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quinta-feira, 17 de abril de 2025

DONA IVONE LARA * João Costa Batista/José Carlos de Araujo/RJ

DONA IVONE LARA
IVONE LARA.
Via João Costa Batista, Facebook.
“Árvore da Lembrança”

Faleceu no dia 16 de abril de 2018, aos 96 anos, a carioca Yvonne Lara da Costa - Dona Ivone Lara.

Foi uma Compositora e Cantora brasileira, conhecida como Rainha do Samba e Grande Dama do Samba.
Dona Ivone Lara nasceu em 13 de abril de 1922, na rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Foi a primeira Filha da união entre a Costureira Emerentina Bento da Silva e João da Silva Lara.

Paralelamente ao Trabalho, ambos tinham intensa vida Musical: ele era Violonista de Sete Cordas e desfilava no Bloco dos Africanos; ela era ótima Cantora e emprestava sua Voz de Soprano a Ranchos Carnavalescos tradicionais do Rio de Janeiro, como o Flor do Abacate e o Ameno Resedá – nos quais seu João também se Apresentava.

Formada em Enfermagem e Serviço Social, com Especialização em Terapia Ocupacional, foi uma Profissional na área até se aposentar em 1977. Nesta função trabalhou em Hospitais Psiquiátricos, onde conheceu a Dra. Nise da Silveira. Com a morte do Pai, com menos de três anos de idade, e da Mãe aos dezesseis, foi criada pelos Tios e com eles aprendeu a Tocar Cavaquinho e a ouvir Samba, ao lado do Primo Mestre Fuleiro. Teve aulas de Canto com Lucília Guimarães e recebeu elogios do Marido desta, o maestro Villa-Lobos.

Casou-se com Oscar Costa, Filho de Alfredo Costa, Presidente da Escola de Samba Prazer da Serrinha. Foram casados durante 28 anos, até a morte de Oscar.

Foi no Prazer da Serrinha onde conheceu alguns Compositores que viriam a ser seus Parceiros em algumas Composições, como Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira.

Compôs o Samba Nasci para sofrer, que se tornou o Hino da Escola. Começou a desfilar na Ala das Baianas. E também Compôs o Samba Não me perguntes, mas a Consagração veio em 1965, com “Os cinco bailes da história do Rio”, quando se tornou a primeira Mulher a fazer parte da Ala de Compositores da Escola de Samba.

Uma de suas Composições mais conhecidas, em parceria com Délcio Carvalho, foi Sonho Meu, sucesso na voz de Maria Bethânia e Gal Costa em 1978, cujo álbum ultrapassou um milhão de cópias vendidas.

Adaptação de J.C.de Araújo.
Atualização em 16.04.2025.
*
SONHO MEU
MARIA BETHÂNIA/GAL COSTA

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

A REVOLUÇÃO COMEÇA AGORA * GRES Beija-flor de Nilópolis-RJ

CARNAVAL 2023


Enredo: "“Brava Gente! O grito dos excluídos no Bicentenário da Independência”"

Carnavalescos: Alexandre Louzada e André Rodrigues

Presidente: Almir Reis
Vice-Presidente: Biel Maciel

​Presidente de Honra: Anízio Abraão David
Diretor de Carnaval: Dudu Azevedo

Diretores Gerais de Harmonia: Simone Santana e Válber Frutuoso

Interprete: Neguinho da Beija-Flor

Mestres de Bateria: Rodney e Plínio

Rainha de Bateria: Lorena Raissa

Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Claudinho e Selminha Sorriso
Presidente Velha-Guarda: Débora Rosa

Comissão de Frente: Jorge Teixeira e Saulo Finelon

Adm. Financeiro: Alexandre Espósito "Jiló"
Adm. Compras: Lenile Honório "Lili"

SINOPSE

“Brava Gente! O grito dos excluídos no Bicentenário da Independência”

CONVOCAÇÃO

Por uma questão de desordem no que se diz respeito às memórias que este país constrói: VAMOS NOS UNIR, BRAVA GENTE!

Esta é uma convocação aos sobreviventes deste país que não nos reconhece. Um país que ignora nossas existências.Um país que comemora 200 anos da marginalização da sua própria gente. Seremos a voz do desejo de uma nação inteira: independência e vida!

