domingo, 16 de junho de 2024

POESIA BRASILEIRA DE COMBATE III * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

POESIA BRASILEIRA DE COMBATE III


EMERSON XAVIER

 FASCISTA

Não há diálogo possível com fascistas,
Não há negociação que se possa fazer.
Não podemos dar espaço a fascistas,
Pois fascistas destroem toda espécie de prazer.
Não devemos abraçar fascistas;
Sentar à mesa com eles,
Nem pensar.
Fascistas são o mal encarnado,
E com eles não podemos brincar.
Para lidarmos com fascistas
Temos que ter coragem:
Colocarmos todos eles para correr,
Sem dó nem piedade.
O fascismo tem na brutalidade 
O seu modo de ser,
Existindo com perversidade,
Fazendo a morte acontecer.
Todo discurso de ódio é fascista
E todo fascista tem gosto por torturador.
Para acabarmos com o fascismo
Precisamos construir uma educação que eduque para o amor.
Então, companheiro,
Não faça de um fascista 
Um companheiro seu de viagem.
Venha para os braços do povo, que este te ajuda a ter coragem. 

Wladimir Tadeu Baptista Soares 
Cambuci/Niterói - RJ
Nordestino 
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FORA LIRA * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT


VIDA PREGRESSA

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A perversidade tomou conta do Brasil
Rudá Ricci

Tenho a impressão de que giramos a chave no Brasil. A perversidade, revestida de fundamentalismo religioso, foi além do imaginável com a PL do Estupro. Foi como um soco no estômago de quem tem um mínimo de empatia com a vida de crianças que sofreram abusos e atrocidades.

Ao ver o rosto impassível de Arthur Lira após encaminhar nebulosamente a votação simbólica da urgência deste projeto de lei da perversidade, veio à mente uma passagem de uma minissérie sobre Marco Polo. A cena se passa na segunda temporada desta série é uma das mais angustiantes que já assisti: Kublai Khan abraça a criança Zhao Xian e o sufoca até a morte. A criança representaria uma ameaça ao avanço do poder mongol no sul da China porque fazia parte da dinastia que acabava de ser destruída.
A repulsa que a cena causa tem relação direta com a PL do Estupro. A reação das mulheres que saíram às ruas em tantas cidades brasileiras na noite de quinta-feira, dia 13, um dia após o dia que o comércio comemora as vendas do dia dos namorados foi um alento, mas não limpou o gosto amargo que permanece na boca de quem não consegue entender como a maldade avança em nosso país com tanto desembaraço.
Acredito que tudo começou com o arrombamento da “Janela de Overton” a partir de 2015. Esta janela indicaria a tolerância de uma sociedade ou comunidade a respeito de comportamentos ou ideias que passam a ser aceitáveis. Em 2015, o Brasil sofreu um ataque de escroques que articularam ofensas gratuitas no parlamento brasileiro e que se somaram aos ataques em massa desferidos nas redes sociais. A fusão das duas frentes atordoou os setores progressistas que demoraram a reagir. O ataque que alargou os batentes da Janela de Overton brasileira envolveu um enorme investimento de setores empresariais. Somente entre janeiro de 2019 e agosto de 2021, período do desmando do governo Bolsonaro, onze canais bolsonaristas no YouTube, responsáveis por propagar fake news sobre as urnas eletrônicas e defender o governo federal, lucraram mais de 10 milhões de reais, segundo o TSE.

Segundo o Intercept Brasil, o governo Bolsonaro entregou mais de R$ 11 milhões ao Google, entre maio de 2019 e julho de 2020, para que o gigante da internet distribua anúncios do governo de extrema direita pela internet. Parte considerável desse dinheiro (até 68%, segundo o próprio Google) foi parar no bolso dos editores dos sites que veiculavam fake news.

A enorme manipulação da opinião pública disseminada por 7 anos seguidos gerou um esgoto informacional que quebrou parte dos limites morais que definia a identidade pública dos brasileiros.

Tenho para mim que o impacto desta quebra de limites morais foi tão significativo que atingiu a leitura dos segmentos democráticos organizados em partidos políticos. A convicção sobre a aliança necessária para se vencer o extremismo fascista no Brasil criou uma chancela para construção de uma amálgama estranho, desequilibrado, quase amorfo.

E é este cenário que liberou as maldades na Câmara dos Deputados. Não se trata de um parlamento majoritariamente conservador. O pensamento conservador, a começar pelos princípios do seu grande formulador, Edmund Burke, nunca rompeu com princípios morais básicos, de defesa da infância, por exemplo. O que temos no parlamento brasileiro não é conservadorismo, mas escárnio. Uma ambição política tão desmedida que não teme dizer seu nome em canais de TV à cabo, declarando que vão impor o fim do aborto “custe o que custar”, incluindo o futuro de crianças abusadas, o que criará um ciclo sem fim de sofrimento e segregação social.

Não há como respirar ar puro num país que não consegue conter mais a maldade dos fundamentalistas que colocam seu poder e ideário acima da vida e da humanidade. Não há como alimentar esperança num país em que fundamentalistas zombam de quem consideram que vivem à sua mercê.

No Império Mongol não havia o conceito de sociedade civil. Os mongóis eram caçadores e exploravam rebanhos, passando a maior parte da sua vida na sela de seus pôneis das estepes. Aprendiam a cavalgar e usar armas ainda com pouca idade. Autores, como o consagrado Reinhard Bendix, sugerem que as sociedades que foram dominadas pelo Império Mongol não conseguem, ainda hoje, consolidar uma democracia porque vivem sob o manto da violência e imposição das elites nacionais.
Não temos na nossa história qualquer vínculo com o Império Mongol. Porém, o fundamentalismo desumano que toma conta da Câmara dos Deputados procura, de todas as formas, negar os princípios da sociedade civil e sufoca o futuro de muitas crianças brasileiras. Um basta seria pouco para este tipo de ataque à democracia e humanidade em nosso país. É preciso algo grandioso para restabelecermos as bases da nossa Janela de Overton.
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sábado, 15 de junho de 2024

TODOS COM GLAUBER BRAGA CONTRA A FASCISTALHA * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

TODOS COM GLAUBER BRAGA CONTRA A FASCISTALHA

Pela quinta vez, a extrema direita pede a cassação do mandato de Glauber, sem nenhum motivo moral ou ético, ou seja, o que eles querem é calar o posicionamento combativo e coerente de Glauber na Câmara dos Deputados.

