da organização – a esquerda, em seu viés militarista, era acostumada a traçar cenários idílicos em meio a situações dramáticas, como era o caso: mais de 40 militantes presos, riscos de novas quedas, sem dinheiro para alugar novos aparelhos ou para comprar carros para ações e deslocamentos. E restavam sessenta militantes clandestinos, cuja despesa de manutenção era alta.

Um susto. Não imaginara isso.

As armas foram levadas para um aparelho no Alto da Lapa, em São Paulo, onde ficou apenas 48 horas, por risco de ser descoberta pela repressão. Antônio Espinosa, principal dirigente da VPR naquele momento, entulha uma C-14 com as armas e saiu perambulando por São Paulo. Dois dias e duas noites, armas pra lá e pra cá, risco de a qualquer hora ser parado.

Por falta de opção, as armas acabaram nas mãos da Ação Libertadora Nacional (ALN), cujo principal comandante era Carlos Marighella. Mais tarde, essas armas foram motivo de um sério desentendimento entre o capitão e a ALN. Marighella não queria devolvê-las. Acabou entregando somente uma parte.

Lamarca sentira-se atraído pela VPR sobretudo pelas ações espetaculares, a evidenciar, no olhar dele, disposição real para o enfrentamento armado à ditadura. Nascera da fusão de remanescentes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) e de um grupo dissidente da Polop (Organização Revolucionária Marxista – Política Operária – ORM-Polop), de origem universitária.

A ele, no esforço de atraí-lo e tirá-lo do quartel, venderam gato por lebre. Os dirigentes da organização chegaram a anunciar a existência de uma área de campo para a implantação imediata do foco guerrilheiro. Era fugir do quartel, e seguir com as armas para o campo. Isso o entusiasmara. E não era verdade. Restava num primeiro momento abrigado em um aparelho no Brás, em situação precária. As quedas prosseguiam.

Cabe logo um parêntese. Fazemos uma apreciação, Oldack Miranda e eu, em Lamarca, o Capitão da Guerrilha. O erro de fundo estava na estratégia da luta armada, envolta na perspectiva foquista e militarista, equívoco completo nas condições do Brasil. Lamarca, a VPR e tantas outras organizações não se livraram da armadilha do foquismo, própria de um tempo em que o debraysmo era uma febre, acompanhado das interpretações simplistas sobre a Revolução Cubana. Mesmo as organizações envolvidas por outras estratégias de luta armada, como as inspiradas no maoísmo, não conseguiram se livrar da armadilha foquista.

O aparelho do Brás onde foi alojado abrigava também três outros companheiros muito procurados pela repressão, uma rematada loucura. Repressão descobre dois dos militantes, fora do aparelho. Um morre, e o outro, ferido, ainda consegue avisar Lamarca para se mandar do apartamento. As precariedades iam se revelando, e o cerco repressivo, também.

A ALN o acolhe, diante da absoluta precariedade da VPR naquele fevereiro de 1969. Em março, vai para a casa da diretora teatral Heleny Guariba, no Brooklin Paulista – ela será mais tarde presa, torturada na Casa da Morte em Petrópolis – é uma das desaparecidas pela ditadura.

Em abril de 1969, participa do Congresso da VPR em Monguaguá, no litoral paulista. A contragosto, aceita a condição de dirigente da organização. Zequinha, José Campos Barreto, recusa. Já havia decidido voltar a Brotas de Macaúbas, na Bahia, para começar preparativos para o foco guerrilheiro.

Lamarca, como dirigente, logo depois do congresso, ainda em abril, conhece Iara Iavelberg, ex-militante da Polop, depois de uma dissidência, até chegar à VPR. Os dois viverão uma paixão intensa, até a morte. Com participação decisiva de Iara, acontece a aproximação do Comando de Libertação Nacional (Colina) e a VPR, e em julho de 1969, a Conferência de Fusão das duas organizações, outra vez em Monguaguá. Surge a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), Lamarca novamente eleito dirigente.

