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quarta-feira, 18 de março de 2026

ATO NACIONAL EM DEFESA DAS COTAS RACIAIS * EDUCAFRO/RJ

ATO NACIONAL EM DEFESA DAS COTAS RACIAIS
Ônibus saindo dos seguintes locais:

Ônibus Nova Iguaçu

Ônibus Caxias

Ônibus Parada de Lucas

Ônibus São Gonçalo

Ônibus Vigário Geral

Ônibus Niterói

Ônibus Centro Rio

Ônibus Araruama

Ônibus Campo Grande

Ônibus Taquara

Ônibus Cidade Alta

Ônibus São João de Meriti

Ônibus Petrópolis

VAMOS AVANÇAR E MUDAR A NOSSA HISTÓRIA!

Neste encontro, teremos a presença de vários movimentos sociais que lutal pela equidade racial a partir da educação!

Só falta confirmar a sua, trazendo um ônibus!

O contrato do ônibus e o lanche já estão garantidos!

*31 de março*
*14h*
*SAMBODRO do Anhembi – São Paulo*

Organize *de 1 a 3 ônibus ou mais* do seu bairro! Certo?
Segue o *formulário:

*O POVO NEGRO NÃO PODE RECUAR!*

Mais:
LINK PARA SE PRE-CADASTRAR 
*

domingo, 2 de fevereiro de 2025

DOSSIÊ LIBERTAÇÃO DA MULHER * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT - Brasil

DOSSIÊ LIBERTAÇÃO DA MULHER
*
SÓ HOJE

Hoje eu não vou pedir desculpa
Pois sei que não tenho culpa
Das mazelas dessa vida
Que me faz sentir perdida
Deixando as lágrimas rolar
Hoje vou dizer o que sinto.
Pode acreditar, não minto
Desistir do que não sinto
E enfim eu vou dançar.

Hoje eu vou dançar na chuva.
Cantar no meio da rua.
Hoje eu vou dizer que não.
Que agora não quero mais
Viver aquilo que dói
Essa dor que me destrói
Que não vou mais entregar
Emoção e coração
A quem não sabe amar.

Só hoje eu vou dizer
Que não me entrego
A quem não se entrega.
Que não vive o que prega
Que não insistirei no que magoa
Me virar numa leoa
Não ter mais uma paixão cega.

Só hoje não me calarei
Para nenhuma injustiça.
Vou dizer não a preguiça
E também a quem é injusto.
Hoje não vou levar susto
Hoje eu vou fazer de conta
De que dou conta de tudo
E no meu sorriso mudo
Sei que coragem terei
Vou dizer tudo o que sei
E que um dia eu serei
Dona do meu próprio mundo.

Só hoje vou assumir
A mulher que sempre fui
E que eu sempre serei
Ter o que eu desejei
E mostrar que tenho força
Minhas palavras não destorça
Pois o sangue em minhas veias.
Corre forte, serpenteia
E me traz a sensação
De que posso mudar o mundo
Pois o mundo
Mudo então.

Só hoje assumo que temo
E assumo que eu também caio
Como gatos num balaio
Faço um emaranhado
Das cores do meu viver
Porque o medo que eu tenho
É a coragem de ser
E que cair
É a véspera de crescer.

Porque quem nunca caiu

É porque nunca voou.
E só hoje eu digo
Não mais viver por viver
E nem andar por andar.
E vou terminar dizendo
Que não estou mais sofrendo
Que o que sobra no final
É somente o que se sente
E enfim...
É isso o que sou.

Sou a senhora do sol
E a menina da lua
Que contempla a pele nua
Que sonhou e se perdeu
Sou humana por inteiro
Cumpro o que é verdadeiro
Essa mulher é que sou eu.

Só hoje vou dizer verdades
Que derrubam potestades
Pois quando a mágoa às vezes
Chega a me partir ao meio
Piso fundo, solto o freio
Eu sou aquela que faz
Quando tem de se fazer
Vou a luta, enfrento a guerra
E luto por minha terra
Essa é a mulher que sei ser.


DÁ LICENÇA PRA CHEGAR


Eu nasci um anjo esbelto,
Já vim tocando trombeta
Escrevi numa tabuleta
E ali anunciei:
Vai saindo do caminho
E carregue seu espinho
Sou mulher, isso é o que eu sei.

Eu nasci pra ser guerreira
E vou levantar a bandeira
Da mulher independente
Altiva e inteligente
Que nunca vai arregar
Serei livre, escudeira
E pra nenhum macho
Minha cabeça vou baixar.

No mercado de trabalho
Vou garantir meu lugar
Pois não há cargo pesado
Pra quem sabe labutar
E o chamado sexo frágil
Vai se fazer respeitar .

Enfrentar os meus percalços
Sem nunca ter que mentir
Se sou feia ou sou bonita
A mim cabe decidir
Acho o estado de Goiás
Uma beleza especial
Com seus ipês amarelos
Outro chão não há igual.

Não creio em parto sem dor.
E o que sinto vou falar
Cumprindo bem minha sina
a sorrir e a trabalhar
Vou restaurando a linhagem
Das bruxas de além mar.

A dor não é amargura.
É antes uma lição
Se no caminho tem agrura
Bate forte o coração
Seja Joana ou Maria
Minha vontade de alegria
É a mais forte emoção.

Minha raiz é bem plantada
Minha palavra serpenteia
Pois o sangue em minha veia
É indígena, confortável
Vou mostrar para os machistas
Que mulher não é dobrável.

Professora Alba
poetisa do entorno.GO
-Alba Valéria da Silva-
*
La liberación de la mujer en el siglo xxi

30 de Enero de 2025, Caracas, Venezuela. .

La liberación de la mujer en el siglo XXI es un tema complejo y multifacético, con avances significativos pero también desafíos persistentes. A continuación, se presenta un texto sobre este tema: avances y desafíos

En el siglo el XXI, las mujeres hemos logrado avances significativos en muchos ámbitos, incluyendo la educación, el empleo, la política y la participación social. Sin embargo, la igualdad de género aún no la hemos alcanzado plenamente y persistimos desafíos importantes.

Avances:

• Educación: Las mujeres hemos superado a los hombres en tasas de matriculación en la educación superior en muchos países.

• Empleo: La participación laboral femenina ha aumentado, aunque persisten brechas salariales y segregación ocupacional.

• Política: El número de mujeres en cargos de liderazgo político ha aumentado, aunque todavía están subrepresentada.

• Participación social: Las mujeres hemos ganado visibilidad, voz y voto en la sociedad, participando activamente en movimientos sociales y debates públicos.

Desafíos:

• Violencia de género: La violencia contra las mujeres sigue siendo un problema global, incluyendo la violencia doméstica, el acoso sexual y el feminicidio.

• Discriminación: Las mujeres enfrentan discriminación en muchos ámbitos, incluyendo el empleo, la educación y la política.

• Brecha salarial: Las mujeres ganan menos que los hombres por el mismo trabajo en muchos países.
Techo de cristal: Las mujeres enfrentan barreras invisibles que les impiden alcanzar los puestos de liderazgos en las empresas y organizaciones. A pesar de estos desafíos, la lucha por la igualdad de género continua y se han logrado avances importantes, demostrando su capacidad y liderazgo, alcanzando elevar su voz para exigir igualdad y justicia, promoviendo la igualdad de oportunidades y el empoderamiento femenino.

