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terça-feira, 7 de outubro de 2025

Nota de Falecimento * Revista Nas Entrelinhas/IFBA

Nota de Falecimento

É com profundo pesar que o Nas Entrelinhas comunica à comunidade do Instituto Federal da Bahia (IFBA): alunos, professores, técnicos administrativos e prestadores de serviços, o falecimento da Senhora “DEMOCRACIA”.

Desde o início do ano de 2020 ela já vinha sofrendo com uma doença chamada “Patrimonialismo” que é caracterizada pela confusão e conflito dos conceitos daquilo que é “público” e “privado”. Estavam a Reitora e o seu Consorte dentro do Consup decidindo os rumos do IFBA como se o fizessem com o orçamento familiar.

A doença evoluiu para um câncer muito comum em alguns modelos de gestão, chamado “Autoritarismo”. Esse tipo de câncer é caracterizado pelo poder absoluto que implementa regras próprias e subverte normas, impondo os seus interesses e subordinando a todos, principalmente, aqueles que de alguma forma do poder autoritário se beneficiam, a obediência cega à sua autoridade.

O domínio dos espaços de deliberação e decisão no IFBA foi a primeira estratégia do autoritarismo da gestão e tem o propósito de consolidar o controle do poder e influência, e dessa forma impedir que vozes e pensamentos contrários sejam lançadas e reproduzidas no meio acadêmico e institucional. Foi assim lá nos idos do ano de 2021, na eleição para o Consup. Foi assim na eleição de 2023 também para o Consup, Reitor(a) e Diretores(as) de campi, subvertendo, inclusive, o Estatuto do IFBA (Art. 11, II) e o Regimento Interno do Consup (Art. 2º, II e Art. 33, VIII), e não foi diferente nesta última eleição.

A Reitora e Presidenta do Consup, usando do seu autoritarismo e abusando do poder, sob os olhares e pensamentos desprovidos de senso crítico dos Conselheiros, impôs a sua vontade e transferiu os poderes que até então eram do Consup e dos Conselheiros para as Comissões Eleitorais, tanto em 2023 quanto na última eleição para o Consup (2025-2027). É bom a comunidade rever esses momentos para que não caiam no esquecimento.

O ataque fulminante à DEMOCRACIA institucional veio nesta recente eleição para o Consup, mais uma vez usando a própria “democracia” para disfarçar e consolidar o seu autoritarismo.

Feriu o princípio constitucional da “Publicidade”. Não utilizou todos os meios institucionais oficiais disponíveis para dar amplo conhecimento à comunidade interna. A chamada para registros de candidaturas ao Consup só foi divulgada no ifba-oficial@listas.ifba.edu.br no dia 13 de agosto de 2025, faltando pouco mais de 9 horas para o encerramento. De acordo com o princípio da “Publicidade” (Art. 37 da CF/88) é dever da Administração conferir aos seus atos a mais ampla divulgação possível, principalmente quando os administrados forem individualmente afetados pela prática do ato. Isso cerceou o direito de servidores da oposição apresentarem candidaturas.

A Reitora permitiu, acintosamente, que o seu Consorte (que desta vez não teve muita sorte, ficou como suplente) se candidatasse à representação no Conselho do qual ela, a Reitora, é Presidenta, escancarando e jogando na cara da comunidade do IFBA o conflito de interesses, já combatido no âmbito do Consup entre 2020-2021.

O Consorte, que fez uma campanha digna do Congresso Nacional (nababesca), sem o mínimo de vergonha, como se tivesse dispondo do patrimônio familiar, usou e abusou da máquina pública: beneficiou-se de vídeo publicado no Instagram pelo Pró-Reitor de Ensino - assim se apresentou - no qual declarou o seu apoio ao candidato. Apropriou-se indevidamente de um vídeo institucional, onde a Pró-Reitora da PRODIN enalteceu a importância da eleição para a democracia na Instituição. O vídeo é institucional e tem caráter informativo. A apropriação foi indevida.

Um outro candidato também docente, do campus de Jacobina, beneficiou-se de um vídeo publicado no Instagram pelo Diretor-Geral, que assim se declarou e externou o seu apoio. Já um outro docente, apoiador ou preposto, do campus de Irecê usou o seu e-mail pessoal institucional (o que é permitido) e enviou mensagem para uma infinidade de docentes, através do e-mail oficial institucional "docentes.ire@ifba.edu.br" (o que é proibido pela norma eleitoral), pedindo votos para o candidato e convidando a todos para irem juntos com ele, configurando o uso da máquina pública.

É claro que tudo isso desequilibrou o pleito eleitoral porque comprovadamente favoreceu indevidamente os candidatos. E na tentativa de salvar a velha Senhora “DEMOCRACIA” que agonizante dava os seus últimos suspiros, apresentamos recursos, impugnações, além de expormos os vícios gritantes no Regulamento Eleitoral.

Infelizmente, a Comissão Eleitoral que, como aquela de 2023, sem o fiel da balança, “jogou a última pá de cal” e julgou como IMPROCEDENTES os recursos e impugnações.

A Senhora “DEMOCRACIA” morreu, mas deixou “sementes”. Essas serão cuidadas, trabalhadas e preparadas longe dos olhares herodianos.

Consup 2025-2027, eleição de cartas marcadas.
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sábado, 30 de março de 2024

AVANTE VENEZUELA ANTIIMPERIALISTA * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

AVANTE VENEZUELA ANTIIMPERIALISTA

Todo apoio ao povo trabalhador da Venezuela em sua hercúlea luta contra o imperialismo em nossa América

A Frente Revolucionária dos Trabalhadores (FRT), vem através desta nota, repudiar veementemente as perfídias e infames calunias propagadas pelo presidente brasileiro Luiz Inácio "Lula" da Silva, contra o regime político interno da Venezuela e seu sistema eleitoral.

As intrometidas declarações do Itamaraty e do próprio presidente brasileiro contra o regime político de nosso país irmão, para além de ser uma desprezível intromissão nos assuntos internos de outro país soberano, é expressão patente do servilismo desonroso do governo Lula, diante do imperialismo estadunidense. 

A resposta dura por parte da diplomacia bolivariana contra essa intromissão em seus assuntos internos, que qualificou as declarações do governo brasileiro como parecendo ter sido elaboradas pelos serviços do Estado ianque, foi certeira e na verdade captou a essência de tal servilismo por parte de Lula e seu governo diante dos piores inimigos da humanidade.

Em seu terceiro mandado a frente do Estado brasileiro, o presidente Lula tem dado seguidas mostras de seu alinhamento ao imperialismo dos Estados Unidos em nosso continente, basta lembrarmos sua mesma posição ambígua e vacilante no recente caso de Essequibo, ou mesmo seu decreto do ano passado, permitindo a entrada de mais de 290 militares estadunidenses em nosso território para exercícios e doutrinação de seus homólogos brasileiros.

