Mostrando postagens com marcador Carlos Santana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carlos Santana. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

O ESCÂNDALO DAS AMERICANAS * Carlos Santana.RJ

O ESCÂNDALO DAS AMERICANAS

A crise das Lojas Americanas e a oportunidade para mobilização popular, em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras.

Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 2023


O ano de 2023 iniciou com diversos acontecimentos que tornaram longevo o mês de janeiro. E entre os fatos que assolaram os noticiários nacionais está o rombo de R$ 43 bilhões anunciado pelos executivos das Lojas Americanas, que criou uma atmosfera de pânico não apenas no mercado financeiro, mas também na grande massa de trabalhadores e trabalhadoras da empresa; o futuro de mais de 44 mil pessoas está sob as incertezas geradas pela crise.

Importante observarmos que o movimento sindical se prepara para um ato organizado na primeira sexta-feira de fevereiro, dia 3, quando as Centrais Sindicais, entre elas a CUT, decidiram se reunir em frente à sede da empresa, no Rio de Janeiro, em defesa dos empregos que podem ser perdidos.

Acredito que, para além das questões sindicais, essa luta precisa ser ampla, congregando outros setores da sociedade organizada. Quando observamos que o terceiro mandato de Lula abre as portas para um novo momento do sindicalismo no Brasil, temos aí a oportunidade de construir articulações com os diversos movimentos que se fortaleceram nas lutas dessa última década nefasta de entreguismo, subserviência ao capital estrangeiro e desmonte do Estado nacional, além dos incessantes ataques aos direitos sociais e trabalhistas.

Com isso, afirmo ser de destacada importância passarmos diante dessa mobilização em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras das Lojas Americanas não apenas com frentes sindicais, mas convocando os movimentos e coletivos das lutas raciais, de estudantes, das mulheres, por moradia popular, entre outros, além de uma ampla coalizão partidária progressista.

Temos exemplos em nossa história de grandes empresas e seus presidentes milionários que se articulam com seus iguais para reduzir a participação do Estado nas políticas de bem-estar do cidadão, mas diante de crises como essa, que abalam seus caixas, o Estado é o primeiro refúgio onde vão buscar ajuda para que não percam seus negócios. É o que ocorre com a Americanas.

Porém, precisamos reivindicar, fortalecidos com essa ampla frente de movimentos sindicais, movimentos sociais e partidos progressistas, que haja compensação, no sentido de que para que a empresa seja amparada pelo governo, nossos companheiros e nossas companheiras que trabalham em suas filiais tenham seus empregos garantidos! O Estado não pode mais servir de bote salva-vidas para grandes empresas que tudo querem ganhar e nada querem ceder.

Pela frente ampla, em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras das Lojas Americanas, façamos nossas articulações, convocando todos os demais movimentos sociais e partidos progressistas a se juntarem nessa causa!

Carlos Santana

Ex-deputado federal por cinco mandatos pelo PT-RJ; Presidente do Sindicato dos Ferroviários da Central do Brasil; Presidente estadual da CUT-RJ; Professor universitário; Doutor em História pela UFRJ e Bacharel em Direito.
*

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Novos tempos para o sindicalismo brasileiro * Carlos Santana - RJ

Novos tempos para o sindicalismo brasileiro
Carlos Santana - RJ
Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2023


Ouvimos neste último dia 18 a proposta do presidente Lula sobre uma nova estrutura sindical. Em reunião com a presença do ministro do Trabalho e representantes sindicalistas, nosso presidente prometeu mudanças na economia e no Imposto de Renda, além de receber demandas de setores sindicais sobre o salário mínimo. Tendo parte de minha vida dedicada à luta sindical, posso afirmar que recebi com muita esperança esses sinais de que estamos diante de novos tempos para os sindicatos de nosso país.

O período entre 2013 e 2022 é de suma importância para entendermos a necessidade de estarmos atentos às propostas de reestruturação no mundo do trabalho e seus movimentos de defesa aos direitos trabalhistas adquiridos ao longo de décadas de lutas dos trabalhadores organizados. Dentro desta década, passamos por um processo de intensos ataques ao Estado nacional através da criminalização da política e dos partidos de esquerda. Através das fissuras causadas no tecido social nestes tempos, passamos a conviver com a ascensão da extrema-direita e suas investidas sobre as pautas sociais. Destaco neste processo o evidente conluio entre grandes corporações empresariais e a grande mídia nacional, reunidas para fortalecer a Operação Lava Jato, o impeachment da presidente Dilma Rousseff e as propostas reformistas, que destruíram os alicerces sindicais de nosso país.

