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sexta-feira, 29 de novembro de 2024

PACOTE LULA/HADDAD: POMPA E CAPITULAÇÃO * Gilberto Maringoni/Gabriel Biro/SP

PACOTE LULA/HADDAD: POMPA E CAPITULAÇÃO

O que Fernando Haddad fez ontem em rede foi uma capitulação com pompa e alguma elegância. Não existe "ajuste do bem", ou "ajuste para crescer". Ajuste fiscal é sempre e sempre um violento processo de transferência de renda da base para o topo da pirâmide, com cortes orçamentários e de serviços públicos que afetam os de baixo.

Ninguém pode, em sã consciência, saudar o fim da política de valorização do salário mínimo, as travas e a tesourada no BPC e em outros programas sociais, achando que - ufa! - conseguimos o mal menor (ainda não veio o fim dos pisos de Saúde e Educação).

Lula queimou na largada, no início de 2022, seu capital político, ao colocar como projeto essencial de sua gestão o novo teto de gastos, versão mais barroca do teto do Temer. Ninguém falou em desenvolvimento e o NAF impede qualquer política industrializante.

Depois de 6 anos de golpe e de extrema-direita, o governo comprou e repassa as fake news de que um ajuste seria necessário diante da possibilidade de uma crise fiscal, que nunca existiu. Era a voz da Faria Lima e do Ministério da Fazenda, em operação casada, a tirar de cena medidas sociais urgentes em favor de uma senda cumprida desde janeiro de 2011, quando teve início a mais longa trajetória de contração fiscal de nossa história.

Em 1905, Manuel Bomfim, ao falar dos condestáveis da então jovem República, escreveu:

Para justificar o conservantismo inconsequente, faz-se apelo a todas as fórmulas de senso comum. (...) Veja-se como repetem todos “É preciso cortar despesas... “ Por quê? Porque o bom senso tradicional assim o diz. E julgam-se todos dispensados de estudar as coisas, para ver que, por toda a parte, tem sido preciso justamente aumentar as despesas públicas, máxime nos países novos, onde as populações crescem mais rapidamente, e onde tudo está por fazer.

Depois de 119 anos, caminhamos no mesmo passo.

"Ah, mas Haddad anunciou a isenção do IR até R$ 5 mil. Sim, em matéria a ser enviada ao Congresso em 2025 que, a depender da aprovação da tributação em rendas acima de R$ 50 mil, pode vigorar em 2026. O papel e as telas aceitam qualquer coisa.

Temos um governo incapaz de desrespeitar as amarras por ele mesmo criadas para reconstruir o RS ou combater as queimadas com um projeto nacional - um new deal - de envergadura. Lula não foi à TV falar de nenhuma dessas tragédias, assim como foge da pauta central desses dias que é a descoberta de um plano de magnicídio e de golpe de Estado. Deixa tudo correr nas mãos do judiciário e da PF, ecoando o discurso de José Roberto Barroso: "Isso nada tem a ver com política ou ideologia. É algo próprio do Código Penal". Assim, despolitiza-se tudo e não se enfrenta o fascismo no ponto certo.

Ah, mas tem a correlação de forças, ah, mas tem o mercado, ah, mas tem o Bolsonaro.... Sim, e o céu pode cair sobre nossas cabeças, como diria Abracurcix, o chefe da aldeia gaulesa de Asterix.

Não temos poção mágica; temos apenas a política. O que não vale a pena é crer que o ajuste enfim vai nos redimir...

(Vou esperar a divulgação do texto do ucasse do ministro da Fazenda para ter mais certezas do que vem por aí)

Gilberto Maringoni/SP
ENTENDA A REDUÇÃO DO IMPOSTO DE RENDA

ARCABOUÇO FISCAL | CONTRA O AJUSTE FISCAL: PACOTE DE HADDAD RESTRINGE AUMENTO DO SALÁRIO MÍNIMO, CORTA ABONO SALARIAL, BOLSA FAMÍLIA E BPC, ATACANDO OS MAIS POBRES

GABRIEL BIRO

Nesta quarta, 27/11, Fernando Haddad, ministro da Fazenda do governo Lula, realizou um pronunciamento público referente à manutenção do regime de ajuste fiscal para garantir a continuidade do pagamento da dívida pública e seus acionistas. As medidas vão ser detalhadas nos próximos dias e têm que ser aprovadas pelo parlamento. No pacote há ataques importantes à classe trabalhadora e à população mais pobre, como a restrição do aumento do salário mínimo e cortes no abono salarial e Bolsa Família e BPC.