 Já no que tange a sua política internacional em respeito ao massacre que o Estado sionista de Israel tem cometido contra o povo palestino, apesar de suas declarações certeiras e corajosas denunciando os criminosos israelenses, nenhuma ação prática efetiva contra o Estado genocida foi tomado. Justamente o contrário, Lula e sua equipe tem tratado de pôr panos quentes, contemporizar, como é do seu feitio desde sua época de sindicalista.

Nessa mesma esteira de servilismo diante dos poderosos, recentemente Lula vetou os atos que rememoram e denunciam o golpe militar fascista de 1964 contra o presidente João Goulart e que implementou o terrorismo de Estado e uma regressão histórica da nação que nos afeta decisivamente até os dias de hoje. Também internamente, o governo de Luiz Inácio dá sequência em linhas gerais, ao mesmo programa econômico do governo Bolsonaro, favorecendo acima de qualquer coisa os interesses do rentismo e dos latifundiários contemporâneos do chamado agronegócio, responsáveis pela regressão neocolonial pela qual o Brasil passa.

O mais curioso da intromissão arrogante e servil do mandatário brasileiro e sua equipe diplomática contra o regime político venezuelano, é que esta não toca nem levemente nas seguidas tentativas golpistas da chamada "oposição" contra o governo venezuelano desde há décadas, ainda no período do comandante Hugo Chávez, tudo alinhado e financiado pelos imperialistas bandidos da Casa Branca.

Dessa forma, o que vai ficando claro é o lastimável papel cumprido por Lula e seu governo burguês de mero cumpridor de ordens que vem dá Casa Branca e do Departamento de Estado imperialista. E isso desde seu primeiro mandato a frente do governo brasileiro, quando a serviço do sanguinário George W. Bush, enviou tropas brasileiras para o serviço sujo de neocolonização e repressão ao povo haitiano.

A Frente Revolucionária dos Trabalhadores e a parte honrada do povo trabalhador brasileiro se solidariza aos seus irmãos trabalhadores da Venezuela e seu governo, apesar de nossas profundas divergências políticas em relação a este último.

Afirmamos o direito soberano do povo venezuelano conduzir seus assuntos, de combater firmemente o golpismo pró imperialista em sua pátria.

E mais uma vez repudiamos o serviço sujo do governo Lula em se colocar como vergonhoso ventrículo do imperialismo norte americano em nossa grande pátria americana.

Frente Revolucionária dos Trabalhadores
FRT
NOTA VENEZUELANA

Caracas, 26 de marzo de 2024 

Camarada 

Roberto Bergoci 

Representante Frente Revolucionario de Trabajadores-FRT. Brasil. – 

Camarada: 


Reciba un saludo solidario y revolucionario en nombre del pueblo  venezolano y del Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), en ocasión de  compartir con usted, información relevante sobre las próximas elecciones  presidenciales de la República Bolivariana de Venezuela, que tendrán lugar el  28 de julio de 2024. 

Al respecto, le informamos que; producto del consecuente esfuerzo del  Presidente Nicolás Maduro Moros en la construcción e implementación del  diálogo, en pleno respeto al “Acuerdo Parcial sobre la Promoción de Derechos  Políticos y Garantías Electorales”, firmado con sectores de las oposiciones  nacionales y luego de un amplio proceso de consultas con los movimientos  sociales, empresariales, sindicatos y 43 partidos políticos del país, se elevó a  nuestro Poder Electoral, una hoja de ruta sugerida para desarrollar las  elecciones presidenciales en nuestro país que por mandato constitucional  deben realizarse durante el año 2024. 

En este sentido, el Consejo Nacional Electoral con base en sus facultades  constitucionales y previa revisión a los acuerdos entre los diversos sectores de  la sociedad, el pasado 5 de marzo, anunció su decisión de convocar a  elecciones presidenciales para el período 2025-2031, conforme al siguiente  cronograma:

- Presentación de postulaciones de los candidatos: del 21 al 25 de  marzo. 


- Actualizaciones del censo electoral: del 18 de marzo al 16 de abril. - Campaña electoral: del 4 al 25 de julio. 

- Elecciones Presidenciales: 28 de julio de 2024. 

- Inicio del período constitucional 2025-2031: 10 de enero de 2025 

Apreciado camarada: 

Esta será la elección N° 31 en los últimos 25 años y quedará registrada  como uno de los eventos más trascendentes e importantes en nuestra historia  republicana, en la que nos preparamos con alegría para consolidar la  vigesimonovena victoria electoral para la Revolución Bolivariana, por eso  deseamos sea testigo presencial de este evento este próximo 28 de julio-2024. 

Reciba nuestro abrazo y garantías de contar con nuestra solidaridad  activa y a tiempo con la causa que mutuamente defendemos.  

Vicepresidencia Asuntos Internacionales PSUV: asuntosinternacionalespsuv1@gmail.com   

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sexta-feira, 23 de setembro de 2022

A POSSE DO XANDÃO * Profª Alba Valéria Aparecida da Silva.GO

A POSSE DO XANDÃO

E lá no TSE o evento começou
Pois um novo presidente
Nesse dia se empossou
E por ali muita gente
E muito ex presidente
Sua presença marcou

Sarney estava presente
Dilma Rousseff também
FHC doente
Não veio aplaudir ninguém
Michel Temer ignorado
Lula sendo assediado
Se portou como convém.

Então chegou o momento
Há muito tempo esperado
Era a fala do ministro
Que estava sendo empossado
Para combater a ira
E acabar com a mentira
Desse governo malvado

Por cerca de dez minutos
O Alexandre falou
E cada frase que disse
A todos ele encantou
E Bolsonaro se encolhia
Pensando: aqui não me encaixo
Calado, olhando pra baixo
Ouviu o que não queria

O presidente do TSE
A ele deu seu recado
Foi aplaudido de pé
E o 03, coitado
Um garotinho mimado
Só fazia cara feia
Sem poder se levantar
Por estar com a fralda cheia.

Defender a democracia
É dever de todos nós
Por isso clamo aos poetas
Que elevemos nossa voz
Do jeito que fez XANDÃO
Pois foi grande o sabão
Para o genocida atroz.

Viva Deus! Viva Jesus
Seu exemplo tão humano
No dia dois de outubro
Derrubamos o insano
Psicopata, demente
Que espalha ódio e mente
E ao país só causa dano.