É importante falarmos o quanto a vitória de Jair Bolsonaro em 2018 é produto direto e final de toda a caminhada de desestabilização social e política nessa década arrasadora para a nossa história. Entretanto, passados os episódios de embate de narrativas, derrotamos Bolsonaro nas urnas, mas a ideia ainda continua viva. É de suma importância, com isso, sabermos guiar os rumos deste novo e promissor momento para nossos sindicatos.

Façamos um exercício estratégico ancorado nesta nossa nova realidade mundial. Assim como o mundo do trabalho exige que façamos a constante autocrítica sobre nossos posicionamentos, o movimento sindical precisa estar atento aos avanços de outros movimentos sociais e apostar em um amplo diálogo. Não podemos ignorar, por exemplo, avanços nas pautas dos movimentos negros, femininos, de juventude, de gênero e outros mais. Além disso, é urgente estarmos atentos às novas tecnologias de comunicação e interação; o mundo digital já é mais do que uma realidade em nossos dias. Como vamos nos posicionar diante deste fato social, o qual nossas vidas passam também pelos aplicativos de celulares?

Com o avançar dessas novas ideias intimamente ligadas às realidades digitais, avançou sobre o corpo social os discursos do empreendedorismo que abraçaram a realidade de muitos trabalhadores e trabalhadoras que se viram desamparadas diante do desmonte causado pelas reformas neoliberais. A ideia de que o Estado e os movimentos organizados em nada contribuíram ou contribuem para manutenção de direitos e do bem-estar foi amplamente vendida para a grande massa de compatriotas que se lançaram às incertezas de trabalhos que antes deveriam ser paliativos, mas se tornaram rotineiros, passando a ser o único sustento de famílias.

O estrago causado pela ideologia do “faça você mesmo” nos levou à “uberização” do trabalho. Quantos jovens sequer conhecem os benefícios dados pela legislação trabalhista e que repetem discursos negativos sobre o Fundo de Garantia e a previdência?

Estejamos alertas para nossa nova realidade! É necessário não perdermos o bonde da História! Avançamos alguns passos quando, por exemplo, voltamos a ter um Ministério do Trabalho, instituição histórica nesta luta dos trabalhadores. Agora, não podemos deixar de ampliar nossas frentes junto aos movimentos que estão, passo a passo, fazendo avanços e recuos, ganhando e cedendo espaços para contar vitórias expressivas nesta conjuntura que se desenha sobre esperanças para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil.

Vamos juntos e juntas, companheiros e companheiras, caminhar sobre as estradas desses novos tempos para o sindicalismo brasileiro!

Carlos Santana

Ex-deputado federal por cinco mandatos pelo PT-RJ; Presidente do Sindicato dos Ferroviários da Central do Brasil; Presidente estadual da CUT-RJ; Professor universitário; Doutor em História pela UFRJ e Bacharel em Direito.
*

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

FRENTE AMPLA CARIOCA CONTRA O FASCISMO * Carlos Santana / RJ

FRENTE AMPLA CARIOCA CONTRA O FASCISMO
Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 2023


Passada uma semana dos ataques terroristas protagonizados por bolsonaristas sobre os Três Poderes da República, recebemos com muita animação e esperança a notícia da decisão do diretório municipal do PT na cidade do Rio de Janeiro de compor quadros da gestão do prefeito Eduardo Paes.

Refletindo exemplos históricos, como as formações de frentes contra o nazisfascimo durante e depois da Segunda Guerra Mundial, ou como a ampla composição política e partidária democrática para estruturar a redemocratização no Brasil para dar fim à ditadura militar, a abertura de espaços para o Partido dos Trabalhadores junto a Eduardo Paes sintetiza um amadurecimento político e do senso de urgência para manutenção do enfrentamento ao bolsonarismo em nossa cidade, berço desse movimento.

