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sábado, 1 de novembro de 2025

Dependente e ocupado ideologicamente, o Brasil resiste * Roberto Amaral/SP

Dependente e ocupado ideologicamente, o Brasil resiste
Roberto Amaral*

“Onde o poder público descuidou da integridade física dos mais pobres, o regime democrático não passa de uma fachada de papelão esburacada por tiros, chamuscada por pólvora queimada e borrifada de sangue.”
— Eugênio Bucci, O Estado de SP, 30/10/2025


Nascemos como mera feitoria, ponto de apoio para naus sedentas de água, remanso de piratas e aventureiros. Na Colônia, sem povo, nosso destino foi traçado como economia primário-exportadora fundada na escravidão de negros e indígenas, a serviço das demandas do consumo europeu, via Lisboa — a metrópole decadente, salvando-se como entreposto de nosso comércio: pau-brasil, açúcar, minérios, algodão, carne, café... — que exportávamos, e de entrada do que necessitávamos, que era quase tudo.

Essa economia e esse comércio estabeleciam as bases da aliança do latifúndio e da incipiente burguesia comercial (que incluía os comerciantes, os traficantes de gente e os contrabandistas, de um modo geral) com a Coroa portuguesa e seus primeiros agentes — exatores do fisco, militares e o clero. Eram as raízes de uma estranha nação sem povo e, assim, sem projeto.

No Império, exportávamos mão de obra escrava (sob a forma de açúcar, minérios etc.) e tudo importávamos, como reclamava Joaquim Nabuco ainda no Segundo Reinado:
“[...] o Brasil é uma nação que importa tudo: a carne-seca e o milho do Rio da Prata, o arroz da Índia, o bacalhau da Noruega, o azeite de Portugal, o trigo de Baltimore, a manteiga da França, as velas da Alemanha, os tecidos de Manchester, e tudo o mais, exceto exclusivamente os gêneros de imediata deterioração. A importação representa assim as necessidades materiais da população toda, ao passo que a exportação representa, como já vimos, o trabalho apenas de uma classe.” (Discurso no Senado, 1884)
Esqueceu-se de dizer que importávamos também ideologia.

Sobre a mão de obra escrava se estabeleciam a economia e a política do Império, quando — é ainda a voz de Nabuco — “o espírito comercial e industrial do país parecia resumir-se na importação e na venda de africanos”, prenunciando o atraso relativo que se acentuaria nos dois séculos imediatos.

A preeminência dos interesses agrários, conservadores do statu quo, sobre o desenvolvimento das demais forças produtivas — o comércio e a indústria — sobreviverá na Primeira República: um longo pacto que assegurará os interesses da lavoura.

No nascimento da República, o Brasil era ainda uma feitoria colonial. Rui Barbosa, seu primeiro ministro da Fazenda, atualizaria as palavras do grande tribuno do Segundo Império:
“Sem indústrias manufatureiras, [o Brasil] é exportador só de produtos da lavoura e matérias-primas, que recebe depois, em produtos fabricados, pelo duplo do seu valor. É exportador de moeda, não só porque tem de pagar juros da grande dívida externa e de capitais estrangeiros empregados aqui, como também porque supre as grandes despesas dos nossos compatriotas que vivem na Europa, ou por lá passeiam exibindo sua ociosidade, nenhuma compensação nos vindo desses fatos, porque os estrangeiros não procuram o Brasil para consumir suas rendas; ao contrário, por dolorosa experiência sabemos quanto nos custa o seu capital empregado aqui.” (Relatório de 1891)

No século XX, exportávamos mão de obra sobre explorada na forma de commodities. No século XXI, ainda economia periférica, prosseguimos no mesmo destino e na mesma dependência, cumprindo o papel de supridores do centro hegemônico com alimentos (que faltam à mesa de nosso povo), minérios in natura e commodities, e importadores de tecnologia, ciência e conhecimento — além de ideologia.

Nossa classe dominante, colonizada, reproduz os valores e os interesses do colonizador. Exportamos minério de ferro e importamos lingotes. Exportamos soja e proteína animal, enquanto importamos valores, hábitos e tecnologia.

A modernização se dá naqueles setores necessários à produção de matérias-primas de baixo custo para o consumo dos países desenvolvidos — o motor da expansão do agronegócio, que alimenta o PIB com divisas, ao preço da devastação ambiental e do despovoamento do campo.

A dependência ao capital estrangeiro não é, pois, um acaso. A crise, como lembrava Darcy Ribeiro, é um projeto.

Em que implica uma economia voltada para fora? O comerciante, o latifundiário, o senhor de engenho no Nordeste e os traficantes de escravos e mercadorias, os mineradores de Minas Gerais e do Centro-oeste e os grandes estancieiros do Sul não careciam de um país rico para desenvolver seus negócios; não careciam de mercado interno para o consumo de seus produtos. Essa elite — ou essa classe dominante — estava, nestes termos, desvinculada dos destinos do país e de seu povo, os pobres e os não brancos, com os quais jamais se identificou.

Qual seria a classe dominante produzida por essa economia? Meia dúzia de latifundiários, uns poucos comerciantes exportadores/importadores, uma sociedade sem povo e uma classe dominante dependente dos negociantes do mercado internacional, que ditavam o que comprar, como comprar e a que preço comprar.

Preocupava-a, então, a movimentação da bolsa de mercadorias de Londres — como hoje se volta para os indicadores de Wall Street, as políticas do FED e os humores da Faria Lima. Economia voltada para fora não precisa cuidar da formação de mercado interno; daí sempre desinteressar-se pelo desenvolvimento nacional, fazer vistas grossas para a miséria e as desigualdades sociais.

Esse é o caráter da casa-grande que chega aos nossos dias descomprometida com o destino do país — ou seja, sem identidade a perseguir. Não havia no passado, e não há no presente, por que pensar ou cuidar de um projeto nacional. E não há ainda a consciência de povo, uma comunidade imaginária unificada por um coletivo de valores comuns. Há, sim, população: um coletivo disperso pela desigualdade social.