A conclusão é simples: querem calar Glauber, e isso representa um ataque às conquistas democráticas e uma perseguição política. Seus embates são necessários para a defesa dos direitos da população brasileira e de um projeto de soberania.

Com muita luta política, conseguimos arquivar quatro processos. Agora, Glauber e seu mandato coletivo enfrentam mais um processo. Vamos continuar lutando pelos direitos do povo brasileiro, pela manutenção dos bens públicos e pela nossa soberania. Glauber Braga tem um mandato necessário e lutaremos para mantê-lo! Contamos com você para estar ao nosso lado nessa luta contra a perseguição a Glauber!

Faça parte desta campanha. Assine e compartilhe! Chega de Perseguição Política!
#TôComGlauber #GlauberFica
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'O governo não está fazendo nada na reforma agrária, é uma vergonha', critica Stedil * Oscar de Barros/Pensar Piaui

'O governo não está fazendo nada na reforma agrária, é uma vergonha', critica Stedile

Dirigente do MST dá nota três à política de democratização da terra do governo federal

´Passados 14 meses desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo “está em dívida” com a reforma agrária, afirma, em entrevista ao Joio, o economista João Pedro Stedile, dirigente e fundador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “É uma vergonha. Nós já estamos há um ano e meio, não avançamos. Desapropriação não avançou. O crédito para os assentados não avançou, nem o Pronera [Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária]”, critica, durante conversa em uma tarde fria de São Paulo, na Secretaria Nacional do movimento.

Apoiador de Lula, o MST atuou fortemente para a eleição do petista em 2022. Stedile reforça a necessidade de seguir na defesa do presidente frente aos “seus inimigos” que, segundo ele, são as multinacionais, o capital financeiro, o latifúndio “predador e parte do agronegócio. “E nós queremos defendê-lo frente aos seus inimigos. Agora, o governo como um todo está aquém da nossa expectativa, da classe trabalhadora em geral”.

Na entrevista, Stedile conta que a principal conquista do MST, que completou 40 anos de vida em janeiro deste ano, é dar dignidade aos sem-terra. Explica a mudança programática do movimento, que nasceu defendendo uma “reforma agrária clássica” e hoje defende uma “reforma agrária popular”, e o que acredita serem os três modelos de agricultura existentes no país hoje: “um dos trabalhadores e dois do capital”.

O economista afirma, também, que a questão entre a agricultura familiar e o agronegócio, não é uma incompatibilidade de tamanho e propriedades, mas sim uma incompatibilidade de modelo. “Lamentavelmente, pela natureza do atual governo do Lula, de composição de classe no governo, não tem consciência dessas diferenças, dos interesses e das contradições. Já perdi a paciência de ouvir ministro dizer que não há incompatibilidade entre a agricultura familiar e o agronegócio. O agronegócio usando agrotóxico é incompatível com o vizinho de dez hectares que não usa, porque ele vai contaminar, vai matar a biodiversidade”, explica.

Confira a entrevista na íntegra:

Você pode fazer um balanço dos 40 anos do MST e das suas principais conquistas: para além dos números de assentados, cooperativas, agroindústrias, poderia falar sobre as conquistas simbólicas, ideológicas e de educação?

É muito difícil fazer um balanço que seja abrangente. Eu não me atreveria a dar essa manchete. Eu acho que o principal aspecto é que nós conseguimos construir um movimento popular, de camponeses muito pobres. Que, com a sua luta, conquistaram a dignidade. O sem-terra, depois que entra no MST, começa a caminhar com a cabeça erguida. E caminhar. O sem terra peão, o sem terra assalariado, o sem terra meeiro é um servo. Ele sempre está subjugado, não só pela exploração do seu trabalho, mas também pelas relações sociais.

Então, o MST, eu acho que ele recuperou uma parcela muito grande da população brasileira do campo que, em geral [são pessoas], que sempre foram excluídas, que são herdeiras dos 400 anos de escravidão e são herdeiros de um campesinato que não conseguiu terra. Então, se fosse para resumir numa só palavra, eu diria que o MST, nesses 40 anos, recuperou a dignidade dessas pessoas.

O segundo aspecto – que também nós valorizamos muito – é que o movimento sempre trabalhou as relações sociais e a família. Nós não somos um movimento de homens adultos. Nós somos o movimento de todos. Desde o início do MST, as mulheres participaram, os mais idosos, as crianças, os jovens. Então, as formas como nós atuamos levaram a que toda a família se incorporasse em alguma atividade. Isso é muito importante porque vai mudando as relações sociais na própria família. E também nós incorporamos no nosso modus operandi a valorização de aspectos culturais e da culinária e das músicas que, em geral, pela hegemonia urbana da televisão, sempre eram relegados. Para quem vive no campo, então, foi como um ressurgimento, uma revalorização do que é a cultura no campo, desde a comida, a música, os seus saberes e a própria religiosidade. E digo como autocrítica: a esquerda nunca deu muita bola para a religiosidade. Como nós somos um movimento de camponeses, que teve desde o início muita influência da Teologia da Libertação, isso nos permitiu incorporar o respeito pela fé das pessoas, por suas práticas religiosas.