Essa fusão não era bem vista por alguns, como Dilma Rousseff e Carlos Alberto Soares de Freitas. No final de agosto de 1969, no Rio de Janeiro, Lamarca é submetido a uma cirurgia plástica para modificar o rosto, por demais conhecido da repressão.

Em setembro daquele 1969, participa ativamente do congresso de fusão da VPR e Colina, realizado em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Depois da conferência, exigia-se um congresso. Nas reuniões preparatórias do encontro, notava-se uma avaliação excessivamente otimista da VAR-Palmares.

Como se a conjuntura sorrisse para a esquerda armada. Afinal, a VAR contava com mais de trezentos militantes, centenas de simpatizantes em todo o país, e muito dinheiro para sustentar a luta, depois da desapropriação do cofre do Adhemar.

A esquerda armada cultivava o hábito de avaliações descoladas da realidade. Aqui, esquecia-se dos movimentos do inimigo. Vivia-se o pós-AI-5 e a ditadura organizava o aparato repressivo em todo o Brasil. Prendia e matava, impiedosamente.

Reconhecer: realizar aquele congresso, uma proeza. Reunir cerca de sessenta pessoas na mais absoluta clandestinidade, sob uma conjuntura de repressão intensa e realizado simultaneamente ao sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, era de fato uma façanha.

Foram intensas as discussões, e muitas as divergências, algumas quase resolvidas à bala. Lamarca, muito angustiado durante a reunião. Queria a luta armada logo, e para ele o encontro caminhava noutra direção. Lamarca saiu com seus companheiros para um canto, refundando a VPR, e o restante, a maioria, seguiu com a VAR-Palmares.

Um racha. E ele, em minoria. Registrar: Lamarca e o grupo dele eram decididamente voluntaristas, empedernidamente foquistas, doidos para ir para o campo e deflagrar a guerrilha. A VAR-Palmares caminhava no fio da navalha: tentava encontrar um meio termo entre o foquismo e a luta de massas, mas a rigor também não conseguiu se livrar do militarismo, do debraysmo.

Lamarca, então, sem paciência para aquela rotina de reuniões, aparelhos, congressos, pisa no acelerador e propõe à refundada VPR iniciar um treinamento de guerrilha de militantes no Vale do Ribeira, em São Paulo. Com a pretensão de formar quadros político-militares e, dar uma resposta à VAR-Palmares, demonstrar ser viável a luta armada.

Começa em janeiro de 1970.

Uma proeza: apesar de várias baixas, de serem obrigados a matar um tenente delator, de serem fustigados permanentemente por milhares de homens do Exército, Lamarca e mais três guerrilheiros conseguem chegar à capital paulista, na noite de 31 de maio daquele ano, sãos e salvos. O capitão respondia dessa maneira à VAR-Palmares – a luta armada era possível. Acreditava assim. Embora os resultados do treinamento não devessem necessariamente indicar expectativas de sucesso para a estratégia da luta armada.

Ao sair do Vale do Ribeira, encontra um VPR em crise profunda, acéfala. Sem condições de segurança, procura o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). Acolhido num aparelho em Interlagos, em situação muito precária, como de hábito. Vai pra outra casa, em melhores condições, com fachada de segurança melhor, na Vila Mariana.

Permaneceu ali entre julho e novembro de 1970. Pôde estar com Iara muitas vezes, viver um pouco a paixão. E fazer muitas reuniões com dirigentes da esquerda, tentando viabilizar a proposta da Frente Armada, discutindo-se simultaneamente a necessidade de um recuo estratégico.

É, um recuo. Não sei se o nome era próprio para tal movimento, mas assim era chamado: tratava-se de mandar os muitos quadros perseguidos pela repressão para o campo. Lá, deviam deflagrar a guerrilha – sempre ela, o sonho perseguido. E deveriam seguir sob o comando do capitão, cuja permanência na cidade estava quase inviável.