Ainda hoje, o país se move não para prover às necessidades de seu povo, mas para manter o enriquecimento da minoria dominante — seja o senhor de engenho do século XVI, sejam os rentistas do sistema financeiro — ontem como hoje, de costas para as necessidades nacionais e a serviço de interesses que não são os nossos.

Na Colônia e no Império era o mercado externo quem decidia o que deveríamos importar e o que deveríamos ou poderíamos produzir. Na contemporaneidade, os países da periferia do capitalismo — nosso caso — estão submetidos à lógica da economia globalizada. O Estado dependente cede o poder de regular sua própria economia.
Refletindo sobre a sociedade capitalista de nossos dias, Celso Furtado observa:
“As decisões sobre o que importar e o que produzir localmente, onde completar o processo produtivo, a que mercados internos e externos se dirigir, são tomadas no âmbito da empresa [transnacional], que tem sua própria balança de pagamentos externos e se financia onde melhor lhe convém.”

Para o autor de Formação econômica do Brasil, a subordinação do crescimento econômico à iniciativa das grandes empresas multinacionais, em países ainda em formação, como o Brasil, é a boa receita para a inviabilização de um projeto de país — e a boa explicação para os bolsões de miséria em que tentam viver milhões de brasileiros, acossados pelo desarranjo social, o crime organizado e a violência do Estado.

Não há, portanto, qualquer surpresa em que o Brasil, sendo uma das dez maiores potências econômicas do mundo, seja também uma das campeãs em desigualdade social. Em 2024, o índice de Gini medido pelo IBGE ficou em 0,506 (a escala de Gini varia de 0 a 1; quanto mais perto de 0, menos desigual é o país). Há razões de surpresa para a tragédia social?

A dependência política e econômica, a renúncia a um projeto próprio de soberania e desenvolvimento, foi — e é, ainda — a opção da classe dominante brasileira, desde os primeiros momentos de construção do país, engenho político-administrativo que antecedeu a Nação.

Furtado apresenta a disjuntiva: a) saber se temos um futuro como nação que conta na construção do devir humano, ou b) se prevalecerão as forças que se empenham em interromper nosso processo histórico de formação de um Estado-nação.
Até aqui, as forças do atraso é que têm prevalecido — e nada está a indicar sua próxima derrogação.

Nossa classe dominante é herdeira legítima do país-colônia: supostamente branca, refratária à miscigenação, reacionária, beneficiária do statu quo, de que dependem seus privilégios e o mando, que se expressa sobre todas as formas possíveis — a miséria, a segregação, a violência estatal —, que se abate preferentemente nas periferias das grandes cidades, onde os pobres mais pobres tentam sobreviver.

Por isso, a classe dominante não se confunde nem com os interesses do povo nem com os do país, e reage negativamente a qualquer sinal de reforma — principalmente daquelas que possam alterar o estatuto da propriedade, base do mando que é o mesmo da Colônia à República dos nossos dias, de um país que, em pleno terceiro milênio, ainda trata a reforma agrária como tabu.
Produtor de devastação ambiental, concentração fundiária e expulsão do camponês de seu habitat, além de pressão inflacionária e commodities que não enchem barriga de gente, o agronegócio é a grande vedete dos nossos dias. Anúncios veiculados insistentemente na maior rede de televisão do país enaltecem o modelo predatório: “Agro é pop, agro é tech, agro é tudo”. Por volta dos anos 1950, cerca de 80% da nossa pauta de exportações e do ingresso de dólares derivavam das vendas de café para o exterior; hoje, quando o Brasil parecia haver alcançado o estágio da industrialização, cerca de 60% dependem do agronegócio.

Nos anos 1940/1950, nossa atrasada classe dominante ainda discutia a díade agricultura–industrialização. Eugênio Gudin, ícone do pensamento conservador, certamente o mais influente economista brasileiro do século XX, delegado brasileiro à Conferência Monetária Internacional de Bretton Woods (1944), ministro da Fazenda de Café Filho (1954–1955), criticava a industrialização e defendia o que denominava “vocação agrícola” do país.

Não é de estranhar a destruição da indústria manufatureira, levada a cabo pelo neoliberalismo. A participação da indústria no PIB nacional, que já foi de 35,8% em 1984, caiu para os atuais 13%, quando essa participação chega a 43,1% na China, 30,4% na Coreia do Sul e, para citar um país da Europa desenvolvida, chega a 20,8% na Alemanha (dados da ONU para 2021).

O passado não é só herança; ajuda a explicar o presente, mas não o determina, pois a história é um processo vivo — uma construção humana. Já sabemos o que devemos evitar e sabemos o que devemos fazer.

E, nada obstante tantos fracassos, há registros de conquistas, como a resistência do processo democrático burguês, resistência tão mais significativa quanto mais ameaçador é o avanço, entre nós, do projeto da extrema-direita. O fato de havermos vencido a tentativa de golpe de Estado de janeiro de 2023 e sustentado até aqui um governo inspirado por princípios social-democratas, que serve de contenção ao avanço do fascismo, indica ganhos que devem ser festejados pelo povo brasileiro.
Mais uma chacina

 — Comandado há muito pelo reacionarismo mais tosco, sem política de segurança pública digna de qualquer consideração, o Rio de Janeiro amanheceu de luto na última terça-feira (28/10), após catastrófica operação policial nos complexos proletários do Alemão e da Penha, na capital, deixar mais de 130 mortos — muitos deles com claros sinais de execução, alguns degolados. E o massacre ainda está por ser apurado. É a maior chacina de uma história de chacinas recorrentes. Um Carandiru a céu aberto.

Mais uma chacina II

— Na velha imprensa, comentaristas aplaudem a operação como “bem-sucedida e necessária”, embora os mais empertigados disfarcem a euforia, ressalvando que a brutalidade policial (planejada, e sabidamente inútil como tática de repressão ao crime organizado) “talvez tenha sido excessiva”. Entre o desamparo e a atração pelo fascismo, parte da população — exatamente aquela mais exposta à violência — aplaude o morticínio e vê com bons olhos a conversão de policiais em bestas-feras, dispostos a agir com o máximo de letalidade e o mínimo de inteligência. E, dentre estes, boa parte não se percebe, ainda, como vítima potencial de uma política assassina.

