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quinta-feira, 5 de maio de 2022

PRIMAVERA SINDICAL NOS EUA * Ernesto Germano Parés / RJ

PRIMAVERA SINDICAL NOS EUA
ERNESTO GERMANO PARÉS / RJ

“PRIMAVERA” SINDICAL NOS EUA? (1)
(Ernesto Germano Parés – 09 de fevereiro de 2022)

Os propagandistas da Casa Branca gostam de usar o termo “primavera” quando se trata de golpes e manifestações armadas em países que não são aliados estadunidenses. Já vimos isso muitas vezes.
Estou usando o mesmo termo para responder a uma questão levantada por uma companheira que leu o texto sobre a “Nova Rota da Seda”, na parte em que registro as dificuldades dos trabalhadores estadunidenses para alcançarem uma correção no salário mínimo local, e encaminhou uma pergunta sobre como esses trabalhadores poderiam reagir. O Congresso aprova um orçamento bilionário para a guerra, mas alega não ter verba para aumentar os salários?
Para iniciar uma resposta, devo dizer que tudo o que se refere ao movimento sindical nos EUA é muito confuso e as informações, não raramente, são contraditórias. Outra questão que dificulta o entendimento é a estrutura sindical de lá, muito diferente da brasileira.
Mas um fato para analisarmos é que, sim, nos últimos dois anos temos visto um renascimento do movimento sindical estadunidense, em particular entre os mais jovens e em categorias pouco citadas ou lembradas quando falamos de sindicalismo. O que temos registrado, em noticiários de sites internacionais, é uma movimentação importante entre trabalhadores de áreas muito diversas: saúde, cinema, hotelaria ou fabricação de tratores. Em geral, com algumas greves logo abafadas pela imprensa local e exigindo melhores condições de trabalho.
Alguns analistas locais dizem que esse despertar para reivindicações trabalhistas surge a partir do momento em que se constata uma grande falta de mão de obra local. Sabemos que se trata de um país com baixíssimo índice de natalidade.
Algumas notícias de jornais locais deixam transparecer que as empresas estão preocupadas com essa situação. Um exemplo claro do que falamos é que a poderosa Deere & Co, maior fabricante de máquinas agrícolas dos EUA, vê crescer o movimento reivindicatório entre seus trabalhadores. Cerca de 10 mil empregados, em vários setores da empresa, rejeitaram a tentativa de acordo com oferecida e entraram em greve no dia 14 de outubro de 2021! Foi um movimento que surpreendeu a mídia local e terminou com vitória dos trabalhadores. Movimentação semelhante ocorreu com cerca de 14.000 funcionários da Kellogg's, fabricante de cereais, que, na mesma época, simplesmente abandonaram seus postos de trabalho e fizeram piquetes nas portas das fábricas em diversos estados: Nebraska, Michigan, Pensilvânia e Tennessee. Protestavam não só pelo baixo salário, mas também porque a empresa estava transferindo serviços para o México, onde os salários são muito menores.
Ainda em 2021 temos outros movimentos grevistas que não foram noticiados por aqui. E um que é muito significativo aconteceu em um dos principais veículos de propaganda estadunidense: a indústria cinematográfica. Maquiadores de Hollywood, designers de iluminação, engenheiros de som e operadores de câmera também fizeram movimentos reivindicatórios e realizaram greves curtas, levando os patrões a cederem e assumirem um acordo para melhorias nas condições de trabalho.
Só para citar, também registramos movimentos reivindicatórios e até grevistas em várias outras empresas: a) Nabisco, fabricante de biscoitos; b) consórcio de saúde Kaiser Permanente, para o qual foram mobilizados 24.000 funcionários na Califórnia e no Oregon; c) New York Taxi Drivers Guild, que em 15 de outubro passado bloqueou a ponte do Brooklyn.
Todos são exemplos claros de que há um ressurgimento do movimento sindical estadunidense, mesmo que limitado a uma legislação esdrúxula e prejudicial aos trabalhadores. Só para se ter uma ideia, até 2021 a legislação trabalhista dos EUA permitia que uma empresa contratasse trabalhadores “avulsos” em casos de greves. Uma reforma nesse sentido está sendo votada no Congresso e já foi aprovada entre os deputados (onde o Partido Democrata tem maioria). Agora vai ser votada no Senado e espera-se mais dificuldades porque o Partido Republicano tem a maior bancada.
Um bom sinal nisso tudo é que o número de trabalhadores sindicalizados, que há décadas não ultrapassa os 11% do total de trabalhadores, vem crescendo e já alcança mais de 15%, segundo dados da maior central sindical estadunidense, a AFL-CIO. Mas este é o tema do próximo artigo.
Mas a pergunta que devemos nos fazer é... esse ressurgimento vai se limitar às reivindicações imediatas dos trabalhadores diante da crise econômica que já se instalou ou pode superar os limites do sistema e questionar o domínio do capital.
Nota: agradeço à amiga e companheira Luzia Mercedes Gomes, provocadora deste debate.