O Estado brasileiro foi erguido sobre um conjunto de mitos e símbolos que justificam as violências que ainda hoje são implementadas contra nós. Não é por acaso o apagamento do verdadeiro protagonista da história nacional: o povo brasileiro. Esta é a brava gente que está ausente dos atos cívicos que celebram nossos mitos fundadores. Excluídos.

Se as pautas fundamentais para uma nação soberana, independente e justa são trabalho digno, moradia, alimentação, participação popular, igualdade de direitos e liberdade plena, a grande pergunta é: este é o Brasil em que vivemos?

Propomos, então, um novo marco para a Independência Nacional: O dia em que o povo venceu, o 2 de Julho. O triunfo popular de 1823 é muito mais sobre nós e sobre nossas disputas. O Dia da Independência que queremos é comemorado ao som dos batuques de caboclo, cantando que até o sol é brasileiro. Precisamos festejar os marcos populares em festas que tenham cheiro, cor e sabor de brasilidade, reconhecendo o protagonismo feminino e afro-ameríndio. Somos aqueles e aquelas que, excluídos dos espaços de poder, ousam ter esperança no amanhã. O Brasil precisa reconhecer os muitos Brasis e suas verdadeiras batalhas.

É a partir desta data que provocamos uma nova comemoração da independência do Brasil. A independência do povo para o povo. Faremos, então, um grande ato cívico em louvação aos 200 anos de luta dos brasileiros, herança dos heróis e heroínas que forjam dia a dia, através de suas batalhas, uma nação verdadeiramente livre e soberana.

Reivindicamos e nos orgulhamos das lutas históricas e sociais daqueles que nos precederam nesta incansável batalha pela cidadania.

Juntem-se e vistam suas fantasias, pois será um grande carnaval quando em praça pública declararmos nossa própria independência. NÓS, O POVO! Juntando tudo e todos. O novo Brasil ditará as ordens a partir da folia. Alegria e manifestação! Nossa bandeira será um grande mosaico do que somos de verdade, feita a partir do retalho do que cada um tem a oferecer daquilo que lhe representa.

A cultura é o nosso poder, e, é através dela que lutamos pela transformação social, colocando o povo no pedestal que lhe é de direito. Por isso fazemos carnaval, é a nossa missão, sempre construindo o país que acreditamos, e lutando para que ele seja um dia, realidade.

O grito será por justiça e liberdade, igualdade sem neurose e sem caô

Nilópolis, 02/07/2023
Dia dos 199 anos da Independência do nosso Brasil

JUSTIFICATIVA

O G. R. E. S. Beija-Flor de Nilópolis irá apresentar no carnaval de 2023 o enredo “BRAVA GENTE! O GRITO DOS EXCLUÍDOS NO BICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA”.

O bicentenário da Independência é um momento propício para um debate profundo acerca dos rumos e do próprio sentido do país. O carnaval carioca, alegria e manifestação, não poderia ficar de fora desta ampla discussão. A festa consolidou-se como um espaço privilegiado para reflexão e a disputa de questões de importância fundamental em um espetáculo artístico de inegável dimensão política e caráter pedagógico.

Através do seu desfile, um ato cívico, nós propomos que a independência é um processo, defendemos um novo marco para a emancipação política brasileira, destacando o protagonismo popular enquanto denunciamos o caráter autoritário, tutelar, excludente e desigual do Estado, desde sua gênese até a atualidade.

Ao invés de celebrar ritualisticamente o mito fundador da pátria – o grito do Ipiranga no 7 de setembro, argumentamos em favor de um novo marco, capaz de oferecer um sentido que consideramos mais próximo da verdade histórica de uma independência que foi conquistada; não proclamada. Este marco é o 2 de julho de 1823, data da vitória das tropas brasileiras na consagração instalada na Bahia.

Ao mesmo tempo, iremos rememorar esses duzentos anos a partir da perspectiva das camadas populares apontando as mazelas, contradições e limites da construção nacional. Heroico é o povo que constrói a sua própria autonomia através da luta. Esta é a nossa história: nada nos foi dado; cada um dos nossos avanços foi obtido pelos nossos próprios esforços.