Também tivemos muitos avanços na economia. Deu para perceber que não bastava conquistar terra para sair da pobreza. Desde o início, estimulamos a organização das cooperativas, a organização das agroindústrias e, ao longo dos 40 anos, fomos também evoluindo para uma visão mais ampla da função social da agricultura. Na elaboração atual, nós consideramos fundamental, produzir alimentos saudáveis. Essa é a função da agricultura. Portanto, extrapola os meus interesses, os da minha família, os da minha comunidade ou do meu assentamento. A minha missão no mundo é produzir alimentos para os outros. E alimentos saudáveis que preservem a saúde das pessoas. E, portanto, nós combatemos desde sempre o uso de agrotóxicos. Mais recentemente, também incorporamos a visão de que é importante defender a natureza, porque o ser humano é parte dessa natureza. A sua saúde, a sua vida, as suas relações, dependem dessa interação com a natureza, sobretudo no meio rural. De início, a própria natureza nos ajudou a nos conscientizar, em função das mudanças climáticas, das tragédias que vêm acontecendo como contradições, das próprias agressões que o capital faz ao meio ambiente.

Evidentemente que, durante os 40 anos, também cometemos muitos erros e tivemos muitas dificuldades de organizá-lo. [Erros] que são sempre evidenciados pelos nossos inimigos, pelos latifundiários, pela direita que só criticam o MST. Mas nós não nos preocupamos com a crítica. Quando ela vem de aliados, nós procuramos entender e quando ela vem dos inimigos, nos dão a certeza que nós estamos no caminho certo. Porque nós temos interesses antagônicos entre a burguesia, o latifúndio e os trabalhadores.

Considerando que o Brasil perdeu oportunidades de fazer a reforma agrária e de a conjuntura ser tão adversa para o tema nesses últimos anos, a que você atribui o fato de o MST continuar sendo um movimento relevante?

É verdade que nunca houve reforma agrária no Brasil. E que os muitos projetos ou programas da reforma agrária que foram apresentados não se viabilizaram ou mesmo foram derrotados. Uma das causas é porque o programa de reforma agrária não pode ser separado de um projeto de país. Ele tem que fazer parte das mudanças gerais da sociedade. É por isso que, na minha opinião, o tempo histórico que chegamos mais próximo de fazer uma reforma agrária foi em 62 ou 64, quando a sociedade em crise do capitalismo industrial começou a debater um projeto de país, um projeto para o Brasil. E a forma de debater esse projeto de Brasil foi naquelas propostas de reforma de base, que abarcavam toda a vida socioeconômica do povo brasileiro. E, entre elas, tínhamos a reforma agrária, que não era uma bandeira só política ou de propaganda. Naquele período, nós fomos agraciados pela sabedoria do Celso Furtado, que elaborou um projeto de reforma agrária que foi histórico – e é até hoje, no meu modo de ver. Foi o mais radical do ponto de vista de mudanças que se propõem. Infelizmente, ele não se viabilizou por essa aliança empresarial-militar que os americanos projetaram para o Brasil. E as reformas não foram viabilizadas, nem a reforma agrária. E nós tivemos 20 anos de ditadura militar que recolocou a economia brasileira como uma mera colônia ou uma economia dependente do capital estrangeiro, mas sobretudo dos interesses dos Estados Unidos. Bem, mesmo em 2002, quando nós ganhamos eleições com Lula ou com a esquerda, a nossa vitória foi muito mais uma reação da população frente aos problemas que o neoliberalismo tinha provocado, do governo Fernando Henrique Cardoso e do [Fernando] Collor do que um projeto de país. O projeto de país que nós tínhamos, onde entrava a reforma agrária, foi em 89. Aí sim, aquele famoso programa democrático-popular que o Lula defendeu na campanha. Ele incluía a reforma agrária. E vinha de um processo de mobilização de massa, mas nós fomos derrotados pela conjuntura internacional. Derrotados pela força que a burguesia ainda tinha nos meios de comunicação e pelo poder econômico da burguesia.

Então, quando nós ganhamos eleição, em 2002, já era em outra circunstância, não havia um projeto de país e não havia o reascenso do movimento de massas, de maneira que o Lula se dedicou a resolver conflitos e o ritmo da reforma agrária. Desde sempre por não ter um programa de país e um projeto de reforma agrária, ele só avançou no tempo da pressão popular, das ocupações, das marchas. E, agora, apesar dessas derrotas como projeto de país, com o projeto de reforma agrária, que é a essência da tua pergunta, por que nós resistimos. É porque a causa é justa. E porque há uma necessidade socioeconômica que é real. Ainda há milhões de trabalhadores que vivem no interior ou trabalham na agricultura para o latifúndio, para o agronegócio, e ter autonomia sobre a terra é ainda uma solução.

Em termos conceituais, com a mudança do cenário no campo no Brasil vocês tiveram uma mudança programática. O que é para o MST a reforma agrária clássica, de inspiração mexicana, e o que é a reforma agrária popular, que hoje vocês defendem?

No senso comum das pessoas, ou mesmo da academia brasileira que nunca se dedicou a estudar a reforma agrária, ela é um genérico que serve para tudo. No entanto, na história recente da humanidade, desde quando começou a se utilizar essa expressão, houve muitos tipos de reforma agrária, de acordo com a luta de classes, com a história de cada país. Durante a pandemia, acabei me dedicando a um projeto que já tinha há anos na cabeça, estimulado por amigos intelectuais orgânicos de movimentos camponeses do mundo inteiro. Organizei aquela coletânea “Experiências históricas de reforma agrária no mundo” que sistematiza os vários tipos de reforma agrária.

Aqui no Brasil, a elaboração teórica mais precisa foi a do Celso Furtado, que era ainda uma proposta de reforma agrária clássica. Ela se propõe a democratizar a propriedade da terra, a eliminar o latifúndio, a transformar os camponeses em produtores de mercadorias para o mercado interno e, ao mesmo tempo, consumidores de mercadorias da indústria para que eles melhorem de vida, porém comprando bens industriais: máquina de lavar, televisão, moto, carro, etc. Então, a concepção da reforma agrária clássica é uma reforma agrária desenvolvimentista e conjugada com o desenvolvimento das forças produtivas capitalistas. Porém, para ela se viabilizar politicamente – já que ela é uma ação do Estado –, depende de uma aliança da burguesia industrial com o campesinato. Essa aliança nunca houve aqui no Brasil. Não que o campesinato não queira. É que a burguesia industrial brasileira não quis, porque ela sempre foi subordinada ao capital estrangeiro. Ela nunca pensou a nação como um projeto desenvolvimentista, a burguesia brasileira nunca foi nacionalista.