“PRIMAVERA” SINDICAL NOS EUA? (2)
(Ernesto Germano Parés – 10 de fevereiro de 2022)
Respondendo a uma questão levantada pelo companheiro Carlos Romero, o número de trabalhadores sindicalizados no Brasil vem caindo, como demonstraremos na última parte deste nosso artigo.
Em direção contrária, nos dois últimos anos os sindicatos filiados à poderosa “American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations” (AFL-CIO), a maior central sindical estadunidense, conseguiram atrair cerca de meio milhão de novos filiados. E há uma informação muito importante nas pesquisas locais: cerca de 48% dos trabalhadores estadunidenses estão inclinados a procurar a filiação a algum sindicato. Essa taxa é muito superior aos 33% de trabalhadores que pensavam em se filiar nos idos de 1977.
Vale lembrar que, em 1977, os EUA viviam sob o governo de Ronald Reagan, um dos “pilares” da implantação do neoliberalismo no planeta e que tinha como “guru” o economista Friedrich Von Hayek, que escreveu em seu livro que os sindicatos prejudicavam a acumulação do capital ao reivindicarem aumentos salariais e conquistas sociais. Na mesma época, Milton Friedman, outro “genitor” do neoliberalismo, escrevia que “tudo o que precisamos é de uma boa lei para acabar com os sindicatos”.
Onde encontrar uma explicação para esse movimento novo nos EUA? Acreditamos que dois são os motivos dessa “onda” de sindicalização: a crise atingiu em cheio os trabalhadores estadunidenses e o arrocho salarial está aumentando a cada ano; por outro lado, os sindicatos de lá estão fazendo algo de incomum e muito apropriado ao se dirigirem individualmente a cada um dos trabalhadores das suas base. Seja por meios das redes sociais ou por ligações telefônicas diretas, os sindicatos estão conversando com os trabalhadores de suas bases.
É certo que a perda do poder aquisitivo dos trabalhadores estadunidenses, que durante décadas se acostumaram com o “American way of live”, conta muito nesse movimento que estamos verificando através da imprensa local.
Ainda assim, é preciso que fique registrado em nossos artigos que aquele país tem uma das mais baixas taxas de sindicalização do planeta: menos de 11% dos trabalhadores são sindicalizados e a maior parte desses é de funcionários públicos.
Mas as vantagens imediatas falam mais alto. Em um artigo que encontramos na Internet ficamos sabendo que os trabalhadores sindicalizados ganham 25,6% a mais que outros trabalhadores não sindicalizados, graças às negociações coletivas. Têm também cinco vezes mais chances de se aposentar. Mulheres negras sindicalizadas têm salários 25% maiores que as não-sindicalizadas. As diferenças salariais entre gênero e raça são menores em empresas onde há atuação sindical. Isso porque, onde os sindicatos podem pressionar os empregadores e negociar, há contratos coletivos e condições mais favoráveis aos trabalhadores.
Aliás, esse é um aspecto muito importante do sindicalismo estadunidense que, ao que já conhecemos de outras nações (Holanda, Finlândia, Suécia, etc.) apenas os trabalhadores sindicalizados são abrangidos pelos acordos assinados entre os sindicatos e as empresas.
Acreditamos que esse modelo é muito válido para o nosso caso, no Brasil. Durante mais de 40 anos trabalhei em sindicatos ou vinculado a sindicatos. Cansei de ouvir um argumento dos trabalhadores que não desejavam a sindicalização. Eles me diziam: “por que vou ser sindicalizado se ganho o mesmo que os que são e tenho as mesmas vantagens?”
Por outro lado, há uma prática comum nos EUA que aqui poderíamos classificar, de acordo com a Constituição Federal de 1988, como “prática antissindical”.
Entendemos como “práticas antissindicais” aquelas que, direta ou indiretamente, cerceiam, desvirtuam ou impedem a legítima ação sindical em defesa e promoção dos interesses dos trabalhadores. O comportamento é vedado pela Convenção nº 98 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e artigo 8° da Constituição da República Federativa do Brasil.
Consideramos também como prática antissindical a perseguição ou pressão das chefias contra oss trabalhadores que demonstram desejo de se aproximarem de seus sindicatos.
E nesse ponto vamos lembrar que, em 1986, surgiu no Brasil um livro que foi muito vendido, o “Manual da Guerrilha Trabalhista”, de um chileno chamado Júlio Lobos. Ele ficou rico fazendo palestras e cursos entre gerentes e corpo dirigente das empresas para ensinar como identificar e neutralizar os trabalhadores que defendiam os sindicatos e faziam propaganda de sindicalização.
Falo disso “de cadeira”, porque consegui fazer um desses cursos, quando morava em Volta Redonda, para saber o que esse crápula pensava. Foram 15 dias ouvindo esse canalha falar!
O subtítulo do seu livro dizia que era dedicado a “gerentes e supervisores”.
Ao contrário do que ele desejava, vimos um movimento de alto índice de sindicalizações no Brasil a partir de 1988. Vimos também que os sindicatos que despontavam eram os de setores médios dos trabalhadores (funcionários públicos, professores, bancários, etc.). Mas os que “puxavam” a resistência ao grande capital ainda eram os sindicatos operários, como os metalúrgicos do ABC.