Se o Estado brasileiro se ergueu como um instrumento para conservação de uma ordem patriarcal, escravocrata e latifundiária, o povo brasileiro, mesmo alijado dos espaços institucionais, insiste em disputar no Brasil sem temer nem a luta, nem a morte. Este enredo é um grito que ecoa do Brasil profundo e se faz ouvir aos quatro cantos. Das aldeias, guetos, terreiros e favelas um brado em uníssono se faz clamor: independência e vida!

Este é o nosso grito.

FALA MAIS

O dia em que o povo ganhou: vitória patriótica de dois de julho

No processo de elaboração da memória nacional, o dia 7 de setembro de 1822 foi forjado como o grande marco da nossa independência. O grito do Ipiranga seria o decisivo ato heroico do príncipe regente para a emancipação política do Brasil. A invenção do sete de setembro cumpriu o papel de mito fundador do Estado brasileiro. Este mito celebra uma ideia de independência pacífica, fruto do heroísmo do futuro imperador e de arranjos da elite. O que ele esconde é que houve guerra e muito sangue foi derramado neste processo.

As guerras da independência evidenciam a diversidade de ideias, concepções e projetos, os conflitos e tensões sociais e políticas constitutivos daquele cenário histórico. O esquecimento sobre estas guerras não é gratuito; muito pelo contrário, é o resultado de uma construção da história que considera a emancipação política do Brasil um “desquite amigável” em relação a Portugal.

Em províncias como Ceará, Cisplatina, Maranhão, Pará e Piauí houveram confrontos bélicos em episódios decisivos para que a causa nacional triunfasse. Porém foi na província da Bahia que se instalou a guerra que tomaremos como marco. Durante um ano e quatro meses, o destino da nação brasileira teve este território como palco privilegiado. O confronto na província foi central no processo de ruptura que garantiu a soberania nacional.

Até que em 2 de julho de 1823 até o sol foi brasileiro. O dia em que o povo ganhou. Esta data marca a vitória libertadora com a expulsão dos portugueses e, desde então, é celebrada com uma grande festa que tem cheiro, cor e sabor de brasilidade. Uma algazarra pública, que tem nas figuras do caboclo e da cabocla símbolos da liberdade. Esta festividade celebra e louva a ampla participação popular, sobretudo de indígenas e negros, na luta pela emancipação ante a tirania e o julgo colonial. O papel de destaque de muitas mulheres, como Joana Angélica, Maria Quitéria e Maria Filipa, verdadeiras heroínas da pátria, acentua o protagonismo feminino que se contrapõe a uma escrita da história centrada no paradigma da masculinidade.

É este marco que celebramos como data da nossa independência: a vitória patriótica do 2 de julho e o protagonismo popular, notadamente afro-ameríndio e feminino.

A conservação da ordem e a permanência das lutas populares

Após a independência oficial, não tardou para que o povo brasileiro percebesse que o projeto de construção nacional não pretendia alterar a organização social: a escravidão, o latifúndio e a monarquia seriam os pilares do Império. O grande temor das oligarquias era de que os ventos revolucionários do Haiti provocassem uma onda emancipatória e inspirasse negros e negras brasileiros em uma insurreição. O medo branco de uma grande rebelião negra era o principal fator de agregação dos diversos setores de uma elite fortemente dividida entre oligarquias regionais.

O Império nasce como um Estado forte e centralizador. A dissolução da Assembleia Constituinte e a repressão brutal a dissidências como a Confederação do Equador, que defendia um modelo federalista, não deixavam dúvidas sobre este caráter. A unidade territorial foi mantida através da forte repressão aos movimentos emancipatórios e separatistas. O sentido do Estado é a conservação.

Por sua vez, o povo brasileiro permaneceu em luta. Construiu redes de proteção comunitária e fortalecimento coletivo, organizou um conjunto de movimentos contestatórios que almejam a conquista de direitos como os malês, cabanos e balaios. Se a independência não alterou a estrutura social e não promoveu mudanças para aqueles que dispuseram de suas vidas para conquistá-la, eclodiram movimentos, revoltas, rebeliões, motins e insurreições por toda extensão do Império. Se a ordem é injusta, a desobediência civil é a resposta.

