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quarta-feira, 5 de março de 2025

ALÔ COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE: AINDA ESTAMOS AQUI * (Profª Alba Valéria - GO)FRT-BRASIL

AINDA ESTAMOS AQUI

"Ainda Estou Aqui"
Quer dizer coisas demais
É a vida se afirmando
A despeito dos seus ais
As circunstâncias cruéis
Idealismos fiéis
Mostrando a necessidade
De preservar a felicidade
Ante "omens" tão cruéis.

As memórias resgatadas
De uma vida que foi tirada
E foi alvo de violência
Que desnudou a demência
De um sistema injustificável
Que violou o direito
De um valor inegociável

Fala da maternidade
Que foi marcada pela dor
Mas também pelo amor
De uma mulher valente
Que ousou e teve coragem
De seguir sempre em frente.

E o público respondeu
De uma maneira segura
Que vamos gritar bem alto
E dizer NÃO à ditadura
Foi uma mensagem forte:
Desafiou a própria morte
Eunice, uma alma pura.

Mesmo que entre nós os fantasmas
Da ditadura inda possam pairar
Não estamos mais dispostos
A desviar o olhar
E se preciso for de novo
Voltaremos a lutar.

A a ausência do pai amoroso
A nossa atenção requer
Pois para sempre afetou
Seus filhos e sua mulher
Que em meio à sua dor disse:
Sorriam. Vamos sorrir.
Pelo eterno RUBENS PAIVA
NÓS AINDA ESTAMOS AQUI

Professora Alba, poetisa do entorno.GO
-ALBA VALÉRIA DA SILVA-
ATOR ERNESTO JOSÉ DE CARVALHO
DEPUTADO RUBENS PAIVA
CHICO BUARQUE DE HOLANDA
ASSASSINOS DE RUBENS PAIVA AINDA ESTÃO SOLTOS

quarta-feira, 1 de maio de 2024

INTERNACIONALISMO PROLETÁRIO # Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

INTERNACIONALISMO PROLETÁRIO

LER E SER

Acordo
Ou adormeço?
Olho para os livros,
E esqueço!
Queria ser livre...
Correndo em meu ninho
Lá fora, asa e passarinho!
Em casa, vontade de berço!
Sonho com cada História...
Aconteço num espaço imperfeito,
E sem vitória,
Me desfaço e aceito!
Eles estão na estante
E tenho poucos instantes
De liberdade!
Viagem...
Sou covarde ?
Ou a necessidade
De sobrevivência
É que arde?

Dalva Silveira/MG

Morreram? Quem disse, se vivos estão!
Não morre a semente lançada na terra.
Os frutos virão.
Morreram? Quem disse, se vivos estão!
As flores de hoje, darão novos frutos.
Meus olhos verão
Lila Ripoll

DOCUMENTÁRIO LUTA DE CLASSE
COORDENADORIA SIMON BOLÍVAR
ARGENTINA
A INTERNACIONAL / GRUPO MUSICAL COLÔMBIA
BOLÍVIA
JOSÉ ANTONIO BENITEZ BUAIS
Desde Palestina les mandamos un saludo solidario y afectuoso a todos los trabajadores y trabajadoras en el Día Internacional del Trabajador.

FIST.RJ
PRIMEIRO DE MAIO FRANCÊS

DIA DE REFLEXÃO E PROTEXTO!

Primeiri de maio
Dia do trabalhador
Que alta burguesia dominante
Não se cansa em tentar apagar a historio;
Destorcendo a realidada
Anuncia o dia do trabalho...
Na farsa nazifascista
Tentam transformar
O dia do trabalhador
Em data festiva...
... O dia do trabalhador
É dia de reflexão e protesto
Contra os massacres constantes
Das classes dominantes.
Históricos inimigos
Dos massacrados trabalhadores...
...Tabalhadores, uni-vos em todo o planeta
Contra o imperialismo selvagem!

São Luís, 1 de maio de 2o24

J. Ernesto Dias
AO TRABALHADOR

Ruben Dário

Canto ao trabalhador: o seu desejo
e seu braço e seu tesouro;
trabalhando ganhe ouro,
ouro, pai do pão.

Eu canto para aquele que é fiel ao dever,
do mundo diante do sopro bruto,
com sua enxó, com seu cinzel,
com sua lima e seu cinzel.

Para quem está em seu trabalho,
onde espaços de pensamento,
da augusta aristocracia
de dever e honra.

Mulher e homem, ambos em dois,
fazem o trabalho irradiar;
eles cumprem como ninguém
os mandamentos de Deus.

Faixa brilhante
isso deveria ser abençoado,
a de quem ganha a vida
com o suor do seu rosto.

E o bom trabalhador
que, para onde vai, disse sai;
é mel, como a abelha;
sua casa, como o castor.

O braço vem do coração,
o poderoso instrumento,
e pensar é trabalho
e oração é trabalho

Deus, que fez todas as coisas,
Ele é um ótimo trabalhador:
Ele é o pintor divino
que pintou todas as rosas.