“PRIMAVERA” SINDICAL NOS EUA? (3)
(Ernesto Germano Parés – 11 de fevereiro de 2022)
Vamos iniciar esta parte do artigo com uma “pincelada” interessante de história. Em pesquisas que fiz há bastante tempo encontrei que a primeira greve conhecida e realizada por trabalhadores nos EUA data de 1619! E aconteceu em Jamestown tendo sido realizada por artesãos poloneses. E a razão do movimento grevista foi política e não econômica.
Vamos lembrar que os EUA eram ainda uma colônia inglesa. Quando ocorreram as primeiras eleições por lá esses artesãos poloneses reivindicaram o direito de votar, negado pela Grã-Bretanha que só permitiu o voto para cidadãos ingleses. A resposta deles foi que não trabalhariam até terem o direito de voto e foram vencedores, conquistando esse direito! Interessante, não é?
Voltando ao nosso tema central, como dissemos na primeira parte do artigo, é muito difícil fazer uma comparação entre o movimento sindical estadunidense e o brasileiro, porque as legislações são bastante diferentes. E, para início de conversa, é preciso saber que os grandes sindicatos dos EUA contratam e treinam lobistas que atuam em Washington pressionando deputados e senadores a votarem questões importantes para seus sindicatos. Acabam fazendo um trabalho tão forte que, em época eleitoral, escolhem aqueles candidatos que vão indicar para suas bases votarem.
Outra grande diferença com o sindicalismo brasileiro é que há uma maior concentração de sindicatos. Por exemplo, os trabalhadores estadunidenses estão organizados em, apenas, quatro tipos de sindicatos: trabalhadores do comércio, trabalhadores da indústria, trabalhadores do setor público e profissionais liberais. Não existem, como aqui, vários sindicatos para trabalhadores da indústria, por exemplo.
Mais recentemente, ainda citando jornais estadunidenses, vimos que a maior parte dos sindicatos verdadeiramente atuantes estão no setor público (funcionários federais, estaduais e municipais, bombeiros, policiais, etc.).
Outra questão interessante de levantar aqui é que, muitas vezes, os interesses dos sindicatos de trabalhadores se confundem com os interesses dos empregadores e realizam campanhas comuns para pressionar o governo.
Como também já citamos, há pesquisas que demonstram que o trabalhador sindicalizado nos EUA tem um salário superior ao não sindicalizado. Ou seja, o sindicato só faz acordo para os sindicalizados! Mas, como é a sindicalização por lá?
É aí que “a porca torce o rabo”! Há uma grande diferença entre os sindicatos. Em muitos deles os trabalhadores são considerados sindicalizados quando pagam uma mensalidade à entidade. Há também sindicatos que consideram associados os que participam dos fundos de pensão que são controlados por eles (falaremos disso em outro artigo). E há, mesmo, sindicato que considera associado o trabalhador que, durante o ano, tenha feito algum tipo de contribuição (por exemplo, comprou um adesivo do sindicato para colocar no carro)!
Por tudo isso, é muito difícil fazer uma comparação de números de trabalhadores sindicalizados aqui e lá.
Outra grande diferença é que lá, praticamente, existe apenas uma grande organização sindical que se aproxima das nossas centrais. Estamos falando da AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho e Congresso das Organizações Industriais), que foi fundada em 5 de dezembro de 1955 e representa quase 13 milhões de trabalhadores ativos e aposentados nos Estados Unidos e Canadá.
Mas a história (outra vez a história) nos mostra que a AFL-CIO nasceu da fusão da Federação Americana do Trabalho, criada em 1886 (mesmo ano da grande greve que condenou os mártires de Chicago e que se tornou o marco das comemorações do 1º de maio), e do Congresso de Organizações Industriais, criado em 1935.
Mais recentemente a AFL-CIO passou por um “racha” quando uma parte dos sindicatos se separou e criou um grupo próprio e hoje conhecido como Change to Win Organizing Center (CtW) , que reúne cerca de 3,5 milhões de trabalhadores.
Para exemplificar o que vem se passando no mundo do trabalho estadunidense vamos lembrar que a empresa Amazon, uma gigante com tentáculos em quase todo o planeta, tem mais de 500 mil funcionários e uma parte deles. O problema é que, recentemente, começaram a se organizar e exigir direitos semelhantes aos demais trabalhadores estadunidenses. E centram as suas ações contra Jeff Bezos, fundador da empresa e dono de uma fortuna estimada em quase US$ 193 bilhões.
No final do ano passado vimos notícias dando conta que os trabalhadores de um dos galpões da Amazon, na cidade de Bessemer, no Alabama, estavam se preparando para realizar uma assembleia onde aprovariam a decisão de sindicalização do setor. A reação da Amazon foi imediata e, seguindo a cartilha dos patrões, começou uma gigantesca campanha de terrorismo dentro e fora da empresa, para sufocar a iniciativa.
O jornal The Washington Post noticiou que a empresa colou cartazes nos banheiros com mensagens como “para onde vão as suas taxas?”. Questionavam o destino de parte dos salários no caso de sindicalização em massa. E os funcionários se sentem vigiados e ameaçados quando tentam realizar alguma reunião ou assembleia!