(Professora Alba, poetisa do entorno)
Profª Alba Valéria Aparecida da Silva.GO

domingo, 21 de agosto de 2022

BOLSONARO E BOLSONARISMO PARA ALÉM DAS URNAS * SÉRGIO FAUSTO / REVISTA PIAUÍ

BOLSONARO E BOLSONARISMO PARA ALÉM DAS URNAS


Fossem tempos normais, não haveria dilema maior. Dois turnos servem exatamente para isso: no primeiro, escolhe-se por convicção; no segundo, mais por exclusão. Ocorre que não vivemos tempos normais, nem no Brasil nem no mundo.

Nunca antes estivemos diante de um fenômeno como o bolsonarismo. A Ação Integralista Brasileira, criada em 1932 por Plínio Salgado, inspirada no fascismo italiano e num catolicismo ultraconservador, não foi um fenômeno de massas. Em democracia, a direita sempre chegou ao Palácio do Planalto por interposta pessoa. Jânio Quadros se mostrou um estranho no ninho em Brasília. Fernando Collor sofreu impeachment. Ambos revelaram desconhecer o jogo do poder. Nenhum, porém, afrontou as instituições (Jânio, ao tentar, fez papel de tolo). Pela primeira vez, a direita chegou ao Palácio do Planalto pelo voto popular, mas para tanto teve de se dobrar ao seu representante mais caricato.

Nem todos os seus aliados políticos são extremistas, muito menos a maioria dos seus eleitores, mas quem hoje ainda tem dúvida do extremismo de Jair Bolsonaro ou da sua condição de líder do bloco de forças políticas e sociais que ele representa? O atual ocupante do Palácio do Planalto é tosco, mas não é tolo. Conhece o jogo do poder, no meio civil e no meio militar. Não tem um partido, mas é líder de um movimento, cuja força motriz é o ataque sistemático à cultura e às instituições democráticas.

O bolsonarismo não é fascista. Mas tem traços fascistas que o distinguem da direita autoritária convencional. O bolsonarismo é mobilizador. Move-se pela ideia de que há um combate a ser travado. A violência ocupa um lugar central no seu imaginário. Bolsonaro não organizou os fasci di combattimento, embriões do Partido Fascista na Itália, mas abusa do poder presidencial para dar armas à população e não hesita em incitar o seu uso contra adversários políticos. Não recruta diretamente soldados, como Benito Mussolini fez com os ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial para formar suas tropas de choque, mas mantém acesa a sua base nas forças de segurança, em particular as polícias militares, e chama as Forças Armadas de “meu Exército”. Cultiva uma masculinidade bruta, talhada para o confronto. Mussolini era um homem culto, mas teatralizava a imagem do macho atlético, corajoso e implacável.

O combate bolsonarista extravasa os limites das instituições de representação política. Alcança cada campo da vida social, da igreja aos quartéis, passando pelas escolas. Nisso ele também se assemelha ao fascismo. O uso distorcido do conceito de liberdade não esconde a tendência totalitária do bolsonarismo, visível na tentativa de controlar comportamentos em esferas da vida privada tão íntimas como são a família e a sexualidade. A coação sobre a individualidade é onipresente no campo da cultura. Deus (punitivo), Pátria (excludente) e Família (patriarcal), slogan tomado emprestado ao integralismo de Plínio Salgado, formam a tríade de uma visão retrógrada do indivíduo e da sociedade. A novidade do bolsonarismo é a adesão a um individualismo extremo e destrutivo, avesso a considerações sobre o bem comum.

Outra diferença é que Bolsonaro não quer pôr abaixo todo o edifício da democracia liberal. O fascismo elaborou uma visão sobre a organização do Estado e da sociedade em substituição à democracia liberal. O bolsonarismo não pretende destruí-la frontalmente, mas desfigurá-la pela corrosão. Não se importa em manter a fachada da democracia liberal. Não questiona o princípio da soberania popular expressa pelo voto. Prefere lançar suspeitas infundadas sobre a lisura do processo eleitoral para deslegitimar de antemão qualquer resultado que não o favoreça. Não contesta a primazia do poder civil em geral e do Tribunal Superior Eleitoral em particular, mas busca submeter o TSE à tutela das Forças Armadas para auditar as urnas e apurar os votos. Não convoca cabos e soldados para fechar o STF, mas move uma campanha de execração pública e intimidação dos seus membros e reinterpreta o artigo 142 da Constituição para difundir a tese de que às Forças Armadas caberia a resolução de conflitos entre os diferentes poderes da República. Claro, às vezes, o presidente se excede e diz o que realmente pensa: “Isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Forças Armadas assim o quer”, disse Bolsonaro, ao maltratar a língua portuguesa em discurso ao Corpo de Fuzileiros Navais no Rio de Janeiro, em março de 2019.

À falta de uma doutrina própria, o bolsonarismo transformou a religião em arma política. O clero sempre teve peso na sociedade e influência na política brasileira. Enquanto o catolicismo conservador reinou inconteste no campo religioso, a Igreja não se furtou a tomar partido das forças da ordem. Em 1964, às vésperas do golpe militar, a classe média engajou-se na chamada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. A própria laicidade do Estado acomodou-se às demandas da Igreja Católica. Nunca se viu, porém, uso tão amplo e agressivo da religião para traçar as linhas divisórias da disputa política, numa estratégia coordenada de estigmatização dos oponentes do bolsonarismo, dentro e fora das igrejas, em especial das denominações evangélicas (incluindo as mais tradicionais).

Não há um partido evangélico nem uma identidade perfeita entre o bolsonarismo e o evangelismo, mas desde a proclamação da República jamais convivemos com tal grau de politização da religião e uso religioso da política. Isso se reflete num enfraquecimento sem precedente do caráter laico do Estado. Os exemplos vão desde instruções para o aborto legal na rede do sus que respondem a crenças religiosas e não a preceitos constitucionais até a indicação de nomes para os tribunais superiores com base em critério religioso.

Não estamos nos anos 1930 do século passado, quando se deu a ascensão do nazifascismo na Europa. Mas o bolsonarismo não é um fenômeno isolado. Faz parte da onda global antidemocrática que se levantou depois da grande crise financeira da primeira década deste século. Até 2008 era uma marolinha restrita aos países em desenvolvimento.

Depois de crescer rápido durante as duas últimas décadas do século XX, o número de democracias entre esses países começou a estacionar e, logo mais, a diminuir. A observação ficou restrita aos especialistas porque não havia grande surpresa na recaída autoritária de países onde a democracia nunca havia se firmado. Depois da grande crise financeira, o quadro mudou. Partidos, movimentos e líderes antissistema ganharam terreno na Europa e nos Estados Unidos. À esquerda, despontaram o Podemos, na Espanha, e o Syriza, na Grécia, na esteira de movimentos de protesto contra a repartição socialmente injusta do ônus da crise financeira. Apesar do flerte inicial com o bolivarianismo sul-americano, então em alta na América Latina, os partidos antissistemas de esquerda confluíram para o leito da democracia liberal, buscando alargá-lo com a participação de novos atores sociais e revolvê-lo para que temas submersos (desigualdade, meio ambiente, igualdade de gênero) viessem à tona com força. Tiveram êxito limitado.

