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terça-feira, 31 de março de 2026

ABAIXO O GOLPISMO HOJE E SEMPRE * Frente Revolucionária dos Trabalhadores / FRT

ABAIXO O GOLPISMO HOJE E SEMPRE
"COMEÇA O GOLPE MILITAR
(Ernesto Germano Parés)
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No início da década de 1950, a UDN, coligação de extrema direita e envolvida com grandes empresários nacionais e internacionais, temia a vitória de Getúlio em sua volta ao governo. Na época vivíamos a disputa entre dois projetos: um desenvolvimento nacionalista, com fortalecimento da economia interna e do poder de compra dos trabalhadores, ou uma economia voltada para a associação com os grandes capitais internacionais.
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Carlos Lacerda, dono do jornal Tribuna da Imprensa (uma espécie de Globo da época) era o grande representante dessa direita e, em seu jornal, ele conclamou os militares a não permitirem que Getúlio Vargas concorresse ou tomasse posse: “O Sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.
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Mas Vargas foi eleito e tomou posse. No dia 24 de agosto de 1954, sabendo da sanha dos golpistas, Getúlio Vargas comete o suicídio. A reação popular foi imediata. No dia seguinte, 25 de agosto, o povo incendiou a gráfica de O Globo e invadiu a Folha de São Paulo. Caminhões que sairiam para distribuir os jornais foram virados e incendiados. Carlos Lacerda, o covarde de sempre, fugiu do país com medo de ser pego pelos trabalhadores. O “golpe” foi adiado para nova data.
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Depois de uma conturbada fase, o Brasil volta à normalidade e Juscelino Kubitschek é eleito, tomando posse em janeiro de 1956. Menos de dois meses depois da sua chegada à presidência, na noite de 10 de fevereiro de 1956, oficiais da Aeronáutica (sempre um foco da ultradireita no país), liderados pelo major Haroldo Veloso e pelo capitão José Chaves Lameirão, partiram do Campo dos Afonsos (RJ) para instalar um golpe contra o governo na base aérea de Jacareacanga, no sul do Pará. A “rebelião” foi sufocada 19 dias depois e todos os “revoltosos” receberam “anistia ampla e irrestrita do governo”.
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No dia 2 de dezembro de 1959 vamos viver a nova tentativa de golpe dessa mesma direita. A Revolta de Aragarças teve início no dia 2 de dezembro de 1959, mas já vinha sendo articulada desde 1957. Curiosamente, teve a participação do líder da revolta de Jacareacanga, Haroldo Veloso, e contou com a participação de muitos outros militares, entre eles o tenente-coronel João Paulo Moreira Burnier, que foi o seu principal líder e depois foi figura de destaque no golpe de 1964.
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Ainda para conversar sobre a “preparação” do golpe, vamos lembrar outro fato, esse ocorrido em fevereiro de 1954, quando oficiais das Forças Armadas divulgam um documento que ficou conhecido como o “Manifesto dos Coronéis” e se colocavam contrários ao aumento de 100% no salário mínimo que foi proposto por João Goulart (na época ministro do Trabalho). Acreditem ou não, o tal documento estava assinado por muitos dos que, 10 anos mais tarde, foram os protagonistas do golpe: Siseno Sarmento, Jurandir Bizarria Mamede, Antonio Carlos Murici, Amaury Kruel, Sylvio Coelho Frota, Ednardo Dávila Melo e Golbery do Couto e Silva.
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Para o movimento dos trabalhadores, um marco foi o Congresso Sindical ocorrido em dezembro de 1961 quando os sindicalistas mais afinados com a esquerda, muitos membros do PCB, e com as propostas nacionalistas conseguem desbancar a velha direção da CNTI (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria). Na época, a CNTI controlava nada menos do que 4 milhões de trabalhadores!
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No dia 07 de outubro de 1963, os trabalhadores da USIMINAS (que ainda era uma empresa multinacional) param reivindicando aumento salarial, melhores condições de alojamentos e mudanças no quadro de vigilância interna da empresa. Dos 30.000 trabalhadores ligados às atividades da siderúrgica apenas 6.000 eram registrados, os demais eram vinculados a empreiteiras (falaremos mais sobre isso na data – “O massacre de Ipatinga”).
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No dia 13 de março de 1964 João Goulart convoca o Comício da Central do Brasil. No palanque, diante de milhares de trabalhadores e populares, estavam Miguel Arraes, Leonel Brizola e muitos líderes da CGT. Naquele dia ele anunciou a nacionalização das refinarias privadas de petróleo e a desapropriação de uma faixa de terra de 10 quilômetros à beira das estradas de ferro ou de rodagem (também dos açudes) para a Reforma Agrária. Já falamos sobre um dos reflexos desse discurso quando tratamos da “Marcha da Família”!
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Dias depois do discurso na Central acontece o que pode ter sido “a gota d’água” para os militares que ainda se mantinham legalistas. No Rio de Janeiro, dia 25 de março, cerca de 2 mil marinheiros se reúnem na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro para comemorar o segundo aniversário da fundação da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil. O ato contou com a presença de sindicalistas, líderes estudantis, de Leonel Brizola e do marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata de 1910. Só para registrar, a Marinha considerava a entidade ilegal.
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O ministro Silvio Mota enviou um contingente de fuzileiros navais do Batalhão da Ilha das Cobras para “acabar com a indisciplina e prender a marujada”. Mas teve uma grande surpresa: os fuzileiros arriaram os seus fuzis e se aliaram aos marinheiros no interior do prédio. Contei essa história recentemente (27/03). O movimento só foi vencido quando o Exército cercou o prédio com tanques de guerra e tropas do Batalhão de Guardas.
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O governo do EUA havia inaugurado, com a eleição de John F. Kennedy (1961), uma nova estratégia de combate ao socialismo. Novas verbas governamentais são liberadas para renovação do arsenal nuclear e a política internacional é de conceder maior participação aos países aliados nas decisões estadunidenses. Por outro lado, autoriza uma intervenção direta contra o recém-criado governo socialista de Cuba ao sustentar uma tentativa de invasão na Baía dos Porcos por alguns exilados cubanos apoiados por soldados mercenários contratados pela CIA, em abril de 1961. Depois de derrotado, quando milícias populares cubanas “botaram para correr” os bem treinados marines, Kennedy declara o embargo comercial à Cuba com um bloqueio naval. Em janeiro de 1962, convence a Assembleia da OEA a expulsar Cuba de seu quadro.
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Entre os políticos brasileiros esta proposta tinha como defensores o prof. Eugênio Gudin, o economista Roberto Campos, o jornalista Júlio de Mesquita e muitos políticos abrigados na UDN. Entre os militares, uma jovem oficialidade criada no período posterior a II Guerra e que se formara dentro de uma nova mentalidade nas Forças Armadas.
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Já em 1963, as atitudes do Governo dos EUA haviam mudado. Nenhum novo acordo econômico era assinado com o governo Goulart, enquanto vários negócios e empréstimos eram realizados diretamente com governadores estaduais que atendessem aos projetos de Aliança Para o Progresso. Estados como a Guanabara e o Rio Grande do Norte, governados pela UDN, recebiam amplo apoio financeiro para realização de programas de desenvolvimento.
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Por alguns documentos e depoimentos posteriores vamos entender que os “golpistas” esperavam que João Goulart fosse deposto pelos militares no dia 1º de maio, mas algo não saiu de acordo com os planos e, na noite do dia 30 de março, madrugada do dia 31, o general Olympio Mourão Filho colocou em movimento soldados da IV Região Militar, com sede em Juiz de Fora.
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Mourão Filho, que havia sido importante personagem no movimento integralista (fascista) da década de 1930 e um dos organizadores do famoso Plano Cohen (já falamos sobre isso) resolve antecipar o movimento.
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O fato é que no dia 1º de abril de 1964 o Rio de Janeiro, centro das atenções políticas, amanhece com o centro da cidade tomado por tropas. Tanques de guerra cercavam o prédio do antigo Ministério da Guerra e soldados fechavam todas as vias públicas para que não ocorressem protestos. A sede a União Nacional dos Estudantes, na Praia de Botafogo, foi incendiada na madrugada por grupos de direita.
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Nelson Werneck Sodré, historiador e ex-militar, escreve: “... ao contrário do que, honesta e sinceramente, acreditaram muitos do que dele participaram, ativa ou passivamente, correspondeu para as Forças Armadas não ao restabelecimento da disciplina e da hierarquia, mas, ao contrário, ao agravamento de sua subversão”. (Em História Militar do Brasil – Editora Expressão Popular, 1965)
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Como dissemos, Olympio Mourão Filho tinha sido integralista. Em sua biografia vamos ver que, muito menos motivado pela doutrina fascista e mais pelo sentimento contra o comunismo que nutria. Ele via o “comunismo” em toda parte, inclusive “infiltrado no Exército”.
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Um mês depois do golpe de 1964, entrevistado por um jornal, Mourão Filho sai com uma frase que o marca até hoje: “Em matéria de política, não entendo nada. Sou uma vaca fardada”.
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Nota: tenho um longo texto sobre o golpe militar de 1964, mas estou revisando porque, desde a década de 1990, quando o escrevi, tive novas e importantes informações.
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GOLPE MILITAR NUNCA MAIS!
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DITADURA NUNCA MAIS!
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CHEGA DE VACAS FARDADAS!
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VIVA A DEMOCRACIA!
O GOLPE MILITAR DE ABRIL