Em cada um destes levantes e movimentos populares, havia um acúmulo de forças e crescia a consciência crítica e histórica. É impossível desvincular o movimento abolicionista que construiu e solidificou a liberdade, das muitas revoltas de escravizados que se proliferaram de norte a sul. Assim como as nações indígenas, originárias e verdadeiras donas desta terra, que seguiram mobilizadas nos enfrentamentos necessários para a manutenção da sua própria existência, a conservação dos seus saberes e práticas.

As fantasias republicanas e as batalhas pela cidadania

Provando que no Brasil as ideias estão sempre fora de lugar, a República já nasceu velha. Da espada, oligárquica, dos coronéis e barões, do café com leite, dos ideais eugenistas e com um lema que poderia estampar nossa bandeira: autoritarismo e desigualdade. Restringindo a cidadania a pouquíssimos, discriminando por raça, credo, gênero e orientação sexual.

Brutalmente violento, o Brasil é descrito por seus intérpretes/inventores como um país pacífico e harmônico, destinado à glória no porvir enquanto, no presente, seus filhos e filhas morrem de fome. Excluídos, à margem. O tal “país do futuro” foi eficaz em construir uma imagem de si que mascara sua verdadeira face.

A democracia, entre nós, sempre foi um terrível mal-entendido. E é curioso constatar que foi pretensamente com a intenção de defendê-la que corriqueiramente a golpearam.

Os grandes agentes civilizatórios deste país são os brasileiros e brasileiras que, em movimentos organizados, são os mais fiéis defensores da democracia. Se a intenção manifesta era conferir uma cidadania limitada, inconclusa e tutelar, nós não aceitamos e conquistamos mais espaços de participação através de diferentes táticas e estratégias.

Denunciando o genocídio da juventude negra, o feminicídio, a violência contra a população LGBTQIA+ e o racismo religioso, a brava gente brasileira segue ocupando as ruas afirmando sua existência, pleiteando reconhecimento e disputando o hoje. Nós não admitimos a tese absurda de um marco que limite no tempo a posse da terra de quem é seu único e verdadeiro dono.

Manifestamos nossos desejos e expressamos nossas necessidades em pautas, causas e questões incontornáveis como a reforma agrária, os direitos trabalhistas e a urgente promoção da igualdade racial.

Em um país majoritariamente negro e feminino, as mulheres negras são a base de sustentação material e, somente a partir delas, poderemos, efetivamente, se constituir em um país outro, uma mátria de muitos Brasis. Plural, diversa, inclusiva e igualitária.

Alegria e manifestação

O desfile da Beija-Flor de Nilópolis será um grande ato cívico pela construção de um Brasil livre, soberano e verdadeiramente independente. Este Brasil livre, soberano e independente ainda é um sonho, mas, por este sonho, a brava gente brasileira segue derramando sangue e suor em busca de dignidade e autonomia.

Nosso ato será festivo e multicolorido.

Nossa singularidade é produto da pluralidade das muitas nações brasileiras. Esta pluralidade manifesta compreensões e conhecimentos, formas de ser, sentir e pensar que alargam as possibilidades de existência. Os muitos anseios e desejos de um Brasil melhor se exprimem justamente na riqueza da nossa arte e cultura. São expressões de uma brasilidade que emana desta gente que, permanentemente em luta, também produz beleza e encantamento.

Cultuamos e preservamos nossa ancestralidade e os saberes tradicionais resistindo a toda sanha de domesticação dos corpos e aniquilação da diversidade de práticas, costumes e experiências.

Fazemos festa porque esta é, também, manifestação política e na festa carnavalesca gritamos que outros Brasis são possíveis.

Autores do Enredo: André Rodrigues e Mauro Cordeiro
Desenvolvimento: André Rodrigues, Mauro Cordeiro e Alexandre Louzada
Convocação: André Rodrigues, Beatriz Chaves, João Vitor Silveira e Jader Moraes.
Pesquisa e Justificativa: Mauro Cordeiro
*
SAMBA ENREDO

Autores: Léo do Piso, Beto Nega, Manolo, Diego Oliveira, Julio Assis e Diogo Rosa

A revolução começa agora
Onde o povo fez história
E a escola não contou
Marco dos heróis e heroínas
Das batalhas genuínas
Do desquite do invasor
Naquele dois de julho, o sol do triunfar
E os filhos desse chão a guerrear
O sangue do orgulho retinto e servil
Avermelhava as terras do Brasil