Mais uma chacina III

 — O horror atiça o campo da direita, desorientado em face dos sinais — tímidos embora — de avanço social, e que, afora a violência, nada tem a oferecer ao país. Governadores esboçam uma frente neofascista, na esperança de levar uma população amedrontada às urnas em 2026. Há os que insuflam a retórica do “narcoterrorismo”, ansiosos por uma intervenção estrangeira no Brasil (o exemplo de Nayib Bukele, que transformou El Salvador num grande presídio privado internacional a céu aberto, os faz sonhar). É, sem dúvida, um momento desafiador para as forças progressistas, que precisam ofertar à sociedade uma política sensata de segurança pública — a PEC que tramita no Congresso pode ser um primeiro passo, bem como a ADPF das Favelas (mas, sempre, apenas um primeiro passo). Do luto e da indignação surge uma oportunidade para apresentarmos um outro projeto de país, um outro modelo civilizatório. Precisamos, antes de tudo, saber de que lado estamos — e repelir a barbárie.
O chefão ainda impune

 — O deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) foi preciso na denúncia: o bandido mais perigoso do estado do RJ está solto, dando entrevistas e despachando no Palácio Guanabara. Acumula uma extensa ficha corrida, repleta de crimes covardes e brutais, e com ela espera se cacifar para novos mandatos. A carnificina produzida nesta semana desperta na cidadania uma dúvida que reflete nossos tempos: a que facção criminosa o governador terá buscado beneficiar, ao atacar redutos do Comando Vermelho, impondo um revés pontual a essa organização? Dada a deletéria situação do comando político do estado, uma autópsia independente dos cadáveres recolhidos pelos moradores (abandonados pelo poder público) é uma exigência inegociável.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

sábado, 7 de outubro de 2023

CRIME ORGANIZADO E PRIVATIZAÇÕES NO RIO DE JANEIRO * Felipe Annunziata/A VERDADE

CRIME ORGANIZADO E PRIVATIZAÇÕES NO RIO DE JANEIRO
Felipe Annunziata/A VERDADE


Como as privatizações fortaleceram as milícias no Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro foi um dos estados mais afetados pelas políticas de privatizações das últimas décadas. A venda das estatais pode ter ajudado as milícias a se fortalecerem e expandirem no estado.

Nos últimos 30 anos, o povo brasileiro sofreu com a onda neoliberal de privatizações que entregou nossas riquezas naturais, parques industriais estratégicos e serviços essenciais para o capital financeiro. Aqui mesmo, no Jornal A Verdade, denunciamos cotidianamente os efeitos desta política na piora das condições de vida da população.

No entanto, um efeito pouco conhecido é como as privatizações influenciaram diretamente na consolidação e fortalecimento das milícias do Rio de Janeiro. Não foram, evidentemente, a venda das nossas estatais quem criou as milícias, mas a ausência delas na economia do estado foi determinante para o processo.

A “milicianização” da economia do Rio de Janeiro

Comunicação, distribuição de combustíveis e transportes são alguns dos principais setores privatizados nas últimas décadas no Rio de Janeiro. Todas elas feitas com o argumento de que estes serviços iriam melhorar a vida do povo.

A privatização do serviço de telefonia, pelo governo FHC nos anos 1990, se deu logo antes da expansão dos serviços de internet no Brasil. Uma das características desta privatização foi a criação de monopólios nos serviços de telefonia móvel e fixa controlados pelo capital estrangeiro.

No entanto, no Rio de Janeiro, os serviços de internet de banda larga em domicílio não conseguiram estabelecer estes mesmos monopólios na parte final da cadeia, isto é, na chegada da internet na casa das pessoas. Na capital e região metropolitana, cada bairro ou área conta com empresas de internet locais.

A distribuição pelos domicílios é na prática descentralizada, apesar do sinal de internet ainda ser controlado pelos grandes monopólios. Este cenário é tão complexo, que recentemente 2 bairros da Zona Norte ficaram sem internet por 15 dias pois havia uma guerra entre grupos rivais que levou à explosão da estação provedora de internet.

Estas empresas locais são em sua maioria controladas ou atuam com autorização da milícia ou do tráfico. A exceção das áreas nobres do Rio e de Niterói, todos os demais territórios têm o mercado de internet monopolizado por estas empresas.

O mesmo acontece com o setor de combustíveis. Com o avanço da privatização dos setores de óleo e gás, as prefeituras do Rio e o governo do estado paralisaram a expansão da rede de gás encanado, levando este mercado a ser ocupado pelas revendedoras de botijão de gás.

Em cada bairro, as revendedoras também são controladas pelos grupos criminosos ou atuam em acordo com eles para não sofrerem represálias. Segundo o sindicato patronal das revendedoras de gás, em 2022, 80% dos botijões vendidos no estado do Rio eram de empresas ligadas à milícia.

Nos transportes nem se fala. Já é bem conhecido o controle de grupos criminosos sobre os serviços de vans no RJ. O serviço de vans teve grande ampliação depois das privatizações do metrô e trens urbanos.

Este processo foi feito para paralisar a expansão da malha ferroviária do estado e garantir o controle das empresas privadas de ônibus do setor de transporte público. O que ocorreu na prática foi a união das empresas de ônibus com os grupos criminosos, que na prática dividem os territórios entre si para explorar este serviço.

Reestatização dos setores estratégicos pode reverter aumento da violência no RJ

Todos estes exemplos são provas da situação em que o estado do RJ está sendo jogado. Mesmo sendo mais comum associarmos o crime organizado ao tráfico de drogas, no estado do Rio ele avança agora sobre vários setores da economia, em aliança com a burguesia carioca.