E reunindo seu poder
uma estátua e uma estrela,
ele fez a coisa mais linda
deste mundo: a mulher.

Deus conceda esse trabalho
tudo o que é concebido:
as estrelas lá em cima
e as flores aqui embaixo.

Em duas coisas que anseio
a felicidade está bloqueada:
trabalhar aqui na terra
e adorar lá no céu.

Eu concluo. Tenha coragem.
O cara que te abandona fala com você:
Trabalhador, imite a abelha;
trabalhador, imite o castor!


Valparaíso, fevereiro de 1889
NICARÁGUA
Primeiro de Maio - Chico Buarque

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas
Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu
Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhar do seu ventre
O homem de amanhã
*

segunda-feira, 24 de abril de 2023

SAUDAÇÃO AO PRÊMIO CAMÕES * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

CHICO BUARQUE RECEBE PRÊMIO CAMÕES DAS MÃOS DE LULA
SAUDAÇÃO AO PRÊMIO CAMÕES

*Discurso de Chico Buarque - Prêmio Camões 2019*

 

Cerimônia de entrega - dia 24 de abril de 2023, Palácio Nacional de Queluz, às 16.00 horas.

 

Ao receber este prêmio penso no meu pai, o historiador e sociólogo Sergio Buarque de Holanda, de quem herdei alguns livros e o amor pela língua portuguesa. Relembro quantas vezes interrompi seus estudos para lhe submeter meus escritos juvenis, que ele julgava sem complacência nem excessiva severidade, para em seguida me indicar leituras que poderiam me valer numa eventual carreira literária. Mais tarde, quando me bandeei para a música popular, não se aborreceu, longe disso, pois gostava de samba, tocava um pouco de piano e era amigo próximo de Vinicius de Moraes, para quem a palavra cantada talvez fosse simplesmente um jeito mais sensual de falar a nossa língua. Posso imaginar meu pai coruja ao me ver hoje aqui, se bem que, caso fosse possível nos encontrarmos neste salão, eu estaria na assistência e ele cá no meu posto, a receber o Prêmio Camões com muito mais propriedade. Meu pai também contribuiu para a minha formação política, ele que durante a ditadura do Estado Novo militou na Esquerda Democrática, futuro Partido Socialista Brasileiro. No fim dos anos sessenta, retirou-se da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em solidariedade a colegas cassados pela ditadura militar. Mais para o fim da vida, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, sem chegar a ver a restauração democrática no nosso país, nem muito menos pressupor que um dia cairíamos num fosso sob muitos aspectos mais profundo.


O meu pai era paulista, meu avô, pernambucano, o meu bisavô, mineiro, meu tataravô, baiano. Tenho antepassados negros e indígenas, cujos nomes meus antepassados brancos trataram de suprimir da história familiar. Como a imensa maioria do povo brasileiro, trago nas veias sangue do açoitado e do açoitador, o que ajuda a nos explicar um pouco. Recuando no tempo em busca das minhas origens, recentemente vim a saber que tive por duodecavós paternos o casal Shemtov ben Abraham, batizado como Diogo Pires, e Orovida Fidalgo, oriundos da comunidade barcelense. A exemplo de  tantos cristãos-novos portugueses, sua prole exilou-se no Nordeste brasileiro do século XVI. Assim, enquanto descendente de judeus sefarditas perseguidos pela Inquisição, pode ser que algum dia eu também alcance o direito à cidadania portuguesa a modo de reparação histórica. Já morei fora do Brasil e não pretendo repetir a experiência, mas é sempre bom saber que tenho uma porta entreaberta em Portugal, onde mais ou menos sinto-me em casa e esmero-me nas colocações pronominais. Conheci Lisboa, Coimbra e Porto em 1966, ao lado de João Cabral de Melo Neto, quando aqui foi encenado seu poema Morte e Vida Severina com músicas minhas, ele, um poeta consagrado e eu, um atrevido estudante de arquitetura. O grande João Cabral, primeiro brasileiro a receber o Prêmio Camões, sabidamente não gostava de música, e não sei se chegou a folhear algum livro meu.


Escrevi um primeiro romance, Estorvo, em 1990, e publicá-lo foi para mim como me arriscar novamente no escritório do meu pai em busca de sua aprovação. Contei dessa vez com padrinhos como Rubem Fonseca, Raduan Nassar e José Saramago, hoje meus colegas de prêmio Camões. De vários autores aqui premiados fui amigo, e de outras e outros – do Brasil, de Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde - sou leitor e admirador. Mas por mais que eu leia e fale de literatura, por mais que eu publique romances e contos, por mais que eu receba prêmios literários, faço gosto em ser reconhecido no Brasil como compositor popular e, em Portugal, como o gajo que um dia pediu que lhe mandassem um cravo e um cheirinho de alecrim. 


