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sábado, 15 de abril de 2023

MÍDIA EMPRESARIAL(OU IMPRENSA MARROM?) TEM LADO: SEPULTEM-SE AS ILUSÕES, URGENTE * Emiliano José/Patria Latina

MÍDIA EMPRESARIAL(OU IMPRENSA MARROM?) TEM LADO: SEPULTEM-SE AS ILUSÕES, URGENTE

100 dias é pouco para expressar a cara de um governo. É inegável, no entanto, o muito já feito. Como inegável é a má vontade da mídia empresarial com o novo governo

Não, à mídia não importa as mudanças realizadas pelo governo Lula nesses primeiros 100 dias, e uso o número apenas para seguir a mania. É óbvio: 100 dias é nada, muito pouco para expressar a cara de um governo. Inegável, no entanto, o muito feito. Como inegável a má vontade da mídia empresarial com o novo governo, atitude a revelar continuidade, mesmo procedimento ao longo da história. Tal mídia nunca, nunca teve boa vontade com projetos reformistas, sejam eles de qualquer dimensão ou profundidade. E quando as classes dominantes, da qual ela faz parte, se incomodam, parte para o golpe, sem qualquer constrangimento. É protagonista dos golpes, sem exceção, seja, só para citar alguns, o de 1954, ou o de 1964, ou o de 2016. E nunca apenas prestando continência: participando sempre de corpo e alma.

Houve um ou outro momento, face ao desenvolvimento do governo anterior, de natureza fascista, quando uma ou outra rede concedeu alguma coisa, e passou a atacar, por exemplo, o negacionismo assassino do presidente da República. Nunca, no entanto, deixou de apoiar entusiasticamente a política econômica vigente – afinal sobrevive de tal política. O rentismo é a sobrevivência dela, como de toda a classe dominante brasileira. Nós nunca tivemos uma burguesia nacional, uma classe dominante com os predicados das tradicionais burguesias, capazes de operar transformações significativas na vida dos povos. Hoje, em vez de produzir, preferem deixar o dinheiro rendendo, e a indústria segue esfacelada.

É esse apoio à política neoliberal, desse credo a mídia jamais se afasta, a explicar o combate sem trégua feito ao governo Lula nesses primeiros 100 dias. Não, não importa tenha Lula reiniciado uma nova política de combate à fome, reinstalado o Conselho de Segurança Alimentar, aumentado o salário mínimo, promovido isenção do IR, retomado o “Minha Casa, Minha Vida”, reajustado bolsa de estudos, garantido a proteção ao Yanomamis, suspendido várias privatizações, ter colocado em pé novamente a política de direitos humanos, estar novamente no centro das grandes questões mundiais, não importa tenha aumentado em mais de R$ 110 bilhões os recursos para as políticas públicas da área social, enfraquecidas durante as duas gestões anteriores ou tenha ressuscitado o programa Mais Médicos.

Nada disso importa.

A mídia subestima tudo isso, dando tais iniciativas apenas como volta ao passado. Como se recuperar um país devastado por uma política deliberada de destruição não fosse uma tarefa essencial. Políticas sociais não importam para tal mídia. Logo no início do governo anterior, e face ao dito pelo então presidente sobre a principal tarefa dele, destruir, eu dizia da necessidade de pensarmos, acompanharmos a política de destruição porque isso nos daria a dimensão do nosso desafio quando ganhássemos as eleições, como ganhamos. Não seria simples recuperar um país vítima de tanta destruição, não está sendo simples, como estamos vendo. A mídia empresarial não vê isso. Melhor, não quer ver. Os olhos, sempre voltados para o mundo financeiro, para a garantia de pagamento dos juros dos acionistas, mundo do qual faz parte.

Não olha, não quer olhar para a taxa de juros mais alta do mundo praticada pelo presidente do Banco Central. Lula, arguto, compreendeu: tal taxa de juros estrangula o desenvolvimento do país, impede o crescimento econômico, sufoca os empreendimentos, cria obstáculos intransponíveis aos negócios, estimula desemprego, aumenta a miséria e a fome. Necessário, mas não é simples, uma ampla mobilização popular exigindo juros mais decentes. Sentimento contrário à existência de tais juros, existe, e majoritário. Ir às ruas contra eles, outro papo.

Articulistas os mais variados dedicam-se à miudeza de uma crítica fútil a Lula, às intrigas. E à defesa do rentismo, do neoliberalismo mais radical, e por isso segue apoiando a política de juros, absurda. Não, a mim não surpreende. Seguirão nesse combate, nessa linha. Espera-se do governo Lula o fortalecimento de mídias capazes de praticar jornalismo, de caminhar em busca da verdade, utopia desdenhada pelos homens de negócio da grande mídia, hoje adotando uma política feroz de demissões de antigos jornalistas e à procura de novos repórteres e apresentadores, dispostos a suportar salários equivalentes a um terço, um quarto dos mandados pro olho da rua, a suportar a exploração de uma mais-valia mais feroz, na linha do dito recentemente pelo ator e autor Pedro Cardoso.

