Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta brizola. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta brizola. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

QUEM TEM MEDO DE BRIZOLA * Hildegard Angel / RJ

 QUEM TEM MEDO DE BRIZOLA

O MEDO QUE OS MILITARES TINHAM DE BRIZOLA

Hildegard Angel / RJ


Hoje, o Centenário de Leonel de Moura Brizola não saiu na Globo, mas as redes sociais se transformaram num emaranhado de fotos, artigos, elogios, louvações, fogos de artifício, depoimentos, histórias, tudo dedicado aos 100 anos de nascimento de Leonel Brizola, que, a cada ano, mês, minutos, se torna maior, ao olhar da História.


Não precisei estudar a recente história brasileira para achar, como concluiu o  historiador Thomas Skidmore após pesquisar, que Leonel Brizola foi o político que "mais assustou" a elite. Mais até do que Lula.


Eu vi, eu acompanhei, eu mesma fui inoculada com o vírus do medo de Leonel Brizola, e só fui votar nele para governador do Rio de Janeiro da segunda vez, totalmente abduzida pelo seu carisma, a devoção aos pequenos, a coragem sempre demonstrada e as boas companhias, como Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer, Nilo Batista e outros que já admirava.


O temor a Brizola não foi construído pela mídia, como foi o temor a Lula. Foi construído pelos seus atos e por seu temperamento. Brizola não era manso, muito menos conciliador. Era agitador, desafiador, destemperado. Foi o único que peitou e conseguiu evitar um golpe no Brasil, já prontinho, bem cozido no forno das conspirações dos militares, para ser servido ao povo.


Como governador do Rio Grande do Sul, Brizola conseguiu fazer o assado desandar e garantir a posse do cunhado, João Goulart, na Presidência, com a formação de sua genial "Cadeia da Legalidade". Assim como tem Lula, o gaúcho Leonel tinha um dom invulgar para a oratória. Discursava com raiva esfuziante, era um talento histriônico, magnético no palanque, no rádio e na TV.


Falava como bandeira desfraldada, espada desembainhada, e cunhava imagens extraordinárias. Brizola estava pronto, não estava crescendo nem aprendendo. Era engenheiro, era culto, era ameaçador. Foi ele quem os militares mais temeram.

Era o governo de Figueiredo. Cobri o governo para minhas páginas do Globo. Ia às festas em Brasília, às reuniões sociais, acompanhei viagens, vi e ouvi muita coisa. Muita mesmo. Ninguém me contou.


Eu estava hóspede em Brasília na casa dos amigos Rai e Said Farhat, o ministro da Comunicação Social. Era um domingo, e a vizinha da casa ao lado, na QL 12, quadra onde residiam os ministros de estado, Liliane Andreazza, esposa do Ministro dos Transportes, telefonou, convidando o casal para um  churrasco. Rai informou, "estamos com hóspedes em casa, a Hilde". E Liliane, atenciosa como sempre, estendeu o convite.


Era uma reunião de amigos, informal, com ministros militares e civis, assessores. Um recorte expressivo da Corte conversava abertamente. Ali pude atestar ao vivo e a cores a enorme preocupação dos homens da ditadura com Brizola. Isso já era sabido, mas fui testemunha ocular e auditiva, senti o pulso das palpitações que despertava o receio, naqueles homens e em suas mulheres, de um possível retorno de Leonel Brizola ao Brasil e à política brasileira.


Naqueles anos, quase não se falava em PT, muito menos em Lula. A volta de Brizola foi o maior argumento para emperrar a porta da abertura. Foi o pivô que justificou as lutas intestinas do poder. Foi o medo de Brizola que alimentou o cabo de guerra no Governo Figueiredo. Por um lado, fazia força a linha dura, com o general Otávio Medeiros e um grupo de militares de óculos com lentes pretas. Sem aparecer, do alto de seu pedestal de eminência parda, o general Golbery puxava para esse lado (sim, posso dizer isso).

Na linha pró-abertura, Figueiredo puxava a corda, tendo o incentivo de alguns militares, sendo o único civil o ministro da Comunicação Social, Said Farhat, que devido a isso mesmo acabou defenestrado por pressão de Golbery – assim Farhat pensava.


Foi o medo de Brizola que adiou a volta dos exilados, foi o medo que a repressão tinha de Brizola que inspirou uma anistia que também os anistiava, foi o medo de Brizola e tudo o que ele representava que quase espichou a ditadura por mais um ou dois mandatos. Foi o medo de Brizola que soltou bombas na OAB, no Riocentro e incendiou a Tribuna da Imprensa. Os que faziam “o circo pegar fogo” eram os que não queriam largar o osso do poder. A eles servia incentivar o medo de Brizola.


O Inimigo Nº 1 da Ditadura era Brizola, não era Lamarca ou Marighela ou Jango ou JK ou Rubem ou Herzog ou Sônia ou Yara ou Gabeira ou Astrogildo ou Chael ou Pomar ou Fiel ou Santa Cruz ou Palhano ou Marilene ou Stuart ou Zuzu. Esses incômodos já haviam sido eliminados.  


Não contavam, porém, com o temperamento de Figueiredo, que não era de voltar atrás à palavra dada, sobretudo após declarar na posse “juro que farei desse país uma Democracia” (discurso redigido por Farhat), e depois dizer que caso criassem dificuldades “eu prendo e arrebento”.


 A ala das bombas era a dos ‘óculos pretos’, que, no auge da insatisfação com a liberalidade de Farhat com a mídia (que desancava o governo), enviou de presente para sua esposa não uma caixa de bombons, mas um livro, recheado com uma bomba.

Voltando ao governador Brizola, por mais maravilhas que realizasse para o Rio de Janeiro, mais a imprensa o desprezava. Fez os Cieps, inventaram que eram “elefantes brancos”. Depois os tucanos os copiaram em São Paulo, e depois a TV Globo instalou, no primeiro Ciep (despejado), o seu “Criança Esperança”. Fez a Linha Vermelha. O Sambódromo (inicialmente, com falhas, em seguida corrigido). Fez uma política de Segurança Pública que exigia para os moradores dos morros e favelas o mesmo respeito e a mesma norma cumprida nos condomínios e prédios da Zona Sul: o mandado de busca.