Valeu a pena esperar por esta cerimônia, marcada não por acaso para a véspera do dia em os portugueses descem a Avenida da Liberdade a festejar a Revolução dos Cravos. Lá se vão quatro anos que meu prêmio foi anunciado e eu já me perguntava se me haviam esquecido, ou, quem sabe, se prêmios também são perecíveis, têm prazo de validade. Quatro anos, com uma pandemia no meio, davam às vezes a impressão de que um tempo bem mais longo havia transcorrido. No que se refere ao meu país, quatro anos de um governo funesto duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás. Aquele governo foi derrotado nas urnas, mas nem por isso podemos nos distrair, pois a ameaça fascista persiste, no Brasil como um pouco por toda parte. Hoje, porém, nesta tarde de celebração, reconforta-me lembrar que o ex-presidente teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu Prêmio Camões, deixando seu espaço em branco para a assinatura do nosso presidente Lula. Recebo este prêmio menos como uma honraria pessoal, e mais como um desagravo a tantos autores e artistas brasileiros humilhados e ofendidos nesses últimos anos de estupidez e obscurantismo.

 

Muito obrigado


"O presidente Lula ao lado de seu homólogo português, Marcelo Rebelo de Sousa (c.) e do compositor Chico Buarque Foto: RODRIGO ANTUNES/REUTERS

JANJA APRESENTA O PRÊMIO CAMÕES

Ele disse ter a impressão de que "um tempo bem mais longo havia transcorrido. No que se refere ao meu país, quatro anos de um governo funesto duraram uma eternidade, porque foram um tempo em que o tempo parecia andar para trás", disse o artista.

Chico agradeceu ao presidente Rebelo de Souza por ter deixado em branco no o diploma do prêmio o espaço para a assinatura do presidente do Brasil, que ficou a cargo de Lula, e não de seu antecessor.

"Recebo este prêmio menos como uma honraria pessoal e mais como um desagravo a tantos autores e artistas brasileiros humilhados, ofendidos nesses últimos anos de estupidez e obscurantismo", concluiu Chico.

Ele disse também ter herdado de seu pai, o escritor e historiador Sergio Buarque de Holanda, o amor pela língua portuguesa.

Além de Chico Buarque e dos presidentes do Brasil e de Portugal, estiveram presentes na cerimônia cidade de Sintra a ministra da Cultura do Brasil, Margareth Menezes, e autoridades dos dois países.
"Formação cultural de diferentes gerações"

Um dos maiores nomes da MPB, Francisco Buarque de Holanda nasceu em 19 de junho de 1944, no Rio de Janeiro. Começou sua carreira musical na década de 1960 e se tornou um dos maiores compositores brasileiros. Entre os sucessos musicais de Chico, que tem cerca de 80 álbuns em sua discografia, estão A banda (1966), Apesar de você (1970), Cotidiano (1971), Construção (1971) e Amor barato (1981).

Em 1967, escreveu sua primeira peça de teatro, Roda Viva. No total, foram quatro incursões nesse gênero, sendo a última delas a Ópera do malandro, de 1978.

Em 1974, escreveu a novela Fazenda modelo, e em 1979, o livro infantil Chapeuzinho amarelo. Em 1991, publicou seu primeiro romance, Estorvo. O sucesso como escritor lhe rendeu três prêmios Jabuti, a premiação literária mais importante do Brasil, por Estorvo, melhor romance e livro do ano de ficção de 1992; Budapeste, livro do ano de ficção de 2004; e Leite derramado, melhor livro de ficção de 2010. Seu último livro, O irmão alemão, foi publicado em 2014.

Essa foi a primeira vez que um músico foi agraciado com o Prêmio Camões, que é um reconhecimento pela obra completa do artista. Ele foi eleito por unanimidade por um júri composto por representantes de Portugal, Brasil, Angola e Moçambique.

O júri justificou sua escolha pela "qualidade e transversalidade" da obra de Chico Buarque, "tanto através de gêneros e formas, quanto pela sua contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em todos os países onde se fala a língua portuguesa".

O peso literário das composições de Chico também foi destacado à época do anúncio do prêmio. "Evidente que esse prêmio é um reconhecimento pela poesia dele nas letras de música, que também são literárias, não só pelos livros. São poemas. Grandes poemas. A música Construção, por exemplo, é um poema até raro de se fazer", afirmou o escritor Antonio Cícero, um dos brasileiros que compôs o júri, ao lado de Antonio Hohlfeldt, ao jornal Folha de S.Paulo.

Brasil e Portugal criaram "Nobel da língua portuguesa"

O Prêmio Camões foi criado em 1988 por Brasil e Portugal e contempla anualmente autores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O objetivo é distinguir "um escritor que, pela sua obra, contribua para o enriquecimento e projeção do patrimônio literário e cultural de língua portuguesa".