MsC. Zulay J. Maestre G. Comunicación de la CBST-CCP/Venezuela
*
MULHER MEXICANA ANTIIMPERIALISTA
CLAUDIA SHEINBAUM
&
OUTRO MÉXICO
BIOGRAFIA DE GUERRILHEIRA
Martha Isabel Ardila.

Martha Isabel Ardila, conhecida pelo pseudônimo Mariana Páez, nasceu em 1962, em Bogotá, Colômbia e foi assassinada em 27 de fevereiro de 2009, em San Juan, Cundinamarca, Colômbia. Foi uma revolucionária, política e militante guerrilheira Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército do Povo (FARC-EP).

Ele pertencia à Juventude Comunista Colombiana (JUCO).

Ele se juntou às FARC-EP em 1989, durante o extermínio da União Patriótica.

Ela trabalhou como ideóloga e comandante do Bloco Oriental das FARC-EP dentro da Frente Antonio Nariño.

Participou do ataque a El Billar (Caquetá) e da captura de Miraflores (Guaviare) em 1998.

Ela era a única mulher no Estado-Maior das FARC-EP.

Ela foi morta em 27 de fevereiro de 2009, durante a Operação Fuerte, junto com outros 11 companheiros de guerrilha.

Resgatando a Memória Histórica.

Levante-se com aqueles que lutam! ! !

A única luta perdida é aquela que é abandonada! ! !

Só a luta nos libertará! ! !

Da Venezuela Terra dos Libertadores, 532 anos do início da Resistência Anti-Imperialista na América e 213 anos do início da nossa Independência.

Simón Bolívar Coordenador
Caracas - Venezuela
Janeiro de 2024.
*
Senhoras e mulheres
ROSA LUXEMBURGO
https://rosalux.org.br/

Começou em Berlim o Congresso Internacional da Liga daquelas mulheres que lutam pelos direitos das mulheres. Seria mais conveniente chamar esse Congresso de congresso de senhoras pois predominam claramente as representantes do belo sexo da burguesia, no máximo, da pequena burguesia.

Mulheres do povo trabalhador não participam de jeito nenhum. Não porque não tenha­m consciência política. Pelo contrário, as mulheres conscientes, que participam ativamente na vida política e na luta política, as mulheres com convicção socialista, evitam decididamente esse encontro e essa pretensa liga das mulheres porque não querem ter nada em comum com as senhoras e suas aspirações.

O que querem essas mulherzinhas reunidas em Berlim e que caráter têm suas aspirações? O movimento feminista no sentido de busca pela igualdade política entre mulheres e homens é já mais antigo e começou, sobretudo, na América. Isso foi no tempo em que a escravidão dominava nos estados do sul da América, de modo que as mulheres americanas que lutavam por seus direitos juntavam sua causa com a causa da libertação dos escravos. Corajosamente, elas entravam com a palavra oral e escrita em prol da abolição da escravidão abjeta, de modo que, quando em 1861, depois da guerra, a escravidão foi proibida na América e, quando, em 1888, o primeiro Congresso Internacional de Mulheres se realizou em Washington, ao lado da presidente [do Congresso] já bem idosa – uma lutadora pela igualdade dos direitos das mulheres – um escravo liberto falou com insistência em favor dessa igualdade.(1) Naquela época, o movimento feminista na América era permeado pela convicção de que a causa das mulheres estava estreitamente ligada à questão da mudança social em geral, de que a mulher não devia lutar apenas por seus próprios direitos e liberdade, mas também pela igualdade e fraternidade entre todos os seres humanos, pela abolição de toda desigualdade e de toda injustiça social.

Na Europa, na velha Europa burguesa, nunca o movimento feminista adquiriu caráter tão profundo e significativo. Ele foi desde o início exclusivamente um movimento das defensoras da “emancipação das mulheres”, isto é, daquelas estranhas mulheres burguesas que não conseguem compreender minimamente a conexão entre a situação das mulheres na sociedade atual e as condições sociais gerais. Para essas defensoras da “emancipação das mulheres”, o acesso das mulheres às Universidades, andar de bicicleta, a obtenção do direito de voto das mulheres para os parlamentos, ensinar floricultura e trabalhos manuais às meninas, debater sobre o melhor modo de educar as crianças, usar roupas confortáveis etc. tinham e continuam tendo a mesma importância. A senhora burguesa entediada, cansada de seu papel de boneca ou de cozinheira do marido, corre, caprichosa, para todos os lados, em busca do espetáculo que preencha o vazio de sua vida e de sua mente.

Por isso não é surpresa que, apesar do poderoso grito de combate lançado pelas mulherzinhas reunidas em Berlim, ninguém as leve a sério. Elas são visitadas tanto pelo sorridente chanceler Bülow, que recentemente insultou as jovens estudantes russas em Berlim, quanto pela esposa do imperador, conhecida por sua devoção à Igreja, e pelo ministro Conde Posadowsky, esse notório reacionário. E a imprensa burguesa descreve com grande pompa tanto os movimentos como também a aparência dessas senhoras. Elas proclamam bem alto o princípio da igualdade política entre mulher e homem, um princípio cuja realização significaria pôr a ordem burguesa de ponta-cabeça, ou seja, derrubá-la, mas a burguesia se curva gentilmente diante das senhoras barulhentas, pois sabe muito bem qual é o jogo de todo esse movimento de mulheres.

A mulher consciente do povo trabalhador observa com a devida seriedade e um sorriso desdenhoso esse “Congresso das mulheres”. Para ela está claro que, enquanto a burguesia dominar, a igualdade de direitos entre mulher e homem é uma quimera. O capitalismo introduziu faz tempo, para as mulheres proletárias, a igualdade de direitos na miséria, no trabalho, na exploração. A trabalhadora da cidade e do campo não precisa primeiro andar de bicicleta, de qualquer modo ela não pode frequentar a universidade, para alcançar alguma igualdade de direitos com o homem. No sofrimento da labuta pelo pão quotidiano para si e seus filhos, ela se equipara ao seu companheiro. A causa do proletariado lutando para melhorar sua existência tornou-se sua causa. Hoje a mulher do povo trabalhador só pode encontrar o caminho da sua emancipação no movimento sindical e no movimento socialista. E só o movimento socialista pode levar a igualdade de direitos a todo o mundo das mulheres. Assim que a classe trabalhadora vitoriosa tiver eliminado a exploração e a repressão dos seres humanos por outros seres humanos, também a longa dominação do sexo masculino sobre o da mulher chegará ao fim. A emancipação das mulheres não começa nos “Congressos de mulheres”, recebidos no mundo burguês com um sorriso indulgente e depreciativo, mas nos congressos de trabalhadores socialistas que os ministros, chanceleres e a imprensa burguesa olham com ódio sombrio escondido no coração.
*

A LIBERTAÇÃO DA MULHER SEGUNDO LÊNIN
Nadezhda Krupskaya

No curso de suas atividades revolucionárias, Lênin frequentemente escreveu e falou sobre a emancipação da mulher trabalhadora no geral e da mulher camponesa em particular. De fato, a emancipação da mulher é inseparavelmente ligada à toda a luta pela causa dos trabalhadores, pelo socialismo. Nós conhecemos Lênin como líder do povo trabalhador, como organizador do partido e do governo soviético, como um lutador e edificador. Toda mulher trabalhadora, toda mulher camponesa deve saber sobre tudo o que Lênin fez, cada aspecto de seu trabalho, sem se limitar ao que Lênin disse sobre a posição da mulher trabalhadora e sua emancipação. Mas, porque existe aí uma estreita conexão entre toda a luta da classe trabalhadora e a melhora da posição da mulher, Lênin muitas vezes – em mais de quarenta ocasiões, na verdade – se referiu a essa questão em seus discursos e artigos, e cada uma dessas referências estava inseparavelmente atrelada a todas as outras coisas que eram de interesse e que lhe preocupavam no momento.