Isso, principalmente isso, revoltou a polícia, quase toda anti-Brizola. Não poder meter o pé na porta de um barraco. Não poder fazer zunirem balas sobre as cabeças dos moradores. Não poder terceirizar os assaltos aos menininhos pobres, os pivetes, que depois entregavam aos policiais a ‘parte do leão’, a ‘féria’ dos roubos.

O Rio de Janeiro de Brizola também era insuportável para aqueles com pensamento curto, que julgavam poder manter seus privilégios ad eternum, que a violência continuaria a passar longe de seu cercadinho e as balas perdidas jamais encontrariam o caminho da Zona Sul.


Encontraram, estão aí, zunindo sobre nossas cabeças.

Brizola, que falta faz você!

***

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Entrevista de Leonel Brizola Fevereiro de 1964 * Jornal A Pátria

Entrevista de Leonel Brizola Fevereiro de 1964


Dois meses antes do Golpe de abril de 64, Leonel Brizola foi entrevistado pela Monthly Review, revista que desde 1949 reunia a fina flor do pensamento marxista como Leo Huberman, Paul Baran, Paul Sweezy, Harry Magdoff e Fred Magdoff.

Esta entrevista de Brizola constitui mais uma prova de seu anti-imperialismo e revela como o pessoal da universidade aqui no Brasil o interpretou maldosa e equivocadamente como “populista”. A verdade era outra: Brizola foi um político socialista.

BRIZOLA GANHA DIREITO DE RESPOSTA CONTRA REDE GLOBO


MR – No momento Leonel Brizola é sem dúvida o líder popular mais influente da Frente de Mobilização Popular, um organismo que engloba a esquerda. Ele frequentemente fala ao povo na rádio mais ouvida do Brasil, ele fala uma linguagem clara usando muitas imagens e comparações.

BRIZOLA – “Você terá observado” (ele começou sem esperar a pergunta), “que o fato mais relevante no Brasil de hoje é a sua inflação. Nas atuais circunstâncias, a inflação é um problema insolúvel, porque sua origem é externa e controlada de fora, ela é um produto da pilhagem imperialista.”

MR – O processo inflacionário está acelerando?

BRIZOLA – “De janeiro de 1945 até dezembro de 1952 o custo de vida duplicou. Foram oito anos. Duplicou novamente de 1952 a 1958 em apenas seis anos, e de 1958 a 1961, três anos; outra vez de janeiro de 1962 a junho de 1963, um ano e meio. Agora o custo de vida duplicará em oito ou nove meses.”

MR – Como o senhor explica isso?

BRIZOLA – “É como se o imperialismo tivesse colocado uma grande bomba de sucção em nosso corpo para poder sugar nosso sangue. Já que não podemos resistir, o imperialismo retira o sangue e injeta água no seu lugar. O dinheiro que é posto aí, que não representa valor real, é a água. E é assim que nós vivemos. Mas o colapso virá, está se aproximando a passos de gigante.”

MR – Como ocorrerá o colapso?

BRIZOLA – “Pouco a pouco a situação está se tornando mais difícil de segurar: em vista disso, as classes dominantes, apoiadas pelo imperialismo, estão se unificando para dar um golpe de direita, a fim de estabelecer um governo de força, uma ditadura, seja ela escancarada ou disfarçada. Evidentemente seria difícil impor uma ditadura, pois já não é fácil enganar o povo. Nós estamos dispostos a lutar, estamos preparados, e isso será o começo da luta revolucionária pela libertação nacional. O exemplo de 1961 mostra que o povo lutará junto com os seus irmãos do Exército – os sargentos, os cabos, os soldados e os oficiais nacionalistas”.

MR – Quais são as condições necessárias para essa luta?

BRIZOLA – “Organização e unidade. Nós tivemos problemas com os erros cometidos pelo partido Comunista e por Francisco Julião. Devemos no entanto reconhecer que Julião possui o grande mérito de ter despertado o setor mais oprimido da nossa população: os trabalhadores rurais. E nós acreditamos que todos esses erros serão superados. Nós não somos anti-comunistas, recebemos bem a todos os brasileiros patriotas que venham a lutar pela libertação de seu país. O problema latino-americano tem de ser concebido como um problema de libertação nacional. Sem libertação nacional não podem existir as reformas de base porque não se resolve problema da pobreza.”

MR – Como o senhor pensa a revolução?

BRIZOLA – “Em primeiro lugar precisa ter unidade de todo os patriotas. É imperativo que a revolução encontre soluções socialistas. E não é uma questão de escolher uma doutrina de um livro. Somente as soluções socialistas é que permitem a defesa dos povos contra o imperialismo.”

(Ele me interrompe, sorrindo, antes que eu possa fazer a próxima pergunta.)

BRIZOLA – “Você vai me perguntar como cheguei a estas conclusões. Na época em que me tornei governador, eu era político convencional com todos os preconceitos habituais. Eu estava convencido de que bastava uma boa administração, trabalhar duro para melhorar a situação do povo em todos os setores. Mas eu vi que o povo trabalhava mais e melhor e, apesar disso, estava ficando pobre. Então, eu tive a compreensão do problema da América Latina em conjunto. Depois, quando tomei medidas contra determinadas companhias que nos exploravam, eu vi diante de meus olhos o problema da opressão imperialista. Olhe: é como se você e eu quiséssemos arrumar a mobília desta sala, mas alguém está carregando-a para fora. Aí chega uma hora em que não há mais mobília para arrumar. Por conseguinte, a primeira tarefa nossa é fechar a porta para impedir a espoliação.”

FONTE

quinta-feira, 11 de abril de 2024

DOCUMENTÁRIO BRIZOLA * Wellington Penalva

DOCUMENTÁRIO BRIZOLA
Wellington Penalva
Obra que mergulha na vida do fundador do PDT consultou documentos reunidos pelo CMT

No cenário político brasileiro, poucos nomes ressoam com a força e o legado de Leonel Brizola. O documentário “Brizola”, dirigido por Marco Abujamra e produzido por Mariana Marinho, estreiou neste domingo (7), trazendo à tona a vida e a luta do emblemático trabalhista. A obra é destaque no 29° Festival É Tudo Verdade e teve apoio do acervo reunido pelo PDT ao longo dos seus 44 anos de existência.