Maior foi o sucesso da direita antissistema. Prometendo a restauração de um passado idealizado, apelando à xenofobia étnico-religiosa, mobilizando o medo e o ódio aos imigrantes e a frustração contra as perdas reais e imaginárias da globalização, tomou de assalto o Partido Republicano, nos Estados Unidos, empurrou o Partido Conservador, no Reino Unido, para uma posição de ruptura com a União Europeia, entrou para o mainstream da política italiana e francesa, chegou ao poder na Hungria e na Polônia.

Se no passado houve uma Internacional Comunista, hoje quem melhor se articula internacionalmente é a extrema direita. Depois da queda da União Soviética, o fantasma do comunismo se tornou isso mesmo, um fantasma, como aquelas estrelas que já morreram, mas cuja luz ainda se vê. Já a extrema direita cresce e se articula em toda parte, com apoio decisivo nos Estados Unidos e com recursos do Kremlin, que até a eclosão da guerra na Ucrânia financiou partidos nacionalistas e xenófobos na Europa. Maior das repúblicas da defunta União Soviética, a Rússia se tornou, sob Vladimir Putin, parte importante da rede internacional formada por cristãos fundamentalistas, nacionalistas xenófobos e ultraconservadores, da qual fazem parte também os negacionistas da mudança climática. Deus, Pátria e Família, em luta contra o chamado “marxismo cultural”, designação absurda e pejorativa de toda e qualquer ideia que remonte ao Iluminismo e à modernidade, em suas variadas vertentes.

Não se deve desconsiderar esse contexto na avaliação do risco que representa a reeleição de Bolsonaro para a democracia no Brasil e mesmo no mundo. Maior país da América Latina, uma das quinze maiores economias do planeta, aqui se trava uma batalha importante para reverter a onda global antidemocrática.

Dessa perspectiva, não percamos de vista os Estados Unidos, o principal centro de irradiação da extrema direita mundial. São conhecidas as afinidades e ligações entre o bolsonarismo e o extremismo norte-americano de direita. Ambos compartilham a crença de que a política é um combate travado em todas as dimensões da vida social, da família ao Estado, passando pela escola, a mídia, as igrejas. As instituições políticas são espaços a ser conquistados e utilizados como centros estratégicos de poder para vencer o inimigo, e não como um conjunto de regras escritas e não escritas que permite aos adversários políticos resolver seus conflitos de modo não violento. Nesse combate, nem as regras do jogo democrático nem as regras da objetividade factual merecem deferência.

Tão importante quanto o que ocorreu em 6 de janeiro de 2021 no Capitólio é o que vem ocorrendo nos Estados Unidos desde então. O assalto à sede do Congresso, para impedir a confirmação do resultado eleitoral que dera a vitória a Joe Biden, não foi um incidente. Foi o ponto culminante de uma estratégia longamente preparada com base na mentira de que as eleições estavam sujeitas a toda sorte de fraudes. Qualquer semelhança com a sistemática investida do bolsonarismo contra as urnas eletrônicas e o TSE não é mera coincidência.

A mentira visa atingir a democracia no seu pilar central: a alternância no poder determinada pelo resultado eleitoral e a aceitação do veredito das urnas por parte do candidato derrotado. Ela tem um duplo e estratégico propósito: testar ao limite a resistência das instituições democráticas e, na hipótese de não produzir de imediato o efeito pretendido, ou seja, um golpe de Estado, impulsionar em seguida uma campanha de deslegitimação do presidente eleito.

Vista dessa perspectiva, a estratégia da Grande Mentira (The Big Lie) se mostrou um sucesso. Em torno dela, a extrema direita manteve tão ou mais mobilizada a sua base de militantes e o seu controle sobre o Partido Republicano. O assalto ao Capitólio fracassou, mas o ataque às instituições eleitorais continua em cada estado, em múltiplas investidas para dificultar o voto dos grupos sociais e raciais nos quais o Partido Democrata predomina. O Partido Republicano coordena essas investidas, mas a lógica que as coloca em marcha não é a de um partido convencional e sim a de um movimento de fundo religioso, que enxerga a luta política como um combate travado em nome dos valores da cristandade, no caso norte-americano, associados à herança europeia e, portanto, à população branca. Quarenta anos atrás, quando Ronald Reagan se elegeu presidente, o fundamentalismo cristão era uma força ascendente, mas ainda marginal no Partido Republicano. Hoje é a alma do Grand Old Party. Um tipo amoral e oportunista como Donald Trump soube instrumentalizar o fundamentalismo branco evangélico e expandir as suas fronteiras apelando aos trabalhadores industriais empobrecidos pela automatização e remoção de indústrias no Cinturão da Ferrugem (Rust Belt).

Os riscos à democracia norte-americana são crescentes e não decrescentes, como se podia imaginar depois da vitória de Biden sobre Trump. As chances de o trumpismo retornar à Casa Branca em janeiro de 2025, com ou sem o ex-presidente, são reais. Somos testemunhas do mais amplo ataque aos direitos civis e políticos nos Estados Unidos desde o final do século XIX, quando, após a Guerra Civil, o Norte, embora vitorioso, aceitou que os estados do Sul, derrotados, adotassem leis de segregação racial. As conquistas alcançadas cem anos depois da abolição da escravidão, com o Voting Rights Act, aprovado em 1965, que proíbe a discriminação eleitoral com base na raça, estão sob ataque.

O mesmo acontece com os direitos civis. É o que se viu na decisão recente da Suprema Corte sobre o direito ao aborto. Ao derrubar a jurisprudência fixada no caso Roe versus Wade, de 1973, a maioria conservadora do tribunal permite aos estados proibir o aborto mesmo em caso de estupro ou risco à saúde da mulher. Em alguns deles, como o Texas, já entraram em vigor leis que preveem longas penas de prisão para quem praticar o aborto ou facilitá-lo, além de estímulos para denunciar os “criminosos”. A decisão de 1973 se apoiou na ideia de que as liberdades individuais incluem o direito à autonomia e à privacidade no uso do próprio corpo. O mesmo conceito dá base ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, incluído o direito de adotarem crianças e constituir família. A ampla maioria conservadora na Suprema Corte, assegurada pelo bloqueio dos senadores republicanos à nomeação de um juiz indicado por Barack Obama, prenuncia a derrubada de outros direitos considerados anátemas pelo fundamentalismo religioso. Em seu voto contra Roe versus Wade, o juiz Clarence Thomas, casado com uma militante ultraconservadora, já deu o sinal nessa direção para encorajar a base republicana a não se contentar com essa vitória.