O golpe militar de 1964 leva a marca do primeiro de abril.

Foi nesta data, primeiro de abril de 1964, que os generais e coronéis deram uma punhalada pelas costas no Presidente João Goulart.
Os golpistas mudaram a data para 31 de março, pois o primeiro de abril é o dia da mentira, na tradição popular.
Os golpistas só se envergonhavam da data!
E apelidaram o golpe de revolução de 31 de março, a redentora, uma patacoada!
O comandante-em-chefe do golpe foi o embaixador dos EUA, Lincoln Gordon.
Esse embaixador Lincoln Gordon vivia dando entrevistas acusando o Presidente
João Goulart de estar levando o Brasil para o comunismo.
Uma gravíssima acusação à época, pois estávamos em plena Guerra Fria!
Gordon dividiu a conspiração em duas frentes.
A frente interna dirigida, pelo general Golbery do Couto e Silva e a externa, comandada pelo adido militar da embaixada ianque, coronel Vernon Walters.
O coronel Walters dominava o português sem qualquer sotaque.
E era amigo e companheiro de conspiração de diversos generais brasileiros. Entre eles Castelo Branco, com quem traçou a arquitetura do golpe no Brasil, a quatro mãos.
No fim da tarde de primeiro de abril, com o golpe consumado, os golpistas gritaram vitória!
Uma vitória, sem derramamento de sangue, fora conseguida, propalavam.
E até parecia.
Uma parte da esquerda pretendia conciliar e conviver pacificamente com o governo golpista.
Mas, por outro lado, havia muita indignação e o propósito de resistir ao regime militar!
A resistência começou com atos de protestos pacíficos, músicas de protesto e atos públicos com grande participação popular.
O protesto pelo assassinato do Estudante Edson Luiz e a marcha dos 100 mil foram grandes movimentos de massa contra o regime!
Na tentativa de reprimir os protestos, o governo golpista apelou para a legislação de exceção, com o Ato Institucional.
Este ato foi o primeiro e não levou número. Não existe o Ato Institucional de número 1.
Por força do Ato Institucional, dezenas de milhares de brasileiros perderam os seus empregos e cargos, e a instabilidade se fez presente. Uma tragédia!
Os intelectuais eram o alvo predileto!
Livro é coisa de comunista! Berrou a ditadura.
Editoras, livraria, e escritores passara a ser vigiados.
Professores, e estudantes, eram enquadrados em crime político!
Quem não fosse a favor da ditadura militar, era considerado inimigo, até prova em contrário.
Expulsos dos seus empregos e perseguidos pela repressão política, muitas famílias ficaram à beira do desespero!
Castelo Branco foi posto na presidência da república, por obra do embaixador Lincoln Gordon e do adido militar da embaixada coronel Vernon Walters.
E o Brasil passou ser, de fato, colônia Brazil com “Z” sem necessidade de um pacto colonial, que existira durante o mandato colonial português.
A chamada grande imprensa, todos os jornalões e redes de TVs, sem exceção, apoiaram o golpe e a ditadura militar.
E a revolta contra o regime militar não se fez esperar!
No dia 9 de maio, após uma intensa perseguição, o ex-deputado Carlos Marighella foi localizado no Cine Eski na Tijuca.
As luzes do cinema acenderam-se, e um tira do DOPS, apontando uma arma para Marighella, deu voz de prisão!
Em troca tomou um chute no revólver e a arma disparou, ferindo Marighella no peito!
Coberto de sangue Marighella enfrentou os policias na porrada!
Ali começou, de fato, a resistência à ditadura militar.
No vai e vem da ditadura, brigalhada e roubalheira, entre os que se julgavam mais revolucionários do que outros.
Resolveram trocar de ditadores: Costa e Silva substituiu Castelo Branco.
Sentindo que, com as medidas repressivas tomadas até então, não conseguiam domar a população, em 13 de dezembro de 1968 a ditadura editou o AI-5, Ato Institucional número cinco.
E a sociedade brasileira se transformou num inferno, nos porões escuros e profundos das câmaras de torturas, dos DOI-CODISs e Casas da morte!
Desta última instituição infernal, veio a público a casa da morte de Petrópolis, que não foi a única!
Conta-se cerca de meia dúzia!
O golpe sem sangue veio a se transformar na mais terrível das ditaduras que já conhecemos!
Esta é uma tentativa de se fazer um retrato sem retoque do golpe militar de 1964.