Nós nunca tivemos uma burguesia nacional?

Nós nunca tivemos uma burguesia nacional, apesar de ela ser brasileira. Isso quem nos ajudou a compreender foi o Florestan Fernandes. E então nos faltou a força de uma burguesia nacionalista para implementar a reforma agrária. Mas nós, quando nascemos como o MST, com a redemocratização do país, o nosso programa era de uma reforma agrária clássica, com a ideia de ‘vamos enfrentar o latifúndio e vamos desenvolver as forças produtivas no interior, aumentar a produção, comprar trator, se desenvolver’. Com isso, a nossa turma sairia da pobreza.

Com o passar dos anos, nós fomos percebendo que isso não era suficiente. Então, aquele ideário que marcou o campesinato em toda a América Latina – e, como você bem disse, teve origem na influência do Emiliano Zapata, quando ele resumiu a proposta de reforma agrária mexicana, que nem tinha o nome de reforma agrária, eles chamaram de Plan D’Ayalla – era terra para quem nela trabalha. Portanto, era uma visão bem camponesa. Nem sequer era ainda a reforma agrária clássica. O MST, quando nasceu, fazia esse misto entre a visão mexicana, mas nós nos demos conta que não tinha viabilidade nem econômica nem política no Brasil. Tanto que ela não se realizou, apesar da crise da década de 1960. Fomos amadurecendo, debatendo e, com base na prática, nas contradições reais que fomos vivendo, com base no estudo das experiências históricas que nós chegamos a essa formulação nova de uma reforma agrária popular.

Ela começou a ser gestada no movimento lá por 2010, e daí a formulação ainda embrionária do Congresso do MST de 2014 já vai na direção de uma reforma agrária popular. E a essência da reforma agrária popular é que ela coloca no centro não mais o trabalho do camponês, mas a produção de alimentos para toda a sociedade. Coloca no centro o respeito à natureza, o desenvolvimento de agroindústrias, mas na forma cooperativa. E evidentemente que, para ela se realizar de uma forma universal no Brasil, ela teria que conjugar um governo popular e um movimento camponês forte – e essas condições ainda não se deram. Então, por isso que, apesar de ser uma formulação teórica, desde 2014 as condições objetivas ainda não se realizaram. Porque uma reforma agrária popular depende dessa conjugação.

Em vez de burguesia industrial, agora é um governo popular que está interessado em resolver o problema da fome, da pobreza, da desigualdade que tem na sociedade, no Brasil, em qualquer parte. E, ao mesmo tempo, ela se realiza não por vontade só do governo, mas ela precisa de movimentos camponeses muito fortes – não só o MST, mas outros setores do campesinato. E é nisso que ela se diferencia da clássica, porque a reforma agrária popular não é apenas uma reforma camponesa, não é só para resolver o problema de pobreza do sem-terra. É uma reforma agrária que pensa a sociedade, que pensa a nação e, por isso, ela tem que se preocupar em resolver o problema de todo o povo – daí o nome popular.

“É uma reforma agrária que pensa a sociedade, que pensa a nação e, por isso, ela tem que se preocupar em resolver o problema de todo o povo – daí o nome popular”.

Você afirma que há três modelos de agricultura. O que chama de latifúndio predador improdutivo, o agronegócio e a agricultura familiar. Gostaria de entender quem consideram como inimigo. Porque antes se falava só no latifúndio improdutivo, mas o agronegócio pode ser altamente produtivo…

É verdade. Mesmo na esquerda ou nos movimentos camponeses, historicamente só aparecia a grande propriedade e o latifúndio como, digamos, um fantasma de classe, ideológico. Porém, a realidade do Brasil foi evoluindo e nós chegamos hoje, então, a três modelos que atuam na agricultura: dois do capital e um dos trabalhadores. A denominação desses modelos é ainda um exercício político. A academia brasileira nunca se debruçou sobre isso. Nós, então, de forma militante, estamos adotando essas denominações. Primeiro, há uma forma de explorar a agricultura brasileira, que é o chamado latifúndio predador, que são as grandes propriedades do latifúndio, mas que só se dedica a acumular capital, se apropriando de forma privada dos bens da natureza. Ele não se preocupa com o desenvolvimento capitalista das forças produtivas. Não contrata gente, mas eles enriquecem naquilo que os clássicos [Karl] Marx, Rosa Luxemburgo explicaram como acumulação primitiva. Então há o setor que nós classificamos como latifúndio predador no Brasil, de grandes proprietários que vão lá para a natureza e se apropriam. Em geral, eles atuam na fronteira agrícola. Mas a fronteira agrícola não é só lá na Amazônia, nós temos em todos os Estados, ou seja, onde estão os bens da natureza em cada estado.

Por exemplo, aqui em São Paulo, quando o governador Tarcísio [de Freitas] entrega terra pública praticamente de graça, legalizando terras griladas no Pontal [do Paranapanema], ele está legitimando esse latifúndio predador que vai enriquecer com terras públicas aqui. Ou quando nós pegamos a Nestlé, que se apropria de água do lençol freático, ela está se apropriando de um bem da natureza que devia ser de todo mundo, e acumula um lucro extraordinário. Depois, nós temos o modelo do agronegócio, cantado em verso e prosa todas as noites no Jornal Nacional. Quem financia a propaganda do “agro é pop” é banco e empresa automobilística estrangeira. Esse é o modelo do agronegócio e há uma grande aliança dos bancos com as empresas transnacionais, que aplicam na grande propriedade e também na média propriedade.

Então, nós temos hoje 30 mil fazendeiros acima de mil hectares que adotam o agronegócio. E nós temos também uns 300 mil fazendeiros pequenos e médios, de 100 a mil hectares, que também adotam o modelo do agronegócio. O cara só se especializa num produto, faz uso intensivo de agrotóxico, o uso de sementes transgênicas que ele compra de uma multinacional lá, o uso de mecanização intensiva, que também ele compra de uma multinacional e ele produz commodities para o mercado externo.