Outro alvo da Suprema Corte são as políticas federais de mitigação da mudança climática. Pouco menos de uma semana depois de restringir o direito ao aborto, a maioria republicana no tribunal limitou o poder da Agência de Proteção Ambiental (epa, na sigla em inglês) de estabelecer limites para a emissão de gases do efeito estufa.

Nos Estados Unidos se trava a mãe de todas as batalhas para o futuro da democracia (para não falar na mudança climática). Os resultados são incertos e os ventos não sopram em boa direção.

Voltemos ao Brasil e ao dilema colocado na abertura deste artigo. Não tenho respostas definitivas, mas algumas considerações me parecem importantes para resolvê-lo, nos dois meses que temos até o primeiro turno das eleições presidenciais. A primeira delas diz respeito à caracterização da política brasileira atual como um campo de forças polarizado por dois extremos. A imagem falseia a realidade. Não há dois, mas um só extremista a protagonizar a disputa política, como escreveu Míriam Leitão em O Globo, no artigo intitulado Centro Não É o Ponto entre Dois Extremos. A jornalista é certeira ao escrever: “O centro deve procurar seu espaço, seu programa, seu candidato, ou seus candidatos, porque o país precisa de alternativa e renovação. Mas não se deve equiparar o que jamais teve medida de comparação.”

Aos 45 minutos do segundo tempo da pré-campanha, o centro encontrou uma candidata a presidente, a senadora Simone Tebet (MDB-MS). É um excelente nome. Não tenho dúvida de que a candidata encontrará o seu programa, dada a qualidade das equipes que pode recrutar para esse fim. A questão que resta responder é: encontrará o seu espaço? Faço essa pergunta com um olho nas pesquisas e outro no mapa das identidades político-ideológicas. Não tenho a fórmula mágica da decolagem nas pesquisas de intenção de voto, mas estou convencido de que se apresentar como a opção equidistante entre dois extremos é mais do que um erro de cálculo eleitoral.

Não se trata de apagar diferenças com o PT e seu candidato em temas importantes como o papel das empresas estatais e dos bancos públicos, comércio externo e políticas industriais, regras e gestão da política fiscal, mas de reconhecer com clareza e sem demora que a importância das diferenças nessas áreas é menor do que a importância de um compromisso comum com a democracia.

Não nos enganemos, é isto que está em jogo nessas eleições: o direito de continuarmos a divergir pacífica e democraticamente sobre a melhor maneira de construir um país mais justo, próspero e sustentável, orgulhoso da sua diversidade, onde a liberdade religiosa seja plena, mas as crenças não constranjam a liberdade individual nem sejam critério para a distribuição de recursos públicos, nomeações para instituições do Estado ou definição de políticas públicas, onde haja consideração pelos fatos objetivamente verificáveis e pelos métodos científicos de produção de evidências.

A segunda consideração a fazer é sobre ter ou não o PT aprendido as lições de sua longa passagem pelo poder federal. Não tenho resposta taxativa a respeito. Mas penso que o alcance da pergunta deveria ser estendido: aprendemos todos, do campo democrático, com os erros que contribuíram para impulsionar o bolsonarismo e levar Bolsonaro à Presidência da República? A primeira pergunta não deve ser dispensada. Sozinha, porém, ela bloqueia a possibilidade de construir uma ampla e duradoura aliança em defesa da democracia que não limite diferentes opções eleitorais, mas sirva de barreira de proteção contra o extremismo bolsonarista, agora, depois das eleições e no futuro mandato presidencial, seja quem vier a exercê-lo.

Dessa perspectiva, vejo com bons olhos a movimentação política do candidato do PT desde que recuperou os seus direitos políticos. A aliança com o PSB e outros partidos menores é significativa. Os socialistas atraíram Geraldo Alckmin para ser o vice na chapa de Lula. A vinda do ex-tucano para o partido foi o lance final de uma rodada de filiações que trouxe para o PSB mais três destacados políticos do campo democrático: Flávio Dino, Marcelo Freixo e Alessandro Molon. Esses movimentos, somados à reaproximação de Marina Silva (Rede), são indicações de uma nova possível configuração das forças de centro-esquerda. À falta de uma direita pura e dura, isso não foi possível no passado, quando PT e PSDB eram os partidos dominantes em nível nacional e os estímulos à competição eram mais fortes do que os incentivos à cooperação. Quem sabe agora, com novas forças e (semi) novas lideranças?

A derrota de Bolsonaro é importante também para permitir a reorganização da centro-direita. Nada é mais eloquente do estrago que o atual presidente produziu nesse campo do que o triste fim do DEM, hoje desfigurado e assimilado ao União Brasil. Antes do vagalhão bolsonarista engolfá-lo, o Democratas despontava como o possível polo aglutinador de uma centro-direita liberal com bases nos centros mais desenvolvidos do país. Herdeiro do velho PFL, na origem assentado em esquemas tradicionais da política nordestina, o DEM prometia completar a sua transição do “atraso” ao “moderno”. Também aqui, como é característico na história brasileira, a modernização ficou truncada.

Mais importante do que o dilema eleitoral que alguns sentimos é o desafio comum que todos os democratas têm pela frente. Não é suficiente derrotar Bolsonaro nas urnas e assegurar a posse de quem vier a vencer as eleições. É preciso contribuir para que o próximo seja um governo capaz de superar a herança maldita que receberá do atual. Contribuir não significa adesão acrítica e complacência. Pode-se contribuir fazendo uma oposição leal, ao contrário do que fez o PT durante o governo FHC e o PSDB no segundo governo de Dilma Rousseff.

O país entrará em 2023 com um Estado em más condições de execução de políticas públicas, com órgãos desmantelados, a exemplo do Ibama, ou desestruturados, como o Ministério da Saúde, um orçamento com pouca margem de gasto e capturado secretamente por emendas que retalham programas em pequenas ações locais desarticuladas, sem regra fiscal clara, depois que o atual governo lançou pelos ares o teto de gastos, sem nada colocar no lugar, em um ambiente internacional adverso, devido à combinação de tensões geopolíticas crescentes, pressões inflacionárias e aperto de liquidez – um combo de problemas inter-relacionados que há muito não se via.

Navegar nessas águas exigirá perícia. A nau brasileira está avariada, sem rumo e sem lastro. Com a democracia sob ameaça, não haverá estabilidade política e segurança econômica, e o país poderá naufragar. Evitar o naufrágio requer unidade ampla para afastar a ameaça à democracia. Mas para reencontrar a rota do desenvolvimento, que perdemos ao longo da última década, é necessário mais. Sem uma carta de navegação minimamente comum, voltaremos a enfrentar tempestades e tumulto a bordo. As forças do atual capitão não abandonarão o barco.