Hoje, os chefes das milícias e do tráfico se organizam para explorar da melhor forma a força de trabalho do povo do Rio. Se aproveitam de uma política local favorável a seus interesses, dado que o estado passou por décadas de governos privatistas e reacionários.

O próprio capital que estas facções acumularam, com décadas de tráfico de drogas e armas, é hoje usado para expandir sua atuação em outros setores da economia capitalista. Tudo isso, apoiado pelas crescentes privatizações em diversos setores.

A reestatização de todos estes serviços, estabelecendo um monopólio estatal, irá destruir uma importante sustentação econômica desses grupos. Portanto, lutar contra as privatizações é também lutar contra a violência urbana no Rio de Janeiro.

MAIS MILÍCIAS NA ZONA OESTE DO RIO DE JNEIRO
https://jornaldobeijo.blogspot.com/2023/09/milicia-terrorista-jornal-do-bairro-rj.html
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sexta-feira, 24 de março de 2023

A MINA DE OURO DA MILÍCIA * Frente Revolucionária dos Trabalhadores/FRT

A MINA DE OURO DA MILÍCIA

Cerca de mil armas foram apreendidas em Nova Iguaçu, um recorde da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Imaginaram o desespero do clã Bolsonaro, com esse prejuízo gigante para as milícias da sua zona de influência na capital carioca?


PF realiza maior apreensão da história: “Destino das armas eram milícias e facções do Rio de Janeiro”

Foto: PF

Na última sexta-feira (17), a Polícia Federal divulgou imagens da apreensão de cerca de mil armas na Operação Desarmada 3, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e afirmou que a ação realizada na última quarta-feira (15) foi a maior apreensão de armas já realizada em toda a história da corporação.

A região da baixada fluminense onde as armas foram apreendidas vive com forte influência das facções criminosas, escritórios do crime e da milícia.

As armas ainda eram contabilizadas e catalogadas pela Polícia Federal nesta sexta, mas a PF afirmou que são cerca de mil. Entre elas, estão cinco fuzis, três metralhadoras Uzi, diversas carabinas, pistolas, revólver, entre outros, além de milhares de unidades de munição.

O objetivo era apreender o restante do armamento irregular pertencente ao grupo alvo da Operação Desarmada (1 e 2), deflagrada em 15 de fevereiro, no mesmo município, com apreensão de 80 armas.

O alvo são duas lojas que vendiam ilegalmente o arsenal, segundo a investigação.

Na ação desta quarta, policiais federais lotados na Delegacia de Repressão a Crimes Contra o Patrimônio e ao Tráfico de Armas cumpriram um mandado de busca e apreensão, deferido pela 1ª Vara Criminal da Comarca de Nova Iguaçu.
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domingo, 4 de dezembro de 2022

UMA NOVA ANISTIA OU ANISTIA À VISTA GROSSA? * Rafael Moro Martins - The Intercept

 UMA NOVA ANISTIA OU ANISTIA À VISTA GROSSA?

Rafael Moro Martins - The Intercept

Sábado, 3 de dezembro de 2022



Lula sinaliza a busca de uma conciliação com os militares, mas precisa colocá-los no devido lugar.

O tenente-brigadeiro do ar Carlos Almeida Baptista Júnior é um exemplo acabado de como a política se tornou uma atividade cotidiana dos militares brasileiros. Atual comandante da Aeronáutica, tida como a mais técnica e disciplinada das Forças Armadas, ele faz questão de se comportar em público como um militante bolsonarista radical.


O episódio mais grave ocorreu em julho de 2021. À época, a CPI da Covid apurava suspeitas de corrupção envolvendo o general da ativa Eduardo Pazuello e o coronel Élcio Franco, então ministro e secretário-executivo da Saúde. Incomodado, ele resolveu intimidar o presidente da comissão, o senador Omar Aziz, do PSD amazonense, em viva voz. "Homem armado não ameaça", disparou, em entrevista a O Globo. 


A entrevista, que num país sério deveria render a imediata demissão do comandante, foi concedida após o Ministério da Defesa – então sob o comando de Walter Braga Netto, general da reserva do Exército que em 2022 seria candidato a vice-presidente de Jair Bolsonaro – soltar uma nota que também buscava intimidar a CPI. Nela, dizia-se o seguinte: "As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro".


Após as eleições de outubro passado, Baptista Júnior passou a curtir postagens em que bolsonaristas pedem que ele participe de um golpe de estado. A última estripulia do brigadeiro foi marcar, para o próximo dia 23, a data de sua saída do comando da Aeronáutica. Imediatamente, os colegas de Exército e Marinha resolveram seguir o exemplo. Com isso, abriram uma crise que o governo Lula terá de contornar sem sequer ter assumido o poder: a nomeação dos novos comandantes terá de ser feita por Bolsonaro, que nesse caso precisaria conversar a respeito com quem irá sucedê-lo. E, claro, o presidente de extrema direita poderá decidir não nomear ninguém, deixando as Forças Armadas sem comando na passagem da faixa presidencial. 


É uma situação potencialmente explosiva, inclusive porque a decisão dos comandantes de saírem antes da posse deixa entendido que eles não desejam bater continência a Lula e Geraldo Alckmin, eleitos pelo voto direto de 60.341.333 brasileiros. É um mau exemplo que dificilmente deixará de produzir consequências ruins num ambiente tão profundamente hierarquizado como o militar.


Pois o brigadeiro Baptista Júnior se disse satisfeitíssimo, na quinta-feira, dia 1º, com a muito provável nomeação de José Múcio Monteiro para o comando do Ministério da Defesa no terceiro governo de Lula. “A possível escolha do ministro José Múcio foi muito bem recebida pelos integrantes do Alto Comando da Aeronáutica”, ele disse. "É uma pessoa inteligente e ponderada, com que tivemos ótimas relações em suas funções passadas”.


Em democracias maduras, oficiais militares não opinam sobre a escolha dos políticos civis que irão comandá-los, seja em eleições livres, seja na nomeação de ministros da Defesa. Na frágil e incompleta democracia brasileira, essa regra é quebrada com ajuda da imprensa, que não se constrange em colher os palpites de gente que – justamente por andar armada – não deve opinar sobre assuntos das forças desarmadas, para citar o termo do ministro Edson Fachin.