E P Calcante
Capitão de mar e guerra ref. do Corpo de Fuzileiros Navais.
Pesquisador da história militar.
Companheiras e companheiros se acharem este texto importante repassem a todos os seus contatos.
Rio de Janeiro,1de abril (primeiro de abril) de 2026
A LUTA CONTINUA, POIS É A NOSSA ÚNICA
RAZÃO DE VIVER!
GLÓRIA ETERNA A TODAS AS COMPANHEIRAS E
COMPANHEIROS QUE “CAIRAM” NA LUTA CONTRA
A DITADURA MILITAR!!"
COMO FOI O GOLPE DE 1964

domingo, 10 de março de 2024

NÃO A POLITICA COVARDE DO APAGAMENTO * RONDÓ DA LIBERDADE/TELEGRAM

NÃO A POLITICA COVARDE DO APAGAMENTO

Lula determina cancelamento de atos em memória aos 60 anos do golpe militar - https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2024/03/6815977-lula-determina-cancelamento-de-atos-em-memoria-aos-60-anos-do-golpe-militar.html
Como dizer bom dia, depois dessa notícia
Não tem explicação.
Todo meu respeito e sentimentos aos guerrilheiros, camaradas, mártires da luta contra a ditadura militar, muitos que conheci amigos e familiares
Toda meu respeito a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos. Rafiqa

No dia de ontem(09/03) recebemos a notícia de que o Governo Federal CANCELOU todas as atividades que retomaram a política de verdade, memória e justiça quanto ao Golpe de 1964. 

Diversas iniciativas do Ministério da Justiça e do Ministério dos Direitos Humanos estariam sendo impedidas de serem realizadas. Em entrevista recente a Kennedy Alencar, o Presidente Lula afirmou não "querer remoer o passado" em alusão a ditadura militar. 

Em um momento de grande exposição do alto escalão das Forças Armadas, onde a sociedade brasileira foi mais um vez assombrada pelos graves intentos golpistas de 8 Janeiro de 2023, o governo Lula adotou a política mais covarde possível.

 Como falar da situação da Palestina se no Brasil faz isso? Como punir os crimes do neof#scismo se o Governo atua de forma tão recuada? Trata-se de um erro histórico, que cobrará uma fatura amarga e cara. 

É urgente a pressão de todas as organizações de esquerda para que o Governo Federal mantenha o cronograma de ações contrárias ao Golpe de 1964, além de denunciar o ensaio da anistia aos crimes atuais do golpismo. Jamais esqueceremos!

CLEMENTE - ALN

 Jamais perdoarmos! Ditadura nunca mais! SEM ANISTIA!
RONDÓ DA LIBERDADE/TELEGRAM
Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

segunda-feira, 3 de abril de 2023

UM AGENTE DA CIA NO CORAÇÃO DO GOLPE DE 1964 * Emiliano José / SP

UM AGENTE DA CIA NO CORAÇÃO DO GOLPE DE 1964
"ARMA" ou Vernon Walters comCastelo Branco após o golpe de 1964

Cartazes visavam a atingir o sentimento profundamente religioso do povo e mostrar o perigo iminente da tomada do poder pelos comunistas. Se hoje isso funciona, imagine na Guerra Fria

Os generais, no governo Goulart, tinham pressa. E uma certeza: se não tomassem a iniciativa, o presidente e seu cunhado, Leonel Brizola, dariam um golpe. Não importava que fosse uma fantasia, acreditavam nisso. Para eles, a situação chegara a uma etapa essencialmente militar. Uma voz determinada, segura, no entanto, advertiu-os, quase ordenou, “tenham calma”:

– Ainda falta muito por fazer. Falta organizar detalhes, garantir posições na opinião pública, trabalhar as reações do povo.

– É necessário inculcar no povo a ideia de que irá perder tudo o que acumulou na vida: a propriedade privada, a guarda e a educação dos filhos, a crença em Jesus Cristo e em Deus, a liberdade de pensar e agir. Tudo, tudo! Até os liquidificadores e automóveis que, a partir de 1959-1960, começam a incorporar-se ao patrimônio doméstico dos brasileiros.

Os generais o ouviam.

Definiu a estratégia da caminhada em direção ao golpe:

– Deve-se criar a sensação de medo. Há que se criar o medo!

O medo deveria passar a ser um protagonista essencial. Estabelecida a sensação de medo, o resto vem por si próprio. Na Itália, adido militar antes de chegar ao Brasil, incutiu o medo nos militares italianos – medo ao comunismo. O medo faz parte de qualquer estratégia de dominação militar. Com ele, se ganha a guerra antes de a batalha começar. Isso era repetido por Arma a cada minuto.

Nosso personagem, um americano, era conhecido assim, Arma. Nada mais apropriado, vamos ver. A vinda de Arma para o Brasil foi definida na famosa reunião de 30 de julho de 1962, no Salão Oval da Casa Branca entre o presidente John Kennedy, o subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, Richard Goodwin, o assessor presidencial de Segurança Nacional, McGeorge Bundy, e o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon. Flávio Tavares relata detalhadamente a reunião no livro 1964: o golpe no capítulo “Washington no Jogo”.

Um encontro histórico. Decide-se ali a deposição de Goulart. Durou quase duas horas, apenas isso: das 10h55 às 12h55. Quem quiser conferir, procure o livro. Da reunião, extraio apenas o momento em que se decide pela vinda de Arma ao Brasil como adido militar, homem talhado para a preparação do golpe, ao lado do embaixador Lincoln Gordon.

Amigo dos generais brasileiros, convivera com vários deles na Itália, na Segunda Guerra Mundial. Oficial de ligação entre a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e o V Exército dos EUA entre 1943 e 1945. Intérprete de Eisenhower quando da visita do então presidente americano ao Brasil, em 1960. Antes, assistente do adido militar na Embaixada dos EUA, no Rio de Janeiro, de 1945 a 1948. Falava português fluentemente.

Convidado, largou o cargo de adido em Roma e tomou o rumo do Brasil. Quer coisa melhor do que preparar um golpe em favor de seu país? O leitor talvez já esteja incomodado. Resolva-se o incômodo. Arma é Vernon Walters, coronel quando chega ao Brasil, com imenso prestígio na entourage do poder nos EUA. Ficou conhecido assim desde outubro de 1962, quando chega ao Brasil.

O próprio embaixador Lincoln Gordon o chamava assim nos relatórios enviados diariamente a Washington – uma simplificação de Army Attache, adido militar. Não usasse uniforme, não usasse paletó e gravata quando em trajes civis, o homenzarrão de quase dois metros passaria por um camponês das regiões alemãs de Santa Catarina ou do Rio Grande do Sul – assim o define Flávio Tavares.

Releituras recentes em torno do golpe de 1964 me despertaram o interesse sobre ele. Figura central do golpe, uma das mais importantes. Peça chave da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) em toda a operação golpista de 1964. Merece ser lembrado para evidenciar como nada aconteceu por acaso e para evidenciar como os EUA têm agentes preparados para derrubar governos quando não estejam de acordo com seus interesses.