Desde os primeiros dias de sua carreira revolucionária, o camarada Lênin prestou especial atenção à posição da mulher trabalhadora e camponesa com a intenção de atraí-las para o movimento operário. Lênin realizou seu primeiro trabalho revolucionário prático em São Petersburgo (agora Leningrado), quando ele organizou um grupo de socialdemocratas que veio a ser extremamente ativo entre os trabalhadores de São Petersburgo, publicando folhetos ilegais e os distribuindo nas fábricas. Os panfletos eram usualmente endereçados aos homens trabalhadores. Naquele momento, a consciência de classe das massas trabalhadoras ainda estava pouco desenvolvida, em especial a das mulheres trabalhadoras. Elas recebiam salários bastante baixos e seus direitos eram flagrantemente violados. Assim, os panfletos eram usualmente dirigidos aos homens (os dois panfletos endereçados às mulheres trabalhadoras da fábrica de tabaco Laferm foram exceções). Lênin também escreveu um folheto para os trabalhadores têxteis da Tornton (em 1895) e, embora as trabalhadoras fossem majoritariamente atrasadas, ele intitulou o folheto de “Aos trabalhadores e trabalhadoras do tear de Tornton”. Isso é um detalhe, mas bastante importante.

Quando estava no exílio, em 1899, Lênin trocou correspondências com a organização do partido (o Primeiro Congresso ocorreu em 1898) e mencionou os assuntos sobre os quais ele desejava escreve na imprensa ilegal. Esses incluíam um panfleto chamado “Mulheres e a Causa dos Trabalhadores”. Nesse panfleto, Lênin pretendida descrever a posição das mulheres trabalhadoras das fábricas e das mulheres camponesas, e lhes mostrar que a única salvação para elas era através de sua participação no movimento revolucionário, e que apenas a vitória da classe trabalhadora traria a emancipação às mulheres operárias e camponesas.

Escrevendo em 1901 sobre as mulheres que tomaram parte da defesa de Obukhov, sobre o discurso proferido pela trabalhadora Marfa Yakovleva no tribunal, Lênin disse:

“A memória de nossos heroicos camaradas assassinados e torturados até a morte na prisão irá multiplicar por dez a força dos novos lutadores e irá despertar milhares para mobilizar-se em seu auxílio, e como Marfa Yakovleva, de 18 anos, irão dizer abertamente: ‘Nos levantamos por nossos irmãos!’. Ademais da repressão da polícia e dos militares contra os participantes nas manifestações, o governo pretende processá-los por rebelião; nós retaliaremos através da união das nossas forças revolucionárias e ganhando para nosso lado todos que sejam oprimidos pela tirania do czarismo, e através da preparação sistemática para a rebelião de todo o povo!” [CW, Vol. 5, p. 248-9]

Lênin realizou um estudo minucioso da vida e das condições de trabalho das mulheres operárias, camponesas e mulheres empregadas nas manufaturas.

Enquanto estava na prisão, Lênin estudou a posição do campesinato conforme revelado por relatórios estatísticos; ele estudou a influência das manufaturas, o arrastamento dos camponeses para as fábricas e a influência exercida pelas fábricas em sua cultura e modo de vida. Ao mesmo tempo, ele estudou todas essas questões do ponto de vista do trabalho das mulheres. Ele ressaltou que a psicologia proprietária camponesa aloca sobre as mulheres um fardo de trabalho duro desnecessário e sem sentido (cada mulher camponesa de uma grande família limpando apenas a pequena parte da mesa na qual ela se alimenta, cozinhando alimentos separados para suas próprias crianças e ordenhando uma vaca apenas na justa medida do leite que sua própria criança necessita).

Em seu livro O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, Lênin descreveu de que modo os criadores de gado exploram as mulheres camponesas, como os mercadores-compradores exploram as mulheres que tecem rendas; ele mostrou que a indústria em larga escala emancipa a mulher e que o trabalho na fábrica amplia suas perspectivas, as torna mais cultas e independentes e as auxilia a quebrar os grilhões da vida patriarcal. Lênin disse que o desenvolvimento da indústria em larga escala criaria as bases para a completa emancipação da mulher. Característico, a esse respeito, é o artigo de Lênin “Uma grande conquista técnica”, escrito em 1913.

A classe trabalhadora, nos países burgueses, deve lutar por direitos iguais para homens e mulheres.

No exílio, Lênin devotou muito de seu tempo à elaboração do programa do partido. Nessa época, o partido não tinha programa algum. Havia apenas um esboço de programa, compilado pelo grupo da Emancipação do Trabalho. Examinando este programa em seu artigo “Um esboço de programa de nosso partido” e comentando o ponto 9 da parte prática do programa, que demandava “a revisão de toda a nossa legislação civil e criminal, abolição das divisões em estamentos e das punições incompatíveis com a dignidade do homem”, Lenin escreveu que seria bom adicionar aqui: “completa igualdade de direitos para homens e mulheres”. [CW, Vol. 4, p. 239]

Em 1903, quando o programa do partido foi adotado, essa cláusula foi incluída nele.

Em 1907, em seu informe no Congresso Internacional de Stuttgart, Lênin notou com satisfação que o congresso condenava as práticas oportunistas dos socialdemocratas austríacos que, na condução da campanha por direitos eleitorais para os homens, adiavam a luta por direitos eleitorais para as mulheres para “um momento posterior”.

O governo soviético estabelece plena igualdade de direitos para homens e mulheres.

“Nós, na Rússia, não mais temos a baixa, má e infame recusa de direitos às mulheres ou desigualdade dos sexos, essa repugnante sobrevivência do feudalismo e do medievalismo que está sendo renovada pela burguesia avarenta em todos outros países do mundo, sem exceção”. (negrito do Cem Flores)

Em 1913, estudando as formas da democracia burguesa e expondo a hipocrisia da burguesia, Lênin inclusive lidou com o problema da prostituição e mostrou como, enquanto encorajavam o tráfico de escravas sexuais e o estupro de garotas nas colônias, os representantes da burguesia, ao mesmo tempo, hipocritamente fingiam estar em campanha contra a prostituição.