Há meses vem sendo anunciado publicamente que Haddad faria um novo ajuste fiscal para atender as exigências do mercado financeiro e o cumprimento do Arcabouço Fiscal em 2025. A sustentabilidade fiscal propagandeada por Lula desde o início de sua campanha em 2022, e agora reproduzido por Haddad, significa amarrar o orçamento público ao lucro de banqueiros e mega empresários internacionais com o pagamento do juros da ilegal, fraudulenta e ilegítima dívida pública.

Chegado o momento de tornar oficial o novo ajuste fiscal, o país passa pelo fenômeno que tomou as redes e teve expressão nas ruas contra a escala 6x1, onde a classe trabalhadora ganha apoio de massas em defesa da redução da jornada de trabalho. Lendo este cenário, o governo Lula, usando da figura de Haddad, busca maquiar os ataques à classe trabalhadora misturando-os com aspectos de reforma tributária e pequenas medidas contra militares e os super ricos.

Dentre os ataques contidos no ajuste fiscal está a restrição do aumento do salário mínimo, estabelecendo um reajuste limitado ao índice da inflação do ano anterior. O cálculo para reajuste do salário mínimo realizado até então considerava inflação do ano anterior mais o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes. Dessa forma, para o reajuste do salário mínimo de 2025 deveria ser somado 2,9% somente do crescimento do PIB de 2023. Com o ajuste fiscal anunciado por Haddad, o salário mínimo do ano que vem terá apenas o reajuste de 2,5% relativo à inflação.

A redução sistemática e paulatina do abono salarial até o valor de um salário mínimo e meio é outro ataque contido no pronunciamento de Haddad. O abono salarial funciona como uma espécie 14º que era pago a quem recebe até dois salários mínimos, ou seja, R$ 2.824 neste ano. Com o ajuste fiscal o abono salarial passará a ser pago para quem ganha até R$ 2.640 e esse valor será reduzido nos próximos anos e se tornará permanente quando corresponder a um salário mínimo e meio. Desta forma diminuindo drasticamente a quantidade de beneficiários do abono salarial.

O terceiro grande ataque aos mais pobres é o “pente fino" no Bolsa Família e no BPC. Esta medida, embora demagogicamente seja anunciada como uma forma de evitar fraudes, na realidade é uma política de dificultar e restringir o acesso a esses benefícios. O corte no Benefício de Prestação Continuada (BPC) já vinha sendo pauta na Câmara dos Deputados e agora é acompanhado por um corte também no Bolsa Família. O ajuste fiscal de Haddad terá como alvos os beneficiários que declaram que moram sozinhos, os chamados unipessoais, equivalente a 4,057 milhões de beneficiários,19,58% do total. Ambos os benefícios são dedicados aos setores mais pobres da população, com renda de até R$218,00 no caso Bolsa Família, enquanto o BPC é destinado a idosos com mais de 65 anos e pessoas com deficiência (PCDs) com renda familiar equivalente à até ¼ do salário mínimo por pessoa. O montante acumulado pelas medidas do ajuste fiscal por Haddad é de R$70 bilhões, R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões em 2025 e de R$ 40 bilhões em 2026. Entretanto, o valor estimado pelo governo para o cortes sociais apenas no BPC alcança a cifra de R$ 6 bilhões. Um quarto da cifra total de 2025 será paga por pessoas PCDs e idosas que recebem até ¼ de salário mínimo, sem contar os demais ataques mencionados.

Embora o pronunciamento de Haddad cinicamente fale em “reforma tributária histórica”, na realidade é a expressão demagógica do projeto de conciliação de classes do governo Lula. As medidas anunciadas que retiram poucos privilégios de setores mais abastados e privilegiados da sociedade, como os militares, por exemplo, estão longe de ser uma taxação das grandes fortunas. Como dito por Haddad, quem ganha mais de R$50 mil pagará “um pouco a mais” enquanto a ampla massa da classe trabalhadora que ganha somente dois salários mínimos deixa de ter direito ao abono salarial. As aposentadorias milionárias dos militares tão pouco deixarão de existir, apenas deixarão de ser transferíveis, e a isenção de impostos e benefícios tributários aos empresários está condicionada apenas em caso de não atingir superávit fiscal. A redução do imposto de renda para quem ganha até R$5 mil, medida de maior apelo popular, está prevista apenas para 2026 e a ainda terá que tramitar pelo senado e pelo congresso.