O nome da premiação é uma homenagem ao poeta português Luís Vaz de Camões (1524-1580), autor da epopeia nacionalista Os Lusíadas e considerado um dos maiores nomes da literatura lusófona.

Ao longo de sua história, 14 escritores brasileiros já foram agraciados com o prêmio, entre eles Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Rubem Fonseca e Lygia Fagundes Telles.

Nos termos do regulamento do Prêmio Camões, Portugal e Brasil organizam de forma alternada as reuniões e as cerimônias de entrega da distinção. O júri é composto por seis membros com mandato de dois anos. Os governos de Portugal e do Brasil designam dois membros cada, sendo os dois membros restantes designados de comum acordo de entre personalidades dos restantes países lusófonos – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Os agraciados com o prêmio recebem atualmente a quantia de 100 mil euros (cerca de R$ 559 mil). Metade desse valor é subsidiado pela Fundação Biblioteca Nacional, entidade vinculada ao Ministério da Cultura do Brasil.

"O Prêmio Camões é uma das grandes conquistas do diálogo entre os países da língua portuguesa”, destacou o presidente da Biblioteca Nacional, Marco Lucchesi, afirmando que a distinção representa "uma espécie de Nobel" do idioma."

FONTE

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

MEU ÚNICO REI É PELÉ * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

MEU ÚNICO REI É PELÉ

*Vai com Deus rei Pelé, o futebol lhe agradece*
_____________________________

Sem Pelé no campo a bola
Está sendo maltratada
Dão bicudo em sua cara
Segue o jogo mal passada
A bola que foi redonda
Depois do rei é quadrada.

Na cadeira de Pelé
Sua saudade é quem senta
Um sucessor para o rei
O futebol não inventa
E o reinado sem ter príncipe
A coroa se aposenta.

*Charles Sant’Ana*

DUKE - QUADRINISTA
*
PELEZINHO - MAURÍCIO DE SOUZA

*
UM QUE CHEGOU LÁ

Pelé e outros poucos brasileiros da negritude e vindos da classe popular, alcançando ápice do sucesso, da fama, foram o álibi construído pela classe dominante histórica brasileira para dar continuidade ao racismo, à opressão, às violências contra pobres, negros e opositores do regime militar fascista de 64. Enquanto um ou outro se destaca em alguma área - negro, negra e pobre assalariado - o sarrafo é descido no lombo de milhares; casas de favelas invadidas e gente sequestrada e morta, sem ter direito a cumprir pena por delito cometido - "paga" com a vida.

A genialidade inconteste de Pelé no futebol mostrou ao mundo a capacidade de ginga brasileira que não é só no futebol é também na arte e daí o frevo, o samba, o forró.

Mas Pelé foi usado como falsa propaganda de Democracia Racial... Falsa porquê era pra poucos , então não era democracia...

Pelé "chegou lá", alcançou ápice da fama e do sucesso com maestria de seu talento. E isto foi argumento para a lógica brasileira reproduzir a ilusão que "basta querer e se esforçar que você também consegue" e milhares e milhares de "meninos Pelés" acreditaram nisso - em vão, óbvio. Que Pelé foi usado como peça de marketing da Ditadura militar, da legitimação da segunda maior desigualdade de renda do mundo, o Brasil, da matança indiscriminada de gente preta e pobre do Brasil.
Mas o talento de Pelé não tem nada a ver com a maldade que faziam com a negritude brasileira enquanto pousavam em fotos e abraços com ele...

A questão é que ele nunca se pronunciou sobre nada disso. E por isso, só lhe rezo um Pai Nosso e uma Ave Maria por sua passagem, sem nenhuma recomendação de gente extraordinária. Seu talento dos pés, do corpo, da mente fotebolistica, ficou feio com seu silêncio às questões sociais históricas mais graves do Brasil, fruto de 380 anos de escravatura.

Walter Eudes
29/12/2022



Lincoln De Abreu Penna


 Há um mês escrevi uma pequena crônica sobre Pelé, que nos deixou hoje. Naquela oportunidade reverenciava a importância do Rei, única majestade que reconheço no mundo sendo eu um republicano radical.


 Nessa crônica me referi a três momentos em que direta ou indiretamente Pelé me proporcionou instantes de emoção, misturada ao encantamento e a estima de uma personalidade muito especial. Em uma delas ele, sem o saber, me livrara de uma situação embaraçosa. Juntara esta a outras duas situações e daí o título que dera então, Três vezes Pelé. Mas, o que pude descrever outras tantas pessoas no mundo poderiam fazê-lo dada a força de uma personalidade verdadeiramente internacional, que só dá orgulho aos brasileiros.


 Hoje ao tomar conhecimento de sua morte fiquei a pensar se deveria acrescentar alguma coisa ao que havia dito quando soube de sua situação de saúde que já era considerada preocupante. De início imaginei que ele pudesse driblar como sempre o fez em campo diante de adversários poderosos e assim partir para o gol, isto é, para a glória da superação.