Eh! Vim cobrar igualdade, quero liberdade de expressão
É a rua pela vida, é a vida do irmão
Baixada em ato de rebelião

Desfila o chumbo da autocracia
A demagogia em setembro a marchar
Aos “renegados” barriga vazia
Progresso agracia quem tem pra bancar
Ordem é o mito do descaso
Que desconheço desde os tempos de Cabral
A lida, um canto, o direito
Por aqui o preconceito tem conceito estrutural
Pela mátria soberana, eis o povo no poder
São Marias e Joanas, os brasis que eu quero ter

Deixa Nilópolis cantar!
Pela nossa independência, por cultura popular

Ô abram alas ao cordão dos excluídos
Que vão à luta e matam seus dragões
Além dos carnavais, o samba é que me faz
Subversivo Beija-flor das multidões

terça-feira, 18 de outubro de 2022

RÁDIO CAMBIAR * José Roberto/Fabiano Soares da Silva - RJ

 RÁDIO CAMBIAR

JOSÉ ROBERTO/FABIANO SOARES DA SILVA

Não percam. 
Essa equipe realiza uma verdadeira antologia do samba. Prestigie!!

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

NELSON SARGENTO E COMPAY SEGUNDO: GENTILEZAS AO VIOLÃO * Aydano André Motta / JB

NELSON SARGENTO E COMPAY SEGUNDO: GENTILEZAS AO VIOLÃO

 Nelson Sargento e Compay Segundo

Foto Felipe Varanda

*

O sambista Nelson Sargento, aos 77 anos, e a estrela cubana Compay Segundo, aos 94, se encontram em Copacabana para uma troca de gentilezas ao violão com direito a confetes e batuques.


Quando soube que sua manhã de ontem no Rio estava reservada para o
encontro com um sambista brasileiro, o cubano Compay Segundo fez
apenas uma pergunta. ''Ele é velho?'', quis saber. Sorriu em seguida,
feliz diante da resposta: ''Veteraníssimo''. Ao encontrar-se com seu
interlocutor - o mangueirense Nelson Sargento, 77 anos -, a estrela de
Buena Vista Social Club, 94 anos, não deixou barato. ''És un chico'',
constatou, diante de seu mais novo compay (ou compadre), como os
cubanos do interior tratam os amigos - daí, aliás, o apelido que virou
nome artístico.

Não há decepção na frase. Apenas uma piada, comum entre essas pessoas
para quem o tempo passa mais devagar do que na vida dos mortais
comuns. Deu, claro, em samba e em música cubana. Tanto no batuque na
xícara sobre a mesa quanto numa inesquecível troca de gentilezas ao
violão. Quem viu o brilhante documentário realizado em 1998 por Wim
Wenders, sobre os artistas cubanos, pode ter certeza daquilo que
suspeitou ao sair do cinema: os músicos do Buena Vista são primos,
compays dos sambistas cariocas.

Puros - Muito mais ativo do que o esperado para alguém na sua idade,
Compay Segundo ostenta. Orgulha-se de contar que fuma charuto -
Montecristo número 4, para os iniciados - desde os 5 anos de idade,
quando acendia os puros para sua avó, ainda em Siboney, uma pequena
cidade do interior de Cuba, onde nasceu. O hábito de quase nove
décadas faz dele o garoto-propaganda mais que perfeito da indústria do
tabaco. Por isso, Compay está no Brasil, acompanhado do músico Isaac
Delgado, para o show de lançamento, hoje no Copacabana Palace (apenas
para convidados), do cigarro cubano Romeo y Julieta, que começa a ser
vendido por aqui.

É a segunda vez que Compay Segundo se encontra com o samba. Três anos
atrás, na outra visita que fez ao Brasil, esteve com Walter Alfaiate.
Agora, vestido a caráter - terno impecável, chapéu e, claro, o puro
como uma extensão da mão direita, entre o indicador e o médio -,
encontrou Sargento, que levou suas credenciais na camisa, da Velha
Guarda da Mangueira. Compay ouviu com especial interesse a breve
história da mais tradicional das escolas de samba e seu Social Club
fundado por Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho e tantos
outros.