Por isso, não podemos aceitar qualquer demagogia que venha junto com os ataques. É necessário uma resposta contundente contra todos os ataques que este pacote contém contra os trabalhadores e o povo pobre, lutando também pelas demandas dos trabalhadores como o fim da escala 6x1. As centrais precisam sair da paralisia e convocar um plano de luta em base a assembleias, para barrar esses ataques, impor a redução da jornada de trabalho e enfrentar as conspirações golpistas.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

ORGANIZAR A LUTA CONTRA O PACOTE ULTRALIBERAL DO GOVERNO * Organização Comunista Arma da Crítica/OCAC

ORGANIZAR A LUTA CONTRA O PACOTE ULTRALIBERAL DO GOVERNO

Nessa semana os ministros Fernando Haddad e Simone Tebet, sob o aval de Lula, apresentarão um pacote de restrições fiscais antipovo que representará a morte política do atual governo. Para cumprir as metas do Arcabouço Fiscal, que muitos economistas alertaram que seria difícil de realizar, o governo por convicção cede aos interesses do mercado e aplica o programa ultraliberal da extrema-direita derrotado na eleição de 2022.

Sob o comando do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o governo se submete a agenda da Faria Lima. A pedido de Lula, Haddad chegou a cancelar uma viagem à Europa essa semana para fechar o pacote de “medidas fiscais”, eufemismo para corte de direitos dos trabalhadores. Tudo para apressar o anúncio das medidas e acalmar o mercado, leia-se, os parasitas do sistema financeiro.

Por tudo o que foi falado pelo próprio Fernando Haddad e Simone Tebet estão no alvo das medidas a serem anunciadas pelo governo os pisos mínimos constitucionais de educação e saúde, o Benefício de Prestação Continuada, o abono salarial, o Seguro-Desemprego e a multa de 40% do FGTS. Algumas dessas medidas só poderão ser emplacadas por uma PEC, prometida por Haddad para ainda este ano, cuja perspectiva da Faria Lima é a de cortar R$ 50 bilhões anuais de gastos.

Isso mostra o quanto na agenda mais essencial, o da política econômica, o governo está rendido ao capital financeiro. Em sua entrevista no mês passado à jornalista Mônica Bérgamo, da Folha de São Paulo, o ministro Haddad só citou um interlocutor como parâmetro de suas decisões austericidas: os especuladores da Faria Lima associados ao capital financeiro internacional. Para o ministro não existem sindicatos e movimentos populares. Tampouco citou em toda a entrevista a palavra emprego, comida, salário ou direitos.

Focado apenas em cortar gastos e direitos, Haddad se mostrou frustrado com o pouco impacto na campanha de Guilherme Boulos do que ele julga como “melhoria econômica”. Essa declaração mostra como o ministro e todo o governo vivem em uma bolha, ou se preferirmos, em um estado de alienação acerca da realidade brasileira. Parecem não entender o grau de destruição do tecido social brasileiro provocado pela manutenção e aprofundamento das medidas ultraliberais.

O governo acredita que o que é bom para a Faria Lima é bom para o Brasil. Ao cretinismo parlamentar típico das democracias burguesas se soma o cretinismo governamental. E se o eleitor pune a ala esquerda da frente amplíssima e vota na direita tradicional e mesmo na extrema-direita, a culpa é do “pobre de direita” que elege quem tira seus direitos.

Mas, para a classe trabalhadora, que diferença faz ter no governo um partido que se auto intitula de esquerda ou de direita, se ambos ao fim e ao cabo atacam seus direitos?

Só há um caminho para enfrentar esses ataques do governo: a luta. Algumas iniciativas como o abaixo-assinado virtual, Contra o Pacote Antipopular (www.manifestopacoteantipovo.com.br), já é um passo. Mas precisam dar um passo adiante e se materializar em comitês de luta contra o pacote ultraliberal do governo.

terça-feira, 5 de setembro de 2023

O “crescimento” econômico no Brasil * Alejandro Acosta/SP

O “crescimento” econômico no Brasil

A propaganda dos PIG (Partido da Imprensa Golpista, segundo o termo cunhado pelo falecido jornalista PHA), a economia brasileira estaria indo tão bem que já seria possível esperar um crescimento anual oficial de 3% em relação ao ano passado, validado pelo Ministério de Planejamento e Orçamento, encabeçado por Simone Tebet.