Daí a necessidade de construir um programa mínimo comprometido com o estado democrático de direito, a estabilidade macroeconômica, o combate à pobreza e às desigualdades, a preservação e o uso sustentável dos nossos recursos naturais, a começar pelo bioma amazônico. Seria ideal que esse programa mínimo fosse construído na campanha e legitimado nas urnas. Parece pouco provável. Que seja então criado após as eleições, sob a liderança de quem a vencer. Seja quem for, deverá saber que, por maior que for sua vitória eleitoral, ela não lhe será suficiente para governar. Sem um programa claro, que expresse o melhor denominador comum entre as forças democráticas, correrá o risco de se tornar refém do fisiologismo e alvo fácil para uma extrema direita empenhada em deslegitimar desde o início o novo governo.

FONTE

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

INIMIGO PÚBLICO Nº1 DO BRASIL * Leonardo Boff / Jean Marc Von der Weid

INIMIGO PÚBLICO Nº1 DO BRASIL

"Publicamos este texto de Jean Marc von der Weid que se tem distinguido por suas análises profundas, bem pensadas sobre a situação brasileira e sobre as ameaças reais que pesam sobre o destino político de nosso país. O poder central no Brasil é ocupado por um dirigente energúmeno, cercado de assessores inescrupulosos, a maioria militares, que contra a constituição, se metem na política e estão dispostos a apoiar um grande caos social. Este daria ao Inominável que está levando o povo à fome e ao desespero a à esta porção de militares conservadores, reacionários, incultos e ainda reféns de fantasmas que estão apenas em suas cabeças como a ameaça comunista internacional travestida de globalização a uma interrupção de nossa democracia.

O fanatismo criado em seus seguidores, verdadeira seita violenta potencialmente sanguinária, poderá provocar assassinatos e atentados terroristas durante as eleições. Jean Marc nos alerta por esta eventualidade, até a suspensão das eleições e o prolongamento do atual poder já com conotações terroristas. Temos que estar atentos, participar das reações, tomar as ruas em protesto para bloquear este ato de insanidade política. Nunca como antes, o destino de nosso país está em nossas mãos, impedindo a dominação pelo ódio, pela violência (até armada) e pela destruição das bases de uma democracia minimamente representativa dos anseios das grandes maiorias por pão, casa, trabalho,justiça social e educação"

A opinião é de Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor, publicada no seu blog, 16-07-2022.

A seguir, o artigo de Jean Marc von der Weid.

Jean Marc von der Weid, foi presidente da UNE (69/71), fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (1983), ex-membro do CONDRAF/MDA (2004/2016) e militante da Geração 68 Sempre na Luta.

Eis o artigo.

Nos meus tempos de militante da Ação Popular, organização de esquerda que lutou contra a ditadura militar, discutíamos muito quem era o “inimigo principal”, conceito muito usado para orientar as estratégias e táticas a serem empregadas. Havia um debate, muitas vezes estéril, sobre o alvo maior a ser atacado, se os militares no poder ou seu mandante, o imperialismo americano.

Ao risco de cair na esterilidade que critiquei acima vou pôr em debate a aplicação do conceito no quadro político atual. Vamos ver se vai fazer sentido.

Intuitivamente, o alvo maior das forças progressistas atualmente é o energúmeno que preside o nosso triste Brasil, Bolsonaro. O inominável ameaça as eleições, quer pela derrama de dinheiro distribuído para ganhar apoio entre os mais pobres em uma situação de imensa miséria e fome no país, quer pela mais que evidente preparação de um golpe contra as próprias eleições. É a tática que descrevi em um artigo anterior como de “bola ou búlica”.

Analisando o quadro político desenhado nos últimos dias, em particular as votações do Congresso que permitiram a derrama de dinheiro para distribuição eleitoreira, temos que avaliar se a ameaça maior não está no presidente da Câmara, Artur Lira.

Está cada vez mais claro que Bolsonaro entendeu que precisa da colaboração do Congresso para suspender as eleições. Sua tentativa de setembro passado foi um fiasco tamanho que mostrou a fragilidade da sua base de fanáticos, de policiais militares e das próprias forças armadas para gerar o evento político e social de descontrole que justificasse um estado de exceção, com a suspensão da vida democrática. O presidente vem pelejando com sucesso para fortalecer esta base, envolvendo as FFAA no esforço de emparedar o TSE e o STF, trocando comandos para colocar generais mais bem dispostos em relação aos seus arreganhos liberticidas; ampliando a sua militância armada nos Clubes de Tiro; acirrando seus apaniguados nas polícias militares e excitando ao paroxismo seus fanáticos, o que está multiplicando atentados contra os eleitores de Lula e até chegando ao primeiro assassinato político destas eleições. Mas o perigo maior parece estar na facilidade com que Lira atropelou a Constituição, o regimento da Câmara e a legislação eleitoral.

Lira fez votar, até com um mais que suspeito apagão na energia da Câmara, o estado de emergência nacional. Estado de emergência? Ele não foi aventado na votação do Auxílio Brasil, meses atrás, para enfrentar a real emergência da fome que assola já 33 milhões de pessoas em todo o país, sem falar nas outras mais de 90 milhões em estado de insegurança alimentar em graus variados de gravidade. Pensando apenas nos efeitos eleitorais, Bolsonaro propôs e fez aprovar uma distribuição de recursos mal elaborada tanto nos valores como na definição dos beneficiários, resultando em poucos recursos para os mais pobres e acesso a outros menos mal aquinhoados. Quando viu que a derrama não estava dando certo do ponto de vista das intenções de voto, Bolsonaro aumentou a aposta visando aportar mais 200,00 reais para os já inscritos e acrescentando dois milhões de beneficiários.

Soma-se a esta derrama de dinheiro, supostamente para os mais pobres, uma série de outras medidas que arrombam totalmente a lei eleitoral, facilitando a distribuição de recursos do orçamento secreto sem qualquer controle para as bases do Centrão.

O resultado desta operação, que estoura completamente o erário e que prejudica todos os outros setores da administração ao longo deste ano, talvez não garanta a virada de votos que Bolsonaro necessita para ficar competitivo nas eleições de outubro. Entretanto, uma coisa é mais provável: os candidatos à reeleição vinculados ao Centrão vão ter um forte estímulo para garantir seus votos entre os mais pobres. Lira e seus apaniguados ganham, com ou sem a vitória de Bolsonaro. A perspectiva de ser eleito um Congresso ainda mais lamentável do que o atual vai ficando cada dia mais concreta.