 Não foi assim dessa vez e ao término desse ano de tantas perdas e dissabores provocados por atitudes tão grotescas e grosseiras na vida pública do país, seu falecimento só pode trazer tristeza, porém também renovar a autoestima que precisamos cultivar como brasileiro. Afinal, Edson Arantes do Nascimento foi quem nos fez brilhar os dons mágicos e magistrais de nosso povo, que também dribla as adversidades para superar-se todo o dia.

 Com dezesseis anos Pelé surgiu para o futebol brasileiro em pleno Maracanã vindo de Bauru e já senhor da titularidade no fabuloso elenco do Santos Futebol Clube. Eu com os meus quatorze anos tive a oportunidade de vê-lo na partida em que ele participara num misto do Santos-Vasco da Gama. E a partir daí sua carreira se agigantou e poucos meses depois já estava convocado para disputar a Copa de 1958 na Suécia onde se tornaria o grande ídolo de nosso primeiro título.


 Antes mesmo do fim do século XX era ele coroado, agora como o Atleta do Século. Tricampeão do mundo marcou sua trajetória em dois momentos. O primeiro, ao fazer detonar finalmente o soccer, o futebol nos EUA, até então um esporte amador e praticamente desconhecido.


 O outro lance não menos importante foi quando ministro dos Esporte do presidente Fernando Henrique Cardoso implantou o fim do passe, que prendia o atleta ao clube como uma nova e moderna forma de escravidão ou servidão, como queiram. Assim, através da Lei 9.615, a chamada com justiça Lei Pelé, os jogadores ao fim do contrato está livre para negociar com qualquer entidade esportiva.


 Pelé nunca foi de se pronunciar politicamente. No entanto, fez mais do que muitos que ao se manifestarem nem sempre são coerentes em suas vidas. Teve erros, sem dúvida, como todo mundo os têm. Mas, é um dos poucos, senão raros, que serão lembrados nos próximos séculos, pois sua glória eternizou-se sem exagero algum. E mais do que um reconhecimento individual elevou com sua arte o valor de uma nação plural, miscigenada, sofrida, mas rica em habilidades e potencialidades.

Lincoln Penna


https://www.facebook.com/groups/1704109646498824/permalink/3310762379166868/

*Rei Pelé*


Pelé e Garrincha, dois reis no campo.
*
MELHORES MOMENTOS DO REI DO FUTEBOL MUNDIAL

Pelé: quando o Rei bateu de frente com o regime militar e enfrentou o racismo
Estadão Conteúdo | 29/12/2022 às 17:25

Quando deixou a seleção brasileira, em 1971, Pelé precisou mostrar uma nova face. Para cumprir sua decisão, ele bateu de frente com diversos políticos do regime militar do País, enfrentou ainda poderosos dirigentes esportivos, como João Havelange, e ainda teve de lidar com racismo de parte da opinião pública. A aposentadoria da seleção aconteceu após a conquista do tricampeonato mundial em 1970, no México. Pelé tinha 30 anos na época e vivia seu melhor momento da carreira. Sua intenção era continuar jogando pelo Santos, com quem tinha contrato até 1974, mas também queria se arriscar como empresário e ganhar dinheiro com a imagem de melhor jogador do mundo.

“Era um capital simbólico que ele tinha como campeão. Mas a pressão foi muito forte. Imagina o maior jogador de futebol se despedir da seleção brasileira no auge sem qualquer homenagem do governo? Foi isso que aconteceu”, relembra o historiador José Paulo Florenzano, que publicou pesquisa sobre o assunto analisando os jornais da época.

Era um período em que o regime militar tentava atrelar as grandes apresentações da seleção, especialmente na Copa de 1970, à imagem do governo: “vamos todos juntos, pra frente Brasil, salve a seleção”. Mas, para Pelé, o assunto estava encerrado e ninguém o faria voltar atrás.

A abertura de um texto do Estadão de 7 de julho de 1971 deixa claro o que estava acontecendo. “Pelé ficou surpreso e ameaçou um sorriso quando soube que alguns setores do governo consideraram a sua saída da seleção um ato de indisciplina esportiva. No início, Pelé simplesmente não acreditou que fosse possível. Ele havia acabado de chegar a Bragança para continuar filmando ‘A Marcha'”.

Pelé tinha outras prioridades, como a reportagem mostra. O governo não aceitava sua saída e, por isso, não quis prestar qualquer homenagem ao jogador nas partidas de despedida. O ministro Jarbas Passarinho disse ao Estadão em 8 de julho de 1971 que “só a sua despedida definitiva é que governo e o povo lhe prestarão a consagração que o encerramento de sua atividade justificará.”