Chama muito a atenção esse otimismo dado que o crescimento oficial no primeiro trimestre foi de 1,8% e no segundo trimestre de 0,9%. A razão seria que para o segundo trimestre a expectativa era de um crescimento de 0,3%.

Para esse resultado teriam contribuído o aumento raquítico do salário, o pequeno aumento no Bolsa Família e a redução do preço da gasolina em R$ 0,01 nas bombas.

De fato o que cresceram foram os serviços financeiros e o transporte de cargas dos produtos agrícolas. Ou seja, o Brasil está nas mãos da especulação financeira.

Os investimentos produtivos cresceram 0,1% e caíram 2,6% em relação ao mesmo trimestre do ano passado.

De acordo com os dados oficiais, os índices do emprego estariam supostamente melhorando.

Fernando Haddad preocupado ... assistindo o Brasil indo para o buraco

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou publicamente que está preocupado em relação ao terceiro trimestre.

De fato, o impacto se relaciona com o aprofundamento da maior crise capitalista mundial de todos os tempos.

O país que mais cresceu foi o Japão com apenas 1,5%. A China, México e Taiwan cresceram 0,8% e os Estados Unidos 0,6%. Na Europa, o estancamento econômico é generalizado.

De acordo com os recentes dados da ECLAC (os países da América Latina e o Caribe) teriam ingressado na região em 2022, US$ 225 bilhões ou 55% a mais que no ano passado.

O Brasil é o país que mais está dependente da entrada de capitais especulativos, os capitais andorinha.

Com esse objetivo todo tipo de facilidades estão sendo concedidas aos especuladores financeiros. O Arcabouço Fiscal, a Reforma Tributária, a Reforma do Carf, os pagamentos da dívida pública, os swaps cambiais, o pagamento de juros reais de 10%! (que nos converte disparados no paraíso do rentismo mundial) são os principais mecanismos para atrair esses capitais podres.

É evidente que uma vez que esses capitais migrarem, ou retornarem às matrizes conforme a crise aumentar, o que teremos no Brasil e na América Latina serão cadáveres ambulantes, numa escala muito pior ao que vimos na década de 1980.

O efeito colateral é que a crise é o combustível do ascenso de massas ... e também do fascismo.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

O Novo Arcabouço Fiscal (Reforma Tributária) e a Urgente Necessidade da Organização Autônoma e Independente pela Base * Júlio Santos/RJ

 O Novo Arcabouço Fiscal

(Reforma Tributária)

e a Urgente Necessidade da Organização Autônoma e Independente pela Base

A ideia apresentada na proposta do Novo Arcabouço Fiscal (NAF) / Reforma Tributária (RT) representa um bom plano de gestão do Estado burguês brasileiro (e não se poderia esperar nada  mais de Lula do que a gestão do Estado burguês brasileiro): permite previsibilidade dos gastos  públicos, preconiza um crescimento real de gastos em todo orçamento, estabelece uma meta de  déficit primário de um exercício linkado com as metas de gastos do exercício seguinte (o que  obriga um esforço adicional do governo de plantão para contenção de despesas, pois se gasto  muito em um exercício, no próximo não terei para gastar) e, a cereja de bolo do plano, mantém  o pagamento dos juros da dívida pública garantido. 

Pela ideia do NAF apresentada, a área da educação e a área da saúde têm marcadas as suas  destinações de recursos do orçamente: 18% e 15% respectivamente da receita líquida do  exercício anterior, ou seja, no caso de crescimento da receita em um exercício, essas áreas são  beneficiadas, no exercício seguinte, não só no percentual obrigatório (marcado em 18% e 15%),  mas também porque esse percentual incidirá sobre o crescimento cheio da receita, não ficando  sujeito ao limitador que varia de 50% a 70% do crescimento da receita primária

Quais os problemas centrais do plano de Haddad? São dois, dos quais ele não tem como escapar: 