Lênin retornou a essa questão em dezembro de 1919, quando escreveu que a América “livre, civilizada” estava agenciando mulheres para bordéis nos países vencidos. [CW, Vol. 30]. Em estreita conexão com esta questão, Lênin examinou a questão da gravidez e escreveu indignadamente acerca do apelo de alguns intelectuais aos trabalhadores para que praticasse o controle de natalidade, uma vez que suas crianças estavam condenadas à pobreza e à privação. “Esta é uma perspectiva pequeno-burguesa”, escreveu Lênin. Os trabalhadores têm uma visão diferente. As crianças são nosso futuro. Quanto à pobreza e etc., isso pode ser remediado. Estamos lutando contra o capitalismo e, quando conquistarmos a vitória, nós iremos construir um futuro brilhante para nossas crianças…

E, finalmente, em 1916-17, quando ele podia ver que a revolução socialista se aproximava e estava ponderando quais seriam os elementos essenciais da construção do socialismo, e como atrair as massas para essa construção, ele salientou particularmente a necessidade de atrair as mulheres trabalhadoras para o trabalho social, a necessidade de habilitar todas as mulheres para o trabalho em benefício da sociedade. Oito de seus artigos escritos neste período lidaram com tal questão, a qual ele liga à necessidade de organizar a vida social, sob o socialismo, sobre novas linhas. Lênin viu uma conexão direta entre isso e a atração dos setores mais atrasados das mulheres para o trabalho de dirigir o país, a necessidade de reeducar as massas para o presente processo de trabalho social.

O trabalho social ensina a arte do governo.

“Nós não somos utópicos”, Lênin escreveu antes da Revolução de Outubro. “Nós sabemos que um trabalhador não-qualificado ou uma cozinheira não podem, imediatamente, assumir o trabalho da administração estatal. Nisso concordamos com os Cadetes, com Breshkovskaya e com Tsereteli. Nós diferimos, entretanto, desses cidadãos, uma vez que nós demandamos uma imediata ruptura com a visão preconceituosa de que somente o rico, ou funcionários escolhidos de famílias ricas, são capazes de administrar o estado, de desempenhar o trabalho ordinário e cotidiano da administração. Nós demandamos que o treinamento no trabalho de administrar o estado seja conduzido por trabalhadores e soldados com consciência de classe, e que esse treinamento comece imediatamente, isto é, que um começo seja feito imediatamente no treinamento de todo o povo trabalhador, todos os pobres, para esse trabalho”.

Nós sabemos que o governo soviético tem feito tudo o que pode para atrair as mulheres trabalhadoras da cidade e do campo para o trabalho da administração. E nós sabemos que grandes sucessos temos obtido nessa frente.

Lênin saudava calorosamente o despertar das mulheres do leste soviético. Uma vez que ele atribuía uma importância particular à elevação do nível das nacionalidades que tinham sido oprimidas pelo czarismo e pelo capitalismo, é bastante compreensível porque ele saudava calorosamente a conferência de delegadas do Departamento de Mulheres (Zhenotdel) das regiões e repúblicas soviética do Leste.

Abordando as conquistas do Segundo Congresso da Internacional Comunista, Lênin sublinhou que “o Congresso irá fortalecer os laços com o movimento comunista de mulheres, graças à conferência internacional de mulheres trabalhadoras convocada ao mesmo tempo”. [CW, Vol. 31]. Em outubro de 1932 nós presenciamos o 15º aniversário do poder soviético e sintetizamos nossas conquistas em todas as frentes, incluindo a da emancipação das mulheres.

Nós sabemos que as mulheres assumiram um papel bastante ativo na Guerra Civil, que muitas delas morreram em ação, mas muitas outras foram temperadas na batalha. Algumas mulheres foram condecoradas com a Ordem da Bandeira Vermelha pelo papel ativo que desempenharam na luta pelos sovietes durante a Guerra Civil. Muitas antigas combatentes agora ocupam importantes postos. As mulheres têm sido persistentes em aprender a conduzir o trabalho social.

Conferências de delegadas são uma escola de trabalho social. Em 15 anos, quase 10 milhões de mulheres delegadas passaram por essa escola.

Ao tempo em que nós assistimos ao 15º aniversário da Revolução de Outubro, de 20% a 25% dos representantes dos sovietes das vilas, comitês executivos dos distritos e sovietes da cidade são mulheres. Haviam 186 mulheres membros do Comitê Executivo Central de Toda a Rússia e do Comitê Executivo Central da URSS. Nesse trabalho elas atingem patamares cada vez mais elevados.

O número de mulheres membros do Partido Comunista também tem sido firmemente crescente. Em 1922 havia apenas 40 mil, mas em outubro de 1932 o número excedia 500 mil.

Muito progresso foi feito recentemente na satisfação da orientação de Lênin a respeito da completa emancipação da mulher.

Nos últimos anos, a indústria de larga escala tem se desenvolvido em um tremendo ritmo. Está sendo reorganizada sobre as bases da moderna tecnologia e organização científica do trabalho. A emulação socialista e o movimento dos “trabalhadores de choque” que agora tem sido amplamente adotado estimula uma nova atitude comunista em direção ao trabalho. E é preciso dizer que as mulheres não estão atrás dos homens nisso. Todos os dias nós vemos mais e mais trabalhadoras de linha de frente que apresentam grande energia e perseverança no labor. O trabalho não é algo com o que as mulheres tenham que se habituar: sob o antigo regime, as vidas das mulheres eram repletas de um contínuo, interminável trabalho, mas era o tipo de trabalho menosprezado e tedioso, sob a marca da servidão. E agora esse treinamento para o trabalho e perseverança no trabalho colocam as mulheres na linha de frente dos construtores do socialismo e heróis do trabalho.

A coletivização da agricultura era de maior importância para a emancipação das mulheres. Desde o primeiro momento, Lênin considerou a coletivização da agricultura como uma forma de reorganizá-la em marcos socialistas. Ainda em 1894, em seu livro “Quem são os amigos do povo”, Lênin citou as palavras de Marx segundo as quais, depois que a “expropriação dos expropriadores” é atingida, isso é, quando os senhores de terras são desapossados de suas propriedades fundiárias e os capitalistas de suas fábricas, os trabalhadores livres estarão unidos em cooperativas e será estabelecida a propriedade comunal (“coletiva”, como Lênin explicou) da terra e dos meios de produção que eles criem.

Na sequência da Revolução de Outubro, que marcou o começo da “expropriação dos expropriadores”, o governo soviético levantou a questão de organizar artéis[1] e comunas agrícolas. Em 1918 e 19, atenção particular foi depositada nisso, mas muitos anos passaram (como Lênin havia previsto) antes da coletivização se tornar extensiva e se enraizar profundamente. Os anos da Guerra Civil, quando a luta de classes varreu o país, o progresso do poder soviético nas vilas, a ajuda, a assistência cultural prestada pelo governo soviético ao interior – tudo isso preparou terreno para a coletivização, que está se desenvolvendo e crescendo cada vez mais forte na luta contra os kulaks.

A agricultura camponesa de pequena e média escala algemava as mulheres, as atava ao cuidado individualizado no lar e estreitava seus horizontes; elas eram, de fato, escravas de seus maridos, que muitas vezes as agrediam cruelmente. A agricultura de pequena escala pavimentava o caminho para a religião. Os camponeses costumavam dizer: “Cada homem por si e Deus por todos”. Lênin citou esse ditado em muitas ocasiões, uma vez que expressava perfeitamente a psicologia dos pequenos proprietários. A coletivização transforma o camponês de um pequeno proprietário em um coletivista, mina o isolamento camponês e o freio da religião e emancipa a mulher. Lênin disse que o socialismo, por si, traria a emancipação para as mulheres. Suas palavras agora estão se tornando verdade. Podemos ver como a posição das mulheres mudou nas fazendas coletivas.