João Havelange, então presidente da CBD (antigo nome da CBF), tentava ganhar prestígio no mundo esportivo em busca do cargo de presidente da Fifa. Para tentar manter Pelé na seleção, ele invocou um decreto-lei de número 5.199 que lhe outorgava o direito de “requisitar qualquer jogador” sujeito a “ser suspenso e sofrer outras punições legais, dentro da legislação” em caso de recusa. “O Pelé peitou o Havelange nessa ocasião e em outras. Ele chegou às últimas consequências dizendo que se fosse pressionado, encerrava a carreira no futebol. O Estadão foi o principal jornal que saiu em defesa da decisão de Pelé”, lembrou Florenzano.

PRESSÃO MILITAR

No dia 10 de julho, véspera do primeiro jogo de despedida, o jornal publicou um editorial com o título: “Episódio esportivo passa a ser político”. O primeiro parágrafo: “O inábil e irritado recuo do governo, cancelando as homenagens oficiais na despedida de Pelé da seleção brasileira imprimiu um colorido político a um episódio que deveria esgotar-se no plano esportivo, e criou para o esquema publicitário governamental uma situação que não pode deixar de ser reconhecida como altamente desconfortável.”

Foram dois jogos de despedida. O primeiro em 11 de julho de 1971, no Morumbi, contra a Áustria. Havia mais de 110 mil torcedores gritando “fica”. Pelé marcou o gol do Brasil no empate por 1 a 1, seu último gol pela seleção brasileira. Sete dias depois houve o duelo com a Iugoslávia no Maracanã, com 140 mil torcedores clamando “fica”, que terminou no empate por 2 a 2.

A pressão não parou por aí. Em janeiro de 1972, o Estadão destacou: “Pelé não aceitou, ontem à tarde em Brasília, o último e mais importante apelo de quantos lhe foram feitos para voltar à seleção brasileira e participar da Minicopa: do presidente Garrastazu Médici, que o apresentou ‘na condição de representante da torcida brasileira’, durante audiência concedida no Palácio do Planalto ao jogador e à diretoria do Santos Futebol Clube.”

O “não” foi um golpe também em Havelange, que tentava organizar um torneio com as principais seleções do mundo em 1972. Era parte de sua campanha para assumir a presidência da Fifa, que viria a ser bem-sucedida. Mas o torneio não foi. Além de Pelé, Alemanha, Itália e Inglaterra também não quiseram participar.

RACISMO

A pressão em cima do Rei do Futebol continuava sem dar trégua. Parte da opinião pública tomou as dores do governo militar e passou a tentar apresentar Pelé como uma pessoa gananciosa, que havia deixado a seleção para ganhar dinheiro. Pelé, obviamente, era bastante requisitado para comerciais e filmes.

O jornal Cidade de Santos publicou uma série de charges contra Pelé, assinadas por J.C. Lôbo, algumas preconceituosas, apresentando o Rei do Futebol como vendedor de refrigerante no estádio, por exemplo. “Foram muitas charges e comentários racistas. O Pelé querer contribuir para a sociedade como empresário, no fundo, a interpretação é essa: o lugar do Pelé é no campo jogando bola, uma maneira de designar o lugar do negro na sociedade”, opinou Florenzano.

Em fevereiro de 1974, a Copa do Mundo se aproximando, Pelé enviou carta ao então editor de Esportes do Estadão, Luís Carlos Ramos, para reafirmar que não voltaria a vestir a camisa do Brasil. “Finalmente alguém conseguiu sintetizar em um só artigo toda a minha consciente decisão de não mais jogar pela seleção brasileira e os problemas que com ela estão criando, tentando, através de motivações absurdas, jogar a opinião pública contra a minha pessoa”, escreveu Pelé.

Dois dias depois, Florenzano recorda que Pelé recebeu uma carta de João Havelange pedindo mais uma vez que repensasse. “Minha esperança cresce ao recordar suas provas de amor, como cidadão e tricampeão mundial de futebol, aos anseios em que palpita a presença do Brasil”, escreveu o mandatário. Pelé rebateu com agradecimentos: “É chegado o momento de mostrar aos brasileiros que posso ser útil ao País em outros campos de atividades, com a mesma dedicação, honestidade e motivação com que sempre defendi a nossa Seleção. Contando com a compreensão de V.Sas., cordialmente.”

Os militares ainda não se deram por satisfeitos. Em abril, Pelé foi recebido por dois ministros em Brasília e precisou manter mais uma vez a decisão. O Estadão conta que na ocasião o Rei do Futebol chegou a comentar com amigos que cogitava antecipar sua aposentadoria em abril e não em outubro, como previa. Quando notaram que não teria como fazê-lo participar da Copa da Alemanha, em 1974, Pelé se tornou para muitos um inimigo do Brasil. Durante os jogos do Mundial, motivados também pelas fracas atuações da equipe nacional, familiares de Pelé em Santos chegaram a ser ameaçados.

Pouco depois da viagem de Pelé para Europa, onde estava assistindo a Copa do Mundo, uma nova ameaça contra o jogador começou a surgir nos comentários que se ouviam pelas ruas de Santos: caso o Brasil perdesse os primeiros jogos e saísse do campeonato, a sua casa no canal 6, bairro da Ponta da Praia, seria apedrejada. Pelé não se rendeu.