Como por aqui as regras são outras, sabemos que o alto oficialato das Forças Armadas – em todas, mas principalmente no Exército, majoritariamente bolsonarista – estão radiantes com a indicação de Múcio. Hoje com 74 anos, o pernambucano começou a carreira política na Arena, o partido de situação criado pelos militares para dar ares de democracia à ditadura implantada em 1964. Foi deputado federal por cinco mandatos, sempre por partidos de centro-direita, até ser chamado por Lula para ser ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, em 2007. Ficou no governo até 2009, quando o petista o nomeou ministro do Tribunal de Contas da União, o TCU – um cargo vitalício que está entre os mais cobiçados em Brasília.


Foi o perfil conciliador de Múcio o que seduziu Lula em 2007 e, novamente, agora. O ex-ministro do TCU também dialoga bem com oficiais das Forças Armadas, o que certamente é um ativo valioso nesse momento. Também é (a essa altura, provavelmente não mais) benquisto por Jair Bolsonaro, que já se disse "apaixonado" por Múcio e lhe franqueou o cargo que quisesse assumir em seu governo – o que nunca ocorreu.


Tudo parece indicar, portanto, que Múcio é o homem certo no lugar certo. Não é bem assim: na cada vez mais robusta comunidade acadêmica que estuda Forças Armadas e políticas de Defesa em universidades brasileiras, a decisão de enterrar o grupo de trabalho de transição que trataria do assunto caiu muito mal. “É a pior forma de se lidar com um tema que hoje é tão delicado”, me resumiu um desses pesquisadores, Juliano Cortinhas, em entrevista que publicamos ontem. 


É corrente, nos debates dessa comunidade, a necessidade de retirar as Forças Armadas da política de forma definitiva. É algo que, a rigor, a democracia brasileira nunca foi capaz de – ou sequer tentou – fazer. E o resultado disso são justamente os golpes e crises periódicas causadas pelos fardados. A mais recente, que ajudou a gerar a presidência de Jair Bolsonaro, começou com sucessivos atos de indisciplina e insubordinação não punidos, que se acumulam desde os tempos em que Lula ainda era presidente.  


Aí é que está o problema: se por um lado o bom trânsito de Múcio com Bolsonaro e os militares pode ajudar a costurar a sucessão nos comandos das Forças, ela também pode fazer com que os fardados – e o novo governo – sintam-se à vontade para varrer a sujeira novamente para debaixo do tapete. E não há como fazer isso: militares da ativa estão participando dos atos que pedem um golpe de estado. Caso, por exemplo, de um capitão que trabalha no gabinete de Bolsonaro. 


É imprescindível que eles sejam punidos pelos novos comandantes – militares da ativa são proibidos, por lei, de se manifestar politicamente. Ou se passará, novamente, o exemplo de que a indisciplina compensa – o que já ocorreu no caso de Eduardo Pazuello, absolvido após participar de uma motociata no Rio de Janeiro. 


É a falta de punição aos militares brasileiros que torturaram, mataram e ocultaram cadáveres que permite às Forças Armadas seguir chamando o golpe e a ditadura de "revolução". Da mesma forma, se aceitar que se coloquem panos quentes sobre as graves violações disciplinares cometidas por militares em suas aventuras políticas nos últimos anos, o futuro governo Lula permitirá que a sanha golpista siga viva e forte nos quartéis. Como afirmou o professor Cortinhas, as Forças Armadas precisam voltar a receber ordens dos civis. Ordens que as coloquem em seu papel constitucional. Mesmo que seus oficiais não gostem disso.


Rafael Moro Martins

Editor Contribuinte Sênior

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domingo, 20 de novembro de 2022

LADRÕES DE FLORESTAS * The Intercept Brasil

 LADRÕES DE FLORESTAS

Agrilagem na amzônia sempre foi um crime inafiançável. Mas o poder público também sempre fez vista grossa. E na gestão bozonaro ela foi uma política de governo.
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Colômbia.: OTAN na Amazônia: Petro está brincando com fogo?


Via *Resumo Latino-Americano *

em 18 de novembro de 2022. 


No início deste mês, Gustavo Petro, [Presidente da Colômbia] convidou militares dos EUA e da OTAN para a Amazônia sob o pretexto de que o maquinário poderia ser reaproveitado para “proteger” o meio ambiente.


 A OTAN expandiu-se recentemente para a Suécia e a Finlândia, incorporou-se de facto à Ucrânia e pode ser alargada à Geórgia. 

 

A entrada da OTAN na Amazônia está sendo preparada agora sob a égide do recém-eleito presidente da Colômbia, Gustavo Petro.


 A OTAN [nato] é um instrumento primário do domínio imperial dos EUA. É a Guarda Pretoriana de Washington projetada em escala mundial. No início deste mês, o presidente Petro convidou as forças militares dos EUA e da OTAN para a Amazônia sob o pretexto de que a máquina de guerra imperial poderia ser reaproveitada como “polícia” destinada a proteger o meio ambiente, em vez do velho ardil da guerra às drogas. 

 

Ele propôs o envio de helicópteros Black Hawk americanos para apagar incêndios. Antes do álibi ambiental, o pretexto para a militarização da selva era a interdição de entorpecentes. Petro descreveu sua “conversa com a OTAN” como “estranha”, mas foi rápido em acrescentar “aqui estamos nós”. Ele legitimou a ocupação militar norte-americana da Colômbia -   nove bases - como "mais uma unidade policial do que militar". 


Incrivelmente, ele afirmou que a continuação da ocupação foi uma “reversão completa do que a ajuda militar dos EUA sempre foi”. 


*NATO na Colômbia* 


A Colômbia tem sido o garoto-propaganda da Doutrina Monroe – uma afirmação da hegemonia dos EUA sobre o hemisfério que remonta a 1823 – e o principal estado cliente dos EUA nas Américas.