O Congresso dos agricultores coletivos de primeira-linha, realizado no meio de fevereiro, é uma evidência contundente do progresso realizado no cultivo coletivo da terra. Há agora 200.000 fazendas coletivas, em comparação com as 6.000 que tínhamos antes. O Congresso discutiu a questão sobre o melhor modo de organizar o trabalho nas fazendas coletivas. Havia muitas mulheres na delegação. Sopina, uma agricultora coletiva da região de Chernozem Central, fez uma ótima fala que evocou aplausos estrondosos. Quando a mulher camponesa tem acesso aos desenvolvimentos da fazenda coletiva, ela cresce em estatura, aprende a governar e a lutar resolutamente contra os kulaks, o inimigo de classe…

A religião está perdendo terreno. Agora, as mulheres das fazendas coletivas vêm à biblioteca e dizem: “Você sempre me dá livros que simplesmente dizem que Deus não existe. Eu sei disso sem ler livros. Dê-me um livro que me diga como e porque a religião surgiu e como e porque ela morrerá”. Nos últimos anos houve um tremendo crescimento de consciência política das massas. Departamentos políticos nas estações de máquina e tratores (cujos membros incluem organizadoras das mulheres) ajudará não apenas a consolidar as fazendas coletivas, mas também ajudará os agricultores coletivos, homens e mulheres, a se livrarem dos preconceitos que sobrevivem e do atraso cultural; a falta de direitos para as mulheres se tornará uma coisa do passado.

Dez anos se passaram desde o dia da morte de Lênin. Neste dia triste, devemos conferir o cumprimento das orientações de Lênin. Nós devemos sintetizar seus resultados. As orientações de Lênin no tocante à emancipação das mulheres têm sido cumpridas sob o comando do partido. Nós devemos continuar a avançar nesta trajetória.
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O COMUNISMO E A FAMÍLIA
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sábado, 9 de novembro de 2024

Incitação ao descumprimento dos direitos sociais * JORGE LUIZ SOUTO MAIOR/A Terra é Redonda

Incitação ao descumprimento dos direitos sociais
JORGE LUIZ SOUTO MAIOR*

Há muito a questão trabalhista deixou de ser um tema jurídico nas manifestações a respeito proferidas por ministros do Supremo Tribunal Federal

Os posicionamentos adotados pela maioria dos ministros do STF, em matéria trabalhista, são orientados por uma compreensão de cunho econômico de índole neoliberal que é, como se sabe, arredia à efetividade dos direitos sociais e, também, uma afronta ao projeto de Estado Social fixado na Constituição Federal.

Não se encontra um fundamento jurídico sequer em tais decisões. São sempre argumentos fincados em um sentimento pessoal marcado pela aderência aos interesses do poder econômico e por ofensas aos trabalhadores e trabalhadoras, à Justiça do Trabalho e ao Ministério Público do Trabalho.

A fragilidade dos argumentos jurídicos das decisões proferidas pelo Supremo no campo trabalhista tem proporcionado a proliferação de muitas críticas e até preservado uma postura judiciária com reiterados posicionamentos em sentido contrário.

Talvez por isso, Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes, tentando conferir fundamento para as posições assumidas pelos ministros do STF, resolveram trazer novos elementos argumentativos ao “problema”, mas, com isto, só conseguiram piorar a situação.

Inauguraram a fase da incitação ao descumprimento dos Direitos Sociais.

Em 12 de outubro de 2024, durante o II Fórum Esfera Internacional, em Roma, na Itália, falando a representantes do setor econômico (Eugenio Mattar – Localiza); Daniel Vorcaro – Banco Master; Flavio Cattaneo – ENEL; Roberto Azevêdo – Ambipar; Lucas Kallas – Cedro Participações; Alberto de Paoli – “Diretor de Resto do Mundo na Enel”; José Antônio Batista – Picpay; Fábio Coelho – Google; João Adibe – Cimed; Carlos Sanchez – Grupo NC; Wesley Batista – Grupo J&F; Rubens Menin – MRV, CNN Brasil e BancoInter; o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Luís Roberto Barroso, disse que as dificuldades que os empresários enfrentam no Brasil é resultado de uma “legislação trabalhista complexa e, muitas vezes, desatualizada”.

Sem demonstrar, de forma específica, o que seria a tal complexidade e, também, se esquecendo, sintomaticamente, que a legislação trabalhista sofreu recentemente enormes alterações, todas elas, inclusive, atendendo as demandas do setor empresarial, Luís Roberto Barroso foi além e praticamente justificou o cometimento das ilegalidades por parte dos empregadores, afirmando que a “estrutura legal dificulta o cumprimento das normas”.

Para o ministro, se o empregador não cumpre a lei a culpa é da lei. Então, estaria dado a cada cidadão, a cada cidadã e a cada empresa do país o “direito” de deixarem de cumprir a lei sob a consideração subjetiva de ser ela “complexa”. Mais ainda, estaria possibilitada aos julgadores e julgadoras a prerrogativa de não aplicar uma lei com o argumento da sua “complexidade” ou da sua “desatualização”, como, aliás, vêm fazendo os ministros do STF nas questões relativas aos direitos trabalhistas, cabendo lembrar que, no que se refere ao tema trabalhista, o que estão “afastando” não são apenas leis, mas, sobretudo, normas integradas à Constituição Federal no Título dos Direitos Fundamentais.

E o pior é que preconizam isto em nome da “segurança jurídica”!

Segundo Luís Roberto Barroso, a visão antiquada e atrasada que ainda persiste em relação aos empresários e à livre iniciativa no Brasil é o que prejudica o desenvolvimento econômico e a inovação, criando um ambiente de insegurança jurídica que afasta investimentos e limita o crescimento do país. Sendo assim, basta dizer que se tem em mente uma visão não antiquada e não atrasada para que o agente esteja livre para deixar de aplicar a lei e a Constituição.

Além disso, para atrair investimentos e “promover o desenvolvimento econômico e a inovação”, o ministro oferece, de forma explícita, uma “segurança jurídica” para a quebra do pacto constitucional firmado em torno da dignidade humana; dos valores sociais da livre iniciativa; da prevalência dos Direitos Humanos; da construção de uma sociedade livre, justa e solidária; da erradicação da pobreza e da marginalização; da redução das desigualdades sociais; da promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação; da função social da propriedade; da ordem social baseada no primado do trabalho, tendo como objetivo o bem-estar e a justiça sociais; da ordem econômica fundada na valorização do trabalho humano, tendo por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social.

E nesta “missão” Luís Roberto Barroso não estava só. O acompanhavam, dentre outras, as seguintes autoridades: o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG); o presidente do Tribunal de Contas da União, Bruno Dantas; o ministro do STF, Dias Toffoli; o procurador-geral da República, Paulo Gonet; o ministro da Justiça da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski; o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira; o senador Davi Alcolumbre (União-AP); o senador Ciro Nogueira (PP-PI); o deputado federal Dr. Luizinho (PP-RJ); a embaixadora Carla Barroso; o embaixador Renato Mosca; o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues; o diretor comercial da Infraero, Tiago Chagas Faierstein; e o diretor da Agência Nacional de Transportes Terrestres, Lucas Lima.

Oportuno perceber o quanto este fato revela como o poder econômico internacional assume sua índole predatória e exploratória, notadamente, com relação aos países da periferia do capital.