Então, é um modelo extemporâneo às necessidades da população. Aí o pessoal fica dizendo que a economia brasileira depende do agronegócio. Tenha a santa paciência! É a economia brasileira, o Estado brasileiro que financia o agronegócio. E quem ganha dinheiro?

Esses fazendeiros, o poder político deles é tão grande que eles não pagam nada de imposto. Nós, nos nossos exercícios teóricos, pegamos o caso do milho e o caso da soja no agronegócio. Porque a Conab [Companhia Nacional de Abastecimento] faz o custo de produção todos os anos por região. Se tu pegar uma média, da soja, por exemplo, 68% da renda produzida volta para as empresas transnacionais que fornecem os insumos, que são os que mais ganham.

Recentemente, veio a público que o capital acessado pelo agronegócio no mercado financeiro chega próximo a R$ 1 trilhão. Então esse dinheiro do Plano Safra é uma merreca. Eles não dependem mais dele, não. Mas revela a total dependência do agronegócio com o capital financeiro, porque daí as empresas adiantam os insumos, adiantam a semente e depois cobram a renda em produtos.

FONTE
JOÃO PEDRO STEDILE
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sexta-feira, 14 de junho de 2024

BANCADA DO ESTUPRO * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

BANCADA DO ESTUPRO

BOM, VEJAMOS: À
BANCADA DA BALA
BANCADA DO BOI
BANCADA DA BIBLIA
BANCADA DOS BANCOS

VEIO SE SOMAR A
BANCADA DO ESTUPRO.

ESTE É UM PAIS
OU O REFUGIO DOS BRUTOS?

É VOCÊ QUE DECIDE!


*você que quer mandar mulher estuprada na cadeia !*
*-leve um estuprador para sua casa*
( antes consulte sua, mãe, sua, filha e sua sua vizinha )


PASTOR ESTUPRADOR




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O ato em São Paulo foi enorme e muito diverso! As meninas e mulheres brasileiras dizem NÃO AO PL 1904! Não ao PL da Gravidez Infantil! #PLdoEstupradorNão #CriançaNãoÉMãe 
 Ato na Cinelândia, Rio de Janeiro, contra o PL DO ESTUPRADOR
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quinta-feira, 13 de junho de 2024

MILEI ACOBERTA GOLPISTAS? * Dario Pignotti/Página 12

MILEI ACOBERTA GOLPISTAS? 

Falando em português, um Bolsonaro que participou, junto com milhares de outros, da tentativa de golpe contra Lula, diz: “Viva a porra da liberdade”. Ele está na Praça de Maio dando uma entrevista que foi amplamente comentada neste final de semana no Brasil. A poucos metros do brasileiro de boné e lenço, dois soldados argentinos aparecem ao fundo, prestando suas homenagens enquanto a bandeira é hasteada no centro da praça.

O entrevistado afirma ser paulista e é um dos cerca de 65 refugiados sediciosos em Buenos Aires e possivelmente em outras cidades, cujas repatriações devem ser solicitadas por Brasília.

Junto com o homem de 50 anos, chamado Luiz Fernándes Venáncio, está outro homem mais jovem, Marco Siman Oliveira, também golpista. Ambos afirmam ser vítimas de suposta perseguição política por parte da esquerda.

Todos os envolvidos no motim de 8 de janeiro de 2023, desde Jair Bolsonaro, os generais ao seu redor e os militantes que saquearam os palácios do Executivo, do Legislativo e do Supremo Tribunal Federal, sustentam que o que aconteceu não foi uma tentativa de golpe, mas uma agitação causada por suspeita de fraude nas eleições de outubro de 2022.

Esse mesmo argumento foi usado na semana passada para redobrar a pressão sobre o Congresso, pela aprovação de uma lei de anistia que atingiria os fugitivos filmados na Praça de Maio, mas sobretudo para dar impunidade ao verdadeiro responsável pela conspiração: Bolsonaro.

A reportagem do portal de notícias ligado ao jornal Folha de São Paulo sobre os foragidos foi realizada em plena luz do dia, tendo como pano de fundo a Casa Rosada. Depois de recitar o slogan mileista terminado em “maldito” em português, Fernándes Venáncio voltou ao português para dizer que ninguém o controlava na passagem da fronteira.

O homem se declara um ferrenho defensor da liberdade. Tanto é verdade que ele afirma estar disposto a morrer ou atravessar o oceano a nado antes de perdê-la (para a liberdade, é claro).

E garante que foi em busca de liberdade que quebrou a tornozeleira eletrônica que usava por ordem judicial ao sair da prisão para poder fugir para a Argentina, onde espera viver por muito tempo como “empreendedor”.

Lula, Milei e o G7

A fuga de dezenas de condenados ou acusados ​​de crimes como Golpe de Estado, Abolição do Estado Democrático de Direito e Organização Ilícita, foi instalada na agenda brasileira.

A onda de choque do escândalo deve durar até a próxima quinta-feira, quando Lula e Milei devem chegar à Apúlia, no sul da Itália, onde será realizada a cúpula dos presidentes do G7, organização da qual fazem parte as principais economias ocidentais. .

Lula foi convidado para todas as cúpulas do G7 enquanto ocupava a presidência de seu país (seu terceiro mandato começou há um ano e meio). O brasileiro é reconhecido como um dos líderes do Sul Global além de estar à frente de uma das principais economias do mundo, que este ano deve subir para o oitavo lugar no ranking global segundo previsão recente do FMI.

A estatura do líder do Partido dos Trabalhadores pode ser medida pela sua projeção internacional: até agora em 2024 recebeu líderes ocidentais como o francês Emmanuel Macron e o espanhol Pedro Sánchez, enquanto o seu vice-presidente, Geraldo Alckmin, acaba de se reunir com o presidente chinês Xi Jinping em Pequim. E seu assessor internacional, Celso Amorim, viajou para a Rússia onde conversou sobre a guerra na Ucrânia com o chanceler Sergei Lavrov.

