Missa Afro em minha vida: testemunho pessoal de um padre negro (por que não a Lei 10639/03 na Igreja?)
Hoje, 20 de novembro de 2021, Dia da Consciência Negra, celebramos 40 anos da Missa dos Quilombos. Nossos passos vêm de longe... É, seguramente, um grande patrimônio na marcha do catolicismo no Brasil, ponto inicial para a Pastoral Afro Brasileira, que integra a CNBB, construir, na força do Espírito antirracista de Deus, a denominada "Missa Afro". 40 anos não são quarenta dias ou quarenta meses. Aclamada, atacada, perseguida e desejada, as missas afro, de certo, constituem, de forma pública, um dos pouquíssimos momentos, no interior da Igreja Católica, marcadamente branca, de diálogo com as Áfricas e a história do negro no Brasil.
A propósito, da minha parte, considero que qualquer diocese do Brasil que tenha se beneficiado exaustivamente do sangue dos escravizados e não tenha abraçado, como ato de reparação e alinhamento com emancipação da população Negra, a Lei 10639/03, que faz obrigatório o Ensino da história da África e no Negro no Brasil, está, ipso facto, de algum modo, desautorizada a falar que é solidária à causa do Negro. Quantas dioceses no Brasil (seminários, institutos, escolas católicas e universidades) abraçaram a Lei 10639/03?
Como a Igreja pode amar aquilo que não quer conhecer?
A ignorância é combustível da Intolerância!
O Documento da V Conferência do Episcopado Latino Americano e Caribenho (Documento de Aparecida) reconhece o olhar de menosprezo que a sociedade tem para com a cultura e religiosidade do povo negro e fala da necessidade da "descolonização das mentes". Mas, como descolonizar sem investir no conhecimento?
Seguramente, a maior parte do olhar, da suspeita e dos ataques (e silenciamentos também) que a Igreja produz com relação às produções culturais e religiosas da população negra, incluindo a Missa Afro", está marcada pela mentalidade colonizadora.
Dizendo de outro modo, é impossível a Igreja ser aliada da afirmação e emancipação da população negra, como afirma o Documento de Aparecida, sem mudar a sua mentalidade COLONIALISTA; que, inclusive, se dá o absurdo direito de decretar o que é "Afro"e o que é "pseudo Afro".
O colonizador nunca (e nunca mesmo) vai abrir mão da pretensão de dizer com arrogância o que é verdadeiro e o que é falso, o que é belo e o que feio, o que deve viver e o que deve morrer.
Em minha experiência pessoal, as Missas Afro foram decisivas em meu processo de construção da consciência negra e, consequente, enegrecimento.
Praticar missa Afro, estudar e refletir com agentes de pastorais negros, certamente, forjou o homem que sou e fez com que despertasse em mim o desejo e a missão de dedicar parte significativa dos meus estudos acadêmicos, por exemplo, aos saberes africanos e diaspóricos: no doutorado em ciência da religião (PUC-SP) tratei sobre Abdias e Exu, no mestrado em Teologia (PUC-RJ) sobre candomblé e cristianismo, no TCC em psicologia.(PUC-RJ) sobre roda de samba e mandala, na pós em psicologia Junguiana (IBMR) sobre Exu e o inconsciente coletivo e na pós em História da África e do Negro no Brasil (Cândido Mendes) sofre oralidade.
Entre outros campos de atuação, atuei na Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro (CCIR). Em 2010, pelo Centro de Articulação das Populações Marginalizadas (CEAP), ganhei o prêmio Camélia da Liberdade, na categoria de personalidade do ano, pela luta em defesa da população negra.
Como a Missa Afro não enegreceu o meu viver?
Confessadamente, a Missa Afro teve em minha vida um poder enegrecedor de real grandeza. Fez parte decisiva do meu enegrecimento. E quando falo "Afro" estou falando muito mais que uma localização geográfica; da mesma forma, quando falo "Negro" falo de algo muito além da cor da pele. As coisas não são tão simples assim... Tornar-se Negro é um processo, uma caminhada; é uma descoberta. E é isso que o catolicismo colonialista e ESCRAVOCRATA teme e tenta impedir; mas o Espírito Santo de Deus é antirracista!
Há liturgias que levantam a nossa cabeça e nos ajudam a quebrar os grilhões da escravidão (que estão dentro e fora de nós). Essas liturgias eu não encontrei no Seminário! Lá nunca, mas nunca mesmo, ouvi sequer o nome de Zumbi dos Palmares.
Repito: a ignorância é combustível da intolerância!
Eu devo muito à Missa Afro; mas só missa não basta: por que não a Lei 10639/03 na Igreja?
É hora de "descolonizar as mentes" e os corpos... Escreve Franz Fanon em tom de prece: "Ô meu corpo, faça sempre de mim um homem que questiona!". Então, "A quem serve o silêncio dos tambores?".
Não estou discutindo ritos, teologias ou normas litúrgicas. Estou falando de minha vida... Ou isso não vale?
Mas, o padre Jesuíta Luis Corrêa Lima, doutor em História e professor de Teologia da PUC-RJ, escreve num artigo que a Missa dos Quilombos (40 anos hoje!) "é pioneira nesta causa, unindo as vidas negras à memória sacramental da morte e ressurreição de Jesus".
E quarenta anos não são quarenta dias... Merece respeito!!!
"Querem acabar com o samba. Madame não gosta que ninguém sambe. Vive dizendo que samba é vexame. Pra que discutir com madame?".
Valeu Zumbi... E viva Cristo Rei!
PADRE GEGÊ