Lula sabe das dificuldades da conjuntura, marcada por um quadro internacional complexo, derivado, entre tantos aspectos, da guerra por procuração da Ucrânia. A ida à China pode ser um momento rico, a indicar novas alianças, a intensificar a existência de um mundo multipolarizado, não submetido mais à hegemonia americana. O desafio nacional será o crescimento, nada simples face ao já dito, aos juros estratosféricos. Essencial combater a fome, e Lula nunca abandonou esse objetivo, mas terá de ir além, e ele sabe disso.

Consciência ele tem: em nenhum momento terá a mídia empresarial do lado dele. Ela pode em raros momentos fazer algum movimento favorável, no secundário. Nas questões centrais, aquelas voltadas ao benefício do povo brasileiro, especialmente dos mais pobres, ela sempre se colocará visceralmente contra. Por isso, fortalecer as mídias voltadas ao jornalismo de modo a enfrentar as fake news vindas de tantos lados, inclusive da grande mídia. Refutar, por necessário, as calúnias diárias pretendendo qualquer movimento do governo no sentido de limitar a liberdade de expressão, sempre defendida pelo presidente. Insistir sempre: adeus às ilusões – a grande mídia tem lado, e é sempre o do capital, do grande capital monopolista rentista. As ilusões, nesse caso, são pecado mortal, a fazer arder no fogo do inferno, para os crentes. Para os não-crentes, erro crasso, a nos levar a desastres de bom tamanho.

*Emiliano José
 é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (2 volumes), entre outros.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

UM AGENTE DA CIA NO CORAÇÃO DO GOLPE DE 1964 * Emiliano José / SP

UM AGENTE DA CIA NO CORAÇÃO DO GOLPE DE 1964
"ARMA" ou Vernon Walters comCastelo Branco após o golpe de 1964

Cartazes visavam a atingir o sentimento profundamente religioso do povo e mostrar o perigo iminente da tomada do poder pelos comunistas. Se hoje isso funciona, imagine na Guerra Fria

Os generais, no governo Goulart, tinham pressa. E uma certeza: se não tomassem a iniciativa, o presidente e seu cunhado, Leonel Brizola, dariam um golpe. Não importava que fosse uma fantasia, acreditavam nisso. Para eles, a situação chegara a uma etapa essencialmente militar. Uma voz determinada, segura, no entanto, advertiu-os, quase ordenou, “tenham calma”:

– Ainda falta muito por fazer. Falta organizar detalhes, garantir posições na opinião pública, trabalhar as reações do povo.

– É necessário inculcar no povo a ideia de que irá perder tudo o que acumulou na vida: a propriedade privada, a guarda e a educação dos filhos, a crença em Jesus Cristo e em Deus, a liberdade de pensar e agir. Tudo, tudo! Até os liquidificadores e automóveis que, a partir de 1959-1960, começam a incorporar-se ao patrimônio doméstico dos brasileiros.

Os generais o ouviam.

Definiu a estratégia da caminhada em direção ao golpe:

– Deve-se criar a sensação de medo. Há que se criar o medo!

O medo deveria passar a ser um protagonista essencial. Estabelecida a sensação de medo, o resto vem por si próprio. Na Itália, adido militar antes de chegar ao Brasil, incutiu o medo nos militares italianos – medo ao comunismo. O medo faz parte de qualquer estratégia de dominação militar. Com ele, se ganha a guerra antes de a batalha começar. Isso era repetido por Arma a cada minuto.

Nosso personagem, um americano, era conhecido assim, Arma. Nada mais apropriado, vamos ver. A vinda de Arma para o Brasil foi definida na famosa reunião de 30 de julho de 1962, no Salão Oval da Casa Branca entre o presidente John Kennedy, o subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, Richard Goodwin, o assessor presidencial de Segurança Nacional, McGeorge Bundy, e o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon. Flávio Tavares relata detalhadamente a reunião no livro 1964: o golpe no capítulo “Washington no Jogo”.

Um encontro histórico. Decide-se ali a deposição de Goulart. Durou quase duas horas, apenas isso: das 10h55 às 12h55. Quem quiser conferir, procure o livro. Da reunião, extraio apenas o momento em que se decide pela vinda de Arma ao Brasil como adido militar, homem talhado para a preparação do golpe, ao lado do embaixador Lincoln Gordon.

Amigo dos generais brasileiros, convivera com vários deles na Itália, na Segunda Guerra Mundial. Oficial de ligação entre a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e o V Exército dos EUA entre 1943 e 1945. Intérprete de Eisenhower quando da visita do então presidente americano ao Brasil, em 1960. Antes, assistente do adido militar na Embaixada dos EUA, no Rio de Janeiro, de 1945 a 1948. Falava português fluentemente.

Convidado, largou o cargo de adido em Roma e tomou o rumo do Brasil. Quer coisa melhor do que preparar um golpe em favor de seu país? O leitor talvez já esteja incomodado. Resolva-se o incômodo. Arma é Vernon Walters, coronel quando chega ao Brasil, com imenso prestígio na entourage do poder nos EUA. Ficou conhecido assim desde outubro de 1962, quando chega ao Brasil.