Por outro lado, a presença do argentino na Apúlia não parece dever-se à sua estatura de estadista (a sua agenda internacional tem-se centrado em encontros com magnatas das plataformas digitais e representantes da extrema direita, como a sua viagem a Madrid para um evento organizado pela Vox), mas pela afinidade que tem com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, anfitriã da reunião do G7.

Lula deverá ter algumas reuniões bilaterais entre a próxima quinta e sexta-feira e não está descartada uma reunião com o colega argentino, com quem nunca conversou desde que assumiu a presidência em 10 de dezembro do ano passado, numa cerimônia onde Bolsonaro e seu filho estiveram presentes , Deputado Eduardo.

Se essa reunião ocorrer, embora nada nos permita tomá-la como certa, a situação dos refugiados Bolsonaro na Argentina será uma questão provável , senão obrigatória, porque prendê-los é uma questão de Estado do Brasil , na qual o Supremo A Justiça Federal é responsável pela investigação dos acontecimentos de 2023.

Megaoperacional

O Supremo Tribunal Federal ordenou a prisão e batidas nas casas de mais de 150 pessoas condenadas pelo motim de janeiro de 2023 na megaoperação batizada de “Lesa Pátria” realizada na última quinta-feira pela Polícia Federal em 19 estados do país.

Foi uma das ações mais importantes contra a organização que organizou e executou o plano de derrubada de Lula realizado até hoje.

O próximo passo desta ofensiva deverá ser a repatriação – ou a tentativa de realizá-la – daqueles que fugiram para a Argentina, bem como daqueles que ficariam escondidos no Uruguai e no Paraguai.


Os investigadores revelaram que uma das questões ainda não reveladas é se personagens como Fernándes Venáncio e Siman Oliveira, confortavelmente instalados em Buenos Aires, tiveram apoio financeiro e logístico para escapar.

E se esse apoio existisse, saiba quem está por trás dele.

Indicações

Ainda é sugestivo que uma semana antes dos golpistas brasileiros concordarem em enfrentar a imprensa na Praça de Maio, Eduardo Bolsonaro, acompanhado por vários legisladores de extrema direita, todos eles defensores do levante de 2023, foi recebido em Buenos Aires pelo deputado. Maria Celeste Ponce, de La Libertad Avanza.

Durante uma audiência no Congresso argentino, o filho de Jair Bolsonaro denunciou a “censura” e a “perseguição política” de que seriam vítimas os adversários de Lula e defendeu a concessão de asilo.

O legislador atua como “chanceler” do pai – cujo passaporte foi retirado pelo Supremo e não pode sair do Brasil por medo de buscar asilo em outro país – e interlocutor direto de Milei, o ex-presidente e provável candidato dos EUA Donald Trump , o primeiro-ministro húngaro, Víktor Orbán e o deputado espanhol Santiago Abascal, representante do Vox.

Também na lista de interlocutores de Bolsonaro Jr. estão os neonazis alemães do partido AfD e os ultras portugueses do Chega.


Agora, o vínculo entre Eduardo Bolsonaro e Milei seria marcado pela afinidade política acompanhada de uma amizade que foi forjada nos últimos anos, quando o parlamentar viajava frequentemente a Buenos Aires para apoiar a candidatura do libertário.

Se as investigações em curso demonstrassem que o desembarque de Eduardo no Parlamento argentino fazia parte de uma manobra para garantir abrigo aos golpistas e que essa estratégia contaria com o consentimento de Milei, isso acrescentaria um novo obstáculo à relação entre os dois governos.

Porque se assim fosse, o argentino não seria apenas amigo do principal inimigo de Lula, mas também um potencial cúmplice do esquema tramado para garantir a impunidade aos envolvidos no levante que estava prestes a derrubá-lo e instalar uma ditadura.

Essas são as suspeitas com as quais o brasileiro desembarcará na Itália e poderá condicionar seu encontro ou novo desentendimento com Milei.

FONTE

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quarta-feira, 12 de junho de 2024

ENFRENTAR AS AMEAÇAS DA EXTREMA-DIREITA * ORGANIZAÇÃO COMUNISTA ARMA DA CRÍTICA /OCAC

ENFRENTAR AS AMEAÇAS DA EXTREMA-DIREITA

A extrema-direita está organizada e age com desenvoltura no cenário político. Apesar das derrotas judiciais e nas eleições de 2018, a extrema-direita consegue pautar a vida política nacional.

Os governos estaduais dirigidos pela extrema-direita avançam no programa político do bolsonarismo, como se não houvesse um novo governo federal. Implantam o projeto das escolas cívico-militares, privatizam das grandes empresas públicas às escolas, dão todo poder às polícias militares.

No espaço paramentar, seja no Congresso Nacional, seja nas Assembleia Legislativas e Câmaras de Vereadores, os deputados e vereadores da extrema-direita agem de maneira intimidatória. Fato grave foi o ataque contra a deputada Luiza Erundina na Comissão de Direitos Humanos na Câmara. Qualquer parlamentar que ouse enfrentar a sanha fascista é agredido verbal e fisicamente

Patrocinam uma ofensiva contra o movimento operário e parlamentar, como mostram os episódios de repressão policial e perseguição judicial nas recentes lutas no Paraná e São Paulo. As campanhas midiáticas na internet se avolumam e ganham tom de ameaça, como na campanha promovida pelo canal Brasil Paralelo contra Maria da Penha, não apenas contra a lei, mas contra a pessoa física Maria da Penha.

A violência política é naturalizada na vida nacional. O governo e a dita esquerda parecem não reconhecer a situação. Não basta contar com a toga do ministro Alexandre de Moraes

É preciso enfrentar a extrema direita, barrar a intimidação e a ameaça. Seja na rua, no espaço parlamentar, na rede social. Não se pode permitir que os fascistas se sintam livres e à vontade.

E mais. A política do ministro Haddad deve ser revertida, pois a falta de perspectivas econômicas vai empurrar os trabalhadores formais e autônomos, pequenos empreendedores e aposentados para os braços do fascismo.