Com estreia marcada para às 16h, na Estação Net Botafogo, no Rio de Janeiro (RJ), o documentário fornece uma reflexão sobre a construção da classe política brasileira e o ideal democrático, contribuídos ativamente por Brizola desde a primeira metade do século XX. A obra promete uma viagem pela história e uma lição de tolerância da diversidade política.

Através de um meticuloso trabalho de pesquisa, o Centro de Memória Trabalhista (CMT), braço da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP) do PDT, disponibilizou um acervo rico, incluindo revistas, livros, vídeos, entrevistas e fotos que se tornaram essenciais para a construção narrativa do documentário. O partido foi procurado pela produção do filme e se prontificou em colaborar, enxergando a obra como outro importante documento sobre a história do Trabalhismo.

“Indicada por Trajano Ribeiro, Mariana Marinho [produtora do filme] entrou em contato conosco e pediu a nossa contribuição com o documentário. Foi uma excelente oportunidade, afinal é um registro importante para o Trabalhismo e para o Brasil. Além disso, uma obra como essa dá às novas gerações a oportunidade de conhecer Leonel Brizola, um dos líderes políticos mais importantes da história nacional”, conta o coordenador do CMT, Henrique Matthiesen.

O diretor Marco Abujamra destaca: “Um dos maiores comunicadores do país, Brizola entendeu como poucos o alcance e o poder da mídia. E usou esse entendimento para promover ideias consideradas, pelo Brasil da época, como extremistas, “comunistas”, e até mesmo subversivas”. Essa visão progressista e a habilidade de Brizola em utilizar a mídia para difundir suas ideias são pontos centrais do documentário.

A produtora Mariana Marinho enfatizou a origem humilde e a trajetória de luta do trabalhista. “Brizola teve seu pai assassinado quando pequeno, sua mãe o alfabetizou em casa, o estudo nunca fácil, conciliando com trabalho para ajudar a mãe com os irmãos. No ensino médio fundou o Grêmio estudantil de sua escola e se formou em engenharia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul”, destacou.

Brizolistas, lideranças do PDT e dirigentes da FLB-AP, além da presidente estadual do PDT, deputada Martha Rocha, confirmaram presença no lançamento, no Rio. Aguarda-se que o documentário, após sua jornada por festivais nacionais e internacionais, encontre um lar permanente no Canal Curta!, ampliando ainda mais seu alcance e impacto.

domingo, 7 de abril de 2024

Brizola e os avanços que o Brasil jogou fora * Aydano André Motta/ProjetoColabora

Brizola e os avanços que o Brasil jogou fora
Aydano André Motta


_Documentário revive a trajetória, as obras, as ideias e a inesquecível oratória do líder trabalhista perseguido pela ditadura militar desde o primeiro dia_

A efeméride das seis décadas do golpe que impôs a ditadura militar ao Brasil, em 1964, atesta o apagamento histórico de vários personagens essenciais para entender – e lamentar – caminhos e escolhas da nossa sociedade. O maior deles, Leonel Brizola. As ideias do trabalhista gaúcho, governador de Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, seguem, 20 anos depois de sua morte, contemporâneas, inovadoras – revolucionárias. E tragicamente abandonadas.

Jamais por acaso, ele se cristalizou como inimigo público número 1 dos conservadores, os militares abrindo a fila. Corajoso na defesa de suas convicções, nunca cedeu a unanimidades nem a consensos artificiais. Pioneiro da polarização, cevou apaixonados que, hoje de cabelos brancos, suspiram de saudade do caudilho.

A paixão dos progressistas foi diretamente proporcional ao ódio dos conservadores – e Brizola pagou caro por ele, a começar pelos exatos 5.489 dias de exílio, o maior entre os políticos banidos pelo arbítrio de 1964. Consequência de ser bem menos pragmático do que manda a bula do “nem eu nem você” da política no país do conchavo.

“Brizola” também é o nome de documentário dirigido por Marco Abujamra e produzido por Mariana Marinho, incluído no 29º Festival É Tudo Verdade. Vai passar dias 7 e 9, no Rio, e 12 e 13, em São Paulo. Oportunidade preciosa, para brasileiros de todas as idades – os mais jovens conhecerão político único, de características extintas na terra arrasada de hoje; os menos jovens relembrarão a trajetória emocionante.

Quando governador, assinou atos únicos na história da gestão pública no Brasil, decretando estatizações de concessionárias privadas – primeiro, a Companhia Elétrica de Pelotas e a Companhia Nacional do Telefone, subsidiárias de multinacionais que bloqueavam a democratização da infraestrutura no Rio Grande do Sul; depois, as empresas de ônibus cariocas, referência de eterno serviço aviltante. Passaram-se os anos – hoje, São Paulo e outras cidades brasileiras comem (no escuro, no calor) o pão que Asmodeu amassou na surrealista incompetência da Enel para fornecer eletricidade.

Favorito na eleição presidencial de 1965, que não aconteceu pela ação de generais golpistas, Brizola desde sempre lutou a batalha da educação de qualidade. Após voltar do exílio com a anistia de 1979, elegeu-se governador do Rio em 1982, na primeira votação direta para o cargo pós-1964. Sua gestão teve como assinatura os Cieps (Centros Integrados de Educação Pública), ideia tão revolucionária como elementar: manter crianças na escola o dia inteiro, alimentadas e submetidas a currículo multidisciplinar.

Não à toa o povo rebatizou as novas escolas de “brizolões”. Além da comida de qualidade, estruturas com piscinas, espaços de arte e quadras poliesportivas, havia respeito por traços sociais eternamente criminalizados no racismo nosso de cada dia. Nas recreações, muitas vezes lideradas por trabalhadores recrutados em comunidades populares, eram encenadas brincadeiras com orixás e cânticos afro-brasileiros. A educação formal ganhava o tempero da cultura mais diversa.