O cerco da repressão se fechando. Prisões se sucedendo. VPR e ALN decidem então sequestrar o embaixador alemão, Ehrefried von Holleben. Ocorreu no dia 11 de junho de 1970. No dia 15 de junho, um Boeing 707 decola levando quarenta presos políticos. A ação foi comandada por Eduardo Collen Leite, Bacuri, preso e torturado depois por cem dias seguidos, e morto. A imprensa deu Lamarca falsamente como o comandante do sequestro.

O capitão sente o cerco apertar. Chama o MRT e propõe seja levado para o Rio de Janeiro, o que acontece numa complexa e arriscada operação. Em novembro de 1970, desloca-se para um aparelho no interior do Estado, enquanto a VPR tenta juntar cacos. Lamarca preocupado. Isolamento completo da esquerda armada. VPR destroçada, reduzida a 30 militantes. Pensa: alguma coisa está errada: prisões, torturas, mortes e um saldo político igual a zero.

Nas ruas, o povo, indiferente às mortes, à repressão. O “milagre brasileiro” acontecendo, classe média satisfeita, trabalhadores explorados, porém calados. Concluía: há uma veloz desagregação e destruição da esquerda armada.

Começa a ouvir e a se aproximar do MR-8. Dali parecia vir um pensamento mais arejado, menos militarista, não obstante fosse também defensor da luta armada. Considerava, a par das reflexões sobre os caminhos da Revolução, o quanto a repressão se especializava, e não acreditava na continuidade dos sequestros como forma de luta naquela conjuntura.

A VPR, no entanto, propõe um novo sequestro, agora do embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher. Lamarca concordava com as críticas do MR-8, mas cede por disciplina. Não obstante, exige: seria o comandante da ação. Pensava assim, comandando, evitar loucuras.

Dito e feito. No decorrer das negociações para a libertação de prisioneiros políticos, depois de consumado o sequestro no dia 7 de dezembro de 1970, com a ditadura recusando nomes das listas apresentadas pelos revolucionários, a maioria decide matar o embaixador.

O capitão pensa: meus companheiros estão loucos. Era ir contra a opinião pública mundial e perder a oportunidade de libertar dezenas de prisioneiros políticos. Não reluta:

– Sou o comandante, decido eu.

– Não vamos matar o embaixador.

No dia 16 de janeiro de 1971, um avião decola com setenta presos políticos em direção ao Chile de Allende. As posições de Lamarca e do restante da VPR vão se tornando inconciliáveis. Marcado estivesse pelo debraysmo, o capitão iniciava um movimento sutil de recusa da exacerbação do militarismo, tão claramente manifestada naquele sequestro. Houve movimentos no sentido de saída dele para o exterior, prontamente recusada. Iara o acompanhava na decisão, apesar de convicta do destino dos dois: seriam mortos pela ditadura. Em março de 1971, Lamarca sai da VPR.

Ingressa no MR-8. Com ele, segue apenas Iara. Acreditava em unir o trabalho de massas no campo com a perspectiva da deflagração da guerrilha rural, como a nova organização defendia. O MR-8, no entanto, também acossado pela repressão. Cai um dos principais dirigentes, Stuart Angel, em maio de 1971. Repressão acreditava: por ele, chegaria a Lamarca. Stuart morreu, e nada disse. Tornou-se um dos crimes mais rumorosos da ditadura, devido sobretudo à luta iniciada pela mãe dele, a estilista Zuzu Angel, morta mais tarde num suspeito acidente de automóvel.

Cercados – assim se encontravam Iara e Lamarca no Rio de Janeiro. No dia 27 de junho de 1971, partem em direção à Bahia. Não foram os dois para Brotas de Macaúbas, onde José Campos Barreto organizava os trabalhos junto aos camponeses. Iara seguiu para Salvador, sem saber o destino de Lamarca.

O capitão teve momentos de desconcentração no sertão. Pôde desfrutar da acolhida tão afetuosa da família de Zequinha. Ouvir o canto dos pássaros. Sentir o cheiro do mato, o aroma da caatinga. Conhecer um pouco daquela terra onde mataram Corisco e feriram Dadá. Via futuro ali para o trabalho de massas e para a deflagração da guerrilha.