ORGANIZAÇÃO COMUNISTA ARMA DA CRÍTICA
OCAC

terça-feira, 11 de junho de 2024

SENHOR PRESIDENTE, DEIXA EU VER SE EU ENTENDI DIREITO * Wladimir Tadeu Baptista Soares/RJ

SENHOR PRESIDENTE,
DEIXA EU VER SE EU ENTENDI DIREITO

O PT - Partido dos Trabalhadores -, de volta ao governo federal, veio com uma roupagem neoliberal com vistas à privatização de todos os serviços públicos sociais (saúde, educação, previdência e assistência social, segurança pública), Congelamento de salários, destruição do regime jurídico único, destruição dos hospitais públicos federais universitários, preservação de privilégios para a classe social dominante, desvalorização dos servidores públicos civis do Poder Executivo da União, manutenção da atual reforma trabalhista, desmonte do Estado Social por meio de uma reforma administrativa ultraliberal, manutenção de privilégios para a área militar, magistratura, ministério público, advocacia geral da União e parlamentares, restrição de concursos públicos, subfinanciamento da saúde e educação, submissão e subserviência às leis do mercado, manutenção da atual reforma da previdência, ataque aos direitos dos aposentados e pensionistas, entre outras ações desastrosas que nada têm a ver com os ideais da esquerda política global.

Mudou de lado ou sempre esteve aí e eu fui enganado?

O senhor que já foi um importante líder sindical aceitaria negociar o fim de uma greve com o patrão oferecendo 0% de ajuste salarial para os trabalhadores, em uma mesa de negociação?

O senhor tem conhecimento de que o piso salarial do professor universitário está abaixo do piso salarial nacional do professor de ensino médio?

O senhor tem conhecimento de que o valor da bolsa recebida pelo médico residente é superior, em muitos casos, ao salário recebido por muitos professores universitários de medicina?

O senhor consegue moralmente justificar a diferença de valores pagos pela Administração Pública, como "vale-refeição", aos servidores públicos dos Três Poderes da República?

O senhor conhece os valores dos salários pagos aos servidores públicos técnicos administrativos das Universidades Públicas Federais, cujo ingresso se faz pela metitocracia do concurso público? O senhor sabe qual o piso salarial dessa classe de servidores públicos?

É justo?

Ponha sobre a sua mesa uma planilha com todos os salários de todos os cargos públicos da União, de todos os Poderes da República, e diga o que pensa disso.

O senhor sabe quanto recebe de salário um profissional da saúde do Ministério da Saúde? Sabe qual o piso salarial deles - aqueles que toda a sociedade considerou como heróis durante o curso de uma pandemia?

O senhor acha, sinceramente, que nenhum desses servidores públicos civis da União tem o direito de estar em greve?

O senhor conhece o que diz o artigo 37, inciso X, da Constituição Federal de 1988? Conhece o que diz o artigo 1 da Lei n. 10.331/2001? Conhece o que diz o artigo 6, parágrafo 2 da Lei de Greve (Lei n. 7.783/89)?

O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Ah, o senhor está muito mal assessorado neste governo. O senhor parece ter perdido a noção de quem o senhor deve representar no cargo que hoje o senhor ocupa, quais os interesses o senhor deve defender, qual o Estado o senhor quer construir: um Estado Democrático e Social de Direito e de Direitos ou um Estado Neoliberal sem direitos?

Um Estado que tenha um compromisso com a redução das desigualdades sociais ou um Estado que não se importa com isso? Um Estado de Bem-estar Social ou um Estado de Mal-estar Social? Um Estado Constitucional para o povo brasileiro ou um Estado ultraliberal para o Mercado?

Pense nessas coisas e receba os servidores públicos civis da União para ouvir o que eles têm para falar.

É o mais sensato a fazer.


ADENDO

A extrema direita não está surfando com a greve dos servidores públicos civis da União. Ela está surfando em cima da onda neoliberal implementada por um governo que foi eleito para promover políticas públicas não neoliberais. Um governo que oferece 0% de ajuste salarial numa mesa de negociação não é um governo que esteja interessado em negociar. O Lula, como líder sindical que  foi, jamais interromperá uma greve conduzida por ele se o patrão oferecesse 0% de ajuste salarial para os trabalhadores.

Os servidores públicos não estão pedindo nenhum favor ao governo. Estão lutando por um direito previsto na nossa Constituição Cidadã de 1988. Estão lutando por dignidade. Estão lutando para não continuarem tendo perda de poder aquisitivo continuamente. Estão lutando por igualdade de tratamento com relação à outras categorias profissionais do mesmo Poder Executivo da União. 

A greve é um direito humano fundamental de natureza social de todo trabalhador, seja ele servidor público ou não. Ela é um instrumento de luta da Democracia. Sob o regime de um governo fascista, como o que vivemos por 4 anos na Era Paulo Guedes, a greve é impossível. 

O piso salarial do professor universitário é menor do que o piso salarial nacional do professor de ensino médio. 

Esta nossa greve jamais poderia ser considerada ilegal, embora seja muito provável que o governo esteja trabalhando nos bastidores para que a ilegalidade seja decida pelo judiciário (magistratura) - aqueles servidores públicos que nunca entram em greve porque nunca têm os seus salários congelados ou reduzidos. Assim como também o Poder Legislativo.
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O SERVIÇO PÚBLICO PERTENCE A TODOS MAS NÃO INTERESSA  AOS LARÁPIOS POR LUCRO.

Wladimir Tadeu Baptista Soares
Servidor Público Federal
Universidade Federal Fluminense
Rio de Janeiro-RJ, 11/06/2024

segunda-feira, 10 de junho de 2024

DITADORES FAKENEWS * Rudá Ricci/SP

DITADORES FAKENEWS
"Sobre os novos tipos de governos de extrema-direita

Rudá Ricci

Já citei em muitas lives o livro do ex-reitor do Institut d´Études Politiques de Paris, Sergei Guriev, e do professor de Ciência Política da Universidade da Califórnia, Daniel Treisman, que analisam a metamorfose dos governos extremistas no século XXI cujo título é “Democracia fake: a metamorfose da tirania no século XXI”.