O próprio embaixador Lincoln Gordon o chamava assim nos relatórios enviados diariamente a Washington – uma simplificação de Army Attache, adido militar. Não usasse uniforme, não usasse paletó e gravata quando em trajes civis, o homenzarrão de quase dois metros passaria por um camponês das regiões alemãs de Santa Catarina ou do Rio Grande do Sul – assim o define Flávio Tavares.

Releituras recentes em torno do golpe de 1964 me despertaram o interesse sobre ele. Figura central do golpe, uma das mais importantes. Peça chave da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) em toda a operação golpista de 1964. Merece ser lembrado para evidenciar como nada aconteceu por acaso e para evidenciar como os EUA têm agentes preparados para derrubar governos quando não estejam de acordo com seus interesses.

Arma ficou impressionado quando desembarcou no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, em meados de outubro de 1962. Era coronel, então. Não esperava, não mesmo, ser recebido por treze generais brasileiros, saudado por palmas entusiasmadas. Não precisava tanto. Viera às pressas, nem desocupara direito o apartamento em Roma, deixando a tarefa a cargo da mãe, com quem morava. Atordoado e feliz. Em casa.

Conhecia das armas, mas fazia questão de utilizar a inteligência. A astúcia abate mais inimigos do que um canhão – tinha consciência disso, Flávio Tavares anota. Luiz Alberto Moniz Bandeira, no seu O Governo Goulart: As lutas sociais no Brasil, 1961-1964, fala de um encontro com ele, quando ele ocupava o cargo de embaixador em Bonn. Pesquisava a reunificação da Alemanha e como ele previra em maio de 1989 a derrubada do Muro de Berlim, precisava ouvi-lo. Chegou com a ideia de indagar também sobre o golpe de 1964, mas desistiu logo no início da conversa, iniciada por ele de modo bem-humorado:

– Depois que vim para a Alemanha, o Muro de Berlim foi derrubado. Agora vão dizer que sou o responsável. Pois é, eu fui acusado de ser artesão da derrubada do rei Farouk, no Egito, do presidente Arturo Frondizi, na Argentina, do presidente João Goulart, no Brasil, e do presidente Charles de Gaulle, na França. Mas ninguém até agora provou nada contra mim.

De alguma forma, ele se desnudava, brincando.

Moniz Bandeira reagiu também com bom humor:

– Sim, embaixador, o senhor é um homem de inteligência e sabe que conspiração dificilmente se faz com documentos.

Entre tantas atribuições ao longo da vida, Arma foi agente da Defense Intelligence Agency (DIA) e vice-diretor da CIA. Nunca admitiu ter participação direta no golpe de 1964. Não negava, no entanto, ter sido bem informado sobre os planos para a derrubada de Goulart. Um disfarce quase ingênuo, acolhido apenas por quem não o conhecesse.

Como vimos, insistiu na consolidação da atmosfera do medo, para ele um aliado fundamental para a criação do clima favorável ao golpe. O medo pouco a pouco, desde a chegada dele, no final de 1962, começou também a chegar às unidades militares, apavoradas com a possibilidade do comunismo, como queria Arma, e ele agia para isso.

Mantinha reuniões diárias de articulação do golpe com o general Castello Branco, com quem fizera amizade na Itália. A intimidade com Castello Branco permitiu pudesse assistir pela televisão o comício da Central do Brasil, no dia 13 de março, no apartamento do general, em Ipanema. Como sabemos, o golpe ocorreria dali a menos de 20 dias.

Propagar o medo e armar-se – era a orientação de Arma.

Os golpistas armaram fazendeiros, treinaram pessoas por todo o país, formaram milícias, temiam uma reação armada da oposição. Admitiam até uma secessão por algum tempo, liderada por Minas Gerais. A reação armada da esquerda não ocorreu, como se sabe. A direita estava preparada. Para uma luta demorada, que armada fosse. A esquerda, não.

O Serviço Federal de Informações e Contra-Informações (SFICI), órgão do Conselho de Segurança Nacional, informou ao presidente Goulart sobre a atividade de Arma como coordenador das operações da CIA no Brasil, envolvido diretamente no contrabando de armas para a contrarrevolução.

O SFICI, para ser justo, municiou Goulart de muitas informações sobre as movimentações golpistas, mas o presidente dizia não querer fomentar a “indústria do medo”, em pleno desenvolvimento, e nem provocar pânico, já semi-instalado, de modo especial nas camadas médias. Lincoln Gordon era a face pública da articulação golpista. Arma, o operador. Aliado na formulação ideológica, e figura central na articulação militar, com amplos poderes para tanto.

Mantinha um olho no padre, outro na missa. Não desgrudava de Castello Branco, principal articulador do golpe. Com ele, discutia cada passo a ser dado, embora, como homem de inteligência, jamais tenha admitido isso. Não descuidava, no entanto, dos generais considerados de esquerda do chamado dispositivo de Goulart. Até com o general Euriclydes Zerbini conversou, declaradamente de esquerda. Um agente da CIA de extrema qualificação. Abrir o jogo, jamais.