Arma ficou impressionado quando desembarcou no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, em meados de outubro de 1962. Era coronel, então. Não esperava, não mesmo, ser recebido por treze generais brasileiros, saudado por palmas entusiasmadas. Não precisava tanto. Viera às pressas, nem desocupara direito o apartamento em Roma, deixando a tarefa a cargo da mãe, com quem morava. Atordoado e feliz. Em casa.

Conhecia das armas, mas fazia questão de utilizar a inteligência. A astúcia abate mais inimigos do que um canhão – tinha consciência disso, Flávio Tavares anota. Luiz Alberto Moniz Bandeira, no seu O Governo Goulart: As lutas sociais no Brasil, 1961-1964, fala de um encontro com ele, quando ele ocupava o cargo de embaixador em Bonn. Pesquisava a reunificação da Alemanha e como ele previra em maio de 1989 a derrubada do Muro de Berlim, precisava ouvi-lo. Chegou com a ideia de indagar também sobre o golpe de 1964, mas desistiu logo no início da conversa, iniciada por ele de modo bem-humorado:

– Depois que vim para a Alemanha, o Muro de Berlim foi derrubado. Agora vão dizer que sou o responsável. Pois é, eu fui acusado de ser artesão da derrubada do rei Farouk, no Egito, do presidente Arturo Frondizi, na Argentina, do presidente João Goulart, no Brasil, e do presidente Charles de Gaulle, na França. Mas ninguém até agora provou nada contra mim.

De alguma forma, ele se desnudava, brincando.

Moniz Bandeira reagiu também com bom humor:

– Sim, embaixador, o senhor é um homem de inteligência e sabe que conspiração dificilmente se faz com documentos.

Entre tantas atribuições ao longo da vida, Arma foi agente da Defense Intelligence Agency (DIA) e vice-diretor da CIA. Nunca admitiu ter participação direta no golpe de 1964. Não negava, no entanto, ter sido bem informado sobre os planos para a derrubada de Goulart. Um disfarce quase ingênuo, acolhido apenas por quem não o conhecesse.

Como vimos, insistiu na consolidação da atmosfera do medo, para ele um aliado fundamental para a criação do clima favorável ao golpe. O medo pouco a pouco, desde a chegada dele, no final de 1962, começou também a chegar às unidades militares, apavoradas com a possibilidade do comunismo, como queria Arma, e ele agia para isso.

Mantinha reuniões diárias de articulação do golpe com o general Castello Branco, com quem fizera amizade na Itália. A intimidade com Castello Branco permitiu pudesse assistir pela televisão o comício da Central do Brasil, no dia 13 de março, no apartamento do general, em Ipanema. Como sabemos, o golpe ocorreria dali a menos de 20 dias.

Propagar o medo e armar-se – era a orientação de Arma.

Os golpistas armaram fazendeiros, treinaram pessoas por todo o país, formaram milícias, temiam uma reação armada da oposição. Admitiam até uma secessão por algum tempo, liderada por Minas Gerais. A reação armada da esquerda não ocorreu, como se sabe. A direita estava preparada. Para uma luta demorada, que armada fosse. A esquerda, não.

O Serviço Federal de Informações e Contra-Informações (SFICI), órgão do Conselho de Segurança Nacional, informou ao presidente Goulart sobre a atividade de Arma como coordenador das operações da CIA no Brasil, envolvido diretamente no contrabando de armas para a contrarrevolução.

O SFICI, para ser justo, municiou Goulart de muitas informações sobre as movimentações golpistas, mas o presidente dizia não querer fomentar a “indústria do medo”, em pleno desenvolvimento, e nem provocar pânico, já semi-instalado, de modo especial nas camadas médias. Lincoln Gordon era a face pública da articulação golpista. Arma, o operador. Aliado na formulação ideológica, e figura central na articulação militar, com amplos poderes para tanto.

Mantinha um olho no padre, outro na missa. Não desgrudava de Castello Branco, principal articulador do golpe. Com ele, discutia cada passo a ser dado, embora, como homem de inteligência, jamais tenha admitido isso. Não descuidava, no entanto, dos generais considerados de esquerda do chamado dispositivo de Goulart. Até com o general Euriclydes Zerbini conversou, declaradamente de esquerda. Um agente da CIA de extrema qualificação. Abrir o jogo, jamais.

No final de 1963, o golpe assumia contornos de urgência para os EUA, e Arma apertava o passo. Goulart parecia disposto a levar à frente suas reformas de base, medidas de natureza democrática, como a reforma agrária. Aos EUA, no entanto, pareciam coisa de comunista. Além disso, Kennedy havia sido assassinado em novembro daquele ano. Lyndon Johnson assume, e os radicais da Guerra Fria ganham ainda mais espaço. Os falcões passam a nadar de braçada. Arma, mais à vontade. Tudo ficou mais fácil, como ele admite.

O início de janeiro de 1964 não era promissor para o presidente Goulart. Ele, de um lado, sentia o movimento golpista se acelerar. De outro, pretendia ousar, apressar as reformas de base. É alertado no dia 1º de janeiro de 1964: era necessário fazer um pronunciamento favorável à Aliança para o Progresso de modo a evitar a declaração de bancarrota do Brasil, medida prestes a ser tomada pelos EUA, como lhe dizia San Tiago Dantas. Goulart reagiu desanimado:

– Já não adianta mais, professor. Não acredito que nenhuma frase minha detenha a conspirata que os EUA patrocinam.

Lançou mão de uma pasta, abriu-a, mostrou alguns informes do serviço secreto. Contou que o general Ray E. Bell chegara ao Brasil numa fortaleza voadora, e fora recebido pelo brigadeiro Eduardo Gomes, um dos mais notórios golpistas:

– Esse general esteve com o general Castello Branco e até mesmo o meu ministro da Guerra o visitou.

Goulart perdera qualquer ilusão de compromissos com os EUA e resolvera chamar o povo à luta, talvez tardiamente, talvez numa correlação de forças já favorável aos golpistas. Havia advertido a trabalhadores reunidos em Itaguaí, no Rio de Janeiro: a caminhada não seria macia, a estrada seria árdua, haveria sacrifícios. Mais talvez do que ele imaginava. Ele, se caísse, cairia de pé, na batalha pelas reformas de base.

Arma aumentava o ritmo no início de 1964. Reunia-se com os generais Golbery do Couto e Silva, Ayrton Salgueiro de Freitas, Hugo Bethlem, Cordeiro de Farias, Juraci Magalhães, Nelson de Melo, e com o brigadeiro Eduardo Gomes. Viajava frequentemente a Belo Horizonte, epicentro do golpe, e reunia-se com o governador Magalhães Pinto e com o general Carlos Luís Guedes, comandante da 4ª Divisão de Infantaria, homem de confiança do marechal Odylio Denys. Tudo era do conhecimento de Goulart. Relatórios constantes do seu serviço de informações, o SFCI, o subsidiavam. A contrarrevolução avançava, inexoravelmente, Arma à frente. Chegou a oferecer armas ao general Carlos Luís Guedes, e a instigá-lo para não perder mais tempo:

– Eles estão partindo o presunto em fatias tão finas que se torna imperceptível a sua ação. Quando os senhores se derem conta, o terão comido todo.

