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segunda-feira, 4 de julho de 2022

O famigerado Centrão * Por Carlos Santiago/Amazonas

 O famigerado Centrão


Por Carlos Santiago/Amazonas


        Abraços e sorrisos! Alegria total, conquistas de sempre. Ninguém sabia quantas vitórias, recursos públicos e governos serviram. São conhecidos como políticos do grupo do Centrão do Congresso Nacional.


       Eles não possuem a mesma origem ideológica, profissional ou familiar. São ex-comunistas, religiosos incrédulos, ex-neoliberais, ex-militares e filhos de donos de partidos políticos, mas características os unem e os revelam: estão sempre unidos para manter a velha política do toma lá dá cá e o enriquecimento pessoal em detrimento do interesse coletivo.


       Um dos membros do Centrão, quando adolescente, ficava dias lendo obras do russo Vladimir Lenin e do alemão Karl Marx. O Manifesto do Partido do Comunista era o seu travesseiro. Em qualquer reunião partidária ou fora dela usava frase dos ídolos comunistas e socialistas: “as revoluções são as festas dos oprimidos e explorados”. No início da fase adulta, depois de leituras e de participações em manifestações populares, percebeu que os princípios do comunismo não seriam conquistas imediatas, na verdade, desenhavam-se como utópicos e durariam séculos de lutas. Não pretendia esperar tanto tempo para chegar ao poder, por isso, resolveu filiar-se a um partido conservador, desejava participar do poder institucionalizado.


        Outro político, agora  líder do Centrão, advém da militância religiosa. Pessoa muito dedicada, passava dias pregando nas ruas as “palavras de Deus”. Não se descuidava de citar as bem-aventuranças bíblicas: “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” e também “bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados”.


Numa reunião com os mais antigos pregadores da igreja, entendeu que a religião pode ser também um meio próspero para a riqueza material e que o cristianismo não passa de um conjunto de concepções moralizadoras e de conduta ética. Chegou a seguinte conclusão: se Jesus e Deus não existem, então não existe castigo divino. Isso o deixou feliz, e após várias reuniões secretas com pastores, ingressou na política partidária.


         Outro colega do ex-comunista e do líder religioso, é um grande empresário. Um homem que desde cedo tinha vocação para os negócios. Defendia a máxima de Adam Smith de que a “mão invisível”  vai promover o bem-estar da sociedade. "Tinha os ex-governantes Ronald Reagan, dos EUA e Margaret Thatcher, da Inglaterra, como referências de administradores, assim como a proposta neoliberal para economia. Depois de várias tentativas fracassadas de fazer negócios sem subsídios estatais, ele resolveu, por iniciativa de um amigo, procurar um banco oficial e, com o subsídio, montar uma empresa de serviços terceirizados para o governo. Assim, ficou muito rico.


           Se experiência é tudo, o Centrão  é um celeiro. Seu membro mais experiente vem de uma dinastia política. O seu bisavô tinha sido senador no período imperial; seu avô foi senador na velha república e o pai conquistou vários cargos no Poder Executivo na Ditatura Militar. Nunca esteve na oposição. Diz sempre que ficar na oposição política é um castigo que não deseja nem para os inimigos. Sorria quando alguém comentava que ele dominava quase todas as prefeituras do Estado onde residia.


            Os abraços e sorridos nos rostos deles, demonstravam que aquela sessão legislativa do Congresso Nacional, que acabava de aprovar a Reforma da Previdência, tinha sido ótima para eles, pois liberava bilhões de reais para as emendas secretas para parlamentares, e destinava enormes recursos para os seus currais eleitorais e para empresas dos "amigos", construtoras das obras.


             Além disso, receberam a promessa do governo federal de que ocupariam cargos na Administração Pública Federal. Eles não poderiam estar mais felizes.


Sociólogo, Analista Político e Advogado.

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quarta-feira, 11 de maio de 2022

O Centrão já é o vencedor * Carlos Santiago / AM

 O Centrão já é o vencedor

Por Carlos Santiago*

             As eleições nem começaram, os nomes de Bolsonaro e de Lula ainda não constam nas urnas para receber o voto popular, mas já existe vencedor do pleito de 02 de outubro: o Centrão. Favorecido pela legislação eleitoral e pelo uso da máquina pública na montagem de chapas eleitorais para a Câmara dos Deputados, o Centrão pode conquistar a maior bancada nas Casas Legislativas do País.


           É uma constatação. Depois do fim da janela partidária, os partidos com o maior número de militantes políticos do Centrão registraram um aumento significativo de deputados federais e de deputados estaduais, aumentando ainda mais sua força em todo Brasil.


        Na Câmara dos Deputados, o Partido Liberal - PL, por exemplo, com ajuda do presidente Bolsonaro, ganhou mais 45 deputados; o Progressistas - PP conquistou 14 novos parlamentares; o Republicanos conseguiu adesão de 11 legisladores; o Partido Social Democrata – PSD obteve 13 novos parlamentares para a sigla; outros partidos menores de membros do Centrão perderam deputados: Partido Trabalhista Brasileiro – PTB (-5) e o Solidariedade (-4). Numa rápida somatória, o Centrão saiu vitorioso.


       E nos estados brasileiros, a situação não foi diferente. O PL passou de 43 deputados estaduais eleitos, em 2018, para 109, em 2022; o Republicanos atualmente tem 75 parlamentares, antes da janela partidária tinha 42; o PP tinha 70 legisladores, agora tem 95; o PSD ganhou 26 deputados; outros partidos com integrantes do Centrão tiveram perdas, como o PTB e PSC. Mas, na somatória, o Centrão saiu fortalecido.  


      O Centrão é um conjunto de parlamentares com perfis diversos que usam os cargos públicos para fazerem acordos nem sempre republicanos para levar verbas aos apadrinhados políticos nos estados e obras públicas aos amigos empreiteiros. Ele não liga para ideologia partidária, projeto de nação, nem com tendências políticas dos governos. É movido pela divisão de cargos e de recursos do erário para promover a velha política do toma lá dá cá.


       A atual legislação eleitoral vai fortalecer ainda mais o Centrão, pois obriga, em 2022, que os partidos ou federações alcancem no mínimo 2% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados ou pelo menos 11 deputados federais eleitos, distribuídos em pelo menos nove estados, para continuarem com direito a um gordo fundo partidário, um milionário fundo de campanha, além de programas de televisão, de rádio e de regalias nas Casas Legislativas. Isso favorece quem tem partido organizado, mas também quem tem força na máquina pública. Ora, ora, o Centrão tem muita força nas máquinas públicas municipais, estaduais e no Governo Federal.


      Não é à toa que partidos compostos, na maioria, por membros do Centrão, até o momento, não anunciaram e nem precisaram de federações partidárias para montagem de chapas à Câmara dos Deputados, isso porque ganharam muita força e cargos nos últimos anos.


      O previsível é que o próximo presidente, seja ele qual for, independentemente da ideologia ou do credo, dependerá do Centrão para governar, para o bem ou para o mal. Vai depender muito da disposição do futuro mandatário máximo de aceitar as velhas e maculadas práticas do Centrão.


        O eleitorado até pode mudar esse quadro nas eleições, mas é muito difícil impor uma derrota a quem detém a legislação eleitoral e as máquinas públicas a seu favor.


*Sociólogo, Analista Político e Advogado. 

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