Se a derrama de dinheiro não resultar em uma virada de expectativa de votos para Bolsonaro e/ou não garantir a reeleição da maioria fisiológica do Congresso, o que vão fazer Bolsonaro e Lira? Suponhamos que as pesquisas de opinião indiquem em setembro a perspectiva de derrota para estas forças da direita. A alternativa de suspender as eleições e prorrogar todos os mandatos passa a ser a solução.

Votar a derrama para fortalecer uma vitória eleitoral foi fácil para Lira, mas a suspensão das eleições é um passo muito mais grave a ser dado por esta corja. Como já disse em outros artigos, votar um estado de exceção a seco, sem uma situação de tumulto político e social generalizado é bem mais difícil, mas não impossível. Tudo depende da reação da sociedade ao quadro de descalabro que estamos vivendo.

Não acredito em uma reação espontânea da população desesperada pela pobreza e pela fome. Pensei que isto ia acontecer com o horror vivido pelo país durante a pandemia, com uma forte colaboração do governo para que este estado se instalasse. Mas as pessoas morreram sem ar e sem atendimento nas portas e corredores de hospitais repletos. O sofrimento atroz dos enfermos, contados aos milhões e com quase 700 mil mortos, não foi suficiente par promover reações populares. As pessoas sofreram e morreram e seus familiares choraram suas perdas ao som do riso escarninho do presidente. Seus fanáticos arrogantemente desprezaram as medidas de controle da pandemia, deixando de usar máscaras como forma de afirmação da sua adesão ao negacionismo de Bolsonaro e favorecendo a contaminação pelo vírus. O horror não foi suficiente para provocar reações de massa. Não houve manifestação por vacinas, sequer por oxigênio no caso de Manaus. Foi um extremo sofrimento vivido solitariamente por cada família afetada.

Pensei que a fome crescente em uma escalada que acrescenta milhões de novos sofredores mês a mês levaria a uma reação popular com saques a supermercados e feiras. Também nada ocorreu de relevante. Cenas de famintos precipitando-se para pegar restos de frigoríficos, pelanca e ossos, chocaram o país, mas não se multiplicaram. Bolsonaro mostrou-se frustrado com esta falta de reação, indicando que contava com o desespero do sofrimento para gerar o estado de instabilidade social e política que permitisse a adoção de medidas de força pelo executivo.

Este histórico aponta para a improbabilidade de uma convulsão social para a qual não faltam razões objetivas. Neste quadro, como Bolsonaro vai justificar o seu pedido de estado de exceção e a suspensão das eleições?

É aqui que entra em jogo a provocação do bolsonarismo. Uma campanha eivada de ódio, com milhares de extremistas fanáticos armados dispostos a tudo tem toda a possibilidade de gerar uma situação de confronto entre eleitores de Lula e os de Bolsonaro. Por enquanto o energúmeno está só criando o clima de provocações com resultados ainda pontuais embora dramáticos, como o assassinato do militante do PT, Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu. Mas não se pode descartar algo muito mais pesado, em particular atentados com tiros e bombas nos comícios de Lula e dos candidatos progressistas. Isto é muito fácil de fazer. Basta Bolsonaro e/ou seus filhotes darem o sinal para os grupos organizados da extrema direita atacarem.

Outro cenário de enorme perigo é a mobilização destes mesmos grupos para atacarem os comícios da oposição com agressões e pancadaria, com ou sem tiros e bombas. A reação dos apoiadores de Lula levaria à uma intervenção das polícias militares, fiéis bolsonaristas em grande parte, sentando o cacete na massa de oposição. Quanto mais pancadaria, quanto mais gás lacrimogênio, feridos e mortos, melhor para a criação do “clima de instabilidade política”. Este desenho de provocações está mais do que inscrito na estratégia de Bolsonaro e deve ir se aguçando até setembro, sendo que o dia sete está anunciado como o momento do grande confronto. Isto pode ser evitado, neste dia, se a oposição decidir não se manifestar na ocasião e deixar para outro dia seus atos de massa, que não deixarão de acontecer, nem que seja no encerramento da campanha. Mas, se for interessante para Bolsonaro, o confronto existirá, seja qual for o momento escolhido pela oposição para se manifestar.

Ou seja, estamos diante de um processo eleitoral explosivo e cheio de riscos, exacerbado pelo discurso de ódio e pelas provocações dos grupos organizados do bolsonarismo. Sempre com a tática do “bola ou búlica”, se Bolsonaro não conseguir reagir nas pesquisas de opinião ele vai acionar suas “tropas” para culminar a campanha com uma superprovocação às manifestações da oposição. Com um quadro de violência generalizada ele vai pedir ao Lira para votar um estado de exceção e suspender as eleições. Lira sabe que, mesmo se tiver uma base ampliada do Centrão no Congresso, um governo Lula não vai facilitar a sua vida. Com Bolsonaro ele sabe que o estado atual das relações com o executivo vai se prolongar e a dependência do energúmeno em relação ao seu aliado parlamentar vai, se possível, aumentar. É claro que o risco existe, para Lira, do energúmeno achar que o estado exceção poderá dispensar este apoio do Congresso. Se for o caso, Bolsonaro vai ter que dar mais um passo na direção do golpe explícito, para dominar o legislativo como os generais da ditadura o fizeram ao longo de 21 anos.

E o que fazer para enfrentar estes riscos enormes? Defendo que os candidatos contra Bolsonaro busquem um acordo republicano pela defesa das eleições, do TSE, das urnas eletrônicas e da posse dos eleitos. E que se busque um acordo de todos os partidos não bolsonaristas no Congresso afirmando o mesmo princípio. E que partidos e sociedade civil se organizem e se manifestem da mais ampla forma contra a violência nas eleições e pelo respeito às urnas e seus resultados. Entidades de todas as classes devem ser convocadas a se manifestarem neste sentido, cobrando, sobretudo das patronais, uma posição pela democracia.

Fica a questão de a oposição ir ou não ir às ruas durante a campanha. Uma tática mais defensiva, evitando dar ocasião para as provocações do bolsonarismo, parece a mais prudente e razoável. Entretanto, ceder as ruas para as manifestações de Bolsonaro vai acuar a oposição na campanha e não garante evitar os confrontos. Não podemos excluir uma operação terrorista do bolsonarismo no próprio dia da eleição, com sabotagem da rede elétrica (seguindo o modelito de Lira na votação da PEC) nos locais onde haja uma clara probabilidade de uma votação forte para Lula. Ou com atentados a bomba nestes mesmos locais. Ou agressões a eleitores lulistas por bandos de provocadores com o beneplácito das polícias militares. Multiplique isto por todo o país e teremos o pretexto para o estado de exceção. A sabotagem dos TREs e do TSE no dia da eleição teria o mesmo efeito.