Como diz Moniz Bandeira, quem cortava o presunto em fatias finíssimas era Arma, era a CIA. Por meio de manobras sutis, assinou-se no final de janeiro de 1964 o acordo de renovação do Acordo Militar de 1952 com os EUA. Washington tinha em mãos agora um instrumento legal para a intervenção armada no Brasil na hipótese de resistência ao golpe de Estado em andamento. Tudo de acordo com o figurino.

A CIA, sob a direção de Arma, combinava modalidades de covert action [ação oculta] com spoiling action [ação de desgaste], e desenvolvia a atmosfera do medo, fazia a crise recrudescer, induzindo o país à radicalização, criando as condições para a intervenção das Forças Armadas. Nas passeatas, como previsto por Arma, os cartazes não se dirigiam contra o presidente, nem contra as reformas de base. Todos, como dirá mais tarde o próprio Goulart, “visavam a atingir o sentimento profundamente religioso do povo e mostrar o perigo iminente da tomada do poder pelos comunistas”. Se hoje isso funciona, imagine em tempos de Guerra Fria.

A CIA ditava a cadência da campanha para a derrubada de Goulart. Manejava os cordéis, mas o fazia discretamente, não queria de modo nenhum aparecer na linha de frente, Washington não pretendia isso. A CIA e Washington tinham ainda ao seu lado, de modo incondicional, a imprensa, cuja esmagadora maioria era conservadora, de direita, capaz de constituir uma rede favorável ao golpe, como registra Aloysio Castelo de Carvalho em seu livro A Rede da Democracia – O Globo, O Jornal, Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-1964), entre tantas outras publicações.

No dia 19 de março de 1964, seis dias após o comício da Central do Brasil, acontece uma passeata em São Paulo, a chamada Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Para os golpistas, ela excedeu as mais otimistas previsões. Na hipótese pessimista, 300 mil pessoas. Na otimista, 500 mil. A embaixada americana exultou, ao informar o Departamento de Estado. Manifestação de classe média e dos mais ricos, dos poderosos. Golpe nas ruas.

Ainda assim, os golpistas, Castello Branco, à frente, precisavam de um pretexto para adiantar o passo. Veio com uma iniciativa da CIA. O cabo Anselmo, desde lá identificado como um agente da agência norte-americana, e provavelmente articulado com Arma, liderou na Semana Santa, uma rebelião de marinheiros, e deu aos golpistas a certeza de que era a hora.

Castello Branco e Arma preparavam o golpe nos detalhes, e imaginaram tudo ser iniciado entre 2 e 3 de abril. Mas Minas Gerais se antecipou. Seria dia 30. Arma foi informado dessa antecipação. O governador Magalhães Pinto mandou requisitar todo o estoque de gasolina. Afonso Arinos de Melo Franco, nomeado chanceler, e encarregado de negociar o estado de beligerância de Minas Gerais para justificar a ajuda dos EUA, com o fornecimento de petróleo e material bélico, conforme acertado entre o general Carlos Luiz Guedes e Arma. O cônsul norte-americano em Belo Horizonte, Herbert Okun, esteve com o governador Magalhães Pinto para reiterar-lhe o apoio dos EUA – ofereceu-lhe ouro, incenso e mirra: dinheiro, armas, munições e alimentos.

O general Olympio Mourão Filho partiu com a tropa para o Rio de Janeiro no dia 31 de março – golpe em marcha. O governo de Washington acionou a Operação Brother Sam, uma impressionante força-tarefa destinada a intervir a favor do golpe, se necessário. O golpe aconteceu, sem reações significativas, prisões por todo o país e mais de 20 anos de arbítrio e terror.

Luiz Alberto Moniz Bandeira manifesta sua opinião:

– E o general Humberto Castello Branco, o amigo de Vernon Walters, emergiu da sombra como candidato do governo invisível, a CIA, à Presidência da República, levando ao poder a UDN e os oficiais da Cruzada Democrática, cujos desígnios ditatoriais o suicídio de Vargas, ao acender a fúria popular em 1954, retardou por dez anos.

Os EUA jamais estiveram alheios à América Latina desde que se tornaram um Império. Não há golpes no continente sem as mãos deles. Ontem como hoje, agem na defesa de seus interesses, de um jeito ou de outro, e a CIA, sempre fundamental. Na história de Arma, há hoje documentos a granel. Para os acontecimentos atuais, afora as evidências gritantes, ainda é preciso aguardar algum tempo, quando os arquivos forem legalmente abertos.

Arma só foi promovido a general depois do golpe de 1964. Nasceu em 1917. Morreu em 2002.

Referências

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. O Governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil, 1961-1964. Rio de Janeiro: Revan; Brasília, DF: EdUNB, 2001.

CARVALHO, Aloysio Castelo de Carvalho. A Rede da Democracia: O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-64). Niterói: Editora da UFF, Editora NitPress, 2010.

TAVARES, Flávio. 1964: o golpe. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014.

Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros mais recentes da coluna opinião...

quarta-feira, 29 de março de 2023

GOLPE DE 1964 COMPLETA 59 ANOS * Frei Betto-SP

GOLPE DE 1964 COMPLETA 59 ANOS

 

-Passeata dos cem mil junho 1968-

Frei Betto

      Na sexta, 31 de março de 2023, o golpe que implantou 21 anos de ditadura militar no Brasil completa 59 anos. Na verdade, ocorreu a 1º de abril. Mas como nesta data se celebra o Dia da Mentira, os militares recuaram a comemoração para 31 de março. 


      A onda bolsonarista suscitou mobilizações favoráveis à volta da ditadura. A maioria dos que se opõem à democracia não têm ideia do que é um regime ditatorial: a censura que escondia da opinião pública as atrocidades praticadas nos porões do sistema repressivo; os reais índices econômicos do país; a corrupção que imperava nos sucessivos governos militares; as obras de arte proibidas; os assassinatos dos que lutavam por democracia.

      Fui preso duas vezes pela ditadura. A primeira, em junho de 1964, pelo “crime” de ser dirigente nacional da Juventude Estudantil Católica. Arrastado ao quartel da Marinha, no Rio, torturaram-me com socos e pontapés. Queriam que eu confessasse ser o Betinho (o mesmo que, mais tarde, liderou a luta contra a fome no Brasil ao criar a Ação da Cidadania), dirigente da Ação Popular, organização de esquerda de origem cristã. Ao se convencerem de que eu não era quem procuravam, queriam que eu denunciasse o paradeiro dele, ignorado por mim. Fiquei 15 dias detido, entre prisão da Ilha das Cobras e domiciliar. Não houve processo. 