Importante lembrarmos do papel fundamental que teve o prefeito Eduardo Paes na campanha presidencial que levou Lula à vitória. Paes, que pela terceira vez é chefe do executivo da segunda maior cidade do Brasil, colocou à disposição de nosso presidente todo seu conhecimento administrativo e habilidade política para que o palanque carioca de Lula não sucumbisse à avalanche de seguidores e seguidoras de Bolsonaro no município.

Levamos Lula no coração da Zona Oeste, a região mais populosa da cidade, assim como fizemos questão de termos Lula no Complexo do Alemão, em encontro com a população e produtores de cultura locais. Um importante movimento nos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro com grande peso social e simbólico que deixou enfatizado não só importância das regiões suburbanas, mas também os rumos pelos quais as políticas públicas do terceiro mandato presidencial de Lula caminhariam.

A indicação de quadros de nosso partido ao secretariado da prefeitura do Rio é a oportunidade de fortalecermos o enfrentamento aos focos bolsonaristas que se mantêm acesos, prestes a causarem incêndios, quando animados. Vamos lembrar que, mesmo com a iminência da inelegibilidade de Jair Bolsonaro, estamos diante da gestação de novos nomes para herdar seus espólios políticos para as eleições municipais que se aproximam. Com a possibilidade de um de seus filhos como concorrente à prefeitura do Rio em 2024, o alerta de nossa vigilância militante ainda precisa permanecer ligado.

Tomar o Rio com nossas ideias através de políticas públicas objetivas e eficientes que poderão ser elaboradas e colocadas em práticas nos espaços dados ao PT na prefeitura carioca é a prioridade dessa nossa adesão ao grupo de Eduardo Paes. Estamos certos de que com sua habilidade e peso político no estado do RJ e prestígio junto a Lula, teremos as melhores e mais eficientes ferramentas para não permitirmos mais o florescimento de ideias fascistas, autoritárias e retrógradas em nossa querida cidade!


Carlos Santana

Ex-deputado federal por cinco mandatos pelo PT-RJ; Presidente do Sindicato dos Ferroviários da Central do Brasil; Presidente estadual da CUT-RJ; Professor universitário; Doutor em História pela UFRJ e Bacharel em Direito.
***

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

RESPEITO ÀS NOSSAS RAÍZES AFRICANAS * Carlos Santana - RJ

RESPEITO ÀS NOSSAS RAÍZES AFRICANAS

sanção do PL 7.428/2010: vitória e legado de nossas matrizes e nações de África no Brasil!

Rio de Janeiro, 8 de janeiro de 2023

Em meus vinte anos de atuação no Congresso Nacional, defendi os interesses da classe trabalhadora. Minhas origens na luta sindical resultaram em cinco mandatos consecutivos, período em que me dediquei a este objetivo. E foi ao longo dessa caminhada que foram incorporadas outras bandeiras que naturalmente surgiram por esta estrada. Dentre elas, a urgência requerida pelas vozes de movimentos e lutas da sociedade civil organizada na busca pelas reparações históricas ao povo negro de nosso país.

Exemplos e representações, para mim, não faltavam: basta lembrarmos da importância dos nomes de Abdias do Nascimento, que também foi deputado e senador pelo PDT, e de Benedita da Silva, primeira vereadora negra da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, ex-senadora e ex-governadora do estado do RJ, atualmente exercendo mandato de deputada federal pelo PT.

Através deste direcionamento, procuramos canalizar no parlamento as demandas da pauta racial em duas linhas de atuação: a primeira, voltada à reparação histórica do povo negro através da Educação, promovendo o debate das cotas raciais no ensino médio e superior nas instruções públicas federais; a segunda, tendo relação direta e irrestrita em defesa das religiões de Matrizes Africanas.

Prontamente dispostos a entrar na luta pela defesa destas religiões, entendemos que os obstáculos seriam imensos. Basta atentarmos aos diversos casos e denúncias que surgem nos noticiários e nas redes sociais, expondo casos de perseguições e agressões a filhos e filhas de santo, babalorixás e yalorixás, invasão de terreiros e barracões, destruição de objetos ritualísticos e sagrados, depredação de altares e assentamentos, dentre outros crimes praticados.