No final de 1963, o golpe assumia contornos de urgência para os EUA, e Arma apertava o passo. Goulart parecia disposto a levar à frente suas reformas de base, medidas de natureza democrática, como a reforma agrária. Aos EUA, no entanto, pareciam coisa de comunista. Além disso, Kennedy havia sido assassinado em novembro daquele ano. Lyndon Johnson assume, e os radicais da Guerra Fria ganham ainda mais espaço. Os falcões passam a nadar de braçada. Arma, mais à vontade. Tudo ficou mais fácil, como ele admite.

O início de janeiro de 1964 não era promissor para o presidente Goulart. Ele, de um lado, sentia o movimento golpista se acelerar. De outro, pretendia ousar, apressar as reformas de base. É alertado no dia 1º de janeiro de 1964: era necessário fazer um pronunciamento favorável à Aliança para o Progresso de modo a evitar a declaração de bancarrota do Brasil, medida prestes a ser tomada pelos EUA, como lhe dizia San Tiago Dantas. Goulart reagiu desanimado:

– Já não adianta mais, professor. Não acredito que nenhuma frase minha detenha a conspirata que os EUA patrocinam.

Lançou mão de uma pasta, abriu-a, mostrou alguns informes do serviço secreto. Contou que o general Ray E. Bell chegara ao Brasil numa fortaleza voadora, e fora recebido pelo brigadeiro Eduardo Gomes, um dos mais notórios golpistas:

– Esse general esteve com o general Castello Branco e até mesmo o meu ministro da Guerra o visitou.

Goulart perdera qualquer ilusão de compromissos com os EUA e resolvera chamar o povo à luta, talvez tardiamente, talvez numa correlação de forças já favorável aos golpistas. Havia advertido a trabalhadores reunidos em Itaguaí, no Rio de Janeiro: a caminhada não seria macia, a estrada seria árdua, haveria sacrifícios. Mais talvez do que ele imaginava. Ele, se caísse, cairia de pé, na batalha pelas reformas de base.

Arma aumentava o ritmo no início de 1964. Reunia-se com os generais Golbery do Couto e Silva, Ayrton Salgueiro de Freitas, Hugo Bethlem, Cordeiro de Farias, Juraci Magalhães, Nelson de Melo, e com o brigadeiro Eduardo Gomes. Viajava frequentemente a Belo Horizonte, epicentro do golpe, e reunia-se com o governador Magalhães Pinto e com o general Carlos Luís Guedes, comandante da 4ª Divisão de Infantaria, homem de confiança do marechal Odylio Denys. Tudo era do conhecimento de Goulart. Relatórios constantes do seu serviço de informações, o SFCI, o subsidiavam. A contrarrevolução avançava, inexoravelmente, Arma à frente. Chegou a oferecer armas ao general Carlos Luís Guedes, e a instigá-lo para não perder mais tempo:

– Eles estão partindo o presunto em fatias tão finas que se torna imperceptível a sua ação. Quando os senhores se derem conta, o terão comido todo.

Como diz Moniz Bandeira, quem cortava o presunto em fatias finíssimas era Arma, era a CIA. Por meio de manobras sutis, assinou-se no final de janeiro de 1964 o acordo de renovação do Acordo Militar de 1952 com os EUA. Washington tinha em mãos agora um instrumento legal para a intervenção armada no Brasil na hipótese de resistência ao golpe de Estado em andamento. Tudo de acordo com o figurino.

A CIA, sob a direção de Arma, combinava modalidades de covert action [ação oculta] com spoiling action [ação de desgaste], e desenvolvia a atmosfera do medo, fazia a crise recrudescer, induzindo o país à radicalização, criando as condições para a intervenção das Forças Armadas. Nas passeatas, como previsto por Arma, os cartazes não se dirigiam contra o presidente, nem contra as reformas de base. Todos, como dirá mais tarde o próprio Goulart, “visavam a atingir o sentimento profundamente religioso do povo e mostrar o perigo iminente da tomada do poder pelos comunistas”. Se hoje isso funciona, imagine em tempos de Guerra Fria.

A CIA ditava a cadência da campanha para a derrubada de Goulart. Manejava os cordéis, mas o fazia discretamente, não queria de modo nenhum aparecer na linha de frente, Washington não pretendia isso. A CIA e Washington tinham ainda ao seu lado, de modo incondicional, a imprensa, cuja esmagadora maioria era conservadora, de direita, capaz de constituir uma rede favorável ao golpe, como registra Aloysio Castelo de Carvalho em seu livro A Rede da Democracia – O Globo, O Jornal, Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-1964), entre tantas outras publicações.