Os autores sustentam que há um novo tipo de governante que atua na franja das democracias que eles denominam de “doctors spin” ou, numa tradução livre, “especialistas em manipulação” (ou distorção).

O conceito, de certa maneira, se aproxima da lógica do Estado de Exceção, que ocorreria nas lacunas legais das democracias para impor leis ou ações governamentais tirânicas, inauguradas recentemente a partir da resposta de Bush ao atentado de 11 de Setembro. Bastava ser suspeito para ser caçado e preso sem contato algum com advogados e familiares, muitas vezes torturados pelo Estado.

Já no caso dos “doctors spin”, que os autores citam como exemplo Lee Kuan Yew, ex-primeiro-ministro de Singapura de 1959 a 1990, mas também Orbán, governante da Hungria e Putin, da Rússia, os atos autoritários são mais seletivos, tópicos e o jogo com a comunicação é mais sútil.

A seguir, vou reproduzir as seis características principais do modelo desses governantes tirânicos que os autores destacam. Começando pela substituição do medo pela imagem de competência. Aqui, ternos bem cortados e um ar de profissionalismo e modernidade substituem fardas militares e ar sisudo. As fotos divulgadas pelas agências de comunicação oficial quase sempre revelam governantes em mesas de trabalho, falas em conferências ou visitas às fábricas e empresas. A intenção é revelar um trabalhador incansável que foca nos investimentos para uma vida próspera. Segundo os autores, “em vez de exigir sangue e sacrifício, eles oferecem conforto e respeito.”

A segunda característica é a dos múltiplos apelos, ao contrário do perfil de tiranos anteriores que pregavam ideologias. Lee Juan Yew gostava de dizer ser pragmático, sem qualquer proximidade com ideologias. Putin teria dito que odeia a palavra ideologia, segundo Brian Taylor, em seu livro “The code of putinism”. Para desconcertar, tais líderes associam práticas e ideários do passado sem grande sentido, numa bricolagem que agrada gregos e troianos. É o caso de Putin, que cita e valoriza o período czarista da grande unidade eslava aos clichês da era soviética salpicados de ultradicionalismo conservador anti-LGBT.

Deriva das duas primeiras características a de afastamento do culto à personalidade, agora substituída pelo de celebridade. As celebridades são cultuadas, é verdade, mas oferecem algo de sua intimidade, incluindo gafes e histrionismo. Se antes havia veneração oficial, agora, a construção do perfil de celebridade se faz nas redes sociais, por agentes privados e de maneira descentralizada, muitas vezes adotando um tom perto do deboche. Governantes aparecem voando em asas-deltas ou montando cavalos sem camisa mas, agora, logo é desvendado que tudo foi cena montada e a situação vira até galhofa. Imagens dos novos tiranos viram estampas de canecas à venda em barracas de rua, como iniciativa de ambulantes que oferecem souvenirs. A masculinidade é motivo de riso e até borrifar a marca de perfume lançado pelo manipulador passa a ser objeto de colecionadores e brincadeiras de jovens debochando do “tiozinho”. O ditador é comentado nas ruas e os autores chegam a comparar com a fase mais popular de Obama.

A quarta característica é a da busca de credibilidade, o que foge completamente da imposição pelo medo. Esses novos governantes autoritários permitem imprensa livre – embora ataquem publicamente as mais críticas – e apostam em blogueiros e influencers para responder ou alterar os temas quentes de uma conjuntura. Até tragédias são exploradas por blogueiros aliciados ou disparos de notas e comentários nas redes sociais. Muitos se utilizam de “trolls” ou mesmo pesquisas manipuladas com resultados previsíveis, denominadas de “push poll”. 

Os autores citam uma pesquisa encomendada pelo governo da Hungria que apresentava perguntas que induziam às respostas como “há quem pense que os migrantes colocam em risco os empregos e meios de subsistência dos húngaros e queremos saber se você concorda com eles”.

A quinta característica é a de transformar o entretenimento em arma. Fofocas sobre celebridades e adversários se transformam em temas quentes numa espécie de metapolítica (comentar política sem falar diretamente). O ex-presidente Fujimori em 2000, em meio à ofensiva contra grupos oposicionistas, divulgou a informação sobre a filha ilegítima de um dos seus adversários. A explosão de talk shows ácidos forja um ambiente tóxico de comentários rebaixados sobre temas políticos e, muitas vezes, são patrocinados indiretamente por esses governantes.

Finalmente, reinterpretar acontecimentos geram versões rapidamente disseminadas nas redes sociais. Essa modalidade deriva, quase sempre, para as fake news. Não raro, a versão adota tons de exagero e indignação, procurando estimular emoções fortes no público-alvo. O emocionalismo é a tônica para gerar revolta em recém-demitidos de uma fábrica que fechou por fraude, mas que é reinterpretado como resultado da política econômica de um governo. 

Nem sempre as notícias divulgadas são invenções, mas as interpretações carregam no ataque aos alvos políticos pré-determinados.

Em todos os casos, viceja uma “coerção calibrada” pelos novos governantes. Temos aqui no Brasil alguns protótipos recentes, em especial, governadores que se jogam para angariar o espólio de Jair Bolsonaro.

Não é o caso dos exageros cometidos por jovens parlamentares arrivistas, muito mais agressivos e que comumente ultrapassam as linhas do razoável para poder aparecer. No caso dos “doctors spin”, a sutileza é sua arma, o confronto é indireto e a estampa de competência e celebridade é construída.

Com a vitória da extrema-direita nas eleições europeias deste final-de-semana, teremos possivelmente mais exemplos deste novo tipo de tirania e manipulação política. Nos países nórdicos, mais uma vez, o risco é bem pequeno. Mas, na França, aquela da revolução que destruiu a monarquia, há enormes chances do próximo primeiro-ministro adotar este figurino."