Passados 40 anos da implantação, várias gerações de brasileirinhos poderiam ter vida radicalmente diferente da imposta por nossa inquebrável desigualdade. Mas os Cieps não duraram: foram bombardeados impiedosamente pelos conservadores, com voluntarioso auxílio da mídia.

Na eleição seguinte, em 1986, seu candidato, Darcy Ribeiro, perde para Moreira Franco, em meio a críticas de “excesso de recursos para a educação”. Brizola chegou a destinar 36% do orçamento para o setor e apanhou, porque empenhava pouco dinheiro na segurança. Era criticado também por – nas palavras dos intolerantes – “chamar bandido de cidadão e proibir a polícia de chutar porta de barraco em favela”. O vencedor no pleito ganhou as manchetes ao prometer acabar com a violência do Rio em seis meses. Jornais e TVs acreditaram, extasiados.

Ainda sobre educação, o documentário oferece cena emblemática: num debate, o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso elogia timidamente o Cieps, mas critica o preço das escolas, “entre 1 e 2 milhões de dólares e para poucos alunos”. Brizola não deixa barato e esculacha o tucano: “Cara é a ignorância”.

(Em outra obra emblemática, o governador sanou problema até então incurável no Rio, ao construir a Passarela do Samba. Ideia de Darcy Ribeiro projetada por Oscar Niemeyer, deu endereço definitivo ao desfile das escolas de samba, encerrando o monta-desmonta das estruturas para a festa. No bojo, viabilizou o crescimento do espetáculo, hoje evento de repercussão planetária.)

A valorização dos sambistas, da cultura e da religiosidade herdada dos africanos escravizados revela outra faceta supermoderna do brizolismo: era antirracista quando tudo isso aqui era mato. O líder gaúcho tinha entre seus conselheiros o ícone Abdias do Nascimento e o advogado e jornalista Carlos Alberto de Oliveira, o Caó, autor, como deputado, da lei fundamental contra a discriminação. Seu partido, o PDT, ainda abrigou o primeiro deputado federal indígena do país, o cacique Mario Juruna, em 1982.

Na terra de elite tão patologicamente atrasada, defender todas essas obviedades cobra preço alto. Brizola ganhou dos conservadores o rótulo de comunista, apesar de sempre jogar no campo do capitalismo. Herdeiro político de Getúlio Vargas, lutou apenas por dignidade para os trabalhadores, algo inaceitável na mesquinharia eterna destes trópicos melancólicos. Em verdade, a ditadura, em sua sanha destruidora, sabia quem estava perseguindo, dentro do projeto de manter o país no atraso.

Revisitar a trajetória, as obras e as ideias do caudilho de lenço vermelho no pescoço e oratória brilhante leva à constatação de que o Brasil jogou fora um punhado de oportunidades. Uma catastrófica especialidade da casa.

Na terra de elite tão patologicamente atrasada, defender todas essas obviedades cobra preço alto. Brizola ganhou dos conservadores o rótulo de comunista, apesar de sempre jogar no campo do capitalismo. Herdeiro político de Getúlio Vargas, lutou apenas por dignidade para os trabalhadores, algo inaceitável na mesquinharia eterna destes trópicos melancólicos. Em verdade, a ditadura, em sua sanha destruidora, sabia quem estava perseguindo, dentro do projeto de manter o país no atraso.

Revisitar a trajetória, as obras e as ideias do caudilho de lenço vermelho no pescoço e oratória brilhante leva à constatação de que o Brasil jogou fora um punhado de oportunidades. Uma catastrófica especialidade da casa."

CONTINUA
***

sábado, 23 de janeiro de 2021

BRIZOLA ANTIIMPERIALISMO E PATRIOTISMO EM PROL DOS TRABALHADORES * FRT/BR

BRIZOLA

ANTIIMPERIALISMO E PATRIOTISMO EM PROL DOS TRABALHADORES

 
(Dois meses antes do Golpe de 64 Leonel Brizola foi entrevistado pela Monthly Review)

NOTA DA EDITORIA

Reproduzimos aqui a entrevista de Leonel de Moura Brizola, concedida em fevereiro de 1964 à Revista Marxista Monthly Review, onde ele destaca os instrumentos necessários no combate às multinacionais e ao capital estrangeiro, e conclui apresentando a proposta de união e organização populares como ferramenta revolucionária.

Gostaríamos de ressaltar que é responsabilidade de todo aquele que se denomina revolucionário, baseado no marxismo sem adjetivos, resgatar o manancial riquíssimo do Pensamento Antiimperialista existente em nossa história e tirá-lo do limbo oportunista, eleitoreiro, e decorativo em que a cultura burguesa o enterrou. É isso que ocorre com Getúlio Vargas, João Goulart, Brizola e tantos outros, que empenharam o seu patriotismo em benefício do país e dos trabalhadores, pagando com as suas vidas por fazêlo.

Nosso desejo é que leiam, tirem suas conclusões e dêem um passo adiante: junte-se a nós, a FRENTE REVOLUCIONÁRIA DOS TRABALHADORES

"

 Dois meses antes do Golpe de abril de 64, Leonel Brizola foi entrevistado pela Monthly Review, revista que desde 1949 reunia a fina flor do pensamento marxista como Leo Huberman, Paul Baran, Paul Sweezy, Harry Magdoff e Fred Magdoff. Esta entrevista de Leonel Brizola constitui mais uma prova de seu anti-imperialismo e revela como o pessoal da universidade aqui no Brasil o interpretou maldosa e equivocadamente como “populista”. A verdade era outra: Leonel Brizola foi um político socialista.


- No momento Leonel Brizola é sem dúvida o líder popular mais influente da Frente de Mobilização Popular, um organismo que engloba a esquerda. Ele frequentemente fala ao povo na rádio mais ouvida do Brasil, ele fala uma linguagem clara usando muitas imagens e comparações.

- “Você terá observado” (ele começou sem esperar a pergunta), “que o fato mais relevante no Brasil de hoje é a sua inflação. Nas atuais circunstâncias, a inflação é um problema insolúvel, porque sua origem é externa e controlada de fora, ela é um produto da pilhagem imperialista.”


- O processo inflacionário está acelerando?