 Tanto Hillary Clinton quanto Joe Biden promoveram a nação sul-americana em suas campanhas presidenciais nos Estados Unidos como um modelo para o restante da América Latina.

 

 Em 2017, a Colômbia tornou-se um dos Parceiros Globais da OTAN e o primeiro da América Latina.

 

 Em fevereiro, a Colômbia realizou um provocativo exercício naval conjunto com a OTAN perto da Venezuela, que incluiu um submarino nuclear. 

 

Então, em 10 de março, a Colômbia tornou-se um “Aliado Não-OTAN Principal” dos EUA, dando à Colômbia acesso especial a programas militares. Biden explicou: “Este é um reconhecimento do relacionamento único e próximo entre nossos países”. 


De 26 de agosto a 11 de setembro, os militares dos Estados Unidos e da Colômbia realizaram exercícios conjuntos da OTAN. Nesse período, a General do Exército dos EUA, Laura Richardson, comandante do Comando Sul dos EUA, fez uma visita de cinco dias para se encontrar com o recém-eleito presidente. 


O general elogiou "nosso parceiro número um em termos de segurança na região", descrevendo a Colômbia como o *"eixo de todo o hemisfério sul".* 


O comandante do Comando Sul também se reuniu com a vice-presidente colombiana Francia Márquez para discutir a implementação da iniciativa hemisférica “Mulheres, Paz e Segurança”. 


Richardson concluiu que "o Hemisfério Ocidental é amplamente livre e seguro graças aos esforços de estabilização da Colômbia". 


Quando Petro assumiu o cargo pela primeira vez, ele se distanciou da posição EUA-OTAN na guerra por procuração dos EUA contra a Rússia na Ucrânia, defendendo uma paz negociada neutra em 21 de setembro.


 Duas semanas depois, ele mudou, aderindo à resolução liderada pelos Estados Unidos na Organização dos Estados Americanos que condenava veementemente a Rússia. 

 

A "invasão não provocada" da Rússia e exigindo unilateralmente a sua retirada. Greenwashing da OTAN na Amazônia 


A legitimação da intervenção militar estrangeira na Amazônia sob o pretexto do ambientalismo não é uma ideia nova. Pouco preocupado com as sutilezas da soberania nacional, Al Gore disse ao Senado dos Estados Unidos em 1989: “A Amazônia não é sua propriedade. Pertence a todos nós."


 Mais recentemente, em 2019 e em resposta aos incêndios na Amazônia brasileira, o presidente francês Emmanuel Macron instou imperiosamente as nações do G7 a intervir: “É uma crise internacional”. 

 

O secretário-geral da ONU, António Guterres, ecoou o sentimento de Macron, assim como os líderes políticos de outras ex-potências coloniais, como a Alemanha.


 O Quora perguntou retoricamente: "Por que a OTAN não invade o Brasil para salvar a Amazônia?" 

 

A Associação da OTAN do Canadá, por sua vez, argumentou que se tratava de uma “ação externa”: “Ameaças à segurança ambiental, como os incêndios na floresta amazônica, afetam o meio ambiente global e, portanto, exigem um sistema de segurança coletiva para lidar com elas” .


 A luta contra os incêndios florestais e outras catástrofes relacionadas com o clima foi incorporada no escopo cada vez maior da OTAN.

 

 Os militaristas não estão tão preocupados com o meio ambiente quanto com distúrbios que possam perturbar a ordem mundial existente. 

 

Como a OTAN é um acessório do império americano, essas novas tarefas ecológicas são mais bem compreendidas não como funções não militares, mas como a militarização do ambientalismo. 


Suas missões “despertadas” para o meio ambiente operam sob o disfarce do Programa Ciência para a Paz e Segurança da OTAN e até mesmo do Programa Ambiental da ONU, que coopera com a OTAN. 


Consequentemente, a Política Externa via favoravelmente a “militarização da Amazônia” por motivos ambientais. Um artigo posterior da FP sobre quem invadirá a Amazônia previu: *“É apenas uma questão de tempo até que as grandes potências tentem impedir as mudanças climáticas de qualquer maneira”. *


Colômbia: não é mais um representante automotivo dos EUA. Apesar de ter aberto a porta à entrada com os EUA e a OTAN na Amazônia, o presidente colombiano Petro tem em mente outras soluções não militares para a mudança climática.


 Em seu discurso perante a ONU, Petro alertou que "as guerras serviram de desculpa para não acabar com a crise climática". Enquanto nações produtoras de petróleo como EUA, Reino Unido e Noruega estão aumentando a extração, o Petro está indo na direção oposta. 

 

Sua proposta de imposto sobre o petróleo e o carvão para reduzir a produção e financiar projetos sociais, a proibição do fracking e, sobretudo, o desencadeamento politicamente provocativo dos subsídios aos combustíveis podem, no entanto, levar a uma maior desvalorização do peso e ao descontentamento da população. 


Petro pediu a uma recente delegação do Congresso dos Estados Unidos na Colômbia que interviesse junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para perdoar parte da dívida colombiana em troca de investimentos em economias descarbonizadas. Isso compensaria, explicou ele, a perturbação da economia mundial causada pelas medidas coercitivas unilaterais dos EUA (isto é, sanções). 


Petro elaborou em um discurso recente: "Os Estados Unidos estão arruinando praticamente todas as economias do mundo". Petro também solicitou que a delegação do Congresso dos EUA considerasse pagar a conta para a concessão de três milhões de acres de terra a camponeses como parte do esforço de reforma agrária de seu governo.


 A alternativa, sugeriu Petro habilmente, seria envolver ainda mais a rival geopolítica dos Estados Unidos, a China, em suas iniciativas de transição energética.

 

 A Bloomberg relata que a China já fechou vários acordos importantes de infraestrutura de energia renovável com a Colômbia. Como sinal da mudança na balança comercial, a Colômbia importou 14,8 bilhões de dólares da China, ante 14,1 bilhões de dólares dos Estados Unidos em 2021.