Homenagem da cidade do RIO DE JANEIRO ao Rei do Futebol mundial
*
CHICO BUARQUE E PELÉ

*
"Eu acho que o Brasil tem pouca representatividade negra no congresso. Por felicidade, por respeito ou por tudo o que eu fiz, eu sou um dos negros que têm um cargo alto no governo. Eu acho que eu sou um grande exemplo. Acho que o negro tem que se unir e tem que votar em negro para termos mais representatividade no governo."

A fala do parágrafo acima saiu da boca de Pelé, então ministro do Esporte, em entrevista ao apresentador Jô Soares. A entrevista, em 1995, contradiz um dos muitos lugares-comuns sobre o ex-jogador: de que ele evita se posicionar politicamente.

O jornalista esportivo Paulo Cesar Vasconcellos, comentarista dos canais SporTV, é enfático ao afirmar que "Pelé sempre foi vítima de racismo".

"Eu sou um negro, um homem negro, que cresceu tendo Pelé como ídolo. Acho que ele teve um papel, se não foi do ponto de vista discursivo, se não foi do ponto de vista oral, foi do ponto de vista corporal extremamente afirmativo para pretos e pretas", disse ele em entrevista ao Brasil de Fato.

Vasconcellos citou outro momento em que o ídolo deixou clara sua postura democrática. Em 1984, ele vestiu camisa da Seleção Brasileira com mensagem de apoio ao movimento "Diretas Já". A imagem estampou a capa da revista Placar, maior publicação esportiva do país na época.

Pelé veste camisa em defesa do movimento "Diretas Já" em foto que estampou a capa da revista Placar em 1984 / Reprodução

Para o jornalista, a foto icônica, tirada pelo fotógrafo Ronaldo Kotscho, é bem menos lembrada do que deveria. Nas últimas semanas, com o ídolo internado para o tratamento de câncer em São Paulo, o clique passou a ser bastante compartilhado nas redes sociais.

Vasconcellos afirma que o craque brasileiro foi cobrado para que tivesse, por exemplo, postura semelhante à do boxeador estadounidense Muhammad Ali, que foi contemporâneo do Pelé e se tornou protagonista da luta antirracista nos Estados Unidos a partir da década de 1960. Ele morreu em 2016.


"O preconceito nos Estados Unidos sempre foi algo muito debatido e muito explícito, e o Brasil sempre foi muito cínico. Então são formações distintas, não cabe comparação entre um e outro", pondera.

Outro especialista no tema, o diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, Marcelo Carvalho, afirma que Pelé é muito mais criticado que pessoas brancas. Ele cita como exemplo a postura pouco combativa do jogador perante à ditadura militar que governou o país entre 1964 e 1985.

"Parece que a gente sempre olha para uma figura negra e acha que ela tem que ser completa, né? Não basta ter seus talentos na sua área específica. Também precisa ter um posicionamento político, uma índole correta, não pode errar. É muito pesado esse fardo que a gente coloca nas costas das pessoas negras", destaca.

A filha

Um episódio que marcou a vida do ex-jogador, já depois de aposentado, foi a relação com a filha Sandra Regina, que precisou enfrentar uma batalha judicial no início dos anos 1990 para ter o reconhecimento da paternidade. O caso ainda é muito lembrado por críticos de Pelé. Para Carvalho, a questão racial tem um importante componente nessas críticas.

"Eu não vou 'passar pano' para a questão da filha dele, mas a gente vai diminuir o tamanho que o Pelé foi por conta disso? Será que isso é o ponto que não deixa Pelé ser um homem 100% venerado? É algo muito mais racial que de fato o problema que ele teve com a filha", diz. Sandra morreu em 2006, vítima de câncer.

"O Pelé sempre foi vítima de racismo, e tudo o que o Pelé fazia e dizia, por ser ele um homem negro, sempre foi levado num outro sentido, de desqualificação do que ele estava dizendo", complementa Paulo Cesar Vasconcellos.

O jornalista cita, por exemplo, o famoso discurso do jogador instantes após marcar seu gol de número 1.000, em 1969: "Pelo amor de Deus, o povo brasileiro não pode esquecer das crianças, as crianças necessitadas, as casas de caridade. Vamos pensar nisso", afirmou a jornalistas que invadiram o campo.

"Pois bem, aquela afirmação à época só foi ironizada, só foi depreciada. O que nós temos no Brasil de hoje? Os netos daquelas crianças que estavam no sinal, nas ruas, pedindo dinheiro, estão agora pedindo dinheiro. Se tivesse sido pensado e elaborado de outra forma, será que não poderia ter contribuído? Sempre que o Pelé abriu a boca houve uma questão de desqualificar o que ele dizia", afirma.