No contexto desse estreitamento de laços entre o capital e as instituições públicas nacionais, o ministro Luís Roberto Barroso, em sua manifestação, mais do que justificar o descumprimento da lei, acabou por incitar o cometimento de ilegalidades no campo das relações de trabalho, atingindo, igualmente, a esfera dos crimes contra a ordem tributária, vez que as fraudes aos direitos sociais representam modalidade de sonegação fiscal, em termos de tributos e contribuições sociais, o que, de certo modo, nos remete ao conteúdo do art. 286 do Código Penal.

E o efeito tributário das ilegalidades trabalhistas é, por certo, de pleno conhecimento dos ministros do STF, como demonstrado, inclusive, na fala do ministro Alexandre de Moraes, expressa na sessão de julgamento do dia 22 de outubro.

Novamente instingando uma confusão entre terceirização e “pejotização”, Alexandre de Moraes, para o delírio da grande mídia ávida por fake news em matéria trabalhista, assim se expressou: “A terceirização: naquele momento todos concordam em assinar, até porque se paga muito menos imposto do que pessoa física. Depois que é rescindido o contrato aí vem a ação trabalhista. Só que, e talvez, se a jurisprudência começasse a exigir isso nós não teríamos tantas reclamações. Aquele que aceitou a terceirização e assinou contrato quando é rescindido o contrato e entra com a reclamação ele deveria também recolher todos os tributos como pessoa física. Aí talvez nós não tivéssemos mais ou o primeiro problema, aceitar a terceirização, ou o segundo, entrar com a reclamação. Porque é algo que não, eu diria, bate no final, porque, na Justiça do Trabalho acaba ganhando a reclamação, só que recolheu todos os tributos lá atrás como pessoa jurídica e depois ele ganha todas as verbas como pessoa física. Ou é pessoa jurídica ou pessoa física. Ou terceirizou, ou não terceirizou…”

Trocando em miúdos, o ministro sabe que a “pejotização”, mal referida por ele como “terceirização”, gera o pagamento de impostos a menor.

Só que isto, primeiro, não é um “benefício” que atinge apenas o trabalhador, como sugerido. A empresa que se vale dos serviços de uma pessoa natural por meio da formalização de um contrato com a pessoa jurídica criada por aquela mesma pessoa, é “beneficiada” de diversas formas, seja pelo não cumprimento das regras de proteção trabalhista, incluindo o FGTS, que possui uma relevante função social; seja pelo recolhimento a menor de vários tributos e contribuições sociais.

Em segundo lugar, não se trata, propriamente, de uma opção que as pessoas natural ou jurídica tenham, a de recolher, ou não, na integralidade, os tributos e as contribuições sociais. A incidência tributária decorre de lei e implica obrigações das quais os atingidos não podem simplesmente fugir, ainda mais buscando estratégias fraudulentas para tanto. De fato, constitui crime a prática de quaisquer formas de se tentar impedir a aplicação das obrigações tributárias.

Nos termos da Lei n. 8.137/90, que define os crimes contra a ordem tributária, econômica e contra as relações de consumo, os atos que visam suprimir ou reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório, são definidos como crimes e são identificados, dentre outras, nas seguintes condutas: (i) omitir informação, ou prestar declaração falsa às autoridades fazendárias; (ii) fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou omitindo operação de qualquer natureza, em documento ou livro exigido pela lei fiscal; (iii) falsificar ou alterar nota fiscal, fatura, duplicata, nota de venda, ou qualquer outro documento relativo a operação tributável; e (iv) elaborar, distribuir, fornecer, emitir ou utilizar documento que saiba ou deva saber falso ou inexato (art. 1º).

Estabelece, ainda, que constitui crime da mesma natureza: (a) fazer declaração falsa ou omitir declaração sobre rendas, bens ou fatos, ou empregar outra fraude, para eximir-se, total ou parcialmente, de pagamento de tributo; (b) deixar de recolher, no prazo legal, valor de tributo ou de contribuição social, descontado ou cobrado, na qualidade de sujeito passivo de obrigação e que deveria recolher aos cofres públicos (art. 2º).

Além disso, como expresso por André Gustavo Souza Fróes de Aguilar, no texto “Pejotização: fraude, riscos tributários e criminais para empregados e empregadores”, vários outros são os tipos penais aplicáveis à situação em que se tenta, por meio da “pejotização”, evitar o integral pagamento de tributos e contribuições sociais.

Conforme elucida André Fróes Aguilar, “não cabe aos particulares decidirem quanto à existência ou não de relação empregatícia, assim como não lhes é possível afastar os efeitos tributários decorrentes das relações que estabelecem, conforme o disposto no artigo 123 do Código Tributário Nacional – CTN (Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 – publicada no DOU de 27 de outubro de 1966 e retificada no DOU de 31 de outubro de 1966)”, que assim dispõe: “Art. 123. Salvo disposições de lei em contrário, as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, para modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes.”

Na “pejotização”, que é, como se sabe, a transformação artificial de uma pessoa natural em uma pessoa jurídica, para gerar a impressão de que não há trabalho executado pelo(a) trabalhadora(a) e sim um serviço prestado por sua empresa individual, o que se promove é uma autêntica tentativa de burlar a incidência tributária, pois as notas fiscais emitidas pela pessoa jurídica constituem, na verdade, recibos remuneratórios.

Além disso, a transformação artificial de uma pessoa natural em pessoa jurídica se encaixa perfeitamente na hipótese fixada no inciso I do art. 1º da Lei n. 4.729/65, constitui crime de sonegação fiscal, “prestar declaração falsa ou omitir, total ou parcialmente, informação que deva ser produzida a agentes das pessoas jurídicas de direito público interno, com a intenção de eximir-se, total ou parcialmente, do pagamento de tributos, taxas e quaisquer adicionais devidos por lei”.

Da mesma forma, nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n. 4.502/64: “Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: (1) da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; (2) das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente”.

“Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento.”

“Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos artigos. 71 e 72.”

E vale insistir: o trabalhador não impõe à empresa contratante a condição de que só aceita o serviço se for perante o disfarce da pessoa jurídica. É a empresa contratante que, detendo o poder econômico e o império da lei da oferta e da procura, determina qual será a forma de contratação, sendo, portanto, responsabilidade integral sua o cometimento da prática ilícita.

No entanto, Alexandre de Moraes, desconsiderando a realidade; desprezando o conjunto de normas jurídicas aplicáveis à situação concreta em que a “pejotização” se apresenta comprovadamente como uma forma de burlar a aplicação da legislação trabalhista, previdenciária e tributária; e fazendo vistas grossas aos efeitos punitivos, inclusive de ordem criminal, ao ardil praticado, enxerga a situação apenas como uma oportunidade para expressar uma espécie de reprimenda moral pública à conduta do trabalhador, chamando-o, com outras palavras, de falso, desonesto ou hipócrita, para, com isto, tornar legitimas e justificadas todas as ilegalidades cometidas pela empresa contratante.

Na lógica do ministro, uma vez que o trabalhador auferiu o benefício indevido de pagar um imposto a menor, deve ser punido com o não recebimento de direitos trabalhistas. Uma lógica, portanto, que remete ao período da anomia jurídica do “olho por olho” e que implica no efetivo descumprimento do dever funcional de aplicar o direito aos fatos. Alexandre de Moraes afastou a aplicação das normas ao caso sob julgamento e, pior, manteve sem qualquer repercussão punitiva os diversos delitos cometidos pela empresa na fraude intentada contra os direitos trabalhistas, previdenciários e tributários.