PRIMAVERA” SINDICAL NOS EUA? (4)
(Ernesto Germano Parés – 14 de fevereiro de 2022)
No artigo anterior lembramos que a primeira greve registrada nos EUA aconteceu em 1619. Mas há uma longa lista de movimentos de trabalhadores depois daquela data. Um movimento que merece o nosso registro aconteceu em 1791 quando os carpinteiros da Filadélfia resolveram entrar em greve por melhores condições de trabalho. O resultado foi, em 1792, a criação do primeiro sindicato de trabalhadores naquele país e, principalmente, o início das primeiras negociações coletivas com os patrões para corrigir salários.
É claro que os patrões iriam reagir. Em 1806, depois de um movimento grevista vitorioso, a “justiça” estadunidense considerou os grevistas “irresponsáveis e perigosos”. O resultado é que os sindicatos se tornaram ilegais naquele país.
Apenas vinte anos depois, em 1827, surge o Sindicato das Associações de Mecânica da Filadélfia. E apenas em 1852 vai surgir, no Cincinnati, a União Tipográfica Internacional (UIT), que usava a palavra “internacional” porque reunia tipógrafos dos Estados Unidos e do Canadá e era um dos primeiros a admitir mulheres como membros.
A partir de então temos uma longa série de perseguições e julgamentos contra sindicatos e seus líderes. Exemplo mais claro dessas perseguições foi o processo contra os oito líderes sindicais em Chicago, quando, em 1° de maio de 1886 teve início a Greve Geral que contou com a adesão de mais de um milhão de trabalhadores em todo o território americano. Os líderes foram condenados à forca e essa é a origem das comemorações da data: “dia de luta e de luto dos trabalhadores”.
A Federação Americana do Trabalho (AFL) surgiu em 1886, depois dos acontecimentos de Chicago, a partir de demandas por um “salário digno” padrão que permitiria a seus membros, bem como trabalhadores não sindicalizados, sustentar uma família e levar um padrão de vida “americano”, acima do que os trabalhadores europeus tinham então.
Ao longo do século XIX, a atividade sindical era quase exclusivamente uma prática de trabalhadores qualificados, não de diaristas ou empregados não qualificados.
A perseguição às organizações de trabalhadores continuou e, em 1959, em meio a escândalos de corrupção em sindicatos de caminhoneiros, mineiros, estivadores, entre outros, uma nova lei estabeleceu controles mais rigorosos sobre as relações entre sindicatos e empregadores sob a presidência de Dwight D. Eisenhower. Curiosamente, a nova lei dizia que os sindicatos deveriam realizar eleições secretas supervisionadas pelo Ministério do Trabalho. E a medida final: membros do Partido Comunista então existente naquele país eram proibidos de concorrer a cargos de liderança sindical (o capítulo do Partido Comunista foi declarado inconstitucional em 1965), e os sindicatos foram obrigados a apresentar relatórios financeiros anuais ao Departamento do Trabalho.
Mas o fato que nos chama a atenção para essa série de artigos é que, desde o século XIX, os sindicatos estadunidenses são também os administradores dos Fundos de Pensão dos trabalhadores. Isso significa uma verdadeira fortuna nas mãos dessas diretorias que investiam o dinheiro onde acreditavam dar mais lucro.
Sim, em uma primeira visão pensamos que os trabalhadores ganhariam com isso. Os Fundos investiam em ações lucrativas e todos os trabalhadores passavam a ganhar e ver suas aposentadorias “engordando”. Mas, como se trata do país que liderou o avanço do capitalismo mais ganancioso do planeta, esses Fundos de Pensão também se tornaram “armas”.
Há um filme muito interessante sobre a entrada da máfia nos sindicatos estadunidenses. Intitulado de “O Irlandês”, o filme de Martin Scorsese traz grandes atores da época e mostra o envolvimento dos grandes sindicatos de lá com a Máfia ítalo-estadunidense.
Personagem central do filme, Jimmy Hoffa era o presidente do poderoso Sindicato Internacional dos Caminhoneiros (IBT -International Brotherhood of Teamsters), que se tornou o maior dos EUA em número de filiados, alcançando cerca de 2,3 milhões de membros.
De acordo com a lei dos EUA, os sindicatos podiam administrar os ricos fundos de pensão de seus afiliados e essa era a grande fonte de poder e corrupção. Evidentemente, a Máfia ficou interessada nesses recursos e os seus gangsters começaram a participar da vida dos sindicatos, “ajudando” os chefões a se perpetuarem no poder, inclusive com a eliminação física de adversários internos.
Apenas para se fazer uma ideia do que significa isso, vamos lembrar o caso da Enron, uma das maiores empresas de energia dos EUA (explorava o gás natural) fundada em 1985! Mas, por problemas administrativos ou por roubo, mesmo, a empresa faliu em dezembro de 2001.
Por que estamos lembrando desse caso? Porque, na época, eu escrevi alguns artigos mostrando o golpe. A direção da empresa, vendo que estava em dificuldades financeiras, “convenceu” os dirigentes do Fundo de Pensões dos funcionários a investir em ações da própria empresa. Resultado: a empresa faliu, deixou uma dívida de 67 bilhões de dólares, milhares de trabalhadores sem empregos e... sem o Fundo de Pensão que foi todo investido na própria empresa!