No início do ano de 2010, protocolei no Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 7.428 com objetivo de instituir o Dia Nacional das Tradições das Raízes Africanas e Nações do Candomblé, demanda originada nas reivindicações de grupos ligados às religiões de matrizes africanas. Por não ter sido eleito para um sexto mandato, o referido PL foi arquivado, como manda o regimento interno da Câmara.

Entretanto, no ano de 2015, em diálogo com o então deputado federal Vicente de Paula da Silva, o Vicentinho, concordei que ele retomasse o Projeto de Lei. Diante de seu pedido, de imediato dei permissão para que ele retomasse o fio dessa demanda e, assim, poder trazer de volta à luz nosso Projeto.

Muito me orgulha saber que depois de quase 13 anos de iniciarmos essa luta podemos, enfim, contar em definitivo com uma data nacional para comemorarmos o Dia Nacional das Tradições das Raízes Africanas e Nações do Candomblé. Uma batalha vencida nesta guerra recorrente de combate ao racismo em suas várias faces de depreciação e tentativa de apagamento de nossa história.

Sabemos o quanto essa vitória tem um peso para os praticantes das várias religiões de Matrizes Africanas. E diante dela, lembramos a afirmação de Alberto Guerreiro Ramos, quando disse que a chave para o desenvolvimento de um país como o Brasil é essencialmente político. Portanto, ocuparmos, enquanto negros e negras brasileiros e brasileiras, os espaços de poder, deixando legados e propondo reparações políticas de nossas heranças e que transformam o social, deve ser o combustível de nossa luta diária.

Assim, reconhecida de nossas raízes religiosas africanas, tomamos ciência de que, com essa Lei sancionada pelo presidente Lula, nossa luta se fortalecerá cada vez mais. E, enfim, manteremos vivas nossas heranças tão bem propagadas e protegidas pelos nossos ancestrais e mantidas até hoje pelas casas de Axé.

Carlos Santana.RJ

Ex-deputado federal por cinco mandatos pelo PT-RJ; Presidente do Sindicato dos Ferroviários da Central do Brasil; Presidente estadual da CUT-RJ; Professor universitário; Doutor em História pela UFRJ e Bacharel em Direito.
&
DEPUTADO VICENTINHO
&
MINISTRO SILVIO ALMEIDA
PELÉ E JAIR RODRIGUES
ÁFRICA

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Pelé: uma representação além do futebol * Carlos Santana - RJ

 Pelé: uma representação além do futebol

Rio de Janeiro, 30 de dezembro 2022


O ano de 2022 termina não só com o fim do processo de destruição do Brasil sob o governo de Bolsonaro, mas também com a perda física do nosso Rei do Futebol: Pelé, aos 82 anos, nos deixou no dia 29 de dezembro. Falamos de sua ausência física pois sabemos que seu nome e sua presença ultrapassam as questões materiais, uma vez que Pelé ultrapassou as barreiras do esporte, e como maior atleta do século XX fez do Brasil um país reconhecido internacionalmente.


Às portas do ano que se inicia, também teremos o retorno de Lula à nossa presidência. Ter em tão curto espaço de tempo a perda de Pelé e a posse de Lula nos leva a se envolver em questões fundamentais para reflexão a respeito de nosso povo brasileiro. É porque Pelé sintetiza a luta de um povo em sua busca por reparações históricas a partir de um esporte que no Brasil, nos primeiros anos do século XX, era apenas praticado por uma elite econômica e burguesa nas principais cidades do país. 


Ao levarmos em consideração as conquistas do Rei com a bola nos pés, abrimos nossos olhos para as referências do movimento de luta contra o racismo no Brasil ao longo dos anos que se sucederam após a Abolição. Logo o futebol, que viu brotar no ano de 1904 em Bangu, um bairro operário da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, o Bangu Athletic Club - assim mesmo, escrito em inglês por conta de sua diretoria ser parte britânica -, um clube de operários da fábrica de tecidos local e que, conta a história, foi palco não só da primeira partida de futebol no país e da chegada da primeira bola, como também foi o primeiro time da modalidade a ter em seu elenco um homem negro. 


Ainda nos subúrbios cariocas também vimos o Vasco da Gama, em 1923,  levar o campeonato carioca daquele ano, tendo em seu esquadrão jogadores negros. Times das elites cariocas, como América, Flamengo, Fluminense e Botafogo, que jogavam apenas com jogadores brancos, sucumbiram diante dos Camisas Negras. Fizeram história e tornaram-se referência para além dos gramados em um momento em que a questão racial no Brasil ainda era fortemente marcada pelos preconceitos e estereótipos herdados dos mais de três séculos de escravidão.