- “De janeiro de 1945 até dezembro de 1952 o custo de vida duplicou. Foram oito anos. Duplicou novamente de 1952 a 1958 em apenas seis anos, e de 1958 a 1961, três anos; outra vez de janeiro de 1962 a junho de 1963, um ano e meio. Agora o custo de vida duplicará em oito ou nove meses.”


- Como o senhor explica isso?


- “É como se o imperialismo tivesse colocado uma grande bomba de sucção em nosso corpo para poder sugar nosso sangue. Já que não podemos resistir, o imperialismo retira o sangue e injeta água no seu lugar. O dinheiro que é posto aí, que não representa valor real, é a água. E é assim que nós vivemos. Mas o colapso virá, está se aproximando a passos de gigante.”


- Como ocorrerá o colapso?


- “Pouco a pouco a situação está se tornando mais difícil de segurar: em vista disso, as classes dominantes, apoiadas pelo imperialismo, estão se unificando para dar um golpe de direita, a fim de estabelecer um governo de força, uma ditadura, seja ela escancarada ou disfarçada. Evidentemente seria difícil impor uma ditadura, pois já não é fácil enganar o povo. Nós estamos dispostos a lutar, estamos preparados, e isso será o começo da luta revolucionária pela libertação nacional. O exemplo de 1961 mostra que o povo lutará junto com os seus irmãos do Exército – os sargentos, os cabos, os soldados e os oficiais nacionalistas”.


- Quais são as condições necessárias para essa luta?


- “Organização e unidade. Nós tivemos problemas com os erros cometidos pelo partido Comunista e por Francisco Julião. Devemos no entanto reconhecer que Julião possui o grande mérito de ter despertado o setor mais oprimido da nossa população: os trabalhadores rurais. E nós acreditamos que todos esses erros serão superados. Nós não somos anti-comunistas, recebemos bem a todos os brasileiros patriotas que venham a lutar pela libertação de seu país. O problema latino-americano tem de ser concebido como um problema de libertação nacional. Sem libertação nacional não podem existir as reformas de base porque não se resolve problema da pobreza.”


- Como o senhor pensa a revolução?


- “Em primeiro lugar precisa ter unidade de todo os patriotas. É imperativo que a revolução encontre soluções socialistas. E não é uma questão de escolher uma doutrina de um livro. Somente as soluções socialistas é que permitem a defesa dos povos contra o imperialismo.”


Ele me interrompe, sorrindo, antes que eu possa fazer a próxima pergunta.


- “Você vai me perguntar como cheguei a estas conclusões. Na época em que me tornei governador, eu era político convencional com todos os preconceitos habituais. Eu estava convencido de que bastava uma boa administração, trabalhar duro para melhorar a situação do povo em todos os setores. Mas eu vi que o povo trabalhava mais e melhor e, apesar disso, estava ficando pobre. Então, eu tive a compreensão do problema da América Latina em conjunto. Depois, quando tomei medidas contra determinadas companhias que nos exploravam, eu vi diante de meus olhos o problema da opressão imperialista. Olhe: é como se você e eu quiséssemos arrumar a mobília desta sala, mas alguém está carregando-a para fora. Aí chega uma hora em que não há mais mobília para arrumar. Por conseguinte, a primeira tarefa nossa é fechar a porta para impedir a espoliação.”

***

quinta-feira, 31 de julho de 2025

JOÃO GOULART: ANTIIMPERIALISMO * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

JOÃO GOULART: ANTIIMPERIALISMO
"João Goulart, Brizola e o Anti-imperialismo: 
Lições de um Projeto Interrompido
Por Aurelio Fernandes

O golpe de 1964 no Brasil ocorreu em um contexto de intensa disputa aberta entre projetos de conciliação e a necessidade histórica de ruptura. Durante esse período, houve confronto entre diferentes interesses, envolvendo potências internacionais, setores da sociedade civil e propostas diversas para o desenvolvimento do país. O governo de João Goulart expressou, em seus limites a tentativa de reformar o país sem romper com a dependência ao imperialismo. O processo resultou na deposição do governo por uma aliança composta por setores das Forças Armadas, grupos econômicos nacionais e internacionais, além de apoio do Departamento de Estado dos EUA.

O imperialismo, como já definira Lenin, não é apenas política externa agressiva, mas expressão da concentração e exportação do capital, de um sistema de dominação econômica, política e militar das grandes potências sobre as nações periféricas. Na América Latina, isso sempre significou subordinação das economias locais, dependência tecnológica, pilhagem dos recursos naturais, repressão aos movimentos populares e uma “classe dominante” local cúmplice, disposta a trair qualquer possibilidade de autonomia nacional em nome de seus próprios privilégios.

João Goulart, herdeiro do trabalhismo de Vargas, nunca foi um revolucionário. Oriundo de setores da oligarquia gaúcha, sua política se orientava pelas margens do possível, tentando negociar entre frações burguesas e responder, ainda que de modo controlado, à pressão das massas. O programa das Reformas de Base — reforma agrária, urbana, educacional, fiscal, controle das remessas de lucros — expressava um diagnóstico correto da dependência, mas não apontava para sua superação efetiva. Seu projeto era o da modernização capitalista com distribuição limitada de direitos e manutenção da ordem, buscando conciliar latifundiários, industriais nacionais e o crescente movimento operário.

O anti-imperialismo de Jango foi, assim, limitado e contraditório. Propôs limitar remessas de lucros ao exterior, pressionou por maior participação estatal em setores estratégicos, mas nunca rompeu com as amarras da dependência nem com o latifúndio. A mobilização popular, especialmente a partir de 1963, encontrou resposta feroz: sabotagem econômica, terrorismo midiático, conspiração militar e intervenção direta dos EUA — comprovada pelos documentos desclassificados e pela presença da “Operação Brother Sam”, pronta para desembarcar tropas caso o golpe encontrasse resistência.

No mesmo cenário, a relação entre João Goulart e Leonel Brizola ilustra dois caminhos distintos dentro do campo nacionalista diante do imperialismo. Ambos partilhavam a crítica à dominação estrangeira e à submissão das elites locais, mas divergiam no método e na radicalidade das respostas.