Em seguida, o cubano batucou o samba que costuma cantar em seus shows
com o harmônico, instrumento que inventou ao acrescentar uma sétima
corda (repetição da terceira) num violão comum. ''É Na baixa do
sapateiro'', Nelson Sargento identifica num estalo a música de Ary
Barroso. ''E ele era negro?'', pergunta Compay, falando de música e
não de raça. ''Não, mas fazia samba de raiz'', responde Sargento.
''Esta é a nossa identidade musical, que sofre influências mas se
mantém viva'', acrescenta o sambista.

África - Para mostrar que são variações de uma mesma fonte, Compay
Segundo propôs uma parceria, ''em ritmo africano'', batucando em
xícaras de café. A primeira vez serviu como ensaio - depois, os dois
encaixaram o ritmo com perfeição. ''Veio tudo da África'', atesta
Sargento, admirado diante da coincidência seguinte: seu último disco
(que ele deu de presente ao amigo) chama-se Flores em Vida; o de
Compay, Las Flores de la Vida. ''Cedo ou tarde, as flores acabam
chegando'', comenta o cubano.

Na manhã em Copacabana, elas vieram ao som do violão, primeiro com o
cubano cantando Chan Chan, apresentada por ele e Elíades Ochoa na
abertura de Buena Vista Social Club; em seguida, o cubano cantou a
música-título de seu último disco, composta a partir da visão de um
jardim na Alemanha. Sargento devolveu com a sua visão das flores, na
verdade uma reflexão sobre o (mau) hábito de se homenagear apenas os
mortos. Foi quando Compay mostrou, orgulhoso, a medalha ganha pelo
primeiro prêmio Grammy que recebeu (acumula também uma outra
indicação), pelo CD Buena Vista, na verdade o reconhecimento de uma
vida dedicada à música, mas conhecida internacionalmente apenas depois
do documentário de Wim Wenders.

Como Nelson Sargento, Compay Segundo descobriu sua vocação aos 15
anos, ainda em Siboney, quando assistiu a um violonista na festa de
San Luís de los Canelles. Tempos depois, mudou-se para Santiago de
Cuba, para trabalhar com o pai, maquinista dos trens que carregavam
manganês. Um dia, viu um grupo de músicos que se reunia aos sábados
numa praça da cidade. ''Aprendi olhando'', relembra. ''Olhando se
aprende muita coisa''.

Clarinete - Sua viagem musical teve como capítulo seguinte o
clarinete, ''por causa do som doce''. Compay, que ainda era apenas
Francisco Repilado, como foi batizado, comprou o instrumento de um
pequeno produtor de charutos, mas não com dinheiro. ''Perguntei
quantos puros teria de fazer para ficar com o clarinete. Eram dois
mil'', conta o início na atividade que o sustentou nos longos anos de
amadorismo na música. Em Santiago de Cuba, Compay se revezava entre o
trabalho na Fábrica de Tabaco Montecristo e o conjunto Matamoros, do
qual participou por três anos. ''Tinha muita habilidade para fazer
charutos'', explica ele, que fazia até 300 por dia, quando não havia
shows.

O nome artístico hoje famoso surgiu em 1942, quando formou no dueto
Los Compadres, onde fazia a segunda voz. Compay Segundo virou grife e
hoje mora no mundo, levando a música cubana aos palcos mais
improváveis. ''Tenho ficado pouco em Havana'', reconhece. Do seu país,
além da música, carrega o orgulho e os charutos. Hoje, fuma três por
dia, com aval do médico Francisco Estrada, que o acompanha na viagem
ao Brasil. A longevidade é explicada com encantadora simplicidade.
''Nós, músicos, temos uma vida alegre, porque até dormindo sentimos a
música. Melhor ouvir uma música do que um canhão'', ensina ele, diante
da silenciosa aprovação de Nelson Sargento, outro fumante saudável e

Um leilão com Fidel

Quando está na ilha de Fidel, Compay sai pouco de sua casa, localizada
na Praia Miramar, nos arredores de Havana. Na rua, costuma ser cercado
por crianças, que lhe pedem para cantar Chan Chan. Não que ele não
goste das homenagens. ''Não me sobra muito tempo para atendê-los'',
lamenta ele. Em fevereiro último, esteve com Fidel Castro no Festival
do Charuto de Havana. O presidente lembrou que no mesmo evento, um ano
antes, Compay participara de um leilão, quando vendeu seu chapéu por
US$ 17.500 (cerca de R$ 40 mil). O velho líder convocou novo leilão e
o chapéu foi vendido por US$ 20 mil.

