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quarta-feira, 8 de junho de 2022

Novas astúcias para novos golpes * MUNIZ SODRÉ / SP

Novas astúcias para novos golpes
MUNIZ SODRÉ / SP

Para Dussel, evangélicos seriam nova arma dos EUA para golpes na América Latina

Interlocutor expressivo de filósofos europeus contemporâneos, o argentino-mexicano Enrique Dussel é um dos maiores pensadores vivos da América Latina.

Extensa para um resumo, sua obra poderia, porém, ser caracterizada como uma reinterpretação dos Evangelhos pelos pontos de vista do que chama genericamente de "pobres", isto é, não apenas os destituídos de bens, mas também os que foram postos à margem das decisões constitutivas da história. Dussel enuncia agora, em termos bem claros, uma hipótese politicamente delicada: os evangélicos seriam a nova arma dos EUA para golpes de Estado na América Latina.

Isso viria de um novo tipo de olhar para a periferia dependente latino-americana após o fracasso das tentativas de dominação americana no Oriente Médio. Exemplo da mudança teria sido dado na Bolívia com a derrubada de Evo Morales.

Apesar de ter superado índices históricos de pobreza por meio de governos progressistas, o país também despertou para outras aspirações, que, para Dussel, confluem para uma mudança na subjetividade: "Passa-se à subjetividade consumista, que acredita que certos projetos de direita poderiam solucionar suas novas aspirações".

Para certos setores emergentes, não se trata apenas de aumento de renda, mas de um rearranjo da consciência social, cujas linhas ideológicas mostram afinidade com as interpretações bíblico-evangélicas das seitas norte-americanas.

Assim, nos países andinos, as tradições ancestrais (aymaras, incas), que têm ainda enorme força popular entre indígenas e cholas, deveriam ser rigorosamente substituídas por uma espécie de reinterpretação neoliberal do cristianismo. O mesmo pode-se dizer naturalmente de tradições afros ou originárias presentes em quase todas as regiões latino-americanas.

Toda religião compõe-se de fé individual e de cultura, sua parte coletiva, que pode hipertrofiar-se, afetando ou neutralizando a primeira como se fosse mero protocolo de adesão a dogmas. Isso já aconteceu e acontece hoje no fenômeno de disseminação das seitas integristas, cujo pano de fundo é uma ecologia mental perpassada pela lógica financeira implícita na "teologia da prosperidade". Na prática, um agregado de estímulos oriundos de marketing empresarial, literatura de autoajuda e doutrinação pseudocientífica relativa tanto à aquisição de riquezas como à gerência da vida pessoal, tudo respaldado pelos protocolos do culto.

Nesse modelo se esboçam as variações de passagem para um novo sujeito histórico do capital, em que a pretensa religião (mais mobilização neural e conduta do que fé) assegura a previsão dos comportamentos nas classes populares. Em suma, um totalitarismo "soft".
Muniz Sodré
Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de "A Sociedade Incivil" e "Pensar Nagô".
(FSP 4.06.2021)
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

IDOSOS UNI-VOS * Adão Alves dos Santos / SP

 IDOSOS UNI-VOS


Caso imaginássemos um Brasil só com idosos, teríamos algumas surpresas inimagináveis, lembremos, os imaginável, não é surpresa.


A esperada redução da capacidade física, o que necessariamente não significa redução da capacidade mental, no entanto para que não haja redução da capacidade mental, a primeira recomendação é cuidar da auto-estima, até poderíamos ignorar que alguns setores da economia, preferem a mão de obra idosa, por motivos meramente econômicos.


Falemos apenas da necessidade de organização do idoso, esta necessidade de organização, não deve começar pela questão econômica, ainda que aqui, poderíamos fazer desfilar uma interminável série de impactos positivos do idoso na economia. Fiquemos no entanto, no aumento da expectativa de vida e, principalmente da necessária dignidade à vida humana  


A dignidade do idoso não pode se limitar à dignidade de ser pajens dos netos enquanto seus filhos trabalham, não que isto não possa ocorrer. A dignidade do idoso não pode ser o papel de "arrimo de família", já que deveríamos estar vivendo num mundo onde o número de emprego não reduzissem pela "sede de lucro" do capital, a dignidade do idoso não pode ser limitada aos carteados ou baile da terceira idade.


Não iniciaremos aqui, o cabedal destas importâncias, não realçaremos que não será a sociedade preconceituosa que irá proporcionar auto-estima ao idoso, este é um papel que o próprio idoso terá de reivindicar, nesta reivindicação o início é a criticidade, o idoso não pode ser "plateia", que aplaude o show.


Quando falamos da criticidade, sempre será esperado que seja dos idosos o maior número de mortes que acontece, mas a pandemia, foi particularmente cruel com os idosos, então façamos disto, nosso ponto inicial de organização. Pensemos num ato público com a representação das vidas perdidas pela irresponsabilidade do despresidente e, aqui falando em excercicio para o desenvolvimento da criticidade começa necessariamente por saber que alguém que fala em "cancelar CPF", nunca será alguém digno de voto.


Adão Alves dos Santos/SP

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