A morte de Pelé cai sobre nossas vidas em um momento importantíssimo para as políticas raciais no Brasil. Em 2023 será debatida a prorrogação da Lei de Cotas nas universidades do país, tendo como proposta sua ampliação da aplicação para mais 50 anos. Por isso, a importância de refletirmos da representatividade de Pelé ao pensarmos a reconstrução de nosso país após essa temporada de desmonte, uma vez que temos ciência de toda sua importância até mesmo a nível diplomático.

O único jogador de futebol a conquistar três títulos mundiais com a seleção de seu país é um homem negro, vindo do interior de Minas Gerais. Pelé é a personalidade mais conhecida do mundo quando falamos de Brasil. Interrompeu, em 1969, uma guerra civil  na África, destacando a importância de sua representação também para a população negra mundial. Sendo assim, podemos afirmar que Pelé junta-se a outras figuras brasileiras que têm papel fundamental na construção do Brasil moderno, em especial após a Segunda Guerra Mundial.


Diante deste processo de conquistas dentro e fora do mundo do esporte, Pelé está ao lado de figuras nacionais que atuaram em outras áreas. Não podemos deixar de cruzar sua pessoa com outras tantas erefrências de personalidades negras que também construiram as estradas da luta antirracista em nosso país, como Abdias do Nascimento e sua luta política pela libertação de presos políticos do Estado Novo, além de sua contribuição artística; Caó, cujo principal resultado de sua luta política foi ter incluído na Constituição de 1988 o racismo como crime inafiançável e imprescritível; Lélia Gonzales e seus estudos sobre a cultura negra no Brasil e sua participação na fundação no Movimento Negro Unificado; Benedita da Silva, a primeira senadora negra do Brasil e primeira vereadora negra da cidade do Rio de Janeiro; Milton Santos e sua contribuição à Geografia mundial, sendo a primeira personalidade de fora do mundo anglo-saxão e o primeiro brasileiro a receber o Nobel de Geografia; Conceição Evaristo e sua influência na Literatura pós-modernista; coronel Nazareth Cerqueira e sua política de segurança comunitária, repensando o papel da Polícia Militar no RJ; Marielle Franco, assassinada por impor sua voz contra as desigualdades sociais enquanto vereadora no Rio.


A lista de nomes e referências na luta contra as estruturas racistas no Brasil é grande. A representatividade das lutas de liberatação do povo negro no Brasil atravessam a histórica luta de Zumbi e desemboca em Anielle Franco e Silvio Almeida. Pelé, entre essas diferentes personalidades, é referência para jogadores também negros ao redor do mundo, e que brilharam ou ainda brilham e suas atividades. Não podemos esquecer de nomes do futebol, como Adriano Imperador que, mesmo tendo reconhecimento mundial, jamais esqueceu suas origens na Vila Cruzeiro; e Kilyan Mbappé, o segundo jogador mais jovem a conquistar uma Copa do Mundo com a seleção de seu país, em 2018, e que lamentou demais a partida de seu ídolo de referência. 


Nosso Rei, que nasceu Edson e se imortalizou Pelé, fez a seleção brasileira ser referência de pluralidade racial. O único monarca reconhecido por outros monarcas e repúblicas; um rei do povo, da ginga, do sangue bantu que ergueu um país. O maior de todos os tempos discursou para um Maracanã lotado que assistiu ao seu milésimo gol e nos deixou uma mensagem inspiradora, que dizia:  “Pelo amor de Deus, o povo brasileiro não pode esquecer das criancinhas, as criancinhas pobres”. Pelé, que sintetizava na cor de sua pele a história das raízes de nosso país, com seu jogo reinventou o futebol e descortinou o Brasil para outras nações. Foi diplomata de chuteiras, tendo sua imagem a marca da brasilidade; trajando o manto canarinho e fazendo história no Santos, tornou-se lendário.