1. A crise recessiva mundial que bate à porta do velho e decrépito capitalismo em sua fase  de crise estrutural, acompanhada do aumento da inflação em todos os continentes do  planeta. Isso faz, como em qualquer velho decrépito adoecido, com que os remédios  aplicados para o mal imediato afetem o funcionamento de outros órgãos importantes  do sistema – vide o aumento da taxa de juros mundial e seu efeito na instabilidade do  sistema financeiro com já três importantes quebras: Silicon Valley Bank, First Republic  Bank e o gigante Credit Suisse – ainda que as causas diretas apontadas desse último  sejam outras. Vale registrar que todos esses são epifenômenos da longa (e por vezes  incisiva) curva descendente da queda da taxa de lucro mundial desde a década de 60, como o demonstra o excelente trabalho de pesquisa apresentado por MICHAEL  ROBERTS* em artigo publicado originalmente no The Next Recession Blog. A conclusão  fundamental a que se chega é que a crítica situação mundial aponta para que não haja  o volume de fluxo de recursos financeiros (grande liquidez internacional) dos países  cêntricos do capitalismo mundial para o Brasil, como ocorreu nos primeiros mandatos  de Lula, procurando, os recursos existentes, portos mais seguros, como os títulos do  tesouro americano, para ancorar. 

2. A esse limitador externo, soma-se um limitador interno de natureza política, qual seja, a  falta de vocação política do PT para enfrentar os ricos, a grande burguesia capitalista  brasileira. Isso se expressa na ideia de proposta de reforma tributária propagada por  Haddad que, segundo ele, pretende arrecadar de 110 a 150 bilhões de reais. Parece  brincadeira, mas é verdade. O governo pretende fazer um colchão social para combater  a miséria, a desigualdade e investir em infraestrutura para o desenvolvimento com...  (pasmem!!!) R$ 150 bilhões. Para se ter uma ideia, só o Bolsa Família custará R$ 175  bilhões em 2023. Ou seja, sem mexer com os ricos, sem uma reforma tributária que  

* Michael Roberts: marxista britânico, é economista. Autor, entre outros livros, de The Great Recession: a Marxist  View.

realmente taxe desigualmente os desiguais e, acima de tudo, sem meter a mão no  vespeiro da dívida interna, não há condições de se constituir um capital primitivo do qual  se parta para as reformas, ainda dentro das fronteiras do capitalismo, que possam  vencer minimamente a desigualdade e preparar o país para um crescimento sustentável. 

O NAF sozinho é um programa de disciplinação à burguesia e ao grande capital. Agrada ao capital  financeiro pois um de seus objetivos centrais é garantir o pagamento dos juros da dívida pública;  agrada ao grande capital produtivo urbano e agrário pois diz: agora, com previsibilidade, os juros  baixarão e vocês poderão investir na economia real com vossa margem de lucro garantida. 

Poderia ganhar contornos sociais com a reforma tributária, mas a proposta de Haddad é  extremamente tímida. De todas as formas, pode ter reflexos positivos na redução dos juros e,  com isso, no investimento em setores da economia e, dessa forma, na geração de emprego.

De onde então sairão os recursos para financiar o crescimento da economia e estabilidade social  que impeça a insurreição das hordas de miseráveis que crescem no país? Como já vimos, as  fontes primárias estão fora de questão:  

1. Fluxo externo de capitais: a conjuntura política e econômica internacional aponta para a  inviabilidade dessa fonte de recursos; 

2. Reforma tributária com taxação forte e progressiva dos ricos e auditoria da dívida  pública, nem pensar; 

3. A outra fonte de recursos possível seria a privatização massiva das estatais, o que, Lula,  por ora, por motivos políticos, já disse que não ocorrerá (já tirou da lista de privatizações,  as mais importantes); 

4. Lula também não pode se financiar aumentando a dívida pública porque desancoraria  todo esforço feito por Haddad para dar previsibilidade macroeconômica e garantir  sustentação política para o governo; 

5. Por fim, restaria a tentativa de associação com o capital privado para parcerias na área  de infraestrutura. Parece muito difícil, nesse momento da conjuntura econômica e  política nacional e internacional, que se encontre capitalistas dispostos a investimentos produtivos de grande monta com retorno de longo prazo, como são os das obras em infraestrutura, e com uma taxa de lucro proporcionalmente pequena. 