Menos de três meses depois, no dia 17 de setembro, ele e Zequinha serão assassinados pelo major Nilton Cerqueira e pelo cabo Dalmar Caribé, ambos do Exército. Antes repressão já havia matado Nilda Cunha e a mãe dela Esmeraldina Cunha, em Salvador. No cerco à casa dos familiares de Zequinha, mataram Otoniel, balearam Olderico, irmãos dele, e mataram também o professor Luís Antônio Santa Bárbara. Um banho de sangue. Lamarca, quem sabe felizmente, não soube do assassinato de Iara no dia 20 de agosto.

Quanto heroísmo. Quantos tropeços. Quantos erros.

Um brasileiro, cheio de amor por sua terra, por sua pátria, seu Brasil. 50 anos depois, lembrado com reverência, ele e Iara. Amaram o Brasil, deram a vida pelo povo.

Os algozes, recordados como tais: torturadores, assassinos covardes, promotores de um tempo de terror e dor.

Pudesse, e Lamarca evocaria Brecht, carinhosamente, no memorável poema “Aos que vierem depois de nós”, depois de ouvir as críticas, justas fossem ou sejam:

Assim passou o tempo que me foi concedido na terra. Vós, que surgireis da maré em que perecemos, lembrai-vos também quando falardes das nossas fraquezas, lembrai-vos dos tempos sombrios de que pudestes escapar. Íamos, com efeito, mudando mais frequentemente de país do que de sapatos, através das lutas de classes, desesperados, quando havia só injustiça e nenhuma indignação. E, contudo, sabemos que também o ódio contra a baixeza endurece a voz. Ah, os que quisemos preparar terreno para a bondade não pudemos ser bons. Vós, porém, quando chegar o momento em que o homem seja bom para o homem, lembrai-vos de nós com indulgência.

Lamarca, presente!

quinta-feira, 17 de junho de 2021

As guerrilhas e os movimentos insurgentes durante a ditadura militar * Otávio Vinicius De Souza, Felipe Leprose

As guerrilhas e os movimentos insurgentes durante a ditadura militar
(parte 1)
21/09/2016
Introdução:

Os movimentos de guerrilha no Brasil surgiram por volta dos anos 30 e ganharam força após o golpe militar que depôs João Goulart em 64, como forte oposição ao regime. Tinham como objetivo a libertação do país através uma revolução de viés socialista, mais especificamente Marxista-Leninista.

A interferência da Revolução Russa nos movimentos de esquerda no Brasil

A triunfante revolução russa de 1917 repercutiu fortemente na esquerda brasileira e do mundo.
Inclusive, fez com que muitos movimentos anarquistas perdessem força, pois a ideologia passou a ser tratada como utópica e incapaz de modificar radicalmente a sociedade.
Muitos movimentos anarquistas aderiram a movimentos comunistas e entregaram-se ao estudo de Karl Marx e Lenin.

Em abril do ano de 1922, na cidade do Rio de Janeiro, foi realizado o I Congresso Comunista Brasileiro.
Esse congresso resultou na unificação de vários grupos comunistas espalhados no país, com a fundação do primeiro Partido Comunista do Brasil, o PCB (Nomeado na época como PC-BIC — Partido Comunista — Seção Brasileira da Internacional Comunista).

Desde a fundação do partido a tomada de poder pela via revolucionária sempre foi o foco de sua discussão, porém isso se tornou mais evidente após a adesão do famoso líder tenentista, Capitão Luís Carlos Prestes.

A primeira tentativa de tomada de poder pela via revolucionária foi com a Intentona Comunista, em 1935.

O movimento, extremamente mal planejado e executado, só serviu para abalar ainda mais as frágeis instituições democráticas burguesas da época e foi usado como pretexto para que Getúlio Vargas instaurasse um regime de viés fascista no Brasil, o Estado Novo.

A ditadura militar e a radicalização da politica no Brasil

A ditadura militar no Brasil, que ficou em vigor durante 1964 e 1985, teve como principal meio de oposição a luta armada.