 

 O ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos havia se gabado em 2013 em referência ao papel regional da Colômbia como um estado cliente dos Estados Unidos: “Se alguém chamasse meu país de Israel da América Latina, eu ficaria muito orgulhoso. Admiro os israelenses e tomaria isso como um elogio." 

 

Uma mensagem decididamente nova é a do presidente Petro, que declarou publicamente que os Estados Unidos "não nos amam". Na verdade, Petro ganhou as manchetes internacionais criticando a política de combate às drogas dos EUA, observando que, embora a Colômbia possa ter sido historicamente o fornecedor de narcóticos ilícitos, os EUA têm a responsabilidade de ser o maior consumidor. 


Além disso, a Colômbia deixou de ser o substituto de Washington na desestabilização da Venezuela para se reconciliar com seu vizinho imediato e restabelecer relações diplomáticas amistosas.


 *A conturbada parceria da Petro com George Soros* 

 

A direita acusa Petro de ser protegido e financiado pelo bilionário George Soros, cuja Open Society Foundation atua na Colômbia há muito tempo.


 Petro é retratado por esses elementos "como uma manifestação daquela trajetória ideológica da qual George Soros costuma ser visto como o patriarca". 

 

Embora vilipendiado pela direita, o obsessivamente anticomunista “marionetista do imperialismo humanitário” não é amigo da esquerda.


 Embora Petro tenha tentado se distanciar de Soros em um tweet chamando-o de "capitalista especulador", o novo presidente se reuniu com o filho de Soros e vice-presidente da fundação logo após assumir a presidência para discutir joint ventures na Amazônia. 

 

*A difícil situação de Petro: um pequeno país à sombra da hegemonia americana.*


 Agora que a direita associada ao ex-presidente Álvaro Uribe foi desacreditada e derrotada eleitoralmente, o imperialismo estadunidense precisa de um novo rosto na Colômbia. 

 

As posições ambíguas de Petro são melhor compreendidas no contexto histórico. Pela primeira vez em dois séculos, supostos esquerdistas concorreram e viveram para assumir a presidência da Colômbia, um país que tem sido não apenas um estado cliente dos EUA, mas também seu principal procurador.


 Sua vitória é um passo essencial na longa luta para libertar seu conturbado país de sua antiga subjugação ao colosso do norte. Mas deve-se enfatizar que é ingênuo acreditar que Washington permitirá que tal mudança sísmica para a esquerda não seja contestada. 

 

Dado o domínio da Colômbia por seus militares apoiados pelos EUA, Petro estava preocupado não apenas em vencer a eleição, mas em sobreviver depois. 


Tanto Petro quanto sua companheira de chapa Márquez sobreviveram a tentativas de assassinato durante a campanha. Até a Voz da América alertou sobre o "espectro do assassinato".


 O novo presidente da Colômbia é um ex-guerrilheiro de esquerda, que se voltou politicamente para o centro. Mas em comparação com o governo de extrema-direita de Uribe e seus sucessores na Colômbia, a eleição de Petro e sua vice-presidenta Márquez, constitui uma mudança radical na direção progressista. 

 

O movimento regional de integração e independência desafia o desejo dos Estados Unidos de impor sua hegemonia nas Américas. A mudança do executivo colombiano avança ainda mais nesse movimento. Mas o Petro herdou grandes restrições institucionais e está sob enorme pressão. 


Paradoxalmente, as mesmas condições contra as quais Petro fez campanha e que o levaram à presidência agora se tornaram seus quebra-cabeças para resolver. Fortes ventos inflacionários açoitam a sociedade, gerados por economias globais com as quais pequenos países como a Colômbia devem se integrar, mas sobre as quais têm um controle mínimo. À medida que o custo de vida aumenta, o apoio popular de Petro em casa está diminuindo. A situação de Petro está sendo travada entre demanda popular por mudanças progressivas e o legado da dominação imperial dos EUA.


 A Colômbia terá que encontrar os meios para resistir à maior projeção do comando militar dos EUA na forma da OTAN.

 

 A Amazônia não precisa de incendiários para apagar seus incêndios.


 FONTE

 https://www.resumenlatinoamericano.org/2022/11/18/colombia-la-otan-en-el-amazonas-petro-juega-con-fuego/ 

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sexta-feira, 16 de setembro de 2022

PODER PARALELO RIO DE JANEIRO * Anna Virginia Balloussier / José Lucena / FSP

PODER PARALELO RIO DE JANEIRO
Anna Virginia Balloussier


Milícias crescem quase 400% em 16 anos e já ocupam 10% do Grande Rio
Estudo mapeia presença de grupos armados na região metropolitana; Comando Vermelho ainda controla territórios mais populosos
13.set.2022 à 0h05

As milícias chegaram com atraso à leva de grupos armados que agem como se fossem Estados paralelos no Rio de Janeiro, mas ganharam terreno rápido. As áreas sob seu domínio cresceram 387% num período de 16 anos, pulando de 52,6 km² para 256,3 km² na região metropolitana. É como se mandassem num espaço equivalente a 64 Copacabanas, o bairro cartão-postal dos cariocas.

Os milicianos, claro, não se concentram na turística zona sul, mas sobretudo na zona oeste da capital e na Baixada Fluminense. Hoje, 10% de toda a extensão do Grande Rio está sob controle desse poder ilegal, metade de todo o território submetido ao crime.

O levantamento é fruto de uma parceria do Instituto Fogo Cruzado com o Geni (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos), da UFF (Universidade Federal Fluminense). O apanhado histórico dos grupos armados foi feito a partir do cruzamento de quase 700 mil denúncias obtidas via Disque Denúncia, sobre milícia e tráfico de drogas, com um mapa construído especificamente para esse projeto, que retrata mais de 13 mil sub-bairros, conjuntos habitacionais e favelas em toda a região.

Policial conduz homem algemado para fora de viatura

Suspeito é preso durante operação contra milícia comandada por Zinho em 25 de agosto - José Lucena -
25.ago.2022/TheNews2/Agência O Globo

O ritmo da expansão miliciana superou o de qualquer concorrente de criminalidade. São três, a saber: CV (Comando Vermelho), TCP (Terceiro Comando Puro) e ADA (Amigos dos Amigos), facções associadas ao tráfico de drogas.