A atitude, além disso, reflete um sentimento de punir o trabalhador pelo fato de ter acionado o Poder Judiciário, que, aliás, foi tratado pelo ministro como um “problema”, e isto é muito grave porque fere de morte o preceito básico da cidadania que é o direito constitucional de ação.

A campanha de Luís Roberto Barroso contra o que vem denominando de “conflitualidade excessiva” tem provocado uma autêntica ojeriza de ministros aos trabalhadores e trabalhadoras (reclamantes) em processos trabalhistas, como se fossem eles e elas, pelo simples fato de moverem a máquina judiciária do Estado, criminosos(as) ou, no mínimo, pressupostos(as) litigantes de má-fé, ao mesmo tempo em que se reserva às empresas a qualidade de vítimas inocentes, carregadas de todas as virtudes.

É importante perceber que esse modo de racionalizar as relações de trabalho está estritamente ligado aos argumentos que se utilizavam para justificar a escravização primeiro de indígenas, depois, em concomitantemente, de povo africanos traficados para o Brasil. O rebaixamento moral imposto aos trabalhadores e trabalhadoras está diretamente ligado ao sentimento de que pessoas negras e pobres podem ser exploradas sem qualquer limite e que sequer podem reclamar o respeito a seus Direitos enquanto seres humanos, ainda mais quando “aceitam” as condições que lhe são impostas pelo escravista, ou melhor, contratante.

O racismo, tragicamente, continua dominando as mentes da classe dominante no Brasil, em todas as esferas de atuação institucional e na vida privada em geral.

Para completar o quadro de atemorização relativo ao direito de ação, no dia 22 de outubro, o Plenário do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou, por unanimidade, a proposta de recomendação apresentada pelo presidente Luís Roberto Barroso, que regula, segundo expresso no documento, a litigância abusiva ou predatória, trazendo, em anexo, uma “lista exemplificativa de condutas processuais potencialmente abusivas”, todas elas (vinte ao todo) relacionadas à petição inicial, ou seja, nada que cuide da postura do demandado.

O Conselho Nacional de Justiça assume que os problemas estruturais do Judiciário (porque esta é uma das preocupações) serão solucionados com a inibição do acesso à justiça, deixando sem qualquer avaliação os devedores contumazes e agressores reincidentes e assumidos da legislação, notadamente na esfera trabalhista, para com isto, aliás, atender outra preocupação, a de liberar o setor econômico para se guiar sem qualquer limitação trazida na legislação social.

Tudo isto serve ao propósito, não disfarçado, de disseminar entre trabalhadoras e trabalhadores as sensações de impotência e de conformismo, gerando uma espécie de submissão consentida provada pelo desânimo e pelo medo de sofrer consequências ainda maiores caso reclamem.

Ao mesmo tempo, esta situação estimulada e legitimada pela mais alta Corte do Poder Judiciário, que repercute, por certo, nas demais instâncias, promove, entre os empregadores, a certeza de que não precisam mais de “reformas” na legislação para a retirada de direitos trabalhistas e o enfraquecimento dos sindicatos, pois, na prática, a legislação social não mais os constrange.

A ordem jurídica aplicável às relações de trabalho está lá consignada em diversos diplomas e, sobretudo, na Constituição Federal, mas é como se, na prática, não existisse.

Essa nova escalada de agressões aos Direitos Sociais revela ainda mais o sentimento que a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal possui com relação à classe trabalhadora e, por certo, o quanto está aliada aos interesses exploratórios e predatórios do poder econômico.

Ocorre que a instituição, Supremo Tribunal Federal, que está acima de seus integrantes, é a guardiã da Constituição e a este preceito os próprios ministros devem estar submetidos.

O massacre cometido pela maioria dos ministros do STF contra a classe trabalhadora é uma afronta à ordem jurídica e democrática. E se expressando por meio de uma cada vez mais agressiva inversão de valores, já está virando um caso de violência verbal explícita, atingindo, inclusive, a integridade de outras instituições republicanas, constitucionalmente asseguradas.

Parafraseando o próprio Alexandre de Moraes, se os ministros do STF aplicassem as leis e a Constituição Federal talvez não tivéssemos tanta sonegação e tanto desrespeito aos direitos sociais e trabalhistas. E, como ele próprio sugere, não há meio termo: ou se aplica, ou não se aplica!

*Jorge Luiz Souto Maior é professor de direito trabalhista na Faculdade de Direito da USP. Autor, entre outros livros, de Dano moral nas relações de emprego (Estúdio editores) [https://amzn.to/3LLdUnz]

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sexta-feira, 11 de outubro de 2024

AS PRIVATIZAÇÕES SÃO SAUDÁVEIS? * Luis Colato/Pueblo Combatiente

AS PRIVATIZAÇÕES SÃO SAUDÁVEIS?
Luis Colato

O que é privatizar um serviço público?

Trata-se de transferir esse serviço para um operador privado, que tem desde o momento da concessão a obrigação de o prestar em melhores condições para os beneficiários, sendo a base deste acordo uma compensação pelo mesmo, uma compensação que corresponde ao suposto melhor serviço .

A teoria nos oferece um panorama em que o operador privado é visto como um benfeitor.

O exemplo paradigmático da privatização no nosso país são as comunicações, que têm coberto praticamente toda a população, proporcionando uma cobertura que teoricamente atinge todo o território.

Por outro lado, o seu oposto é o transporte público, e todos sabemos que é um dos de pior qualidade do istmo, pelo seu custo mais elevado, pela sua má qualidade, pelo pior tratamento do utilizador, pela insegurança que acarreta nas deslocações. esses veículos, etc. [relatório/TAJAL].

No caso das comunicações, não é verdade que cubram completamente o território; por outro lado, os seus custos estão sobrevalorizados;
Consideremos agora as outras variáveis ​​que devemos observar em relação às privatizações.

Estas são sempre motivadas infalivelmente por razões político-económicas e não técnicas, respondendo a interesses abertamente político-partidários.

Assim, por exemplo, todas as privatizações realizadas pela Arena na década de 1990 foram um completo fracasso para os interesses estatais, uma vez que dividiram seus ativos com o único propósito de vendê-los não ao licitante que oferecesse o lance mais alto, mas ao bispo preferido do estado. círculo dominante da então arena dominante, o que resultou não só no empobrecimento do Estado salvadorenho em favor dos beneficiários dessas transações maliciosas, mas também na consequente contração do Estado, imposta pela doutrina Friedquiana, que promoveu a sua anulação , presente especialmente agora.

Não só o incapacitou, como promoveu o abandono total das obrigações constitucionais do Estado salvadorenho, deixando a sociedade salvadorenha entregue à sua sorte, que foi intencionalmente obrigada a mergulhar na violência social que, devido ao abandono do Estado, todos sofremos até agora.

Ao não cumprir os seus deveres contratuais sociais, o Estado permitiu o desenvolvimento das forças mais obscuras da sociedade salvadorenha, o populismo, as quadrilhas, o submundo e as gangues, que foi planejado de forma egoísta com o objetivo de favorecer novos investidores privados da segurança pública. que eles o ofereciam apenas para aqueles que podiam pagar por ele.