      A segunda, que durou quatro anos, em 1969, por dar fuga a perseguidos políticos, atitude sacramentada pela Bíblia. Fiquei dois anos entre presos políticos e mais dois junto  a presos comuns. O STF reduziu minha pena de quatro para dois anos no mês em que eu completava os quatro... Isso se chama: ditadura! Como restituir minha vida nos dois anos que fiquei privado de liberdade? 


      Como disse Churchill, “ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Dizem que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.” 


Correu muito sangue para resgatar a democracia brasileira após 21 de regime militar. Quem tem interesse em se informar, sugiro meus livros “Cartas da prisão” (Companhia das Letras), “Batismo de sangue” e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (ambos da Rocco). 


      A TV Brasil, canal 2, exibirá, na quinta, 30/3, às 22h, o filme “Batismo de sangue”, dirigido por Helvécio Ratton. Acompanhe toda a programação de filmes da “Semana Ditadura e Democracia” na TV Brasil, de 27/3 a 31/3, sempre às 22h.

      Hoje, nossa frágil democracia é ameaçada pelos terroristas que, fanatizados pelo bolsonarismo, querem impor a lei da força sobre a força da lei. E pelos militares e civis que ainda insistem em negar que houve golpe em 1964 e adotam os eufemismos “revolução” e “movimento”. E, sobretudo, acreditam em fantasmas, pois até na farda do Corpo de Bombeiros enxergam comunismo...


      O governo Lula veio resgatar a democracia brasileira. Acima do partidarismo, somos todos chamados a aprimorá-la e evitar o retrocesso histórico que só beneficiará uma minoria privilegiada. E reinstalará o terror em nosso país.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

Assine e receba todos os artigos do autor: mhgpal@gmail.com


*
ENTREVISTA 
GUILHERME BALZA - UOL

Frei Betto é sempre lembrado quando o assunto é a controversa relação entre a ditadura militar e a Igreja Católica, que passava por profundas transformações enquanto o país esteve sob o jugo das Forças Armadas. Em entrevista ao UOL, o dominicano descreve os conflitos no interior da igreja durante a ditadura e explica como se operou a mudança de lado da CNBB, que inicialmente celebrou o golpe com agradecimentos a Nossa Senhora Aparecida, mas depois se constituiu como força de resistência ao regime. O religioso revela ainda que a CIA (agência de inteligência dos Estados Unidos) financiou as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, manifestações populares que antecederam o golpe m... 

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UOL - O que o senhor estava fazendo em 31 de março de 1964? Frei Betto - Na verdade o golpe foi no dia 1º. Essa história de 31 é invenção dos milicos porque tinham vergonha do 1º de abril. O golpe foi oficialmente no dia 1º de abril, quando Jango sai do Brasil e se refugia no Uruguai. Eu estava participando do Congresso Latino-americano de Estudantes em Belém, no Pará.... 

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UOL - Como o senhor recebeu a notícia? Frei Betto - A notícia veio de maneira difusa, confusa, de que havia movimento de tropas, que o Jango tinha passado por Brasília, depois ido a Porto Alegre e de lá saído ao Uruguai, porque estava deposto. O Congresso foi desfeito porque ali participavam estudantes de quase todos os países da América Latina, muitos deles acostumados a golpes militares. Eles sentiram que a coisa ia endurecer. Estava hospedado na casa do arcebispo de Belém dom Alberto Gaudêncio Ramos porque eu era dirigente da Juventude Estudantil Católica (JEC) e da Ação Católica também. Fui pra casa de um militante da JEC chamado Lauro Cordeiro. E ali fiquei, de ouvido colado ... 

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UOL - Como o Vaticano e o papa Paulo 6º se posicionavam? Frei Betto - O papa não se posicionou no início. Mais tarde, o Vaticano veio a censurar a ditadura. Porque com o tempo a repressão se estendeu também à igreja e daí criou-se não só uma divisão na igreja, mas a própria CNBB foi se afastando da ditadura. A partir dos anos 70 a CNBB foi praticamente a grande voz de defesa das vítimas da ditadura. Tanto que o mais importante documento sobre os mais de 20 anos de ditadura foi produzido pelo d. Paulo Evaristo Arns, que é o livro “Brasil Nunca Mais”, que ele fez também com o reverendo Jaime Wright. A igreja e a própria CNBB se tornaram, a partir do AI-5, uma voz contra a ditadura. A... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2014/03/20/cia-financiou-igreja-em-marchas-pro-golpe-diz-frei-betto.htm?cmpid=copiaecola

DADOS SOBRE FREI BETTO

Frade dominicano e escritor, Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, 69, mineiro de Belo Horizonte, era um jovem estudante adepto da Teologia da Libertação quando as tropas derrubaram o presidente João Goulart, em 1964. Foi preso pela primeira vez dois meses após o golpe, permanecendo 15 dias detido. O segundo cárcere foi mais longo, entre 1969 e 73, e mais cruel: o frade foi submetido a sessões torturas nos porões do DOI-Codi, em São Paulo, comandado pelo Coronel Brilhante Ustra. Nos dias posteriores ao golpe, o militante religioso foi testemunha da derrota dos progressistas no embate com conservadores dentro da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), fato que res... - 

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quinta-feira, 31 de março de 2022

31 DE MARÇO 58 ANOS DO GOLPE MILITAR DE 1964 * Frente Revolucionária dos Trabalhadores / FRT

31 DE MARÇO 58 ANOS DO GOLPE MILITAR DE 1964

Sobe depressa, Miss Brasil’, dizia o torturador enquanto me empurrava e beliscava minhas nádegas escada acima no Dops. Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os ‘40 dias’ do parto. Na sala do delegado Fleury, num papelão, uma caveira desenhada e, embaixo, as letras EM, de Esquadrão da Morte. Todos deram risada quando entrei. ‘Olha aí a Miss Brasil. Pariu noutro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca’, disse ele. Um outro: ‘Só pode ser uma vaca terrorista’. Mostrou uma página de jornal com a matéria sobre o prêmio da vaca leiteira Miss Brasil numa exposição de gado. Riram mais ainda quando ele veio para cima de mim e abriu meu vestido. Picou a página do jornal e atirou em mim. Segurei os seios, o leite escorreu. Ele ficou olhando um momento e fechou o vestido. Me virou de costas, me pegando pela cintura e começaram os beliscões nas nádegas, nas costas, com o vestido levantado. Um outro segurava meus braços, minha cabeça, me dobrando sobre a mesa. E u chorava, gritava, e eles riam muito, gritavam palavrões. Só pararam quando viram o sangue escorrer nas minhas pernas. Aí me deram muitas palmadas e um empurrão. Passaram-se alguns dias e ‘subi’ de novo. Lá estava ele, esfregando as mãos como se me esperasse. Tirou meu vestido e novamente escondi os seios. Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar de louco. No meio desse terror, levaram-me para a carceragem, onde um enfermeiro preparava uma injeção. Lutei como podia, joguei a latinha da seringa no chão, mas um outro segurou-me e o enfermeiro aplicou a injeção na minha coxa. O torturador zombava: ‘Esse leitinho o nenê não vai ter mais’. ‘E se não melhorar, vai para o barranco, porque aqui ninguém fica doente.’ Esse foi o começo da pior parte. Passaram a ameaçar buscar meu fillho. ‘Vamos quebrar a perna’, dizia um. ‘Queimar com cigarro’, dizia outro.

