MERCENÁRIOS – GUERRA PRIVATIZADA
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(Ernesto Germano Parés – 14/03/22)
O termo “mercenário” vem do latim onde “merce” significa comércio. Mercenário é, então, o nome dado a todo aquele que trabalha a soldo, mais especificamente, os soldados que lutam em guerras com o único objetivo de receber um pagamento ou, como na antiguidade, participar da divisão dos despojos dos vencidos. Não lutam por qualquer tipo de ideologia.
Sabemos que não é um fenômeno moderno. Já na antiguidade soldados eram contratados para lutar na defesa de interesses políticos ou econômicos. Há registro de que a China, durante os séculos IV e III a.C. já teria usado tropas mercenárias. Também no antigo Egito e na Grécia havia exércitos de mercenários contratados em outras regiões.
Mas tropas mercenárias vão ganhar grande vulto já na chamada Alta Idade Média com soldados que eram contratados pelos príncipes. E as depredações e os saques eram comuns e se tornaram uma praga em várias regiões da Europa.
Para quem não sabe, o Brasil também já usou tropas de mercenários. D. Pedro I criou um Corpo de Soldados Estrangeiros (todos mercenários) para lutar na Guerra Cisplatina. D. Pedro II também contratou mercenários, os “Brummer”, germânicos, para lutarem na Guerra contra Oribe e Rosas.
Mas o fato que precisamos salientar é que, durante todo esse tempo, era uma relação quase pessoal entre governantes e homens que se prestavam a guerrear, lutar, depredar e saquear.
Apenas em 1990 vamos tomar conhecimento do que pode ser chamado de “privatização da guerra” quando surgem empresas especializadas em contratar esses mercenários, treiná-los, armá-los e colocá-los a serviço de governos. Podemos, comparando com o que acontece nas empresas, dizer que isso significa a “terceirização” da guerra.
Para “aliviar” um pouco o choque que causaria nas populações, os governos e a mídia amestrada passaram a dar um nome diferente para essas empresas que agora eram chamadas de “sociedades militares privadas”! E essas “sociedades”, em apenas uma década, tiveram um desenvolvimento “explosivo” (com trocadilhos). Pelas informações que obtivemos, o desempenho mundial nesse setor gira em torno dos 70 bilhões de euros anuais
Aqui queremos realçar um fato que nos fez usar a comparação com as terceirizações que acontecem nas empresas de hoje. Estamos dizendo que o fato de existirem e serem toleradas essas “sociedades militares privadas” comprova que, em sua essência, a guerra atende a interesses econômicos privados, seja de que tipo for.
Como acontece em qualquer outra atividade econômica que conhecemos, as empresas de mercenários também vão ganhando dimensões. Na medida que o imperialismo vai tendo mais fome de lucro, essas empresas vão servindo aos propósitos de alguns espertos e rendendo também muito dinheiro. Por exemplo, há uma “sociedade militar” inglesa, a G4S, que tem mercenários atuando em nada menos do que 125 países (são 193 em todo o planeta). Essa sociedade emprega em torno de 570 mil pessoas.
Para não alongar demasiadamente este primeiro artigo da série, vamos encerrar lembrando que existe uma Convenção das Nações Unidas, em vigor desde 2001, proibindo o recrutamento, treino, uso e financiamento de mercenários. EUA, Reino Unido, França e Japão assinaram o documento!
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MERCENÁRIOS – GUERRA PRIVATIZADA! (2)
(Ernesto Germano Parés – 15/03/22)
Conversando com algumas pessoas sobre o surgimento desses soldados “mercenários” recordei um fato que creio ter sido determinante para o crescimento dessas “sociedades militares”. Lembrei da guerra do Vietnam e da comoção nacional nos EUA quando as famílias viam seus filhos voltarem para casa em sacos plásticos! Já no final da guerra um filme apontou toda a decepção e a comoção do povo estadunidense. Estou falando de “Corações e Mentes”, de Peter Davis.
Bem, as autoridades de Washington devem ter pensado que continuar mandando os filhos das famílias tradicionais para morrerem em uma guerra distante de casa não daria muitos votos. Mas, ao mesmo tempo, o complexo industrial militar não pode sobreviver sem uma guerra em algum lugar do planeta.