“PRIMAVERA” SINDICAL NOS EUA? (FINAL)

(Ernesto Germano Parés – 15 de fevereiro de 2022)
No primeiro texto desta série de artigos dissemos que, aparentemente, há um crescimento no número de sindicalizações de trabalhadores nos EUA, em particular entre as camadas mais jovens.
Essa informação provocou algumas surpresas e recebemos sugestões de fazer uma comparação entre o número de sindicalizados nos EUA e no Brasil. Mas, como dissemos ao longo da série, essa é uma tarefa complicada pois as legislações são muito diferentes. Mas, reafirmamos que é um fato que o índice de sindicalização entre os trabalhadores estadunidenses já alcançou 11% e tem uma tendência de crescimento.
Outro fator que dificulta a comparação e que deve causar algum espanto entre os companheiros que estão lendo o artigo é o número de sindicatos existentes nos dois países. Como dissemos antes, lá existe um sindicato para os trabalhadores da indústria em geral. Mas, vamos aos números que causam um impacto: pela pesquisa que fizemos, atualmente, os EUA possuem cerca de 130 sindicatos! Sim, 130 sindicatos. No Brasil temos, aproximadamente, 16.300 sindicatos registrados e reconhecidos pelo Ministério do Trabalho!
Junto com a Argentina, o Brasil já chegou a ter um dos maiores índices de sindicalização, beirando os 27% de trabalhadores ativos. Em 1990, época de grande crescimento na atividade sindical brasileira, enquanto beirávamos os 30% de sindicalizados a França, por exemplo, tinha apenas 9,8%; a Espanha tinha 11%.
Uma comparação bastante curiosa é analisarmos por setores de produção. Em 2019, por exemplo, na atividade da Agricultura (compreendendo pecuária, produção florestal, pesca...) o saldo é muito bom. Empregando cerca de 9,1% da população ocupada brasileira, alcançou índices de 19,4% de trabalhadores sindicalizados!
Para fazer uma comparação, o setor de comércio (incluindo reparação de veículos automotores e motocicletas) que empregava 18,9% da população ocupada apresentava um índice de apenas 7,4% de sindicalização!
Os números do IBGE mostram também que os empregados com carteira assinada no setor privado e os empregados no setor público (inclusive servidor estatutário e militar) registraram as taxas de sindicalização mais elevadas, respectivamente, 14% e 22,5%.
E, neste ponto, devemos chamar a atenção para o que aconteceu na década de 1980 quando surgiram e cresceram enormemente os sindicatos ditos “de classe média”. Funcionários públicos que antes não tinham esse direito, bancários, professores, etc. Esses sindicatos apresentaram crescimento impressionante nos anos 80!
Continuando nossa análise, reparamos que entre 2018 e 2019, as quedas mais acentuadas da taxa de sindicalização ocorreram entre os empregados no setor privado sem carteira de trabalho assinada, de 16% para 14%; os empregados no setor público (inclusive servidor estatutário e militar), de 25,7% para 22,5% e os empregadores, de 12,3% para 10,3%.
A Indústria Geral passou de 15,2% para 13,5%, o equivalente 150 mil sindicalizados a menos, mesmo com a população ocupada tendo crescido em 380 mil pessoas. A queda foi ainda mais forte em relação a 2012, quando 21,1% dos trabalhadores da indústria eram sindicalizados.
Simplificando para demonstrar os efeitos do desemprego e das novas formas de exploração (precarização do trabalho, trabalho intermitente, informalidade, etc.) entre 2012 para 2019, os sindicatos perderam 3,8 milhões de filiados no Brasil, segundo dados da Pnad Contínua, divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2019, das 94,6 milhões de pessoas ocupadas no país, 11,2% ou 10,6 milhões de profissionais eram associados a sindicatos. É a menor taxa de sindicalização desde o início da série histórica, em 2012. Naquele ano, 16,1% da população ocupada era sindicalizada ou 14,4 milhões de profissionais.
Em 2020 escrevi uma série de artigos a que dei o nome de “Sindicalismo na Encruzilhada”. Naquela série procurei mostrar todos os efeitos dessas novas formas de exploração que deixam uma parte grande de trabalhadores sem condições de sindicalização.
Basta dar um exemplo, para mostrar isso. Nas últimas décadas passou a ser muito comum as grandes empresas, inclusive estatais, utilizarem trabalhadores de empresas chamadas “terceiras”. Foi a terceirização em massa e que levou a um fenômeno pouco analisado: a quarteirização! Isso mesmo, algumas empresas tinham contratos com tantas “terceiras” que era preciso contratar uma “quarta”, ou seja, uma empresa especializada em administrar as “terceiras”. Parece conversa de maluco, mas acontece muito. E esses trabalhadores? Vão poder se sindicalizar? A resposta é não! Nossa legislação ainda patina no reconhecimento de sindicatos de trabalhadores em empresas terceirizadas!
Espero ter contribuído para o debate a partir do que acontece nos EUA.

FONTE
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segunda-feira, 2 de maio de 2022

O SINDICATO DOS TRABALHADORES DA AMAZON E O DESPERTAR DA CLASSE TRABALHADORA AMERICANA * Ulien Arseneau / USA

O SINDICATO DOS TRABALHADORES DA AMAZON E O DESPERTAR DA CLASSE TRABALHADORA AMERICANA
O SINDICATO DOS TRABALHADORES DA MAZON E O DESPERTAR DAS CLASSE TRABALHADORA AMERICANA

Uma onda de sindicalização nos Estados Unidos está empolgando e inspirando trabalhadores nos EUA e em todo o mundo. O primeiro armazém da Amazon em Staten Island, Nova York, agora é representado pelo sindicato independente Amazon Labor Union (ALO). Agora vemos o mesmo processo de sindicalização em dezenas de cafeterias Starbucks e seu início nas lojas da Apple, entre outros estabelecimentos.