No dia 19 de março de 1964, seis dias após o comício da Central do Brasil, acontece uma passeata em São Paulo, a chamada Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Para os golpistas, ela excedeu as mais otimistas previsões. Na hipótese pessimista, 300 mil pessoas. Na otimista, 500 mil. A embaixada americana exultou, ao informar o Departamento de Estado. Manifestação de classe média e dos mais ricos, dos poderosos. Golpe nas ruas.

Ainda assim, os golpistas, Castello Branco, à frente, precisavam de um pretexto para adiantar o passo. Veio com uma iniciativa da CIA. O cabo Anselmo, desde lá identificado como um agente da agência norte-americana, e provavelmente articulado com Arma, liderou na Semana Santa, uma rebelião de marinheiros, e deu aos golpistas a certeza de que era a hora.

Castello Branco e Arma preparavam o golpe nos detalhes, e imaginaram tudo ser iniciado entre 2 e 3 de abril. Mas Minas Gerais se antecipou. Seria dia 30. Arma foi informado dessa antecipação. O governador Magalhães Pinto mandou requisitar todo o estoque de gasolina. Afonso Arinos de Melo Franco, nomeado chanceler, e encarregado de negociar o estado de beligerância de Minas Gerais para justificar a ajuda dos EUA, com o fornecimento de petróleo e material bélico, conforme acertado entre o general Carlos Luiz Guedes e Arma. O cônsul norte-americano em Belo Horizonte, Herbert Okun, esteve com o governador Magalhães Pinto para reiterar-lhe o apoio dos EUA – ofereceu-lhe ouro, incenso e mirra: dinheiro, armas, munições e alimentos.

O general Olympio Mourão Filho partiu com a tropa para o Rio de Janeiro no dia 31 de março – golpe em marcha. O governo de Washington acionou a Operação Brother Sam, uma impressionante força-tarefa destinada a intervir a favor do golpe, se necessário. O golpe aconteceu, sem reações significativas, prisões por todo o país e mais de 20 anos de arbítrio e terror.

Luiz Alberto Moniz Bandeira manifesta sua opinião:

– E o general Humberto Castello Branco, o amigo de Vernon Walters, emergiu da sombra como candidato do governo invisível, a CIA, à Presidência da República, levando ao poder a UDN e os oficiais da Cruzada Democrática, cujos desígnios ditatoriais o suicídio de Vargas, ao acender a fúria popular em 1954, retardou por dez anos.

Os EUA jamais estiveram alheios à América Latina desde que se tornaram um Império. Não há golpes no continente sem as mãos deles. Ontem como hoje, agem na defesa de seus interesses, de um jeito ou de outro, e a CIA, sempre fundamental. Na história de Arma, há hoje documentos a granel. Para os acontecimentos atuais, afora as evidências gritantes, ainda é preciso aguardar algum tempo, quando os arquivos forem legalmente abertos.

Arma só foi promovido a general depois do golpe de 1964. Nasceu em 1917. Morreu em 2002.

Referências

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. O Governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil, 1961-1964. Rio de Janeiro: Revan; Brasília, DF: EdUNB, 2001.

CARVALHO, Aloysio Castelo de Carvalho. A Rede da Democracia: O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-64). Niterói: Editora da UFF, Editora NitPress, 2010.

TAVARES, Flávio. 1964: o golpe. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014.

Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros mais recentes da coluna opinião...

sábado, 17 de setembro de 2022

CARLOS LAMARCA: PRESENTE ! * Emiliano José / T&D

CARLOS LAMARCA: PRESENTE ! 

Emiliano José / T&D


Quanto heroísmo. Quantos tropeços. Quantos erros. Um brasileiro, cheio de amor por sua terra, por sua pátria, seu Brasil. 50 anos depois, em 17 de setembro, lembrado com reverência

Nasceu no Estácio, em 1937. No Estácio se criou.

À mente, matéria sobre ele, “As emoções de Lamarca”, segundo semestre de 1979, publicada pela revista Isto É. Assinada por mim, Mônica Teixeira e Mariluce Moura.

Era setembro, estava no Recife, comício de Miguel Arraes, volta dele do exílio, capital pernambucana em festa recebendo as grandes lideranças políticas do país.

E vem a recordação nesses cinquenta anos do assassinato dele no sertão da Bahia. Morreu com a idade de Cristo, aos 33 anos. E a vontade é falar novamente das emoções dele, naquele momento de transe da vida brasileira, a ditadura a todo vapor, prendendo, torturando e matando, sem sinais de reação popular, em meio ao chamado “milagre brasileiro”.

Sonhou desde cedo: ser militar. Com 17 anos, ingressa na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre. Em 1957, já cursava a Academia Militar de Agulhas Negras, em Resende, no Rio de Janeiro. É aqui seu primeiro contato com as ideias comunistas. Lia avidamente os panfletos e documentos distribuídos clandestinamente pelo PCB naquela escola – rito de iniciação.

Casou-se cedo, e para completar o soldo, foi para Suez, integrar as forças da ONU, onde serve entre 1962 e 1963. Choque de realidade. Depara com a pobreza da região, e guarda dali uma convicção: tivesse de combater, seria ao lado dos árabes.