*ROSE NOGUEIRA, ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), era jornalista quando foi presa em 4 de novembro de 1969, em São Paulo (SP). Hoje, vive na mesma cidade, onde é jornalista e defensora dos direitos humanos.*

Vamos ajudar o presidente a celebrar a ditadura, compartilhando relatos de quem viveu aquela “festa”

REDE GLOBO GOLPISTA
*

D E S A B A F O

D E S A B A F O

Marcelo Mário de Melo

Em memória de Wladimir Herzog e Manoel Fiel Filho (*)


Isto não é uma exposição acadêmica nem um requebro retórico. É um desabafo. 


Talvez muitos preferissem a linguagem das estatísticas.


Esta a coluninha dos torturados.


Aqui os estropiados fisicamente com subdivisões para hematomas cicatrizes fraturas lesões e toda a nomenclatura da medicina torturante de urgência. 


Aqui os mutilados mentalmente com sub-sessões reservadas a psicoses neuroses fobias úlceras gastrites insônias obsessões apatias. 


Neste espaço reservado a Torturas/Mortes computem-se “Suicídios”, “Mortos em Tiroteio” e “Tentativas de Fuga”. 


E nesta linha verde-acinzentada escreva-se com sangue: Distensão/Desaparecidos.


Poderia preencher um gráfico que satisfaria ao esteticismo seco do mais exigente burocrata. Tão imponente e preciso aos espíritos formalistas como as tabelas do imposto de renda e os projetos de reforma administrativa.


Mas os que precisassem disso para avalizar nossas denúncias jamais seriam convencidos de nada porque há muito estariam vacinados contra a verdade ou formados nas filas do lado de lá.


Quem não puder ser convencido hoje pelos exemplos esparsos indícios ruídos abafados da máquina de triturar presos políticos abrirá certamente os olhos só se os abrir quando as verdades vivas de agora passarem à respeitabilidade morta dos museus de amanhã ou se a máquina começar a moer a sua própria carne os próximos.


Nós os presos políticos do Brasil atual nos dirigimos àqueles que sabem pressentir a cascavel pelo sibilo e se dispõem a renegar o seu veneno. 


Mesmo que apenas com o grito de alerta ou o gesto mudo repulsa de quem se associa à dor.


(*) Escrito em outubro de 1975, em cela do Esquadrão Dias Cardoso, Bongi, Recife-PE, no intervalo entre uma greve de fome e outra, depois dos assassinatos sob tortura, em São Paulo, do jornalista Wladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho.


QUEM O FARÁ?


Purgar os erros.

Lembrar os mortos.

Fecundar os sonhos.

Festejar as vitórias.

Se não fizermos isto

pela nossa história 

Quem o fará?

*

DIRETAS JÁ O GRITO AS RUAS

MARIA MAIA / DF

O Movimento por Memória, Verdade e Justiça do Ceará, por meio da Associação dos Amigos da Casa frei Tito de Alencar, convoca familiares de mortos e desaparecidos políticos do Ceará, comitês, comissões, coletivos, sindicatos, instituições, partidos políticos e parlamentares, para a II Marcha do Silêncio, em consonância com o movimento nacional Vozes do Silêncio e a Marcha do Silêncio do Uruguai, que acontece desde 1966 em memória dos presos políticos desaparecidos no período da ditadura militar daquele país. Nasce, assim, o Movimento Vozes do Silêncio do Ceará.
Nosso movimento se propõe a denunciar as graves violações de direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro no período da Ditadura Civil Militar (1964 - 1985), violações essas que se perpetuam até nossos dias, reivindicar o tombamento definitivo e a conclusão das obras da Casa frei Tito de Alencar e a manutenção e estruturação do Memorial da Resistência - Arquivo das Sombras (antiga sede da polícia federal no Ceará e centro clandestino de torturas).

LEMBRANÇAS E BANDEIRAS

Marcelo Mário de Melo


Tremulam as bandeiras da lembrança.


Os estudantes de direito carregando a bandeira de Demócrito de Souza Filho nas passeatas e a levantando, frente aos pelotões da polícia do governo de Cid Sampaio e das tropas do Exército, quando foram expulsos a coronhadas da Faculdade, por ordem do presidente Jânio Quadros, em 1961, durante o movimento nacional que reivindicava a representação estudantil de 1/3 nos conselhos universitários.


Na tarde de 1º de abril de 1964, depois de uma assembléia na Escola de Engenharia, ainda funcionando na R. do Hospício, seguíamos em passeata para o Palácio das Princesas, no intento de defender o Governo de Miguel Arraes. 


Carregando a bandeira brasileira e cantando o hino nacional, formos atingidos por tiros de fuzil, restando mortos os estudantes comunistas Jonas Barros, do Ginásio Pernambucano, e Ivan Aguiar, aprovado no vestibular para Engenharia, e que não chegou a iniciar o curso. Passando por diversas mãos,  restou caída e manchada de sangue, a bandeira brasileira.


Em 1964, quando os militares quiseram fazer com o governador Miguel Arraes uma negociata política em troca da sua liberdade, ele lhes respondeu que tinha sido eleito pelo povo e não reconhecia neles autoridade para lhes dar ordens de governo, que tinha nove filhos e, um dia, queria poder lhes contar essa história olhando nos olhos. O governador Miguel Arraes foi coerente com as suas bandeiras e fiel aos seus compromissos com o povo. Os militares o levaram para a prisão em Fernando de Noronha.


Quando o Coronel Ibiapina, em 1964, disse na porta da cela do menino David Capistrano Filho, com 16 anos, que a culpa da sua situação era do seu pai, um comunista irresponsável, teve a resposta de que o seu pai era um homem sério e honesto, e ele é que era um golpista. O coronel mandou retirar o colchão de David e o transferiu para o juizado de menores, onde passou três meses, preso entre meninos infratores.


Naquele momento histórico, um homem maduro, governador de estado, pai de dez filhos, e um menino, estudante de colégio, foram fieis às bandeiras do povo. mostrando que coerência não tem idade. E também que as bandeiras podem e devem passar de pai para filho, de avô para neto.


As conjunturas mudam e há necessidade de se atualizarem estratégias, táticas e formas de luta no processo de mobilização por liberdade, democracia e mudança social. Mas é fundamental que isto ocorra sob a base de uma linha de coerência e continuidade histórica em matéria de campos e objetivos centrais.


Acima e além dos interesses de facções e da promoção de grupos ou personalidades, a ampliação dos espaços para as camadas populares, nos dispositivos legais, nas políticas públicas e nas representações políticas formais e informais, deve fundamentar o critério de avaliação. Aí está a substância da simbologia das bandeiras.