Sua imortalidade estará presente na luta diária pela reparação histórica do povo negro no Brasil e no mundo. Teremos a oportunidade de retomar os debates de forma séria sobre a construção de uma verdadeira agenda antirracista atrelada aos novos tempos, durante o novo governo de Lula. Assim, podemos ter a certeza que seremos ouvidos para que em cada rua deste país, em cada subúrbio, periferia e favela do Brasil tenhamos o Rei como inspiração presente na vida de nossas crianças, jovens e adultos.



Carlos Santana 

Ex-deputado federal por cinco mandatos pelo PT-RJ; Presidente do Sindicato dos Ferroviários da Central do Brasil; Presidente estadual da CUT-RJ; Professor universitário; Doutor em História pela UFRJ e Bacharel em Direito.

*

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

OS TRILHOS DO ABSURDO DIÁRIO * Carlos Santana - RJ

OS TRILHOS DO ABSURDO DIÁRIO

Rio de Janeiro, dezembro 2022


Não há outra forma de iniciar esse texto que não seja dizendo o quanto é impossível não ficar extremamente indignado ao ver a situação pela qual passam os usuários dos trens urbanos do RJ. É a expressão máxima do ataque direto à dignidade e cidadania do cidadão e da cidadã carioca e fluminense.


Parecem notícias repetidas, mas não são: todos os dias os jornais locais mostram que os serviços prestados pela concessionária Supervia humilham centenas de milhares de pessoas que dependem dos trens para virem das localidades mais distantes do Centro da cidade do Rio de Janeiro para iniciar sua rotina de trabalho nos primeiros horários. Trens sucateados, trilhos defasados, cabos que constantemente são roubados e horários que não se cumprem são as formas que a empresa tem de assaltar o trabalhador, levando sua saúde física e psicológica.


O problema se acentua quando temos uma agência reguladora que na maior parte do tempo come na mão dos empresários e acionistas, pouco se importando com a população. E mais: uma imprensa que pouco destaque dá à CPI que finalizou seus trabalhos de investigação sobre os problemas do serviço ferroviário de passageiros com seu relatório aprovado complementa o caos ao qual estão entregues as vidas de homens e mulheres das zonas norte e oeste da capital e também da Baixada Fluminense. Absurdo total!


A concessionária Supervia conseguiu dos cofres públicos que, até o fim de 2022, fossem oferecidos mais de R$ 250 milhões para, segundo ela, cobrir seus prejuízos decorrentes da baixa de usuários durante a pandemia, ameaçando deixar de ofertar o serviço por falta de verba. De praxe, a extorsão dos poder público vindo de grandes empresas concessionárias faz do Estado fonte de recursos a serem sugados quando existem os prejuízos, sem a contrapartida correta de boa prestação de atividade e manutenção de sua qualidade.


Com argumento de que a iniciativa privada supostamente é mais eficiente do que a administração pública, serviços essenciais são sucateados em um processo degradante de suas estruturas para que possam ser vendidos a preço de banana. Caso emblemático e recente, a Cedae virou alvo desse processo e sua venda passou a ser utilizada também como capital eleitoral, de diversas formas. Outro processo de entrega das estruturas públicas à iniciativa privada é o caso do metrô de Belo Horizonte, arrematado por quase R$ 26 milhões por uma única empresa.


É preciso dar um basta nesse vilipêndio, que se inicia com os preços absurdos das passagens dos trens e chega no péssimo serviço prestado, a ponto de a população se revoltar e ser tratada como vândala por querer dignidade. É necessário igualmente que o Estado deixe de ser refém de grandes empresas que usam querem usufruir das estruturas construídas com dinheiro público, mas não querer arcar com os prejuízos das manutenções e com o cumprimento de contratos


Nesse meio, a população é violentada de todas as formas, em seu corpo, sua mente e seu bolso. Cobramos de forma insistente posicionamento enérgico dos deputados e deputadas que participaram da CPI dos trens do RJ, para que cumpram seu dever e, se necessário, lutem até as últimas consequências pela encampação de nossos trens.


A violência diária pela qual passa o trabalhador e a trabalhadora precisa ter fim!  


Carlos Santana 

Ex-deputado federal por cinco mandatos pelo PT-RJ; Presidente do Sindicato dos Ferroviários da Central do Brasil; Presidente estadual da CUT-RJ; Professor universitário; Doutor em História pela UFRJ e Bacharel em Direito. 

*