Angústia no golpe de 1964. Pouco a fazer, salvo pequena insubordinação, quando deu jeito de dar fuga, em Porto Alegre, onde estava servindo então na 6ª Companhia da Polícia do Exército, ao capitão da Aeronáutica, Alfredo Ribeiro Daudt, preso político. Pede transferência para o 4º Regimento de Infantaria (4º RI), em Quitaúna, São Paulo, onde servira pela primeira vez.

No 4º RI, inicia-se uma virada em sua trajetória. Faz contato com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e dá passos nas convicções revolucionárias. No início de 1969, a insatisfação com a vida militar agiganta-se: o papel desempenhado pela corporação na vida política do país, envolto numa ditadura violenta de responsabilidade das Forças Armadas, AI-5, tudo isso o angustiava.

Resolve jogar tudo pelos ares, e sai do Quartel de Quitaúna para sempre, enchendo a Kombi dele com 63 fuzis FAL, algumas metralhadoras, uma pistola 45, farta munição. Era o dia 24 de janeiro de 1969, final da tarde. Armas para a Revolução.

Na rua, sem lenço, sem documento, vai deparar com a real situação da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Constata: havia recebido informes idealizados sobre a situação da organização – a esquerda, em seu viés militarista, era acostumada a traçar cenários idílicos em meio a situações dramáticas, como era o caso: mais de 40 militantes presos, riscos de novas quedas, sem dinheiro para alugar novos aparelhos ou para comprar carros para ações e deslocamentos. E restavam sessenta militantes clandestinos, cuja despesa de manutenção era alta.

Um susto. Não imaginara isso.

As armas foram levadas para um aparelho no Alto da Lapa, em São Paulo, onde ficou apenas 48 horas, por risco de ser descoberta pela repressão. Antônio Espinosa, principal dirigente da VPR naquele momento, entulha uma C-14 com as armas e saiu perambulando por São Paulo. Dois dias e duas noites, armas pra lá e pra cá, risco de a qualquer hora ser parado.

Por falta de opção, as armas acabaram nas mãos da Ação Libertadora Nacional (ALN), cujo principal comandante era Carlos Marighella. Mais tarde, essas armas foram motivo de um sério desentendimento entre o capitão e a ALN. Marighella não queria devolvê-las. Acabou entregando somente uma parte.

Lamarca sentira-se atraído pela VPR sobretudo pelas ações espetaculares, a evidenciar, no olhar dele, disposição real para o enfrentamento armado à ditadura. Nascera da fusão de remanescentes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) e de um grupo dissidente da Polop (Organização Revolucionária Marxista – Política Operária – ORM-Polop), de origem universitária.

A ele, no esforço de atraí-lo e tirá-lo do quartel, venderam gato por lebre. Os dirigentes da organização chegaram a anunciar a existência de uma área de campo para a implantação imediata do foco guerrilheiro. Era fugir do quartel, e seguir com as armas para o campo. Isso o entusiasmara. E não era verdade. Restava num primeiro momento abrigado em um aparelho no Brás, em situação precária. As quedas prosseguiam.

Cabe logo um parêntese. Fazemos uma apreciação, Oldack Miranda e eu, em Lamarca, o Capitão da Guerrilha. O erro de fundo estava na estratégia da luta armada, envolta na perspectiva foquista e militarista, equívoco completo nas condições do Brasil. Lamarca, a VPR e tantas outras organizações não se livraram da armadilha do foquismo, própria de um tempo em que o debraysmo era uma febre, acompanhado das interpretações simplistas sobre a Revolução Cubana. Mesmo as organizações envolvidas por outras estratégias de luta armada, como as inspiradas no maoísmo, não conseguiram se livrar da armadilha foquista.

O aparelho do Brás onde foi alojado abrigava também três outros companheiros muito procurados pela repressão, uma rematada loucura. Repressão descobre dois dos militantes, fora do aparelho. Um morre, e o outro, ferido, ainda consegue avisar Lamarca para se mandar do apartamento. As precariedades iam se revelando, e o cerco repressivo, também.

A ALN o acolhe, diante da absoluta precariedade da VPR naquele fevereiro de 1969. Em março, vai para a casa da diretora teatral Heleny Guariba, no Brooklin Paulista – ela será mais tarde presa, torturada na Casa da Morte em Petrópolis – é uma das desaparecidas pela ditadura.

Em abril de 1969, participa do Congresso da VPR em Monguaguá, no litoral paulista. A contragosto, aceita a condição de dirigente da organização. Zequinha, José Campos Barreto, recusa. Já havia decidido voltar a Brotas de Macaúbas, na Bahia, para começar preparativos para o foco guerrilheiro.

Lamarca, como dirigente, logo depois do congresso, ainda em abril, conhece Iara Iavelberg, ex-militante da Polop, depois de uma dissidência, até chegar à VPR. Os dois viverão uma paixão intensa, até a morte. Com participação decisiva de Iara, acontece a aproximação do Comando de Libertação Nacional (Colina) e a VPR, e em julho de 1969, a Conferência de Fusão das duas organizações, outra vez em Monguaguá. Surge a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), Lamarca novamente eleito dirigente.