“Em princípio, as condições econômicas transformaram a massa do país em trabalhadores. A dominação do capital criou nesta massa uma situação comum, interesses comuns. Assim, essa massa torna-se uma classe contra o capital, mas ainda não por si mesma. Na luta... essa massa se reúne, constituindo-se uma classe para si mesma. Os interesses que eles defendem tornam-se interesses de classe. Mas a luta de classes contra a classe é uma luta política.

Karl Marx, Pobreza da Filosofia . 1847

Uma onda de sindicalização nos Estados Unidos está empolgando e inspirando trabalhadores em todo o mundo. O primeiro armazém da Amazon em Staten Island, Nova York, agora é representado pelo sindicato independente Amazon Labor. Toda semana, dezenas de cafeterias Starbucks iniciam o processo de adesão ao Starbucks Workers United. Vemos o mesmo em um primeiro grupo de trabalhadores de uma loja da Apple para ingressar no Communication Workers of America. Houve 589 inscrições sindicais no National Labor Relations Board até agora em 2022, o dobro em comparação com os primeiros quatro meses de 2021.

Essas lutas para organizar são todas parte do mesmo processo. A crise do capitalismo está esmagando os trabalhadores e eles estão começando a revidar. Eles entendem cada vez mais que só podem contar com seus próprios meios.

Os Estados Unidos são a nação capitalista mais poderosa do mundo. O socialismo não pode alcançar a vitória sem o sucesso da classe trabalhadora americana. As lutas que estamos vendo agora são apenas o começo do despertar desse colosso que mudará o curso da história.

Nada vem do nada

Os trabalhadores americanos sofreram reveses constantes por décadas. Enquanto a produtividade cresceu 70% entre 1979 e 2019, os salários cresceram apenas 12% no mesmo período. Não surpreendentemente, isso coincide com um declínio no movimento sindical. A filiação sindical caiu de 20,1% em 1983 para escassos 10,5% em 2018. Os trabalhadores são cada vez mais explorados, enquanto as principais organizações através das quais se defendem diminuíram.

A juventude carrega o peso da crise. Os “Millennials” e a “Geração Z” – os nascidos nos últimos 40 anos – nada sabem da era de ouro do capitalismo. Empregos precários são a regra. As casas são impossíveis de comprar e os aluguéis estão subindo. A taxa de sindicalização é mais baixa entre os jovens: 9,4% entre os 25 e 34 anos e míseros 4,2% entre os 16 e 24 anos.

O COVID-19 atingiu uma classe trabalhadora já espremida como um limão. As vendas online dispararam com a pandemia, colocando os trabalhadores da Amazon sob enorme pressão: os funcionários tiveram que fazer xixi em garrafas para acompanhar. Os trabalhadores de serviços de repente se tornaram "heróis", "trabalhadores essenciais", mas ficaram com salários de fome e condições cada vez piores. Os trabalhadores americanos estão entre os mais estressados ​​do mundo: 57% relatam estar estressados ​​diariamente, em comparação com uma média global de 43%.

Acrescente a isso a taxa de inflação atual, que atingiu 8,5% nos EUA, um recorde histórico em décadas. Então, quem não recebe um aumento de 8,5% está recebendo um corte salarial. Enquanto isso, os CEOs receberam bônus recorde de US$ 14,2 milhões em 2021!

Esse coquetel de salários em queda, piora das condições, inflação e aumento da desigualdade estava destinado a causar uma explosão mais cedo ou mais tarde.

mudança de consciência

Uma mudança na consciência dos trabalhadores e jovens nos Estados Unidos tem sido evidente há algum tempo. Nós comentamos muitas vezes nos últimos anos sobre as muitas pesquisas mostrando o crescente interesse pelo socialismo e comunismo nos EUA.

Mas um fenômeno relacionado é o aumento da popularidade dos sindicatos. Apesar da baixa densidade sindical, a aprovação dos sindicatos é de 68%, o nível mais alto desde meados da década de 1960. Entre os 18-34 anos, o número é de 77%.

Não surpreendentemente, o entusiasmo pelas recentes iniciativas de organização também é alto. No caso da Amazon Labor Union (ALU), 75% dos americanos concordam que os trabalhadores da Amazon precisam de um sindicato. Esse número sobe para 83% entre os jovens de 18 a 34 anos e chega a 71% entre os apoiadores de Donald Trump! O entusiasmo atinge todos os estratos da classe trabalhadora, além da habitual divisão partidária na política americana. Também mostra que muitos apoiadores de Trump poderiam ser atraídos por políticas baseadas em classes, se houvesse um verdadeiro partido dos trabalhadores nos EUA para defender tais políticas.

Os recentes movimentos de organização demonstram o que os marxistas vêm dizendo há muito tempo. Quantas vezes ouvimos dizer que a política de classe está morta porque “a classe trabalhadora mudou”, ou pior, que não existe mais? Sim, no tempo de Marx havia operários, mineiros, mas hoje “é diferente”? Claro, não é preciso muita percepção para perceber que a classe trabalhadora mudou muito em 150 anos. O setor de serviços, varejo e entretenimento em particular, explodiu nas últimas décadas.