A fatia geográfica dominada pelo quarteto subiu 131% desde 2008 e hoje corresponde a 20% da região metropolitana. Divide-se assim: milícias detêm 50% desse naco, CV fica com 40%, TCP subjuga 9% e à ADA resta 1%.

O pioneiro dos quatro tem mais gente sob seu controle. São 2 milhões morando em áreas sob o jugo do CV, como a Rocinha e Complexo do Alemão, com favelas de alta densidade demográfica, e a quase onipresença nas populosas Niterói e São Gonçalo.

Sua hegemonia, porém, vem murchando, enquanto a competição paramilitar dilata. Entre 2012 e 2018, a facção comandava áreas maiores e mais populosas do que todos os outros grupos (TCP, ADA e milícias) somados.

Nesse "Game of Thrones" do poder paralelo, a presença miliciana afeta territórios ocupados por 1,7 milhão de habitantes. No começo da série histórica, eram 600 mil. O aumento, portanto, foi de 185%. O CV também espichou no mesmo intervalo, mas em velocidade menor: 42%.

O próprio estudo antevê problemas no recorte populacional, por usar dados do Censo de 2010, muito desatualizados. O novo levantamento do IBGE sofreu atrasos e está sendo feito só neste ano.

Também há chances de distorção ao considerar apenas quem reside nesses locais, já que o poder paralelo também tem impacto, por exemplo, na vida de trabalhadores. Acontece se eles se locomovem em transportes clandestinos, importante filão da milícia, ou param na farmácia perto do trabalho —segundo a Polícia Civil, milicianos já controlam mais de 1.200 drogarias no Rio.

O movimento paramilitar arrefeceu um pouco após a CPI das Milícias, realizada em 2008 na Assembleia Legislativa fluminense. A comissão pediu o indiciamento de 7 políticos e outras 259 pessoas. Os milicianos voltaram a se fortalecer nos últimos anos, beneficiados por um combo de más notícias para o estado, como explica a socióloga Maria Isabel Couto (Instituto Fogo Cruzado), coordenadora do estudo junto com Daniel Hirata (Geni/UFF).

Entre 2016 e 2018, o país acompanhou traficantes se engalfinharem em violentas batalhas por controle territorial, com reflexo no Rio. "Aqui, a disputa entre PCC e CV se materializou com o investimento da facção paulista em grupos rivais do Comando e foi potencializada porque a crise fiscal, econômica e de gestão que o estado enfrentou fragilizou a capacidade de respostas do poder público", afirma Couto. "Essas mesmas condições facilitaram o crescimento explosivo das milícias."

Os anos 1960 pariram esquadrões da morte que serviram de embriões às milícias como hoje as conhecemos. O mais famoso deles, a Scuderie Le Cocq, homenageia no nome um detetive morto pelo bandido Cara de Cavalo, depois executado ao arrepio do devido processo legal.

Grupos de extermínio estiveram por trás de várias chacinas ao longo desses anos, mas o modelo miliciano clássico se fortaleceria só nos anos 2000, com policiais e ex-policiais em seu esqueleto.

Milicianos não são menos tirânicos do que traficantes, mas "se vendem como fiadores de mercadorias valiosíssimas", aponta Bruno Paes Manso no livro "A República das Milícias" (Todavia). Eles prometem ordem e parceria com a polícia, o que diminui o risco de operações policiais e tiroteios nas comunidades.

"Você tem o envolvimento direto dos agentes de segurança pública, então é por dentro do Estado que a milícia cresce, com toda a proteção e a informação privilegiada", afirma o sociólogo José Cláudio Souza Alves, pesquisador do fenômeno.

No começo, havia uma aura justiceira associada à milícia, como se ela tivesse autorização para combater a qualquer custo traficantes que inundavam as comunidades com drogas. Hoje isso é balela. "Milicianos também têm relação com o tráfico, apesar do discurso de que impediriam bandidos de crescer", diz Alves.

"O discurso ‘legitimador’ das milícias faz parte do passado", segundo Couto, do Instituto Fogo Cruzado. "Agora, milícias e traficantes atuam em parceria e fizeram um ‘intercâmbio’. A milícia vende drogas e o tráfico cobra taxas de moradores. A milícia hoje é uma grande holding, já que tem em seu modelo a detenção de ‘participação acionária’ nas atividades do tráfico."

Milicianos já se uniram ao TCP para tomar espaços da ADA e também arrendaram áreas inteiras para traficantes explorarem economicamente uma região. "Como as milícias são compostas também por servidores da administração pública, elas têm acesso a informações que valem muito", diz a socióloga.

Têm também ascendência sobre boa parte de serviços e comércio. Controlam a venda do gás de cozinha, a segurança local, a cobrança de aluguel das casas, o acesso a consultas médicas, a circulação das vans, entre outras frentes de negócio clandestino.

A atuação é quase sempre imposta na base da força. Alguém que se recuse a pagar pela proteção oferecida por milicianos, por exemplo, pode ser coibido a mudar de ideia após sofrer atentados.

Suspeita-se que algo assim aconteceu no latrocínio de um advogado de 27 anos que saía de uma roda de samba no centro do Rio. A Polícia Civil prendeu em agosto um segurança acusado de encomendar o roubo por R$ 400 para o homem que acabou esfaqueando Victor Stephen Pereira.

"Ao ampliar seu domínio territorial, a milícia amplia também sua ‘cartela compulsória de clientes’", diz Couto. "Ela atua fortemente no setor de construção civil, grilando terras, drenando e roubando areia, construindo empreendimentos imobiliários."

A cada dois anos, esse batalhão de criminosos tenta intervir no processo eleitoral, muitas vezes com êxito. Uma das táticas é permitir que apenas candidatos chancelados pela milícia façam campanha nos territórios dominados. Em última instância, chegam a matar potenciais concorrentes.

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