AOS QUE CUIDAM DE BANDEIRAS

(Em memória de Miguel Arraes)

Marcelo Mário de Melo


Há aqueles que levantam uma bandeira

e prosseguem.


Aqueles que afrouxam as mãos

e abandonam as bandeiras no caminho.


Aqueles que rasgam queimam

renegam bandeiras e se recolhem.


Aqueles que se bandeiam

e passam a defender 

bandeiras contrárias.


Aqueles que refletem

e escolhem bandeiras melhores.


Aqueles que encerram as bandeiras

em gavetas vitrines e altares.


Aqueles que colocam as bandeiras a venda.


É triste ver bandeiras abandonadas 

vendidas ou sacralizadas no céu distante.


As bandeiras não são entidades

para comércio adoração e arquivo


Expostas ao vento e ao tempo

as bandeiras são coisas simples da vida

que exigem cuidado: 

como uma casa

uma roupa

um filho

uma flor.

&

1964:JONAS E IVAN: 

O SENTIDO SIMBÓLICO

Marcelo Mário de Melo


Em 1964 havia no Colégio Estadual de Pernambuco – CEP, antigo Ginásio Pernambucano, hoje novamente com o velho nome, no Recife, uma base do Partido Comunista Brasileiro com 25 jovens militantes, homens e algumas mulheres. A ação política se desdobrava nas reivindicações locais, nas campanhas pelo diretório estudantil e nas disputas com a direita em torno das entidades municipal e estadual dos secundaristas: a Associação Recifense dos Estudantes Secundários – ARES e o CESP – Centro dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco. 

 

Os estudantes também eram convocados a atuar nas campanhas eleitorais e em mobilizações vinculadas às bandeiras políticas da época. Defendíamos as reformas de base, entre elas a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma do ensino. Éramos pelo direito de voto para os analfabetos e soldados e cabos das forças armadas.


Combatíamos o colonialismo e as ditaduras no mundo, com destaque para a libertação das colônias africanas, as ditaduras de Salazar em Portugal, Franco na Espanha e Strossner no Paraguai. Defendíamos ardorosamente a jovem revolução cubana e, muitas vezes, participávamos de atos públicos, panfletagens e pichações em defesa de Cuba, contra as ameaças e as tentativas de invasão comandadas pelo imperialismo norte-americano, então sob a batuta do bonitão John Kennedy.


Na base do CEP havia um grupo de companheiros que participava do Clube Literário Monteiro Lobato, o famoso CLML, que ativava um concurso permanente de crônicas, tinha reuniões sistemáticas, possuía centenas de filiados de diversos colégios e chegou a publicar alguns números do jornal Juvenília, inviabilizado a partir do golpe de abril de 1964.


O CLML tinha uma grande força atrativa entre os secundaristas mais novos. Os seus integrantes comunistas formavam um grupo com identidade própria, inclusive, com uma organização de base específica, vinculada ao Comitê Secundarista. Jonas fazia parte desse grupo, juntamente com David Capistrano Filho, Francisco de Assis Barreto da Rocha, Amaro Quintino, Dmitri, Rogério Jansen e outros companheiros.


Eu não tinha muita aproximação com Jonas. Convivia com ele nas reuniões e o encontrava constantemente nas agitações de rua e em eventos políticos. Via-o muito ao lado de Davizinho, outras vezes com Davizinho e Rosa Barros, que participava da base do Colégio Estadual do Recife, de alunado feminino, e, como ele, morava no bairro de Santo Amaro. Tinha maior aproximação com o seu irmão mais velho, Carlos Augusto, que participava da base do CEP e chegou a disputar a presidência do diretório. 


No dia 1º de abril de 1964, no meio da tarde, saímos em passeata da Escola de Engenharia, na Rua do Hospício, em direção ao Palácio das Princesas, cercado por tropas verde-oliva, para defender o governo de Miguel Arraes. Quando estávamos na altura da Pracinha do Diário, no cruzamento com a Av. Dantas Barreto, em marcha passo de ganso, avançou contra nós um pelotão vindo das imediações do Palácio da Justiça, que começou a disparar, inicialmente, para cima. Depois foi baixando o ângulo até o nível dos manifestantes. 

 

Alguns companheiros gritaram: "é festim"! Mas eu vi os pedaços de reboco caindo do alto de um edifício, sob o efeito das balas, e dei o grito de alarme: "não é festim, não! É bala!” Entre correrias e tiros, avistei o companheiro Oswaldo Coelho, que me havia recrutado para a base do CEP e agora estudava Direito, carregando um corpo masculino com um grande buraco se estendendo pelo pescoço, o queixo arrancado a tiros. Somente depois, voltando para casa, soube que o ferido era Jonas.


Junto a Jonas também tombou o jovem Ivan Aguiar, comunista de nascença, filho de Severino Aguiar, que morreu na década de 90 com mais de noventa anos, ostentando o orgulho de ser o mais antigo comunista vivo do Brasil. Ivan havia sido aprovado no vestibular para engenharia e aguardava o momento de começar a fazer o curso. Já ferido, ele ainda conseguiu disparar um tiro de um revólver 38 que Antônio Florêncio, comunista de Palmares, recolheu e guardava como relíquia. 


A Ivan, um brinde pela iniciativa desse  - lamentavelmente único -  tiro dado em Pernambuco em defesa da democracia e contra os golpistas de 1964. Diz-se que, ao lado de Ivan e Jonas, também tombaram um homem desconhecido e uma funcionária da loja de produtos masculinos - Remilet - colhida por um tiro no seu local de trabalho, na Av. Dantas Barreto.


Aos 16 anos, depois de passar por três meses de prisão, quando perguntado, num inquérito, o que achava da "Revolução de 31 de Março de 1964", Davizinho Capistrano  respondeu que não poderia achar nada de bom, porque o seu pai estava sendo perseguido, ele fora preso e o seu melhor amigo havia sido morto. Em cartas a mim, na década de 1960, David se refere a momentos de profundo sofrimento pela perda de Jonas, denominando-os de "jonismo".


Vim saber mais de Jonas depois da sua morte. Li poemas seus. Apreendi a dimensão da sua amizade grudenta com Davizinho e Rosa, formando um trio inseparável. Um dia, em 1964, acompanhei numa homenagem a Jonas o poeta Albérgio Maia de Farias, também companheiro do PCB e das lutas estudantis. Na Galeria de Arte, da qual Jonas era freqüentador, suspensa na margem do Rio Capibaribe, em frente aos Correios, destruída na cheia de 1965, ele deixou fixado no mural um poema que começava assim: "Na Galeria de Arte/há um banco de saudade/e há gestos de futuro/quebrando a serenidade".


Jonas e Ivan Aguiar tiveram suas vidas interrompidas na juventude. Passaram à condição de referências simbólicas dos jovens que lutaram pela democracia e contra a implantação da ditadura de 1964. Transformaram-se em bandeiras de idealismo e resistência, tremulando em nossos corações e apontando para a coerência dos nossos passos.