Essa fusão não era bem vista por alguns, como Dilma Rousseff e Carlos Alberto Soares de Freitas. No final de agosto de 1969, no Rio de Janeiro, Lamarca é submetido a uma cirurgia plástica para modificar o rosto, por demais conhecido da repressão.

Em setembro daquele 1969, participa ativamente do congresso de fusão da VPR e Colina, realizado em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Depois da conferência, exigia-se um congresso. Nas reuniões preparatórias do encontro, notava-se uma avaliação excessivamente otimista da VAR-Palmares.

Como se a conjuntura sorrisse para a esquerda armada. Afinal, a VAR contava com mais de trezentos militantes, centenas de simpatizantes em todo o país, e muito dinheiro para sustentar a luta, depois da desapropriação do cofre do Adhemar.

A esquerda armada cultivava o hábito de avaliações descoladas da realidade. Aqui, esquecia-se dos movimentos do inimigo. Vivia-se o pós-AI-5 e a ditadura organizava o aparato repressivo em todo o Brasil. Prendia e matava, impiedosamente.

Reconhecer: realizar aquele congresso, uma proeza. Reunir cerca de sessenta pessoas na mais absoluta clandestinidade, sob uma conjuntura de repressão intensa e realizado simultaneamente ao sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, era de fato uma façanha.

Foram intensas as discussões, e muitas as divergências, algumas quase resolvidas à bala. Lamarca, muito angustiado durante a reunião. Queria a luta armada logo, e para ele o encontro caminhava noutra direção. Lamarca saiu com seus companheiros para um canto, refundando a VPR, e o restante, a maioria, seguiu com a VAR-Palmares.

Um racha. E ele, em minoria. Registrar: Lamarca e o grupo dele eram decididamente voluntaristas, empedernidamente foquistas, doidos para ir para o campo e deflagrar a guerrilha. A VAR-Palmares caminhava no fio da navalha: tentava encontrar um meio termo entre o foquismo e a luta de massas, mas a rigor também não conseguiu se livrar do militarismo, do debraysmo.

Lamarca, então, sem paciência para aquela rotina de reuniões, aparelhos, congressos, pisa no acelerador e propõe à refundada VPR iniciar um treinamento de guerrilha de militantes no Vale do Ribeira, em São Paulo. Com a pretensão de formar quadros político-militares e, dar uma resposta à VAR-Palmares, demonstrar ser viável a luta armada.

Começa em janeiro de 1970.

Uma proeza: apesar de várias baixas, de serem obrigados a matar um tenente delator, de serem fustigados permanentemente por milhares de homens do Exército, Lamarca e mais três guerrilheiros conseguem chegar à capital paulista, na noite de 31 de maio daquele ano, sãos e salvos. O capitão respondia dessa maneira à VAR-Palmares – a luta armada era possível. Acreditava assim. Embora os resultados do treinamento não devessem necessariamente indicar expectativas de sucesso para a estratégia da luta armada.

Ao sair do Vale do Ribeira, encontra um VPR em crise profunda, acéfala. Sem condições de segurança, procura o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). Acolhido num aparelho em Interlagos, em situação muito precária, como de hábito. Vai pra outra casa, em melhores condições, com fachada de segurança melhor, na Vila Mariana.

Permaneceu ali entre julho e novembro de 1970. Pôde estar com Iara muitas vezes, viver um pouco a paixão. E fazer muitas reuniões com dirigentes da esquerda, tentando viabilizar a proposta da Frente Armada, discutindo-se simultaneamente a necessidade de um recuo estratégico.

É, um recuo. Não sei se o nome era próprio para tal movimento, mas assim era chamado: tratava-se de mandar os muitos quadros perseguidos pela repressão para o campo. Lá, deviam deflagrar a guerrilha – sempre ela, o sonho perseguido. E deveriam seguir sob o comando do capitão, cuja permanência na cidade estava quase inviável.

O cerco da repressão se fechando. Prisões se sucedendo. VPR e ALN decidem então sequestrar o embaixador alemão, Ehrefried von Holleben. Ocorreu no dia 11 de junho de 1970. No dia 15 de junho, um Boeing 707 decola levando quarenta presos políticos. A ação foi comandada por Eduardo Collen Leite, Bacuri, preso e torturado depois por cem dias seguidos, e morto. A imprensa deu Lamarca falsamente como o comandante do sequestro.

O capitão sente o cerco apertar. Chama o MRT e propõe seja levado para o Rio de Janeiro, o que acontece numa complexa e arriscada operação. Em novembro de 1970, desloca-se para um aparelho no interior do Estado, enquanto a VPR tenta juntar cacos. Lamarca preocupado. Isolamento completo da esquerda armada. VPR destroçada, reduzida a 30 militantes. Pensa: alguma coisa está errada: prisões, torturas, mortes e um saldo político igual a zero.