Mesmo com todo o sucesso dentro de campo - fez mais de 1.200 gols na carreira, conquistou três Copas do Mundo e dezenas de títulos com o Santos - Pelé demorou a conquistar aceitação, segundo o jornalista.

"Para muitas pessoas, dentro do modelo do racismo brasileiro, o Pelé deixou de ser um homem negro para ser 'O Pelé'. Ele não era um homem negro, ele era 'O Pelé'. E com isso ele foi sendo aceito por que não havia como não aceitá-lo", avalia Vasconcellos.

Marcelo Carvalho concorda, e lembra que até atingir o status de maior jogador da história do futebol, o ex-jogador foi chamado por diversos apelidos que remetiam à cor da pele. Porém, mesmo após ser eleito o Atleta do Século por jornalistas de todo o mundo, ainda carece de reconhecimento dentro do próprio país.

"Agora a gente viu isso na Copa do Mundo: o quanto os outros países veneram seus jogadores, seus ídolos. E quanto o Brasil não faz isso. Basta ver, por exemplo, o tanto de bandeirão que tinha da Argentina, dos torcedores levando Diego Maradona para o estádio, e colocando Messi no mesmo patamar, e a gente nunca viu algo nem perto disso com o Pelé", aponta.

Para o diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial, Pelé é mais reconhecido no exterior que no Brasil, e de tempos em tempos são lançados novos nomes que, quem sabe, poderão desbancá-lo no futebol do país - como Zico, Ronaldo, Ronaldinho. Nenhum deles conseguiu, e é provável que nenhum consiga.

"A cada vez que esses outros jogadores aparecem, e não conseguem chegar nesse tamanho que o Pelé foi, a gente vai reconhecendo que ele é acima de todos esses. Ninguém chegou perto do Pelé, olhando para o futebol brasileiro. E aí que eu acho que a gente não dá o devido valor. O brasileiro não dá o devido valor para o Pelé", conclui.

Edição: Rodrigo Durão Coelho
*

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

RAJADAS DE VERSOS * Frente Revolucionária dos Trabalhadores - FRT

RAJADAS DE VERSOS

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes
conheces melhor do que eu
a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

Eduardo Alves da Costa.SP
*
PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO QUE LÊ

Bertold Brecht

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China,
para onde foram os seus pedreiros?
A grande Roma está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes?
Até a legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos.
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

*
O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO
Rio de Janeiro , 1959

VINICIUS DE MORAES - RJ

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
*
CONSTRUÇÃO

CHICO BUARQUE - RJ

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

*

Meu amigo, minha amiga 

Meu prezado cidadão 

Vou mandar o meu recado 

Preste muita atenção 

Não precisa tanta briga 

Por causa de eleição.


Neste tempo eleitoral 

Há quem perca a razão 

Há quem brigue com amigos 

Faz intriga e confusão 

Eleição é passageira 

Amizade não é não. 


Se você é eleitor 

Consciente e tem noção

Compartilhe essa ideia 

Com toda população 

Não discuta com ninguém 

Por causa de eleição.


E em 30 de outubro

Com cabeça ou coração

Vote em quem quiser

*Mas, por favor.!*


*#*22 Não!*

AUTOR DESCONHECIDO

*

A ONDA 13

Marcelo Mário de Melo - PE


Nuvens de novas andanças

anunciam na janela 

sol e flor paisagem bela 

dançando e cantando juntas

as esperanças defuntas

irrompem ressurreição 

tiram da intubação 

os sonhos na UTI 

vão saindo por aí 

anunciando a aurora 

gente do lado de fora 

vai alargando a ciranda 

alguns olhando de banda 

outros com medo de entrar 

o cheiro forte no ar 

puxando o cordão na frente 

dando um tom diferente 

quebrando a velha rotina 

contornando aresta e quina 

abrindo um desenho novo 

ainda pinto no ovo 

mas acendendo uma luz 

vamos ver a que conduz 

essa onda renascente 

sonho virando semente 

para dar flores e frutos 

vias canais e condutos 

formando a nova cidade 

traçado de liberdade 

na base da arquitetura 

paz amizade fartura 

tijolos da construção 

com essa planta na mão 

vamos juntar os pedreiros 

velhos novos companheiros 

homem mulher e criança 

com trabalho luta e dança 

alicerce e crescimento

no fundo do pensamento 

pulsação do bem comum 

lembrando de um a um 

quem tombou no sacrifício 

quem lutou desde o início 

quem agora ergue a bandeira 

para se fazer a feira 

ter teto terra e trabalho 

não viver de rebotalho

nem ter um futuro incerto 

sem exploração por perto 

no roteiro coerente 

melhorando no presente 

os quatro cantos da vida

restando da sobrevida

só lembranças do passado 

caminhando lado a lado 

com esse claro ideal 

eu  ponho o ponto final

nesta conversa comprida 

e vamos cuidar da vida 

sem contar de um a três: 

é 13 no fim do mês! 

....