A alternativa que resta para a obtenção desses recursos é a manutenção e o aprofundamento  das medidas de hiper exploração do proletariado e da classe média trazidas dos governos  anteriores (como a reforma da previdência e trabalhista). Que novas formas poderão adotar essas medidas é preciso acompanhar e ver. 

O governo Lula goza ainda de muita credibilidade nas amplas massas e em um setor majoritário  da vanguarda lutadora organizada. O desastre que representou o governo Bolsonaro tem  permitido que Lula faça pequenas reformas, pequenos acertos que representam importantes  avanços para segmentos específicos como a recomposição da fiscalização e da pauta ambiental; a retirada da lista de privatização de setores importantes como os Correios, Dataprev, Serpro,  Telebras; a prática de uma nova relação com negros, mulheres e povos originários, que se  materializou em uma série de medidas já tomadas; o cumprimento da promessa do valor do Bolsa Família e de algum aumento real, ainda que pequeno, no salário mínimo; a retomada do  Minha Casa, Minha Vida; a localização, exposição, e cobrança de multa e indenizações de várias  empresas que praticam trabalho análogo a escravidão e outras pequenas mudanças, porém significativas para os setores afetados, nos desastres implantados (ou que estavam em processo  de implantação) pelo governo Bolsonaro. O constante atendimento à imprensa, o retorno da 

presença do Brasil no cenário internacional e o diálogo institucional mais leve, dão novos ares  ao cenário político e alenta uma parcela significativa dos lutadores a depositar expectativas no  governo Lula 3. 

Isso torna mais difícil a tarefa dos revolucionários na conjuntura, haja vista que a organização e  a luta contra a exploração capitalista passam necessariamente pelo gestor plantonista no Estado burguês, mas é necessário que, sem sectarismo e sem professoralismo, dialoguemos com os  setores organizados e a vanguarda emergente dos trabalhadores e oprimidos, principalmente  naqueles setores que estiverem em processos de mobilização e lutas, como a juventude secundaristas contra o Novo Ensino Médio, nesse momento. 

Explicar a necessidade da luta e da organização autônoma e independente de governos, de  burgueses e de partidos patronais e governamentais, é fundamental para podermos dar uma  alternativa às lutas que, sem dúvida explodirão em breve, pois, como vimos, as propostas da NAF  / RT não têm o condão de alterar significativamente a exploração e a desigualdade, ao contrário tendem a aprofundá-las.  

Explicar suscintamente o funcionamento da economia capitalista e a fase de crise estrutural que  vivemos, que impede novas concessões significativas aos trabalhadores e que inevitavelmente  eles, junto com todo o povo pobre, explorado e oprimido, terão que lutar unificadamente para  obter conquistas, ainda que mínimas, e estar organizado para esse momento é determinante  não só para o sucesso das lutas que se darão, mas, fundamentalmente, para que essas lutas  tomem o caminho da luta por uma nova sociedade que se construa sobre a ruptura sistêmica  com o capitalismo. 

Essa é a principal tarefa: ajudar as mobilizações pela base, como no Metrô de São Paulo, colar  nos lutadores e na nova vanguarda emergente dessas lutas e explicar pacientemente a  necessidade da organização autônoma e independente para a luta unificada que atenda as  reivindicações imediatas, mas, principalmente, que aponte para a construção da sociedade do  futuro. 

Dada a situação de miséria, opressão e violência cotidiana, uma atenção especial deve ser dada às periferias. Assim como tem sido a tônica na América Latina nos últimos anos, há, nesses locais, um potencial de lutas explosivas que podem ser o estopim para uma virada na conjuntura e para  o surgimento de uma vanguarda aguerrida que muito pouco tenha a perder. Se esse processo se  

der e os revolucionários conseguirem estar colados nele, ajudando em sua organização, é  possível, a partir daí, ter alguma influência no norte dos desdobramentos dessas lutas. Há  algumas contradições com os quais é preciso lidar: além da presença desorganizadora do tráfico  e das milícias, as igrejas evangélicas (principalmente as neopetencostais) garantem uma forte  presença do pensamento reacionário bolsonarista nesses territórios. 

Júlio C V Santos – 04/2023  

Membro do Conselho Diretivo do Centro Cultural Octavio Brandão (CCOB) e partícipe das  reuniões do Coletivo de Coletivos 

(As ideias e conclusões aqui expostas representam minhas posições individuais)

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