Surge então o espaço tão desejado por essas “sociedades”. Afinal de contas, os mercenários que aceitam matar ou morrer pelos EUA, muitas vezes, não têm nenhuma ligação com o país. Em uma avaliação do Pentágono, manter soldados estadunidenses nas frentes de guerra é muito caro para o país, então, essas “sociedades” vão recrutar em países pobres, como Uganda, El Salvador, Nepal e Filipinas e muitos outros. Um levantamento feito por um jornal estadunidense mostrou que um cidadão dos EUA, para entrar em uma guerra assim, pode ganhar até US$ 1,5 mil por dia. Mas um combatente de país pobre recebe US$ 500 pelo mesmo serviço.
E vamos encontrar nessas empresas muitos paramilitares colombianos, alguns chilenos remanescentes do governo Pinochet e até brasileiros apaixonados pela conversa da direita.
A mais conhecida, mais famosa e mais denunciada dessas “sociedades” é a Blackwater, dos EUA. Poucos conhecem ou levam em consideração, mas o nome Blackwater significa “água negra”, uma referência aos pântanos onde são feitos os primeiros treinamentos dos mercenários. Pântano! Sim, uma excelente definição para o serviço prestado por essas respeitáveis empresas.
No dia 19 de agosto de 2009, fazendo o povo estadunidense se impressionar, o jornal The New York Times revelou que a CIA havia utilizado, em 2004, funcionários da Blackwater como parte de um programa secreto, com o objetivo de descobrir pistas e assassinar dirigentes da Al-Qaeda. A tal empresa contribuiu para as missões da organização estadunidense de treinamento e espionagem, cobrando milhões de dólares pelo serviço, sem nem ao menos ter capturado ou assassinado um único ativista.
Ainda em 2004, na cidade de Fallujah, Iraque, quatro contratados da Blackwater foram emboscados, mortos, queimados e desmembrados. A imagem de seus corpos pendurados em uma ponte se tornou o símbolo da fase mais sangrenta daquele conflito. Mais tarde, em 2007, funcionários da empresa perderam controle de um comboio e mataram 17 civis em Bagdá. Soterrada pela publicidade negativa, a Blackwater mudou de nome: hoje ela se chama Xe.
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MERCENÁRIOS – GUERRA PRIVATIZADA! (Final)
(Ernesto Germano Parés – 15/03/22)
Para encerrar o artigo vamos esclarecer que essas empresas oferecem quase todos os tipos de serviços para aplicação militar. Trabalham desde a reparação de veículos e preparação de alimentos nas bases militares até segurança particular e mesmo assassinatos.
Um caso que ganhou espaço na imprensa internacional, há alguns anos, foi o fato dos Emiratos Árabes Unidos (EAU) terem contratado a Spear Operations Group – fundada por Abraham Golan, um israelense residente nos EUA – para executar um programa de assassinatos no Iémen. Um dos alvos dos mercenários estadunidenses foi um líder da al-Islah, organização que os EAU classificam de terrorista, mas que é reconhecido como um partido político legítimo, que se opõe à intervenção estrangeira no Iémen e conta entre os seus membros Tawakkul Karman, vencedora do Prémio Nobel da Paz em 2011.
É fato que os governos gastam muitos milhares de milhões de dólares em armamentos e em seus exércitos, mas é também fato que a chamada “segurança privada” ou “sociedades militares privadas” estão crescendo exponencialmente nas últimas décadas.
Um fato de se estranhar é que, não estando protegidos pelas Convenções de Genebra sobre as guerras e nem contando com apoios nacionais, esses mercenários carecem totalmente de garantias e apoios em caso de serem feridos em combate.
E cabe registrar que, da mesma forma, essas “sociedades” funcionam à margem dos códigos internacionais e não estão sujeitas a qualquer limites, agindo longe de qualquer controle.
Vamos encerrar colocando mais um importante dado na equação. Há um grande interesse por parte dos militares estadunidenses (também ingleses ou franceses) na manutenção dessas “sociedades”. Quase todo o pessoal de comando dessas SMP é ex-oficiais das forças armadas desses países. E sabemos que essa proximidade, essa familiaridade entre uns e outros permite com bastante facilidade um acesso em matéria de informações confidenciais e até uma certa impunidade.
E tudo leva a uma situação pouco conhecida do grande público: essas “sociedades militares privadas”, por seus vínculos com exércitos e até com governos, estão em posição privilegiada também para influenciar nas decisões militares ligadas às operações.
Como dissemos no título original, é a Guerra Privatizada em toda a sua extensão!