Enquanto Jango hesitava entre a conciliação das classes e as pressões crescentes do movimento popular, Brizola radicalizava o discurso e a prática anti-imperialista. Para Brizola, o enfrentamento ao imperialismo não se limitava a reformas ou à negociação de direitos, mas exigia uma ruptura real, de massas, ancorada na mobilização popular e com perspectiva socialista.

Na voz de Brizola ecoava o entendimento de que a questão latino-americana era, antes de tudo, uma questão de libertação nacional:
“O problema latino-americano tem de ser concebido como um problema de libertação nacional. (...) É imperativo que a revolução encontre soluções socialistas. E não é uma questão de escolher uma doutrina de um livro. Somente as soluções socialistas é que permitem a defesa dos povos contra o imperialismo.”

Sua atuação durante a Campanha da Legalidade exemplifica o papel central da mobilização popular armada para garantir a soberania nacional, em contraste com a aposta janguista na institucionalidade e nas soluções negociadas:
“Tornou-se necessário que o próprio povo, em impressionante unidade, se mobilizasse de fuzil na mão para que fosse respeitado o direito de o então vice-presidente assumir a Presidência. Foi preciso, enfim, que a nação se visse colocada diante do dilema: guerra civil ou posse ao Senhor João Goulart.”

Brizola era categórico ao afirmar que a força do povo organizado seria o único antídoto ao controle imperialista:
“(...) a organização do nosso povo, eis a tarefa imprescindível, nesse momento. Povo desunido, povo desorganizado é povo submetido, sem condições de defender seus interesses e de realizar seu próprio destino. Se conseguirmos estruturar uma organização razoável estarão criadas as condições para que o nosso povo venha a assumir uma posição não apenas de defesa de suas liberdades, mas, também, para caminhar para si mesmo, em sua própria libertação.”

Diferente de Jango, que oscilava entre reformas limitadas e negociações com setores da burguesia, Brizola apostava na confiança inabalável na capacidade de luta das massas. Para ele, qualquer mudança real dependia da disposição de enfrentar abertamente o imperialismo, pela via da luta popular organizada, como expressa nesta afirmação:
“(...) eu afirmo que o futuro é nosso, do nosso povo, e de nosso País, nessa luta de libertação. E embora considere possível que a lição de tantos erros conduza nosso Governo a uma revisão de seus rumos, devo dizer que é no povo, na sua organização e na sua capacidade de luta que devemos depositar a nossa fé.”

O golpe de 1964 selou a vitória do imperialismo e da reação burguesa sobre a possibilidade de uma via reformista nacional. Veio o ciclo de ditaduras militares, aprofundou-se a dependência, acelerou-se a transferência de riquezas ao exterior e o movimento popular foi submetido a duas décadas de terror e perseguição.

A esquerda, nesse processo, também foi vítima de suas próprias ilusões: o apoio crítico ao governo Goulart e a aposta numa aliança com setores “progressistas” da burguesia resultaram em desarme político e organizativo do proletariado. Faltou independência de classe e direção revolucionária. As massas mobilizadas não encontraram um partido capaz de apontar o caminho da ruptura, da tomada do poder e da transformação radical das estruturas do Estado e da economia.

A lição do janguismo é amarga, mas necessária. Não há soberania nacional possível sob o capitalismo dependente. O anti-imperialismo consequente, na América Latina, exige ruptura revolucionária com as classes dominantes locais, organização independente dos trabalhadores, construção do poder popular e orientação socialista do desenvolvimento. As tentativas de conciliação e reformismo servem, no limite, apenas para adiar — e, por vezes, facilitar — a ofensiva do imperialismo e das elites nativas.

A luta anti-imperialista segue atual. A cada ofensiva do capital financeiro internacional, a cada ataque aos direitos, a cada projeto de privatização e entrega das riquezas nacionais, reafirma-se a necessidade de unidade da classe trabalhadora da cidade, do campo e das florestas para construir um novo caminho: libertação nacional, poder popular e socialismo."
JOÃO GOULART: AS LUTAS SOCIAIS NO BRASIL
O Comício da Central do Brasil
Sala de Notícias
JOÃO GOULART ANTIIMPERIALISTA
REFORMAS REAIS
REFORMAS DE BASE

Geralmente, no entanto, a expressão “reformas de base” se refere às propostas que vinham do governo Goulart. E que tinham um viés de enfrentamento das desigualdades históricas do país.

“Com o nacional-desenvolvimentismo de Juscelino [Kubitschek, antecessor de Goulart], a ideia era a da frase dos ‘50 anos em cinco’: vamos crescer. Jango queria dar um passo adiante: criar uma nação mais inclusiva, democratizar a República”, afirmou ao Nexo Sérgio Montalvão, doutor em história e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense).

As reformas de base se tornaram o núcleo do projeto de desenvolvimento de Goulart, especialmente após o plebiscito que definiu a volta do sistema presidencialista, em 1963, após 17 meses de parlamentarismo.

“O caminho das reformas é o caminho do progresso pela paz social. Reformar é solucionar pacificamente as contradições de uma ordem econômica e jurídica superada pelas realidades do tempo em que vivemos”

João Goulart

então presidente do Brasil, em comício na Central do Brasil no dia 13 de março de 1964

Entenda abaixo quais eram as principais propostas e objetivos das reformas de base.

Reforma eleitoral

A Constituição de 1946 dizia que os analfabetos e os militares de baixa patente não tinham o direito ao voto. O governo Goulart quis acabar com essas restrições.

Com a reforma eleitoral, o governo pretendia aumentar a participação popular nas eleições. Cerca de 40% da população brasileira em 1960 não sabia ler ou escrever. Ao incluir sargentos e praças no sistema eleitoral, o governo também pretendia se aproximar de parte da classe militar.

A ideia mais ampla da reforma era reduzir a influência das elites sobre o Congresso Nacional. A partir de um Congresso mais representativo, ficaria mais fácil aprovar outras reformas.

Reforma administrativa

A reforma administrativa estava associada com a forma como o governo Jango pretendia conduzir a economia brasileira. A ideia era que o Estado tivesse um papel importante de indução do crescimento.