Os grupos de guerrilha intensificaram sua força principalmente após o ano de 1967, com o Ato Institucional Nº 5 (AI5) e, consequentemente, o aumento da repressão por parte do regime.

Porém, já em 1964, com o golpe que depôs Jango, Leonel Brizola já havia mostrado interesse na resistência armada contra a ditadura militar. Com isso foi criado o “Movimento Nacionalista Revolucionário” e iniciaram-se contatos com guerrilheiros cubanos, que viriam a prestar apoio financeiro à guerrilha do Caparaó.

Principais Movimentos de Guerrilha Armada Contra a Ditadura

Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8)

O MR-8 surgiu em 1964 no meio universitário da cidade de Niterói, originalmente com o nome de Dissidência do Rio de Janeiro.

Foi rebatizado em memória ao dia em que uma das principais figuras anti-imperialistas e revolucionárias da América Latina, Che Guevara, foi capturado e brutalmente assassinado na Bolívia, em 8 de outubro de 1967.

O MR-8 teve inicio efetivo na luta armada em 1968 e foi desarticulado pela repressão da ditadura militar em 1969. Os sobreviventes que ainda estavam em liberdade juntaram-se aos integrantes da Dissidência Comunista de Guanabara e juntos reconstruíram um “novo” MR-8

O movimento tomou prestígio nacional e internacional com o seu papel predominante no sequestro do embaixador estadunidense no Brasil, Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, realizado em conjunto com a ALN.

A ação foi realizada para libertar seu líder, Vladimir Palmeiras, preso desde 1968.

No rastro do sequestro do embaixador, os membros do movimento foram duramente perseguidos e reprimidos, o que levou a quase extinção do grupo.

Mesmo assim, as operações armadas do MR-8 prosseguiram.

Ação Libertadora Nacional (ALN):

O grupo surgiu em 1967, com a saída de Carlos Marighella do PCB, após sua participação na conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), na cidade de Havana.

A ALN era a organização mais estruturada da guerrilha urbana e também a que, proporcionalmente, tinha o maior número de mulheres vinculadas à organização.

Os principais métodos de divulgação dos ideais comunistas à população eram panfletagens e discursos.

O objetivo da ALN era a ação objetiva e imediata do aniquilamento do regime militar, usando a luta armada e a guerrilha como modo de ação política.

Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)

Outro importante grupo de guerrilha, a VPR, formou-se em 1966, a partir da união de dissidentes da “Politica Operária” (POLOP) com militares remanescentes do “Movimento Nacionalista Revolucionário” (MNR).

Em 1970 começou a organizar uma espécie de campo de treinamento no Vale do Ribeira, em São Paulo.
Entre os principais integrantes do grupo está Carlos Lamarca, um militar desertor que foi considerado o inimigo número um da ditadura na segunda metade da década de 70. Lamarca foi perseguido pelos militares por mais de dois anos, até infelizmente ser localizado e morto no interior da Bahia.

Para financiar a luta rumo ao triunfo socialista a VPR promovia expropriações como roubo a bancos.

A VPR participou do sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, em dezembro de 1970, e também foi responsável pelo sequestro do cônsul-geral do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi, em março do mesmo ano.

Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-PALMARES)

O VAR-PALMARES surgiu em julho de 1969, como resultado da fusão do Comando de Libertação Nacional (COLINA) com parte da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Seu nome deu-se em homenagem ao maior quilombo da escravidão.

A principal ação do movimento foi a expropriação do “cofre do Adhemar”, contendo mais de 2,5 milhões de dólares, em dinheiro, realizada em 18 de julho de 1969.

O cofre estava na residência da chamada Dr. Rui, que era secretária e amante do ex-governador de São Paulo, Adhemar Barros.

O dinheiro expropriado era fruto da corrupção do governador, que era conhecido pelo lema “Rouba, mas faz”.

Texto e revisão: Otávio Vinicius De Souza, Felipe Leprose
***