Mas a mesma velha dinâmica da luta de classes também chegou a esses setores. Trabalhadores de restaurante, trabalhadores de varejo, trabalhadores de armazém, trabalhadores de tecnologia, todos eles vendem sua força de trabalho por salários, a mais-valia é arrancada de suas costas e eles começam a perceber a necessidade de se defender contra a ganância de seus clientes. Isto é o que estamos vendo agora. Para citar Karl Marx, é assim que os trabalhadores passam de uma classe “em si” para uma classe “para si”.

O que está acontecendo nos Estados Unidos desmente todos os cínicos que abandonaram a classe trabalhadora. Algumas pessoas disseram que os empregos na indústria de fast food não eram sindicalizáveis, por exemplo. As estatísticas parecem provar que os opositores estão certos, já que a taxa de sindicalização no serviço de alimentação é de apenas 1,2%. Além disso, as principais federações sindicais parecem ter abandonado esses trabalhadores, buscando organizar em sua maioria grandes locais de trabalho e, ao fazê-lo, gerar grandes quantias de contribuições sindicais.

E, no entanto, a campanha Starbucks Workers United está se fortalecendo. Mais de 200 locais de trabalho estão em processo de votação sindical desde a primeira vitória em Buffalo. Bastou um bom exemplo para fazer a bola rolar!

A luta na Amazônia é particularmente emblemática da versão da luta de classes do século 21. Aqui temos Jeff Bezos, o segundo homem mais rico da história da humanidade, enfrentando uma campanha sindical independente liderada por Chris Smalls, um ex-funcionário da Amazon demitido em 2020 por entrar em greve para protestar contra a falta de proteções contra o COVID. -19. Foi até revelado que os executivos da Amazon queriam que Chris Smalls se tornasse o rosto do esforço de sindicalização da Amazon porque achavam que ele "não era nem inteligente nem eloquente". Seu desprezo saiu pela culatra espetacularmente.

Também aqui fomos levados a acreditar que a sindicalização na Amazon não era possível. O Washington Post disse no ano passado, após a fracassada campanha de sindicalização no armazém Bessemer:

“Os trabalhadores hoje podem dirigir a uma hora de distância e não é tão fácil chegar até eles. A própria produtividade que torna a Amazon economicamente atraente para se organizar deixa pouco tempo para os trabalhadores fazerem uma pausa e fazer amizade com seus colegas de trabalho, construindo redes sociais que os sindicatos podem acessar.

Essas são desvantagens estruturais que o sindicato pode enfrentar em qualquer instalação da Amazon visada. Portanto, embora o nome da cidade possa ser diferente em futuras campanhas de organização, o resultado pode ser muito semelhante.”

O Sindicato dos Trabalhadores da Amazônia provou que todos os pessimistas e céticos estavam errados. Como resultado, mais de 50 lojas entraram em contato com a ALU desde a vitória em Staten Island!

Esses grandes eventos estão tendo repercussões além das fronteiras dos Estados Unidos. Um Starbucks em Calgary, Canadá, está tentando se juntar ao United Steelworkers. Os membros da Unifor distribuíram panfletos para organizar os armazéns da Amazon na Colúmbia Britânica, Ontário e Quebec, bem como no Canadá, fazendo referência explícita à vitória de Staten Island. O Canadá atualmente está atrasado em relação à radicalização da esquerda na classe trabalhadora americana. Mas não se engane: a inflação e a erosão salarial, o aumento dos aluguéis e a desigualdade também estão chegando ao país vizinho. E a classe trabalhadora também se mobilizará no Canadá, mais cedo ou mais tarde.

lições

Não é apenas o próprio fato da sindicalização na Amazon, Starbucks e afins que interessa aos marxistas. Mais do que isso, é a forma como esses resultados são alcançados que deve ser assimilado pelos ativistas trabalhistas.

Os trabalhadores da Amazon sofreram uma derrota no ano passado em Bessemer, Alabama. Mas a campanha de organização não incluiu demandas concretas. Nessas condições, não surpreende que centenas de trabalhadores estivessem céticos.

A mesma dinâmica parece ter sido replicada na campanha de organização da Amazon do ano passado em Alberta pelo Teamsters Local 362. Os trabalhadores relataram que era difícil encontrar organizadores sindicais para responder às suas perguntas, com o vice-presidente local dizendo: "Nós não estamos aqui ." para receber seus US$ 30. Estamos aqui para ajudar a melhorar o local de trabalho, ver se podemos negociar aumentos salariais mais altos... Não podemos garantir nada a vocês." Vimos melhores exemplos de inspiração!

A campanha de Staten Island contrastou fortemente com essa abordagem. A ALU apresentou abertamente demandas ousadas: um salário de precisamente US$ 30 por hora, e dois intervalos pagos de 30 minutos e uma hora de almoço paga. Assim, a campanha ofereceu a promessa de resultados tangíveis, em vez de simplesmente se concentrar em conseguir um sindicato. Ao contrário de um equívoco comum, exigir mudanças pequenas e “razoáveis” não é mais realista. Pelo contrário: os trabalhadores não correrão riscos e gastarão tempo e esforço lutando por pequenas e inúteis mudanças. Mas eles vão lutar por demandas ousadas que valem a pena.