Por todos estes argumentos continuo achando que teremos que correr o risco dos enfrentamentos de rua, em paralelo com a campanha pela paz nas eleições e esperar que esta combinação empurre o eleitorado contra o energúmeno e a derrota seja de tal ordem que iniba o Congresso a aceitar melar o jogo.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Do Movimento UFF Democrática à comunidade acadêmica * MUDE UFF

 Do Movimento UFF Democrática à comunidade acadêmica

O Movimento UFF Democrática - MUD

agradece pelo apoio de tantas e tantos companheiras e companheiros que se empenharam, com ideias e ações, na campanha para a reitoria da UFF, impulsionando a Chapa 2 - Madeira-Wladimir.  


Agradecemos também pelos votos de 2.993 estudantes, 434 docentes e 685 técnicos-administrativos que nos confiaram suas esperanças de uma Universidade democrática, pública, gratuita, laica e socialmente referenciada – orientações fundamentais da Chapa 2. 


Continuaremos leais a esses princípios, defendendo-os em todos os espaços da Universidade e os entendendo como associados às lutas gerais pela democracia, pela justiça social/racial e pelos direitos dos trabalhadores, dos pretos e pretas, dos favelados dos indígenas, das pessoas LGBTQIA+, das mulheres e de todas, todos e todes que construíram e constroem o Brasil e de algum modo são excluídos e discriminados. De nossa parte, seguiremos na luta para transformar a universidade pública em um espaço verdadeiramente popular, a serviço dos trabalhadores, dos mais necessitados e dos que hoje se encontram nas periferias. 


Quanto ao segundo turno dessas eleições, nossa posição é de não alinhamento com qualquer das candidaturas em disputa. 


No entanto, reconhecemos o resultado e o interpretamos como um estágio do desenvolvimento da democracia na Universidade brasileira.


Mais: 1. Consideramos legítimos e respeitamos os posicionamentos diferentes, relativos ao segundo turno, dos coletivos independentes que nos acompanharam nessa campanha; 2. chamamos, a eles e a todas, todos e todes que estiveram conosco, a, em suas decisões, levarem em conta o compromisso com nossas propostas - que sintetizamos abaixo - e o histórico que têm esses candidatos em disputa. 


Relembrando, propomos principalmente: 


Reafirmar a defesa da autonomia universitária e da gratuidade da UFF, revendo as práticas privatistas na universidade.


Constituir, por via de eleição direta da comunidade, nova Estatuinte, introduzindo principalmente elementos de democracia interna em todas as instâncias, assim como a reforma do Regimento Geral de Consultas Eleitorais (RGCE).


Criar mecanismos de transparência e participação realmente democrática que envolvam docentes, técnicos-administrativos e discentes no orçamento da Universidade.


Criação de um compromisso com os direitos e a dignidade dos terceirizados como membros importantes de nossa comunidade acadêmica, lutando contra a precarização de seu trabalho.


Reestruturar a Comissão Permanente de Pessoal Docente (CPPD), priorizando a transparência, a simplificação de procedimentos e a celeridade. 


Atender às reivindicações do segmento técnico-administrativo nos seus direitos históricos: jornada de 30 horas, fim do ponto biométrico e a defesa do reposicionamento dos aposentados, entre outras pautas expressas na carta programática apresentada pelo SINTUFF.


Garantir a isonomia dos Coordenadores de Curso, com seus respectivos FGs.


Prover os cursos novos, especialmente os de fora da sede, mas também os localizados em Niterói, de docentes, apoio administrativo e demais recursos adequados à qualidade das finalidades de ensino, pesquisa e extensão.


Impulsionar o processo de eleição direta para a direção do HUAP e restaurar a sua condição de Hospital-Escola autárquico, rompendo o contrato com a EBSERH, destacando o descumprimento de cláusulas contratuais e a perda da função social e educativa do Hospital.


Desenvolver Políticas de Assistência e Estudantil, elaboradas com os estudantes, por meio de suas representações, garantindo a gratuidade do ensino em todos os níveis e o pleno apoio à permanência, com atenção especial aos estudantes cotistas, com bolsas automáticas, a exemplo do que já ocorre em outras universidades.


Desenvolver uma política de extensão em articulação com o ensino e a pesquisa e comprometida com a formação profissional na universidade, recuperando o seu caráter dialógico com a sociedade. Para isso, deve ser incentivada e fortalecida como um dos eixos de formação, com a ampliação do número de bolsas e com condições materiais para o desenvolvimento de suas ações.


Aplicar critérios transparentes e democráticos à distribuição de recursos e vagas de concursos para todas as unidades, eliminando as práticas de clientelismo político vigentes e atento às situações mais graves dos cursos novos e do interior.


Reconstruir os padrões de respeito e diálogo das autoridades administrativas com os 3 segmentos e entre esses. 


A luta do MUD e de democratas e progressistas, não importam os matizes, continuará em busca desses valores e dessas mudanças, na UFF.


Finalmente, cumpre dizer que a vigente gestão da UFF (Chapa 1) deu continuidade à política inaugurada há 16 anos e desenvolvida, em 8 anos de mandato, por seu atual adversário (Chapa 3), razão porque, ao longo da campanha, dissemos que se tratavam de duas faces da mesma moeda, um lamentável continuísmo. Mas é da presente gestão (Chapa 1) que devemos cobrar a imediata reparação dos danos provocados, seja porque esses danos aumentaram, seja porque, perdendo ou ganhando, ela ainda permanecerá por 4 meses. Essa reparação imediata diz respeito principalmente ao assédio moral institucional sofrido por docentes e técnicos-administrativos, acentuadamente estes últimos, como também à omissão em face das necessidades de acolhimento e permanência dos estudantes. 


Qualquer que seja a chapa vencedora, que sejam respeitadas as escolhas democráticas de todas, todos e todes que fizeram a campanha da Chapa 2, sem que sofram perseguições ou assédio moral, considerando a autonomia universitária e a liberdade de manifestação na UFF.


Enfim, é quando se aplica perfeitamente a palavra de ordem: A luta continua! Pela UFF que queremos, estamos e seguiremos juntos!


Movimento UFF Democrática                         Junho de 2022.

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segunda-feira, 6 de junho de 2022

DERROTAR O NAZISMO AQUI OU NA COLÔMBIA É UMA LUTA SÓ * Revista Ópera

DERROTAR O NAZISMO AQUI OU NA COLÔMBIA É UMA LUTA SÓ
Colômbia: na periferia de Bogotá, jovens disputam “até último voto” contra direita.

Lideranças de Ciudad Bolívar, bairro mais pobre da capital da Colômbia, trabalham para reverter abstenções: “Quatro anos com uma figura como Hernández, teremos uma guerra terrível”. 

Por Vanessa Martina Silva, Felipe Bianchi, Leonardo Wexell Severo e Caio Teixeira
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