Podemos continuar a abordar a questão das pensões, da saúde e, claro, da educação, e em todos os casos descobriremos que os investimentos destinados a questões sociais têm como único objetivo o benefício pecuniário, razão pela qual em todos os casos falham.

Também em todas as latitudes, desde os Estados Unidos, a principal potência económica global, durante a pandemia, os seus cidadãos que então não tinham seguro de saúde – 30 milhões de americanos – foram abandonados à sua sorte; as consequências: os EUA foram o país com mais mortes por COVID [OMS/ONU].

Claro que também nisto cada cidade tem o que merece.

terça-feira, 30 de julho de 2024

PARIS DE CARTÃO POSTAL * Jéssica Stephan/Viento Sur

PARIS DE CARTÃO POSTAL

“Saia, as Olimpíadas são daqui a dois meses, você não tem nada para fazer aqui!” Com voz profunda, Fouad, voluntário da associação Enfants du Canal, cita as palavras ditas pela polícia às pessoas que viviam nas ruas e que se preparavam para evacuar à força. Ya en junio, un informe de las 104 asociaciones de solidaridad que forman el colectivo Revers de la médaille alertaba sobre la "limpieza social" que se estaba produciendo en vísperas de los Juegos Olímpicos de París: 12.500 personas habían sido desalojadas en la región parisina durante o ano passado.

Foram cerca de doze que discursaram, convidados por Revers de la médaille , às margens do Sena, em Paris, no dia 16 de julho. Refugiados, menores desacompanhados, moradores de rua, moradores de rua... Vozes e histórias diversas, mas todas descreviam uma situação que se deteriorou dramaticamente poucos dias antes da abertura dos Jogos.

E para Paul Alauzy, coordenador dos Médicos do Mundo, os poderes públicos estão ultrapassando os seus limites: “Podemos falar da fase final da limpeza social”. Nos dias 16 e 17 de julho, sete campos com mais de 500 pessoas foram evacuados. Entre eles estavam os últimos campos de migrantes no Canal Saint-Denis. “Dez dias antes dos Jogos, as autoridades estão em pânico”, diz Paul Alauzy. O governo e a prefeitura regional mantêm alguns lugares vagos na região de Île-de-France (capital e arredores, ndt) para acomodar os últimos evacuados.

A assistência evolui

“Durante um ano, a estratégia muito clara das autoridades consistiu em retirar da vida olímpica o maior número possível de pessoas consideradas indesejáveis, enviando-as para outras regiões através do sistema de bloqueio regional”, explica Paul Alauzy. Resultado da lógica de “desconcentração” aplicada desde 2015, acrescenta. As pessoas evacuadas dos seus acampamentos tiveram de cumprir "condições drásticas" para permanecer na Île-de-France: contrato de trabalho permanente ou contrato a termo certo de nove meses, domicílio na região... Uma pista de obstáculos

Abdi, refugiado em França há quase dois anos, pode atestar isso. Cerca de cem dias antes das Olimpíadas, quatro ônibus estacionaram em frente à casa ocupada em Vitry-sur-Seine onde ele também estava hospedado para levar seus ocupantes para outra região. “Recusei porque estou aguardando autorização de residência e passaporte da prefeitura e treinamento”, diz. Desde então, ele mora na rua. Laura é uma das dezenas de famílias ciganas que foram despejadas com urgência das terras pertencentes à autoridade intercomunitária da Comuna de Plaine, que as albergava. Ela mora com os filhos em um parque – as famílias, que venceram o recurso na Justiça Administrativa, ainda não foram realocadas.

Mudança de estratégia das autoridades

Por trás das dificuldades destas existências dispersas está a consciência de ser invisível. O objetivo continua o mesmo: “Relocar a miséria!”, diz Paul Alauzy, para mostrar aos espectadores um “cartão postal de Paris”. Mas a mudança de estratégia às vésperas dos Jogos é flagrante. Estão agora a enviar os evacuados para "locais tampão" criados pela Drihl (direcção regional e interdepartamental de alojamento e habitação) em toda a região de Île-de-France. Alguns desses locais funcionam como centros administrativos de recepção e exame de situações administrativas (CAES), administrados pela prefeitura regional, com avaliação da situação dos imigrantes. Numa nota interna de junho, que o L’Humanité pôde consultar, Drihl anunciou 539 vagas de “recepção” para famílias e 224 vagas para solteiros em ginásios e hotéis sociais. A maioria desses locais foi inaugurada em 1º de julho.

Le Revers de la médaille identificou 3.000 lugares em hotéis sociais - alugados pelo Estado para pessoas em situação precária - eliminados na região de Île-de-France em 2023 para que os hotéis pudessem retomar as suas atividades turísticas. Em junho, o grupo pediu às autoridades públicas que dessem um “passo qualitativo” no cuidado aos sem-abrigo. Sem resultado. A duração do alojamento também foi restringida. Com consequências, conforme descrito por três mães da República Democrática do Congo que agora enfrentam as dificuldades de mudar constantemente de alojamento. Longe vão os períodos renováveis ​​de um mês no mesmo alojamento, o que permitiu estabilizar a situação ao mínimo e matricular as crianças numa escola próxima. Todas as semanas havia mudanças: "De manhã tivemos que sair com todos os nossos pertences. Perambulamos pela cidade para dormir. E não sabemos o que vai acontecer conosco durante as Olimpíadas. Poucos dias antes Durante os Jogos, as acomodações foram realocadas. Eles ficam abrigados por trinta dias em "locais tampão" na região de Île-de-France, locais explicitamente "não perenes", segundo nota interna de Drihl. Outra forma de esconder a miséria enquanto duram os Jogos.

Os campos são evacuados e o espaço público também se torna inóspito para evitar a sua deslocalização. No Quai de Jemmapes (relativamente perto, por exemplo, do Centro Pompidou), “mesas de piquenique e uma nova barcaça” foram montadas no dia seguinte à evacuação, relata Paul Alauzy. Na Galerie de l'Ourcq (no Parc de la Villette), onde um acampamento foi evacuado em 16 de julho, será instalada uma estação Vélib' (aluguel de bicicletas) para facilitar o acesso à área de festas de la Villette do Parque. Na ponte Stains, em Aubervilliers (Seine-Saint-Denis), colocaram blocos de cimento que parecem peças de Lego. Embora os campos não sejam uma solução de abrigo, as evacuações levam a um isolamento social ainda maior e distanciam os evacuados das associações (que lhes prestam assistência).

Quando solicitado a carregar a chama olímpica, Pierre, cofundador da associação BubbleBox, que constrói chuveiros móveis para moradores de rua, refugiados e imigrantes, “hesitou em dizer não”. Mas aceitou para o bem dos beneficiários e dos activistas da associação. “Se eu carreguei a chama, foi para eles, porque eles têm a chama e a carregam todos os dias. Essa chama ilumina, aquece, ateia fogo, nunca se apaga”. Migrantes, refugiados, trabalhadores sem documentos, menores não acompanhados, profissionais do sexo... todas estas pessoas invisíveis esperam que as suas histórias nos ajudem a tomar consciência da situação. Le Revers de la médaille planeja fazer um balanço dos Jogos Olímpicos em setembro. Pierre conclui: “Esperamos poder desfrutar dos Jogos sem que a celebração seja ofuscada pelo tratamento indecente de seres humanos vulneráveis ​​e excluídos”.