''Doei o dinheiro para os meninos de Cuba'', conta o músico, que, pela
primeira vez, aceita falar sobre o governo de seu país. ''Vi muitos
presidentes, mas nenhum é como Fidel, um presidente moderno'', avalia.
''Quando vai fazer algo para as crianças, por exemplo, conversa com
elas, não com os adultos. É presidente de toda Cuba, não apenas de uma
parte'', elogia, contando que neste momento estão todos na ilha
mobilizados para matar um mosquito - o mesmo aedes aegypti da dengue
que inferniza os cariocas. A diferença é que lá estão conseguindo.

Picanha - Ele diz que os músicos do Buena Vista são todos amigos,
ainda que não tenham mais se reunido após o show no Carnegie Hall
realizado por Ry Cooder, também produtor do documentário. ''Temos
nossas carreiras, não há como conciliar a agenda de todos'', explica
Compay, o mais velho dos integrantes da sociedade que formou o clube
que, fechado ainda nos anos 50, virou lenda.

Ressuscitado pelo minucioso trabalho do americano Cooder, o talento de
Compay Segundo e de Ibrahim Ferrer, Rubén González, Elíades Ochoa e
Omara Portuondo, entre outros, renasceu no CD Buena Vista Social Club,
sucesso planetário premiado com o Grammy em 1997. ''Eles são todos
jovens e muito atarefados'', completa Compay, que, apesar da idade,
tem rotina semelhante mundo afora.

O cubano não se rende aos 94 anos. Anteontem, foi a estrela de um
almoço numa churrascaria rodízio onde, segundo acerto com seu médico,
só tomaria uma prosaica sopa. Diante daquela orgia de picanhas e
maminhas passando à sua frente, pediu um vinho tinto e se regalou sem
medo. Bobagem para alguém que, pai de cinco filhos, busca com afinco
uma parceira para o sexto. ''Só preciso de uma noiva bem jovem'',
avisa Compay Segundo, que é casado.

(JB,19/03/2002)
***

domingo, 14 de fevereiro de 2021

QUANDO O REI DO SAMBA FOI IMPEDIDO DE SAMBAR * Frente Revolucionária dos Trabalhadores / FRT

 Quando o rei do samba foi impedido de sambar

MESTRE CARTOLA
Em 1976, a polícia invadiu o Ensaio da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, que ocorria na rua Visconde de Niterói, na entrada da favela, Rio de Janeiro. Mestre Cartola, um dos fundadores da agremiação, sentou no asfalto para protestar e lamentar mais uma operação policial contra o Carnaval Carioca. Na época, apesar da festa já aquecer a economia da cidade, o Samba era considerado pelas forças policiais como bagunça, baderna, perturbação da ordem, entre outras coisas.

Antes da construção do Sambódromo, os ensaios e desfiles ocorriam nas ruas do Rio, e a reunião das escolas eram constantemente interrompidas pela Justiça, Polícia e Ministério Público. Uma das principais alegações era que os ensaios e desfiles geravam um ambiente promíscuo e fértil para uso de drogas, sexualização e incentivo ao jogo do bicho.


A imagem emblemática foi capturada por por Eurico Dantas e virou símbolo da resistência do samba contra o sistema, uma

Iconografia da História.


Não importa se é samba, capoeira, comemorações sagradas afro-brasileiras, rap, funk ou qualquer coisa vinda do povo... O sistema só sabe esmagar o pobre, o negro e promover humilhações, como o que vem ocorrendo com a juventude atualmente, não só mas principalmente negra e favelada. Muito se tem feito em termos de valorização cultural e profissional das pessoas mais humildes do nosso pais, mas faz-se necessário muito mais. Só que isso depende delas, as pessoas mais humildes, os pobres, os negros, os desempregados, enfim, os marginalizados pelo sistema, devem se unir no seu local de moradia, formar cooperativas de geração de renda, promover cursos de elevação tecnica e profissional para superar essa situação de opressão imposta pelo sistema, o capitalismo. Sem a iniciativa dos próprios interessados, fica praticamente impossível a ajuda da comunidade em torno.