Com a reforma administrativa, o governo tinha duas intenções centrais. A primeira era racionalizar, via concursos, o processo de contratação de funcionários públicos. O objetivo era tornar o quadro mais técnico e reduzir o papel dos apadrinhamentos dentro da máquina federal.

Além disso, o governo entendia que a economia havia passado por mudanças profundas nos anos 1950, com o esforço de industrialização conduzido sob Kubitschek. Portanto, era necessário adaptar a estrutura do Estado, criando órgãos que refletissem essa nova realidade econômica e dessem ao governo maior capacidade de planejamento.

Reforma tributária

Como parte do esforço para redução das desigualdades, o governo Jango também pretendia passar uma reforma tributária. Para isso, queria aumentar a carga do Imposto de Renda, tornando-o mais progressivo (com maior peso para os mais ricos); e diminuir a parcela da arrecadação vinda de tributos sobre o consumo, que são regressivos (mais pesados para os mais pobres).

Outra intenção do governo era aumentar sua arrecadação, para conseguir reduzir o deficit público e financiar os investimentos ligados ao conjunto das reformas de base. Para isso, pretendia combater a sonegação e modernizar o sistema de recolhimento de impostos.

Reforma bancária

A reforma bancária tinha duas intenções principais. A primeira era ampliar o financiamento para o desenvolvimento brasileiro. Para isso, o governo propunha mecanismos de ampliação e direcionamento de crédito, em especial para o setor rural. Também colocava a possibilidade de que o governo se financiasse com títulos públicos.

Além disso, a gestão Goulart pretendia enfrentar a crescente inflação que atingia o país. Para isso, sugeriu criar um órgão que centralizasse a política monetária, antes conduzida por várias instâncias diferentes. Em outras palavras, Goulart pretendia criar um Banco Central, tendo como uma das intenções disciplinar a emissão de moeda para ajudar a conter a inflação.

Reforma universitária

Goulart também propôs ampliar o acesso às universidades e incentivar a produção de pesquisa científica para auxiliar o país no seu processo de desenvolvimento econômico e social.

Também sugeriu o aumento da autonomia universitária, a ampliação da liberdade docente e o fim do sistema de cátedras vitalícias , que seria substituído por um sistema de departamentos.

A reforma universitária dialogava com diretrizes mais amplas do governo Jango com relação à educação. “Também estava previsto no horizonte de Goulart a multiplicação nacional das experiências do método Paulo Freire, pela via de um plano nacional de alfabetização”, disse Spohr, do FGV-CPDoc.

Reforma cambial

O Brasil enfrentava um problema recorrente de desequilíbrio cambial: muito mais moeda estrangeira saía do país do que entrava. Jango propôs, então, o “monopólio do câmbio” — ou seja, o controle das cotações cambiais.

O valor ficaria suficientemente baixo para estimular as exportações, mas o governo iria intervir para garantir taxas mais baixas para importações de bens importantes para o desenvolvimento, como máquinas e equipamentos. O governo falava também em restringir a importação de bens considerados “luxuosos e supérfluos”.

A reforma cambial tinha ligação com a lei que restringia as remessas de lucro para o exterior, colocada em prática em 1962, cuja intenção era evitar a saída de moeda estrangeira e fazer com que as empresas reaplicassem seus lucros no Brasil.

Reforma urbana

O Brasil passava no século 20 por um período de rápida urbanização, acompanhando o crescimento da indústria nacional. Não demorou muito para que o país se deparasse com um problema de deficit habitacional nos centros urbanos.

Goulart propôs, então, uma reforma urbana com uma série de medidas. A principal era colocar um limite para quantos imóveis poderiam pertencer a uma pessoa. Os imóveis “excedentes” seriam, então, desapropriados pelo governo e vendidos a trabalhadores, com prazos de financiamento longos e juros subsidiados.

Essa política seria complementada com investimentos para construção de moradias populares.

Reforma agrária

A reforma agrária era talvez a principal reforma proposta pelo governo Jango.

A Constituição de 1946 dizia que, para uma terra ser desapropriada “por utilidade pública ou interesse social”, o governo precisaria pagar previamente uma indenização em dinheiro. Goulart quis alterar esse dispositivo, substituindo por um sistema de pagamento em títulos públicos e a longo prazo.

A reforma também proibia manter a terra improdutiva — o governo poderia desapropriar terrenos em total ou parcial desuso. A medida também previa obrigações para que as propriedades rurais produzissem alimentos.

Em outra frente, Goulart planejava estimular a produção do campo. O aumento da oferta de produtos agrícolas poderia suprir as demandas de alimentos do país, resultar na ampliação de exportações e contribuir para aliviar a inflação.

A reforma agrária acabou se transformando no principal eixo das reformas de base de Goulart, impulsionado por um discurso centrado na ampliação do acesso à terra e no combate à miséria e às desigualdades históricas no campo. Trabalhadores rurais passariam a ter direitos que antes cabiam somente aos trabalhadores urbanos, como acesso à Previdência e salário mínimo.

“A reforma agrária teve um peso muito grande porque o Brasil era ainda um país muito agrário. E ela gerava um conflito enorme”, disse Spohr, da FGV.

“Havia uma visão de que a reforma agrária seria a ‘reforma das reformas’”, afirmou Montalvão, da UFF. “O Brasil precisava superar o atraso, e a maior manifestação do atraso era o latifúndio”, disse.

Que fim levaram as reformas?

As reformas de base não chegaram a ser implementadas pelo governo Goulart, segundo os historiadores ouvidos pelo Nexo. “Era um projeto de Estado que começou a ser construído, mas não passou de fato a valer”, disse Spohr.

A professora argumentou, no entanto, que os temas colocados pelas reformas continuaram em pauta após o golpe de 1964. Tanto que o governo militar tomou medidas, de início, como a criação do Banco Central, em 1964, e a reforma tributária de 1965.