Nas ruas, o povo, indiferente às mortes, à repressão. O “milagre brasileiro” acontecendo, classe média satisfeita, trabalhadores explorados, porém calados. Concluía: há uma veloz desagregação e destruição da esquerda armada.

Começa a ouvir e a se aproximar do MR-8. Dali parecia vir um pensamento mais arejado, menos militarista, não obstante fosse também defensor da luta armada. Considerava, a par das reflexões sobre os caminhos da Revolução, o quanto a repressão se especializava, e não acreditava na continuidade dos sequestros como forma de luta naquela conjuntura.

A VPR, no entanto, propõe um novo sequestro, agora do embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher. Lamarca concordava com as críticas do MR-8, mas cede por disciplina. Não obstante, exige: seria o comandante da ação. Pensava assim, comandando, evitar loucuras.

Dito e feito. No decorrer das negociações para a libertação de prisioneiros políticos, depois de consumado o sequestro no dia 7 de dezembro de 1970, com a ditadura recusando nomes das listas apresentadas pelos revolucionários, a maioria decide matar o embaixador.

O capitão pensa: meus companheiros estão loucos. Era ir contra a opinião pública mundial e perder a oportunidade de libertar dezenas de prisioneiros políticos. Não reluta:

– Sou o comandante, decido eu.

– Não vamos matar o embaixador.

No dia 16 de janeiro de 1971, um avião decola com setenta presos políticos em direção ao Chile de Allende. As posições de Lamarca e do restante da VPR vão se tornando inconciliáveis. Marcado estivesse pelo debraysmo, o capitão iniciava um movimento sutil de recusa da exacerbação do militarismo, tão claramente manifestada naquele sequestro. Houve movimentos no sentido de saída dele para o exterior, prontamente recusada. Iara o acompanhava na decisão, apesar de convicta do destino dos dois: seriam mortos pela ditadura. Em março de 1971, Lamarca sai da VPR.

Ingressa no MR-8. Com ele, segue apenas Iara. Acreditava em unir o trabalho de massas no campo com a perspectiva da deflagração da guerrilha rural, como a nova organização defendia. O MR-8, no entanto, também acossado pela repressão. Cai um dos principais dirigentes, Stuart Angel, em maio de 1971. Repressão acreditava: por ele, chegaria a Lamarca. Stuart morreu, e nada disse. Tornou-se um dos crimes mais rumorosos da ditadura, devido sobretudo à luta iniciada pela mãe dele, a estilista Zuzu Angel, morta mais tarde num suspeito acidente de automóvel.

Cercados – assim se encontravam Iara e Lamarca no Rio de Janeiro. No dia 27 de junho de 1971, partem em direção à Bahia. Não foram os dois para Brotas de Macaúbas, onde José Campos Barreto organizava os trabalhos junto aos camponeses. Iara seguiu para Salvador, sem saber o destino de Lamarca.

O capitão teve momentos de desconcentração no sertão. Pôde desfrutar da acolhida tão afetuosa da família de Zequinha. Ouvir o canto dos pássaros. Sentir o cheiro do mato, o aroma da caatinga. Conhecer um pouco daquela terra onde mataram Corisco e feriram Dadá. Via futuro ali para o trabalho de massas e para a deflagração da guerrilha.

Menos de três meses depois, no dia 17 de setembro, ele e Zequinha serão assassinados pelo major Nilton Cerqueira e pelo cabo Dalmar Caribé, ambos do Exército. Antes repressão já havia matado Nilda Cunha e a mãe dela Esmeraldina Cunha, em Salvador. No cerco à casa dos familiares de Zequinha, mataram Otoniel, balearam Olderico, irmãos dele, e mataram também o professor Luís Antônio Santa Bárbara. Um banho de sangue. Lamarca, quem sabe felizmente, não soube do assassinato de Iara no dia 20 de agosto.

Quanto heroísmo. Quantos tropeços. Quantos erros.

Um brasileiro, cheio de amor por sua terra, por sua pátria, seu Brasil. 50 anos depois, lembrado com reverência, ele e Iara. Amaram o Brasil, deram a vida pelo povo.

Os algozes, recordados como tais: torturadores, assassinos covardes, promotores de um tempo de terror e dor.

Pudesse, e Lamarca evocaria Brecht, carinhosamente, no memorável poema “Aos que vierem depois de nós”, depois de ouvir as críticas, justas fossem ou sejam:

Assim passou o tempo que me foi concedido na terra. Vós, que surgireis da maré em que perecemos, lembrai-vos também quando falardes das nossas fraquezas, lembrai-vos dos tempos sombrios de que pudestes escapar. Íamos, com efeito, mudando mais frequentemente de país do que de sapatos, através das lutas de classes, desesperados, quando havia só injustiça e nenhuma indignação. E, contudo, sabemos que também o ódio contra a baixeza endurece a voz. Ah, os que quisemos preparar terreno para a bondade não pudemos ser bons. Vós, porém, quando chegar o momento em que o homem seja bom para o homem, lembrai-vos de nós com indulgência.

Lamarca, presente!