O que também diferencia a campanha da ALU é sua natureza de base. O presidente do sindicato, Chris Smalls, ex-funcionário demitido por tentativas anteriores de organização, acampou perto do armazém JFK8 de Staten Island por 10 meses. Ele e Derrick Palmer, um funcionário do armazém, tiveram tempo para conversar com os trabalhadores, engajá-los e responder suas perguntas. A campanha foi financiada por meio de uma campanha de arrecadação de fundos online, GoFundme, que arrecadou US$ 120.000, em comparação com os US$ 4 milhões que a Amazon gastou lutando contra a ALU. Um artigo do The City explica bem como os dois líderes construíram o movimento:

“Enquanto Smalls passa a maior parte de seus dias fora do JFK8 ou no ponto de ônibus, Palmer continua trabalhando dentro do prédio de quatro andares, conversando com os trabalhadores e indo para a sala de descanso durante seu tempo livre para avaliar o apoio. trabalhando no setor de embalagem...

Ambos os homens, e um punhado de outros organizadores, passaram as últimas semanas ligando para todos os trabalhadores do JFK8 que são elegíveis para votar nas próximas eleições sindicais: cerca de 8.300 funcionários.

Alguns dos trabalhadores contatados por telefone pediram para se encontrar pessoalmente com os organizadores para discutir o esforço de sindicalização. Os trabalhadores que têm dúvidas geralmente se concentram nas taxas sindicais e em como trabalham, disse Smalls.

"Uma vez que respondemos às suas perguntas, é fácil convencê-los porque eles entendem que a Amazon está dando informações falsas."

Os trabalhadores não aceitaram simplesmente as táticas antissindicais da Amazon. Em reuniões antissindicais obrigatórias, os trabalhadores interrompiam os consultores para desacreditar seus argumentos mentirosos. Os trabalhadores ainda coletaram informações sobre os consultores e distribuíram panfletos que os identificavam com fotos para que os trabalhadores não falassem com eles! Os trabalhadores se recusaram a ser pressionados e responderam a cada golpe com métodos criativos que pegaram o patrão e seus agentes antissindicais altamente pagos de surpresa.

O próprio Smalls diz que sua campanha foi muito diferente das campanhas sindicais usuais: “Eles [sindicatos tradicionais] gostam de se organizar de forma diferente do que estamos fazendo. Estamos mais presentes. Você não vai encontrar outro presidente de sindicato que acampe por 10 meses.”

Muitas vezes, as campanhas sindicais são realizadas de forma burocrática, sem envolver as bases e sem enfrentar de frente as táticas sujas do empregador. Quase parece que os dirigentes sindicais não confiam nos trabalhadores. E, como vimos, muitas vezes eles se concentram apenas na própria organização, sem vinculá-la a demandas reais que possam inspirar os trabalhadores.

O que a campanha da ALU mostra é que o movimento trabalhista precisa desesperadamente reviver os métodos da democracia dos trabalhadores. Nas greves, nos piquetes, nas campanhas dentro do movimento operário, deve haver o máximo de espaço para os trabalhadores tomarem as coisas com as próprias mãos. O impulso da ALU mostra o que pode ser alcançado quando você engaja as bases e permite que os trabalhadores expressem sua criatividade, e quando você não tem medo de fazer reivindicações ousadas.

“ A revolução está aqui”

Tais foram as palavras de Chris Smalls após a vitória da ALU. Compartilhamos plenamente o entusiasmo desses ativistas que alcançaram o que muitas pessoas pensavam ser impossível. Os dirigentes dos principais sindicatos têm muito a aprender com os métodos de luta usados ​​nesta primeira vitória na Amazônia.

Com as greves dos professores em 2018 e 2019, o maior movimento de massa da história dos EUA após os eventos em torno de George Floyd em maio-junho de 2020, e o aumento das greves no outono passado (" Striketober "), a impressionante onda de sindicalização é uma continuação do retorno da classe trabalhadora americana. Eventos semelhantes também ocorrerão em Quebec e Canadá.

Não será uma linha reta, mas a própria experiência do sistema capitalista empurrará os trabalhadores para a luta. A inflação, que não vai acabar, tornará cada vez mais difícil para centenas de milhares de trabalhadores pagarem suas contas.

Escusado será dizer que os patrões não deixarão os trabalhadores se organizarem e lutarem sem resistência. Lutas de classes de proporções épicas estão se formando. Estamos apenas no início de um processo que levará cada vez mais pessoas à conclusão de que o próprio capitalismo deve ir e dar lugar a uma sociedade socialista onde seja dirigido por trabalhadores, e não por uma minoria de ricos.

Deixaremos a última palavra para um artigo da revista americana Newsweek , que chega à mesma conclusão dos marxistas:

“Os salários, o preço da compra de uma casa ou aluguel, os custos dos alimentos e a batalha para baratear os custos entre os empresários e o destino das empresas menores contra os oligopólios serão as questões definidoras. A política de classe que há muito domina a Europa está aqui para se vingar e permanecerá até que seja abordada.

Sob sua lápide em Hampstead Heath, Karl Marx deveria estar sorrindo."