“Muitas das reformas foram feitas durante a ditadura, mas não a partir da perspectiva progressista. A partir de 1964, a maior parte dessas reformas foi implementada sob o interesse do empresariado e dos militares”, afirmou a pesquisadora.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2024/03/24/o-que-eram-as-reformas-de-base-centrais-no-golpe-de-64
© 2025 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida.
JANGO NA CHINA
***

domingo, 19 de abril de 2026

REDE GLOBO: 60 ANOS DE GOLPISMO * Fernando Morais/SP

REDE GLOBO: 60 ANOS DE GOLPISMO

Em homenagem aos 60 anos da Rede Globo, o escritor Fernando Morais redigiu a ficha corrida da empresa da família Marinho.

1960-1970 (Gênese da Globo e apoio ao regime militar)
1.⁠ ⁠Firmou um acordo ilegal com o grupo Time-Life (1962–67)
2.⁠ ⁠Apoiou o golpe militar de 1964
3.⁠ ⁠Silenciou sobre a repressão no regime militar
4.⁠ ⁠Divulgou propaganda favorável ao AI-5 em 1968
5.⁠ ⁠Censurou jornalistas e políticos críticos à ditadura
6.⁠ ⁠Minimizou a importância da Passeata dos Cem Mil (1968)
7.⁠ ⁠Endossou o slogan "Brasil: Ame-o ou Deixe-o" (1970)
8.⁠ ⁠Promoveu o Milagre Econômico, ignorando a desigualdade
9.⁠ ⁠Ocultou mortes causadas por tortura nos anos de chumbo
10.⁠ ⁠Excluiu opositores da cobertura política durante a ditadura
11.⁠ ⁠Omitiu informações sobre corrupção nas grandes obras da ditadura
12.⁠ ⁠Consolidou um controle monopolista sobre o mercado de TV
1980-1990 (Ditadura e transição para a democracia)
13.⁠ ⁠Desconsiderou os primeiros comícios das Diretas Já (1984)
14.⁠ ⁠Blindou a eleição indireta de Tancredo Neves
15.⁠ ⁠Manipulou pesquisas Proconsult para prejudicar Brizola
16.⁠ ⁠Boicotou o governo Leonel Brizola e suas obras sociais
17.⁠ ⁠Endossou os primeiros planos econômicos do governo José Sarney contra a hiperinflação
18.⁠ ⁠Apoiou maciçamente a candidatura de Fernando Collor e criminalizou os líderes populares como Brizola e Lula
19.⁠ ⁠Manipulou a cobertura do debate eleitoral Lula x Collor (1989) no Jornal Nacional
1990-2000 (Redemocratização e ascensão neoliberal)
20.⁠ ⁠Defendeu o confisco da poupança no Plano Collor
21.⁠ ⁠Promoveu a abertura indiscriminada da economia brasileira
22.⁠ ⁠Escondeu escândalos durante o governo Collor até o impeachment
23.⁠ ⁠Veiculou o caso Escola Base (1994) sem verificar informações
24.⁠ ⁠Exaltou o Plano Real sem questioná-lo (1994)
25.⁠ ⁠Blindou as privatizações de FHC
26.⁠ ⁠Defendeu os bancos e o Proer durante a crise financeira
27.⁠ ⁠Apresentou apoio velado à Reforma da Previdência neoliberal de FHC
28.⁠ ⁠Ignorou o movimento "Fora FHC" no final dos anos 1990
29.⁠ ⁠Aceitou a emenda da reeleição de FHC e omitiu críticas ao câmbio artificial
30.⁠ ⁠Escondeu greves e protestos sociais durante os anos 90
31.⁠ ⁠Ignorou denúncias sobre trabalho escravo no campo
32.⁠ ⁠Criminalizou sistematicamente movimentos sociais
2000-2010 (Oposição ao governo Lula)
33.⁠ ⁠Liderou uma campanha contra Lula nas eleições de 2002
34.⁠ ⁠Estigmatizou o MST e outros movimentos sociais
35.⁠ ⁠Distorceu a cobertura do "mensalão" (2005)
36.⁠ ⁠Perseguiu figuras históricas do PT, como José Dirceu, José Genoíno, entre outros
37.⁠ ⁠Favoreceu candidatos tucanos nas campanhas de 2006 e 2010
2010-2025 (Impeachment da Dilma e ascensão da extrema direita)
38.⁠ ⁠Rotulou manifestantes de 2013 como "vândalos"
39.⁠ ⁠Apoiou Aécio Neves à candidatura presidencial
40.⁠ ⁠Exaltou misoginia contra Dilma Rousseff durante a posse presidencial
41.⁠ ⁠Reforçou a narrativa favorável ao impeachment de Dilma Rousseff
42.⁠ ⁠Deu apoio irrestrito à operação Lava Jato
43.⁠ ⁠Divulgou os vazamentos seletivos da Lava Jato
44.⁠ ⁠Fortaleceu a narrativa anti-PT e criminalização do partido
45.⁠ ⁠Tratou o juiz Sergio Moro como um herói, ignorando sua parcialidade
46.⁠ ⁠Deu amplo espaço ao PowerPoint de Dallagnol
47.⁠ ⁠Chamou a tragédia de Brumadinho de "acidente"
48.⁠ ⁠Vazou conversa gravada ilegalmente entre Dilma Rousseff e Lula
49.⁠ ⁠Apoiou indiscriminadamente a prisão de Lula, que o excluiu da eleição de 2018
50.⁠ ⁠Ignorou o conluio entre Moro e Dallagnol e a Vaza Jato
51.⁠ ⁠Defendeu a Reforma Trabalhista e da Previdência de Temer
52.⁠ ⁠Endossou a entrega do pré-sal ao capital estrangeiro
53.⁠ ⁠Se aproximou oportunisticamente de Bolsonaro
54.⁠ ⁠Fez apologia ao agronegócio e ignorou sua destruição ambiental
55.⁠ ⁠Omitiu informações sobre as fake news nas eleições de 2018
56.⁠ ⁠Deu espaço a discursos antivacina e negacionistas
57.⁠ ⁠Continuou contratos publicitários com governos investigados
58.⁠ ⁠Apoiou a venda de estatais, como a Eletrobras, BR Distribuidora e refinarias
59.⁠ ⁠Fez campanha pelo Banco Central independente
60.⁠ ⁠Nunca fez uma autocrítica verdadeira sobre seu monopólio midiático.